Cenários para a guerra na Ucrânia em 2023

Por Scott Ritter*

Tradução e comentários por Ruben Rosenthal, do artigo publicado em 11 de janeiro de 2023 no Consortium News.

Dado o histórico enganoso dos Acordos de Minsk, é improvável que a Rússia possa ser dissuadida através de diplomacia a abrir mão de sua ofensiva militar. Assim, 2023 parece estar se configurando como um ano de confrontação violenta constante.

Ukrainian artillery fires in the fiercely-contested Bakhmut region of eastern Ukraine on November 8, 2022. Bulent Kilic/AFP via Getty Images
Disparos da artilharia ucraniana pelo controle da região de Bakhmut, leste da Ucrânia, novembro 2022 \ Foto: Bulent Kilic/AFP via Getty Images

 Depois de quase um ano de ações dramáticas, onde os avanços iniciais dos russos foram recebidos com impressionantes contraofensivas ucranianas, as linhas de frente no conflito em curso se estabilizaram, com ambos os lados envolvidos em sangrentos combates por posições, em uma brutal disputa de desgaste, enquanto aguardam pela próxima grande iniciativa de algum dos lados.

À medida que o aniversário de um ano da invasão da Ucrânia pela Rússia se aproxima, o fato de a Ucrânia ter chegado tão longe no conflito representa uma vitória moral e, em menor grau, militar. Assim como a chefia do Estado-Maior Conjunto dos EUA e a direção da CIA, a maioria dos altos oficiais militares e de inteligência do Ocidente avaliou no início de 2022 que uma grande ofensiva militar russa contra a Ucrânia resultaria em uma rápida e decisiva vitória russa.

A resiliência e a fortaleza dos militares ucranianos surpreenderam a todos, mesmo aos russos, cujo plano de ação inicial, incluindo a alocação de forças para o empreendimento, se mostrou inadequado para alcançar os objetivos pretendidos. Entretanto, é enganadora a percepção de uma vitória ucraniana.

Morte da diplomacia

Conforme a poeira assenta no campo de batalha, emerge um padrão em relação à visão estratégica por trás da decisão da Rússia de invadir a Ucrânia. Enquanto a narrativa ocidental dominante continuava a retratar a ação russa como um ato precipitado de agressão não provocada, surgiram fatos que sugerem que pode ter mérito a alegação russa de autodefesa coletiva preventiva, conforme o Artigo 51 da Carta das Nações Unidas

As recentes admissões por parte dos líderes de líderes responsáveis pela adoção dos Acordos de Minsk de 2014 e 2015 (o ex-presidente ucraniano Petro Poroshenko, o ex-presidente francês François Hollande e a ex-chanceler alemã Angela Merkel) mostram que se tratava de uma farsa que os acordos de Minsk visassem promover a resolução pacífica do conflito entre o governo ucraniano e os separatistas pró-russos, deflagrado  no Donbass após 2014.

De acordo com esta “troika”, os Acordos de Minsk foram pouco mais do que um meio de se ganhar tempo para que a Ucrânia pudesse construir, com ajuda da OTAN, um poder militar capaz de subjugar o Donbass e expulsar a Rússia da Crimeia.

Conversações do Acordo de Minsk, novembro de 2015
Presidente russo Vladimir Putin, Presidente francês François Hollande, Chanceler alemã Angela Merkel, Presidente ucraniano Petro Poroshenko: conversações no formato da Normandia em Minsk, Bielorrússia, Fevereiro de 2015 \ Fonte: Kremlin

Por esta ótica, o estabelecimento pelos EUA e pela OTAN de uma instalação permanente de treinamento no oeste da Ucrânia – onde foram treinados pelos padrões da OTAN cerca de 30 mil soldados ucranianos entre 2015 e 2022, com o único propósito de confrontar a Rússia no leste da Ucrânia – assume uma perspectiva totalmente nova.

A duplicidade admitida por Ucrânia, França e Alemanha contrasta com a insistência da Rússia, antes de sua decisão de 24 de fevereiro de 2022 de invadir a Ucrânia, de que os Acordos de Minsk fossem implementados na íntegra.

