Alba, novo partido reacende a chama pela independência da Escócia

Com a independência da Escócia, o papel da Grã-Bretanha no Ocidente ficaria prejudicado, alterando a balança global de poder.

Disputa eleitoral na Escócia: Alex Salmond, pelo partido Alba e Nicola Sturgeon, pelo SNP
Sturgeon e Salmond: de aliados a rivais \ Foto: domínio público

O ex-primeiro ministro escocês Alex Salmond anunciou na sexta-feira, 26 de março, a criação do partido Alba (Escócia, em gaélico). Com o novo partido, ele espera alcançar “uma supermaioria” a favor da independência do país nas eleições de 6 de maio para o Parlamento escocês, somados os assentos do Alba e do SNP, o Partido Nacional Escocês.

Salmond liderou o SNP de 2004 a 2014, e exercia o cargo de primeiro-ministro quando a proposta de independência foi rejeitada no referendo de 2014, por 55 a 45%. Na ocasião, os partidários do voto SIM, pela independência, criticaram a interferência da mídia britânica, principalmente devido às reportagens tendenciosas da BBC. O documentário London Calling (Londres Chamando) mostra muito bem como foi a atuação tendenciosa da emissora estatal a favor da permanência da Escócia no Reino Unido.

Salmond recebeu críticas de estar causando uma divisão do movimento pró-independência ao fundar o Alba. Entretanto, muitos ativistas históricos do SNP colocam em dúvida o compromisso da atual líder do partido, a primeira-ministra Nicola Sturgeon, com a autodeterminação do povo escocês. Ela é inclusive suspeita de estar por trás das acusações de agressão sexual que recaíram sobre Salmond, e que o forçaram a se afastar do partido em 2018. Ele foi levado a julgamento, que se estendeu de 9 a 20 de março de 2020.

A conspiração contra Salmond

Conforme relato anterior no Chacoalhando, a armação contra Salmond foi exposta em grande parte devido a uma série de artigos do ex-embaixador Craig Murray, ativista de direitos humanos e pela independência da Escócia. Murray foi indiciado por exercer a liberdade de imprensa para denunciar a trama. 

Segundo Murray escreveu em seu blog, tratou-se de um caso em que testemunhas de acusação não estavam presentes nos locais onde teriam ocorrido os abusos sexuais. Além disso, foram excluídas das audiências as evidências de que haveria uma conspiração contra Salmond.

Em seus artigos, fazendo uso de um humor sarcástico, Craig Murray deu algumas pistas de quem seriam as mulheres que alegavam ter sofrido agressão por parte de Salmond. Ele levantou suspeitas de que tudo não passara de uma armação de setores bem próximos à primeira-ministra, como forma de afastar da cena política o ex-aliado e atual rival.

Em face deste e de outros artigos que publicou, Murray foi acusado e considerado culpado de desacato à Corte (contempt of Court), e está sujeito ao encarceramento e à uma multa elevada, em parecer que será proferido em audiência em 7 de maio1 . Murray já anunciou que irá recorrer à Suprema Corte do Reino Unido, em Londres.

Alex Salmond arrest - friends and enemies at Holyrood are stunned ...
Alex Salmond,  após depoimento na  Corte do Xerife de Edimburgo, jan. 2019 \ Foto: Russell Cheyne/Reuters

Quanto a Salmond, ele foi inocentado das acusações de assédio sexual, recebendo 500 mil libras esterlinas de indenização. Sturgeon foi alvo de duas investigações para determinar se ela esteve envolvida nas irregularidades constatadas no caso. Enquanto um inquérito “independente” (aspas deste autor) encaminhou por isentá-la de responsabilidade, uma comissão parlamentar concluiu que Sturgeon enganou o Parlamento em seu depoimento, conforme relatado no jornal Público, de Portugal

Sturgeon muda o rumo do SNP e das políticas de governo

Para Craig Murray, Sturgeon nunca teve a intenção de alcançar a independência da Escócia.  Nas conferências do SNP, a palavra “independência” sequer aparecia na agenda. Na eleição de 2016 para Holyrood, o Parlamento escocês, Sturgeon declarou que queria que os adeptos da união com o Reino Unido se sentissem seguros em votar pelo SNP.

No entanto, o governo havia prometido em manifesto de 2016, que faria um novo referendo caso ocorresse “uma mudança substantiva nas circunstâncias”. Em 2018, com o voto dos escoceses por larga maioria a favor da permanência na União Européia, contrariamente à opção majoritária no Reino Unido pelo Brexit, estava colocada a circunstância ideal para justificar a convocação de um novo referendo, o Indyref2. O SNP havia declarado diversas vezes que a Escócia não seria tirada na União Européia contra a sua vontade. Chegara a hora da ação ou melhor, a hora da verdade

Em 31 de janeiro de 2020, no mesmo dia em que terminou o período de transição do Brexit, Sturgeon fez um discurso  em que anunciou que acatava a decisão de Boris Johnson, que negara a realização do referendo. Johnson fizera uso da Seção 302 da legislação da Devolução (Scottish Devolution), em que estão estabelecidas as limitações dos poderes do Parlamento escocês.

Para Craig Murray, o governo conservador (de Boris Johnson) não irá nunca conceder a autorização para um referendo que ele sabe que irá perder. Aceitar que o Parlamento de Westminster tenha o poder de veto é totalmente incompatível com o direito à autodeterminação, garantido pela carta da ONU, complementou. 

Murray lembra ainda que a Corte Internacional de Justiça estipulou que o fator principal que determina se um Estado pode ou não se tornar independente não é a legislação do país que poderá sofrer o desmembramento. Se assim fosse, a Estônia não teria se separado da antiga União Soviética, e a Slovênia, da antiga Iugoslávia.

Para consumo interno e aplacar o descontentamento no SNP, Sturgeon se apropriou de uma sugestão que Craig Murray apresentara quatro anos antes, em 2016. Ela convidaria os representantes eleitos na Escócia em todos os níveis – Parlamento local, Westminster, Parlamento Europeu, e líderes dos Conselhos locais – a se reunirem e endossar uma moderna Proclamação de Direitos, através de uma Convenção ConstitucionalNo entanto, a proposta de convocar uma Convenção Nacional logo foi deixada de lado, evidenciando que Sturgeon nunca pretendeu efetivar a medida, avalia Murray.

 O ex-embaixador do Reino Unido critica ainda a mudança na política externa promovida no governo Sturgeon. Foi rompido o enfoque tradicional do SNP de apoio à causa palestina. Passou a haver um alinhamento com a política neo-imperialista de Boris Johnson, como no apoio à narrativa contra a Rússia no caso da Ucrânia, e do uso do agente neurológico Novichok3 (ver no Chacoalhando).

O mesmo ocorreu em relação à Síria, no caso falacioso de uso de armas químicas em Douma (ver no Chacolhando). O líder do SNP no Parlamento de Westminster, Ian Blackford, chegou a pedir para o Reino Unido promover a mudança de regime na Síria.

Murray relata ainda em seu artigo que em 24 de março, dois parlamentares escoceses em Westminster alinhados com Sturgeon, solicitaram uma reunião  com o MI5, o serviço de segurança interna britânico. O objetivo seria discutir a cooperação contra a Rússia. Entretanto, a agência é também encarregada de lidar com situações vistas como ameaça ao Estado, como o nacionalismo escocês e os movimentos ambientalista e antinuclear.

Como Alex Salmond tem um programa na RT, canal russo de notícias em inglês, é possível que o MI5 tente criar uma narrativa de que Salmond esteja atuando em benefício dos interesses russos, em oposição aos do Reino Unido.

Após 14 anos no poder, o SNP deixou de ser um partido com cunho radical, conforme passou a receber os carreiristas que antes estavam vinculados ao Partido Trabalhista. Para estes, não vale a pena apoiar a independência do país e se arriscar a perder as mordomias do poder, avalia Murray. O novo SNP passou a priorizar a política de gênero, se afastando das causas tradicionais. O começo de novos caminhos alternativos pode estar na eleição de 6 de maio, com o voto no Partido Alba.

Alba e a volta de Salmond à cena política

Com a formação do Partido Alba, Salmond fez um retorno retumbante ao  cenário político. No lançamento do partido em 26 de março ele declarou, conforme relatado pelo jornal Público: “Os objetivos estratégicos do partido são claros e inequívocos: conseguir um país independente, bem-sucedido, socialmente justo e ecologicamente responsável. Queremos contribuir para políticas que ajudem na recuperação econômica da Escócia e que construam uma plataforma independentista, para encarar as novas realidades políticas”.

Declaração para a Escócia, 6 de abril de 2021

Segue trecho do discurso de Alex Salmond (assista ao vídeo) no aniversário de 701 anos da Declaração de Arbroath, a Declaração de Independência da Escócia.

“Proclamamos aqui o direito soberano do povo escocês de determinar a forma de governo mais adequada às suas necessidades, e declaramos e nos comprometemos que, em todas as nossas ações, os interesses (do povo) serão primordiais. ”Declaramos e nos comprometemos ainda que nossas deliberações serão direcionadas para os fins seguintes:

– Assegurar o direito soberano do povo escocês em agir através de seu Parlamento para assegurar a independência.

– Mobilizar a opinião escocesa e internacional para assegurar que este direito seja respeitado e cumprido.

Salmond apresentou rotas alternativas que poderão ser utilizadas para se alcançar a independência, a partir do estabelecimento de uma Convenção para Independência, composta dos representantes eleitos em todos os níveis.

Segundo ele, as cartas nas negociações com o governo do Reino Unido poderão incluir o referendo, em concordância com o que é estipulado pela Seção 30, mas também um plebiscito ou outro procedimento democrático, assim como uma ação judicial interna ou internacional, iniciativas diplomáticas, além de manifestações populares pacíficas.

Escócia: Declaração de Arbroath, com os selos de autentificação
Detalhe da Declaração de Arbroath, com os selos de autenticação, 6 de abril de 1320 \ Arquivo Nacional da Escócia

A independência da Escócia e a geopolítica internacional

Quando do referendo de 2014, o britânico George Robertson ex-secretário geral da OTAN  disse que a fragmentação da Grã-Bretanha corresponderia a um cataclismo. Em sua avaliação, como o Reino Unido é o principal aliado de Washington no cenário global, o Ocidente ficaria desfalcado de um sério parceiro, no momento em que a intimidação territorial continuada requer “solidez e sangue frio”.

Robertson alertou que com a independência da Escócia, o papel da Grã-Bretanha no Ocidente ficaria prejudicado, alterando a balança global de poder. Ele lembrou ainda que, quando da campanha para o referendo, o SNP prometera remover do oeste da Escócia a frota de submarinos Trident, da Grã-Bretanha. Com certeza este é um compromisso que o Partido Alba irá encampar. 

Notas do autor:

  1. Mensagens de repúdio ao processo político movido contra Craig Murray podem ser enviadas ao procurador geral do escritório da Coroa: The Right Honourable James Wolffe, Her Majesty’s advocate, pelo e.mail: PDCAseriouscasework@copfs.gov.uk
  2. Legislação de 1998 do Reino Unido referente ao Estatuto da Devolução estabelece, na Seção 30, que qualquer iniciativa de ampliação dos poderes do Parlamento da Escócia precisa passar pelo crivo de Westminster. Em março de 2017, o governo escocês solicitou a realização de um segundo referendo de independência, que foi recusado. Em 2019, Nicola Sturgeon renovou o pedido, também sem sucesso.
  3. A Rússia foi acusada de usar o agente neurológico Novichok contra o ex-espião Sergei Skripal e o opositor Alexei Navalny.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Chocolate de Páscoa com recheio de trabalho infantil

Por Ruben Rosenthal

Os problemas estruturais que causam o trabalho infantil nas plantações de cacau só podem ser resolvidos através de cooperação entre os governos dos países produtores e consumidores, indústria e organizações não governamentais. 

Grande parte do chocolate consumido no mundo é produzido com cacau obtido com trabalho infantil
Chocolate produzido com exploração do trabalho infantil \ Foto: The New Daily

A Páscoa judaica celebra a libertação dos escravos hebreus do Egito. A Páscoa cristã celebra a ressurreição de Jesus, e incorporou a crença pagã de associar ao ovo uma simbologia de renascimento; com os confeiteiros franceses foi introduzido o costume dos ovos de chocolate. Mas o chocolate consumido na Páscoa cristã está associado a práticas de escravidão e de exploração de trabalho infantil de risco em países produtores de cacau. As crianças da África Ocidental ainda aguardam por uma Páscoa que possam comemorar em liberdade.

Alguns dos países produtores, como Gana e Costa do Marfim, resolveram tomar medidas unilaterais para conseguir melhores preços para as safras dos grãos de cacau. A intenção é de reverter a pobreza no campo, principal causadora do trabalho infantil. No entanto, a reação de parte da indústria foi negativa e colocou em rota de colisão países fornecedores de matéria-prima e multinacionais do chocolate. 

