Tretas dividem a “esquerda” norte-americana

Por Ruben Rosenthal

A esquerda fake não ataca as estruturas reais de poder por receio de sofrer represálias. Mas tomou para alvos de ataques os contestadores destas estruturas.

Cenk Uygur and Ana Kasparian accuse journalist Aaron Maté of being “paid by the Russians” and working for “disgusting dictators”, May 2021
Cenk Uygur e Ana Kasparian acusam o jornalista Aaron Maté de ser pago pelos russos e estar a serviço de ditadores \ Programa do TYT, 26 de maio, 2021

Uma série de contendas dentro do chamado campo progressista vem se proliferando nas mídias sociais dos Estados Unidos, envolvendo políticos, jornalistas e youtubers. Ao invés do debate ideias, recorre-se cada vez mais ao uso de táticas sujas.

Acusações de assédio sexual ou de conluio com países inimigos dos EUA são utilizadas, mesmo sem qualquer comprovação ou mínima existência de evidências.

Embora o campo assumidamente pró-corporações dentro do Partido Democrata (PD) possa estar se beneficiando do atrito entre os “progressistas”, as tretas estão servindo para melhor expor as verdadeiras posições políticas de ícones da esquerda.

Os movimentos de base precisarão avaliar em quem podem confiar no futuro. Existe o risco, no entanto, de fortalecimento do extremismo de direita, caso o PD não lide com o desamparo de grandes contingentes da população.

A esquerda no Partido Democrata. O ativismo de movimentos engajados na defesa de propostas progressistas possibilitou o avanço da esquerda no Partido Democrata. Em 2018, o comitê de ação política Justice Democrats (Democratas da Justiça) ajudou a eleger Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), Ayanna Pressley, Rashida Tlaib, Ilhan Omar, RO Khana, Raúl Grijalva e Pramila Jayapal.

AOC, Pressley, Omar e Tlaib constituíram o chamado Esquadrão Progressista, que foi acrescido por Jamaal Bowman e Cori Bush nas eleições de 2020. No entanto, uma vez consolidada a hegemonia política do PD no executivo e nas duas casas do legislativo, as ações dos parlamentares progressistas eleitos não vêm correspondendo às expectativas dos movimentos base.

O Esquadrão Progressista
O Esquadrão progressista. A partir da esquerda: Alexandria Ocasio-Cortez, Ayanna Presley, Ilhan Omar e Rachida Tlaib. Conferência de imprensa no Capitólio, julho 2019 \ Foto: Alex Wroblewski/Getty Images

Para os ativistas, chegara a hora do Esquadrão passar da retórica on-line nas mídias sociais, para avançar em causas como o Sistema Universal de Saúde (SUS), salário mínimo de 15 dólares/hora, tratamento humanitário para a questão dos imigrantes e política verde com enfoque social.

No entanto, começou a se evidenciar que alguns ícones da esquerda, tanto no Congresso como na mídia dita progressista, não estavam dispostos a questionar as lideranças do Partido. Aqueles que ousaram fazer questionamentos atraíram para si a ira dos defensores dos interesses pró-corporações.

Aí vieram as tretas, e algumas máscaras progressistas começaram a cair.

As tretas com a esquerda do Partido Democrata 

Em sintonia com os movimentos de base, o comediante e youtuber Jimmy Dore tem sido implacável nas críticas ao Esquadrão Progressista. “Se eles são nossos aliados deveriam estar lutando pelas propostas que dizem defender. Desde a posse em 3 de janeiro, eles são aliados do establishment, [dos financistas] de Wall Street, do complexo militar-industrial, e dos policiais”.

Mas defender a implantação do SUS norte-americano, o Medicare for All, exigiria bater de frente com o novo presidente e sua vice. Joe Biden e Pamela Harris haviam recebido vultosas doações de grandes corporações da área da saúde na campanha eleitoral.

Ainda em novembro de 2020, quando já se configurava a possibilidade do PD vir a dominar o cenário político, Jimmy Dore fez uma provocação bombástica.

