Presidente Lula: interceda pelo defensor de direitos humanos no Reino Unido

Por Ruben Rosenthal

Ativista de direitos humanos e pela independência da Escócia, o ex-embaixador Craig Murray foi condenado a 8 meses de prisão.
Ex-embaixador Craig Murray foi encarcerado em 29 de julho, condenado a 8 meses de prisão. Foto: Guy Smallman/Getty Images

Presidente Lula, o ex-embaixador britânico e ativista de direitos humanos Craig Murray foi sentenciado a 8 meses de encarceramento pela Alta Corte do Judiciário da Escócia, tendo sido negada a possibilidade de que aguarde em liberdade pelo julgamento do recurso feito à Corte Suprema do Reino Unido.

Ele precisa agora da solidariedade ativa daqueles cuja voz possa ser ouvida em Edimburgo e Londres, para que seja libertado antes que sua saúde seja comprometida. Ninguém melhor que você sabe o que é ver negado o direito à liberdade quando se é vítima de perseguição política, sem poder recorrer a todas as instâncias do judiciário.

Craig Murray, ativista pela independência da Escócia, tem um histórico notável na defesa de direitos humanos, não importa o país ou continente. Ele foi uma das pouquíssimas pessoas que conseguiram acesso ao julgamento de Julian Assange, e seus precisos relatos ajudaram a expor a farsa kafkiana da corte britânica.

A acusação contra Murray foi de desacato à Corte, por ele ter denunciado em seus artigos, a falsa acusação de assédio sexual de que fora vítima o ex-primeiro-ministro escocês Alex Salmond (também fervoroso adepto da independência escocesa).  Murray expôs as entranhas da armação, indicando que as denunciantes seriam mulheres do círculo próximo da atual primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon.

Como a legislação não permite revelar os nomes das testemunhas, Murray fez uso de um jogo de palavras, dando algumas pistas nada conclusivas. Instado pela Corte a remover estas informações, Murray se recusou em nome da liberdade de expressão. O ex-embaixador passou a ser ele próprio vítima de lawfare. Surgira a oportunidade de calar sua incômoda voz.

Craig Murray, um dissidente político do Ocidente

Quem acompanhava o noticiário na época em que ainda existia a União Soviética, escutava ou lia sobre os dissidentes políticos que se posicionavam contra as restrições que o regime vigente impunha. Em geral, escritores e artistas, que muitas vezes aproveitavam as oportunidades para fugir para o Ocidente.

Atualmente, a dissidência política está no Ocidente. Como, por exemplo, aquelas pessoas que tomam coragem  de vazar ou divulgar documentos secretos que expõem crimes de guerra, interceptação telefônica e vigilância não autorizada dos cidadãos: Philip Agee, Daniel Ellsberg, Edward Snowden, Chelsea Manning e Julian Assange, apenas para citar alguns. Mas o preço a pagar pode ser bem caro.

Craig Murray não foi processado e preso por ter vazado algum documento específico, e sim por ter se tornado “uma pedra no sapato” para o Reino Unido e para a OTAN.

Breve histórico de um ativo defensor de direitos humanos

Quando embaixador no Uzbequistão, Craig Murray denunciou as frequentes torturas a que o presidente Islam Karimov submetia os opositores, com o beneplácito de seu próprio país, então governado pelo primeiro-ministro Tony Blair. E certamente com o apoio dos EUA, em plena “guerra ao terror” promovida por Bush filho.

Murray foi então demitido do serviço diplomático. A história é contada no livro Diplomacia Suja, publicado no Brasil pela Companhia da Letras, e acessível para download na internet. Melhor para o mundo, pois livre das amarras impostas pelo serviço diplomático, Murray passou a usar seu blog para denunciar as ações agressivas da OTAN. Ele também não se omitiu em criticar a Rússia, China, Irã ou qualquer outro país, sem, no entanto, se deixar levar pelas falsas narrativas propagadas pela mídia corporativa do Ocidente.

Declaração de Nadira, esposa de Craig Murray. 29.07.21

(A íntegra da declaração original pode ser acessada aqui)

Hoje é o dia mais dilacerante para mim. Meu marido, cuja saúde não é adequada para suportar a prisão, deve se entregar para detenção em poucas horas, após a decisão da Suprema Corte do Reino Unido de não ouvir seu recurso.

Estávamos extremamente esperançosos de que a Suprema Corte atendesse ao apelo, [……] dado o quão importante e relevante ele é no contexto da Liberdade de Expressão no Reino Unido. Em vez disso, a Suprema Corte se recusou.

[……] Além disso, a Corte Escocesa descartou totalmente que a saúde fraca de Craig e o seu bem-estar estariam em risco se ele fosse forçado a ir para a prisão, mesmo estando a Corte ciente desta condição através do relatório obrigatório do Serviço Social e dos relatórios médicos.

[……] estou triste e chocada ao saber que ele poderá ser colocado entre criminosos, sem poder levar livros ou ter permissão para escrever, sem a permissão de qualquer entretenimento. Ele está sendo tratado como um criminoso. Isto não é uma punição justa, é uma tentativa deliberada de quebrar o espírito de qualquer um, corajoso o suficiente para fazer uso da liberdade de expressão.

[……] Tendo convivido com Craig por duas décadas, ele sempre fez uso de seu tempo e energia para chamar a atenção para injustiças, se posicionando a favor do que é certo, de forma cuidadosa, consistente e com consideração.

Cresci durante os tempos da União Soviética, no período pós-independência do meu próprio país, o Uzbequistão. Testemunhei e experimentei pessoalmente qual é verdadeiramente o preço da liberdade de expressão. Os opositores “desapareciam”, supostamente “tiravam a própria vida”, ou eram trancafiados em asilos. [……] É terrível ver que Craig está passando pelo mesmo tratamento no Reino Unido, país considerado como respeitador dos “direitos humanos”.

Este é um ataque aos que dizem a verdade. Os textos dele são de um jornalista altamente qualificado, ativista de direitos humanos, ex-reitor da Universidade de Dundee, e ex-embaixador britânico. Para nós, sua família, esta situação é devastadora: agora estou com meu bebê de 5 meses, e tentando encontrar uma boa forma de explicar a sentença de prisão de Craig para seu filho de 12 anos, que está confuso e ansioso.

Para os leitores que estejam preocupados com a perda da liberdade de expressão e igualdade perante a lei, eu peço que demonstrem solidariedade ativa e direta com meu companheiro.

Murray mantém o humor

Em seu último artigo, publicado antes de ser encarcerado, o ex-embaixador escreveu: “A rainha gentilmente pagou por meus jantares por cerca de 20 anos, enquanto eu era um diplomata e embaixador britânico. E agora ela vai pagar pelos meus jantares novamente. Isto é muita gentileza, pois achei que ela tivesse me esquecido.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Tio Sam financia rappers na guerra híbrida contra Cuba

Por Ruben Rosenthal

Agentes financiados pelos EUA associados ao Movimento San Isidro defendiam a intervenção em Cuba meses antes das mídias sociais começarem a criticar o governo cubano de forma massiva.

Patria o CIA
Pátria ou CIA: Músicos do rap Patria Y Vida, Foto editada pelo The Grayzone \ Foto original: Yotuel Romero/Instagram

As cenas de um carro de polícia virado por manifestantes ocorridas no município de 10 de Outubro e coquetéis molotov atirados na polícia, ilustram bem o que foram as amplas manifestações de rua ocorridas em 11 de julho em Cuba (ver vídeo).

Segundo relato da BBC News Mundo, os protestos se iniciaram na cidade de San Antonio de los Baños, sudoeste de Havana, e de lá se espalharam por cerca de 20 vilarejos e cidades de todo o país. O artigo chama atenção para a questão do agravamento da situação econômica na ilha e do aumento das mortes por Covid-19.

Mas os veículos de mídia do Ocidente não mencionam o papel subversivo desempenhado pelos EUA, ao incentivar e financiar a dissidência política de artistas e rappers cubanos, reunidos principalmente no Movimento San Isidro. O rap anticomunista “Patria y Vida” se tornou o hino dos protestos, segundo a revista Rolling Stone.

O slogan do Movimento San Isidro é uma corruptela do lema “Patria o Muerte”, que Fidel Castro usou pela primeira vez no memorial aos trabalhadores das docas de Havana, mortos em 1960 em atentado da CIA.

Os EUA e a estratégia da guerra híbrida

Os EUA sabem tirar proveito dos sentimentos nacionalistas de minorias, e das situações de desavenças internas em países que atravessam uma crise econômica, para então lançarem mão de seu arsenal de táticas de guerra híbrida.

Foi assim, ao incentivarem os movimentos separatistas da etnia Uigur, na China, e dos Tártaros, na Rússia. Bem como ao fomentarem, com sucesso, o afastamento de Dilma Roussef e do PT do poder no Brasil, e das tentativas ainda não materializadas, de promoverem a mudança de regime na Bielorrússia, de Lukashenko, e em Cuba, que busca seu caminho ao socialismo.

É evidente que a estratégia norte-americana precisa encontrar um campo fértil para prosperar. No caso de Cuba, as condições econômicas e políticas estavam postas, até mesmo porque o Departamento de Estado norte-americano deu a sua contribuição para tanto.

Crise econômica

A historiadora brasileira Helena Salém mostra como a precária situação econômica atual, que fermentou a discórdia em Cuba, foi o resultado de três fatores principais: a pandemia da Covid-19, paralisando o turismo e reduzindo o PIB em 11%; o boicote norte-americano, agravado ainda mais com a suspensão por Trump do envio de divisas à ilha pelos familiares residentes nos EUA; e a reforma monetária e cambial promovida pelo governo cubano.

Conforme Salém relata, a reforma denominada de Tarea Ordenamiento eliminou o chamado dólar cubano, tornando o peso cubano a única moeda nacional; foi também criada uma moeda transitória na forma de um cartão, a Moneda Libremente Convertible, com valor de 25 pesos.

Ao mesmo tempo, foram eliminados subsídios a itens de consumo diário, aumentadas as tarifas, e os salários foram quintuplicados. No entanto, as medidas resultaram em descontrole financeiro que afetou negativamente o poder de compra dos cubanos de produtos básicos. A insatisfação da população foi inevitável.

Crise política

Em meio às sérias dificuldades econômicas por que vem passando, o povo cubano sente que suas demandas e insatisfações não são escutadas pelo governo, avalia Salém. Segundo a historiadora, “existe um engessamento ou quebra dos canais de poder popular nas estruturas políticas do socialismo cubano”. Assim, restou aos cubanos expressarem nas ruas sua raiva com o governo. Para os cubanos de esquerda, o governo precisa criar novos mecanismos de decisão e de poder popular, complementa ela.

Anti-government protesters gather at the Maximo Gomez monument in Havana, Cuba, Sunday, July 11, 2021. Hundreds of demonstrators took to the streets in several cities in Cuba to protest against ongoing food shortages and high prices of foodstuffs. © Eliana Aponte/AP
Manifestantes contra o governo cubano reunidos no monumento Maximo Gomez, em Havana, Cuba, 11 de julho de 2021 \ Foto: Eliana Aponte/AP

No entanto, os protestos de julho foram fomentados através de ações de entidades norte-americanas tradicionalmente envolvidas na desestabilização política de governos que não seguem a cartilha de Washington. O imperialismo norte-americano procurará canalizar ainda mais o sentimento que resultou na revolta que se espalhou pela ilha em 11 de julho, para acirrar a crise política visando a mudança de regime.

Os principais setores dos EUA que financiam e incentivam as ações de desestabilização em outros países são em geral os mesmos. A USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) e a NED (Fundação Nacional para Democracia). Um das entidades que recebe financiamento da NED é a Atlas Network, que atuou na desestabilização do governo Roussef no Brasil, através de sua cria, o MBL de Kim Kataguiri “et caterva“.