A cadeia produtiva: do cacau ao chocolate

A indústria de chocolate rende 100 bilhões de dólares anuais, cabendo à Gana cerca de 2 bilhões e à Costa do Marfim, 4 bilhões. Estes dois países respondem por 2/3 da produção mundial de cacau. No entanto, o cultivo está associado à baixa remuneração dos agricultores, ao trabalho infantil, e vem causando destruição de florestas para aumento da produção.

Com a concentração internacional do mercado de cacau, grande parte das atividades é controlada pelo Big Chocolate, o pequeno grupo de transnacionais que inclui empresas processadoras dos grãos e fabricantes de chocolate.

O cacau de Gana e da Costa do Marfim é geralmente adquirido por empresas processadoras dos grãos como a suíça Barry Callebaut, Cargill, ECOM e Olam. Dentre as principais empresas que produzem chocolate incluem-se a Nestlé, Hershey, Mars, Ferrero, além da própria Barry Callebaut.

Trabalho infantil nas fazendas de cacau

Segundo estudo de pesquisadores brasileiros, as violações de direitos humanos na cadeia produtiva de cacau na África Ocidental estão diretamente relacionadas com a atuação das empresas multinacionais. A estrutura oligopolista dessas grandes empresas e o grande poder de barganha que possuem no mercado mundial contribuiriam para a perpetuação de um círculo vicioso de pobreza, e assim, para o aumento do trabalho infantil na produção de cacau.

Muitas destas crianças são oriundas de outros países, onde foram vendidas por seus pais. Por outro lado, a situação de pobreza nas fazendas de cacau requer por vezes que os próprios filhos dos donos das plantações se envolvam na colheita, deixando assim de frequentar a escola.

A estimava do Fórum Internacional de Direitos do Trabalho (ILRF, na sigla em inglês) é de que na África Ocidental o número de crianças em situação de trabalho infantil no setor de cacau esteja entre 500.000 e 1.500.000. Nas atividades extrativas, crianças costumam lidar com ferramentas de corte afiadas e com o uso de pesticidas.

criança faz trabalho de risco na colheita do cacau
Criança usando facão na colheita do cacau, África Ocidental, 2015 \ Foto: Daniel Rosenthal/Laif

O pequeno tamanho dos lotes familiares também não ajuda na obtenção de uma remuneração digna com a venda dos grãos. A maioria das plantações tem tamanho inferior a 10 hectares (0,1km quadrados). Um produtor que dispõe de uma extensão de terra equivalente a 2 hectares e produtividade média, ganha cerca de U$755,30 por ano na Costa do Marfim e U$ 983,12 em Gana. Por vezes  os produtores se associam em cooperativas de até 500 membros, conforme também relatado no estudo brasileiro. 

O trabalho infantil na indústria de chocolate começou a chamar a atenção da comunidade internacional em 2000, quando o documentário da BBCSlavery: a Global Investigation (Escravidão: uma Investigação Global) expôs os abusos praticados em Gana e na Costa do Marfim. Neste documentário foi relatado que centenas de milhares de crianças de Burquina Faso, Máli e Togo estavam sendo compradas de suas famílias, e vendidas como escravas para agricultores na Costa do Marfim.

A pressão internacional

Em resposta à indignação da comunidade internacional, grandes empresas da indústria de chocolate desenvolveram políticas para a cadeia produtiva. Uma iniciativa vinda do setor privado se deu através das organizações Fair Trade (Comércio Justo), que procuram garantir que cadeias globais e empresas transnacionais não desrespeitem direitos humanos e sociais. Os produtos passariam a receber certificados de “livre de trabalho infantil”, e de que o produtor recebeu um preço justo pela matéria prima.

O setor privado promoveu diversas outras iniciativas voltadas para a questão social na base da pirâmide da cadeia produtora do chocolate. International Cocoa Initiative (ICI), World Cocoa Foundation, Roundtable for a Sustainable Cocoa Economy e Bill&Melinda Gates Foundation foram algumas das organizações que estiveram envolvidas com projetos. Algumas empresas, como a suíça Nestlé e a britânica Cadbury, lançaram seus próprios planos.

Entretanto, conforme relatado pela plataforma online Swissinfo.ch, um estudo conduzido pela Universidade de Chicago verificou que o trabalho infantil na cadeia de fornecimento do cacau na Costa do Marfim e em Gana aumentou de 31 para 45% entre 2008 e 2019, apesar do compromisso das multinacionais do Big Chocolate em erradicar esta prática nas regiões de cultivo.

A indústria agora avalia que “as metas foram definidas sem uma compreensão total da complexidade e da escala de um desafio fortemente associado à pobreza na África rural”. Para a ICI, “uma das lições aprendidas é que não funciona a abordagem que pune agricultores por usarem seus filhos para ajudar na colheita, quando são poucas as alternativas”. Além disso, os rendimentos dos agricultores ficam ao sabor dos preços globais de mercado, que despencam quando a safra é mais abundante.

Novas abordagens no combate ao trabalho infantil

A Unicef está incentivando a indústria a investir em saúde, alimentação e educação para romper com o ciclo de pobreza. E parte da indústria parece estar aderindo a esta visão, segundo relatado pelo swiss.co. A Nestlé se comprometeu em priorizar saneamento, água e igualdade de gênero em seu Plano do Cacau; a empresa também declarou que está construindo escolas em algumas aldeias.

Ainda segundo a matéria,  empresa Barry Callebaut desenvolve um projeto que está ajudando os agricultores a aproveitarem melhor suas terras, utilizando parte delas para cultivo de produtos agrícolas de subsistência e criação de pequenos animais, como galinhas. Desta forma não haveria dependência econômica exclusivamente no comércio de cacau.

Por outro lado, o governo suíço está investindo em parcerias com a indústria suíça do cacau e com ONGs, como parte da Plataforma Suíça para o Cacau Sustentável (SWISSCO), fundada em 2018.

A escala destas iniciativas é que determinará sua efetividade na solução dos problemas sociais e econômicos que envolvem os países produtores de cacau da África Ocidental. No entanto, alguns governantes africanos não estão dispostos a aguardar mais tempo pelo resultados das iniciativas vindas da indústria do chocolate.

A queda de braço com o Big Chocolate

Gana e Costa do Marfim resolveram impor unilateralmente a partir de outubro de 2020, um adicional de 400 dólares no preço da tonelada de grão. A taxa denominada “diferencial de condição de vida” (LID, na abreviatura em inglês) possibilitaria aos fazendeiros, enviar os filhos para a escola, arcar com despesas médicas e uma melhor alimentação.

Para alguns dos grandes produtores e comerciantes de chocolate existe de fato a preocupação que seus nomes não estejam associados com aumento de pobreza, trabalho infantil e degradação ambiental. A empresa suíça Barry Callebaut, maior compradora mundial de cacau, apoiou com cautela a nova taxa.

Entretanto, algumas reações foram negativas. Para Michiel Hendriksz, ex-comerciante de commodities, a imposição da taxa extra de 400 dólares está fadada ao fracasso. Conforme ele relatou ao Financial Times, “a LID seria uma má jogada de pôquer por quem não deveria jogar”. Para Hendriksz, “seria melhor usar parte das terras para plantar produtos agrícolas voltados para alimentação, e com isto reduzir a produção do cacau, fazendo os preços subirem”. 

Em carta enviada ao Financial Times, publicada em 1 de dezembro, Gana e Costa do Marfim acusaram produtores de chocolate de agir de má fé para não pagar a taxa LID. Foram citadas na carta as empresas Mars, Hershey e Olam, além de quatro pequenos comerciantes de cacau, que se defenderam das acusações. 

O presidente de Gana dobra a aposta

Em 28 de fevereiro deste ano, em discurso histórico perante os membros do Conselho Federal da Confederação Suíça, o presidente de Gana anunciou (ver vídeo) que seu país não quer continuar a ser dependente da exportação de matéria prima. O presidente Nana Akufo-Addo acrescentou que, “no caso do cacau, a intenção é de incrementar o processamento em Gana visando produzir mais chocolate no país”.

Após enaltecer a contribuição da Suíça com o desenvolvimento de Gana, o presidente foi taxativo ao afirmar que “não poderá haver prosperidade no futuro para o povo de Gana se forem mantidas as atuais estruturas econômicas”. Acrescentou ainda que a intenção de seu governo é de “adicionar valor agregado às matérias-primas do país, industrializar e aumentar a produção agrícola”. Ou seja, não mais exportar cacau sem beneficiamento prévio dos grãos.

Discurso do Presidente Nana Akufo-Addo anunciando a mudança na política para o cacau
Presidente de Gana anuncia para o Conselho da Suíça, a nova política para o cacau, 28 de fevereiro de 2021

Ainda são imprevisíveis os efeitos que a nova política – se for implementada a fundo, poderá trazer para a produção do chocolate suíço e para o mercado internacional de chocolate. Gana é o maior exportador de grãos de cacau para a Suíça, e o segundo produtor mundial, atrás apenas da Costa do Marfim.

O presidente Nana Akufo-Addo precisará fazer uso de uma visão sistêmica para conseguir trazer benefícios efetivos para o setor cacaueiro de seu país. Um caminho a considerar é contornar a intermediação das Trade Houses, as empresas de comércio que lidam com importação e exportação de commodities.  

Por um lado, é arriscado colocar todas as cartas no chocolate Made in Gana. O país não possui uma indústria de leite de porte suficiente, o que obrigaria recorrer à importação. Além disso, o custo da eletricidade é elevado, o que encareceria o preço final do chocolate, devido à necessidade do uso de refrigeração na fabricação e conservação.

O beneficiamento mais simples seria moer os grãos de cacau em Gana antes da exportação. Outra possibilidade seria produzir o licor e a manteiga de cacau, que não precisam ser mantidos em refrigeração. Iniciativas como a da Barry Callebaut de incentivar a diversificação da produção nas terras agriculturáveis, se aplicadas em larga escala nos países produtores, podem resultar em melhores preços de venda do cacau no mercado internacional. Ficará alterado poder de barganha com as multinacionais do Big Chocolate.

Mas na queda de braço com o Big Chocolate, os países produtores contam com aliados. Em 12 de fevereiro foi aberta uma ação na capital norte-americana pela organização International Rights Advocates (IRA) a favor de oito jovens adultos originalmente do Mali que, quando crianças, haviam sido forçados a trabalhar sem pagamento em plantações na Costa do Marfim. A ação foi movida contra a Nestlé, Mondelez, Cargill, Barry Callebaut, Mars, Olam e Hershey. Se defendendo,  as empresas proclamam estar comprometidas com a erradicação do trabalho infantil na cadeia de suprimento do cacau.

Para Nicko Debenham, chefe de sustentabilidade da Barry Callebaut, os problemas estruturais que causam o trabalho infantil nas plantações de cacau só podem ser resolvidos através de cooperação entre os governos dos países produtores e consumidores, indústria e organizações não governamentais. 

Enquanto isso, no Brasil…

Em artigo de novembro de 2019 publicado pelo Brasil de Fato, foi relatado que as multinacionais Nestlé, Mondelez, Barry Callebaut, Cargill e Olam Brasil exploram o trabalho infantil e o trabalho escravo em lavouras de cacau na Bahia e no Pará. As empresas já foram notificadas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), mas não assumiram responsabilidade pelo problema.

E a propósito, qual o recheio do ovo de chocolate que você comprou para esta Páscoa?

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo Blogue Chacoalhando.  

Armas químicas na Síria: manifesto denuncia armação contra o presidente Assad

Por Ruben Rosenthal

Simplesmente não é cabível para uma organização científica como a OPAQ recusar-se a responder abertamente às críticas e preocupações de seus próprios cientistas, e estar associada a tentativas de desacreditar e difamar estes cientistas. 

Governo sírio bombardeia áreas controladas pelos rebeldes em Douma, 6 de abril de 2018
Conflito em Douma, 6 de abril de 2018, véspera do suposto ataque com armas químicas \ Foto: SIPA EUA/AP

O embaixador brasileiro José Maurício de Figueiredo Bustani, primeiro diretor-geral da OPAQ, a Organização para a Prevenção de Armas Químicas, lidera uma carta aberta encaminhada ao atual diretor-geral, o espanhol Fernando Arias. O manifesto de 11 de março clama pelo esclarecimento das controvérsias acerca da investigação sobre o suposto uso de armas químicas em Douma, na Síria, em 2018.

O relatório preparado pelos inspetores da missão de campo (Fact Find Mission) enviada a Douma foi adulterado para incriminar o presidente sírio Bashar al-Assad; a farsa só foi descoberta porque o relatório original foi vazado. Na sequência, inspetores que defenderam o respeito às conclusões da missão de campo tiveram a credibilidade e idoneidade atacadas.

