Glenn Greenwald no Agenda Mundo: As tretas na esquerda dos Estados Unidos 

Glenn: Google e Facebook podem controlar o nosso discurso político? Eu não confio em qualquer instituição humana controlando o discurso político

entrevista Glenn PNG

No primeiro programa do Agenda Mundo, na TV GGN, o jornalista Glenn Greenwald foi entrevistado pelo apresentador, Ruben Rosenthal. Glenn ganhou o Prêmio Pulitzer de 2014, pelo papel que desempenhou na divulgação dos programas de vigilância secreta conduzidos pela NSA, a Agência de Segurança Nacional norte-americana.  Aqui no Brasil, ele foi peça-chave na divulgação dos documentos da Vazajato.

A seguir são apresentados de forma resumida os temas tratados na instigante entrevista, que pode ser assistida aqui, na íntegra, a partir das 20 horas do dia 2 de novembro.

O foco da conversa foi nas brigas que estão chacoalhando o chamado campo progressista norte-americano. Em tese, pode-se dizer que este campo corresponde à esquerda não marxista norte-americana. Na prática, as posições de esquerda de boa parte dos progressistas ocorrem só nas mídias sociais, mas suas atuações parecem favorecer mais as grandes corporações do que as causas populares.

– Agenda Mundo: Uma polêmica desgastante no campo progressista, que começou pouco após a vitória eleitoral dos democratas em 2020, foi a questão do projeto de lei visando introduzir o equivalente a um sistema único de saúde, o Medicare for All – Cuidados Médicos para Todos. Esta polêmica foi descrita em detalhes em artigos anteriores (aqui e aqui).

Entretanto, os autores do projeto do sistema único de saúde (o senador Bernie Sanders e a deputada Pramila Jayapal) não colocavam o projeto em votação. O recuo talvez fosse para não bater de frente com as lideranças do Partido Democrata (PD), que se elegeram com verbas das grandes corporações, inclusive do sistema privado de saúde.

Então o comediante e YouTuber Jimmy Dore propôs que os congressistas ditos progressistas só apoiassem o reencaminhamento da congressista Democrata Nancy Pelosi à liderança da Câmara, se ela levasse o projeto ao plenário, mesmo que a vitória não fosse garantida. Só que as principais vozes progressistas se recusaram, como foi o caso da deputada Alexandria Ocasio-Cortez, conhecida como AOC, que pertence ao chamado Esquadrão Progressista. Jimmy Dore acusou então os progressistas de traírem as causas que eles defendiam antes das eleições do ano passado.

Glenn, qual é a sua avaliação sobre o recuo dos progressistas, neste caso do Cuidados Médicos para Todos?

– Glenn: O contexto político é muito importante para entender o que está acontecendo nos democratas. Com o resultado das eleições de 2020, os progressistas passaram a ser o fiel da balança para dar maioria ao PD nas votações.

Para Jimmy Dore e alguns outros na esquerda, este poder deveria ser usado para receber algo em troca, de forma a conseguir aprovar projetos que atendam aspirações dos movimentos de base, como o sistema público de saúde. E, para tanto, o establishment do PD deveria ser tratado como um inimigo a ser desafiado.

No entanto, Bernie Sanders – que sempre teve simpatia por Joe Biden – e os membros do Esquadrão, optaram por considerar o PD como um aliado, e resolveram não pleitear nada em troca do apoio a Nancy Pelosi.

– Agenda Mundo: O Esquadrão Progressista consiste atualmente de 6 congressistas: Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), Ilhan Omar,  Rachida Tlaib, Ayanna Presley, Cori Bush e Jamaal Bowman.

O Jamaal escreveu no Twitter que o general Colin Powell, recém-falecido, foi uma inspiração para ele. O general esteve associado a vários episódios em sua carreira que podem ser caracterizados como crimes de guerra. A Ilhan Omar declarou que é fã da Margareth Tatcher,  que atacou os direitos trabalhistas, e fez cortes nos programas sociais no Reino Unido. E, além disso, cometeu crimes de guerra nas Malvinas e na Irlanda do Norte.

Glenn, você acha que essas declarações do Jamaal e da Ilham podem ser compatíveis com alguém que se diga progressista?

– Glenn: Muitas vezes as pessoas presumem que ser membro do Esquadrão significa estar bem à esquerda do espectro político, o que não corresponde à realidade.

Por questões eleitorais, Jamaal Bowman e AOC se posicionaram a favor de mais verbas norte-americanas para Israel aumentar sua proteção com o escudo antimísseis, ao passo que os outros quatro membros foram contrários, revelando uma divisão no grupo.

– Agenda Mundo: Glenn, vamos ver outras tretas no campo progressista.