Contrarrevolução em Cuba: EUA financiam a dissidência cultural e artística

Conforme relatado pelo jornalista Max Blumenthal no The Grayzone (em espanhol, em inglês), na última década os EUA utilizaram milhões de dólares para seduzir rappers, músicos, artistas e jornalistas cubanos. O relato que se segue contém extratos do extenso e detalhado artigo de Blumenthal.

Em 2009, um artigo no Journal of Democracy, órgão noticioso da NED, esboçou um plano ambicioso para unir e mobilizar contra “o regime altamente repressivo” de Cuba, os despossuídos, os jovens desempregados, os que ficaram à margem do sistema, atraídos para as drogas, crime e prostituição.

A estratégia recomendada pelos autores do artigo, Carl Gershman e Orlando Gutierrez-Boronat, era que estes grupos não cooperassem com as instituições cubanas. Gershman é fundador e diretor da NED, enquanto Boronat – cubano de nascimento – é secretário geral da USAID, e fervoroso defensor da invasão de Cuba pelos EUA. Boronat foi recebido por Jair Bolsonaro, poucos dias antes da posse deste na presidência do Brasil.

No mesmo ano em que o influente artigo de Gershman e Gutierrez foi publicado, Washington adotou uma audaciosa operação secreta baseada na estratégia sugerida. A USAID iniciou um programa para desencadear um movimento de jovens contra o governo de Cuba, cultivando e promovendo artistas locais de hip-hop.

Devido à sua longa história como uma frente da CIA, a USAID terceirizou a operação para a Creative Associates International, uma empresa com sede em Washington DC, com seu próprio histórico de ações secretas. A empresa enviou a Cuba o sérvio Rajko Bozic, que pertencera ao grupo Otpor! (resistência, em croata), apoiado pela CIA. O grupo ajudara a afastar do poder o líder nacionalista da Sérvia, Slobodan Milosevic.

Posando como um promotor musical, Bozic se aproximou de um grupo de rap cubano chamado Los Aldeanos, que era conhecido por seu hino anti-governo, “Rap is War” (Rap é Guerra). O agente sérvio não revelou que trabalhava para a CIA, alegando ser um profissional de marketing. A inteligência cubana descobriu contratos ligando Bozic à USAID, e expôs a operação.

Conforme publicado no insuspeito jornal britânico Daily Mail, em 2014, a USAID foi novamente exposta por um vazamento que revelou que a agência contratara a Creative Associates para organizar uma série de falsas oficinas de prevenção do HIV, que se tratavam, na verdade, de seminários de recrutamento político.

Na mesma época, o então presidente Barack Obama apresentou seu plano para normalizar as relações com o governo de Cuba, condicionado a que Cuba ampliasse o acesso à internet. Talvez um dia o ex-presidente revele se foi uma armadilha arquitetada para abrir as portas para a interferência norte-americana na ilha, o “cavalo de Tróia” digital.

Expansão da Internet abre as portas para infiltração dos EUA

A rede de internet 3G chegou a Cuba em 2018, permitindo que jovens cubanos acessassem mídias sociais como Facebook e YouTube em seus telefones celulares. A NED e a USAID exploraram a abertura para construir um potente aparato de mídia on-line anti-governo. Novos veículos de viés tóxico, como CubaNet, Cibercuba e ADN Cuba, propagaram acusações ao regime, bem como ofensas ao presidente cubano, Miguel Diaz-Canel.

Para Ted Henken, um acadêmico dos EUA e autor de “A Revolução Digital de Cuba”, os líderes cubanos calcularam mal, não percebendo que [o acesso expandido à internet] rapidamente se voltaria contra eles.

Ainda em 2018, a NED destinou cerca de US$ 500.000 para o recrutamento e treinamento de jornalistas antigoverno, e para estabelecer novos meios de comunicação. Outra subvenção da NED encaminhou fundos para “promover a inclusão de populações marginalizadas na sociedade cubana e fortalecer uma rede de parceiros na ilha”, implicando que seria direcionada aos afro-cubanos.

A NED deu muita ênfase à infiltração na cena hip-hop de Cuba. Também em 2018, a Cuban Soul Foundation recebeu US$ 80.000 para “capacitar artistas independentes a produzir, executar e expor seus trabalhos em eventos comunitários sem censura”. Uma ONG com sede na Colômbia, chamada Fundación Cartel Urbano, recebeu US$ 70.000 para “capacitar artistas cubanos de hip-hop como líderes na sociedade”.

A propaganda antigoverno e a infiltração dos EUA no cenário cultural de Cuba que acompanhou a expansão da internet, provocaram uma forte reação da liderança do país. O governo se deu conta, tardiamente, que nunca deveria ter confiado em Obama, avalia a jornalista cubana Cristina Escobar, conforme relato no The Grayzone.

Poucas horas depois de tomar posse, em abril de 2018, Diaz-Canel propôs o Decreto 349. A nova medida passou a exigir que todos os artistas, músicos e artistas obtenham aprovação prévia do Ministério da Cultura antes de divulgar seus trabalhos.

Rapidamente, um coletivo de artistas e músicos se mobilizou para protestar contra o decreto. O grupo adotou o nome de Movimento San Isidro, nome do bairro de Havana Velha onde vivem vários de seus membros. O novo movimento se apresentou diretamente aos influenciadores culturais do Norte Global como um coletivo diversificado de criadores visuais e rappers independentes, lutando por liberdade artística.

A NED e a USAID continuaram a aprofundar a influência norte-americana em Cuba. A ONG Instituto para Relatos de Guerra e Paz (IWPR, na sigla em inglês), recebeu US$ 145.230 da NED em 2020 para “fortalecer a colaboração entre jornalistas independentes cubanos”, e treiná-los nas mídias sociais.  Entre os beneficiários inclui-se El Estornudo, que também foi financiado pela Open Society, de George Soros, para criticar a resposta do governo cubano à Covid-19.

Outro veículo antigoverno que opera sob os auspícios da IWPR é Tremenda Nota, um site com temática LGBTQ que acusa rotineiramente o governo cubano de homofobia e transfobia, mesmo tendo a administração Diaz-Canel atuado no sentido de legalizar o casamento gay, aberto o exército para soldados gays e iniciado eventos oficiais do orgulho, relata o The Grayzone.

Em 6 de novembro de 2020, um policial apareceu na casa de Denis Solis, um rapper afiliado ao Movimento. Solis usou a câmera do celular para transmitir ao vivo para o Facebook, os insultos antigays que dirigiu ao policial. A sentença de 8 meses de prisão que Solis recebeu por “desacato” gerou a faísca para a greve de fome de novembro de 2020, que levou o San Isidro ao palco global.

Luis Manuel Otero, coordenador do Movimento San Isidro, em atos de desrespeito à bandeira de Cuba
Luis Manuel Otero, coordenador do Movimento San Isidro, em atos de desrespeito à bandeira de Cuba

A greve foi realizada em Havana Velha, na casa do coordenador do Movimento, Luis Manuel Otero Alcántara. Artista afro-cubano, Otero atraiu a ira do governo ao desrespeitar a bandeira cubana, inclusive enrolando-a em torno de seu torso nu, sentado no vaso sanitário. Em outra exibição provocativa, Otero reuniu crianças para correr pelo bairro, agitando uma bandeira americana gigante, o que desencadeou uma resposta policial imediata, e sua própria detenção por 4 dias.

A visita ao local da greve de fome pelo jornalista e reconhecido autor literário cubano, Carlos Manuel Álvarez, ajudou a galvanizar o interesse da mídia internacional. Vindo das fileiras da elite educada de Cuba, Álvarez logo encontrou espaço na seção de opinião do The New York Times, para comercializar San Isidro para um público liberal nos EUA.

greve de fome de membros do Movimento San Isidro
Jornalista Carlos Manuel Álvarez (centro) em solidariedade à greve de fome de Luis Miguel Otero (à direita) e do rapper Maykel Osorbo (à esquerda), novembro de 2020.

Em 7 de novembro de 2020, um grupo de artistas começou um sit-in do lado de fora do Ministério da Cultura. Boa parte deles não era de opositores do governo, e buscavam o diálogo com o ministro. Entretanto, os veículos da mídia ocidental entrevistaram apenas os membros do Movimento San Isidro.

A intensa cobertura alçou o San Isidro ao cenário internacional, ganhando a atenção de artistas e escritores famosos nos EUA e Europa. O Departamento de Estado norte-americano alcançara seu objetivo.

O Movimento aprofundou seus laços com a direita internacional através da fundação CADAL, com base na Argentina, que nomeou o San Isidro para o Prêmio Freemuse de Expressão Artística 2021. A CADAL está no centro de uma rede de organizações libertárias que alavancam o dinheiro corporativo para impulsionar o mercado livre em toda a América Latina. Entre os parceiros mais próximos da CADAL está a Atlas Network, o think tank que também é patrocinado pelo Departamento de Estado dos EUA, através da NED.

Em maio de 2021, depois que Otero foi novamente detido pela segurança cubana, uma carta aberta ao presidente Diaz-Canel, assinada por um elenco de figuras culturais negras e afro-latinas proeminentes, apareceu na New York Review of Books, exigindo sua libertação.

Patria y Vida, o rap favorito do Departamento de Estado dos EUA

Patria y Vida, a primeira canção diretamente associada à mobilização de cubanos para protestar contra o governo, foi gravada em Miami. A canção apresenta três artistas cubanos auto-exilados: Yotuel do grupo de hip-hop Orishas, o duo de reggaeton Gente de Zona e o cantor e compositor Descemer Bueno. Eles foram complementados por dois membros do Movimento San Isidro, os artistas de hip-hop, El Funky e Maykel “Osorbo” Castillo.

The opening image of the video of Patria y Vida
Imagem de abertura do vídeo Patria y Vida

Em 12 de março deste ano, Yotuel e Gente de Zona realizaram uma vídeo-chamada com funcionários do Departamento de Estado, informando-os sobre o sucesso da canção e das demandas do Movimento San Isidro. Ao Parlamento Europeu, Yotuel pediu a “condenação do governo cubano, para que a ilha tenha forças para se rebelar“.

Três meses depois, a USAID emitiu um edital no valor de US$ 2 milhões, para subvenção de organizações da “sociedade civil” que procurassem promover a mudança de regime em Cuba. O documento enfatizou a necessidade de programas que “apoiem populações marginalizadas e vulneráveis, incluindo, mas não se limitando a jovens, mulheres, LGBTQI+, líderes religiosos, artistas, músicos e indivíduos de ascendência afro-cubana”.

11 de julho. Otero emitiu um chamado no Twitter em nome do Movimento San Isidro, para que manifestantes se reunissem no Malecón, litoral da cidade de Havana. As ocorrências iniciais em San Antonio de los Baños podem também ter sido em resposta à convocação de Otero. Os protestos então se espalharam pela ilha.

Joe Biden prometeu adicionar novas e sanções esmagadoras às que haviam sido impostas por Trump. As indicações são de que a administração democrata não retornará ao processo de normalização iniciado por Obama.

O movimento Vidas Negras Importam se posicionou no Instagram com uma declaração de solidariedade com a revolução cubana, recebendo críticas de setores conservadores norte-americanos.

Para o jornalista Max Blumenthal, os protestos de julho em Cuba foram arquitetados na Flórida. Através da hashtag  #SOSCuba, agentes financiados pelos EUA associados ao Movimento San Isidro defendiam a intervenção em Cuba meses antes das mídias sociais começarem a criticar o governo cubano de forma massiva.

