A campanha de desinformação sobre a Síria, por Ruben Rosenthal

A Rede Síria de Direitos Humanos, constantemente citada pela mídia ocidental, faz parte da oposição ao presidente Bashar Hafez al Hassad, manipulando informações sobre o conflito.

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Combatentes das Forças Democráticas Sírias, apoiadas pelos EUA, filmam em rua controlada por militantes do ISIS, Raqqa , 2017    /     Foto Hussein Malla  / AP

O jornalista Max Blumenthal* publicou no The Grayzone, que a Rede Síria de Direitos Humanos se trata, na verdade, de uma organização não confiável no monitoramento do trágico conflito. O atual artigo é uma tradução e adaptação com base na matéria de Blumenthal, complementada com  alguns comentários, e informações adicionais. 

A Rede retrata a si mesma como um “monitor” neutro da guerra na Síria, mas uma investigação conduzida pelo The Grayzone, revelou que esta neutralidade se trata de uma completa ficção. Sediada no Catar, e financiada por governos estrangeiros, a organização se constitui em importante protagonista da oposição ao governo sírio. Em seu website, a Rede menciona que é financiada por Estados, mas sem especificá-los.

Governos estrangeiros e alguns bilionários investiram centenas de milhões de dólares na guerra de informação, no apoio a grupos civis ligados aos insurgentes, e na propaganda na mídia corporativa. Para Blumenthal, estes apoiadores devem ser provavelmente os mesmos que bancaram a insurgência islamita no país, que resultou na perda de milhares de vidas, e em uma gigantesca crise de refugiados.

Blumenthal salienta que, embora poucas sejam as dúvidas de que o governo sírio realmente possua e faça uso um aparato policial cruel, Hassad tem sido alvo de uma das mais caras e sofisticadas campanhas de desinformação na história recente. Importantes veículos de comunicação, além de governos, vêm divulgando, sem qualquer verificação, informações sobre a Síria provenientes de fontes questionáveis. A Rede se trata, provavelmente, da segunda fonte de referência mais citada pelo Departamento de Estado norte-americano.

Artigo da jornalista Anne Barnard, publicado em maio de 2019 no jornal The New York Times, relatou, com base em informações da Rede, que cerca de 128.000 pessoas “estão presumivelmente mortas ou ainda sob custódia nas prisões sírias”. O artigo detalhou “um sistema secreto de prisões arbitrárias e torturas em escala industrial”. Barnard  descreveu sua fonte de informações como “um grupo de monitoramento independente, que mantém o mais rigoroso registro dos casos”.

O artigo ganhou o endosso da ex-secretária de estado, Hillary Clinton, descrito em seu twitter,  como “uma notável peça jornalística”. O belicismo de Clinton, expresso nas intervenções militares com interesse geopolítico, mas com a fachada de pretexto humanitário, como no caso da Líbia, já foi objeto de artigo do Chacoalhando.

Anteriormente, em setembro de 2018, os jornalistas Murtaza Hussain   e Mariam Elba, do The Intercept,  também com base em dados fornecidos pela Rede, relataram que o número de desaparecidos no sistema prisional mantido pelo governo Hassad era de 82.000 pessoas, desde o início dos conflitos em 2011. O artigo acrescenta que o Centro de Documentação de Violações, outra entidade que monitora as baixas ocorridas no conflito na Síria, apresenta dados menos inflados, por fazer uso de critérios mais meticulosos.

Se fossem verídicas as informações publicadas no The Intercept e no The New York Times, ambas provenientes da mesma fonte, teria havido um surpreendente aumento de mais de 50% no número de casos, nos oito meses que separam os dois artigos. The Intercept cita a Rede como um “grupo de vigilância”, sem, no entanto, mencionar sua estreita relação com a oposição síria, e com países que apoiaram a insurgência islâmica. 