Através da campanha #ForceTheVote (Force  a Votação), o comediante desafiou os parlamentares considerados progressistas a colocarem uma condição para apoiar o reencaminhamento da congressista democrata Nancy Pelosi à liderança da Câmara. Pelosi deveria levar à votação em plenário o projeto de lei do Medicare for All, de autoria da deputada Pramila Jayapal.

Mas, ao final, os progressistas nada fizeram para aproveitar a ocasião única que se colocara no início de 2021, “traindo a todos que acreditaram no Esquadrão”, declarou Jimmy. O youtuber tem sido bastante duro em suas críticas a congressistas e jornalistas que se autodenominam de esquerda, mas que não apoiaram colocar o projeto do SUS em votação.

Cai a máscara de Alexandria Ocasio-Cortez. A congressista já foi defensora do Medicare for All,  como mostra o vídeo de 2018 em que ela defende suas prioridades. Mas, após as eleições de 2020, AOC passou a considerar que o projeto de Pramila Jayapal “não teria a menor condição de ser aprovado na Câmara, e por este motivo não deveria ser posto em votação”. Assim, a congressista se posicionou contrariamente aos movimentos de base que a elegeram.

Cai a máscara de Pramila Jayapal. A congressista declarou que colocar em votação o seu próprio projeto de lei do Medicare for All iria “terminar o nosso movimento”. Para Jimmy Dore, “Pramila Jayapal mente, como uma política charlatã. Desta forma, ela consegue fundos e atrai votos daqueles que esperam que ela irá lutar pela aprovação do projeto que encaminhou”.

Cai a máscara de Bernie Sanders. Bernie Sanders é autor da proposta do SUS encaminhada ao Senado, em boa parte semelhante à da deputada Jayapal. Quando da escolha do candidato Democrata às eleições presidenciais de 2020, o Medicare for All foi uma das principais bandeiras de Sanders, a qual ele já defendera anteriormente, na eleição de 2016.

O jornalista da mídia liberal, Mehdi Hasan, questionou Sanders por que ele não fazia uso de sua influência política a favor da  expansão do sistema de saúde e do salário mínimo de 15 dólares/hora, propostas que foram tão defendidas pelos progressistas nas eleições de 2020. Pego de surpresa, Sanders procurou se esquivar o melhor que pode.

Jimmy comentou a entrevista em seu programa, classificando Sanders de mentiroso, e afirmando ainda que “o senador claramente se tornara um instrumento de Joe Biden e do establishment do Partido Democrata, fazendo o trabalho sujo por Biden”.

Chris Hedges, ganhador do Prêmio Pulitzer de jornalismo de 2002, já declarara em 2020 no Jimmy Dore Show que “Sanders não quer pagar o preço de ir contra Nancy Pelosi e Schumer (líder do PD no Senado), que controlam as verbas partidárias vindas das corporações e de Wall Street”. Os pontos relevantes da entrevista foram transcritos em artigo, no item On Voting: Not Biden or Bernie (Votação: Nem Biden Nem Bernie).

Chris Hedges on Jimmy Dore Show
Chris Hedges no Jimmy Dore Show, abril 2020

Deve ser frustrante para os admiradores de Sanders, que chegou a ser considerado como o maior ícone da esquerda no Congresso norte-americano, constatarem que, no ocaso de sua carreira política, o guerreiro perdeu a coragem de defender seus ideais.

As tretas entre jornalistas e youtubers

Os Jovens Turcos. O programa de notícias e comentários políticos no YouTube “The Young Turks” (TYT) tem mais de cinco milhões de inscritos. O perfil do programa é considerado anti-establishment e progressista/liberal. Cenk Uygur é um dos fundadores, sendo também apresentador; Ana Kasparian é produtora e também apresentadora do noticiário.

O nome escolhido para um programa que se considera progressista é no mínimo polêmico. “Os Jovens Turcos” foi um movimento revolucionário que se opôs ao regime absolutista no Império Otomano, mas que foi considerado responsável pela limpeza étnica e genocídio de centenas de milhares de armênios no começo do século 20. Uygur é natural de Istambul, Turquia, e na juventude era um negacionista do genocídio armênio; atualmente ele prefere não opinar mais sobre o assunto. 