A nova liderança cubana, que se seguiu ao período dos irmãos Castro na presidência do país e na secretaria do Partido Comunista Cubano, tem um enorme desafio pela frente, para que a contrarrevolução não seja bem sucedida.

Como salientou a historiadora Helena Salém, o governo precisaria reativar os canais de poder popular nas estruturas políticas, através de novos mecanismos de decisão. Ou seja, aprofundar a revolução socialista, ampliando a democracia popular.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Bielorrússia no xadrez da geopolítica: aumenta o cerco contra a Rússia

A queda da Bielorrússia colocaria um regime simpático à OTAN a cerca de 450 km de Moscou.

Xadrez da geopolítica EUA-Rússia
Xadrez da geopolítica Rússia-Estados Unidos \ Foto: Relatório Rand Corporation

O presidente Aleksandr Lukashenko pertence ao pequeno clube de governantes, do qual Jair Bolsonaro faz parte, que atuaram como negacionistas da pandemia de Covid-19. O bielorrusso declarou em abril de 2020 que vodka e sauna previnem a Covid-19. Há 27 anos no poder, ele é chamado pela mídia corporativa do Ocidente de o “último ditador da Europa”. No entanto, ao contrário do brasileiro, Lukashenko vem procurando garantir a soberania do país e proporcionar condições de vida satisfatórias à população.

Sua vitória na eleição presidencial de agosto de 2020 para um sexto mandato levou a denúncias de fraude e ao estabelecimento de sanções econômicas contra o país. As críticas aumentaram em maio de 2021, quando um avião da empresa irlandesa Ryanair foi forçado a descer no aeroporto da capital Minsk para que fosse detido o jornalista Roman Protasevich.

Desde então, o regime de Lukashenko vem enfrentando o acirramento dos protestos de setores da população e o aumento das sanções externas. O que a mídia ocidental vem omitindo, é que Protasevich era mais que um jornalista apenas empenhado na defesa dos direitos humanos. Ele já atuara como combatente no Batalhão Azov, a milícia neonazista ucraniana, contra os separatistas pró-Rússia da região do Donbas. E atualmente Roman é um ativista político engajado na derrubada do regime.

Michelle Bachelet, Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, denunciou em 15 de julho a prisão de opositores do governo bielorrusso, bem como invasões de escritórios de ONGs, de associações de jornalistas e de movimentos de oposição.

Para a Rússia, a desestabilização do país vizinho traz problemas de segurança, e poderia exacerbar as já difíceis relações com o Ocidente, avalia Ivan Timofeev, analista do think tank russo, Valdai Club.

No xadrez da geopolítica da Europa Oriental, as peças representadas pela Ucrânia e pela Moldávia já foram perdidas pela Rússia através de ações de guerra híbrida orquestradas principalmente por Washington e Londres. A queda da Bielorrússia colocaria um regime simpático à OTAN a cerca de 450 km de Moscou.

Qual é a história que a mídia não divulga sobre os protestos que nos últimos 12 meses vêm desestabilizando o país, e que levaram às recentes ações repressivas contra opositores, condenadas veementemente por Bachelet? E como a Rússia irá reagir se o Ocidente impuser uma revolução colorida para depor Lukashenko?

A integração da Bielorrússia com a Rússia

A Bielorrúsia era uma das 15 repúblicas da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, extinta em 1991. No poder desde 1994, Lukashenko tinha um pacto não explicitado com a população, em que esta usufruía de um estado de bem-estar social, enquanto abria mão de uma democracia no estilo ocidental.

Desde 1999, portanto oito anos após o fim da URSS, o país está envolvido em difíceis negociações com a Rússia visando uma ampla integração dos dois países, formando a União de Estados. Na ocasião da assinatura do tratado de intenções, Lukashenko já estava na presidência, enquanto Putin era o primeiro-ministro russo, em vias de assumir a presidência, em substituição a Boris Iéltsin.

De acordo com o relato da agência Tass, a criação de uma União de Estados entre a Federação Russa e República da Bielorrússia implica no estabelecimento de estruturas supranacionais, incluindo o parlamento bicameral, uma Constituição, corte de justiça, câmara de arbitragem, além de moeda única, sistemas energéticos unificados, sistema único de impostos e compatibilidade das políticas de comércio e aduaneiras.

Lukashenko vem procurando preservar os interesses e a soberania da Bielorrússia nas duras negociações com a Rússia. No início de 2021, permaneciam ainda cerca de 6 ou 7 questões a resolver, segundo a Tass.

Dentre as demandas de Minsk ainda pendentes de aceitação por Moscou estão preços mais baixos para o gás russo, compensações por perdas e a remoção de restrições a produtos da Bielorrússia.

Em outro artigo, Timofeev avalia que as sanções impostas pelo Ocidente podem enfraquecer a posição da Bielorrússia, forçando-a a fazer concessões nas negociações atuais, em troca de um apoio emergencial de Putin. No entanto, até o momento, Lukashenko vem mantendo suas condições para ir adiante com a integração, pelo menos nas declarações públicas.

O início da guerra híbrida contra a Bielorrússia

Um relatório de 2019 da Corporação Rand, um think tank financiado em grande parte pelas forças armadas norte-americanas, analisa as vantagens geopolíticas e ideológicas de se tentar “promover a mudança de regime na Bielorrússia”, dando apoio à oposição. Entretanto, o relatório menciona também que a população estaria menos interessada em liberdade do que em melhores condições vida.

O relatório cita uma pesquisa independente conduzida em 2015, que revelou que 70% dos entrevistados não queriam uma revolução no estilo da que havia ocorrido na Ucrânia em 2014. E que 78% não querem que ocorra derramamento de sangue no país.

Para os analistas da Rand, mesmo que as tentativas de se mudar o regime falhassem, haveria ganhos políticos por forçar Moscou a se sobrecarregar ao “empregar recursos – inclusive militares – para preservar sua posição na Bielorrússia. Os EUA e seus aliados europeus responderiam, então, com o endurecimento das sanções”. No entanto, “haveria o risco de ocorrer a deterioração geral do ambiente de segurança na Europa, o que representaria um revés para a política dos EUA”, avalia o relatório.

Segundo relato no Covert Action Magazine, interferências do Ocidente em questões internas da Bielorrússia vem ocorrendo desde 2016.  Um dos recipientes dos financiamentos para desestabilizar o regime bielorrusso foi o canal de televisão Belsat, baseado na Polônia.

Tanto a Polônia como a Lituânia são favoráveis à presença de tanques dos EUA no leste Europeu, posição que não é compartilhada pela Bielorrússia. Segundo Andrey Sushentsov, analista do Valdai Club, a competição estratégica entre a OTAN e a OTSC, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva, levaria ao aumento – indesejável para Minsk – da presença militar russa na região, e à escalada de tensões.

Sushentov avalia que a crise econômica de 2014 e a queda do preço do petróleo afetaram fortemente a economia Bielorrússia, dependente do mercado russo. Neste contexto de taxas de crescimento baixas, ou mesmo negativas, diminuiu o apoio ao governo, com a queda no padrão de vida da população.

A oposição liberal aproveitou para contestar a estratégia de promover a integração com a Rússia, acusando ainda o governo de fazer concessões a Moscou em troca de apoio na crise econômica e política. Este era o clima interno do país em 2020, ano eleitoral

As eleições presidenciais de agosto de 2020

Durante a campanha, a liderança bielorrussa teria cometido um erro político, segundo sustenta Sushentsov em outro artigo, ao adotar a narrativa de que o país se encontrava sitiado pela Rússia.

Em um confuso incidente ocorrido poucas semanas antes das eleições, 33 russos – supostamente mercenários – foram detidos nas proximidades da capital Minsk. Dentre as muitas versões difundidas, incluía-se a de que o grupo pretendia fazer atos de provocação com o intuito de causar tumultos em massa.

Por alguns dias, o presidente fez uso de retórica anti-russa, para depois retomar o tradicional discurso da amizade entre os dois países. No entanto, Lukashenko pode ter contribuído para causar desorientação em seus eleitores, avalia Sushentsov. Os resultados das eleições de agosto, que indicaram a vitória de Lukashenko para um sexto mandato, foram contestados no Ocidente.

A candidata da oposição, Svetlana Tsikhanouskaya, buscou refúgio na Lituânia, na sequência da repressão aos manifestantes que protestaram contra o que alegam terem sido eleições fraudulentas. Tsikhanouskaya concorrera à presidência em substituição a seu marido, Sergei, que fora impedido de se candidatar e se encontra preso.

protests against Lukashenko after the presidential elections of August 2020
Protestos contra Lukashenko em Minsk, setembro de 2020 \ Foto: AFP

Em abril de 2021, os EUA aplicaram sanções a nove empresas estatais, enquanto Tikhanovskaya conclamou o congresso norte-americano a apoiar organizações da sociedade civil e veículos de mídia de oposição.

A pegadinha que expôs as ações subversivas de Washington

Duas pessoas brincalhonas enganaram altos funcionários da National Endowment for Democracy (NED), órgão do governo norte-americano ligado a CIA, que financia atividades visando mudança de regime em países-alvo.

A coordenadora sênior da NED para a Europa, Nina Ognianova, e o presidente da instituição, Carl Gershman, foram enganados e levados a pensar que estavam conversando ao telefone com a líder oposicionista Svetlana Tsikhanouskaya (acesse o vídeo com a gravação).

Nas conversas que ocorreram em 17 de maio deste ano, ambos falaram abertamente do envolvimento da NED no financiamento e treinamento da oposição bielorrussa. Mencionaram também os apoios dados a sindicatos independentes, jornalistas, e as relações estabelecidas com o setor privado. Mais detalhes da pegadinha são apresentados no artigo de Ben Norton, no The Grayzone.

O desvio do voo 4978 da Ryanair

Em 23 de maio, um avião da empresa irlandesa Ryanair, ao sobrevoar o espaço aéreo da Bielorrússia, foi desviado de sua rota e forçado a pousar em Minsk, quando então foram detidos o jornalista Roman Protasevich e sua namorada. A aeronave estava no trajeto de Atenas para Vilnius, na Lituânia, base do governo paralelo de Tikhanovskaya.

aircraft with Protasevich diverted to Minsk
Rota do avião com Protasevich desviado para Minsk \ Arte editada: BBC 

Embora a detenção de Protasevich tenha sido discricionária, por outro lado pode-se argumentar que não foram realmente violadas normas internacionais.

O desvio do curso do voo e a prisão de Protasevich receberam o repúdio unânime da mídia do Ocidente, cuja memória seletiva convenientemente se esqueceu de mencionar um precedente bem mais sério, que realmente violou normas internacionais.

Em 2013, o avião que conduzia o presidente boliviano Evo Moralez de Moscou a La Paz fora proibido de sobrevoar o espaço aéreo de vários países europeus, e teve que permanecer por horas no aeroporto de Viena. A intenção dos países da OTAN era a de capturar Edward Snowden, responsável pelo vazamento de informações secretas da NSA (a Agência Nacional de Segurança norte-americana). No entanto, Snowden não se encontrava a bordo.

Mas quem é realmente Roman Protasevich?

Ele é apresentado na mídia ocidental como um heróico defensor de direitos humanos, atuando contra a brutal ditadura de Lukashenko. Entretanto, no mesmo artigo do The Grayzone, Ben Norton apresenta uma faceta menos conhecida do jornalista.

Protasevich trabalhou na Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade fundada pela CIA, originalmente um veículo de propaganda contra a União Soviética, e agora atuando contra a Rússia.

Do exterior, Protasevich organizou protestos e operações de desestabilização do governo bielorrusso. Ele trabalhou com a Rádio Européia para a Bielorrússia, um veículo de direita financiado pelos governos dos EUA, Polônia, Holanda e Lituânia. Na Polônia, Protasevich operou o canal Nexta, do Telegram.

