Liberdade de Assange une esquerda radical e extrema-direita

Por Ruben Rosenthal

Resta ver se será duradoura a conversão da extrema-direita em defensora da liberdade de expressão e contra a vigilância massiva do Estado sobre os cidadãos. 

Manifestação pró-Assange em frente a Westminster Magistrates Court
Manifestação contra extradição de Assange em frente à Corte de Westminster, Londres. Junho 2020. Foto: Frank Augstein/AP

Cresce a pressão sobre a juíza britânica Vanessa Baraitser e sobre o presidente Donald Trump pela liberdade de Assange, em uma insólita convergência de polos opostos do espectro político. Mas as motivações podem ser bem diferentes. Alguns setores da extrema-direita estariam incentivando os relatos de que o encarceramento de Assange interessa ao Deep State*, que também se opõe a Trump. A intenção seria reforçar a narrativa de que houve fraude eleitoral nas eleições presidenciais para favorecer Joe Biden. Por outro lado, se Assange for levado a julgamento nos Estados Unidos ficará estabelecido um precedente que representa uma ameaça mortal ao jornalismo investigativo, algo que mobiliza a esquerda radical.

O editor do Wikileaks se encontra encarcerado na prisão de segurança máxima de Belmarsh na Inglaterra, onde aguarda pelo veredito da juíza Baraitser em 4 de janeiro, que poderá resultar em sua extradição para os Estados Unidos. A acusação é de violação da Lei de Espionagem norte-americana, por encorajar Chelsea Manning a vazar documentos sigilosos. 

O julgamento de extradição. As audiências iniciais do julgamento foram realizadas em fevereiro de 2020, retomadas em setembro e concluídas no início de outubro. Nas palavras de Edward Snowden: “O julgamento show de Assange mais parece algo de Kafka. A juíza permite que as acusações sejam trocadas com tal frequência, que a própria defesa não sabe quais elas são. As demandas básicas são negadas e ninguém pode escutar o que o réu diz – uma farsa”. 

As condições em que Assange vem sendo mantido em Belmarsh já foram denunciadas como de tortura psicológica. Se for condenado nos Estados Unidos por acusações de conspiração e espionagem, Assange estará sujeito a uma sentença máxima de 175 anos de encarceramento. 

escher sharper

O pesadelo Kafkiano do julgamento de Assange \ Arte gráfica: prisão de Belmarsh. Adaptado de Escher

Se a extradição for negada Assange ganhará a liberdade, pois não existem mais quaisquer outras acusações pendentes no Reino Unido ou na Suécia, onde falsas acusações de estupro haviam sido fabricadas contra ele. Mas o julgamento na Corte de Old Bailey se mostrou uma completa farsa jurídica, conforme os relatos no  blog de Craig Murray, ex-embaixador britânico e ativista de direitos humanos. Existe, portanto, o temor que a juíza Baraitser há muito já tenha se decidido pela extradição, no que parece ser um jogo de cartas marcadas que envergonha a justiça britânica. 

#FreeAssange. Conforme se aproxima o dia em que o veredito será proferido, prossegue a campanha contra a extradição. A organização Repórteres Sem Fronteiras, uma das muitas organizações que vêm coletando assinaturas em favor de Assange, teve seu site submetido a um ataque cibernético em 17 de setembro. Durante o ataque foram adicionados nomes falsos à petição, como forma de trazer descrédito para a organização. 

A campanha foi reforçada com a recente divulgação pelo Veritas Project de um áudio inédito de 75 minutos, em que Assange previne o Departamento de Estado norte-americano sobre vasto material confidencial que fora divulgado por um ex-funcionário do Wikileaks. Um pequeno trecho selecionado do áudio pode ser acessado aqui.

Na ocasião, o advogado do Departamento de Estado Cliff Johnson agradeceu a ligação, mas nada fez a respeito. Durante o julgamento de extradição a Acusação alegou que ao publicar telegramas secretos não-editados, Assange colocara vidas em risco. 

Mas a juíza Baraitser pode não ter autonomia suficiente para decidir a favor de Assange. Acredita-se que sua indicação para presidir a Corte tenha partido da magistrada Lady Emma Arbuthnot, cujo esposo tem fortes ligações com setores militares e de segurança hostis ao Wikileaks. Emma é a magistrada principal da Westminster Magistrates Court, onde proferiu sentenças que impediram que Assange deixasse o Reino Unido para se exilar no Equador.

Caso se concretize a extradição, restará a Assange unicamente o perdão presidencial por parte de Donald Trump.  Durante a eleição de 2016, Trump elogiara Assange pelos vazamentos do Wikileaks que revelaram as manobras de Hillary Clinton para ganhar a indicação como candidata presidencial pelo Partido Democrata. 

