Judeus na Palestina: de Napoleão à Nakba

Por Ruben Rosenthal

Nas manifestações do Dia da Nakba, os palestinos brandem as chaves das casas que foram obrigados a deixar, e para as quais ainda têm a esperança de voltar um dia.  expulsão de palestinos

Palestinos expulsos de suas casas \ Foto: domínio público

A limpeza étnica de palestinos promovida pelos judeus começou efetivamente no início do século 20, com a implantação dos primeiros assentamentos judaicos em terras da Palestina; ocorreu de forma massiva em 1948; e prossegue desde então.

A geopolítica internacional continua a favorecer Israel. Até quando as potências Ocidentais continuarão a se omitir em relação à ocupação de terras palestinas e à violência desmedida contra a população? A aprovação da Lei dos Estado-Nação em 2018 reforçou as críticas, tanto internamente, como vindas de judeus da diáspora, de que Israel se tornou um regime de apartheid.

A matéria que se segue apresenta extratos do artigo “Uma breve história do conflito Israel-palestinos”, publicado pelo jornal britânico The Independent. Inclui também alguns trechos de matéria publicada pela BBC News. Os subtítulos e os textos entre parênteses foram acrescentados por este autor.

Um enclave europeu no Oriente Médio 

A ideia do estabelecimento de uma pátria judaica na Palestina remonta a 1799, vinda de Napoleão Bonaparte, após o comandante francês promover cerco a Acre (Akka, em árabe), como parte  de sua campanha contra o Império Otomano.

Napoleão acabou sendo derrotado nessa conquista, mas a tentativa de estabelecer uma fortaleza europeia no Oriente Médio foi revivida 41 anos depois pelos britânicos. O secretário de Relações Exteriores, Lord Palmerston, escreveu a seu embaixador em Istambul, instando-o a pressionar o sultão otomano para abrir a Palestina aos imigrantes judeus, como meio de conter a influência do governador egípcio Mohammed Ali. Naquela época, havia apenas cerca de 3.000 judeus vivendo na Palestina.

Alguns benfeitores ricos, como o aristocrata francês Barão Edmond de Rothschild, começaram a patrocinar a ida de judeus da Europa para a Palestina. Na ocasião, os maiores contingentes vieram da Europa Oriental. Foram estabelecidos assentamentos, o mais notável sendo Rishon Le Zion, fundado em 1882.

Surge o Sionismo

O escritor austríaco Nathan Birnbaum cunhou o termo “sionismo” em 1885. Uma década depois, o jornalista austro-húngaro Theodor Herzl publicou o livro “O Estado Judeu”, pregando o estabelecimento de uma entidade judaica.

Dois rabinos foram então enviados à Palestina pelo amigo de Herzl, Max Nordau, para investigar a viabilidade da ideia, mas relataram: “A noiva é linda, mas é casada com outro homem”.

No entanto, Birnbaum, Herzl e Nordau não ficaram demovidos de seus objetivos, e em 1897 organizaram o Primeiro Congresso Sionista, em Basel, Suíça. Na ocasião puderam discutir planos de fazer lobby junto às potências europeias, para a concretização do sonho de uma nação judaica independente.

Em 1907, a Grã-Bretanha estava considerando a necessidade de estabelecer um “estado-tampão” no Oriente Médio, para reforçar seu domínio.

Começa a limpeza étnica

O líder sionista britânico Chaim Weizmann chegaria a Jerusalém nessa época, para formar uma empresa voltada para a aquisição de terras perto de Jaffa. Em três anos, cerca de 10.000 acres de terra foram adquiridos na região de Marj Bin Amer, no norte da Palestina.

Cerca de 60.000 agricultores locais foram forçados a sair de suas terras para acomodar judeus que chegavam da Europa e do Iêmen. Foi estabelecida a milícia Hashomer para proteger o número crescente de assentamentos de judeus.

Fim do Império Otomano: Declaração Balfour e o futuro da Palestina  

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha, desconfiada dos maometanos, intensificou seu interesse em desenvolver uma presença aliada na Palestina, também como forma de fortalecer o domínio sobre o Canal de Suez.

Em janeiro de 1915, o político do Partido Liberal, Herbert Samuel, esboçou em segredo o memorando “O Futuro da Palestina”. Samuel defendeu a anexação da Palestina e a gradativa formação de um Estado Judeu autônomo, sob a proteção do Império Britânico.

No ano seguinte foram demarcadas as regiões que ficariam sob as esferas de influência britânica e francesa, no caso de um colapso do domínio otomano.

Em novembro de 1917, em carta do secretário de relações exteriores britânico, Arthur Balfour, ao líder da comunidade judaica britânica, Barão Walter Rothschild, foi declarado formalmente o  apoio ao estabelecimento de um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina.

Com a  Declaração Balfour, o governo britânico assumiu que era proprietário das terras e que tinha o direito de doá-las, algo bastante questionável. Em 11 de dezembro de 1917, o general Edmund Allenby capturou a cidade sagrada de Jerusalém.

Com o fim da Primeira Grande Guerra, o presidente dos EUA, Woodrow Wilson, encomendou um relatório sobre as regiões não turcas do derrotado Império Otomano. Naquela ocasião, quase 90 por cento dos não-judeus da população da Palestina se manifestaram “enfaticamente” contra o projeto sionista.

Os autores do relatório alertaram sobre a intensidade da rejeição, e argumentaram que a imigração judaica deveria ser limitada, no interesse da paz. No entanto, as conclusões foram suprimidas até 1922.

Na Conferência de Paz de Paris de 1919, o tenente-coronel britânico Thomas Edward Lawrence – mitificado como Lawrence da Arábia – mediou a assinatura de um acordo entre Weizmann, líder da delegação sionista, e seu homólogo árabe, Príncipe Faisal bin Hussein. Ficou acordado, em princípio, a fundação de uma pátria judaica na Palestina e de uma nação árabe independente no Oriente Médio. 

O Mandato Britânico na Palestina

Em 1922, a Liga das Nações (precursora da ONU) reconheceu o Mandato Britânico para governar a Palestina, sob a jurisdição de Herbert Samuel, como alto comissário. Foram promulgadas dezenas de iniciativas legais para estabelecer uma presença judaica, incluindo o reconhecimento do hebraico como língua oficial e a permissão de um exército judeu.

Conforme a década avançava, protestos em massa começaram a eclodir em oposição à imigração judaica. O movimento palestino tentava em vão contra-atacar e resistir ao que seus membros consideravam uma usurpação apoiada pelo poder militar e diplomático da Grã-Bretanha imperial.

Quase 250 judeus e árabes foram mortos em agosto de 1929 no Muro das Lamentações, em uma tragédia que ficou conhecida como Revolta de Buraq (ou os Massacres de 1929). Com a intenção de dissuadir as agitações, três muçulmanos foram condenados à morte por Sir John Chancellor, que sucedera a Herbert Samuel no alto comissariado.

Aumento da imigração judaica

Os protestos continuaram à medida que mais imigrantes judeus chegavam. O influxo acelerou de 4.000, em 1931 para 62.000, em 1935. Neste mesmo ano, o líder revolucionário muçulmano Sheikh Izz ad-Din al-Qassam foi morto a tiros por soldados britânicos nas colinas acima de Jenin.

Em 1936, eclodiu uma greve geral que, surpreendentemente, durou seis meses. Em represália, casas de muçulmanos foram demolidas.

A Segunda Guerra Mundial e o Holocausto

Em 1939 eclodiu a segunda guerra mundial, que opôs tropas aliadas e as do eixo – Alemanha, Itália e Japão. O Terceiro Reich foi depois considerado responsável pela execução de seis milhões de judeus em campos de concentração.

Em 1942, ano seguinte à entrada dos EUA no conflito, as relações americano-sionistas seriam cimentadas com uma conferência em Nova York.

Após as vitórias dos Aliados na Europa e no Pacífico em 1945, as potências mundiais voltaram sua atenção para o fim da violência na Palestina. hotel King David

Hotel King David após atentado terrorista do Irgun, Jerusalém, 1946 \ Foto: domínio público

O terrorismo judaico

Uma força paramilitar sionista armada, conhecida como Irgun (criada em 1931), estava atacando árabes (e britânicos, inclusive civis) na Palestina. O Irgun foi responsável pelo bombardeio do Hotel King David, em Jerusalém, em  julho de 1946, no qual morreram 91 pessoas de várias nacionalidades. No local funcionavam os escritórios centrais das autoridades britânicas.

(O atentado foi organizado por Menahen Begin, que viria a ser primeiro-ministro do Estado de Israel em 1977, como líder do Partido Likud. Trata-se do mesmo partido de Benjamin Netanyahu, atual primeiro-ministro.)

O Irgun esteve também envolvido, em abril de 1948, com o Massacre de Deir Yassin, com 107 mortes, realizado em colaboração com outra organização terrorista, conhecida como a Gangue Stern. No mesmo ano, Stern assassinaria o Conde Bernadotte, diplomata sueco enviado pelas Nações Unidas para mediar a disputa.

A criação do Estado de Israel e a Nakba

Uma proposta para o território em disputa  surgiu em 1947, quando a Assembleia Geral da ONU apresentou a Resolução 181, que propunha criar dois estados na Palestina, um abrigando judeus, e o outro, os palestinos árabes. Combate entre  A Legião Árabe e Haganah

Soldados da Legião Árabe atiram contra os combatentes judeus da Haganah, a força de autodefesa da Agência Judaica, março de 1948

A resolução foi adotada após uma votação, supostamente como resultado de pressão diplomática dos Estados Unidos. Entretanto, os palestinos rejeitaram a Proposta de Partilha votada na ONU. A argumentação foi de que, à época, os residentes judeus não possuíam mais do que 5,5 por cento das terras e, portanto, não tinham o direito de ocupar 56 por cento da Palestina. Irrompeu a guerra civil.

Com o fim do mandato britânico, a fundação do Estado de Israel foi declarada unilateralmente por David Ben-Gurion, em 14 de maio de 1948. O reconhecimento dos EUA e da então União Soviética foi imediato, mas instigou a eclosão de uma ampla guerra árabe-Israelense, vencida por Israel.

Quando a guerra terminou com o cessar fogo no ano seguinte, Israel havia expandido sua presença militar em partes do território previsto para constituir o Estado Palestino, pelo plano original da ONU. Jerusalém ficou dividida entre os israelenses e a Jordânia, que (durante os conflitos) ocupara as terras a oeste do Rio Jordão, que formaram a chamada Cisjordânia.

nakba
Nakba: direito de retorno, 2015 \ Arte: Ashraf Ghrayeb, Concurso Badil de Posters

Cerca de 700.000 civis palestinos precisaram fugir da região dos combates (com medo de serem massacrados ou foram expulsos de suas casas pelos judeus), buscando refúgio na Jordânia, Líbano, Síria, Cisjordânia e em Gaza. Muitas das vezes não conseguiram cidadania nestes países, onde permaneceram como refugiados.

O deslocamento do povo palestino (forçado a sair de suas vilas e cidades) ainda é lembrado todos os anos no “Dia da Nakba”, nome em árabe para “catástrofe”. Nas manifestações do Dia da Nakba, os palestinos brandem as chaves das casas que foram obrigados a deixar, e para as quais ainda têm a esperança de voltar um dia.

Notas adicionais: O artigo do The Independent menciona também os massacres ocorridos, após a Nakba: em 1956, nas vilas de Qalqilya, Kafr Qasim, Khan Yunis, e em 1966, em as-Samu. (Em relação a as-Samu, Israel foi censurado “por violar a Carta das Nações Unidas e o Acordo Geral de Armistício”, segundo a Resolução 228 do Conselho de Segurança da ONU.)

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacolhando.

Solidariedade na luta une Gaza, Cisjordânia, Jerusalém e diáspora palestina

Por Ruben Rosenthal 

Gideon Levy: Quando se trata de questões básicas como continuar a ocupação, o apartheid e acreditar na superioridade judaica, existe uma concordância generalizada na sociedade israelense. Rescuers and people gather in front of the debris of Al-Sharouk tower that collapsed after being hit by an Israeli air strike, in Gaza City

Destroços da torre Al-Sharouk em Gaza; o prédio abrigava a Al Jazeera e Associated Press \ Foto: Mahmud Hams/AFP

Diversas famílias palestinas podem ser despejadas de suas residências em Sheikh Jarrah, Jerusalém Oriental, se o parecer da Suprema Corte for a favor de colonos judeus de direita. Remoções de palestinos já vem ocorrendo há vários anos, como parte de uma política que visa manter uma população majoritária de judeus em algumas regiões, reforçando assim as acusações de prática de limpeza étnica e de apartheid. Choques entre a polícia israelense e palestinos contrários aos despejos ocorreram na vizinhança de Sheikh Jarrah, a partir de 8 de maio.

Em 10 de maio percorreram o mundo as cenas do confronto da força policial com manifestantes no complexo da mesquita de Al-Aqsa, e que deixaram cerca de 300 feridos. O grupo militante Hamas disparou foguetes contra Israel, minutos após terminar o ultimato para que as forças israelenses se retirassem do complexo da mesquita, bem como da vizinhança de Sheikh Jarrah.

Seguiram-se 11 dias de conflito, até que Israel finalmente aprovasse um cessar fogo em 20 de maio. O saldo em vítimas fatais foi de 230 em Gaza – sendo dezenas de crianças, e 12 em Israel. Entre os mortos incluem-se membros da estrutura organizacional do Hamas. A destruição material na Faixa de Gaza foi incomensurável.

É reproduzida a seguir a entrevista concedida em 12 de maio pelo jornalista, escritor e analista político Gideon Levy, judeu israelense, à jornalista e escritora americana libanesa, Rania Khalek. Na ocasião, a escalada dos conflitos entre Israel e palestinos se encontrava em seu terceiro dia.  As legendas do vídeo da entrevista foram editadas pelo blog, bem como introduzidos subtítulos para facilitar a leitura, respeitando-se integralmente as opiniões expressas pelo entrevistado e entrevistadora.

Netanyahu orquestrou a crise com Gaza?

KHALEK: O que explica esta escalada de conflitos agora? Resulta da política interna israelense e da dinâmica de tentar formar um governo estável? Netanyahu fomentou a escalada?

LEVY: Nada era mais esperado que a atual situação, mesmo que não neste momento.  Mas 53 anos de uma brutal ocupação militar e 15 anos de cerco a Gaza – que é a maior prisão (aberta) do mundo, são motivos suficientes para que explosões ocorram de tempos em tempos. Não considero que será a última vez.

KHALEK: Netanyahu está enfrentando acusações de corrupção, e não conseguiu formar uma coalizão de governo. Você vê (os conflitos) como parte de um jogo político? Havia uma agenda política por detrás, pelo menos na fase inicial?