Em 2008, o ex-embaixador dos EUA na Rússia e atual diretor da CIA, William Burns, alertou que qualquer tentativa de ingresso da Ucrânia na OTAN seria visto pela Rússia como uma ameaça à sua segurança nacional, e que a determinação em concretizar tal filiação provocaria uma intervenção militar russa. O memorando de Burns fornece o contexto em que se deram as iniciativas da Rússia, de 17 de dezembro de 2021, de criar uma nova estrutura de segurança europeia, que manteria a Ucrânia fora da OTAN.

Simplificando, a meta da diplomacia russa foi de evitar o conflito. O mesmo não se pode dizer da Ucrânia ou de seus parceiros ocidentais, que buscaram uma política de expansão da OTAN, associada à resolução das crises do Donbass e da Crimeia através de meios militares.

A reação do governo russo ao fracasso de seus militares em derrotar a Ucrânia nas fases iniciais do conflito, fornece uma importante entendimento sobre o modo de pensar da liderança russa, em relação às suas metas e objetivos.

Negada uma vitória decisiva, os russos pareciam dispostos a aceitar um resultado que limitava os ganhos territoriais russos ao Donbass e à Crimeia, e a um acordo para a Ucrânia não aderir à OTAN. De fato, a Rússia e a Ucrânia estiveram à beira de formalizar um acordo nesse sentido, nas negociações programadas para ocorrer em Istambul, no início de abril de 2022.

No entanto, esta negociação naufragou após a intervenção do então primeiro-ministro britânico Boris Johnson, que condicionou a continuidade da assistência militar à Ucrânia, à disposição de Kiev em buscar a resolver o conflito no campo de batalha, em oposição a uma solução negociada. A intervenção de Johnson foi motivada pela avaliação, por parte da OTAN, que os fracassos iniciais dos militares russos eram indicativos de fraqueza.

O objetivo da OTAN foi de usar o conflito russo-ucraniano como uma guerra por procuração destinada a enfraquecer a Rússia, para que esta nunca mais procurasse empreender uma aventura militar semelhante à da Ucrânia. Associada à malfadada guerra econômica, o objetivo também foi remover Putin do poder, como admitido pelo presidente Joe Biden em março de 2022.

Reviravolta no jogo não traz vitória ucraniana

Os objetivos da OTAN se refletem nas declarações públicas de seu secretário-geral, o general Jens Stoltenberg: “Se Putin vencer, isso não significará apenas uma grande derrota para os ucranianos, mas também derrota e perigo para todos nós”. E também do secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin: “Queremos ver a Rússia enfraquecida, ao ponto em que jamais poderá novamente fazer o tipo de coisas que fez ao invadir a Ucrânia”.

Esta política serviu de impulso para injetar mais de 100 bilhões de dólares em assistência, incluindo dezenas de bilhões em equipamentos militares avançados para a Ucrânia. A infusão massiva de ajuda foi um evento que mudou o jogo, permitindo que o exército ucraniano fosse reconstituído, treinado, equipado e organizado segundo os padrões da OTAN. A Ucrânia fez a transição de uma postura principalmente defensiva para outra em que foram lançados contra-ataques em larga escala, que conseguiram expulsar as forças russas de grandes áreas da Ucrânia. Não foi, no entanto, uma estratégia que ganharia o jogo – longe disso.

As impressionantes realizações militares dos ucranianos, facilitadas através da prestação de ajuda militar pela OTAN, tiveram um enorme custo em vidas e materiais. Embora o cálculo exato das baixas sofridas por ambos os lados seja difícil de determinar, há um reconhecimento generalizado, mesmo dentro do governo da Ucrânia, de que as perdas ucranianas foram pesadas.

Matemática Militar

Com as linhas de batalha atualmente estabilizadas, a questão de qual lado do conflito a guerra vai favorecer a partir de agora se resume à matemática militar básica. Em suma, uma relação causal entre duas equações básicas que giram em torno das taxas de queima (com que rapidez as perdas ocorrem) versus as taxas de reabastecimento (com que rapidez essas perdas são repostas). O cálculo traz um mau presságio para a Ucrânia.