Para os signatários da carta, “o caso em questão ameaça prejudicar seriamente a reputação e credibilidade da OPAQ, e abalar seu papel vital de busca da segurança e da paz internacional”. O manifesto encabeçado pelo embaixador Bustani é apoiado por ex-inspetores da OPAQ, além de renomados acadêmicos, intelectuais, políticos, jornalistas e cineastas de diversos países.

Para melhor entendimento do conteúdo da carta, cuja tradução é reproduzida neste artigo, é necessário apresentar antes um breve histórico dos eventos ocorridos até agora.

O uso de armas químicas em Douma

Em 7 de abril de 2018, tropas sírias engajadas no combate a rebeldes islâmicos fechavam o cerco à cidade de Douma, leste de Damasco. Foi quando chegaram aos lares, em todo o mundo, cenas de civis espumando pela boca e aparentemente sufocando até a morte pela suposta inalação de um gás letal. As fotos e filmagens foram feitas pela Defesa Civil Síria-Capacetes Brancos, grupo fundado por James Le Measurier, apoiador dos jihadistas.

Crianças usando máscaras para inalar oxigênio, após suposto ataque com gases químicos em Douma, Síria.. A foto foi obtida pela Defesa Civil Síria-Capacetes Brancos, grupo fundado por James Le Mesurier, que tinha vínculos com extremistas jihadistas.
Criança recebendo oxigênio através de máscara, após suposto ataque com gás cloro em Douma \ Foto: Defesa Civil Síria-Capacetes Brancos, via AP

Mesmo antes da comprovação de qualquer responsabilidade do governo sírio, mísseis cruise dos Estados Unidos foram lançados contra a Síria, com apoio do Reino Unido e da França. Em 21 de abril uma missão de investigação da OPAQ foi enviada a Douma. No relatório final publicado pela OPAQ em 1 de março de 2019 constava que os dois cilindros contendo resíduos de gás cloro, encontrados em destroços em Douma, foram atirados de helicópteros. Como o espaço aéreo era controlado pelo governo sírio, o mesmo foi imediatamente responsabilizado na mídia pelo uso de armas químicas contra a população civil.

No entanto, documentos vazados possibilitaram que em maio de 2019 se tomasse conhecimento do relatório original, “Avaliação de Engenharia dos dois cilindros observados no incidente em Douma-Sumário Executivo”, datado de fevereiro de 2019. O documento estava assinado por Ian Henderson, provável chefe do subgrupo de engenheiros da missão de investigação da OPAQ.

Ao contrário do que constava no relatório final, os inspetores haviam na verdade concluído que os dois cilindros encontrados nos escombros de locais bombardeados por tropas do governo sírio foram provavelmente lá colocados manualmente, e não atirados de helicópteros. Com isto ficava evidenciado que o incidente não passara de uma armação para incriminar Assad e justificar o ataque pelas forças da OTAN.

Do relatório original dos inspetores: Local 4: A cama: Em resumo, as observações nas cenas dos dois locais e as análise subsequentes sugerem que existe uma grande possibilidade que ambos os cilindros foram manualmente colocados nestes dois locais e não arremessados (Avaliação 33)
Cilindro com traços de cloro, em cima de uma cama em casa bombardeada \ Foto: relatório da missão de campo da OPAQ

A adulteração só foi possível porque um novo grupo foi encarregado de elaborar o relatório final, consistindo basicamente de jovens inspetores em começo de carreira na OPAQ. Com a proximidade do término do mandato do Dr. Brendan Whelan em setembro de 2018 como coordenador científico da missão de campo, ele foi instruído a repassar toda a documentação disponível ao novo grupo. Esta alteração no grupo possibilitou que adulterações nas conclusões dos inspetores de campo fossem incluídas no relatório final publicado em 1 de março de 2019.

O vazamento foi divulgado pelo jornalista britânico Peter Hitchens, no Mail on Sunday, e por Robert Fisk, no The Independent, e na sequência, pelo blogue Chacoalhando.

Ao se dar conta da manipulação, o Dr. Brendan Whelan enviou um e.mail de protesto em 22 de junho de 2019 ao chefe de gabinete da OPAQ, Robert Fairweather. A mensagem de Whelan foi vazada e publicada por Peter Hitchens e pelo Wikileaks em novembro de 2019.

A resposta do chefe de gabinete Fairweather ao e.mail enviado por Whelan consta de novo vazamento de documentos internos da OPAQ publicados pelo The Grayzone em dezembro de 2020. Fairweather não negou que o relatório fora editado, mas insistiu que o procedimento não foi ordenado pelo diretor-geral. 

Entretanto, o chefe de gabinete solicitou que o e.mail de Whelan fosse deletado por todos que o receberam. Assim, deixaria de existir um registro do protesto de Whelan. Pelo visto, nem todos aceitaram a censura, pois a reclamação de Whelan chegou ao conhecimento de Hitchkens e do Wikileaks em novembro de 2019.

Os documentos obtidos pelo The Grayzone mostram também que alguns executivos da OPAQ fizeram elogios a Whelan, por sua integridade.  Em privado, foram feitas críticas à forma como foi manipulado o relatório técnico original dos inspetores. Um destes executivos, mesmo sendo contra a adulteração do relatório técnico, expressou receio que as críticas fossem tornadas públicas “para não fortalecer a narrativa russa”.

Campanha de difamação dos inspetores

Desde a revelação da manipulação do relatório, Ian Henderson e Brendan Whelan passaram a ser submetidos a uma campanha de difamação. Seus detratores incluem o atual diretor-geral da OPAQ, embaixadores de países membros da OTAN, e supostos oficiais anônimos da OPAQ.

Em fevereiro de 2020 o The Grayzone publicou outro documento vazado, datado do mês anterior, contendo o testemunho do inspetor Ian Henderson sobre a missão Douma perante uma sessão especial do Conselho de Segurança da ONU. Henderson expôs as falhas do inquérito da OPAQ, como os principais resultados foram manipulados, e a pressão exercida pelos Estados Unidos para influenciar a investigação.

Em 6 de fevereiro o diretor-geral Fernando Arias encaminhou um documento aos Estados Partes da Convenção de Armas Químicas, em que ele apresentou suas considerações sobre os resultados do que chamou de “investigação independente sobre possíveis quebras de confidencialidade”, como resultado do vazamento de maio de 2019. Os inspetores são mencionados como A e B, e se tratam provavelmente de Henderson e Whelan.

Desde então, a campanha contra os inspetores se intensificou, inclusive no Conselho de Segurança da ONU. EUA, Reino Unido e França associaram os questionamentos feitos pelos inspetores ao relatório da OPAQ como sendo parte de uma campanha de desinformação por parte da Rússia e da Síria. Em outubro do ano passado, estes mesmos países impediram que o embaixador Bustani pudesse apresentar seu testemunho na ONU a favor dos inspetores com quem trabalhara durante sua gestão como diretor-geral da OPAQ.  

Este foi o cenário que precedeu a elaboração da carta aberta em que os signatários cobram do atual diretor-geral, mais transparência interna na OPAQ.

Declaração de Preocupação, 11 de março de 2021: Investigação da OPAQ sobre o suposto uso de armas químicas em Douma, na Síria.

“Desejamos expressar nossa profunda preocupação com a prolongada controvérsia e com as consequências políticas envolvendo a OPAQ, e sua investigação dos supostos ataques com armas químicas em Douma, na Síria, em 7 de abril de 2018.

Desde a publicação pela OPAQ de seu relatório final em março de 2019, uma série de eventos preocupantes levantaram sérias e substanciais inquietações a respeito da condução da investigação. Estes eventos incluem casos em que inspetores da OPAQ envolvidos na investigação identificaram graves irregularidades procedimentais e científicas, o vazamento de uma quantidade significativa de documentos confirmatórios, e declarações condenáveis proferidas em reuniões do Conselho de Segurança da ONU.

Está agora bem estabelecido que alguns inspetores seniores envolvidos com a investigação, um dos quais desempenhou um papel central, rejeitam como a investigação obteve suas conclusões. A gestão da OPAQ está sendo agora acusada de aceitar resultados não comprovados ou possivelmente manipulados, com sérias implicações geopolíticas e de segurança. Os apelos de alguns membros do Conselho Executivo da OPAQ para permitir que todos os inspetores fossem ouvidos foram barrados.

As preocupações dos inspetores são compartilhadas pelo primeiro diretor-geral da OPAQ, José Bustani, e um número significativo de eminentes indivíduos pediu transparência e responsabilidade por parte da OPAQ. O próprio Bustani foi recentemente impedido por membros importantes do Conselho de Segurança de participar de uma audiência sobre o dossiê sírio.

Conforme declarou o embaixador Bustani em um apelo pessoal ao diretor-geral, se a Organização está confiante na condução de sua investigação sobre Douma, então não deveria ter dificuldade em levar em conta as preocupações dos inspetores.

Até o momento, infelizmente, a alta administração da OPAQ falhou em responder adequadamente às alegações contra ela e, apesar de fazer declarações em contrário, entendemos que nunca permitiu que opiniões ou preocupações dos membros da equipe de investigação fossem ouvidas, ou mesmo encontrou-se com a maioria deles. Em vez disso, contornou a questão, ao lançar uma investigação sobre um documento vazado relacionado ao caso Douma, e ao condenar publicamente seus inspetores mais experientes por se manifestarem.

Em um preocupante acontecimento recente, foi feita a falsa alegação de que o rascunho de uma carta teria sido enviado pelo diretor-geral a um dos inspetores dissidentes, e que o mesmo fora vazado para um site de investigação1 de “fontes abertas”, em uma aparente tentativa de difamar o ex-cientista sênior da OPAQ. O site de “fontes abertas” publicou então o rascunho da carta, juntamente com a identidade do inspetor em questão.

Ainda mais alarmante, em uma série de rádio da BBC4 transmitida recentemente, uma fonte anônima, supostamente ligada à investigação de Douma pela OPAQ, deu uma entrevista à BBC que contribuiu com a tentativa de desacreditar não apenas os dois inspetores dissidentes, mas até mesmo o embaixador Bustani. É importante ressaltar que vazamentos recentes, em dezembro de 2020, evidenciaram que vários funcionários seniores da OPAQ apoiaram um inspetor da OPAQ que havia se manifestado a respeito de má conduta.

A questão ameaça prejudicar gravemente a reputação e a credibilidade da OPAQ, e minar seu papel vital na busca da paz e segurança internacionais. Simplesmente não é cabível para uma organização científica como a OPAQ recusar-se a responder abertamente às críticas e preocupações de seus próprios cientistas, e estar associada a tentativas de desacreditar e difamar estes cientistas.

Além disso, a presente controvérsia em relação ao relatório Douma também levanta preocupações com relação à confiabilidade de relatórios anteriores das missões de campo, incluindo a investigação do alegado ataque em Khan Shaykhun2 em 2017.

Acreditamos que os interesses da OPAQ são melhor atendidos com o Diretor-Geral proporcionando um fórum transparente e neutro, no qual as preocupações de todos os investigadores possam ser ouvidas, bem como garantindo que uma investigação científica e totalmente objetiva seja conduzida.

Para tanto, apelamos ao diretor-geral da OPAQ para que encontre a coragem para abordar os problemas internos da Organização relacionados com esta investigação, e garantir que os Estados-Partes e as Nações Unidas sejam informados em conformidade. Desta forma, esperamos e acreditamos que a credibilidade e integridade da OPAQ possam ser restauradas.”

Notas do autor:

  1. Trata-se do site Bellingcat, que recebe financiamento da OTAN.
  2. Em abril de 2017 ocorreu um ataque com gás sarin em Khan Shaykhun, noroeste da Síria, em que teriam morrido mais de 70 pessoas, incluindo 20 crianças
  3. O autor considera o embaixador José Maurício Bustani é um brasileiro que oferece um raro exemplo de integridade moral e coragem pessoal. Vale lembrar as ameaças de morte que ele e sua família receberam, quando era diretor-geral da OPAQ, vindas diretamente de John Bolton, então subsecretário no governo de George W. Bush. 

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Covid-19: a ética de inocular o vírus em cobaias humanas

Por Ruben Rosenthal

Mesmo com a aprovação do estudo do Imperial College pela Autoridade de Pesquisa em Saúde do Reino Unido, os testes com o vírus ativo da Covid-19 em voluntários estão gerando forte controvérsia.

Testes de inoculação em cobaias humanas com o vírus Sars-CoV2 ativo
Testes de desafio em humanos com vírus da Covid-19 \ Foto: Sigrid Gombert/Getty Images

O Imperial College de Londres está selecionando voluntários para se submeterem em breve a ensaios clínicos de “desafio em humanos” com o vírus Sars-CoV-2. Neste tipo de estudo clínico o corpo humano é desafiado pela inoculação do vírus ativo, não atenuado1.  