Envolvimentos anteriores de Protasevich, também expostos no artigo The Grayzone,  mostram que ele não se limitou apenas a atividades de mídia e de propaganda política. Ele participou de operações militares do Batalhão Azov, a notória milícia neonazista ucraniana. Esta participação parece não ter se limitado ao serviço de imprensa da milícia. Um líder do Azov reconheceu publicamente que Roman atuou também como combatente.

Activist Roman Protasevich wearing combat uniform of neo-nazi Azov Batallion
Protasevich em suas atividades extra-jornalismo: no Departamento de Estado, Washington, em abril 2018/usando uniforme com a insígnia neonazista do batalhão Azov/na capa de uma publicação do Azov/com um rifle de assalto \ Fotomontagem: The Grayzone

Diversas fotos mostram Roman em uniforme militar, inclusive portando um rifle. Ele também aparece usando camisas com a suástica neonazista.  Segundo relatado no The Grayzone, o próprio Protasevich admitiu que passou 1 ano lutando contra forças pró-russas na região separatista do Donbas, ao leste da Ucrânia.

As novas sanções contra a Bielorrússia

Em 25 de maio, os líderes dos países da União Européia aprovaram uma resolução demandando a aplicação de novas medidas contra a Bielorrússia. Estas iriam desde sanções contra indivíduos, a medidas capazes de afetar a economia do país.

Outro analista do Valdai Club, Ivan Timofeev, considera que o Ocidente deveria ter o cuidado de não tornar o governo de Minsk muito dependente de Moscou, mas não foi isto que ocorreu, pois duras sanções foram impostas. Talvez tenha prevalecido a visão apresentada no relatório da Rand Corporation, de que haveria ganhos para o Ocidente em forçar Moscou a se desgastar no empenho de apoiar Lukashenko.

Em 21 de junho, os ministros de relações exteriores dos países da União Européia aprovaram em Luxemburgo as novas sanções contra a Bielorrússia. Segundo relato no Deutsche Welle, serão afetados importantes setores da economia, como as exportações de fertilizantes, a indústria do tabaco, produtos petrolíferos e petroquímicos, além do setor financeiro.

Estados Unidos, Canadá e Reino Unido também aplicaram novas sanções. Os EUA congelaram os bens de dezenas de funcionários do governo bielorrusso. Tikhanovskaya aproveitou para pedir pela libertação de presos políticos, inclusive de seu marido Sergei.

As duras sanções irão estimular uma maior integração dos sistemas de pagamento nas transações entre Minsk e Moscou, avalia Timofeev em outro artigo. Mas será provavelmente inevitável a queda no nível de vida dos bielorrussos, com efeito imprevisível na estabilidade do país.

Em face das novas sanções impostas pelo Ocidente, Putin já determinou em 15 de julho que o governo russo ajude a Bielorrússia. Moscou parece disposta a não permitir que o Ocidente tome sua torre de defesa no tabuleiro de xadrez.

Concluindo

A Rússia deverá continuar a garantir a estabilidade da Bielorrússia. E a população do país precisará encontrar formas de resolver seus problemas, sem interferência externa.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

Israel e palestinos em luta decisiva à frente

Uma Intifada popular palestina de longa duração, em uma revolta com demandas específicas e sob uma liderança nacional unificada, representaria a maior ameaça à ocupação militar de Israel e ao regime do apartheid em muitos anos.

Gaza war
Gaza no centro dos conflitos entre Israel e os palestinos \ Arte: domínio público

O texto que se segue é uma tradução, por Ruben Rosenthal, do artigo do jornalista e pesquisador Ramzy Baroud¹, Teatro político de Bennett: Israel e palestinos em luta decisiva à frente, publicado no Counter Punch em 2 de julho de 2021.  A ilustração original foi substituída pelo tradutor.

Muitos palestinos acreditam que o confronto militar de 10 a 21 de maio entre Israel e a resistência de Gaza, juntamente com a revolta popular simultânea em toda a Palestina, foi um divisor de águas. Israel está fazendo tudo ao seu alcance para provar que estão errados.

Os palestinos estão justificados em ter este ponto de vista. Afinal, apesar de suas minúsculas capacidades militares, eles conseguiram repelir – ou pelo menos neutralizar – a enorme e superior máquina militar israelense em um pequeno trecho de terra sitiado e empobrecido como a Faixa de Gaza.

No entanto, para os palestinos, não se trata apenas de poder de fogo, mas também de sua almejada unidade nacional. De fato, a revolta palestina, que incluiu todos os palestinos, independentemente de suas origens políticas ou geográficas, está promovendo um novo discurso sobre a Palestina – não sectário, assertivo e progressista.

O desafio para o povo palestino é se ele será capaz de traduzir suas conquistas em uma estratégia política real, e finalmente superar o opressivo – e muitas vezes trágico – período que se seguiu aos acordos de Oslo².

É evidente que não será tão fácil. Afinal, há forças poderosas que estão profundamente envolvidas no atual status quo. Para elas, qualquer mudança positiva no caminho da liberdade palestina certamente levará a perdas políticas, estratégicas e econômicas.

A Autoridade Palestina, que opera sem mandato democrático, está mais consciente de sua posição vulnerável do que em qualquer outro momento do passado. Não só os palestinos comuns não têm fé nesta “autoridade”, mas eles a veem como um obstáculo em seu caminho para a libertação.

Portanto, não foi surpresa ver o presidente da AP, Mahmoud Abbas, e muitos de seu corrupto círculo íntimo, cavalgarem a onda da revolta popular palestina, mudando inteiramente sua linguagem. Mesmo que fugazmente, eles passaram de um discurso que fora cuidadosamente projetado para ganhar a aprovação dos “países doadores”, para um que canta as glórias da “resistência” e da “revolução”. Este grupo corrupto está desesperado, ansioso para sustentar seus privilégios e sobreviver a qualquer custo.

Se os palestinos continuarem com sua mobilização popular e trajetória ascendente, Israel é a entidade que mais tem a perder. Uma Intifada popular palestina de longa duração, em uma revolta com demandas específicas e sob uma liderança nacional unificada, representaria a maior ameaça à ocupação militar de Israel e ao regime do apartheid em muitos anos.

O governo israelense, desta vez sob a liderança inexperiente do atual primeiro-ministro, Naftali Bennett, e de seu parceiro de coalizão, o futuro primeiro-ministro, Yair Lapid, é claramente incapaz de articular uma estratégia de guerra pós-Gaza. Se a bizarra transição política de poder, do ex-líder israelense Benjamin Netanyahu para a coalizão de Bennett, for por um instante ignorada, parece como se Netanyahu estivesse ainda mantendo o controle.

Bennett, até agora, seguiu o manual de Netanyahu sobre todos os assuntos relativos aos palestinos. Ele, e especialmente seu ministro da Defesa, Benny Gantz – ex-parceiro de coalizão de Netanyahu – continuam a falar de seu triunfo militar em Gaza e da necessidade de avançar nessa suposta “vitória”. Em 15 de junho, o exército israelense bombardeou vários locais na Faixa de Gaza sitiada e, novamente, em 18 de junho. No entanto, umas bombas a mais dificilmente mudarão o resultado da guerra de maio.

“É hora de converter nossas conquistas militares em ganhos políticos”, disse Gantz em 20 de junho. Mais fácil dizer do que fazer. De acordo com essa lógica, Israel vem pontuando “conquistas militares” em Gaza há muitos anos, ou seja, desde a sua primeira grande guerra contra a Faixa, em 2008-09. Desde então, milhares de palestinos, a maioria civis, foram mortos e muitos mais feridos. No entanto, a resistência palestina continuou inabalável e zero “ganhos políticos” foram realmente alcançados.

Gantz, como Bennett e Lapid, reconhece que a estratégia de Israel em Gaza foi um total fracasso. Uma vez que seu principal objetivo é permanecer no poder, eles estão atados às regras do velho jogo que foram formuladas por políticos de direita e sustentadas por extremistas de direita. Qualquer desvio deste estratagema fracassado significa um possível colapso de sua coalizão instável.

Em vez de conceber uma nova estratégia realista, o novo governo de Israel está ocupado, enviando mensagens simbólicas. A primeira mensagem é para seu principal público-alvo – o eleitorado de direita de Israel, particularmente os partidários de Netanyahu descontentes– de que o novo governo está igualmente comprometido com a “segurança” de Israel, para garantir uma maioria demográfica na Jerusalém ocupada, como no resto da Palestina, e que nenhum Estado palestino jamais será concretizado.

Outra mensagem é para os palestinos e, por extensão, para países da região cujos povos e governos apoiaram a revolta palestina durante a guerra de maio: que Israel continua sendo uma formidável força militar, e que a equação militar fundamental permanece inalterada.

Ao continuar sua escalada militar dentro e ao redor de Gaza, as violentas provocações no bairro de Sheikh Jarrah e em toda Jerusalém Oriental, e as contínuas restrições à necessidade urgente de reconstrução de Gaza, a coalizão de Bennett está se engajando em um teatro político. Enquanto a atenção permanecer fixada em Gaza e Jerusalém, Bennett e Lapid continuam a ganhar tempo e a distrair o público israelense de uma iminente implosão política.

Os palestinos estão, mais uma vez, provando ser atores críticos na política israelense. Afinal, foi a unidade e a determinação palestina em maio que humilhou Netanyahu, e encorajou seus inimigos a finalmente removê-lo do poder.

Agora, os palestinos poderiam potencialmente ter as chaves para a sobrevivência da coalizão de Bennet, especialmente se o governo israelense  concordar com uma troca de prisioneiros: vários soldados israelenses capturados por grupos palestinos em Gaza seriam libertados, em troca de centenas de prisioneiros palestinos mantidos sob terríveis condições em Israel.

No dia da última troca de prisioneiros, em outubro de 2011, Netanyahu fez um discurso televisionado, cuidadosamente elaborado para ele se apresentar como salvador de Israel. Bennett e Lapid apreciariam uma oportunidade semelhante.

Cabe aos novos líderes de Israel ter cautela em como proceder a partir de agora. Os palestinos estão provando que não são mais peões no circo político de Israel, e que também podem fazer política, como as últimas semanas demonstraram.

Até agora, Bennett provou ser um outro Netanyahu. No entanto, se o primeiro-ministro mais longevo de Israel em última análise falhou em convencer os israelenses do mérito de sua doutrina política, a farsa de Bennett provavelmente será exposta muito mais cedo. E o preço certamente será ainda mais pesado desta vez.

¹Ramzy Baroud é jornalista e editor do The Palestine Chronicle. Ele é autor de vários livros, e pesquisador sênior não residente no Centro para o Islã e Assuntos Globais (CIGA),  da Universidade Zaim de Istambul.

²Em 1993, Yitzhak Rabin, então primeiro-ministro de Israel, e Yasser Arafat , presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), assinaram os chamados “acordos de paz de Oslo” na Noruega.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue  Chacolhando.

Brasil participa de manobras navais contra a Rússia no Mar Negro

Por Ruben Rosenthal

Que interesses no Brasil serão favorecidos pelo alinhamento com a política belicista de Biden? A decisão do governo brasileiro não chega a surpreender, vinda de um presidente que bate continência para a bandeira dos EUA. E os militares estão satisfeitos com esta posição subalterna, acreditando que a Rússia ainda é um país comunista?