Nem a OTAN nem os Estados Unidos parecem capazes de sustentar a quantidade do armamento já entregue à Ucrânia, e que permitiu que as contraofensivas contra os russos fossem bem-sucedidas.

Estes equipamentos foram em grande parte destruídos e, apesar da insistência da Ucrânia em obter mais tanques, veículos de combate blindados, artilharia e defesa aérea, e de que a nova ajuda militar seja provável, esta demorará a chegar e virá em quantidade insuficiente para ter um impacto decisivo no confronto bélico.

Da mesma forma, o número de vítimas sofrido pela Ucrânia, que às vezes chegou a mais de mil homens por dia, excede em muito a sua capacidade de mobilizar e treinar substitutos. A Rússia, por outro lado, está no processo de finalizar a mobilização de mais de 300 mil homens, que parecem estar equipados com os sistemas de armas mais avançados do arsenal russo.

Quando a totalidade dessas forças estiver no campo de batalha – em algum momento até o final de janeiro –  a Ucrânia não terá resposta. Esta dura realidade, quando combinada com a anexação pela Rússia de mais de 20% do território da Ucrânia e danos à infraestrutura que se aproximam de 1 trilhão de dólares, traz um mau presságio para o futuro da Ucrânia.

Há um velho ditado russo que diz: “Um russo põe a sela devagar, mas cavalga rápido”. Isso parece ser o que está acontecendo em relação ao conflito russo-ucraniano.

Tanto a Ucrânia quanto seus parceiros ocidentais estão lutando para manter um conflito que iniciaram quando rejeitaram um possível acordo de paz em abril de 2022. A Rússia conseguiu se reagrupar em grande parte – após um período na defensiva – e parece estar pronta para retomar as operações ofensivas em larga escala, para as quais nem a Ucrânia e nem seus parceiros ocidentais terão uma resposta adequada.

Além disso, dado o histórico enganoso dos Acordos de Minsk, é improvável que a Rússia possa ser dissuadida através da diplomacia a abrir mão de sua ofensiva militar. Assim, 2023 parece estar se configurando como um ano de confrontação violenta constante, que levará a uma vitória militar russa decisiva.

Como a Rússia alavancará tal vitória militar para obter um acordo político sustentável que resulte em paz e segurança regionais é outra história, ainda a ser vista.

Comentários do tradutor: Resta ver se a antecipação feita por Scott Ritter de uma decisiva vitória russa leva em conta a determinação dos países aliados da Ucrânia de que este cenário não se concretize.  Cedendo a pressões de Kiev e de seus aliados, a Alemanha anunciou em 25 de janeiro que enviará 14 tanques de guerra do tipo Leopard-2-A6, provenientes do arsenal da Bundeswehr, as Forças Armadas do país, para reforçar a Ucrânia na luta contra as tropas russas.  A  Alemanha também autorizou que parceiros europeus possam repassar seus tanques Leopard à Ucrânia, de forma a montar rapidamente dois batalhões com estes blindados. Por outro lado, os Estados Unidos vão enviar tanques Abrams M1 para a Ucrânia, embora possa levar meses até que a entrega seja feita.

Assim, os cenários para a guerra na Ucrânia em 2023 podem não estar ainda definidos. A única certeza é o aumento no número de mortes de civis e militares dos dois lados. Lembrando que os 300 mil russos que foram recrutados para o campo de batalha também são civis, que tiveram que deixar suas famílias para ajudar no esforço de guerra. Uma guerra sem fim entre OTAN e Rússia?

*Scott Ritter é ex-oficial de inteligência do Corpo de Marines dos EUA, tendo servido na antiga União Soviética, implementando tratados de controle de armas; no Golfo Pérsico, durante a Operação Tempestade no Deserto; e no Iraque, na supervisão do desmantelamento das armas de destruição em massa. O seu livro mais recente é Disarmament in the Time of Perestroika, pela Clarity Press.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, responsável pelo blogue Chacoalhando e pelo programa de entrevistas Agenda Mundo, no canal da TV GGN.

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