Os jornalistas Cenk Uygur e Ana Kasparian apresentam no YouTube o programa Os Jovens Turcos (traduzido de The Young Turks), considerado liberal e progressista. Em um programa no mês de maio deste ano, Ana acusou o jornalista Aaron Maté de estar a serviço de ditadores desprezíveis, uma referência a Putin e Assad. Ana acusou Maté de negar que crianças sírias foram mortas com ataques químicos.

Aaron Maté é um jovem jornalista que contribuiu para expor a farsa que fora montada dentro da OPAQ, a Organização para Prevenção de Armas Químicas, para incriminar o governo Assad (ver artigo aqui). Maté também ajudou a expor outra farsa, que foi o caso que ficou conhecido   como Russiagate, em que Putin foi acusado de conluio com Donald Trump, para prejudicar Hillary Clinton nas eleições presidenciais de 2016.

Jimmy Dore se mostrou solidário com Aaron Maté.  E isto deu origem à outra treta, poucos dias depois. Ana Kasparian acusou Jimmy de ter cometido assédio sexual, quando eles trabalharam juntos, 10 anos antes.

Em seguida Os Jovens Turcos abriram chumbo grosso contra você, Glenn, por causa do artigo em que você comenta as táticas sujas que passaram a ser usadas para desqualificar adversários de políticos do establishment do PD. Você pode comentar sobre estas questões, Glenn?

– Glenn: O conflito parece muito pessoal, mas tem mais a ver com o debate sobre o relacionamento entre a esquerda e o Partido Democrata. Os Jovens Turcos querem ficar próximos ao PD, e recebem financiamentos de bilionários associados ao Partido. Então eles acusam os críticos do PD de serem agentes da Rússia, e para tanto, fazem uso de teorias da conspiração.

O que provocou o meu envolvimento direto foi que a Ana Kasparian já havia ameaçado o Jimmy de trazer a questão do assédio sexual, quando ele fez críticas pesadas aos Jovens Turcos. Uma acusação de assédio sexual não pode ser explorada como uma ferramenta contra o inimigo político.

– Agenda Mundo: O Cenk Uygur, que tem origem turca, escolheu para o seu programa dito progressista, o mesmo nome do grupo de jovens oficiais que assumiram o poder na Turquia através de um golpe, em 1913. E que são considerados responsáveis pelo genocídio de centenas de milhares de armênios. Você poderia comentar, Glenn?

– Glenn: É realmente bem estranho, mais do que uma coincidência, como eles alegam. É como se fosse criado um programa no Youtube com o nome de Juventude de Hitler, mas alegar que não tem nada a ver com nazismo.

– Agenda Mundo: Mudando um pouco o foco, o Facebook passou a considerar jornalistas como “figuras públicas involuntárias”, desta forma blindando eles contra críticas. Glenn, esta proteção se aplicaria apenas a quem trabalha na mídia tradicional?

– Glenn: Muitos jornalistas corporativos, como do The New York Times e de O Globo defendem que os jornalistas não possam ser criticados, para que não se perca a confiança na mídia. O Facebook foi muito pressionado pela grande mídia para adotar esta política. Para mim isso é uma loucura. É necessário que as grandes corporações de mídia possam ser criticadas, pois elas têm grande influência na nossa sociedade.

– Agenda Mundo: Aproveitando que estamos tratando do Facebook, você recebeu críticas por ter se colocado contra qualquer censura on line. Este tema se tornou especialmente sensível aqui no Brasil, após a declaração do Bolsonaro, associando vacina contra Covid-19 e AIDS. Que mecanismos você defende, em uma situação como essa?

– Glenn: Qualquer pessoa decente sabe que o vídeo que o Bolsonaro fez é uma maldade. Para mim, a questão é quem vai controlar o que podemos ou não falar. Quem vai definir o que falso, o que é discurso de ódio?

A pergunta crucial é em quais instituições você confia para decidir o que é verdade ou falso? Google e Facebook podem controlar o nosso discurso político? O governo do Bolsonaro? Eu não confio em qualquer instituição humana controlando o discurso político.

– Agenda Mundo: Concluindo então a nossa entrevista. Como você vê a possibilidade da extrema direita Republicana vencer as eleições de 2022 para o Congresso, e retomar a Casa Branca em 2024? Você vê Donald Trump passando o bastão para algum extremista mais competente que ele?

– Glenn: Os EUA têm muita estabilidade. São muitas facções poderosas, que sempre vão proteger o capitalismo, o militarismo e o corporativismo. Não acredito que Trump, ou qualquer outro candidato republicano possa derrubar o sistema democrático.

O risco não é zero, mas está sendo muito exagerado pelo Partido Democrata, porque eles não têm um programa para melhorar a vida das pessoas. Então eles estão usando a tática de infligir o medo de que Trump possa acabar com a democracia.

– Agenda Mundo: Glenn, a nossa audiência deve ter aproveitado bastante as suas análises. Agradecemos a sua presença, e esperamos recebê-lo novamente no programa.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

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