A treta entre TYT e Aaron Maté. Jornalista premiado, o canadense Aaron Maté vem vem denunciando a farsa que fora montada por setores da OPAQ, a Organização para a Proibição de Armas Químicas – a mando dos EUA – para incriminar o governo Assad pelo uso de armas químicas na Síria (ver no blogue Chacoalhando). Maté foi inclusive convidado para testemunhar perante o Conselho de Segurança da ONU, em setembro de 2020.

Aaron Maté também contribuiu para expor a farsa do episódio que ficou conhecido como Russiagate. Quando das eleições presidenciais norte-americanas de 2016, a Rússia foi acusada de conluio com Donald Trump por veículos da mídia corporativa e mesmo independente.

A treta entre Maté e os jornalistas de Os Jovens Turcos ocorreu porque o canadense “tirou um sarro” de Cenk Uygur, por este ter afirmado no Twitter que o conflito entre Israel e os palestinos era essencialmente uma questão religiosa, ou da forma posta por Uygur, uma questão [de escolha] de “deuses no céu”.

Centenas ou milhares de críticas a Uygur ocorreram na ocasião, mas a dupla do TYT não perdoou o comentário jocoso do canadense em 25 de maio: “O meu Deus me diz que este é o pior tuíte de todos os tempos”. No dia seguinte, a dupla deu o troco, de forma vil.

Uygur e Ana disseram no programa do TYT de 26 de maio, que “Maté estava a serviço de ditadores desprezíveis”, uma provável alusão ao russo Vladimir Putin e ao presidente sírio Bashar al-Assad. A insinuação decorrera certamente devido às reportagens de Maté sobre os casos do Russiagate e da OPAQ, em que contrariou os interesses dos EUA e da OTAN. 

Ana se referiu a Maté como “aquele cara que nega que crianças sírias foram mortas com ataques químicos. Foda-se, Aaron Maté”, complementou ela de forma agressiva, fazendo um certo gesto com o dedo médio, como pode ser visto na foto que abriu este artigo.

A treta entre TYT e Jimmy Dore. Jimmy Dore chegou a trabalhar por cerca de 10 anos como comentarista convidado com Os Jovens Turcos, até se afastar completamente no começo de 2019, de forma bastante amigável. Nesta ocasião, Jimmy já estava bem estabelecido como youtuber, com seu próprio programa, o Jimmy Dore Show, atualmente com quase 900 mil inscritos.

O posicionamento de Jimmy a favor de se pressionar os congressistas progressistas do PD a defenderem o Medicare for All através da campanha #ForceTheVote gerou algumas arestas com os jornalistas do TYT. Em dezembro de 2020, Uygur chegou a defender que se colocasse pressão nos congressistas democratas para se conseguir aprovar o projeto do Medicare for AllMas poucos dias depois, Ana declarou que não acreditava na boa fé de Jimmy Dore. Para Jimmy, o TYT é uma fraude, pois recebe fundos do establishment e não pode se colocar contra as corporações.

Entretanto, ao se solidarizar com Aaron Maté, na sequência das acusações infames que o TYT fizera contra o canadense, Jimmy Dore atraiu ainda mais a ira de Uygur e Ana. Em entrevista ao canal The Hill, Uygur disparou a metralhadora giratória contra Jimmy, acusando-o de querer destruir o movimento progressista e de fazer o jogo da direita. Aaron Maté foi entrevistado no mesmo programa do The Hill, e comentou os ataques que recebera de Uygur e Ana.  

Em outro ataque vindo do TYT, Jimmy recebeu uma mensagem privada de Ana em que a jornalista fez referência a ter sofrido assédios sexuais da parte dele, quando ambos eram colegas de trabalho no TYT.

Jimmy percebeu vinha chumbo grosso pela frente e, se antecipando, revelou no Jimmy Dore Show, de 12 de julho sua versão do que se passara 7 anos antes. De fato, pouco tempo depois, Uygur e Ana dispararam acusações contra Jimmy no TYT.