O britânico  The Guardian publicou artigo com base em matéria fornecida pela Reuters, em que Rede é citada como “uma organização que monitora as baixas humanas e informa várias agências da ONU”. No artigo foi relatada a morte de 544 civis em abril deste ano, na ação conjunta conduzida pelo Exército sírio e por bombardeios pela Rússia, em grande ofensiva contra regiões controladas pelos rebeldes nas províncias de Idlib e Hama. De acordo com Fadel Abdul Ghany, chairman do conselho  de diretores da Rede,  “foram deliberadamente atacados civis, e bombardeadas instalações médicas, em número recorde”. 

A diretora da Anistia Internacional no Reino Unido, Kate Allen, em artigo de opinião publicado em maio deste ano no  The Guardian,  expôs a hipocrisia de “direitos humanos” dos países do Ocidente, ao denunciar que os “bombardeios cirúrgicos” realizados em 2017 pela coalizão liderada pelos Estados Unidos, causaram a morte de 1.600 civis, apenas em Raqqa. As próprias forças norte-americanas se gabaram que mais artilharia foi despejada no centro de Raqqa, do que em qualquer outro conflito desde a guerra do Vietnam.  Kate Allen compara a devastação resultante, à ocorrida em Dresden na Segunda Guerra Mundial. 

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Centro de Raqqa após bombardeio      Foto Anistia Internacional / PAAllen

Mas, até mesmo a Anistia Internacional, ao denunciar as condições na prisão síria de Saydnaya, incluiu informações provenientes da Rede. O Relatório de 2017 da Anistia fez acusações de que Saydnaya era um “centro de execução em massa” onde “milhares eram enforcados após julgamentos sumários”. O relatório recebeu o título de “Matadouro Humano: enforcamentos em massa e extermínio na prisão de Saydnaya”.  Entretanto, em uma nota (de número 40), ao pé da página 17 do relatório, a Anistia mostra como foram feitos os “cálculos matemáticos hipotéticos”, em que a entidade se baseou para denunciar a execução sumária de 5.000 a 13.000 prisioneiros. Em seu artigo para o New York Times, Anne Barnard incluiu dados do relatório da Anistia Internacional.

Blumenthal considera que a Rede está longe de poder ser considerada como uma instituição neutra no conflito, atuando mais como um braço publicitário da oposição Síria operando a partir de Doha, Catar. O professor em Sociologia Política da Universidade de Sorbonne, Dr. Burhan Ghalioun, que faz parte do conselho de diretores da Rede, é também uma liderança importante do Conselho Nacional Sírio (SNC, sigla em inglês), espécie de governo no exílio, apoiado pelos países do Golfo Pérsico e pelos Estados Unidos.

Ghalioun procurou angariar apoio do Ocidente, para que ele e o conselho no exílio chegassem ao poder na Síria. Em troca, o novo governo romperia relações com a resistência Palestina e com o Irã. Na página da Rede na internet, não aparece qualquer menção de que Ghalioun faça parte da liderança do oposicionista SNC.

A Rede tem a reputação de manipular os números, por um lado, subdimencionando os crimes cometidos pelas milícias salafistas-jihadistas, includindo o ISIS e a afiliada local da Al-Qaeda, Jabhat al-Nusra. E, por outro, inflando o número de mortes causadas pelas forças do governo de Bashar al Hassad.

A estatística das mortes relatadas pela Rede contrastam fortemente as do Observatório Sírio de Direitos Humanos, que é também muito citado como fonte de dados sobre o conflito. Com sede em Coventry, Inglaterra, este grupo tem a liderança do oposicionista Rami Abdulrahman, e recebe fundos do Ministério do Exterior Britânico para monitorar as mortes na Síria.  Mas, ao contrário da Rede, o Observatório apresentou números equivalentes de mortes causados pelas ações dos dois lados que estão em confronto armado.

Segundo declaração de Joshua Landis, especialista da Universidade de  Oklahoma, “o Observatório seria mais confiável que a Rede”. Isto porque, apesar do Observatório estar também associado com a oposição síria, seus dirigentes são simpáticos à oposição Curda, tornando as posições do grupo mais equilibradas, em relação aos principais antagonistas no conflito. 