Os experimentos incluem aplicar em pacientes saudáveis uma vacina ainda sem eficácia comprovada, e então infectar deliberadamente os voluntários. No entanto, mesmo com a aprovação do estudo do Imperial College pela Autoridade de Pesquisa em Saúde, os testes com o vírus ativo da Covid-19 em voluntários estão gerando forte controvérsia. 

Os médicos utilizarão o vírus original que circula no Reino Unido desde março de 2020, por existirem menos informações disponíveis sobre as novas variantes. A pesquisa irá avaliar o desenvolvimento de anticorpos e a resistência à evolução da doença. Segundo o líder da pesquisa, o Dr. Chris Chiu do Departamento de Doenças Infecciosas do Imperial College, o objetivo final é testar rapidamente quais vacinas e tratamentos funcionam melhor no combate à Covid-19, acelerando seu desenvolvimento.  

Apoiada por um investimento do governo do Reino Unido de 33,6 milhões de libras esterlinas, a pesquisa será realizada por uma parceria entre Imperial College, Royal Free Hospital e a empresa clínica hVIVO. 

A investigação envolverá até 90 voluntários adultos saudáveis com idades entre 18 e 30 anos, por estes apresentarem “menor risco de complicações graves decorrentes do coronavírus”. A saúde dos participantes será monitorada em uma unidade de quarentena no Royal Free Hospital, em Londres. Os voluntários também serão acompanhados por um ano após a participação nos testes. 

A ética dos testes de desafio em cobaias humanas 

Estudos clínicos de desafio em humanos já foram realizados anteriormente para outros vírus, como o da cólera.  Existe a tendência de se considerar como éticos os estudos em que a adesão dos voluntários for espontânea, sem o cometimento de abusos ou de pressões sobre indivíduos ou outros países.  

No caso da pandemia da Covid-19, o professor e especialista em ética da Universidade de Oxford, Julian Savulescu, se declara a favor dos estudos de desafio, conforme relatado pela BBC-Brasil: “Em uma pandemia, tempo é vida. Até agora, mais de 1 milhão de pessoas morreram”.  

Por outro lado, o mesmo artigo da BBC-Brasil relata também que a professora de bioética da Escola de Medicina Albert Einstein de Nova Iorque, Ruth Macklin, considera que é eticamente injustificável “acelerar pesquisas envolvendo uma doença grave para a qual inexiste tratamento eficaz”. Esta posição é compartilhada por  Angela Rasmussen, virologista da Universidade de Columbia, que avalia que os estudos de desafio não trariam dados úteis para além do grupo participante do estudo.  

Para Christine Grady2, chefe do Departamento de Bioética do Centro Clínico no National Institutes of Health, “não está claro se os estudos clínicos de desafio irão mesmo apressar as pesquisas”, conforme artigo na Forbes.  

Willowbrook, a antítese da ética médica 

A história do desenvolvimento de vacinas no Ocidente, iniciada com a descoberta da vacina contra a varíola pelo britânico Edward Jenner em 1798, mostra que nem sempre foram atendidos os padrões éticos necessários. Uma das mais controversas pesquisas de desenvolvimento de vacinas com inoculação do vírus ativo ocorreu nos Estados Unidos, no período entre 1955 e 1970.  

Ainda segundo o mesmo artigo da Forbes, um experimento de inoculação do vírus da hepatite foi realizado em crianças com deficiências mentais da Escola Estadual de Willowbrook, Staten Island, Nova York. O estudo fora autorizado pelo Departamento de Higiene Mental do estado.  

Estudos de desafio em crianças com deficiência mental foram realizados na Escola Estadual Willowbrook, Nova Iorque
Crianças com deficiência mental serviram de cobaias em ensaios clínicos com vírus da hepatite \ Escola Estadual Willowbrook. Fotos: Bob Adelman

A busca pela vacina contra a hepatite assumira grande relevância para os Estados Unidos no começo da década de 50, com a constatação de que durante a Segunda Guerra Mundial cerca de 50.000 militares das tropas norte-americanas foram afetados pela doença causada pelos múltiplos vírus da hepatite. 

Segundo o relato da mãe de uma menina com grau severo de autismo, para conseguir uma vaga em Willowbrook, ela precisou consentir que a filha Nina se participasse dos testes de desenvolvimento da vacina contra a hepatite. A menina foi uma das 50 crianças submetidas aos estudos conduzidos pelo Dr. Saul Krugman, respeitado pediatra de Nova York. 

Os ensaios clínicos incluíram infectar as crianças, contaminando com vírus o leite achocolatado que era dado a elas. Os testes eram aplicados repetidas vezes em uma mesma criança, para avaliar o tempo para surgimento de sintomas após contágio e se a imunidade seria alcançada em caso de novas exposições ao vírus. Os resultados foram publicados no New England Journal of Medicine, na Lancet, e no Journal of the American Medical Association. 

Em 1966, o renomado médico Henry K. Beecher, especialista em ética médica, publicou um artigo em que citou Willowbrook como exemplo de experimento antiético, acrescentando “não ser correto prejudicar uma pessoa para benefício de outras”. Cinco anos depois, o comitê editorial da Lancet se desculpou “pela publicação de uma pesquisa que não traria benefício direto para as crianças infectadas”. 

O filho do Dr. Krugman, também um médico pediatra, defende o pai: “Ele certamente pensou que estava fazendo uma contribuição para a pesquisa de uma doença infecciosa”. De fato, a pesquisa realizada em Willowbrook acelerou a descoberta da vacina para a hepatite.   

No entanto, ao final da década de 60, o Dr. Baruch Blumberg descobriu de forma independente a vacina para a hepatite B, examinando amostras de sangue e testando as funções do fígado em crianças e adultos já infectados. A pesquisa rendeu a Blumberg o prêmio Nobel de Medicina.  

O experimento em Willowbrook representa apenas um dos vários estudos clínicos anti-éticos conduzidos em crianças, presidiários e grupos minoritários. Este foi o caso dos falsos tratamentos em Tuskedee para avaliar a evolução da sífilis, e que levaram à morte de centenas de negros portadores da doença, quando já existia a cura.  

Decorre então o questionamento se é realmente necessário ou correto arriscar a saúde de uns poucos para o benefício de muitos. Existe sempre o risco que motivações políticas possam relegar a um segundo plano a segurança dos voluntários envolvidos na pesquisa, na busca de resultados rápidos. Por outro lado, alguns médicos que se envolveram anteriormente nesta modalidade de ensaios clínicos com cobaias humanas cometeram abusos inaceitáveis.  

Para muitos, Saul Krugman fez a coisa certa com seus estudos em Willowbrook.  E ele recebeu a recompensa por seu trabalho, se tornando presidente da Sociedade Americana de Pediatria em 1972, mesmo após amplamente expostas  na mídia as denúncias sobre a pesquisa. 

Estudos clínicos de desafio humano deveriam requerer a aprovação e fiscalização por uma comissão de ética independente, para evitar eventuais ingerências políticas e desvios de conduta médica.  

Notas do autor 

  1. As vacinas fazem uso do vírus causador de uma doença, mas em sua forma atenuada ou inativada. 
  2. Christine Grady é esposa do Dr. Anthony Fauci, o renomado imunologista estadunidense. 

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

BBC e Reuters na guerra híbrida contra a Rússia

Por Ruben Rosenthal

Cada vez mais, BBC e Reuters vêm desempenhando um papel agressivo na demonização de governos que não seguem a cartilha imposta por Washington e Londres

Reino Unido financiou BBC e Reuters em campanha de desinformação contra a Rússia
 Monumento em homenagem a dois príncipes que expulsaram invasores. Ao fundo, a Catedral de São Basílio, Moscou

Documentos vazados por hackers, publicados em artigo de Max Bluementhal no The Grayzone em fevereiro, mostram que BBC e Reuters participaram de programas secretos do Ministério das Relações Exteriores (FCO) do Reino Unido. Através de campanhas de desinformação, os programas pretenderam enfraquecer a influência regional da Rússia, bem como minar a autoridade e desestabilizar o governo Putin. O governo britânico faz assim pleno uso de táticas da guerra híbrida, que o Ocidente tanto acusa a Rússia de praticar.

A atuação do governo britânico se deu através do Departamento de Contra Desinformação e de Desenvolvimento de Mídia (CDMD, na sigla em inglês), cujas atividades são consideradas de segurança nacional. O CDMD/FCO fez uma convocação aos veículos de comunicação interessados em atuar para “conter a narrativa do governo russo”, e “enfraquecer a influência da Rússia junto aos países vizinhos”.  

BBC e Reuters submeteram propostas ao CDMD de estabelecer redes de influência na Rússia e países vizinhos que promovessem narrativas favoráveis a OTAN. Porta-voz da Reuters confirmou a autenticidade dos documentos, argumentando, no entanto, que as atividades não seriam secretas, e que faziam parte de um “trabalho de décadas em prol da imprensa livre a nível global”.

A Reuters já fora secretamente financiada pelo governo britânico para colaborar em propaganda anti-soviética nas décadas de 60 e 70, em atuação com o serviço de inteligência M16. A informação consta de documentos oficiais que tiveram o acesso liberado em janeiro de 2020. A BBC atuou como intermediária nos pagamentos à Reuters.

Ambos os veículos de mídia declararam que o que acontecera anteriormente não mais se repetiria, pois seus princípios são fundamentados na independência e na verdade. Os novos vazamentos mostraram exatamente o contrário. Cada vez mais, BBC e Reuters vêm desempenhando um papel agressivo na demonização de governos que não seguem a cartilha imposta por Washington e Londres.

Um exemplo da cooptação da mídia, incluindo a Al Jazeera, foi revelado em outro vazamento pelo grupo de hackers Anonymous, relatado pelo Grayzone em setembro de 2020. O vazamento expôs a ação de propaganda do FCO do Reino Unido visando angariar apoio para remover Assad do poder na Síria. O mesmo grupo hacker estaria envolvido nos novos vazamentos.

A Reuters se infiltra na mídia russa

A Reuters é o setor de notícias e mídia da Thomson Reuters, a maior agência internacional de multimídia. A empresa privada está sediada em Nova Iorque, e resultou da aquisição da britânica Reuters pela canadense Thomson Corporation.

Em 2017, a Fundação Thomson Reuters submeteu uma proposta formal para participar de um contrato confidencial com o FCO, que envolvia a embaixada britânica em Moscou. Tratava-se de um projeto de capacitação da mídia russa, através de um “programa de visitas temáticas de jornalistas e influenciadores digitais russos” ao Reino Unido. A meta pretendida era de promover nos jornalistas “um impacto positivo na percepção do Reino Unido”.

Em 2019, a Reuters ingressou em programa semelhante, com o objetivo de “conter a narrativa do governo russo e sua dominação da mídia e dos meios de informação”.  O plano do governo britânico era de se infiltrar na mídia russa para propagar sua própria narrativa através dos jornalistas russos treinados no Reino Unido.

A Reuters organizou então mais visitas de jornalistas russos, para promover “os valores políticos e culturais do Reino Unido”.  A Reuters proclama ter influenciado cerca de 400 jornalistas russos através de seus programas de visitas, e de contar com 1.500 jornalistas em sua rede global de influência.

Como parte de suas atividades de desinformação, a Reuters manteve ligações com o canal de televisão Belsat, da Bielorússia. O canal tem base na Polônia e recebe fundos de governos da União Européia. Belsat teve um papel preponderante na promoção dos protestos de maio de 2020 pela saída do presidente Alexander Lukashenko. 

A BBC na campanha de desinformação contra a Rússia

A britânica BBC consiste na maior emissora pública internacional, e se apresenta como imparcial e independente. Através do setor BBC Media Action, a emissora estatal se propôs a participar de um programa secreto do CDMD/FCO britânico, de 2019 a 2022, voltado para conter a influência russa na região Báltica por meio de novos veículos de mídia pretensamente independentes, mas que promoveriam posicionamentos pró-OTAN.

A BBC se interessou em participar de outro programa de propaganda na mídia, com foco na Ucrânia, Moldávia e Geórgia. Seria formado um consórcio, que incluiria a Reuters e uma empresa de inteligência não mais existente, a Atkins Strategy.

A BBC Media Action também propôs desenvolver, junto com a Atkins, um trabalho pró-OTAN na guerra de informação em áreas de conflito, como na região de Donbas, leste da Ucrânia, onde ocorriam choques dos separatistas pró-Rússia com as forças militares do governo apoiado pelo Ocidente.

O Consórcio entre empresas de notícias e de inteligência

Dentre as empresas de inteligência que se inscreveram para participar do Consórcio custeado pelo CDMD/FCO britânico estavam a Albany Communication e a Zinc Network.

Segundo relato de Ben Norton no Grayzone, a Albany já atuara junto a setores de mídia para propagar as narrativas do Ocidente, enquanto OTAN e as monarquias do Golfo Pérsico procuravam forçar uma mudança de regime de na Síria.