Logotipo Sea Breeze
Sea Breeze, manobras anuais promovidas pelos EUA e Ucrânia, no mar, terra e ar \ Crédito: C6F-Sexta Frota

A manobra aeronaval Sea Breeze (Brisa do Mar) iniciada em 28 de junho no Mar Negro, nas proximidades do território russo, é liderada pelos Estados Unidos e conta com a participação de 32 países, inclusive do Brasil. As ações vêm na sequência de incidentes ocorridos no Mar Negro, quando um barco patrulha russo fez disparos de aviso contra o destroier da marinha britânica HMS Defender, que entrara em águas territoriais da Criméia, segundo declaração do ministro da defesa russo em 23 de junho.

A manobra faz parte de uma parceria dos EUA com a Ucrânia, e ocorre apenas algumas semanas após a reunião dos presidentes Biden e Putin em Genebra. A participação do Brasil em exercícios militares hostis à Rússia pode levar ao engajamento do país em uma confrontação, que parece reacender o clima da Guerra Fria que prevaleceu por décadas, para benefício da indústria bélica.

O incidente com o destroier HMS Defender

A anexação da Criméia pela Rússia, seguindo-se ao referendo de 2014 em que 97% da população da península teria se manifestado favorável à separação da Ucrânia, nunca foi reconhecida pelo Ocidente. Poucos meses antes da consulta popular, uma revolução colorida orquestrada em Washington tirara do poder o presidente ucraniano eleito, possibilitando a ascensão ao poder da extrema direita ucraniana, ferozmente antirrussa. 

Estes eventos alienaram as populações de origem russa da Criméia e da parte ocidental da Ucrânia.  A região do Donbass tentou seguir o mesmo caminho da Criméia, mas encontrou forte resistência de Kiev, o que originou confrontos bélicos entre o governo central e os separatistas, e o aumento das tropas russas na fronteira, causando alarme na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Este é o clima que antecedeu os exercícios militares deste ano no mar Negro, iniciados pelos britânicos.

O HMS Defender se encontrava no Mar Negro, na rota do porto ucraniano de Odessa para a Geórgia, quando violou águas territoriais na região da Criméia. Segundo o Deutsche Welle, a Rússia declarou que o HMS Defender deixou as águas territoriais russas após os disparos de aviso. Assista o  vídeo liberado pelo FSB, o Serviço de Segurança da Rússia. Um bombardeiro russo SU-24 teria também despejado quatro bombas à frente do Defender, para convencê-lo a mudar o curso.

British navy cruiser HMS Defender is intercepted by russian plane
HMS Defender muda o curso após aviso russo e despejo de 4 bombas pelo avião SU-24 \ Fonte: Less Daily

O ministro da defesa do Reino Unido declarou que “o navio da marinha real estava exercendo passagem inocente através de águas territoriais ucranianas, em concordância com a legislação internacional. E que não ocorreram disparos de alerta”.

Para o ex-embaixador britânico Craig Murray, crítico do belicismo da OTAN, não está em disputa que a Rússia exerce o controle de fato da Criméia, mesmo que a anexação não tenha sido conduzida de acordo com as normas internacionais. Um vaso de guerra navegar em águas territoriais da Criméia equivale a um regimento de tropas desembarcar na península, acrescentou Murray. 

A alegação de “passagem inocente” não procede, considera ele. Trataria-se na verdade de um ato de propaganda, pela presença de uma equipe da BBC a bordo do HMS Defender, como também de busca de informações sobre a defesa militar russa.

Mesmo que o governo de Sua Majestade apoie o pleito ucraniano de soberania, a posição legal seria a de considerar a Rússia como potência ocupante e não violar as águas territoriais da Criméia, avalia o ex-embaixador. Murray ressalta o contraste com que o Reino Unido trata outra potência ocupante, Israel. O próprio Reino Unido ocupa ilegalmente as Ilhas Chagos, em desobediência a diversas decisões de cortes internacionais, conforme denunciou anteriormente Murray.

Sea Breeze, as manobras elevam a tensão no Mar Negro

Os exercícios militares conjuntos entre Ucrânia e EUA no Mar Negro começaram em 1997, dois anos após Rússia e Ucrânia acertarem a divisão da frota, com o fim da União Soviética, conforme outro relato no Deutsche Welle. Com a secessão da Criméia, parte da frota ucraniana passou para a Rússia. 

Conforme relato no America’s Navy, as manobras de 2021 se estenderão de 28 de junho a 10 de julho, contando com a participação de 32 países de seis continentes, com 5.000 tropas, 32 embarcações, 40 aviões e 18 grupos de operações especiais.

Além dos países membros da OTAN e da Ucrânia, participam dentre outros, Israel, Egito, Marrocos, Emirados Árabes Unidos, Coréia do Sul, Japão, Austrália, Suécia, Moldávia, Geórgia e Brasil.

O incidente com  HMS Defender mostrou que a Rússia não está disposta a aceitar provocações sem reagir. Com menos de 6 meses na presidência, Joe Biden parece que fará as tensões entre EUA e Rússia escalarem, levando a uma nova Guerra Fria entre os dois países.  

Que interesses no Brasil serão favorecidos pelo alinhamento com a política belicista de Biden? A decisão do governo brasileiro não chega a surpreender, vinda de um presidente que bate continência para a bandeira dos EUA. E os militares estão satisfeitos com esta posição subalterna, acreditando que a Rússia ainda é um país comunista?

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacolhando.

A longa marcha da China rumo à liderança econômica: O Império resiste

Por Ruben Rosenthal

No governo Biden, deverá continuar ou mesmo ser expandida a política de sanções e restrições a empresas e autoridades chinesas, com o pretexto de impor punições por competição desleal e violações de direitos humanos em Xinjiang e Hong Kong.

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Abertura da reunião dos representantes diplomáticos da China e EUA em Anchorage, Alasca, 18 de março  \ Foto: Frederic J. Brown/AFP/Getty Images

Nestes meses iniciais da presidência de Joe Biden, os analistas políticos procuram identificar o que se pode esperar das relações entre Estados Unidos e China.  As ações da nova administração até o momento indicam que existe vontade política para tentar resolver as atuais pendências através de  negociações? Ou a probabilidade é de que ocorra agravamento do contencioso comercial, e de que alguma crise localizada, como a questão do Mar do Sul da China ou de Taiwan, possa evoluir para uma confrontação armada entre as duas maiores economias do planeta?

Este artigo é o terceiro de uma trilogia que procurou mostrar como a China evoluiu a partir de meados do século 20, de uma economia essencialmente agrária e de indústria pesada, para se tornar a segunda economia mundial, tendo alcançado inovações tecnológicas em setores de ponta.  Uma jornada em  que precisou e ainda precisa superar obstáculos, e que resgata a relevância histórica da China para o processo civilizatório.

O primeiro artigo da trilogia relata como, através do plano de modernização tecnológica Made in China 2025, o país espera se tornar uma superpotência industrial até 2049. O segundo artigo mostrou que através da Nova Rota da Seda (Iniciativa Cinturão e Rota) a China rompeu com a política diplomática que adotara a partir dos anos 80, de manter um perfil discreto em política externa, para passar a agir de forma mais assertiva na busca de parceiros comerciais e de regiões de influência.

No entanto, ao passar a interferir nos interesses econômicos norte-americanos e de seus aliados, a China se tornou alvo de uma incessante campanha em diversas frentes. O artigo sobre a Nova Rota da Seda também relata como evoluíram as relações entre a República Popular da China e os Estados Unidos a partir da tomada do poder pelos comunistas, com foco nas administrações de Obama e Trump, resumidas a seguir.

Relações China-EUA no governo Obama

Um novo fator pode ter levado a China a assumir uma posição ainda mais assertiva na Ásia. Em outubro de 2011, a então secretária de estado de Barack Obama, Hillary Clinton, defendeu um reposicionamento da política externa norte-americana, em função da retirada de tropas do Afeganistão. Segundo a secretária de estado, a região Ásia-Pacífico deveria se tornar “alvo prioritário das ações diplomáticas, estratégicas e de investimentos dos EUA”.

No centro da nova estratégia de Washington de um “pivô para a Ásia” estava a Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês), prevista para se tornar o maior acordo de livre comércio no mundo, cobrindo cerca de 40 por cento da economia global. A iniciativa da Nova Rota da Seda representou uma reação da China à mudança de foco da política externa dos Estados Unidos proposta por Clinton.

Em 2011, o déficit comercial dos EUA com a China alcançou 295,5 bilhões de dólares. Em 2012, EUA e Japão questionaram junto à OMC, a Organização Mundial do Comércio, as restrições chinesas à exportação de metais de terras raras. Era o início das tensões comerciais entre os dois países, que atingiriam um clímax na gestão Trump.

Relações China-EUA no governo Trump

Donald Trump se retirou da TTP já no seu primeiro dia no cargo, em 2 de janeiro de 2017, antes mesmo da ratificação da Parceria pelo Congresso. Em seu governo, o contencioso comercial evoluiu para uma guerra comercial, com a aplicação de barreiras e sobretaxas a produtos chineses.

Por outro lado, sanções econômicas foram aplicadas em função de acusações de violações de direitos humanos em Xinjiang, Hong Kong e Tibet. Foram também levantadas acusações contra os chineses de ataques cibernéticos e de roubo de tecnologia. A questão da internet 5G se tornou uma parte importante da disputa tecnológica entre os dois países.

A retórica anti-China dominou a administração Trump, aumentando ainda mais com as acusações de que o vírus da Covid-19 fora produzido em laboratório pelos chineses. E que uma indenização bilionária deveria ser imposta à China.

O documento interno “Estratégia dos EUA para o Indo-Pacífico”, de 2018, que teve sua divulgação liberada nos últimos dias da gestão de Trump, mostra como as ações do governo estavam claramente impregnadas de um viés ideológico.

Em um dos itens do documento consta: “A China busca dominar tecnologias de ponta, incluindo inteligência artificial e biogenética, para aproveitá-las a serviço do autoritarismo. O domínio pelos chineses de tais tecnologias traria profundos desafios para as sociedades livres”.

No documento da Casa Branca intitulado “Enfoque Estratégico dos Estados Unidos para a República Popular da China”, datado de maio de 2020, estão elencados os desafios que a RPC colocava para os Estados Unidos, na visão da administração Trump. O documento avalia que a China procurará obter “vantagens econômicas e militares indevidas, para impor o pensamento do Partido Comunista Chinês e censurar a livre expressão”.

Nestes meses iniciais da administração Biden, a política em relação à China que foi herdada do antecessor Donald Trump está sendo reavaliada. Resta ver se as futuras ações dos EUA irão favorecer a cooperação ou a confrontação entre os dois países.

Relações China-EUA no governo Biden

Ao analisar o enfoque da administração Biden no estabelecimento de sua política de competição estratégica com a China, o pesquisador An Gang, da Universidade de Tsinghua, Pequim, identifica duas fases distintas. Na primeira, que iria da posse em janeiro até a reunião em março de altas autoridades dos dois países em Anchorage, no Alasca, Gang percebe quatro ações principais.

Como primeira ação, a política hostil na relação comercial está sendo revista, mas permanece ainda indefinida. As táticas agressivas de guerras comerciais adotadas por Trump provavelmente não terão continuidade.

No entanto, no governo Biden deverá continuar ou mesmo ser expandida a política anterior de sanções e restrições a empresas e autoridades chinesas, com o pretexto de impor punições por competição desleal, e violações de direitos humanos em Xinjiang e Hong Kong.

A segunda ação está relacionada com a estratégia geopolítica norte-americana. Os EUA retiraram forças (convencionais) do Oriente Médio e do Afeganistão, e passaram a concentrar o foco na estratégia do Indo-Pacífico, como forma de contenção da China.

Vijay Prashad, historiador e jornalista indiano, chama a atenção para a reunião virtual ocorrida em 12 de março, de Joe Biden com os chefes de estado da Austrália, Índia, Japão. Tratava-se de uma reunião do Diálogo de Segurança Quadrilateral, conhecido como Quad.