LEVY: Vou dar o benefício da dúvida a Netanyahu, porque tivemos escaladas antes dele, e as teremos depois, antes de seu julgamento e após seu julgamento. Acho que é um tanto limitado acreditar que Netanyahu impõe seu jogo quando quer. Politicamente (os confrontos) servem aos interesses dele, mas não acho que tenha  realmente planejado tudo. Teriam ocorrido de qualquer forma, pois por quanto tempo se pode manter dois milhões e meio de pessoas em uma prisão?

Conflitos internos com palestinos israelenses

KHALEK: Conflitos diversos estão ocorrendo. Além de Gaza, está acontecendo uma escalada dentro de Israel, onde cidadãos palestinos de Israel estão protestando. Netanyahu decretou estado de emergência, e desviou a polícia da fronteira da Cisjordânia para ajudar a reprimir protestos.

Você considera que o que ocorre dentro de Israel é diferente, mas ao mesmo tempo está relacionado com o que está ocorrendo Gaza?  Você está surpreso com tais ocorrências em um lugar como Lod, por exemplo? Por que cidadãos palestinos de Israel estão se rebelando agora?

LEVY: Em primeiro lugar, já ocorreu (um levante) no ano 2000, e não constitui surpresa que ocorra novamente, mesmo que ninguém esperasse que fosse agora. É preciso entender que Israel está fazendo todo o possível para fragmentar o povo palestino, e está sendo bem sucedido.

Israel promoveu a divisão entre os palestinos da Cisjordânia e os palestinos de Gaza; desconectou totalmente os palestinos da Cisjordânia e de Gaza, dos palestinos em Israel, e obviamente dos palestinos da diáspora. Também entre os palestinos de Jerusalém e os de Ramallah existe um muro. Mesmo com esta divisão, os palestinos começam a tentar nos lembrar que ainda existe alguma solidariedade.

As pessoas em Israel não podem permanecer indiferentes quando a polícia fronteiriça penetra violenta e brutalmente na mesquita de Al-Aqsa, em um dos dias mais sagrados do mundo muçulmano.

Judeus israelenses e os direitos dos palestinos

KHALEK: Qual reação você espera dos judeus israelenses ao verem cidadãos palestinos de Israel protestando de uma forma sem precedentes?

LEVY: Espero que esta seja uma onda curta, mas que obviamente deixará algumas marcas e cicatrizes. Acho que em sua maioria os judeus israelenses estão com raiva, decepcionados e, como normalmente, se fazendo de vítimas, pretendendo não haver motivos para o que está ocorrendo.

A maioria dos judeus israelenses está vivendo em total negação com relação aos direitos da comunidade palestina. Quando se vive em negação e então algo assim acontece, você diz – oh , como pode ser? Quando se faz tantas coisas erradas, um dia chega a conta.

KHALEK: Há setores da comunidade de judeus israelenses que apoiam os palestinos, ou que estão chocados e se opõem ao que está ocorrendo? Ou você é uma espécie de lobo solitário neste cenário?

LEVY: Ambos. Eu sou um lobo solitário, mas ao mesmo tempo não posso dizer que seja o único. Ainda há muitos judeus israelenses e muitos jovens que estão realmente solidários com o povo palestino, e que estão dispostos a se juntar à luta.

No entanto, são mais de 6 milhões de judeus israelenses, e poucos destes estão realmente tratando os palestinos como seres humanos iguais, e acreditando que eles merecem os mesmos direitos nacionais neste pedaço de terra.

O declínio da esquerda israelense

KHALEK: O que ocorreu com a antiga esquerda israelense? Porque já houve antes uma vigorosa esquerda israelense, e agora o país parece realmente estar cada vez mais consumido por ideologias de direita.

LEVY: É um que processo que começou por volta do ano de 2000, quando o então primeiro-ministro Ehud Barak (do Partido Trabalhista) voltou de Camp David (nos EUA), declarando que não havia um parceiro palestino (para negociar). E então veio a segunda Intifada, que foi muito violenta, e muitas pessoas perderam a esperança e a crença na paz. Não havia portanto solidez nas propostas de paz de Camp David.

A direita israelense defende o apartheid e a ocupação

KHALEK: Você pode descrever as várias facções da direita israelense? Quais são as facções mais religiosas e as mais seculares? Elas dominam o governo?

LEVY: Antes de mais nada, você precisa entender que a maioria da opinião pública israelense é de direita. Há diferenças, mas quando se trata de questões básicas, como continuar a ocupação, o apartheid e acreditar na superioridade judaica, então existe uma concordância generalizada na sociedade israelense.

Algumas pessoas vão dizer que não se trata de apartheid ou de superioridade judaica, e convivem em paz com o que está acontecendo. Nem todos na direita são extremistas, havendo aqueles que acreditam na democracia formal. Mas há os que acreditam em menos democracia, aí se incluindo os ortodoxos judeus. Como há também os que fazem uso de crenças erradas sobre segurança e falsos perigos, além daqueles que são “apenas” racistas.

Na direita, alguns estão dispostos a recorrer à violência; há os que sonham com um Estado sem palestinos, e os acreditam que podemos conviver com eles, mesmo que nunca venham a obter seus direitos. Então, é uma mistura de crenças, mas com muitas coisas em comum entre elas.

Gaza: a capacidade do Hamas surpreendeu Israel?

KHALEK: A guerra em Gaza está aumentando e parece que não vai acabar tão cedo. Foi relatada (até a data da entrevista) a ocorrência de pelo menos 53 mortes de palestinos em Gaza, 14 das quais crianças; em Israel também houve mortes. Como você vê esta situação evoluindo? Você acredita que vai ser uma longa guerra?

LEVY: Acho que não, a menos que ocorra alguma catástrofe, como uma bomba que cause a morte de dezenas de pessoas. Creio que deva durar mais alguns dias, e só. E então, haverá algum tipo de acordo, que não vai resolver nada, obviamente, e em uns dois anos nos encontraremos novamente (em confrontações bélicas), ou talvez até antes.

KHALEK: A reação militar do Hamas é diferente de antes?

LEVY: Sim, é inquestionável. Eles estão de fato melhorando o tempo todo, e tenho a sensação de que desta vez sua capacidade bélica surpreendeu até o exército israelense.

KHALEK: Eles foram capazes de disparar foguetes com maior frequência e alcance, como uma chuva de fogo vista em Tel Aviv. Qual o impacto nos cálculos do governo israelense sobre até onde está disposto a ir?

LEVY: Eu não tenho certeza, porque a capacidade bélica de Israel é 1.000 vezes maior que a do Hamas, não há comparação. O foguete Qasam é uma das armas mais primitivas da Terra. Acho que Israel será mais cuidadoso, porque está mais vulnerável. Para os israelenses, ficar uns poucos dias em abrigos é algo com que não são capazes de lidar, enquanto os palestinos em Gaza estão acostumados a isso, há muitos anos.

KHALEK: Você acha que a chuva de foguetes vindos de Gaza influiu na decisão (das autoridades israelenses) de tentar impedir as provocações dos manifestantes (judeus) nos bairros palestinos de Jerusalém, na marcha (do feriado anual de 12 de maio) do Dia de Jerusalém?

LEVY: Sim, mas a decisão (de coibir a marcha) poderia ter sido tomada 24 horas antes, evitando  muitas ações violentas.

Uma guerra sem vencedores

KHALEK: Você acha que a decisão de Netanyahu e dos militares israelenses de escalar o conflito saiu pela culatra? Pessoas correndo para abrigos antibombas, pessoas feridas, aulas interrompidas. Os árabes ao redor do Oriente Médio estão comemorando. Eles nunca veem mísseis choverem sobre cidades israelenses, o que fez Israel parecer fraco.

LEVY: Em primeiro lugar, ninguém vai ganhar esta guerra, como ninguém ganhou as guerras anteriores. Cada lado vai reivindicar a vitória, mas será uma falsa vitória, porque não se pode ganhar tal guerra. Os israelenses estão já por dois dias sob ataque, mas com poucas baixas. Vai durar apenas alguns dias, e será esquecida. Os palestinos estão pagando um preço muito mais pesado. É ridículo para ambos os lados se falar em vitória.

KHALEK: Como a mídia israelense justifica a visão da destruição de prédios de apartamentos? Não há questionamento sobre as crianças palestinas vitimadas?

LEVY: Muito pouco questionamento, e com certeza não na grande mídia. A maioria dos israelenses pode não estar feliz (com as mortes de crianças), mas certamente está muito orgulhosa (em ver os efeitos dos bombardeios). Eles querem se vingar; o ódio e a raiva são muito profundos, e há alguma sede de sangue em Israel para ver mais baixas do outro lado, não se pode negar.

Palestinos e judeus: uma convivência impossível?

KHALEK: você acompanhou as guerras que ocorreram nas últimas duas décadas. O desejo de vingança aumentou com o tempo? O que explica isto?

LEVY: Desespero, e nenhuma esperança de uma solução, nenhuma esperança para qualquer tipo de convivência. Aí você começa a ficar com raiva do outro lado, e colocar a culpa no outro lado.

Os israelenses dificilmente assumem qualquer culpa; eles sempre culpam apenas o outro. Você nunca vai ouvir em Israel – ok, nós tivemos também a nossa responsabilidade. Para não falar sobre o fato de que não se pode sequer comparar – não há simetria – os crimes e responsabilidades de Israel e dos palestinos.

O papel dos Estados Unidos

KHALEK: O governo dos EUA poderia fazer mais para impedir o que está ocorrendo, se quisesse. Tenho certeza que há coisas acontecendo nos bastidores, mas eles não parecem estar dizendo aos israelenses para desescalar.  Figuras políticas da esfera progressista, como Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez, dentre outras, apoiam abertamente a campanha a favor do BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) dentro do Congresso, e todos elas têm usado palavras muito duras sobre o que Israel está fazendo. Este tipo de retórica tem algum impacto na tomada de decisões pelos israelenses?

LEVY: Muito menos do que parece. Em primeiro lugar, Israel encontrou um novo apoiador nos EUA, os evangélicos. Eles são dezenas de milhões, bastante poderosos e ricos. Em segundo lugar, Israel aprendeu ao longo dos anos que condenações, ameaças e palavras nada significam se não forem seguidas por ações reais.

Os Estados Unidos poderiam dar um fim à ocupação em meses, mas por que fariam isto? Não sei se serviria aos interesses norte-americanos, já que tudo se trata de interesses. Se alguém como Barack Obama, cujo coração estava no lugar certo, nada fez para deter Israel, então o que esperar de outro governante?

KHALEK: Não sei se você teve a chance de assistir o vídeo com o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, quando ele foi perguntado no briefing diário se iria condenar a morte de crianças palestinas. E ele não condenou. Os repórteres perguntaram ainda se os palestinos têm o direito à autodefesa, e ele se esquivou também. Por que você acha que os EUA evitam tanto ofender os israelenses?

LEVY: Não tenho certeza se alguém pode explicar completamente. E esta é uma das administrações mais hostis em relação a Israel.  Há obviamente o poder do lobby judaico, que ninguém pode negar; ele é realmente poderoso, mesmo que nem tanto hoje como já foi anteriormente.

Há também os interesses norte-americanos, aos quais Israel está servindo em muitos aspectos.  Israel e os Estados Unidos falam sobre valores compartilhados, os quais temo sejam a favor do colonialismo e imperialismo.

Os Estados Unidos estão pagando um preço pelo apoio cego a Israel, em termos de sua imagem, de suas relações com o terceiro mundo e com o mundo muçulmano. Mas nenhum dirigente teve a coragem de realmente fazer uma mudança, pelo menos condicionando o apoio a algumas exigências. Atualmente Israel pode fazer o que quiser, sabendo que o cheque chegará até o final do mês.

KHALEK: Você considera que se os EUA tivessem menos envolvimento na região seria melhor para Israel e Palestina, bem como para o resto da região?

LEVY. Correto. Creio que se os Estados Unidos apoiassem menos a Israel, estaríamos diante de uma realidade mais uniforme, com um Israel menos arrogante. Então as coisas poderiam ser muito melhores.

O mundo árabe

KHALEK: Os EUA continuam a financiar uma terrível guerra promovida pelos sauditas contra o Iêmen. A Arábia Saudita é provavelmente um país muito pior que Israel em muitos aspectos: esquartejou um jornalista poucos anos atrás. Os EUA não responderam com qualquer ação real, além de apenas crítica retórica. A Arábia Saudita desempenha uma espécie de papel semelhante a Israel, compartilhando os valores dos EUA e do imperialismo, impulsionando-os na região.

Ocorreram (recentemente) acordos de normalização entre Israel e os Emirados Árabes Unidos e Bahrein. Ficou mais fácil para Israel bombardear Gaza, tendo relações normalizadas com alguns dos Estados do Golfo, ou não importa tanto?

LEVY: Deveria ter dificultado, porque se esperaria que estes países prestassem algum tipo de solidariedade aos palestinos. Até o momento não ouvi deles sequer uma condenação. É um jogo muito corrompido, sem comprometimento efetivo com os palestinos, seja por parte do Ocidente, dos Estados Unidos ou do mundo árabe.

O Hezbollah

KHALEK: Israelenses e Hezbollah estão em um impasse nos últimos dois anos, com ações retaliatórias olho-por-olho, geralmente na Síria.  Mas existe sempre o risco potencial de uma escalada. Eu vivo no Líbano a maior parte do ano, e cotidianamente Israel aparece no noticiário: violação do espaço aéreo libanês com drones, ou se os israelenses irão  bombardear a Síria.

A minha pergunta é como se dá a discussão sobre o Hezbollah na sociedade israelense? Você prevê algum tipo de conflito em um futuro próximo?

LEVY: Há um certo medo do Hezbollah, e mesmo agora as pessoas estão discutindo isto, comparando com o poder potencial do Hamas. O Hamas conta com cerca de 20.000 guerreiros, que se encontram sitiados, sem fazer parte de um Estado. Mas atente para sua capacidade (bélica).

Agora, imagine o Hezbollah, que não está sob qualquer cerco, que tem um Estado apoiado pelo Irã,  e contando com reconhecida capacidade (militar).  Ele pode ser extremamente perigoso para Israel, e as pessoas têm muito medo.

Devo dizer que não tenho certeza se Israel irá ousar esticar muito a corda com eles. Mas é tudo imprevisível. Acredito que um dia teremos que enfrentar também esta frente. Israel já enfrentou antes e terá que fazê-lo novamente, porque todas as armas que o Hezbollah armazenou serão utilizadas um dia.

KHALEK: Não se trata apenas de armas, mas também de treinamento. O Hezbollah operava na Síria ao lado dos russos. Imagino que a capacidade de fazer operações ofensivas em uma guerra de estilo mais convencional tenha concedido ao Hezbollah um enorme poder de dissuasão, comparativamente ao que tinham antes com apenas foguetes e guerrilha. Espero que não vejamos uma guerra com Israel, o que seria extremamente devastador para ambos os lados.