A Zinc teve participação anterior em projetos clandestinos de mídia junto a comunidades mulçumanas, tanto no Reino Unido como na Austrália, como parte de estratégias de contraterrorismo. A Zinc buscou apoio para a Mediazone, um veículo de mídia anti-Putin fundado por duas participantes do grupo performático feminista de punk rock, Pussy Riot (assista a performance Reza Punk no vídeo). 

A Zinc se propôs também a reduzir a visibilidade nas buscas no Google, do site RT (ex-Russian Television), apoiado pelo governo russo. O recente vazamento também revelou que a Zinc propusera atuar no Consórcio, para ajudar influenciadores digitais a “desenvolverem estratégias editoriais no YouTube”. O objetivo era o de estabelecer uma rede de YouTubers na Rússia e na Ásia Central, que promovesse de forma camuflada a visão do Reino Unido e dos países da OTAN, enquanto pretendendo atuar na “promoção de valores democráticos e de integridade da mídia”.

Um nome que aparece relacionado aos documentos vazados é o de Vladimir Ashurkov, diretor executivo da Fundação Anti-Corrupção, FBK, capitaneada por Alexei Navalny. Navalny é opositor de Putin e o queridinho da mídia Ocidental, apesar de sua pouca representatividade política na Rússia; ele é também conhecido por seu discurso de ódio e por suas posições racistas e xenófobas (ver artigo no Chacoalhando).

Alexei Navalny é detido durante protesto em Moscou, 2018
Detenção de Alexei Navalny no protesto de maio de 2018 em Moscou \ Foto: TASS/Barcroft Images

Em 2013, Ashurkov foi filmado em encontro com um agente do M16  da inteligência britânica, em que o russo solicita de 10 a 20 milhões de dólares por ano, para modificar o cenário político.  Pouco tempo depois, Ashurkov buscou asilo no Reino Unido.

Em 2018, o nome de Ashurkov apareceu em documentos vazados divulgados pelo Grayzone, em conexão com a rede de influência Integrity Iniciative, ligada ao FCO britânico. O grupo de propaganda clandestina, composto por militares da inteligência, atuava através de influenciadores britânicos na mídia e na política. O objetivo era de estigmatizar ao máximo a Rússia por suas “intenções malignas”, e aumentar as tensões entre o Ocidente e a Rússia.

Outro parceiro da rede da Zinc no Consórcio exposto pelo vazamento de 2021 é o site Bellingcat. O site já havia interagido com Navalny para culpar a inteligência russa pelo envenenamento do opositor de Putin com o gás neurológico Novichok, conforme relatado pelo Grayzone.

Bellingcat esteve envolvido nas eleições na Macedônia do Norte, promovendo o candidato pró-OTAN, que saiu vencedor. A tática empregada incluiu acusar a Rússia de interferência nas eleições na Macedônia. Também participou da campanha de desinformação na Macedônia, o DFRlab, vinculado ao Atlantic Council, entidade que atua de forma obscura na promoção dos interesses norte-americanos. 

O artigo do Grayzone menciona que Bellingcat recebe fundos da NED, National Endowment for Democracy, entidade privada norte-americana, bancada em grande parte pelos partidos Republicano e Democrata. A NED atua na promoção de mudanças de regime político em diversos países, como fez no Brasil no governo Dilma, através da Atlas Network.

Com a veracidade dos documentos vazados plenamente comprovada, ficaram comprometidas as pretensas imparcialidade e independência da BBC e da Reuters. As duas corporações são frequentemente fontes de matérias publicadas em veículos de imprensa em diversos países. Como confiar agora na autenticidade destas matérias? 

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Crise EUA-Irã: general norte-americano fomenta a tensão no Golfo Pérsico

Por Ruben Rosenthal

O general McKenzie se contentará em ser um observador da evolução das negociações entre Estados Unidos e Irã sobre o acordo nuclear ou tentará sabotá-las, com a ajuda de Israel?

General Kenneth McKenzie, Comandante militar do CENTCOM, o Comando Central dos Estados Unidos
General Kenneth McKenzie, Comandante do CENTCOM

Com o intuito de aumentar sua influência e poder no meio militar o general Kenneth Franklin McKenzie Jr., chefe do CENTCOM¹ – Comando Central dos Estados Unidos, procurou acirrar a crise EUA-Irã. O objetivo do general foi trazer de volta o foco militar principal dos EUA para o Golfo Pérsico e Oriente Médio, área de atuação de seu Comando.

Com astúcia ímpar, Frank McKenzie soube usar a mídia, mesmo ao custo de elevar as tensões no Golfo Pérsico a níveis próximos da confrontação militar direta. O risco seria ainda maior caso Israel se aproveitasse de uma crise fabricada artificialmente para acender o pavio, através de um ataque camuflado de falsa bandeira (false flag). A região entraria em conflito bélico, do qual Israel provavelmente não hesitaria em participar, atacando alvos estratégicos iranianos. 

Os líderes iranianos têm sabido responder a provocações, sem deixar a crise escalar a ponto de tornar-se irreversível a deflagração de um confronto generalizado. As retaliações contra os EUA, como após o assassinato do general Soleimani em janeiro de 2020, têm ocorrido no campo da guerra híbrida, sem o envolvimento direto de contingentes iranianos e sim de ações de milícias parceiras, como o Hezbollah. 

Artigo do historiador e jornalista investigativo Gareth Porter² no The Grayzone revela detalhes de como o general McKenzie vem atuando por ambição pessoal, desde que assumiu o comando do CENTCOM em março de 2019. Porter relata como nas últimas semanas do governo Trump, McKenzie fomentou as tensões EUA-Irã, sem que tivessem partido de Teerã ameaças concretas às tropas norte-americanas estacionadas no Oriente Médio. 

Para alcançar seus objetivos o general McKenzie precisava reverter a estratégia de segurança nacional do governo Trump, voltada para a competição com a Rússia e a China, “países que desafiam os interesses, influência e o poder norte-americano”. 

Mais armas e tropas para conter o Irã

Em maio de 2019, o general já recomendava pela volta a uma maior presença de forças dos EUA no Oriente Médio para ajudar na contenção de ameaças iranianas, conforme publicado pelo Wall Street Journal. Além de tropas, foi solicitado o envio do porta-aviões USS Abraham Lincoln, bombardeiros e um sistema antimísseis. O USS Abraham Lincoln permaneceria no Golfo Pérsico até novembro do mesmo ano 

Em junho de 2019, McKenzie declarou à imprensa que “a ameaça representada pelo Irã fora estabilizada…. mas que os perigos permaneciam reais e um ataque poderia ser iminente”. O novo artigo no Wall Street Journal acrescentou que McKenzie estava pretendendo expandir ainda mais o poderio militar estadunidense na região para conter o Irã. 

Em 31 de dezembro, o Hezbollah cometeu um atentado contra o complexo da embaixada dos EUA em Bagdá, em retaliação contra ataques aéreos dos EUA dias antes. Foi exatamente este ataque à embaixada que levou Trump a ordenar a ação que resultou no assassinato do general iraniano Soleimani no início de 2020, e as retaliações subsequentes pelo Irã.

McKenzie tentou manter o máximo de tropas na ocupação no Iraque, com o pretexto do combate ao ISIS. Entretanto, com o assassinato de Soleimani o Iraque pediu a retirada de todas as tropas norte-americanas do país. Ao mesmo tempo, milícias alinhadas com o Irã aumentaram os ataques, inclusive o que foi efetuado com foguetes contra o Campo Taji em 11 de março, e que resultou na morte de dois militares norte-americanos. 

Em 13 de março, Frank McKenzie testemunhou perante um comitê do Senado norte-americano. Quando da audiência, o general já estava por completar 12 meses à frente do CENTCOM. O ataque que ocorrera na véspera da audiência desafiara a noção de que a ameaça representada pelo Irã aos interesses norte-americanos havia sido contida.   

O testemunho foi divulgado pelo setor de mídia do CENTCOM. O general McKenzie apresentou um relatório das ações bélicas realizadas por Teerã ou milícias parceiras contra alvos norte-americanos ou de seus aliados regionais. 

O general foi questionado pelos senadores sobre a incapacidade das 14.000 tropas adicionais enviadas à região em conter o Irã e seus apoiadores, que prosseguiam nos ataques contra alvos norte-americanos e nações aliadas. Cerca de 90.000 tropas se encontravam então sob o controle do Comando Central dos EUA. 

Em resposta, McKenzie declarou que a nível de estado-estado a contenção do Irã fora alcançada. E que, mesmo não havendo então risco iminente de ataques diretos de mísseis vindos do Irã, as ações iranianas continuariam de forma indireta através dos parceiros de Teerã.

No decorrer de 2020, parte das 90.000 tropas sob a jurisdição do Comando Central foram enviadas para a Ásia Oriental ou Europa, conforme relatado por Porter em seu artigo. Esta mudança estava em linha com a prioridade da administração Trump na competição com a China e Rússia, e não mais na “guerra ao terror”.      

Os ataques das milícias contra bases norte-americanas aumentaram entre março e agosto de 2020. Pressionado, McKenzie se viu então obrigado a retirar suas tropas e repassar as bases para o controle do Iraque. Conforme relatado no PODER360, McKenzie anunciou em setembro que o contingente no Iraque seria reduzido de 5.200 para 3.000 militares. Mas também em setembro o porta-aviões USS Nimitz entrou no Golfo Pérsico, o primeiro após a partida do USS Abraham Lincoln.

Em meados de novembro, Trump decidiu reduzir ainda mais as tropas no Afeganistão e Iraque, passando o contingente em cada país para 2.500 militares, conforme relatado por Gareth Porter. McKenzie e seus aliados resolveram  então que chegara a hora de acirrar ainda mais a crise com o Irã, fomentando o temor de que o país estava planejando atacar alvos norte-americanos. 

Cronologia do agravamento das tensões EUA-Irã

16/11/2020: O New York Times publicou que setores militares estavam preocupados com possíveis ataques, coincidindo com o primeiro aniversário da morte de Soleimani em janeiro de 2021. Na ocasião, Trump foi desaconselhado por seus assessores mais próximos a atacar instalações nucleares do Irã, para evitar um conflito em larga escala.

17/11/2020: O Washington Post bateu na mesma tecla do aumento das tensões com Teerã, após novo ataque de milícias pró-Irã contra o complexo da embaixada dos EUA em Bagdá. O artigo cita declarações de um “oficial sênior dos EUA que falou na condição de anonimato”, sobre os riscos de ataques preventivos ao Irã. 

Stratofortress B-52 bombers, Arsenal Plane, and weapons
Fortaleza voadora B-52H, Força Aérea dos EUA \ Foto: sargento técnico Robert J. Horstman

21/11/2020: Um esquadrão com duas fortalezas voadoras B-52 voou para o Golfo Pérsico, tendo como única justificativa por parte do Comando Central dos EUA, a proximidade com o aniversário do assassinato de Soleimani. 

07/12/2020: McKenzie prosseguiu com seu trabalho junto à mídia. Um “oficial sênior, com conhecimento na região” ressaltou a necessidade de um novo esquadrão de caças a jato e a permanência do USS Nimitz na região. A agência Associated Press citou que “um oficial sênior dos EUA, com conhecimento na região”, declarou que o Irã poderia tirar proveito da retirada de tropas do Iraque e do Afeganistão. 

10/12/2020: De forma provocativa, bombardeiros B-52 sobrevoaram o Golfo Pérsico em uma região próxima ao espaço aéreo do Irã, aumentando a tensão entre os dois países. A matéria foi publicada no New York Times com o título: “Para conter ataques iranianos às tropas dos EUA, o Pentágono ordena voos de B-52 ao Oriente Médio”. 

20/12/2020: Ocorreram ataques com foguetes na chamada zona verde da capital iraquiana, que chegaram a atingir o complexo da embaixada norte-americana sem, no entanto, causar vítimas. O site do CENTCOM atribuiu o ataque a grupos de milícias apoiadas pelo Irã. 

21/12/2020: A marinha dos EUA anunciou que o submarino nuclear USS Georgia, que pode levar até 154 mísseis Tomahawk, e dois cruzadores com mísseis guiados atravessaram o estreito de Hormuz, entrando no Golfo Pérsico.  Mais uma vez foi levantada por “oficiais dos EUA” a possibilidade do Irã aproveitar o aniversário do assassinato do general Soleimani para atacar alvos norte-americanos. 

22/12/2020: Na sequência do ataque com foguetes à embaixada dos EUA em Bagdá, Frank Mckenzie procurou o jornalista Luiz Martinez da ABC News. Conforme transcrito no site do CENTCOM, o general declarou que acreditava no risco de ataques por parte de grupos xiitas apoiados pelos iranianos, com a intenção de forçar a saída das tropas norte-americanas do Iraque, mas que o Irã não deseja a guerra com os EUA. 