Perdão presidencial para Assange. Trump já teria oferecido anteriormente o perdão ao jornalista,  mas com a condição que Julian Assange dissesse que a Rússia não estivera  envolvida no vazamento de e-mails do comitê nacional do Partido Democrata. Esta declaração foi dada a magistrados da Corte Britânica por advogados de defesa de Assange, mas negada pela congressista Dana Rohrabacher, que supostamente teria feito a intermediação com Trump. 

A deputada Democrata pelo Havaí, Tulse Gabbard, fez campanha para que Trump conceda o perdão a Julian Assange no final de seu mandato, argumentando que o encarceramento do jornalista só agradaria ao Deep State.  Gabbard é considerada progressista. 

O jornalista James Risen, do The Intercept, alertou os defensores de direitos humanos para que não reforcem teorias conspiratórias envolvendo o Deep State quando fizerem campanha pelo perdão presidencial. Trump e seus seguidores propagam que o Deep State arquitetou um esquema de fraude eleitoral que levou à vitória de Biden. 

De fato, parte da extrema direita norte-americana que aderiu à campanha para Assange ser perdoado vem fazendo uso da argumentação que o Deep State tem interesse em encarcerar Assange. Nesta linha, o site de direita The American Conservative defende que Trump deva perdoar Assange para “mantê-lo fora das mãos do Deep State”. 

No entanto, segundo o site estas palavras constam do pedido formal de clemência que a própria noiva de Assange, Stella Morris, protocolou na Casa Branca. Morris repetiu tal declaração em entrevista ao âncora da Fox News, Tucker Carlson em 17 de dezembro, quando ela alertou ainda que caso Assange vá julgamento nos Estados Unidos “seria o fim da Primeira Emenda” da Constituição, que defende a liberdade de expressão e de imprensa. 

Na oportunidade, o  jornalista da conservadora Fox News também defendeu o editor do Wikileaks: “Pense o que quiser de Assange e do que ele fez, mas ele é efetivamente um jornalista….O Wikileaks expôs como os cidadãos do país estão sujeitos a vigilância em massa, e ninguém foi punido por estas violações (de direitos), apenas o cara que revelou tudo”. 

Sarah Palin, ex-governadora do Alasca e símbolo do movimento ultraconservador Tea Party também aderiu à campanha pelo perdão presidencial para Assange, ao publicar um vídeo no site de extrema-direita The Gateway Pundit. Palin, no entanto, não fez qualquer menção ao Deep State. Ao contrário, ela fez uma enfática defesa da liberdade de imprensa. 

Palin considera que “Julian fez a coisa certa….Ele merece o perdão. Ele merece que todos nós compreendamos melhor o que ele fez em nome do jornalismo verdadeiro….Deus o abençoe”. Anteriormente uma crítica severa de Assange, Palin passou a elogiá-lo quando o Wikileaks publicou os e-mails vazados de Democratas durante a campanha presidencial de 2016. 

O movimento em favor de Assange vem crescendo nos Estados Unidos. Nils Melzer, especialista do Conselho de Direitos Humanos da ONU, enviou em 22 de dezembro uma carta aberta a Trump pedindo que ele conceda o perdão presidencial ao jornalista. Melzer relata que esteve na prisão de Belmarsh acompanhado de dois médicos, quando pôde constatar as condições precárias de saúde em que Assange se encontrava. 

A campanha pró-Assange inclui assim um espectro político que vai da esquerda radical à extrema-direita. Resta ver se será duradoura a conversão da extrema-direita em defensora da liberdade de expressão e contra a vigilância massiva do Estado sobre os cidadãos. Segundo o New York Post, Trump está decidindo se concederá ou não o perdão a Assange. O presidente poderá deixar este legado positivo de seu mandato, repleto de controvérsias desabonadoras.  

No entanto, Trump já se decidiu pelo perdão a quatro ex-funcionários de uma  empresa de segurança contratada pelo governo norte-americano, responsáveis por um massacre de 17 civis no Iraque em 2007. A lista completa de todos os perdões concedidos por Trump durante seu governo, até o momento inclui  incendiários, traficantes de drogas, envolvidos em jogo ilegal, uma ampla variedade de fraudadores, além dos culpados por assassinatos já mencionados. 

É grande a campanha para que Trump também perdoe Edward Snowden, mas diversas outras pessoas estão detidas ou sendo processadas por envolvimento em vazamentos de informações sigilosas, sem que no entanto sejam lembradas pelos defensores de direitos humanos.

*Deep State é uma rede de poder paralelo nos Estados Unidos, operando por vezes à margem dos governos.

O autor é professor aposentado da UENF, e publica análises políticas no blogue Chacoalhando

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