O acordo nuclear EUA-Irã

KHALEK: Também estou curiosa sobre o que é falado agora em Israel sobre o Irã. Com a nova administração Biden querendo reimplementar um acordo nuclear com o Irã, qual a repercussão na mídia israelense e na retórica oficial do governo israelense?

LEVY: O governo está fazendo todo o possível para sabotar os esforços diplomáticos e a possibilidade de sair um novo acordo. Mas acho que  isto ficou bem claro para a atual administração dos EUA, que está ordenando a Israel que pare com a sabotagem. Tenho certeza que haverá um acordo. Em Israel, o governo está gostando.

Assim como eu, outras pessoas também acham que a única forma de garantir nossa segurança é através de acordos, mesmo com o Hamas, mesmo com o Hezbollah, e mesmo com o Irã. Todas as outras formas serão temporárias e frágeis, e nunca garantirão uma segurança real.

Guerra civil em Lod?

KHALEK: Eu gostaria de retornar a alguns dos desenvolvimentos da última semana – os protestos de solidariedade ocorridos em 48 áreas palestinas. Não sei se é exagero, mas o prefeito de Lod teria dito que o que está ocorrendo lá é uma guerra civil. Ele disse que árabes e judeus estão atirando uns nos outros. As pessoas não têm prestado atenção, porque grande parte das histórias e manchetes têm sido sobre Gaza.

Você pode me corrigir se eu estiver errada. Lod é uma cidade mista, onde vivem judeus e árabes.   Na segunda-feira (10 de maio), durante protestos de solidariedade  com os palestinos de Jerusalém, um atirador judeu acertou um palestino.

No funeral deste palestino ocorreram mais protestos, e agora os dois lados, que realmente vivem juntos em uma comunidade,  estão colocando fogo na propriedade do outro, agredindo um ao outro. Você pode explicar o que está acontecendo lá? Há o risco de escalar?

A man passes by cars torched after a night of violence between palestinians and israelis in Arab-Jewish town of Lod, central Israel, May 11, 2021.
Carros incendiados após uma noite de violência na cidade de Lod, Israel, 11 de maio \ Foto: Heidi Levine/AP

LEVY: Muitos israelenses estão mais preocupados agora com esta situação do que com Gaza, e talvez com razão. Por ser uma história doméstica, ela é muito mais perigosa. Você fez uma boa descrição, mas faltou mencionar o passado de Lod.  Em 1948, quase toda a população de Lod foi expulsa à força. Houve até um massacre na mesquita. Só os mais fracos ficaram em Lod, e eles têm sido discriminados desde então.

Nos últimos anos, judeus ortodoxos vieram se instalar em Lod, apenas para provocar e oprimir os membros da comunidade palestina. Esta comunidade é muito pobre, e tem envolvimento com crime. O que ocorreu agora foi uma explosão de todas as frustrações sociais sobre o que está acontecendo diariamente em Lod. Obviamente, o que ocorreu na montanha do Templo (na mesquita Al-Aqsa) acirrou as emoções.

A limpeza étnica

KHALEK: O jornalista David Sheen (do periódico israelense Haaretz) me disse que, nos últimos anos, organizações de colonos tentam levar judeus ortodoxos para locais onde ainda há remanescentes de comunidades palestinas, como em Lod. Isto também estaria acontecendo Jaffa e em Haifa.

LEVY: Também em Akka (Acre, em hebraico). Trata-se de provocação, com o propósito de finalmente para expulsá-los, com certeza

KHALEK: Para onde?

LEVY: Para onde eles sonham em enviar todos os palestinos: para a Jordânia, para o Iraque, para a Arábia Saudita, para longe de Israel. Eles sabem que não vão conseguir, pelo menos não em breve, mas plantam as sementes.

Não são apenas forças políticas, mas também os poderes econômicos que estão atuando (no sentido de limpeza étnica). Jaffa, por exemplo, se tornou um lugar bastante burguês, atraindo judeus para viverem lá. Então eles compram mais e mais propriedades, afastando os palestinos. É um processo muito triste.

KHALEK: Existe apoio do governo israelense a este processo ou a iniciativa parte apenas de organizações individuais?

LEVY: Com certeza é apoiado pelo Estado, talvez não iniciado por ele. O Estado apoia qualquer atividade que fortaleça a presença e a superioridade judaica em todos os lugares de Israel.  Como nos assentamentos, que são totalmente apoiados pelo governo. Não culpe os colonos, culpe todos os governos de Israel que os apoiaram e financiaram.

KHALEK: Uma última pergunta, Gideon. A respeito da violência atual, há vozes em Israel pedindo a desescalada neste momento?

LEVY: Muito poucas. É sempre assim no início. Se durar mais tempo, você vai ouvir mais protestos contra os conflitos. Agora, nos primeiros dias, todos estão muito cautelosos, porque a população israelense está realmente vivendo sob ameaça. É muito difícil culpar apenas a Israel; então as pessoas são cautelosas. Mas tenho certeza que se continuarem os embates, em poucos dias começarão os protestos. Mas não espere muito da comunidade judaica.

Nota do tradutor:

1. Não existe consenso entre os defensores da causa palestina se ainda é viável a solução de Dois Estados. Para alguns, seria melhor canalizar os esforços para viabilizar a formação de um Estado democrático, com igualdade de direitos para todas as nacionalidades e religiões. Tal Estado incluiria toda a região englobada no Plano da Partilha pela ONU, de 1947. Ambas as soluções precisariam, no entanto, superar imensas dificuldades, aparentemente intransponíveis. Nunca alguém como Nelson Mandela foi tão necessário.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Reino Unido: condenado, defensor de direitos humanos poderá morrer na prisão

Por Ruben Rosenthal

Para que Murray possa aguardar em liberdade, o encaminhamento à mais alta instância judicial precisa ser aprovado pela mesma corte que o condenou.

Ativista de direitos humanos e pela independência da Escócia, o ex-embaixador Craig Murray foi condenado a 8 meses de prisão.
Ex-embaixador Craig Murray condenado a 8 meses de prisão. Foto: Guy Smallman/Getty Images

Em 11 de maio saiu a sentença do julgamento do ex-embaixador britânico Craig Murray, defensor de direitos humanos e ativista ferrenho pela independência da Escócia. Acusado de desacato à Corte, ele foi sentenciado pela juíza, Lady Dorrian, da Alta Corte do Judiciário, em Edinburgo, Escócia, a 8 meses de encarceramento, como relatado no britânico The Guardian.

Entretanto, as condições de saúde de Murray requerem cuidados especiais, e poderão se agravar durante o período de detenção, trazendo risco de morte para o ex-embaixador. Em sua sentença, a juíza relata que levou em consideração as condições clínicas do sentenciado.

Murray irá recorrer à Corte Suprema do Reino Unido, pois não confia no sistema judiciário da Escócia, que considera corrompido. Para que Murray possa aguardar em liberdade, o encaminhamento à mais alta instância judicial precisa ser aprovado pela mesma corte que o condenou. Entretanto, se a juíza Dorrian negar tal aprovação, Murray terá que aguardar por meses na prisão, até o processo ser julgado na Corte Suprema.  

Trata-se de um caso que coloca também em jogo a liberdade de expressão no Reino Unido. Atuando como blogueiro, Murray exerce atividades de jornalismo, até mesmo com mais brilhantismo e integridade que a maioria dos profissionais da mídia corporativa britânica.  

A Coroa contra Craig Murray 

As acusações de desrespeito à Corte (contempt of Court) que levaram ao indiciamento do ex-embaixador decorreram de artigos que Murray publicou em seu blog e no Twitter, em 2019 e 2020. Nestas matérias, Murray denunciou a armação que fora montada contra o ex-primeiro-ministro escocês Alex Salmond, falsamente acusado de assédio sexual por algumas mulheres que tinham algum envolvimento em seu governo.  

O Blogue Chacoalhando já relatou anteriormente como Murray recorreu a artifícios para conseguir denunciar a farsa que fora montada contra Salmond, com a possível conivência da atual primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon. Craig recorreu a uma espécie de quebra-cabeças (jigsaw), em que apresentava algum detalhe físico ou factual sobre as testemunhas que supostamente teriam sofrido assédio sexual.  

Para a Corte que julgava Salmond, “as pistas poderiam ajudar na identificação de uma destas mulheres por algum colega de trabalho”. Instado pelo Escritório da Coroa (Crown Office) a remover de seu blog e do Twitter qualquer menção que pudesse minimamente levar à identificação ou mesmo suspeição de quem seriam as testemunhas, Murray se recusou a fazê-lo, em nome da liberdade de expressão. Ele também alegou que outros veículos de mídia publicaram relatos que poderiam levar à identificação das testemunhas. Com base nesta recusa, foi aberto o processo que resultou na condenação e na sentença de prisão proferida no dia 11 de maio.  

Para Craig Murray, o caso contra Alex Salmond se tratou de uma conspiração em que o Escritório da Coroa na Escócia esteve implicado, mas que foi impedida pelo júri, que inocentou Salmond de todas as acusações. Murray denuncia que está sofrendo uma “vergonhosa e escancarada perseguição política“, por ter revelado a verdade sobre os motivos que levaram à absolvição de Alex Salmond pelo júri. E acrescenta: “temos que tirar (o caso) da fétida corrupção de Edinburgo e levar a Estrasburgo (Tribunal Europeu de Direitos Humanos). E isto é somente possível através da Corte Suprema do Reino Unido”.  

A saúde do condenado 

Se Murray for encarcerado, mesmo que por alguns meses, sua saúde poderá ser irremediavelmente comprometida, com consequências imprevisíveis. Durante o julgamento, a Corte foi informada por dois médicos sobre as condições clínicas de Murray e sobre internações prévias.  

Foram mencionadas as seguintes anormalidades: hipertensão pulmonar, fibrilação atrial, embolismo pulmonar recorrente, possível síndrome anti-fosfolípide, prolapso da válvula mitral, esôfago de Barret, além de deslocamento recorrente dos ombros e desordem bipolar. 

A Corte não questionou o parecer dos médicos sobre a vulnerabilidade física em que o ex-embaixador se encontra, e, mesmo assim, determinou que ele seja encarcerado por oito meses.  Por outro lado, a Corte considerou que Murray é inadequado para realizar trabalhos comunitários, exatamente por suas “dificuldades de saúde de longa data”. Murray havia se disponibilizado para prestar auxílio comunitário junto a estrangeiros buscando asilo, algo com ele já havia se envolvido anteriormente. 

Finalizando 

Para Murray, orquestrar falsas acusações de assédio sexual, como foi feito contra Alex Salmond e também com Julian Assange, é uma forma que o Estado encontrou para se livrar da ameaça representada por opositores e dissidentes políticos. E para quem tentar denunciar tais armações, uma boa temporada na prisão é a punição, como pode ocorrer com ele próprio.   

A mídia corporativa do Ocidente não mostra indignação com estas violações de direitos humanos, e ainda colabora na desinformação. Tudo em contraste com a forma com que é relatada a suposta perseguição movida pelo governo russo contra Navalvy, opositor de Putin.  

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Privatizando a guerra no Afeganistão: saem as tropas regulares, ficam os mercenários

Por Ruben Rosenthal

O temor do governo norte-americano é que a retirada de todas as tropas do solo afegão possa abrir caminho para o aumento da influência de russos e chineses.

Soldados norte-americanos da infantaria atendem colega ferido
Soldados norte americanos prestam assistência a colega ferido, setembro 2010, Kondoz, norte do Afeganistão \ Foto: Damon Winter/ NYT

Conforme determinação do presidente Joe Biden, em 1 de maio foi iniciada a retirada das tropas de combate norte-americanas da nação afegã. Até 11 de setembro está prevista a total remoção dos atuais efetivos – de 2.500 a 3.500 combatentes, e também do contingente da Otan, de 7.000 militares. Biden teria rejeitado as advertências em contrário de seus conselheiros militares e do Pentágono, que alertaram que a saída poderia resultar no “ressurgimento das ameaças terroristas e em guerra civil”, com o fortalecimento do Talibã. 

Na verdade, o acordo original que havia sido acertado com o Talibã na administração Trump, em 29 de fevereiro de 2020, previa a retirada completa das tropas estrangeiras no prazo de 14 meses após a assinatura do acordo, ou seja, até 1 de maio de 2021. Portanto, Biden não está cumprindo o acordo. Em resposta a esse descumprimento, o Talibã emitiu o seguinte comunicado: “A violação, em princípio, abriu caminho para o Emirado Islâmico do Afeganistão tomar todas as ações que considerar apropriadas contra as forças de ocupação”. 

No entanto, a violação do acordo é ainda mais grave que “apenas” um atraso no cronograma da retirada. Conforme publicado no New York Times, permanecerão no Afeganistão as Forças Especiais de Operação, que atuam de forma clandestina, agentes secretos de inteligência, e mercenários sob contrato do Pentágono.  

Em janeiro deste ano haviam mais de 18.000 mercenários em atuação no Afeganistão, segundo um relatório do Departamento de Defesa dos EUA. A informação que foi divulgada no CovertAction Magazine, um site voltado para expor ações clandestinas de governos norte-americanos, foi originalmente obtida no site Stars and Stripes (Estrelas e Listras, evocando a bandeira dos EUA), voltado para os interesses das forças armadas norte-americanas.  

A estratégia do governo norte-americano é de contratar mercenários através de corporações privadas, como forma de distanciar da população os impactos da guerra nas tropas. Uma das maiores empresas que intermediam na contratação de mercenários é a DynCorp International, de Falls Church, na Virgínia.  

A empresa recebeu mais de 7 bilhões de dólares em contratos com o governo norte-americano, conforme revelado no CovertAction Magazine. Esta vantagem da DynCorp na obtenção dos contratos para as guerras do Afeganistão e Iraque já havia sido relatada em artigo de 2009 da Forbes.   

Evolução da presença militar dos EUA no Afeganistão 

O engajamento militar norte-americano contra o Talibã começou em novembro de 2001, com a chegada de 1.300 combatentes, principalmente marines. No mês anterior, o então presidente George W. Bush bombardeara o Afeganistão em represália pela presença de terroristas da al-Qaida, responsável pelos  atentados de 11 de setembro às torres gêmeas em Nova York, e ao Pentágono. A evolução do engajamento militar norte-americano até o final do segundo governo Obama pode ser acompanhada no Military Times

Soldados norte-americanos em avião de transporte chegam a Mazar-i-Sharif, Afeganistão, abril 2010
Cena que talvez não mais se repita: Soldados norte-americanos chegam ao Afeganistão, abril 2010 \ Foto: Damon Winter/NYT

Em agosto de 2010, o contingente dos EUA em solo afegão alcançou a marca de 100.000. Com a morte de Bin Laden em 2011 no Paquistão, Obama anunciou a diminuição gradativa do efetivo. Em julho de 2016 ele quebra a promessa que fizera de retirar todas as tropas até o final de seu segundo mandato, declarando que manterá 8.400 combatentes, segundo relatou o Washington Post na ocasião.  