30/12/2020: O Secretário de Defesa Christopher Miller decidiu não estender a permanência do porta-aviões Nimitz no Golfo Pérsico, desta forma enviando um sinal a Teerã da intenção dos EUA de amainar a crise, segundo a CNN. McKenzie, em posição contrária a de Miller,  vinha pressionando pela não retirada do Nimitz da região.

Entretanto, também em 30 de dezembro bombardeiros B-52 se dirigiram ao Golfo Pérsico, em mais uma demonstração de força pelos Estados Unidos. McKenzie foi enfático ao declarar que “sua intenção era deixar evidente a capacidade de resposta a qualquer agressão dirigida contra os interesses norte-americanos”. 

Ainda segundo a CNN as mensagens conflitantes poderiam refletir divisões internas no Pentágono. Um “oficial sênior da defesa” (não identificado) declarou que “não existe qualquer evidência que sugira a iminência de um ataque pelo Irã”. Já outro “oficial militar sênior”, também não identificado, destacou que “estamos vendo planejamentos (pelos iranianos) que poderão matar vários norte-americanos”. 

General McKenzie consegue que o Secretário de Defesa Christopher Miller reverta sua decisão de retirar o porta-aviões Nimitz do Golfo Pérsico
Tripulantes do porta-aviões Nimitz em momento de contemplação no Golfo Pérsico \ Foto: Mario Tama/Getty Images

03/01/2021: O Pentágono decide que o porta-aviões Nimitz deve permanecer no Golfo Pérsico devido à “ameaça” iraniana. Miller foi forçado a reverter sua decisão, no que representou uma vitória significativa para McKenzie.  

07/01/2021: Ocorre outro sobrevoo de fortalezas B-52 no Golfo, apesar de não terem ocorrido quaisquer incidentes no aniversário do assassinato de Soleimani. Nova vitória de McKenzie sobre o Secretário de Estado Miller. 

14/01/2021: O Pentágono informou que Israel passaria a integrar a estrutura do CENTCOM, saindo do EUCOM, o Comando Europeu dos Estados Unidos, conforme noticiado pelo Wall Street Journal. Agora o CENTCOM não poderia mais alegar desconhecimento quando Israel atacar alvos na Síria e Iraque, analisou o Jerusalem Post Com esta mudança ao final de seu governo, Trump espera prejudicar as negociações sobre o acordo nuclear que Joe Biden anunciou que pretendia retomar.

Biden e o acordo nuclear com o Irã

A administração Biden resolveu que já era hora do Nimitz retornar aos Estados Unidos. No entanto, as missões dos B-52 no Golfo ainda seriam mantidas como demonstração de força, segundo relato no New York Times em 1 de fevereiro. O artigo acrescentou ainda que o especialista Robert Malley será enviado ao Irã para abrir negociações sobre a questão do enriquecimento de urânio e das atuais sanções econômicas.

Esta mudança na política norte-americana desagradou a Israel. O general israelense Aviv Kochavi alertou Biden para não retomar o acordo nuclear, e ao mesmo tempo ordenou que suas forças aumentassem os preparativos para possíveis ações futuras contra o Irã. 

Resta ver como Frank Mckenzie e seus apoiadores no Pentágono irão lidar com a possibilidade de um um alívio nas tensões entre Estados Unidos e Irã que, se concretizado, diminuiria a influência de McKenzie. O general se contentará em ser um observador da evolução das negociações entre Estados Unidos e Irã sobre o acordo nuclear ou tentará sabotá-las, com a ajuda de Israel? 

Notas do autor. 

  1. O CENTCOM está sediado na Base Aérea de MacDill, Flórida. Trata-se de um comando unificado de combate, abrangendo uma área de responsabilidade que inclui a região conhecida como Chifre da África, o Oriente Médio, o Golfo Pérsico, a Ásia Central e partes do Sul da Ásia, em um total de 28 países, com a entrada de Israel.
  2. Gareth Porter recebeu o Prêmio Martha Gellhorn de jornalismo em 2012. 

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

EUA: Hora da verdade para o Partido Democrata e seus progressistas

Por Ruben Rosenthal

O atual bipartidarismo que vem prevalecendo nas eleições desde a fundação do país pode estar agora com os dias contados, com a formação  de novos partidos que atendam às demandas de setores de esquerda e de direita que não concordam com as políticas de Democratas ou Republicanos. 

Sem-teto descansam nos bancos no interior da Igreja de São Bonifácio, em São Francisco
Moradores de rua repousam nos bancos da Igreja de São Bonifácio, São Francisco \ Foto: David Levene / The Guardian

Caso os Democratas se omitam em relação a questões prioritárias que afligem amplos setores da população norte-americana, o caminho ficará aberto para a perda do controle de ambas as Casas do Legislativo em 2022, e para a volta de Trump em 2024 ou de alguém tão ou mais extremista que ele. O povo norte-americano não perdoará os Democratas, caso se sinta enganado por promessas não cumpridas. 

Superado o trauma da tomada do Capitólio pela turba de apoiadores de Trump, o Partido Democrata precisará lidar com a nova realidade política que prevalece agora no país, com o resultado das eleições de 2020. Acabaram os pretextos do Partido para não submeter projetos ou encaminhar votações que poderiam ser derrubadas pelos Republicanos no Senado, ou vetadas no Executivo.  

Entretanto, boa parte dos parlamentares Democratas tem tendência de centro ou de direita, e certamente não tomará a iniciativa de propor as medidas sociais e econômicas que são necessárias no momento. Por outro lado, os parlamentares que se assumem como progressistas deveriam defender as causas populares contra os interesses das grandes corporações.  Mas até que ponto é apenas performático o posicionamento de esquerda de alguns destes parlamentares? 

O jornalista Glenn Greenwald tuitou que um aspecto positivo dos Democratas assumirem o controle político do Executivo e do Legislativo é que isto irá mostrar com mais clareza a que eles realmente se propõem. “Poderão usar desculpas como em 2008-2010, mas o foco estará neles”, acrescentou Greenwald. No referido período, Barack Obama ocupava a Presidência e os Democratas tinham maioria no Congresso. 

A esquerda Democrata

Seguindo-se às recentes eleições e já definida a nova realidade do controle político nos Estados Unidos, a deputada progressistAlexandria Ocasio-Cortez (AOC) fez uso do Twitter para sugerir as principais questões que poderiam ser agora objeto de pressão. Ela elencou a retroatividade do auxílio-Covid, justiça climática, assistência à saúde, direito ao voto, fim da pena de morte e o cancelamento dos débitos estudantis. Mas algumas vozes do campo progressista têm questionado sobre o real comprometimento de AOC e de outros Democratas do campo progressista com as causas populares.   

AOC faz parte do chamado Esquadrão, cujos membros originais incluíam ainda as deputadas Ayanna Presley, Ilhan Omar e Rachida Tlaib, e que agora recebeu mais algumas adesões com as eleições de 2020.  O comitê de ação política Justice Democrats (Democratas da Justiça) ajudou a eleger AOC em 2018. O comitê está recrutando candidatos progressistas para as eleições de 2022, visando reformar o Partido Democrata através do crescimento do Esquadrão. Os Democratas da Justiça acreditam que é mais viável a tentativa de transformar o Partido de dentro, do que fundar um partido de esquerda que seja competitivo.   

No site do comitê, as duas primeiras propostas são o Green New Deal (Economia Verde) e o Medicare for All (Assistência de Saúde para Todos). O atual artigo irá focar nestas duas propostas, bem como em uma questão fundamental que o Esquadrão não está elencando como prioritária: a necessidade de se neutralizar o predomínio de juízes conservadores na Suprema Corte do país, alcançado através de doações ocultas de bilionários e de grandes corporações.  

Green New Deal

O projeto do Green New Deal se trata de uma ambiciosa proposta para uma Economia Verde, introduzida através da Resolução 109 na Câmara de Representantes por AOC, e no Senado (Resolução 59), por Edward J. Markey, também do Partido Democrata. 

Segundo relato no The New York Times, a expressão Green New Deal partiu do grupo ativista jovem Sunrise Movement, que promoveu uma ocupação em frente ao gabinete da deputada Democrata Nancy Pelosi. AOC se juntou aos manifestantes em apoio às propostas, que evoluíram para a Resolução 109. 

A proposta da Economia Verde defende o desenvolvimento sustentável sem degradação ambiental, com foco no aquecimento global e nos combustíveis limpos. Também está incluído o combate aos problemas de desigualdade econômica e à injustiça racial. Conforme explicitado na Resolução 109, uma sociedade gerida pela Economia Verde precisaria lidar com a opressão das comunidades vulneráveis, como povos indígenas, comunidades de cor, imigrantes, trabalhadores com baixos salários, mulheres, idosos, pessoas com formas de incapacitação e jovens. 

Com o Senado então sob o controle dos Republicanos, o líder da maioria Mitch McConnell encaminhou a votação da Resolução 59, sem conceder tempo para que as discussões fossem aprofundadas. Agora a Câmara e Senado poderão retomar a discussão. Durante a campanha, Joe Biden defendeu sua própria concepção de um plano para uma “Revolução de Energia Limpa e Justiça Ambiental”, mas sem incluir o aspecto social presente no Green New Deal.

No entanto, AOC agora parece defender o que ela chama de “justiça climática”. Trata-se de uma definição vaga, que não esclarece se a justiça social que era contemplada pelo Green New Deal também está incluída. 

Medicare for All

A proposta de um programa público de Assistência Médica para Todos foi encaminhada ao Senado por Bernnie Sanders, e à Câmara, pela deputada Pramila Jayapal, presidente da frente progressista no Congresso. Artigo recente no The New York Times defende que os Democratas deveriam se limitar a um projeto de saúde menos ambicioso, que não traga deficit ao orçamento. 

É fato bem conhecido que muitos congressistas Democratas defendem os interesses das grandes corporações, e não apoiariam um sistema público e universal de saúde. Documentos vazados de lobistas que foram publicados pelo The Intercept revelaram que a indústria da saúde interferiu junto ao Partido Democrata para que o plano Medicare for All ficasse de fora da plataforma eleitoral de 2020. Joe Biden e Kamala Harris receberam vultosas doações de campanha do setor privado de saúde. 

#ForceTheVote

Nos últimos meses de 2020 a líder da maioria na Câmara, a Democrata Nancy Pelosi, se recusou a colocar em votação no plenário o projeto do Medicare for All, com o argumento de que não haveria a menor possibilidade de aprovação. AOC concordou com Pelosi, defendendo que seria melhor focar no salário mínimo de 15 dólares/hora.

Conforme já relatado em artigo anterior, a questão vem dividindo o setor progressista, com fortes críticas ao Esquadrão  vindas do YouTuber Jimmy Dore  de Briahna J. Gray, ex-secretária de imprensa de Bernie Sanders. Dore ironiza no vídeo que AOC expressou no Twitter que “uma votação pode criar pressão política real para forçar eventos”, defendendo assim que o impeachment de Trump na Câmara poderia exercer pressão sobre os senadores a fazer o mesmo. Mas que ela foi contra pressionar por uma votação do Medicare for All, mesmo com uma maioria expressiva dos eleitores Democratas  se posicionando favoravelmente ao plano público de saúde.

Deputada AOC foi favorável a votar pelo impeachment de Trump usando de argumentos que poderiam valer também para por em votação o Medicare for All, que ela se recusou a apoiar.
YouTuber Jimmy Dore mostra as contradições da deputada Alexandria Ocasio-Cortez \ The Jimmy Dore Show.

Alexandria Ocasio-Cortez já foi defensora do Medicare for All, mas agora ela se coloca no Twitter a favor de algo genérico como “assistência à saúde”, sem prestar qualquer satisfação aos apoiadores da  campanha do #ForceTheVote, promovida por vários dos movimentos de base que a elegeram.  

Em relação à defesa que AOC faz do salário mínimo de 15 dólares/hora, faltou a deputada explicitar se este mesmo salário se aplicaria também aos prisioneiros, muitos deles submetidos a trabalho forçado em condições de escravidão moderna, com salários inferiores a 1 dólar/hora em média.

Reforma da Suprema Corte

Através de uma articulação cuidadosamente planejada e que já vinha sendo conduzida há cerca de 20 anos, os juízes conservadores poderão exercer total controle da Suprema Corte norte-americana pelas próximas décadas. Em artigo anterior do blog já foram apresentados diversos aspectos desta polêmica questão. 

O senador Whitehouse publicou em fevereiro de 2020 artigo no Harvard Law Journal  on Legislation (HLJL), mostrando como ao longo de vários anos a Federalist Society, a Judicial Crisis Network e uma série de doadores anônimos interferiram na nomeação de juízes favoráveis às grandes corporações e em julgamentos relevantes.  Grande parte do financiamento veio da bilionária família Mercer.