Blumenthal compara em seu artigo, os posicionamentos das duas organizações em relação a um mesmo acontecimento: em 27 de março, as forças sírias atacaram a província de Idlib,  base de um grupo afiliado a Al-Qaeda, apoiado pela Turquia. A Rede declarou que o governo sírio fez uso de um lançador de mísseis para disparar “gás venenoso” contra posições dos islamitas nos subúrbios de Latakia, e que o ataque causou dificuldades respiratórias.

O Observatório emitiu seu próprio relatório, relatando que o ataque com gás cloro fora realizado pelo Partido Islâmico do Turquestão, uma ramificação do grupo armado salafista-jihadista da etnia Uyghur, originária da região autônoma de Xinjiang, na China. O grupo é aliado da Al-Qaeda, a nível global. Cerca de 5.000 jihadistas chineses estariam lutando na Síria, segundo o site SOFREP, formado por jornalistas que foram todos veteranos de guerra norte americanos. A foto a seguir foi tomada por um ex-membro das forças especiais norte-americanas no Afeganistão.

jihadistas chineses

Os líderes dos Estados Unidos, França e a Grã-Bretanha optaram por aceitar as informações vindas da Rede, sem qualquer evidência concreta da veracidade das mesmas. E ameaçaram o regime sírio com uma “resposta decisiva, se armas químicas fossem usadas novamente”. 

Em 27 de maio de 2019, a Rede pediu em seu blogue, pela intervenção militar na Síria, com base em alegações de ataques com armas químicas em Lakatia, realizados poucos dias antes. O documento pedia pela imediata intervenção de uma coalizão internacional para proteger os civis, nos moldes da intervenção da OTAN no Kosovo. Abdul Ghani, o chairman da Rede, declarou em seu Facebook, também em 27 de maio, que a sociedade síria espera que os líderes do Ocidente cumpram as promessas feitas (de intervir diretamente no conflito). 

Coincidência ou não, esta ação da Rede se deu poucos dias após a revelação do “vazamento” de um documento, que expôs a ocorrência de  manipulação do relatório final da OPAQ, a Organização para o Controle de Armas Químicas, sobre uso de gás cloro na cidade de Douma, em abril de 2018, com a intenção de criar indícios de envolvimento criminoso do governo de Bashar al Assad. Naturalmente, a mídia corporativa tentou abafar a divulgação do “vazamento”.

Segundo uma comparação irônica de Blumenthal, citar a Rede Síria de Direitos Humanos como uma fonte independente e confiável, é o equivalente jornalístico de recorrer aos lobistas da indústria do tabaco para buscar informações relacionadas à conexão entre fumar e o câncer de pulmão. E, ainda assim, esta tem sido a prática da maioria dos jornalistas que cobrem o conflito na Síria. Já a ONU, desde 2014, optou por deixar de fornecer estatísticas das mortes no conflito sírio, pela dificuldade de conseguir números minimamente confiáveis.

Nota do Chacoalhando:  o atual artigo, de forma alguma procura justificar ou relativizar quaisquer atos desumanos, cometidos ou tolerados, pelo governo sírio. O que está em questão, é a desinformação promovida por grupos internos e externos, com o objetivo de tirar Hafez al Hassad do poder, mesmo ao custo das milhares de vidas que isto já trouxe e continuará a trazer. Os interesses geopolíticos são os mesmos que atuaram nas intervenções armadas na Iugoslávia, Líbia, Iraque (apenas para citar algumas), e que vem tentando intervir militarmente na Venezuela. Já no caso do Brasil, estes interesses foram alcançados, sem que fosse necessário o confronto generalizado.

*O premiado jornalista norte-americano, Max Blumenthal, foi o fundador, em 2015, do blogue The Grayzone, dedicado ao jornalismo investigativo.  

*Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacolhando.

 

 

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