Trump também quebrou sua promessa inicial de remover todas as tropas. Em setembro de 2017 ele chegou, inclusive, a anunciar um aumento do efetivo. Ao final de seu governo, permaneceu um contingente de 2.500 a 3.500 norte-americanos nas tropas regulares, segundo relato no DW-Brasil. No entanto, ao assinar o  acordo com o Talibã, em que os EUA concordaram em retirar todas as tropas do país até 1 de maio de 2021, Donald Trump deixou este compromisso para seu sucessor, Joe Biden. Pertence apenas ao campo especulativo, se Trump teria ou não cumprido o que fora acordado, caso tivesse conseguido se reeleger.  

Mas o governo Biden parece não estar disposto a perder o controle sobre o território afegão. Biden procura ganhar tempo com a decisão de transferir o prazo para 11 de setembro, aniversário dos atentados da al-Qaida, mas está em violação do que ficara acordado.  

Embora os Estados Unidos disponham de inúmeras bases aéreas na região do Golfo Pérsico, recorrer ao lançamento de bombardeiros de longo alcance ou a drones armados pode não ser tão efetivo como a presença de tropas em território afegão, menciona o artigo do NYT, citando como fontes, “atuais e ex-funcionários norte-americanos”. A presença clandestina das Forças de Operação Especiais e de mercenários poderia suprir a necessidade de forças regulares presenciais.  

Provincia de Laghman controlada pelo Talibã: duas crianças passam por grupo de elite armado, março 2020
Civis passam por grupo de elite armado, Província de Laghman controlada pelo Talibã, março 2020 \ Foto: Jim Huylebroek / NYT

A importância geopolítica do Afeganistão 

Craig Murray, ex-embaixador do Reino Unido no Uzbequistão – país vizinho ao Afeganistão, compara as motivações dos EUA para dominar o Afeganistão, com os casos das ocupações pela Grã-Bretanha e, posteriormente, pela então União Soviética.  

A primeira ocupação britânica se deu em 1839, sob o pretexto de prevenir uma aliança com a Rússia e a Pérsia (atual Irã), visando a invasão da Índia, então uma possessão britânica. Duas outras intervenções pelos britânicos tiveram a mesma justificativa. 

A invasão soviética em 1979 foi com o intuito de proteger regiões da Ásia Central pertencentes à União Soviética, da difusão do radicalismo islâmico. A ocupação durou 10 anos, e trouxe imenso desgaste à então superpotência, contribuindo para o seu declínio. 

O pretexto dos norte-americanos em invadir e ocupar o Afeganistão foi o de deter ataques de extremistas islâmicos que se encontrariam abrigados no Afeganistão, embora os ataques terroristas de “11 de setembro” estivessem mais relacionados com a Arábia Saudita.   

Murray relata que com a ocupação pelos EUA, disparou a produção de ópio e heroína em solo afegão, com o apoio da CIA. Para manter a ocupação, os EUA precisavam do apoio dos “senhores da guerra” locais, que eram os produtores de heroína.  

Entretanto, segundo Murray, o motivo principal da ocupação original do Afeganistão foi o Gasoduto Trans Afegão, que levaria gás natural das reservas do Turcomenistão para o Paquistão, Índia, e então chegando ao Oceano Índico. Em 1997, foi formado um consórcio de seis empresas, juntamente com o governo do Turcomenistão, para construir o gasoduto de 1.271 quilômetros até o Paquistão. 

A maior participação no consórcio (54%) cabia à Corporação Unocal, sediada na Califórnia. Uma delegação do Talibã iria viajar ao Texas para tratar das negociações, que contariam com a benção do então governador do Texas, George W. Bush.  Com os ataques da al-Qaeda em 1998 contra alvos dos EUA na Tanzânia e no Quênia, o projeto foi engavetado, relata Murray. Na ocasião, Osama Bin Laden estava abrigado no Afeganistão.  Posteriormente, já na presidência do país, Bush invadiu o Afeganistão.  

Recentemente, uma delegação do Talibã fez uma visita ao Turcomenistão para conseguir apoio para a tão planejada e adiada linha de gás natural através do Afeganistão. O Turcomenistão possui a quarta maior reserva de gás natural no mundo, estimada em 19,5 trilhões de metros cúbicos.   

Conforme o relato no CovertAction Magazine, o objetivo almejado pelos EUA atualmente não é mais apenas o controle das linhas de suprimento de combustíveis naquela região da Ásia Central. Em 2007, o Serviço Geológico dos Estados Unidos teria identificado a presença no Afeganistão de minerais no valor estimado de 1 trilhão de dólares, incluindo ferro, cobre, cobalto, ouro e o estratégico lítio, usado em baterias de computadores.   

O temor do governo norte-americano é que a retirada de todas as tropas do solo afegão possa abrir caminho para o aumento da influência de russos e chineses. A China aumentou seus investimentos no Afeganistão, país com o qual faz fronteira, mantendo ao mesmo tempo relações com os rebeldes talibãs. Por seu lado, a Rússia investiu em projetos de moradia e no fornecimento de rifles Kalashnikov ao governo afegão, sem, no entanto, deixar de cortejar o Talibã.  

Mapa do Afeganistão mostrando distritos sob controle do Talibã
Mapa mostra o controle por distrito, março 2021: vermelho escuro- Talibã; cinza- governo central ou indeterminado- cinza; vermelho claro- em contestação \ Fonte: Long War Journal

O Talibã já controla diversas regiões do país. Os Estados Unidos tentam manter no poder o atual presidente Ghani ou substituí-lo por alguém que possam controlar. Por outro lado, nas negociações com o Talibã, as únicas cartas que os norte-americanos podem oferecer em troca da mudança do prazo final da retirada total das tropas são o levantamento das sanções e a libertação de prisioneiros. Mas Cabul não deverá concordar com a libertação de prisioneiros talibãs.   

Finalizando 

Em meio às tragédias de uma guerra, os fotógrafos conseguem captar imagens que impressionam. São registros de importância histórica, retratando tragédias humanas e personagens, anônimos ou famosos, que participaram de formas diversas das ações de guerra e da busca da paz. Mas, por outro lado, conseguindo expressar a arte de onde menos se espera. A guerra do Afeganistão pode ser, em parte, acompanhada através das lentes dos fotógrafos do Washington Post e do The New York Times.

O autor é professor aposentado pela UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.  

Presidente da Ucrânia aposta suas cartas em invasão russa?

Por Ruben Rosenthal

Se os russos intervierem, Zelensky tentará convencer o governo alemão a sustar o acordo do gasoduto Nord Stream 2. O novo gasoduto representará um baque devastador na economia da Ucrânia.

Ukrainian serviceman stands in position on the front line with separatists in Donetsk region on February 19, 2021.
Militar ucraniano na linha de frente em Donetsk,  fevereiro de 2021 \ Foto: Anatolii Stepanov / AFP via Getty Images

Relatos recentes sobre a crise na Ucrânia na mídia do Ocidente alertaram sobre o estacionamento de tropas russas na fronteira com a Ucrânia. BBC News: Acúmulo de tropas russas próximo à Ucrânia alarma a Otan. New York Times: Movimento de tropas russas e fala de intervenção causa apreensão na Ucrânia. Wall Street Journal: Imagens de satélite mostram expansão  da presença da Rússia na Ucrânia. 

A mídia do Ocidente especulou  sobre a motivação para as ações de Moscou. Testar a nova administração Biden? Desviar a atenção da prisão de Navalny? Forçar que a Ucrânia restabeleça o fornecimento de água a Criméia, cortado após a união com a Rússia? Ou seria uma retaliação pela perda de influência na Ucrânia? 

Repercutiu também na mídia ocidental a perturbadora previsão do “analista militar” russo, Pavel Felgenhauer, de que com a chegada das tropas russas à fronteira, a crise passou a ter potencial de escalar para uma guerra pan-européia ou mesmo para uma III Guerra Mundial.

Ainda no mês de abril, o cônsul ucraniano em São Petersburgo foi detido sob a acusação de receber informações secretas. As tensões aumentaram ainda mais com o anúncio da Rússia irá restringir por seis meses a navegação no Mar Negro para navios de guerra estrangeiros, com início em 24 de abril.

A atual crise mantém aceso o pavio do conflito iniciado com a revolução colorida de Maidan em fevereiro de 2014 – apoiada pela governo de Barack Obama, e que afastou Viktor Yanukovych, o presidente eleito da Ucrânia. Como reação, vieram na sequência o referendo pró-Rússia na Criméia e os movimentos separatistas na região do Donbass, no leste do país. Desde então já ocorreram cerca de 13.000 mortes nos confrontos de forças de Kiev com os separatistas.

Embora nos últimos dias Putin tenha anunciado a retirada de tropas da fronteira, não há sinais de que a crise tenha se esvaziado. O governo de Kiev vem se recusando sistematicamente a respeitar o Protocolo de Minsk, que deveria levar a um cessar-fogo permanente e à autonomia política do Donbass.

Quando não houver menção em contrário, as análises apresentadas  neste artigo foram extraídas da entrevista concedida pelo analista internacional Mark Sleboda, sediado em Moscou, para a jornalista Anya Parampil, do The Grayzone.

Região do conflito separatista do Donbass
O mapa mostra as regiões sob controle dos separatistas (região hachurada direita) e do governo central, em Luhansk e Donetsk

Ucrânia, um país com profundas divisões históricas

Os ucranianos do oeste do país têm um forte sentimento anti-russo; sua história passa pela Comunidade Polaco-Lituana e pelo Império Austro-Húngaro. Durante a II Guerra Mundial houve colaboração com os nazistas e com o holocausto. Já o leste da Ucrânia, juntamente com a Bielorússia, tem um forte vínculo histórico e cultural com a Rússia, incluindo o uso da mesma língua. Estas divisões históricas se refletiram no mapa dos resultados eleitorais das últimas duas décadas.

Em comum, tanto no leste como no oeste do país, é a forte a influência política dos oligarcas. Ao contrário do que aconteceu na Rússia, onde Putin restringiu a ação dos oligarcas ao campo econômico, afastando-os de interferência na política, na Ucrânia umas poucas famílias dominam a política, controlando os partidos políticos. E isto não mudou com o Maidan.

Maidan, revolução colorida ou golpe?

O presidente Viktor Yanukovych, eleito democraticamente em 2010, era corrupto como corruptos foram todos os seus antecessores. Ele era um líder oriundo da região de Donbass, leste da Ucrânia. Quando procurou um acordo econômico com a União Européia, a contrapartida exigida foi uma terapia de choque neoliberal, que incluía privatizações em massa e alto desemprego.

Ele então tentou obter uma compensação de pelo menos 15 bilhões de dólares para aliviar os efeitos da “terapia”, sem nada conseguir. Com a economia em má situação, Yanukovych procurou os russos, atraindo desta forma a ira dos Estados Unidos.  Seu governo foi então derrubado em fevereiro de 2014, a partir dos protestos iniciados na Praça Maidan, pelo chamado Movimento Euromaidan. 

Após a tomada do poder, as novas autoridades baniram o partido Comunista e todos os partidos de esquerda do país. A intenção era de reorientar a geopolítica da Ucrânia a favor do Ocidente. Para tanto, era necessário derrotar a representação política do leste da Ucrânia, pró-Rússia, através de uma aliança de liberais pró-Ocidente com os ultra-nacionalistas fascistas, que consistiam a vanguarda do Maidan. 

Na seqüência da deposição do presidente ocorreram dezenas de milhares de deserções de militares para o Donbass ou para a Criméia. De acordo com o analista russo Ruslan Pukhov, diretor do Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias e editor do jornal Moscow Defense Brief, os militares russos conseguiram convencer oitenta por cento das forças ucranianas na Criméia a desertar. 

Em março de 2014, a população da Criméia votou por avassaladora maioria (96,8%) pela união com a Rússia. Em abril, as regiões administrativas de Donetsk e Luhansk que constituem o Donbass, se proclamaram repúblicas independentes.

Ainda em abril, Kiev enviou tropas para o leste da Ucrânia, colocando o país a beira de uma guerra civil generalizada. Para tentar encerrar o conflito, em 2 de setembro de 2014 foi assinado um acordo entre o regime de Kiev e as autoridades políticas do Donbass.

O Protocolo de Minsk       

Esperava-se chegar à reconciliação política através de uma série de etapas que conduziriam a eleições livres, à  concessão de autonomia política ao Donbass, e ao controle por Kiev da fronteira com a Rússia. As negociações ocorreram na Biolorússia, monitoradas por observadores da OSCE (a Organização para a Segurança e Cooperação Européia), tendo como garantidores, França, Alemanha e Rússia.

O acordo deveria também incluir uma ampla anistia a todos os envolvidos no conflito, bem como o desmantelamento das organizações paramilitares de extrema direita que participaram do Maidan, e que também se envolveram nos confrontos no Donbass. 

Kiev não implementou quaisquer destas medidas, de forma que o conflito armado permanece. Para Mark Sleboda, a liderança de Kiev não tem a menor intenção de se encontrar com as autoridades políticas do Donbass, até porque sua própria legitimidade poderia ser colocada em questão. Entretanto, o protocolo de Minsk permanece como base para um acordo futuro.

Ukraine's President Volodymyr Zelenskiy visits positions of armed forces in Donbass region
Zelensky visita tropas na frente do Donbass, Ucrânia 9 de abril 2021. Serviço da Imprensa Presidencial / EPA

O governo Zelensky

Em 2019 foi eleito o comediante Volodymyr Zelensky para a presidência da Ucrânia, apoiado pelo oligarca Ihor Kolomoisky. Saiu derrotado por larga margem o então presidente e também oligarca, Petro Poroshenko.  Zelensky não conseguiu diminuir a corrupção no país, nem terminar a guerra no Donbass, como também fracassou no combate a pandemia do coronavírus. Ele está confrontando a corte constitucional do país para tentar impor as draconianas reformas requeridas pelo FMI.

Sua taxa de aprovação baixou de 75 para 30%, assim como a popularidade de seu partido, “Servidores do Povo”. Por outro lado, o partido mais popular do país atualmente é o que representa o leste da Ucrânia, “Plataforma de Oposição – Pela Vida”, também liderado por um oligarca – Viktor Medvedchuk.

Zelensky então fechou veículos de mídia, incluindo estações de TV, e está processando Medvedchuk por traição. Tudo para impedir o ressurgimento da oposição política no leste da Ucrânia.

Motivações dos EUA: geopolítica e o gasoduto Nord Stream 2

A administração Biden pode estar apoiando o acirramento da crise, mesmo ao custo de muitas vidas serem perdidas na Ucrânia, acredita Sleboda. Os EUA trouxeram recentemente para Odessa 350 toneladas de equipamentos militares, aumentando as tensões.

O aumento da influência política do leste da Ucrânia representa ao mesmo tempo o aumento da influência russa. Esta mudança geopolítica é algo que certamente a admistração Biden gostaria de evitar. Por outro lado, aos EUA interessaria controlar a segurança energética da Europa e, para tanto, a questão do gasoduto Nord Stream 2 é fator determinante.