Os juízes conservadores John Roberts Jr. (atual presidente da Corte), Samuel Alito, Neil Gorsuck e  Brett Kavanaugh receberam apoio de doações secretas para chegarem à Suprema Corte. Dezenas de cortes federais pelo país foram também aparelhadas com juízes conservadores. 

A atual maioria conservadora de 6 a 3 na Suprema Corte representa uma ameaça para as causas trabalhistas, direitos das minorias e outras questões importantes, como o caso Roe vs. Wade sobre aborto. Já existe um movimento para que o número de juízes da Corte seja ampliado para possibilitar que Joe Biden indique juízes com tendência liberal, desta forma contrabalançando os efeitos do aparelhamento feito pelos Republicanos. 

No entanto, o senador Whitehouse não acredita que seja uma boa solução se acrescentar mais assentos à Corte ou limitar o tempo de mandato dos juízes, atualmente vitalício. Para ele, o melhor caminho seria tornar o Judiciário mais transparente, expondo os grandes doadores que procuram interferir nos julgamentos.  

Recentemente a Suprema Corte se posicionou por unanimidade contra as pretensões de Trump de reverter em alguns Estados, o resultado da contagem de votos da eleição presidencial de 2020. No entanto, este posicionamento imparcial não deve ser entendido como um compromisso de irrestrita isenção e integridade por parte da Corte. 

Pode ter se tratado de uma estratégia dos juízes conservadores para não acirrar os ânimos contra a Corte. Para as grandes corporações que aparelharam o Judiciário do país, melhor descartar Trump agora do que arriscar a perder décadas de influência na Suprema Corte.  Afinal, 2022 não está muito distante, e os Democratas conservadores farão o partido perder apoio popular.

Lutar a boa luta ou formar um novo partido?

Resta ver se o Esquadrão e os Democratas da Justiça vão ser combativos para tentar superar a resistência interna da direita do Partido, representada por Biden, Kamala Harris, Nancy  Pelosi, Chuck Schumer, dentre outros.  

Kyle Kulinsky, co-fundador do Justice Democrats, tem uma posição que não é compartilhada por boa parte de seus colegas progressistas: “Se você acredita em algo, você luta por isto. Se você perde, OK, mas o ato de fazer tudo ao seu alcance é a definição de moralidade”. 

O atual bipartidarismo que vem prevalecendo nas eleições desde a fundação do país pode estar agora com os dias contados, com a formação  de novos partidos que atendam às demandas de setores de esquerda e de direita que não concordam com as políticas de Democratas ou Republicanos. Cerca de 41 milhões de norte-americanos vivem em condições de pobreza, de acordo com o censo de 2016/17. O lado sombrio do sonho americano.

Com a descrença dos movimentos de base no Partido Democrata, poderá crescer o apoio ao “Movimento por um Partido do Povo” (Movement for a People’s Party), na expectativa de criar um partido que efetivamente lute por programas que beneficiem os setores vulneráveis da população. Por outro lado, com muitos trumpistas considerando não mais apoiar o Partido Republicano, poderá ser formado um partido de extrema-direita. O que acontecer nos Estados Unidos poderá ter reflexos em grande parte do mundo, para o bem e para o mal.

O autor é professor aposentado da UENF, e escreve artigos de análise política no  blogue Chacoalhando

Vitória de Assange, mas jornalismo investigativo está ameaçado

Por Ruben Rosenthal

O momento é de júbilo, mas também de cautela e de luta contra o cerceamento do jornalismo investigativo, para que atrocidades cometidas contra populações civis ou a vigilância do cidadão pelo Estado não sejam encobertas.

Assange supporters celebrate outside Old Bailey
Apoiadores de Assange comemoram o veredito do julgamento \ Foto: Daniel Leal-Olivas/AFP/Getty Images

A juíza Vanessa Baraitser decidiu contra a extradição de Julian Assange para os Estados Unidos por questões humanitárias. Mas em seu parecer ela recusou os argumentos da defesa de que o julgamento não havia sido justo, que a acusação tinha fundamentação política, bem como que atentava contra a liberdade de expressão. Segundo a Federação Internacional de Jornalistas, “a juíza não reconheceu a ameaça à liberdade de imprensa que a extradição representava”.

Baraitser se posicionou contra a extradição de Julian por considerar a condição mental do jornalista. A Corte levou em conta a opinião do psiquiatra Michael Kopelman, de que Assange arranjaria uma forma de cometer suicídio caso fosse levado a julgamento  nos Estados Unidos. Se condenado, o jornalista ficaria sujeito a uma sentença máxima de 175 anos de encarceramento por acusações de conspiração e espionagem.

Em grande parte, a deterioração do quadro de saúde de Assange decorreu das condições em que tem sido mantido na prisão de segurança máxima de Belmarsh, conforme relatado pelos advogados de Defesa.  O especialista do Conselho de Direitos Humanos da ONU, Nils Melzer,  equiparou estas condições como sendo equivalentes à tortura psicológica, sem que no entanto a juíza tivesse intercedido na ocasião para aliviar estas condições. É de certa forma surpreendente que agora Baraitser recorra a uma justificativa humanitária para barrar a extradição de Julian. 

Ainda não se trata da liberdade definitiva para Assange, pois os advogados que representam os Estados Unidos já anunciaram que irão recorrer do veredito. Entretanto, é improvável que Baraitser reverta sua decisão.

Os apoiadores de Assange comemoraram o resultado nas ruas próximas à Corte de Old Bailey, em Londres. O movimento favorável à liberdade de Assange na Inglaterra e nos Estados Unidos (pelo perdão presidencial) abrangeu um espectro político que incluiu desde a esquerda radical até a extrema direita, conforme relatado em artigo anterior do blog. Um retrospecto do caso também é apresentado no artigo citado. Continue lendo “Vitória de Assange, mas jornalismo investigativo está ameaçado”

Liberdade de Assange une esquerda radical e extrema-direita

Por Ruben Rosenthal

Resta ver se será duradoura a conversão da extrema-direita em defensora da liberdade de expressão e contra a vigilância massiva do Estado sobre os cidadãos. 

Manifestação pró-Assange em frente a Westminster Magistrates Court
Manifestação contra extradição de Assange em frente à Corte de Westminster, Londres. Junho 2020. Foto: Frank Augstein/AP

Cresce a pressão sobre a juíza britânica Vanessa Baraitser e sobre o presidente Donald Trump pela liberdade de Assange, em uma insólita convergência de polos opostos do espectro político. Mas as motivações podem ser bem diferentes. Alguns setores da extrema-direita estariam incentivando os relatos de que o encarceramento de Assange interessa ao Deep State*, que também se opõe a Trump. A intenção seria reforçar a narrativa de que houve fraude eleitoral nas eleições presidenciais para favorecer Joe Biden. Por outro lado, se Assange for levado a julgamento nos Estados Unidos ficará estabelecido um precedente que representa uma ameaça mortal ao jornalismo investigativo, algo que mobiliza a esquerda radical.

O editor do Wikileaks se encontra encarcerado na prisão de segurança máxima de Belmarsh na Inglaterra, onde aguarda pelo veredito da juíza Baraitser em 4 de janeiro, que poderá resultar em sua extradição para os Estados Unidos. A acusação é de violação da Lei de Espionagem norte-americana, por encorajar Chelsea Manning a vazar documentos sigilosos. 

O julgamento de extradição. As audiências iniciais do julgamento foram realizadas em fevereiro de 2020, retomadas em setembro e concluídas no início de outubro. Nas palavras de Edward Snowden: “O julgamento show de Assange mais parece algo de Kafka. A juíza permite que as acusações sejam trocadas com tal frequência, que a própria defesa não sabe quais elas são. As demandas básicas são negadas e ninguém pode escutar o que o réu diz – uma farsa”. 

As condições em que Assange vem sendo mantido em Belmarsh já foram denunciadas como de tortura psicológica. Se for condenado nos Estados Unidos por acusações de conspiração e espionagem, Assange estará sujeito a uma sentença máxima de 175 anos de encarceramento. 

escher sharper

O pesadelo Kafkiano do julgamento de Assange \ Arte gráfica: prisão de Belmarsh. Adaptado de Escher

Se a extradição for negada Assange ganhará a liberdade, pois não existem mais quaisquer outras acusações pendentes no Reino Unido ou na Suécia, onde falsas acusações de estupro haviam sido fabricadas contra ele. Mas o julgamento na Corte de Old Bailey se mostrou uma completa farsa jurídica, conforme os relatos no  blog de Craig Murray, ex-embaixador britânico e ativista de direitos humanos. Existe, portanto, o temor que a juíza Baraitser há muito já tenha se decidido pela extradição, no que parece ser um jogo de cartas marcadas que envergonha a justiça britânica. 

#FreeAssange. Conforme se aproxima o dia em que o veredito será proferido, prossegue a campanha contra a extradição. A organização Repórteres Sem Fronteiras, uma das muitas organizações que vêm coletando assinaturas em favor de Assange, teve seu site submetido a um ataque cibernético em 17 de setembro. Durante o ataque foram adicionados nomes falsos à petição, como forma de trazer descrédito para a organização. 

A campanha foi reforçada com a recente divulgação pelo Veritas Project de um áudio inédito de 75 minutos, em que Assange previne o Departamento de Estado norte-americano sobre vasto material confidencial que fora divulgado por um ex-funcionário do Wikileaks. Um pequeno trecho selecionado do áudio pode ser acessado aqui.

Na ocasião, o advogado do Departamento de Estado Cliff Johnson agradeceu a ligação, mas nada fez a respeito. Durante o julgamento de extradição a Acusação alegou que ao publicar telegramas secretos não-editados, Assange colocara vidas em risco. 

Mas a juíza Baraitser pode não ter autonomia suficiente para decidir a favor de Assange. Acredita-se que sua indicação para presidir a Corte tenha partido da magistrada Lady Emma Arbuthnot, cujo esposo tem fortes ligações com setores militares e de segurança hostis ao Wikileaks. Emma é a magistrada principal da Westminster Magistrates Court, onde proferiu sentenças que impediram que Assange deixasse o Reino Unido para se exilar no Equador.

Caso se concretize a extradição, restará a Assange unicamente o perdão presidencial por parte de Donald Trump.  Durante a eleição de 2016, Trump elogiara Assange pelos vazamentos do Wikileaks que revelaram as manobras de Hillary Clinton para ganhar a indicação como candidata presidencial pelo Partido Democrata. 

Perdão presidencial para Assange. Trump já teria oferecido anteriormente o perdão ao jornalista,  mas com a condição que Julian Assange dissesse que a Rússia não estivera  envolvida no vazamento de e-mails do comitê nacional do Partido Democrata. Esta declaração foi dada a magistrados da Corte Britânica por advogados de defesa de Assange, mas negada pela congressista Dana Rohrabacher, que supostamente teria feito a intermediação com Trump. 

A deputada Democrata pelo Havaí, Tulse Gabbard, fez campanha para que Trump conceda o perdão a Julian Assange no final de seu mandato, argumentando que o encarceramento do jornalista só agradaria ao Deep State.  Gabbard é considerada progressista. 

O jornalista James Risen, do The Intercept, alertou os defensores de direitos humanos para que não reforcem teorias conspiratórias envolvendo o Deep State quando fizerem campanha pelo perdão presidencial. Trump e seus seguidores propagam que o Deep State arquitetou um esquema de fraude eleitoral que levou à vitória de Biden. 

De fato, parte da extrema direita norte-americana que aderiu à campanha para Assange ser perdoado vem fazendo uso da argumentação que o Deep State tem interesse em encarcerar Assange. Nesta linha, o site de direita The American Conservative defende que Trump deva perdoar Assange para “mantê-lo fora das mãos do Deep State”. 

No entanto, segundo o site estas palavras constam do pedido formal de clemência que a própria noiva de Assange, Stella Morris, protocolou na Casa Branca. Morris repetiu tal declaração em entrevista ao âncora da Fox News, Tucker Carlson em 17 de dezembro, quando ela alertou ainda que caso Assange vá julgamento nos Estados Unidos “seria o fim da Primeira Emenda” da Constituição, que defende a liberdade de expressão e de imprensa. 

Na oportunidade, o  jornalista da conservadora Fox News também defendeu o editor do Wikileaks: “Pense o que quiser de Assange e do que ele fez, mas ele é efetivamente um jornalista….O Wikileaks expôs como os cidadãos do país estão sujeitos a vigilância em massa, e ninguém foi punido por estas violações (de direitos), apenas o cara que revelou tudo”. 

Sarah Palin, ex-governadora do Alasca e símbolo do movimento ultraconservador Tea Party também aderiu à campanha pelo perdão presidencial para Assange, ao publicar um vídeo no site de extrema-direita The Gateway Pundit. Palin, no entanto, não fez qualquer menção ao Deep State. Ao contrário, ela fez uma enfática defesa da liberdade de imprensa. 