Reunião do Quad
Reunião virtual do “Quad”, com participação dos chefes de estado da Índia, EUA, Austrália e Japão, 22 de março \ Foto: Twitter/Scott Morrison

O objetivo do Quad é de aprofundar a pressão econômica e militar sobre a China. O grupo foi criado em 2004, fez parte da política de Obama de um “pivô para a Ásia”, mas só decolou na administração Trump.

Embora não tivesse ocorrido menção direta à China durante a reunião, a decisão tomada então, de se formar um grupo de trabalho em tecnologias críticas emergentes e cadeias de fornecimento indicou a clara  intenção de bloquear o acesso da China a tecnologias e matérias primas que possam ter uso civil e militar, avalia Prashad.

A terceira ação visualizada por Gang foi que os EUA passaram a atuar de forma coordenada com os aliados. Por exemplo, a administração Biden conseguiu que a União Europeia suspendesse a ratificação de acordo de cooperação em investimentos com a China, a pretexto da situação em Xinjiang.

A quarta ação foi de priorizar na cooperação China-EUA, a questão das mudanças climáticas, com foco nas emissões de carbono. Os EUA esperam assumir a liderança global neste campo, após o negacionismo que vigorou durante o governo Trump.

Reunião em Anchorage, Alasca 

Representantes de alto nível dos dois países se reuniram em Anchorage, em 18 e 19 de março. A delegação norte-americana era liderada pelo secretário de estado Antony Blinken e por Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional. No comando da delegação chinesa estavam o ministro das relações exteriores, Wang Yi, e Yang Jiechi, conselheiro de estado e ex-embaixador da China nos Estados Unidos.

Conforme relato no britânico The Guardian, na véspera da reunião os EUA tomaram uma série de ações contra a China, incluindo intimações de diversas empresas chinesas de tecnologia por questões de segurança nacional, atualização de sanções relacionadas com a questão de Hong Kong, bem como iniciaram a revogação de licenças de telecomunicação.

Os anfitriões não foram nada sutis desde a intervenção inicial, como mostram as declarações de Blinken e Sullivan publicadas pelo The Guardian (ver vídeo).  Blinken disparou: “Nós vamos discutir nossas profundas preocupações com ações da China, incluindo em Xinjiang, Hong Kong, Taiwan, ataques cibernéticos contra os Estados Unidos e coerção econômica de nossos aliados. Cada uma dessas ações ameaça a ordem baseada em regras que mantém a estabilidade global.”

Jiechi replicou de forma contundente: “Os Estados Unidos fazem uso de força militar e da hegemonia financeira para ampliar sua jurisdição e reprimir outros países. Abusam dos conceitos de segurança nacional, para obstruir as trocas comerciais normais e incitar alguns países a atacar a China”. E prosseguindo: “Deixe-me dizer que, para os chineses, os Estados Unidos não têm qualificação para falar com a China a partir de uma posição de força”.

Em discurso de 15 minutos, Jiechi ressaltou ainda a hipocrisia dos EUA em relação aos direitos humanos, criticou as intervenções externas dos norte-americanos, e acusou as autoridades de adotarem uma mentalidade de “Guerra Fria”.

Já o ministro das relações exteriores, Wang Yi, teria adotado um tom mais conciliador, conforme relatado em Foreign Policy. Segundo a publicação, o ministro declarou que “Blinken e Sullivan são verdadeiros amigos do povo chinês”. Tal declaração está evidentemente carregada de ironia.

O Pós-Alasca

Para An Gang, as ações da administração Biden após Anchorage indicam uma nova fase, em que republicanos e democratas atuarão de forma conjunta no congresso norte-americano para introduzir leis agressivas em relação à China. Diversos projetos de lei versando sobre questões de competição estratégica aguardam votação no legislativo, e poderão afetar negativamente o futuro das relações entre os dois países.

Poucos dias após a reunião do Alaska, em 22 de março, foram aplicadas sanções em quatro autoridades chinesas pelos EUA, Canadá e Reino Unido. No entanto, os chineses não foram pegos de surpresa. Os ministros do exterior de China e Rússia se reuniram em Guilin, na China, em 22 e 23 março, quando concordaram em atuar conjuntamente contra as “sanções ilegítimas, sem base na lei internacional”,  conforme relato de Amber Wang, jornalista do South China Morning Post, de Hong Kong.

Sergey Lavrov e Wang Yi
Sergey Lavrov, ministro das relações exteriores russo, e seu homólogo chinês, Wang Yi; Guilin, China, 23 de março \ Foto: Reuters

O ministro do exterior russo, Sergey Lavrov, classificou as ações dos norte-americanos de “táticas destrutivas de Guerra Fria”. A Rússia também sofre sanções impostas pelo Ocidente após a anexação da Crimeia em 2014, aumentadas em março de 2021 a pretexto do suposto envenenamento do opositor de Putin, Alexei Navalny.

Anteriormente, Lavrov já propusera que os dois países se afastassem do dólar em suas relações comerciais, como forma de reduzir o efeito das sanções.  Yang Jin, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, considera que a China deve receber bem a proposta de se afastar do sistema de pagamentos SWIFT controlado pelos EUA, passando Rússia e China a usar o rublo e o yuan em seus acordos comerciais.  

Para Cheng Yijun, especialista em relações China-Rússia na Academia Chinesa de Ciências Sociais, não é viável se alcançar a independência completa em relação ao dólar nas relações comerciais entre os dois países. Yijun considera também que, “forjar uma aliança com a Rússia não é a melhor opção para a China”. E continua: “Não há dúvida que os dois países se aproximaram em face das pressões vindas dos EUA, mas existem mais diferenças que pontos em comum entre eles”. A ascensão da China representaria também uma ameaça à Rússia, segundo o especialista.

Para a administração Biden, a fonte com maior potencial de conflito com os chineses é a questão de Taiwan, avalia An Gang. Daniel Ellsberg, responsável pelo vazamento do Documentos do Pentágono em 1971, também compartilha desta opinião. Temendo que a questão de Taiwan leve a um conflito militar entre EUA e China, ele divulgou agora informações altamente secretas que guardara por 50 anos.

Durante a crise do estreito de Taiwan em 1958, os líderes militares dos Estados Unidos planejaram aproveitar o clima de tensão para realizar ataques nucleares contra alvos militares chineses localizados em áreas densamente habitadas. No entanto, o presidente Eisenhower se recusou a ir adiante com o plano do alto comando.

No documento da Inteligência Nacional dos EUA publicado em abril de 2021  consta que o Partido Comunista Chinês continuará seus esforços para difundir a influência da China em detrimento dos Estados Unidos, procurando afastar Washington de seus aliados e parceiros, e criando normas internacionais que favoreçam o sistema autoritário chinês. O documento sugere ainda que os EUA precisarão estar preparados para conflitos de guerra híbrida situados entre guerra e paz.

Um indício que as relações bilaterais entre os dois países poderão se deteriorar foi a decisão da  administração Biden de resgatar a polêmica sobre a origem do vírus da Covid-19. Diferentemente de Trump, Biden quer obter um “parecer científico” sobre a questão.  Entretanto, no prazo de poucas semanas nenhuma conclusão minimamente confiável pode ser alcançada.

Uma notícia de dezembro de 2020, que voltou a aparecer na mídia no começo de junho, é que o Pentágono deu 39 milhões de dólares para a entidade de caridade EcoHealth Alliance, que financiou pesquisa sobre coronavírus em Wuhan no laboratório chinês que vem sendo acusado de ser a origem do surto  do vírus Sars-CoV-2.

Cui Liru, do Taihe Institute, um importante  think tank chinês sediado em Pequim, considera que é necessário que as duas nações discutam como lidar com a competição estratégica em temas sensíveis e de alto risco. O desafio de longo prazo será “explorar conceitos e práticas que construam pontes que ajudem a superar as diferenças estruturais”.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Como o Deus dos judeus me tornou antissionista

Por Ruben Rosenthal 

Me afastar de Deus e, como consequência, de um convívio mais próximo com a comunidade judaica, contribuiu para que eu não incorporasse o sentimento de vítima a que os judeus frequentemente recorrem para justificar as ações de Israel, por mais desumanas que estas possam ser.

Sodoma e Gomorra em chamas
Sodoma e Gomorra em chamas: os anjos conduzem Ló e sua família; ao fundo, a estátua de sal da esposa de Ló \ Pintura: Jacob de Wet II, 1680
 

A partir de 2018 comecei a escrever de forma sistemática artigos de cunho político, em que o tema da Palestina foi e continua a ser bastante recorrente. O tom dos artigos foi sempre de crítica às ações do Estado de Israel contra o povo palestino, tanto internamente, como nos territórios ocupados ilegalmente e na Faixa de Gaza.  

Mas se hoje já consigo denunciar que Israel é um Estado opressor, que implementa uma política de apartheid, nem sempre pensei desta forma. Considero que a minha rejeição ao sionismo foi um processo gradual, que começou há várias décadas, com o meu afastamento do Deus punitivo dos judeus.   

A religião na infância  

Me recordo de quando meus pais me levavam no feriado judaico do Yom Kipur – o Dia do perdão – ao velho templo da Praça Onze, no Centro do Rio de Janeiro, demolido anos depois com as obras do metrô. Apenas os homens podiam ficar na parte de baixo, onde eram conduzidas as rezas pelos anciões do templo. Um destes era tio de minha mãe, o tio Chico. 

Nestas ocasiões, eu me sentia bastante incomodado pelo cheiro presente do salão de reza. O odor parecia vir do hálito dos que estavam jejuando desde as 18 horas do dia anterior, quando boa parte dos que estavam presentes provavelmente teria comido aliche em conserva na última refeição. Para complementar a composição do cheiro, talvez estivesse incluída uma pitada de odor vindo da naftalina usada na preservação dos ternos. 

O vozerio no salão por vezes crescia até alcançar um nível quase insuportável. Um dos anciões dava então uma pancada forte na bancada, cobrando silêncio. Algum tempo depois a mesma situação voltava a se repetir, e assim, até o encerramento às 18 horas.    

A minha memória mais antiga, no que se refere ao Estado de Israel, é de quando eu estudava em um colégio israelita no bairro de Botafogo. Creio que eu devesse ter uns 7 anos de idade na ocasião. Lembro que os professores ou a direção solicitavam aos alunos que intercedessem junto aos pais, para que estes contribuíssem na arrecadação de dinheiro para plantar árvores no deserto do Neguev, em Israel. Hoje eu me pergunto se tais doações não teriam sido destinadas à compra de armas.  

Foi também quando escutei pela primeira vez a frase que já vinha sendo usada há décadas pelos sionistas: “Uma terra sem povo para um povo sem terra”. Anos depois a verdade se sobrepôs, conforme o drama dos refugiados palestinos ficou evidenciado para o mundo.  

Naquela ocasião aprendi em sala de aula como ao longo da história milenar do povo hebreu Deus havia sido implacável com os inimigos de Israel: “Jeová é um Deus vingativo e ciumento, rico em ira; vinga-se dos seus adversários e guarda rancor aos seus inimigos” (Nahun 1, 2-8). Em luta contra os reis amorreus, “Josué consagrou todos os seres vivos ao extermínio, como Jeová havia ordenado, e apoderou-se de todos os territórios daqueles reis” (Josué 10, 6-8, 40-42). Naquela época eu não havia ainda ouvido falar nos palestinos, só nos filisteus – os grandes inimigos dos hebreus, que haviam se instalado em Gaza. 