Trata-se do segundo gasoduto ligando Rússia e Alemanha, e que possibilitará também a distribuição de energia a outras partes da Europa. Estando praticamente concluído, ele passa sob o Mar Báltico, dispensando as atuais linhas terrestres que atravessam a Ucrânia e Polônia, construídas ao tempo da União Soviética. Estas linhas possibilitaram que por anos Kiev exercesse pressão política sobre a Rússia.

Não apenas Kiev, mas também a Polônia e os Países Bálticos se aliaram aos EUA para impedir a implementação do Nord Stream 2. Os norte-americanos estão impondo sanções às empresas russas e alemãs envolvidas na construção do gasoduto. Empresas de energia européias que investiram na obra também sairiam prejudicadas.

As acusações contra a Rússia, de ter usado o agente neurológico novichok contra o opositor de Putin, Alexei Navalny, foram utilizadas sem sucesso para convencer a Alemanha a cancelar o gasoduto.  

Motivações da Rússia: ofensivas ou defensivas?

Para a Rússia, é de máxima importância a segurança das centenas de milhares de cidadãos do Donbass que têm dupla nacionalidade, bem como a dos 2 a 3 milhões de refugiados do leste da Ucrânia que acolheu quando os conflitos irromperam. Atualmente, como não existe fronteira entre a Rússia e o Donbass, seria muito mais fácil para a Rússia enviar tropas e armas para o leste Ucrânia do que para os EUA armarem o regime de Kiev.

Na primeira quinzena de março, Kiev começou a mover contingentes militares para a fronteira do Donbass, incluindo tanques, sistemas de artilharia, mísseis balísticos, bem como milhares de recrutas. Toda esta movimentação não foi noticiada na mídia do Ocidente, mas não passou despercebida em Moscou. Como dissuasão, a Rússia enviou cerca de 4 mil militares como parte de manobras na fronteira com a Ucrânia, acrescentando ao efetivo de 25 a 30 mil russos lá posicionados desde 2014.

O Centro para a Nova Segurança Americana (CNAS, na sigla em inglês), think tank em Washington, promoveu um debate no podcast Brussels Sprouts (Couve de Bruxelas) sobre o tema das tropas russas na fronteira com a Ucrânia. Os especialistas Michael Kofman e Maxim Samorukov admitiram que os efetivos russos colocados na fronteira com a Ucrânia não tinham uma postura ofensiva.

Sobre as opiniões alarmantes expressas por Pavel Felgenhauer, Sleboda as considera exageradas: “Felgenhauer não é especialista em estudos militares ou de segurança, embora ele se proclame um analista militar. A mídia ocidental recorre a ele quando quer apresentar pontos negativos, em geral falsos, sobre a Rússia”.

Motivações de Kiev: autopreservação do regime

Segundo Sleboda, o motivo real para Zelensky querer ampliar o conflito armado no leste da Ucrânia é fazer com que a Rússia intervenha para proteger o Donbass. A morte de milhares de recrutas ucranianos levaria provavelmente a um rompimento duradouro entre os dois países, o que seria no interesse de Kiev.

Ukrainian soldiers in a trench on the front lines facing Russian-backed separatists near the town of Zolote april 2021
Soldados ucranianos na trincheira, próximo à cidade de Zolote, no leste do país / Foto: AFP/Getty Images

Se os russos intervierem, Zelensky tentará convencer o governo alemão a sustar o acordo do gasoduto Nord Stream 2. O novo gasoduto representará um baque devastador na economia da Ucrânia. Cerca de 18% do orçamento nacional de Kiev é oriundo de taxas recebidas da Rússia e da Alemanha, pela passagem terrestre do gás em território ucraniano por meio das antigas linhas, que perderiam relevância.

O presidente e seu partido passam por uma fase de baixa aprovação. O acirramento da crise com a Rússia poderia trazer mais apoio popular, com um apelo ao nacionalismo extremado. Ao mesmo tempo, ele poderia reprimir a representação política da oposição política do leste do país.

Zelensky deve saber que não conseguirá recuperar o Donbass pela via militar, e provavelmente nem tem interesse nisto. Incorporar novamente ao país cerca de quatro a oito milhões de eleitores significaria fazer o pêndulo do poder político pender a favor dos ucranianos do leste, em um momento de baixa popularidade do presidente e de seu partido. 

Finalizando

Pode ser tentador para Zelensky apelar para um conflito militar interno para resolver seus problemas políticos e econômicos, quando muitas mortes de ucranianos poderiam ocorrer. Mas, mesmo considerando de um lado, o apoio do Ocidente e da Otan ao regime de Kiev, e de outro, o apoio ao Donbass pela Rússia, é bem pouco provável que a Rússia entre em conflito direto com os Estados Unidos e a Otan. A exceção seria caso a Ucrânia fosse incorporada à Otan, o que é inaceitável para Moscou. Resta ver se as tensões de abril irão retroceder ou inflamar a região.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Alba, novo partido reacende a chama pela independência da Escócia

Com a independência da Escócia, o papel da Grã-Bretanha no Ocidente ficaria prejudicado, alterando a balança global de poder.

Disputa eleitoral na Escócia: Alex Salmond, pelo partido Alba e Nicola Sturgeon, pelo SNP
Sturgeon e Salmond: de aliados a rivais \ Foto: domínio público

O ex-primeiro ministro escocês Alex Salmond anunciou na sexta-feira, 26 de março, a criação do partido Alba (Escócia, em gaélico). Com o novo partido, ele espera alcançar “uma supermaioria” a favor da independência do país nas eleições de 6 de maio para o Parlamento escocês, somados os assentos do Alba e do SNP, o Partido Nacional Escocês.

Salmond liderou o SNP de 2004 a 2014, e exercia o cargo de primeiro-ministro quando a proposta de independência foi rejeitada no referendo de 2014, por 55 a 45%. Na ocasião, os partidários do voto SIM, pela independência, criticaram a interferência da mídia britânica, principalmente devido às reportagens tendenciosas da BBC. O documentário London Calling (Londres Chamando) mostra muito bem como foi a atuação tendenciosa da emissora estatal a favor da permanência da Escócia no Reino Unido.

Salmond recebeu críticas de estar causando uma divisão do movimento pró-independência ao fundar o Alba. Entretanto, muitos ativistas históricos do SNP colocam em dúvida o compromisso da atual líder do partido, a primeira-ministra Nicola Sturgeon, com a autodeterminação do povo escocês. Ela é inclusive suspeita de estar por trás das acusações de agressão sexual que recaíram sobre Salmond, e que o forçaram a se afastar do partido em 2018. Ele foi levado a julgamento, que se estendeu de 9 a 20 de março de 2020.

A conspiração contra Salmond

Conforme relato anterior no Chacoalhando, a armação contra Salmond foi exposta em grande parte devido a uma série de artigos do ex-embaixador Craig Murray, ativista de direitos humanos e pela independência da Escócia. Murray foi indiciado por exercer a liberdade de imprensa para denunciar a trama. 

Segundo Murray escreveu em seu blog, tratou-se de um caso em que testemunhas de acusação não estavam presentes nos locais onde teriam ocorrido os abusos sexuais. Além disso, foram excluídas das audiências as evidências de que haveria uma conspiração contra Salmond.

Em seus artigos, fazendo uso de um humor sarcástico, Craig Murray deu algumas pistas de quem seriam as mulheres que alegavam ter sofrido agressão por parte de Salmond. Ele levantou suspeitas de que tudo não passara de uma armação de setores bem próximos à primeira-ministra, como forma de afastar da cena política o ex-aliado e atual rival.

Em face deste e de outros artigos que publicou, Murray foi acusado e considerado culpado de desacato à Corte (contempt of Court), e está sujeito ao encarceramento e à uma multa elevada, em parecer que será proferido em audiência em 7 de maio1 . Murray já anunciou que irá recorrer à Suprema Corte do Reino Unido, em Londres.

Alex Salmond arrest - friends and enemies at Holyrood are stunned ...
Alex Salmond,  após depoimento na  Corte do Xerife de Edimburgo, jan. 2019 \ Foto: Russell Cheyne/Reuters

Quanto a Salmond, ele foi inocentado das acusações de assédio sexual, recebendo 500 mil libras esterlinas de indenização. Sturgeon foi alvo de duas investigações para determinar se ela esteve envolvida nas irregularidades constatadas no caso. Enquanto um inquérito “independente” (aspas deste autor) encaminhou por isentá-la de responsabilidade, uma comissão parlamentar concluiu que Sturgeon enganou o Parlamento em seu depoimento, conforme relatado no jornal Público, de Portugal

Sturgeon muda o rumo do SNP e das políticas de governo

Para Craig Murray, Sturgeon nunca teve a intenção de alcançar a independência da Escócia.  Nas conferências do SNP, a palavra “independência” sequer aparecia na agenda. Na eleição de 2016 para Holyrood, o Parlamento escocês, Sturgeon declarou que queria que os adeptos da união com o Reino Unido se sentissem seguros em votar pelo SNP.

No entanto, o governo havia prometido em manifesto de 2016, que faria um novo referendo caso ocorresse “uma mudança substantiva nas circunstâncias”. Em 2018, com o voto dos escoceses por larga maioria a favor da permanência na União Européia, contrariamente à opção majoritária no Reino Unido pelo Brexit, estava colocada a circunstância ideal para justificar a convocação de um novo referendo, o Indyref2. O SNP havia declarado diversas vezes que a Escócia não seria tirada na União Européia contra a sua vontade. Chegara a hora da ação ou melhor, a hora da verdade

Em 31 de janeiro de 2020, no mesmo dia em que terminou o período de transição do Brexit, Sturgeon fez um discurso  em que anunciou que acatava a decisão de Boris Johnson, que negara a realização do referendo. Johnson fizera uso da Seção 302 da legislação da Devolução (Scottish Devolution), em que estão estabelecidas as limitações dos poderes do Parlamento escocês.

Para Craig Murray, o governo conservador (de Boris Johnson) não irá nunca conceder a autorização para um referendo que ele sabe que irá perder. Aceitar que o Parlamento de Westminster tenha o poder de veto é totalmente incompatível com o direito à autodeterminação, garantido pela carta da ONU, complementou. 

Murray lembra ainda que a Corte Internacional de Justiça estipulou que o fator principal que determina se um Estado pode ou não se tornar independente não é a legislação do país que poderá sofrer o desmembramento. Se assim fosse, a Estônia não teria se separado da antiga União Soviética, e a Slovênia, da antiga Iugoslávia.

Para consumo interno e aplacar o descontentamento no SNP, Sturgeon se apropriou de uma sugestão que Craig Murray apresentara quatro anos antes, em 2016. Ela convidaria os representantes eleitos na Escócia em todos os níveis – Parlamento local, Westminster, Parlamento Europeu, e líderes dos Conselhos locais – a se reunirem e endossar uma moderna Proclamação de Direitos, através de uma Convenção ConstitucionalNo entanto, a proposta de convocar uma Convenção Nacional logo foi deixada de lado, evidenciando que Sturgeon nunca pretendeu efetivar a medida, avalia Murray.

 O ex-embaixador do Reino Unido critica ainda a mudança na política externa promovida no governo Sturgeon. Foi rompido o enfoque tradicional do SNP de apoio à causa palestina. Passou a haver um alinhamento com a política neo-imperialista de Boris Johnson, como no apoio à narrativa contra a Rússia no caso da Ucrânia, e do uso do agente neurológico Novichok3 (ver no Chacoalhando).

O mesmo ocorreu em relação à Síria, no caso falacioso de uso de armas químicas em Douma (ver no Chacolhando). O líder do SNP no Parlamento de Westminster, Ian Blackford, chegou a pedir para o Reino Unido promover a mudança de regime na Síria.

Murray relata ainda em seu artigo que em 24 de março, dois parlamentares escoceses em Westminster alinhados com Sturgeon, solicitaram uma reunião  com o MI5, o serviço de segurança interna britânico. O objetivo seria discutir a cooperação contra a Rússia. Entretanto, a agência é também encarregada de lidar com situações vistas como ameaça ao Estado, como o nacionalismo escocês e os movimentos ambientalista e antinuclear.

Como Alex Salmond tem um programa na RT, canal russo de notícias em inglês, é possível que o MI5 tente criar uma narrativa de que Salmond esteja atuando em benefício dos interesses russos, em oposição aos do Reino Unido.

Após 14 anos no poder, o SNP deixou de ser um partido com cunho radical, conforme passou a receber os carreiristas que antes estavam vinculados ao Partido Trabalhista. Para estes, não vale a pena apoiar a independência do país e se arriscar a perder as mordomias do poder, avalia Murray. O novo SNP passou a priorizar a política de gênero, se afastando das causas tradicionais. O começo de novos caminhos alternativos pode estar na eleição de 6 de maio, com o voto no Partido Alba.

Alba e a volta de Salmond à cena política

Com a formação do Partido Alba, Salmond fez um retorno retumbante ao  cenário político. No lançamento do partido em 26 de março ele declarou, conforme relatado pelo jornal Público: “Os objetivos estratégicos do partido são claros e inequívocos: conseguir um país independente, bem-sucedido, socialmente justo e ecologicamente responsável. Queremos contribuir para políticas que ajudem na recuperação econômica da Escócia e que construam uma plataforma independentista, para encarar as novas realidades políticas”.

Declaração para a Escócia, 6 de abril de 2021

Segue trecho do discurso de Alex Salmond (assista ao vídeo) no aniversário de 701 anos da Declaração de Arbroath, a Declaração de Independência da Escócia.

“Proclamamos aqui o direito soberano do povo escocês de determinar a forma de governo mais adequada às suas necessidades, e declaramos e nos comprometemos que, em todas as nossas ações, os interesses (do povo) serão primordiais. ”Declaramos e nos comprometemos ainda que nossas deliberações serão direcionadas para os fins seguintes:

– Assegurar o direito soberano do povo escocês em agir através de seu Parlamento para assegurar a independência.

– Mobilizar a opinião escocesa e internacional para assegurar que este direito seja respeitado e cumprido.

Salmond apresentou rotas alternativas que poderão ser utilizadas para se alcançar a independência, a partir do estabelecimento de uma Convenção para Independência, composta dos representantes eleitos em todos os níveis.

Segundo ele, as cartas nas negociações com o governo do Reino Unido poderão incluir o referendo, em concordância com o que é estipulado pela Seção 30, mas também um plebiscito ou outro procedimento democrático, assim como uma ação judicial interna ou internacional, iniciativas diplomáticas, além de manifestações populares pacíficas.