Palin considera que “Julian fez a coisa certa….Ele merece o perdão. Ele merece que todos nós compreendamos melhor o que ele fez em nome do jornalismo verdadeiro….Deus o abençoe”. Anteriormente uma crítica severa de Assange, Palin passou a elogiá-lo quando o Wikileaks publicou os e-mails vazados de Democratas durante a campanha presidencial de 2016. 

O movimento em favor de Assange vem crescendo nos Estados Unidos. Nils Melzer, especialista do Conselho de Direitos Humanos da ONU, enviou em 22 de dezembro uma carta aberta a Trump pedindo que ele conceda o perdão presidencial ao jornalista. Melzer relata que esteve na prisão de Belmarsh acompanhado de dois médicos, quando pôde constatar as condições precárias de saúde em que Assange se encontrava. 

A campanha pró-Assange inclui assim um espectro político que vai da esquerda radical à extrema-direita. Resta ver se será duradoura a conversão da extrema-direita em defensora da liberdade de expressão e contra a vigilância massiva do Estado sobre os cidadãos. Segundo o New York Post, Trump está decidindo se concederá ou não o perdão a Assange. O presidente poderá deixar este legado positivo de seu mandato, repleto de controvérsias desabonadoras.  

No entanto, Trump já se decidiu pelo perdão a quatro ex-funcionários de uma  empresa de segurança contratada pelo governo norte-americano, responsáveis por um massacre de 17 civis no Iraque em 2007. A lista completa de todos os perdões concedidos por Trump durante seu governo, até o momento inclui  incendiários, traficantes de drogas, envolvidos em jogo ilegal, uma ampla variedade de fraudadores, além dos culpados por assassinatos já mencionados. 

É grande a campanha para que Trump também perdoe Edward Snowden, mas diversas outras pessoas estão detidas ou sendo processadas por envolvimento em vazamentos de informações sigilosas, sem que no entanto sejam lembradas pelos defensores de direitos humanos.

*Deep State é uma rede de poder paralelo nos Estados Unidos, operando por vezes à margem dos governos.

O autor é professor aposentado da UENF, e publica análises políticas no blogue Chacoalhando

EUA: dilemas na luta pelo sistema universal de saúde 

Por Ruben Rosenthal

Para a deputada Democrata Pramila Jayapal é muito frustrante ver seu próprio Partido levantar os mesmos argumentos contrários ao Medicare for All que Republicanos e empresas privadas seguradoras de saúde.    

Medicare for All nurses 2019
Membros do Sindicato Nacional de Enfermagem protestam em apoio ao Medicare for All em frente à Representação das Indústrias Farmacêuticas, abril 2019 \ Foto: Win McNamee/Getty Images

A ala progressista do partido Democrata se encontra dividida sobre a melhor forma de levar adiante o movimento pelo sistema universal de saúde, o Medicare for All, originalmente proposto pelo Senador Bernie Sanders.  Para alguns, a Democrata Nancy Pelosi presidente da Câmara deveria ser pressionada a colocar o projeto de lei em votação no plenário, mesmo não havendo atualmente maioria suficiente para aprovação.

O contra-argumento dentro do próprio campo progressista é que como a derrota na votação é quase certa, o foco deveria ser em propostas tangíveis no momento, como o salário mínimo de 15 dólares/hora. Enquanto a discussão domina as mídias sociais de esquerda sem que se chegue a um consenso, os Democratas conservadores já assumiram o enfrentamento com os progressistas, ocupando posições-chave na Câmara.  

Atualmente, são quatro as formas típicas de seguros de saúde a que recorrem os norte-americanos que conseguem pagar pela cobertura de um plano. Um plano em grupo, apoiado por um empregador; um plano privado de seguro, comprado através do mercado de seguros de saúde, sem a participação do governo na administração (aí se incluem o Obamacare e alguns outros planos); Medicare, que é um programa de seguro de saúde custeado pelo governo federal, voltado para adultos com mais e 65 anos e pessoas mais jovens com certo tipo restrito de incapacidade e condição clínica; Medicaid, um programa de seguro de saúde governamental para pessoas com limitação de recursos financeiros.  

Medicare for All. Segundo artigo no The New York Times, o sistema de seguro de saúde governamental proposto pelo senador Bernie Sanders, além de ser extensivo a qualquer pessoa no país, possui mais benefícios que o Medicare. Os atuais planos de saúde seriam extintos, assim como deduções, prêmios e a modalidade de co-participação. O novo plano cobriria também tratamentos dentários, despesas com óculos, aparelhos  de audição, além de home-care para pessoas com incapacidades.  

Com o novo sistema de saúde implantado, os médicos e hospitais privados continuariam a fornecer serviços de atendimento a pacientes. Mas sendo o plano público a única forma de entrada de recursos financeiros, o governo conseguiria ter um controle muito maior sobre os gastos com o sistema privado.   

Da forma como foi proposto o Plano, o Urban Institute calcula que os gastos federais aumentariam em quase 34 trilhões de dólares em 10 anos, mas os gastos com saúde por indivíduos, empregadores e governos estaduais diminuiriam de 27 trilhões. Assim, o aumento efetivo no referido período seria de 7 trilhões de dólares. Todas as pessoas, independentemente de terem ou não cobertura de saúde hoje, ficariam cobertas pelo novo programa federal. Desta forma, o Medicare for All preveniria a morte desnecessária de cerca de 68.000 pessoas, segundo artigo publicado na revista Lancet.    

Em um documento produzido durante a campanha presidencial, o Senador Sanders procurou explicar como conseguiria cobrir as despesas geradas pelo novo sistema de saúde. Mas, segundo o New York Times a conta pode não fechar, o que poderia requerer aumento de impostos. Ou então, como propõe o Urban Institute, o equilíbrio poderia ser alcançado com algumas alterações no Medicare for All.

Mas se Bernie Sanders foi o pai da proposta no Senado,  a deputada Democrata por Seattle Pramila Jayapal, presidente da Frente Progressista no Congresso (Congressional Progressive Caucus), é autora do projeto de lei 1384 na Câmara, que conta com 119 co-patrocinadores na Câmara, também propondo a criação pelo governo de um sistema público universal de saúde (single-payer system).   

Congressista Jayapal Pramila
Representante Pramila Jayapal em entrevista com jornalistas no Capitólio, junho 2019 \ Foto: Bill Clark /CQ Roll Call via AP Images

O projeto de lei 1384 já foi debatido formalmente na Câmara, ao passar por audiências nos Comitês de Orçamento, Regras, e Formas e Meios (Ways and Means).  No entanto, para a deputada Democrata Pramila Jayapal é muito frustrante ver seu próprio Partido levantar os mesmos argumentos contrários ao Medicare for All que Republicanos e empresas privadas seguradoras de saúde.    

#ForceTheVote e os dilemas da esquerda Democrata. Não há consenso entre os progressistas norte-americanos sobre a melhor estratégia para se alcançar a aprovação de um sistema de saúde universal garantido pelo governo. Conforme relato em Current Affairs de Briahna J. Gray, ex-secretária de imprensa de Bernie Sanders,  a celeuma começou em 27 de novembro, quando o YouTuber e comediante Jimmy Dore  fez uma provocação: “Que 15 democratas ameacem não votar em Nancy Pelosi quando da tentativa de reeleição como presidente (speaker) da Câmara, caso ela não encaminhe o projeto de lei 1384 para votação no plenário”.  Atualmente a maioria Democrata na Câmara é garantida por uma diferença de 15 assentos. Como nenhum Republicano votaria em Pelosi, a candidatura da Democrata ficaria seriamente comprometida.

Jimmy Dore fez também um questionamento aos cerca de 100 Democratas, membros da Frente Progressista: “vocês são ativistas pelo povo ou apenas gostam de posar de progressistas no Twitter para ganhar as próximas eleições?”.  Com a campanha #ForceTheVote foi lançado o desafio à esquerda Democrata de levar ao plenário a votação no sistema universal de saúde.  

Briahna Gray relata ainda em seu artigo que Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), uma das principais faces femininas da Frente Progressista no Congresso, discordou do esquema proposto por Jimmy Dore. Para AOC, como o projeto de Pramila Jayapal não tem a menor condição de ser aprovado no momento, “os progressistas deveriam usar da capacidade de pressão que possuem para avançar em propostas factíveis que possam mudar vidas, como a aprovação do salário mínimo de 15 dólares/hora nos primeiros 100 dias do mandato de Joe Biden”. 

No entanto, este aumento do mínimo já consta da plataforma eleitoral da campanha vitoriosa de Biden, conforme tuitou o jornalista Aaron Maté, indicando com isto que a posição de AOC não traz avanços para propostas progressistas.   

Para os apoiadores de se colocar agora o projeto de lei em votação no plenário, esta seria uma forma de expor os Democratas que se posicionarem contra o Medicare for All, defende Briahna Gray. Como um sistema público universal de saúde tem aprovação de 88% dos eleitores Democratas, os congressistas do Partido que se posicionarem de forma contrária teriam que prestar contas quando forem se submeter ao processo de re-seleção em seus respectivos distritos eleitorais. Desta forma, o movimento progressista poderia avançar dentro do partido, removendo candidaturas de Democratas com posições conservadoras. 

No entanto, o jornalista David Sirota, do Daily Poster, considera que a remoção de oponentes do Medicare for All que estejam no comando de comissões relevantes poderia trazer mais benefícios que uma votação em plenário agora. O primeiro da lista seria o congressista Richard Neal, atual presidente do Comitê de Formas e Meios, que trata das questões de receita do Medicare e do sistema de Seguridade Social. Para Sirota, desafiar Pelosi para forçar uma votação em plenário “seria uma ação típica de um movimento progressista que valoriza mais o espetáculo que o poder”.    

Os progressistas sabem que tanto Joe Biden como Kamela Harris não apoiam o Medicare for All. Harris chegou a ser co-patrocinadora da proposta no Senado, mas reverteu sua posição durante a campanha presidencial. Biden declarou que vetaria o plano mesmo se este passasse pela Câmara e Senado. Um dos motivos alegados foi que para se cobrir o custo de implementação seria necessário o aumento de impostos da classe média.  

Documentos de lobistas vazados para The Intercept em 2018 revelaram que a indústria farmacêutica, hospitais privados e seguradores de planos se associaram para influenciar o Partido Democrata a não incluir o Medicare for All em sua plataforma eleitoral para as eleições de 2020, ou mesmo expandir o atual Medicare. Uma investigação do In these Times revelou que, dentre os Democratas,  foi Biden quem recebeu as maiores doações da indústria da saúde, seguido por Buttigieg e Pamela Harris.    

O Esquadrão Progressista

O Esquadrão progressista. A partir da esquerda: Alexandria Ocasio-Cortez, Ayanna Presley, Ilhan Omar e Rachida Tlaib. Conferência de imprensa no Capitólio, julho 2019 \ Foto: Alex Wroblewski/Getty Images

Os apoiadores do Medicare for All entendem que durante a crise de saúde resultante da pandemia de Covid-19 seria maior a pressão popular sobre os congressistas, em apoio a uma cobertura médica mais abrangente.  Para Briahna Gray, o Esquadrão (The Squad) composto de quatro mulheres (não-brancas) eleitas em 2018 para o Congresso — AOC, Ilhan Omar, Ayanna Pressley, e Rachida Tlaib, tem “uma habilidade única em conseguir atrair a atenção da mídia”, o que ajudaria na mobilização popular para a votação do projeto de lei 1384.  

AOC recebeu a “gratidão” de Nancy Pelosi por não ter desafiado sua liderança na Casa: Pelosi preteriu a indicação de AOC para o poderoso Comitê de Energia e Comércio em favor de Kathleen Rice, deputada pró-corporações. Dentre as atribuições do Comitê estão a defesa do consumidor, segurança de alimentos e medicamentos, saúde pública, política de atendimento de saúde e clima.  

Ao que tudo indica, Pelosi pode ter feito uma retaliação à declaração de AOC ao The Intercept em 16 de dezembro, que “já era hora de Nancy Pelosi e do líder Democrata no Senado, Chuck Schumer, deixarem suas posições de liderança, mas que se isto acontecesse agora a esquerda não teria como preencher este vazio”. Fazendo uso do ditado popular, parece que AOC deu uma no cravo e outra na ferradura, e colheu o resultado. 

Sem uma liderança de esquerda aguerrida e unida, o acesso ao sistema universal de cobertura de saúde nos Estados Unidos ficará cada vez mais distante. Os movimentos de base precisarão pressionar os representantes que se dizem favoráveis ao Medicare for All a assumirem posições que levem ao efetivo enfrentamento dos defensores da medicina privada. Aí ficará claro quais são os reais progressistas e quais os performáticos.

O autor é professor aposentado da UENF, e publica análises políticas no blogue Chacoalhando