Independentemente de quem esteja com a razão, não deixa de causar estranheza que Ana Kasparian tenha mantido um relacionamento aparentemente cordial com Jimmy por 7 anos, para então acusá-lo, logo após o comediante de solidarizar com Maté.

A treta entre TYT e Glenn Greenwald. Ganhador do prêmio Pulitzer de jornalismo de 2014, Glenn recebeu apoio do TYT quando foi acusado pelo governo Bolsonaro de pertencer a uma quadrilha, por ter divulgado mensagens obtidas por hackers, que expunham os delitos da Operação Lavajato.

Mesmo morando no Brasil, Glenn permanece um atento e arguto observador da política norte-americana. Conforme análise do jornalista em artigo de 7 de julho na plataforma Substack, o mais relevante nas polêmicas envolvendo o TYT é o fato de que elas revelam “o caráter tóxico de uma tática destrutiva que se tornou muito comum no discurso liberal, e que começou na campanha presidencial de 2016”.

Na ocasião, a narrativa de que os russos haviam se infiltrado nas instituições norte-americanas para influenciar a política do país foi encampada pelo Partido Democrata, e encontrou amplo eco na mídia corporativa. Durante a campanha presidencial de 2016, Hillary Clinton acusou a candidata dos Verdes, Jill Stein, de apoiar a Rússia. Clinton veio a fazer o mesmo com Tulsi Gabbard, na campanha de 2020.

Agora, também várias mídias ditas progressistas recorrem às mesmas “táticas de levantar insinuações ou acusações falsas de que alguém é um agente pago pelos russos ou que cometeu assédio sexual”, complementou Glenn, em uma clara alusão ao TYT. Em resposta, Uygur recorreu novamente a sua tática predileta, e insinuou que Glenn omite evidências de seu público, questionando o passado jornalístico do ganhador do prêmio Pulitzer.

A esquerda fake não ataca as estruturas reais de poder, por receio de sofrer represálias. Mas tomou para alvos de ataques os contestadores destas estruturas, como Jimmy Dore, Glenn Greenwald e Aaron Maté, dentre outros.

Futuro incerto. Em artigo no Chicago Reader de junho de 2021, o jornalista Leonard Goodman considera que “o colapso do Esquadrão mostra que a mudança não virá de dentro do Partido Democrata. Os dois partidos corporativos que controlam Washington, D.C., estão podres até a raiz. É uma missão tola pensar que podemos fazer os democratas lutarem pelos trabalhadores, enquanto os principais doadores do partido estão lhes ditando para manter o status quo. É hora dos progressistas se afastarem do Partido Democrata e apoiarem um terceiro partido que esteja livre de influência corporativa”.

Mas, por outro lado, o desalento de amplos setores da população com o Partido Democrata poderá alimentar o crescimento de uma direita protofascista, avalia Chris Hedges. Para o jornalista, “graças à inépcia de Trump, o país foi salvo de um golpe de estado, mas a administração Biden poderá abrir o caminho para um fascista competente, como Mike Pompeo (ex-secretário de estado) ou o (senador) Tom Cotton, ligados à direita cristã”.

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

2 comentários em “Tretas dividem a “esquerda” norte-americana

  1. Muito bom.

    Eu falo a torto e a direito com as pessoas que o identitarismo hoje é como o movimento hippie nos ano 70. O movimento hippie, os anos desbunde, lsd e heroína. apareceu quase que como por encanto, para deslocar críticas sociais e de mudança estrutural para a revolução íntima de cada um

    E agora o identitarismo, talvez a última tricheira do liberalismo fundamentalista acossado, tentando manter esse modelo que já dá claras mostras de implosão. abç

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    1. Agradeço pelo comentário, Vário. Quanto ao identitarismo, acho que não se pode deixar que a direita ultraliberal tome para si esta bandeira. Li algo sobre a CIA usar o identitarismo como arma.
      De alguma forma é preciso juntar as lutas identitárias e sociais.
      Vou começar a ler o seu livro, da Máquina….
      Abraço

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