Escócia: Declaração de Arbroath, com os selos de autentificação
Detalhe da Declaração de Arbroath, com os selos de autenticação, 6 de abril de 1320 \ Arquivo Nacional da Escócia

A independência da Escócia e a geopolítica internacional

Quando do referendo de 2014, o britânico George Robertson ex-secretário geral da OTAN  disse que a fragmentação da Grã-Bretanha corresponderia a um cataclismo. Em sua avaliação, como o Reino Unido é o principal aliado de Washington no cenário global, o Ocidente ficaria desfalcado de um sério parceiro, no momento em que a intimidação territorial continuada requer “solidez e sangue frio”.

Robertson alertou que com a independência da Escócia, o papel da Grã-Bretanha no Ocidente ficaria prejudicado, alterando a balança global de poder. Ele lembrou ainda que, quando da campanha para o referendo, o SNP prometera remover do oeste da Escócia a frota de submarinos Trident, da Grã-Bretanha. Com certeza este é um compromisso que o Partido Alba irá encampar. 

Notas do autor:

  1. Mensagens de repúdio ao processo político movido contra Craig Murray podem ser enviadas ao procurador geral do escritório da Coroa: The Right Honourable James Wolffe, Her Majesty’s advocate, pelo e.mail: PDCAseriouscasework@copfs.gov.uk
  2. Legislação de 1998 do Reino Unido referente ao Estatuto da Devolução estabelece, na Seção 30, que qualquer iniciativa de ampliação dos poderes do Parlamento da Escócia precisa passar pelo crivo de Westminster. Em março de 2017, o governo escocês solicitou a realização de um segundo referendo de independência, que foi recusado. Em 2019, Nicola Sturgeon renovou o pedido, também sem sucesso.
  3. A Rússia foi acusada de usar o agente neurológico Novichok contra o ex-espião Sergei Skripal e o opositor Alexei Navalny.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Chocolate de Páscoa com recheio de trabalho infantil

Por Ruben Rosenthal

Os problemas estruturais que causam o trabalho infantil nas plantações de cacau só podem ser resolvidos através de cooperação entre os governos dos países produtores e consumidores, indústria e organizações não governamentais. 

Grande parte do chocolate consumido no mundo é produzido com cacau obtido com trabalho infantil
Chocolate produzido com exploração do trabalho infantil \ Foto: The New Daily

A Páscoa judaica celebra a libertação dos escravos hebreus do Egito. A Páscoa cristã celebra a ressurreição de Jesus, e incorporou a crença pagã de associar ao ovo uma simbologia de renascimento; com os confeiteiros franceses foi introduzido o costume dos ovos de chocolate. Mas o chocolate consumido na Páscoa cristã está associado a práticas de escravidão e de exploração de trabalho infantil de risco em países produtores de cacau. As crianças da África Ocidental ainda aguardam por uma Páscoa que possam comemorar em liberdade.

Alguns dos países produtores, como Gana e Costa do Marfim, resolveram tomar medidas unilaterais para conseguir melhores preços para as safras dos grãos de cacau. A intenção é de reverter a pobreza no campo, principal causadora do trabalho infantil. No entanto, a reação de parte da indústria foi negativa e colocou em rota de colisão países fornecedores de matéria-prima e multinacionais do chocolate. 

A cadeia produtiva: do cacau ao chocolate

A indústria de chocolate rende 100 bilhões de dólares anuais, cabendo à Gana cerca de 2 bilhões e à Costa do Marfim, 4 bilhões. Estes dois países respondem por 2/3 da produção mundial de cacau. No entanto, o cultivo está associado à baixa remuneração dos agricultores, ao trabalho infantil, e vem causando destruição de florestas para aumento da produção.

Com a concentração internacional do mercado de cacau, grande parte das atividades é controlada pelo Big Chocolate, o pequeno grupo de transnacionais que inclui empresas processadoras dos grãos e fabricantes de chocolate.

O cacau de Gana e da Costa do Marfim é geralmente adquirido por empresas processadoras dos grãos como a suíça Barry Callebaut, Cargill, ECOM e Olam. Dentre as principais empresas que produzem chocolate incluem-se a Nestlé, Hershey, Mars, Ferrero, além da própria Barry Callebaut.

Trabalho infantil nas fazendas de cacau

Segundo estudo de pesquisadores brasileiros, as violações de direitos humanos na cadeia produtiva de cacau na África Ocidental estão diretamente relacionadas com a atuação das empresas multinacionais. A estrutura oligopolista dessas grandes empresas e o grande poder de barganha que possuem no mercado mundial contribuiriam para a perpetuação de um círculo vicioso de pobreza, e assim, para o aumento do trabalho infantil na produção de cacau.

Muitas destas crianças são oriundas de outros países, onde foram vendidas por seus pais. Por outro lado, a situação de pobreza nas fazendas de cacau requer por vezes que os próprios filhos dos donos das plantações se envolvam na colheita, deixando assim de frequentar a escola.

A estimava do Fórum Internacional de Direitos do Trabalho (ILRF, na sigla em inglês) é de que na África Ocidental o número de crianças em situação de trabalho infantil no setor de cacau esteja entre 500.000 e 1.500.000. Nas atividades extrativas, crianças costumam lidar com ferramentas de corte afiadas e com o uso de pesticidas.

criança faz trabalho de risco na colheita do cacau
Criança usando facão na colheita do cacau, África Ocidental, 2015 \ Foto: Daniel Rosenthal/Laif

O pequeno tamanho dos lotes familiares também não ajuda na obtenção de uma remuneração digna com a venda dos grãos. A maioria das plantações tem tamanho inferior a 10 hectares (0,1km quadrados). Um produtor que dispõe de uma extensão de terra equivalente a 2 hectares e produtividade média, ganha cerca de U$755,30 por ano na Costa do Marfim e U$ 983,12 em Gana. Por vezes  os produtores se associam em cooperativas de até 500 membros, conforme também relatado no estudo brasileiro. 

O trabalho infantil na indústria de chocolate começou a chamar a atenção da comunidade internacional em 2000, quando o documentário da BBCSlavery: a Global Investigation (Escravidão: uma Investigação Global) expôs os abusos praticados em Gana e na Costa do Marfim. Neste documentário foi relatado que centenas de milhares de crianças de Burquina Faso, Máli e Togo estavam sendo compradas de suas famílias, e vendidas como escravas para agricultores na Costa do Marfim.

A pressão internacional

Em resposta à indignação da comunidade internacional, grandes empresas da indústria de chocolate desenvolveram políticas para a cadeia produtiva. Uma iniciativa vinda do setor privado se deu através das organizações Fair Trade (Comércio Justo), que procuram garantir que cadeias globais e empresas transnacionais não desrespeitem direitos humanos e sociais. Os produtos passariam a receber certificados de “livre de trabalho infantil”, e de que o produtor recebeu um preço justo pela matéria prima.

O setor privado promoveu diversas outras iniciativas voltadas para a questão social na base da pirâmide da cadeia produtora do chocolate. International Cocoa Initiative (ICI), World Cocoa Foundation, Roundtable for a Sustainable Cocoa Economy e Bill&Melinda Gates Foundation foram algumas das organizações que estiveram envolvidas com projetos. Algumas empresas, como a suíça Nestlé e a britânica Cadbury, lançaram seus próprios planos.

Entretanto, conforme relatado pela plataforma online Swissinfo.ch, um estudo conduzido pela Universidade de Chicago verificou que o trabalho infantil na cadeia de fornecimento do cacau na Costa do Marfim e em Gana aumentou de 31 para 45% entre 2008 e 2019, apesar do compromisso das multinacionais do Big Chocolate em erradicar esta prática nas regiões de cultivo.

A indústria agora avalia que “as metas foram definidas sem uma compreensão total da complexidade e da escala de um desafio fortemente associado à pobreza na África rural”. Para a ICI, “uma das lições aprendidas é que não funciona a abordagem que pune agricultores por usarem seus filhos para ajudar na colheita, quando são poucas as alternativas”. Além disso, os rendimentos dos agricultores ficam ao sabor dos preços globais de mercado, que despencam quando a safra é mais abundante.

Novas abordagens no combate ao trabalho infantil

A Unicef está incentivando a indústria a investir em saúde, alimentação e educação para romper com o ciclo de pobreza. E parte da indústria parece estar aderindo a esta visão, segundo relatado pelo swiss.co. A Nestlé se comprometeu em priorizar saneamento, água e igualdade de gênero em seu Plano do Cacau; a empresa também declarou que está construindo escolas em algumas aldeias.

Ainda segundo a matéria,  empresa Barry Callebaut desenvolve um projeto que está ajudando os agricultores a aproveitarem melhor suas terras, utilizando parte delas para cultivo de produtos agrícolas de subsistência e criação de pequenos animais, como galinhas. Desta forma não haveria dependência econômica exclusivamente no comércio de cacau.

Por outro lado, o governo suíço está investindo em parcerias com a indústria suíça do cacau e com ONGs, como parte da Plataforma Suíça para o Cacau Sustentável (SWISSCO), fundada em 2018.

A escala destas iniciativas é que determinará sua efetividade na solução dos problemas sociais e econômicos que envolvem os países produtores de cacau da África Ocidental. No entanto, alguns governantes africanos não estão dispostos a aguardar mais tempo pelo resultados das iniciativas vindas da indústria do chocolate.

A queda de braço com o Big Chocolate

Gana e Costa do Marfim resolveram impor unilateralmente a partir de outubro de 2020, um adicional de 400 dólares no preço da tonelada de grão. A taxa denominada “diferencial de condição de vida” (LID, na abreviatura em inglês) possibilitaria aos fazendeiros, enviar os filhos para a escola, arcar com despesas médicas e uma melhor alimentação.

Para alguns dos grandes produtores e comerciantes de chocolate existe de fato a preocupação que seus nomes não estejam associados com aumento de pobreza, trabalho infantil e degradação ambiental. A empresa suíça Barry Callebaut, maior compradora mundial de cacau, apoiou com cautela a nova taxa.

Entretanto, algumas reações foram negativas. Para Michiel Hendriksz, ex-comerciante de commodities, a imposição da taxa extra de 400 dólares está fadada ao fracasso. Conforme ele relatou ao Financial Times, “a LID seria uma má jogada de pôquer por quem não deveria jogar”. Para Hendriksz, “seria melhor usar parte das terras para plantar produtos agrícolas voltados para alimentação, e com isto reduzir a produção do cacau, fazendo os preços subirem”. 

Em carta enviada ao Financial Times, publicada em 1 de dezembro, Gana e Costa do Marfim acusaram produtores de chocolate de agir de má fé para não pagar a taxa LID. Foram citadas na carta as empresas Mars, Hershey e Olam, além de quatro pequenos comerciantes de cacau, que se defenderam das acusações. 

O presidente de Gana dobra a aposta

Em 28 de fevereiro deste ano, em discurso histórico perante os membros do Conselho Federal da Confederação Suíça, o presidente de Gana anunciou (ver vídeo) que seu país não quer continuar a ser dependente da exportação de matéria prima. O presidente Nana Akufo-Addo acrescentou que, “no caso do cacau, a intenção é de incrementar o processamento em Gana visando produzir mais chocolate no país”.

Após enaltecer a contribuição da Suíça com o desenvolvimento de Gana, o presidente foi taxativo ao afirmar que “não poderá haver prosperidade no futuro para o povo de Gana se forem mantidas as atuais estruturas econômicas”. Acrescentou ainda que a intenção de seu governo é de “adicionar valor agregado às matérias-primas do país, industrializar e aumentar a produção agrícola”. Ou seja, não mais exportar cacau sem beneficiamento prévio dos grãos.

Discurso do Presidente Nana Akufo-Addo anunciando a mudança na política para o cacau
Presidente de Gana anuncia para o Conselho da Suíça, a nova política para o cacau, 28 de fevereiro de 2021

Ainda são imprevisíveis os efeitos que a nova política – se for implementada a fundo, poderá trazer para a produção do chocolate suíço e para o mercado internacional de chocolate. Gana é o maior exportador de grãos de cacau para a Suíça, e o segundo produtor mundial, atrás apenas da Costa do Marfim.

O presidente Nana Akufo-Addo precisará fazer uso de uma visão sistêmica para conseguir trazer benefícios efetivos para o setor cacaueiro de seu país. Um caminho a considerar é contornar a intermediação das Trade Houses, as empresas de comércio que lidam com importação e exportação de commodities.  

Por um lado, é arriscado colocar todas as cartas no chocolate Made in Gana. O país não possui uma indústria de leite de porte suficiente, o que obrigaria recorrer à importação. Além disso, o custo da eletricidade é elevado, o que encareceria o preço final do chocolate, devido à necessidade do uso de refrigeração na fabricação e conservação.

O beneficiamento mais simples seria moer os grãos de cacau em Gana antes da exportação. Outra possibilidade seria produzir o licor e a manteiga de cacau, que não precisam ser mantidos em refrigeração. Iniciativas como a da Barry Callebaut de incentivar a diversificação da produção nas terras agriculturáveis, se aplicadas em larga escala nos países produtores, podem resultar em melhores preços de venda do cacau no mercado internacional. Ficará alterado poder de barganha com as multinacionais do Big Chocolate.

Mas na queda de braço com o Big Chocolate, os países produtores contam com aliados. Em 12 de fevereiro foi aberta uma ação na capital norte-americana pela organização International Rights Advocates (IRA) a favor de oito jovens adultos originalmente do Mali que, quando crianças, haviam sido forçados a trabalhar sem pagamento em plantações na Costa do Marfim. A ação foi movida contra a Nestlé, Mondelez, Cargill, Barry Callebaut, Mars, Olam e Hershey. Se defendendo,  as empresas proclamam estar comprometidas com a erradicação do trabalho infantil na cadeia de suprimento do cacau.

Para Nicko Debenham, chefe de sustentabilidade da Barry Callebaut, os problemas estruturais que causam o trabalho infantil nas plantações de cacau só podem ser resolvidos através de cooperação entre os governos dos países produtores e consumidores, indústria e organizações não governamentais. 

Enquanto isso, no Brasil…

Em artigo de novembro de 2019 publicado pelo Brasil de Fato, foi relatado que as multinacionais Nestlé, Mondelez, Barry Callebaut, Cargill e Olam Brasil exploram o trabalho infantil e o trabalho escravo em lavouras de cacau na Bahia e no Pará. As empresas já foram notificadas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), mas não assumiram responsabilidade pelo problema.

E a propósito, qual o recheio do ovo de chocolate que você comprou para esta Páscoa?

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo Blogue Chacoalhando.  

Armas químicas na Síria: manifesto denuncia armação contra o presidente Assad

Por Ruben Rosenthal

Simplesmente não é cabível para uma organização científica como a OPAQ recusar-se a responder abertamente às críticas e preocupações de seus próprios cientistas, e estar associada a tentativas de desacreditar e difamar estes cientistas. 

Governo sírio bombardeia áreas controladas pelos rebeldes em Douma, 6 de abril de 2018
Conflito em Douma, 6 de abril de 2018, véspera do suposto ataque com armas químicas \ Foto: SIPA EUA/AP

O embaixador brasileiro José Maurício de Figueiredo Bustani, primeiro diretor-geral da OPAQ, a Organização para a Prevenção de Armas Químicas, lidera uma carta aberta encaminhada ao atual diretor-geral, o espanhol Fernando Arias. O manifesto de 11 de março clama pelo esclarecimento das controvérsias acerca da investigação sobre o suposto uso de armas químicas em Douma, na Síria, em 2018.