Me ensinaram também que quando Deus era desrespeitado pelos israelitas, Ele os castigava, fosse com o ataque de inimigos ou com outras formas de punição. Lembro de algum professor mencionando em sala de aula a destruição de Sodoma e Gomorra, pelos pecados cometidos por seus cidadãos: “Então o Senhor fez chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra”. 

Na ocasião fiquei sem entender que comportamentos desviantes eram esses, que levaram Deus a punir com tamanha severidade seu próprio povo. Quando algum tempo depois vim a saber mais sobre Sodoma e Gomorra, me dei conta de que meus pensamentos já eram pecaminosos, mesmo na tenra idade.  

Ao final da adolescência, compreendi que só havia um jeito de me livrar do sentimento de culpa que carregava pelos “pecados” que continuavam a povoar meus pensamentos: tentar tirar Deus e a religião da minha vida. Ajudou bastante a este propósito, passar a estudar em um colégio laico, como o Pedro II.  

1967: o Grande Israel  

Eu estava perto de completar 16 anos, quando as imagens do general israelense usando um tapa-olho dominaram o noticiário. Vibrei com as notícias de como a estratégia bélica de Moshe Dayan havia levado à derrota dos exércitos do Egito, Síria, Jordânia e Iraque. E de como Israel passara a ocupar terras que aumentavam em várias vezes seu próprio território. Outra guerra entre os israelenses e os “vilões” árabes estourou em 1973, quando Israel foi atacado no feriado Yom Kippur.  

A questão palestina surgida com a fundação de Israel passou a ocupar uma relevância cada vez maior no contexto da crise no Oriente Médio, conforme diminuía a possibilidade da eclosão de novas guerras generalizadas. Na ocasião eu me perguntava por que os países árabes não faziam uso de seus petrodólares para acomodar os palestinos em novas terras.  Só que a questão dos refugiados e dos palestinos em geral não era tão fácil de ser resolvida.  

1977-1984: nas manifestações em Londres 

Em 1977 fui fazer pós-graduação em Londres. No primeiro ano morei em um alojamento para estudantes, uma verdadeira Babel de línguas e costumes. Foi lá que tive o meu primeiro contato com um palestino, cujo nome não recordo. Não ficamos amigos, mas tínhamos uma boa convivência.  

Ele tentava me convencer da responsabilidade dos governos de Israel pelo sofrimento de seu povo. Às vezes eu me sentia um tanto constrangido de conversar com ele. Por mais que eu pudesse ter percepção e compadecimento pelo sofrimento dos refugiados, eu não conseguia ver Israel como um algoz, e sim, como uma nação agindo em autodefesa, para seu povo não ser “varrido ao mar”. Os atentados praticados pela OLP, a Organização para a Libertação da Palestina, e outros grupos terroristas também colaboravam com esta visão.  

Quando mudei do alojamento perdi contato com o palestino; não sei se ele ficou no Ocidente após concluir seu curso – creio que de Direito, ou se retornou à Palestina. Talvez esteja atuando nos tribunais de Israel, em defesa de causas palestinas. Como também pode ter morrido em um dos devastadores bombardeios promovidos pelo exército israelense. 

Pode ser transformador viver, mesmo que por alguns anos, em um centro do imperialismo mundial, como a Inglaterra. Naquele período foram frequentes os eventos e manifestações contra o regime de apartheid da África do Sul, contra a intervenção de Reagan na Nicarágua e El Salvador, contra o domínio britânico na Irlanda do Norte, bem como pelo direito do povo palestino à autodeterminação. 

2018: o blogue Chacoalhando   

Quando comecei a escrever sobre Israel e a questão palestina, uma das minhas referências de informação foi o site Gush Shalom (Bloco da Paz), do ativista e herói israelense da guerra de independência de 1948, Uri Avnery, falecido em 2018.  

Avnery chegou a se encontrar mais de uma vez com o líder palestino Yasser Arafat, o que poderia tê-lo levado à acusação de traição. Ele acreditava na solução de “dois estados”, em que precisariam ser feitas algumas concessões territoriais de ambas as partes, além de compensações financeiras a uma parte dos palestinos que foram desalojados pela Nakba (Catástrofe).   

Estima-se que quando Israel proclamou de forma unilateral sua independência em 1948, cerca de 700 mil palestinos foram expulsos ou abandonaram suas casas com medo de serem massacrados. Muitos destes passaram a viver em campos de refugiados nos países vizinhos, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. 

Avnery, no entanto, até o final de sua longa e combativa vida relutou em usar o termo “apartheid”, em relação à situação interna de Israel e dos territórios ocupados da Cisjordânia. O último artigo em sua coluna no site foi em 4 de agosto, e intitulou-se: Quem diabos somos nós?  

O artigo foi escrito na sequência da aprovação pelo parlamento israelense, a Knesset, da legislação intitulada: “Lei Básica: Israel, o Estado-nação do Povo Judeu”. Quando o então presidente David Ben-Gurion leu a declaração de independência, esta proclamava a fundação de um Estado Judaico.  

Ainda segundo Avnery, a declaração não se tornou lei, embora a Suprema Corte passasse a adotar seus princípios, mesmo sem uma base legal. Ela mencionava um “Estado Judaico e democrático”, e prometia igualdade para todos os cidadãos, independentemente de religião, etnicidade ou sexo.  Em relação à Lei Básica, Avnery acrescentou: “Não há Democracia.  Não há igualdade. Um Estado dos judeus, para os judeus, pelos judeus”.  

Na mesma ocasião, uma importante doadora para causas beneficentes em Israel, a britânica Dame Vivien Duffield, foi bastante assertiva ao declarar: “Meu Israel está morto…. É apartheid! Para os ingleses que relembram a África do Sul, isto (agora) é a África do Sul! Uma lei para um grupo, e uma outra, para o outro grupo”.  

Para Netanyahu, os judeus que criticam a lei são esquerdistas e traidores, “que esqueceram o que é ser judeu”.  No entanto, é crescente o número de judeus fora de Israel que não compactuam com o tratamento concedido aos palestinos, e com os bombardeios do exército israelense a Gaza. Internamente, mesmo com a saída iminente de Netanyahu do poder, não há ainda indícios que o novo governo irá cessar as políticas de opressão aos palestinos e de usurpação de suas terras.

Palestina
Palestina: Uma Pátria Negada, Centro Cultural do Iraque, Londres,1979 \ Arte: Gecko e Tekla Alexiev

Finalizando 

Me afastar de Deus e, como consequência, de um convívio mais próximo com a comunidade judaica, contribuiu para que eu não incorporasse o sentimento de vítima a que os judeus frequentemente recorrem para justificar as ações de Israel, por mais desumanas que estas possam ser. O povo oprimido pelas perseguições centenárias se tornou opressor, mas precisa aliviar sua consciência. 

Com décadas de atraso, gostaria de poder dizer ao irmão palestino que conheci em Londres nos anos 70, que o sofrimento do povo dele também me faz sofrer. Que germinou e cresceu a pequena semente que ele plantou, possibilitando que agora eu possa ser mais uma voz a denunciar os crimes de Israel, através dos artigos que escrevo.  

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

Judeus na Palestina: de Napoleão à Nakba

Por Ruben Rosenthal

Nas manifestações do Dia da Nakba, os palestinos brandem as chaves das casas que foram obrigados a deixar, e para as quais ainda têm a esperança de voltar um dia.  expulsão de palestinos

Palestinos expulsos de suas casas \ Foto: domínio público

A limpeza étnica de palestinos promovida pelos judeus começou efetivamente no início do século 20, com a implantação dos primeiros assentamentos judaicos em terras da Palestina; ocorreu de forma massiva em 1948; e prossegue desde então.

A geopolítica internacional continua a favorecer Israel. Até quando as potências Ocidentais continuarão a se omitir em relação à ocupação de terras palestinas e à violência desmedida contra a população? A aprovação da Lei dos Estado-Nação em 2018 reforçou as críticas, tanto internamente, como vindas de judeus da diáspora, de que Israel se tornou um regime de apartheid.

A matéria que se segue apresenta extratos do artigo “Uma breve história do conflito Israel-palestinos”, publicado pelo jornal britânico The Independent. Inclui também alguns trechos de matéria publicada pela BBC News. Os subtítulos e os textos entre parênteses foram acrescentados por este autor.

Um enclave europeu no Oriente Médio 

A ideia do estabelecimento de uma pátria judaica na Palestina remonta a 1799, vinda de Napoleão Bonaparte, após o comandante francês promover cerco a Acre (Akka, em árabe), como parte  de sua campanha contra o Império Otomano.

Napoleão acabou sendo derrotado nessa conquista, mas a tentativa de estabelecer uma fortaleza europeia no Oriente Médio foi revivida 41 anos depois pelos britânicos. O secretário de Relações Exteriores, Lord Palmerston, escreveu a seu embaixador em Istambul, instando-o a pressionar o sultão otomano para abrir a Palestina aos imigrantes judeus, como meio de conter a influência do governador egípcio Mohammed Ali. Naquela época, havia apenas cerca de 3.000 judeus vivendo na Palestina.

Alguns benfeitores ricos, como o aristocrata francês Barão Edmond de Rothschild, começaram a patrocinar a ida de judeus da Europa para a Palestina. Na ocasião, os maiores contingentes vieram da Europa Oriental. Foram estabelecidos assentamentos, o mais notável sendo Rishon Le Zion, fundado em 1882.

Surge o Sionismo

O escritor austríaco Nathan Birnbaum cunhou o termo “sionismo” em 1885. Uma década depois, o jornalista austro-húngaro Theodor Herzl publicou o livro “O Estado Judeu”, pregando o estabelecimento de uma entidade judaica.

Dois rabinos foram então enviados à Palestina pelo amigo de Herzl, Max Nordau, para investigar a viabilidade da ideia, mas relataram: “A noiva é linda, mas é casada com outro homem”.

No entanto, Birnbaum, Herzl e Nordau não ficaram demovidos de seus objetivos, e em 1897 organizaram o Primeiro Congresso Sionista, em Basel, Suíça. Na ocasião puderam discutir planos de fazer lobby junto às potências europeias, para a concretização do sonho de uma nação judaica independente.

Em 1907, a Grã-Bretanha estava considerando a necessidade de estabelecer um “estado-tampão” no Oriente Médio, para reforçar seu domínio.

Começa a limpeza étnica

O líder sionista britânico Chaim Weizmann chegaria a Jerusalém nessa época, para formar uma empresa voltada para a aquisição de terras perto de Jaffa. Em três anos, cerca de 10.000 acres de terra foram adquiridos na região de Marj Bin Amer, no norte da Palestina.

Cerca de 60.000 agricultores locais foram forçados a sair de suas terras para acomodar judeus que chegavam da Europa e do Iêmen. Foi estabelecida a milícia Hashomer para proteger o número crescente de assentamentos de judeus.

Fim do Império Otomano: Declaração Balfour e o futuro da Palestina  

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha, desconfiada dos maometanos, intensificou seu interesse em desenvolver uma presença aliada na Palestina, também como forma de fortalecer o domínio sobre o Canal de Suez.

Em janeiro de 1915, o político do Partido Liberal, Herbert Samuel, esboçou em segredo o memorando “O Futuro da Palestina”. Samuel defendeu a anexação da Palestina e a gradativa formação de um Estado Judeu autônomo, sob a proteção do Império Britânico.

No ano seguinte foram demarcadas as regiões que ficariam sob as esferas de influência britânica e francesa, no caso de um colapso do domínio otomano.

Em novembro de 1917, em carta do secretário de relações exteriores britânico, Arthur Balfour, ao líder da comunidade judaica britânica, Barão Walter Rothschild, foi declarado formalmente o  apoio ao estabelecimento de um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina.