O relatório preparado pelos inspetores da missão de campo (Fact Find Mission) enviada a Douma foi adulterado para incriminar o presidente sírio Bashar al-Assad; a farsa só foi descoberta porque o relatório original foi vazado. Na sequência, inspetores que defenderam o respeito às conclusões da missão de campo tiveram a credibilidade e idoneidade atacadas.

Para os signatários da carta, “o caso em questão ameaça prejudicar seriamente a reputação e credibilidade da OPAQ, e abalar seu papel vital de busca da segurança e da paz internacional”. O manifesto encabeçado pelo embaixador Bustani é apoiado por ex-inspetores da OPAQ, além de renomados acadêmicos, intelectuais, políticos, jornalistas e cineastas de diversos países.

Para melhor entendimento do conteúdo da carta, cuja tradução é reproduzida neste artigo, é necessário apresentar antes um breve histórico dos eventos ocorridos até agora.

O uso de armas químicas em Douma

Em 7 de abril de 2018, tropas sírias engajadas no combate a rebeldes islâmicos fechavam o cerco à cidade de Douma, leste de Damasco. Foi quando chegaram aos lares, em todo o mundo, cenas de civis espumando pela boca e aparentemente sufocando até a morte pela suposta inalação de um gás letal. As fotos e filmagens foram feitas pela Defesa Civil Síria-Capacetes Brancos, grupo fundado por James Le Measurier, apoiador dos jihadistas.

Crianças usando máscaras para inalar oxigênio, após suposto ataque com gases químicos em Douma, Síria.. A foto foi obtida pela Defesa Civil Síria-Capacetes Brancos, grupo fundado por James Le Mesurier, que tinha vínculos com extremistas jihadistas.
Criança recebendo oxigênio através de máscara, após suposto ataque com gás cloro em Douma \ Foto: Defesa Civil Síria-Capacetes Brancos, via AP

Mesmo antes da comprovação de qualquer responsabilidade do governo sírio, mísseis cruise dos Estados Unidos foram lançados contra a Síria, com apoio do Reino Unido e da França. Em 21 de abril uma missão de investigação da OPAQ foi enviada a Douma. No relatório final publicado pela OPAQ em 1 de março de 2019 constava que os dois cilindros contendo resíduos de gás cloro, encontrados em destroços em Douma, foram atirados de helicópteros. Como o espaço aéreo era controlado pelo governo sírio, o mesmo foi imediatamente responsabilizado na mídia pelo uso de armas químicas contra a população civil.

No entanto, documentos vazados possibilitaram que em maio de 2019 se tomasse conhecimento do relatório original, “Avaliação de Engenharia dos dois cilindros observados no incidente em Douma-Sumário Executivo”, datado de fevereiro de 2019. O documento estava assinado por Ian Henderson, provável chefe do subgrupo de engenheiros da missão de investigação da OPAQ.

Ao contrário do que constava no relatório final, os inspetores haviam na verdade concluído que os dois cilindros encontrados nos escombros de locais bombardeados por tropas do governo sírio foram provavelmente lá colocados manualmente, e não atirados de helicópteros. Com isto ficava evidenciado que o incidente não passara de uma armação para incriminar Assad e justificar o ataque pelas forças da OTAN.

Do relatório original dos inspetores: Local 4: A cama: Em resumo, as observações nas cenas dos dois locais e as análise subsequentes sugerem que existe uma grande possibilidade que ambos os cilindros foram manualmente colocados nestes dois locais e não arremessados (Avaliação 33)
Cilindro com traços de cloro, em cima de uma cama em casa bombardeada \ Foto: relatório da missão de campo da OPAQ

A adulteração só foi possível porque um novo grupo foi encarregado de elaborar o relatório final, consistindo basicamente de jovens inspetores em começo de carreira na OPAQ. Com a proximidade do término do mandato do Dr. Brendan Whelan em setembro de 2018 como coordenador científico da missão de campo, ele foi instruído a repassar toda a documentação disponível ao novo grupo. Esta alteração no grupo possibilitou que adulterações nas conclusões dos inspetores de campo fossem incluídas no relatório final publicado em 1 de março de 2019.

O vazamento foi divulgado pelo jornalista britânico Peter Hitchens, no Mail on Sunday, e por Robert Fisk, no The Independent, e na sequência, pelo blogue Chacoalhando.

Ao se dar conta da manipulação, o Dr. Brendan Whelan enviou um e.mail de protesto em 22 de junho de 2019 ao chefe de gabinete da OPAQ, Robert Fairweather. A mensagem de Whelan foi vazada e publicada por Peter Hitchens e pelo Wikileaks em novembro de 2019.

A resposta do chefe de gabinete Fairweather ao e.mail enviado por Whelan consta de novo vazamento de documentos internos da OPAQ publicados pelo The Grayzone em dezembro de 2020. Fairweather não negou que o relatório fora editado, mas insistiu que o procedimento não foi ordenado pelo diretor-geral. 

Entretanto, o chefe de gabinete solicitou que o e.mail de Whelan fosse deletado por todos que o receberam. Assim, deixaria de existir um registro do protesto de Whelan. Pelo visto, nem todos aceitaram a censura, pois a reclamação de Whelan chegou ao conhecimento de Hitchkens e do Wikileaks em novembro de 2019.

Os documentos obtidos pelo The Grayzone mostram também que alguns executivos da OPAQ fizeram elogios a Whelan, por sua integridade.  Em privado, foram feitas críticas à forma como foi manipulado o relatório técnico original dos inspetores. Um destes executivos, mesmo sendo contra a adulteração do relatório técnico, expressou receio que as críticas fossem tornadas públicas “para não fortalecer a narrativa russa”.

Campanha de difamação dos inspetores

Desde a revelação da manipulação do relatório, Ian Henderson e Brendan Whelan passaram a ser submetidos a uma campanha de difamação. Seus detratores incluem o atual diretor-geral da OPAQ, embaixadores de países membros da OTAN, e supostos oficiais anônimos da OPAQ.

Em fevereiro de 2020 o The Grayzone publicou outro documento vazado, datado do mês anterior, contendo o testemunho do inspetor Ian Henderson sobre a missão Douma perante uma sessão especial do Conselho de Segurança da ONU. Henderson expôs as falhas do inquérito da OPAQ, como os principais resultados foram manipulados, e a pressão exercida pelos Estados Unidos para influenciar a investigação.

Em 6 de fevereiro o diretor-geral Fernando Arias encaminhou um documento aos Estados Partes da Convenção de Armas Químicas, em que ele apresentou suas considerações sobre os resultados do que chamou de “investigação independente sobre possíveis quebras de confidencialidade”, como resultado do vazamento de maio de 2019. Os inspetores são mencionados como A e B, e se tratam provavelmente de Henderson e Whelan.

Desde então, a campanha contra os inspetores se intensificou, inclusive no Conselho de Segurança da ONU. EUA, Reino Unido e França associaram os questionamentos feitos pelos inspetores ao relatório da OPAQ como sendo parte de uma campanha de desinformação por parte da Rússia e da Síria. Em outubro do ano passado, estes mesmos países impediram que o embaixador Bustani pudesse apresentar seu testemunho na ONU a favor dos inspetores com quem trabalhara durante sua gestão como diretor-geral da OPAQ.  

Este foi o cenário que precedeu a elaboração da carta aberta em que os signatários cobram do atual diretor-geral, mais transparência interna na OPAQ.

Declaração de Preocupação, 11 de março de 2021: Investigação da OPAQ sobre o suposto uso de armas químicas em Douma, na Síria.

“Desejamos expressar nossa profunda preocupação com a prolongada controvérsia e com as consequências políticas envolvendo a OPAQ, e sua investigação dos supostos ataques com armas químicas em Douma, na Síria, em 7 de abril de 2018.

Desde a publicação pela OPAQ de seu relatório final em março de 2019, uma série de eventos preocupantes levantaram sérias e substanciais inquietações a respeito da condução da investigação. Estes eventos incluem casos em que inspetores da OPAQ envolvidos na investigação identificaram graves irregularidades procedimentais e científicas, o vazamento de uma quantidade significativa de documentos confirmatórios, e declarações condenáveis proferidas em reuniões do Conselho de Segurança da ONU.

Está agora bem estabelecido que alguns inspetores seniores envolvidos com a investigação, um dos quais desempenhou um papel central, rejeitam como a investigação obteve suas conclusões. A gestão da OPAQ está sendo agora acusada de aceitar resultados não comprovados ou possivelmente manipulados, com sérias implicações geopolíticas e de segurança. Os apelos de alguns membros do Conselho Executivo da OPAQ para permitir que todos os inspetores fossem ouvidos foram barrados.

As preocupações dos inspetores são compartilhadas pelo primeiro diretor-geral da OPAQ, José Bustani, e um número significativo de eminentes indivíduos pediu transparência e responsabilidade por parte da OPAQ. O próprio Bustani foi recentemente impedido por membros importantes do Conselho de Segurança de participar de uma audiência sobre o dossiê sírio.

Conforme declarou o embaixador Bustani em um apelo pessoal ao diretor-geral, se a Organização está confiante na condução de sua investigação sobre Douma, então não deveria ter dificuldade em levar em conta as preocupações dos inspetores.

Até o momento, infelizmente, a alta administração da OPAQ falhou em responder adequadamente às alegações contra ela e, apesar de fazer declarações em contrário, entendemos que nunca permitiu que opiniões ou preocupações dos membros da equipe de investigação fossem ouvidas, ou mesmo encontrou-se com a maioria deles. Em vez disso, contornou a questão, ao lançar uma investigação sobre um documento vazado relacionado ao caso Douma, e ao condenar publicamente seus inspetores mais experientes por se manifestarem.

Em um preocupante acontecimento recente, foi feita a falsa alegação de que o rascunho de uma carta teria sido enviado pelo diretor-geral a um dos inspetores dissidentes, e que o mesmo fora vazado para um site de investigação1 de “fontes abertas”, em uma aparente tentativa de difamar o ex-cientista sênior da OPAQ. O site de “fontes abertas” publicou então o rascunho da carta, juntamente com a identidade do inspetor em questão.

Ainda mais alarmante, em uma série de rádio da BBC4 transmitida recentemente, uma fonte anônima, supostamente ligada à investigação de Douma pela OPAQ, deu uma entrevista à BBC que contribuiu com a tentativa de desacreditar não apenas os dois inspetores dissidentes, mas até mesmo o embaixador Bustani. É importante ressaltar que vazamentos recentes, em dezembro de 2020, evidenciaram que vários funcionários seniores da OPAQ apoiaram um inspetor da OPAQ que havia se manifestado a respeito de má conduta.

A questão ameaça prejudicar gravemente a reputação e a credibilidade da OPAQ, e minar seu papel vital na busca da paz e segurança internacionais. Simplesmente não é cabível para uma organização científica como a OPAQ recusar-se a responder abertamente às críticas e preocupações de seus próprios cientistas, e estar associada a tentativas de desacreditar e difamar estes cientistas.

Além disso, a presente controvérsia em relação ao relatório Douma também levanta preocupações com relação à confiabilidade de relatórios anteriores das missões de campo, incluindo a investigação do alegado ataque em Khan Shaykhun2 em 2017.

Acreditamos que os interesses da OPAQ são melhor atendidos com o Diretor-Geral proporcionando um fórum transparente e neutro, no qual as preocupações de todos os investigadores possam ser ouvidas, bem como garantindo que uma investigação científica e totalmente objetiva seja conduzida.

Para tanto, apelamos ao diretor-geral da OPAQ para que encontre a coragem para abordar os problemas internos da Organização relacionados com esta investigação, e garantir que os Estados-Partes e as Nações Unidas sejam informados em conformidade. Desta forma, esperamos e acreditamos que a credibilidade e integridade da OPAQ possam ser restauradas.”

Notas do autor:

  1. Trata-se do site Bellingcat, que recebe financiamento da OTAN.
  2. Em abril de 2017 ocorreu um ataque com gás sarin em Khan Shaykhun, noroeste da Síria, em que teriam morrido mais de 70 pessoas, incluindo 20 crianças
  3. O autor considera o embaixador José Maurício Bustani é um brasileiro que oferece um raro exemplo de integridade moral e coragem pessoal. Vale lembrar as ameaças de morte que ele e sua família receberam, quando era diretor-geral da OPAQ, vindas diretamente de John Bolton, então subsecretário no governo de George W. Bush. 

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Covid-19: a ética de inocular o vírus em cobaias humanas

Por Ruben Rosenthal

Mesmo com a aprovação do estudo do Imperial College pela Autoridade de Pesquisa em Saúde do Reino Unido, os testes com o vírus ativo da Covid-19 em voluntários estão gerando forte controvérsia.

Testes de inoculação em cobaias humanas com o vírus Sars-CoV2 ativo
Testes de desafio em humanos com vírus da Covid-19 \ Foto: Sigrid Gombert/Getty Images

O Imperial College de Londres está selecionando voluntários para se submeterem em breve a ensaios clínicos de “desafio em humanos” com o vírus Sars-CoV-2. Neste tipo de estudo clínico o corpo humano é desafiado pela inoculação do vírus ativo, não atenuado1.  

Os experimentos incluem aplicar em pacientes saudáveis uma vacina ainda sem eficácia comprovada, e então infectar deliberadamente os voluntários. No entanto, mesmo com a aprovação do estudo do Imperial College pela Autoridade de Pesquisa em Saúde, os testes com o vírus ativo da Covid-19 em voluntários estão gerando forte controvérsia. 

Os médicos utilizarão o vírus original que circula no Reino Unido desde março de 2020, por existirem menos informações disponíveis sobre as novas variantes. A pesquisa irá avaliar o desenvolvimento de anticorpos e a resistência à evolução da doença. Segundo o líder da pesquisa, o Dr. Chris Chiu do Departamento de Doenças Infecciosas do Imperial College, o objetivo final é testar rapidamente quais vacinas e tratamentos funcionam melhor no combate à Covid-19, acelerando seu desenvolvimento.  

Apoiada por um investimento do governo do Reino Unido de 33,6 milhões de libras esterlinas, a pesquisa será realizada por uma parceria entre Imperial College, Royal Free Hospital e a empresa clínica hVIVO. 

A investigação envolverá até 90 voluntários adultos saudáveis com idades entre 18 e 30 anos, por estes apresentarem “menor risco de complicações graves decorrentes do coronavírus”. A saúde dos participantes será monitorada em uma unidade de quarentena no Royal Free Hospital, em Londres. Os voluntários também serão acompanhados por um ano após a participação nos testes. 

A ética dos testes de desafio em cobaias humanas 

Estudos clínicos de desafio em humanos já foram realizados anteriormente para outros vírus, como o da cólera.  Existe a tendência de se considerar como éticos os estudos em que a adesão dos voluntários for espontânea, sem o cometimento de abusos ou de pressões sobre indivíduos ou outros países.  

No caso da pandemia da Covid-19, o professor e especialista em ética da Universidade de Oxford, Julian Savulescu, se declara a favor dos estudos de desafio, conforme relatado pela BBC-Brasil: “Em uma pandemia, tempo é vida. Até agora, mais de 1 milhão de pessoas morreram”.  

Por outro lado, o mesmo artigo da BBC-Brasil relata também que a professora de bioética da Escola de Medicina Albert Einstein de Nova Iorque, Ruth Macklin, considera que é eticamente injustificável “acelerar pesquisas envolvendo uma doença grave para a qual inexiste tratamento eficaz”. Esta posição é compartilhada por  Angela Rasmussen, virologista da Universidade de Columbia, que avalia que os estudos de desafio não trariam dados úteis para além do grupo participante do estudo.  

Para Christine Grady2, chefe do Departamento de Bioética do Centro Clínico no National Institutes of Health, “não está claro se os estudos clínicos de desafio irão mesmo apressar as pesquisas”, conforme artigo na Forbes.  

Willowbrook, a antítese da ética médica 

A história do desenvolvimento de vacinas no Ocidente, iniciada com a descoberta da vacina contra a varíola pelo britânico Edward Jenner em 1798, mostra que nem sempre foram atendidos os padrões éticos necessários. Uma das mais controversas pesquisas de desenvolvimento de vacinas com inoculação do vírus ativo ocorreu nos Estados Unidos, no período entre 1955 e 1970.  

Ainda segundo o mesmo artigo da Forbes, um experimento de inoculação do vírus da hepatite foi realizado em crianças com deficiências mentais da Escola Estadual de Willowbrook, Staten Island, Nova York. O estudo fora autorizado pelo Departamento de Higiene Mental do estado.  

Estudos de desafio em crianças com deficiência mental foram realizados na Escola Estadual Willowbrook, Nova Iorque
Crianças com deficiência mental serviram de cobaias em ensaios clínicos com vírus da hepatite \ Escola Estadual Willowbrook. Fotos: Bob Adelman

A busca pela vacina contra a hepatite assumira grande relevância para os Estados Unidos no começo da década de 50, com a constatação de que durante a Segunda Guerra Mundial cerca de 50.000 militares das tropas norte-americanas foram afetados pela doença causada pelos múltiplos vírus da hepatite. 

Segundo o relato da mãe de uma menina com grau severo de autismo, para conseguir uma vaga em Willowbrook, ela precisou consentir que a filha Nina se participasse dos testes de desenvolvimento da vacina contra a hepatite. A menina foi uma das 50 crianças submetidas aos estudos conduzidos pelo Dr. Saul Krugman, respeitado pediatra de Nova York. 

Os ensaios clínicos incluíram infectar as crianças, contaminando com vírus o leite achocolatado que era dado a elas. Os testes eram aplicados repetidas vezes em uma mesma criança, para avaliar o tempo para surgimento de sintomas após contágio e se a imunidade seria alcançada em caso de novas exposições ao vírus. Os resultados foram publicados no New England Journal of Medicine, na Lancet, e no Journal of the American Medical Association. 

Em 1966, o renomado médico Henry K. Beecher, especialista em ética médica, publicou um artigo em que citou Willowbrook como exemplo de experimento antiético, acrescentando “não ser correto prejudicar uma pessoa para benefício de outras”. Cinco anos depois, o comitê editorial da Lancet se desculpou “pela publicação de uma pesquisa que não traria benefício direto para as crianças infectadas”. 

O filho do Dr. Krugman, também um médico pediatra, defende o pai: “Ele certamente pensou que estava fazendo uma contribuição para a pesquisa de uma doença infecciosa”. De fato, a pesquisa realizada em Willowbrook acelerou a descoberta da vacina para a hepatite.   

No entanto, ao final da década de 60, o Dr. Baruch Blumberg descobriu de forma independente a vacina para a hepatite B, examinando amostras de sangue e testando as funções do fígado em crianças e adultos já infectados. A pesquisa rendeu a Blumberg o prêmio Nobel de Medicina.  

O experimento em Willowbrook representa apenas um dos vários estudos clínicos anti-éticos conduzidos em crianças, presidiários e grupos minoritários. Este foi o caso dos falsos tratamentos em Tuskedee para avaliar a evolução da sífilis, e que levaram à morte de centenas de negros portadores da doença, quando já existia a cura.  

Decorre então o questionamento se é realmente necessário ou correto arriscar a saúde de uns poucos para o benefício de muitos. Existe sempre o risco que motivações políticas possam relegar a um segundo plano a segurança dos voluntários envolvidos na pesquisa, na busca de resultados rápidos. Por outro lado, alguns médicos que se envolveram anteriormente nesta modalidade de ensaios clínicos com cobaias humanas cometeram abusos inaceitáveis.  

Para muitos, Saul Krugman fez a coisa certa com seus estudos em Willowbrook.  E ele recebeu a recompensa por seu trabalho, se tornando presidente da Sociedade Americana de Pediatria em 1972, mesmo após amplamente expostas  na mídia as denúncias sobre a pesquisa. 

Estudos clínicos de desafio humano deveriam requerer a aprovação e fiscalização por uma comissão de ética independente, para evitar eventuais ingerências políticas e desvios de conduta médica.  

Notas do autor 

  1. As vacinas fazem uso do vírus causador de uma doença, mas em sua forma atenuada ou inativada. 
  2. Christine Grady é esposa do Dr. Anthony Fauci, o renomado imunologista estadunidense. 

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

BBC e Reuters na guerra híbrida contra a Rússia

Por Ruben Rosenthal

Cada vez mais, BBC e Reuters vêm desempenhando um papel agressivo na demonização de governos que não seguem a cartilha imposta por Washington e Londres

Reino Unido financiou BBC e Reuters em campanha de desinformação contra a Rússia
 Monumento em homenagem a dois príncipes que expulsaram invasores. Ao fundo, a Catedral de São Basílio, Moscou

Documentos vazados por hackers, publicados em artigo de Max Bluementhal no The Grayzone em fevereiro, mostram que BBC e Reuters participaram de programas secretos do Ministério das Relações Exteriores (FCO) do Reino Unido. Através de campanhas de desinformação, os programas pretenderam enfraquecer a influência regional da Rússia, bem como minar a autoridade e desestabilizar o governo Putin. O governo britânico faz assim pleno uso de táticas da guerra híbrida, que o Ocidente tanto acusa a Rússia de praticar.

A atuação do governo britânico se deu através do Departamento de Contra Desinformação e de Desenvolvimento de Mídia (CDMD, na sigla em inglês), cujas atividades são consideradas de segurança nacional. O CDMD/FCO fez uma convocação aos veículos de comunicação interessados em atuar para “conter a narrativa do governo russo”, e “enfraquecer a influência da Rússia junto aos países vizinhos”.  

BBC e Reuters submeteram propostas ao CDMD de estabelecer redes de influência na Rússia e países vizinhos que promovessem narrativas favoráveis a OTAN. Porta-voz da Reuters confirmou a autenticidade dos documentos, argumentando, no entanto, que as atividades não seriam secretas, e que faziam parte de um “trabalho de décadas em prol da imprensa livre a nível global”.

A Reuters já fora secretamente financiada pelo governo britânico para colaborar em propaganda anti-soviética nas décadas de 60 e 70, em atuação com o serviço de inteligência M16. A informação consta de documentos oficiais que tiveram o acesso liberado em janeiro de 2020. A BBC atuou como intermediária nos pagamentos à Reuters.

Ambos os veículos de mídia declararam que o que acontecera anteriormente não mais se repetiria, pois seus princípios são fundamentados na independência e na verdade. Os novos vazamentos mostraram exatamente o contrário. Cada vez mais, BBC e Reuters vêm desempenhando um papel agressivo na demonização de governos que não seguem a cartilha imposta por Washington e Londres.

Um exemplo da cooptação da mídia, incluindo a Al Jazeera, foi revelado em outro vazamento pelo grupo de hackers Anonymous, relatado pelo Grayzone em setembro de 2020. O vazamento expôs a ação de propaganda do FCO do Reino Unido visando angariar apoio para remover Assad do poder na Síria. O mesmo grupo hacker estaria envolvido nos novos vazamentos.

A Reuters se infiltra na mídia russa

A Reuters é o setor de notícias e mídia da Thomson Reuters, a maior agência internacional de multimídia. A empresa privada está sediada em Nova Iorque, e resultou da aquisição da britânica Reuters pela canadense Thomson Corporation.

Em 2017, a Fundação Thomson Reuters submeteu uma proposta formal para participar de um contrato confidencial com o FCO, que envolvia a embaixada britânica em Moscou. Tratava-se de um projeto de capacitação da mídia russa, através de um “programa de visitas temáticas de jornalistas e influenciadores digitais russos” ao Reino Unido. A meta pretendida era de promover nos jornalistas “um impacto positivo na percepção do Reino Unido”.

Em 2019, a Reuters ingressou em programa semelhante, com o objetivo de “conter a narrativa do governo russo e sua dominação da mídia e dos meios de informação”.  O plano do governo britânico era de se infiltrar na mídia russa para propagar sua própria narrativa através dos jornalistas russos treinados no Reino Unido.

A Reuters organizou então mais visitas de jornalistas russos, para promover “os valores políticos e culturais do Reino Unido”.  A Reuters proclama ter influenciado cerca de 400 jornalistas russos através de seus programas de visitas, e de contar com 1.500 jornalistas em sua rede global de influência.

Como parte de suas atividades de desinformação, a Reuters manteve ligações com o canal de televisão Belsat, da Bielorússia. O canal tem base na Polônia e recebe fundos de governos da União Européia. Belsat teve um papel preponderante na promoção dos protestos de maio de 2020 pela saída do presidente Alexander Lukashenko. 

A BBC na campanha de desinformação contra a Rússia

A britânica BBC consiste na maior emissora pública internacional, e se apresenta como imparcial e independente. Através do setor BBC Media Action, a emissora estatal se propôs a participar de um programa secreto do CDMD/FCO britânico, de 2019 a 2022, voltado para conter a influência russa na região Báltica por meio de novos veículos de mídia pretensamente independentes, mas que promoveriam posicionamentos pró-OTAN.

A BBC se interessou em participar de outro programa de propaganda na mídia, com foco na Ucrânia, Moldávia e Geórgia. Seria formado um consórcio, que incluiria a Reuters e uma empresa de inteligência não mais existente, a Atkins Strategy.

A BBC Media Action também propôs desenvolver, junto com a Atkins, um trabalho pró-OTAN na guerra de informação em áreas de conflito, como na região de Donbas, leste da Ucrânia, onde ocorriam choques dos separatistas pró-Rússia com as forças militares do governo apoiado pelo Ocidente.

O Consórcio entre empresas de notícias e de inteligência

Dentre as empresas de inteligência que se inscreveram para participar do Consórcio custeado pelo CDMD/FCO britânico estavam a Albany Communication e a Zinc Network.

Segundo relato de Ben Norton no Grayzone, a Albany já atuara junto a setores de mídia para propagar as narrativas do Ocidente, enquanto OTAN e as monarquias do Golfo Pérsico procuravam forçar uma mudança de regime de na Síria.

A Zinc teve participação anterior em projetos clandestinos de mídia junto a comunidades mulçumanas, tanto no Reino Unido como na Austrália, como parte de estratégias de contraterrorismo. A Zinc buscou apoio para a Mediazone, um veículo de mídia anti-Putin fundado por duas participantes do grupo performático feminista de punk rock, Pussy Riot (assista a performance Reza Punk no vídeo). 

A Zinc se propôs também a reduzir a visibilidade nas buscas no Google, do site RT (ex-Russian Television), apoiado pelo governo russo. O recente vazamento também revelou que a Zinc propusera atuar no Consórcio, para ajudar influenciadores digitais a “desenvolverem estratégias editoriais no YouTube”. O objetivo era o de estabelecer uma rede de YouTubers na Rússia e na Ásia Central, que promovesse de forma camuflada a visão do Reino Unido e dos países da OTAN, enquanto pretendendo atuar na “promoção de valores democráticos e de integridade da mídia”.

Um nome que aparece relacionado aos documentos vazados é o de Vladimir Ashurkov, diretor executivo da Fundação Anti-Corrupção, FBK, capitaneada por Alexei Navalny. Navalny é opositor de Putin e o queridinho da mídia Ocidental, apesar de sua pouca representatividade política na Rússia; ele é também conhecido por seu discurso de ódio e por suas posições racistas e xenófobas (ver artigo no Chacoalhando).

Alexei Navalny é detido durante protesto em Moscou, 2018
Detenção de Alexei Navalny no protesto de maio de 2018 em Moscou \ Foto: TASS/Barcroft Images

Em 2013, Ashurkov foi filmado em encontro com um agente do M16  da inteligência britânica, em que o russo solicita de 10 a 20 milhões de dólares por ano, para modificar o cenário político.  Pouco tempo depois, Ashurkov buscou asilo no Reino Unido.

Em 2018, o nome de Ashurkov apareceu em documentos vazados divulgados pelo Grayzone, em conexão com a rede de influência Integrity Iniciative, ligada ao FCO britânico. O grupo de propaganda clandestina, composto por militares da inteligência, atuava através de influenciadores britânicos na mídia e na política. O objetivo era de estigmatizar ao máximo a Rússia por suas “intenções malignas”, e aumentar as tensões entre o Ocidente e a Rússia.

Outro parceiro da rede da Zinc no Consórcio exposto pelo vazamento de 2021 é o site Bellingcat. O site já havia interagido com Navalny para culpar a inteligência russa pelo envenenamento do opositor de Putin com o gás neurológico Novichok, conforme relatado pelo Grayzone.

Bellingcat esteve envolvido nas eleições na Macedônia do Norte, promovendo o candidato pró-OTAN, que saiu vencedor. A tática empregada incluiu acusar a Rússia de interferência nas eleições na Macedônia. Também participou da campanha de desinformação na Macedônia, o DFRlab, vinculado ao Atlantic Council, entidade que atua de forma obscura na promoção dos interesses norte-americanos. 

O artigo do Grayzone menciona que Bellingcat recebe fundos da NED, National Endowment for Democracy, entidade privada norte-americana, bancada em grande parte pelos partidos Republicano e Democrata. A NED atua na promoção de mudanças de regime político em diversos países, como fez no Brasil no governo Dilma, através da Atlas Network.

Com a veracidade dos documentos vazados plenamente comprovada, ficaram comprometidas as pretensas imparcialidade e independência da BBC e da Reuters. As duas corporações são frequentemente fontes de matérias publicadas em veículos de imprensa em diversos países. Como confiar agora na autenticidade destas matérias? 

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.