Com a  Declaração Balfour, o governo britânico assumiu que era proprietário das terras e que tinha o direito de doá-las, algo bastante questionável. Em 11 de dezembro de 1917, o general Edmund Allenby capturou a cidade sagrada de Jerusalém.

Com o fim da Primeira Grande Guerra, o presidente dos EUA, Woodrow Wilson, encomendou um relatório sobre as regiões não turcas do derrotado Império Otomano. Naquela ocasião, quase 90 por cento dos não-judeus da população da Palestina se manifestaram “enfaticamente” contra o projeto sionista.

Os autores do relatório alertaram sobre a intensidade da rejeição, e argumentaram que a imigração judaica deveria ser limitada, no interesse da paz. No entanto, as conclusões foram suprimidas até 1922.

Na Conferência de Paz de Paris de 1919, o tenente-coronel britânico Thomas Edward Lawrence – mitificado como Lawrence da Arábia – mediou a assinatura de um acordo entre Weizmann, líder da delegação sionista, e seu homólogo árabe, Príncipe Faisal bin Hussein. Ficou acordado, em princípio, a fundação de uma pátria judaica na Palestina e de uma nação árabe independente no Oriente Médio. 

O Mandato Britânico na Palestina

Em 1922, a Liga das Nações (precursora da ONU) reconheceu o Mandato Britânico para governar a Palestina, sob a jurisdição de Herbert Samuel, como alto comissário. Foram promulgadas dezenas de iniciativas legais para estabelecer uma presença judaica, incluindo o reconhecimento do hebraico como língua oficial e a permissão de um exército judeu.

Conforme a década avançava, protestos em massa começaram a eclodir em oposição à imigração judaica. O movimento palestino tentava em vão contra-atacar e resistir ao que seus membros consideravam uma usurpação apoiada pelo poder militar e diplomático da Grã-Bretanha imperial.

Quase 250 judeus e árabes foram mortos em agosto de 1929 no Muro das Lamentações, em uma tragédia que ficou conhecida como Revolta de Buraq (ou os Massacres de 1929). Com a intenção de dissuadir as agitações, três muçulmanos foram condenados à morte por Sir John Chancellor, que sucedera a Herbert Samuel no alto comissariado.

Aumento da imigração judaica

Os protestos continuaram à medida que mais imigrantes judeus chegavam. O influxo acelerou de 4.000, em 1931 para 62.000, em 1935. Neste mesmo ano, o líder revolucionário muçulmano Sheikh Izz ad-Din al-Qassam foi morto a tiros por soldados britânicos nas colinas acima de Jenin.

Em 1936, eclodiu uma greve geral que, surpreendentemente, durou seis meses. Em represália, casas de muçulmanos foram demolidas.

A Segunda Guerra Mundial e o Holocausto

Em 1939 eclodiu a segunda guerra mundial, que opôs tropas aliadas e as do eixo – Alemanha, Itália e Japão. O Terceiro Reich foi depois considerado responsável pela execução de seis milhões de judeus em campos de concentração.

Em 1942, ano seguinte à entrada dos EUA no conflito, as relações americano-sionistas seriam cimentadas com uma conferência em Nova York.

Após as vitórias dos Aliados na Europa e no Pacífico em 1945, as potências mundiais voltaram sua atenção para o fim da violência na Palestina. hotel King David

Hotel King David após atentado terrorista do Irgun, Jerusalém, 1946 \ Foto: domínio público

O terrorismo judaico

Uma força paramilitar sionista armada, conhecida como Irgun (criada em 1931), estava atacando árabes (e britânicos, inclusive civis) na Palestina. O Irgun foi responsável pelo bombardeio do Hotel King David, em Jerusalém, em  julho de 1946, no qual morreram 91 pessoas de várias nacionalidades. No local funcionavam os escritórios centrais das autoridades britânicas.

(O atentado foi organizado por Menahen Begin, que viria a ser primeiro-ministro do Estado de Israel em 1977, como líder do Partido Likud. Trata-se do mesmo partido de Benjamin Netanyahu, atual primeiro-ministro.)

O Irgun esteve também envolvido, em abril de 1948, com o Massacre de Deir Yassin, com 107 mortes, realizado em colaboração com outra organização terrorista, conhecida como a Gangue Stern. No mesmo ano, Stern assassinaria o Conde Bernadotte, diplomata sueco enviado pelas Nações Unidas para mediar a disputa.

A criação do Estado de Israel e a Nakba

Uma proposta para o território em disputa  surgiu em 1947, quando a Assembleia Geral da ONU apresentou a Resolução 181, que propunha criar dois estados na Palestina, um abrigando judeus, e o outro, os palestinos árabes. Combate entre  A Legião Árabe e Haganah

Soldados da Legião Árabe atiram contra os combatentes judeus da Haganah, a força de autodefesa da Agência Judaica, março de 1948

A resolução foi adotada após uma votação, supostamente como resultado de pressão diplomática dos Estados Unidos. Entretanto, os palestinos rejeitaram a Proposta de Partilha votada na ONU. A argumentação foi de que, à época, os residentes judeus não possuíam mais do que 5,5 por cento das terras e, portanto, não tinham o direito de ocupar 56 por cento da Palestina. Irrompeu a guerra civil.

Com o fim do mandato britânico, a fundação do Estado de Israel foi declarada unilateralmente por David Ben-Gurion, em 14 de maio de 1948. O reconhecimento dos EUA e da então União Soviética foi imediato, mas instigou a eclosão de uma ampla guerra árabe-Israelense, vencida por Israel.

Quando a guerra terminou com o cessar fogo no ano seguinte, Israel havia expandido sua presença militar em partes do território previsto para constituir o Estado Palestino, pelo plano original da ONU. Jerusalém ficou dividida entre os israelenses e a Jordânia, que (durante os conflitos) ocupara as terras a oeste do Rio Jordão, que formaram a chamada Cisjordânia.

nakba
Nakba: direito de retorno, 2015 \ Arte: Ashraf Ghrayeb, Concurso Badil de Posters

Cerca de 700.000 civis palestinos precisaram fugir da região dos combates (com medo de serem massacrados ou foram expulsos de suas casas pelos judeus), buscando refúgio na Jordânia, Líbano, Síria, Cisjordânia e em Gaza. Muitas das vezes não conseguiram cidadania nestes países, onde permaneceram como refugiados.

O deslocamento do povo palestino (forçado a sair de suas vilas e cidades) ainda é lembrado todos os anos no “Dia da Nakba”, nome em árabe para “catástrofe”. Nas manifestações do Dia da Nakba, os palestinos brandem as chaves das casas que foram obrigados a deixar, e para as quais ainda têm a esperança de voltar um dia.

Notas adicionais: O artigo do The Independent menciona também os massacres ocorridos, após a Nakba: em 1956, nas vilas de Qalqilya, Kafr Qasim, Khan Yunis, e em 1966, em as-Samu. (Em relação a as-Samu, Israel foi censurado “por violar a Carta das Nações Unidas e o Acordo Geral de Armistício”, segundo a Resolução 228 do Conselho de Segurança da ONU.)

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacolhando.

Solidariedade na luta une Gaza, Cisjordânia, Jerusalém e diáspora palestina

Por Ruben Rosenthal 

Gideon Levy: Quando se trata de questões básicas como continuar a ocupação, o apartheid e acreditar na superioridade judaica, existe uma concordância generalizada na sociedade israelense. Rescuers and people gather in front of the debris of Al-Sharouk tower that collapsed after being hit by an Israeli air strike, in Gaza City

Destroços da torre Al-Sharouk em Gaza; o prédio abrigava a Al Jazeera e Associated Press \ Foto: Mahmud Hams/AFP

Diversas famílias palestinas podem ser despejadas de suas residências em Sheikh Jarrah, Jerusalém Oriental, se o parecer da Suprema Corte for a favor de colonos judeus de direita. Remoções de palestinos já vem ocorrendo há vários anos, como parte de uma política que visa manter uma população majoritária de judeus em algumas regiões, reforçando assim as acusações de prática de limpeza étnica e de apartheid. Choques entre a polícia israelense e palestinos contrários aos despejos ocorreram na vizinhança de Sheikh Jarrah, a partir de 8 de maio.

Em 10 de maio percorreram o mundo as cenas do confronto da força policial com manifestantes no complexo da mesquita de Al-Aqsa, e que deixaram cerca de 300 feridos. O grupo militante Hamas disparou foguetes contra Israel, minutos após terminar o ultimato para que as forças israelenses se retirassem do complexo da mesquita, bem como da vizinhança de Sheikh Jarrah.

Seguiram-se 11 dias de conflito, até que Israel finalmente aprovasse um cessar fogo em 20 de maio. O saldo em vítimas fatais foi de 230 em Gaza – sendo dezenas de crianças, e 12 em Israel. Entre os mortos incluem-se membros da estrutura organizacional do Hamas. A destruição material na Faixa de Gaza foi incomensurável.

É reproduzida a seguir a entrevista concedida em 12 de maio pelo jornalista, escritor e analista político Gideon Levy, judeu israelense, à jornalista e escritora americana libanesa, Rania Khalek. Na ocasião, a escalada dos conflitos entre Israel e palestinos se encontrava em seu terceiro dia.  As legendas do vídeo da entrevista foram editadas pelo blog, bem como introduzidos subtítulos para facilitar a leitura, respeitando-se integralmente as opiniões expressas pelo entrevistado e entrevistadora.

Netanyahu orquestrou a crise com Gaza?

KHALEK: O que explica esta escalada de conflitos agora? Resulta da política interna israelense e da dinâmica de tentar formar um governo estável? Netanyahu fomentou a escalada?

LEVY: Nada era mais esperado que a atual situação, mesmo que não neste momento.  Mas 53 anos de uma brutal ocupação militar e 15 anos de cerco a Gaza – que é a maior prisão (aberta) do mundo, são motivos suficientes para que explosões ocorram de tempos em tempos. Não considero que será a última vez.

KHALEK: Netanyahu está enfrentando acusações de corrupção, e não conseguiu formar uma coalizão de governo. Você vê (os conflitos) como parte de um jogo político? Havia uma agenda política por detrás, pelo menos na fase inicial?

LEVY: Vou dar o benefício da dúvida a Netanyahu, porque tivemos escaladas antes dele, e as teremos depois, antes de seu julgamento e após seu julgamento. Acho que é um tanto limitado acreditar que Netanyahu impõe seu jogo quando quer. Politicamente (os confrontos) servem aos interesses dele, mas não acho que tenha  realmente planejado tudo. Teriam ocorrido de qualquer forma, pois por quanto tempo se pode manter dois milhões e meio de pessoas em uma prisão?

Conflitos internos com palestinos israelenses

KHALEK: Conflitos diversos estão ocorrendo. Além de Gaza, está acontecendo uma escalada dentro de Israel, onde cidadãos palestinos de Israel estão protestando. Netanyahu decretou estado de emergência, e desviou a polícia da fronteira da Cisjordânia para ajudar a reprimir protestos.

Você considera que o que ocorre dentro de Israel é diferente, mas ao mesmo tempo está relacionado com o que está ocorrendo Gaza?  Você está surpreso com tais ocorrências em um lugar como Lod, por exemplo? Por que cidadãos palestinos de Israel estão se rebelando agora?

LEVY: Em primeiro lugar, já ocorreu (um levante) no ano 2000, e não constitui surpresa que ocorra novamente, mesmo que ninguém esperasse que fosse agora. É preciso entender que Israel está fazendo todo o possível para fragmentar o povo palestino, e está sendo bem sucedido.

Israel promoveu a divisão entre os palestinos da Cisjordânia e os palestinos de Gaza; desconectou totalmente os palestinos da Cisjordânia e de Gaza, dos palestinos em Israel, e obviamente dos palestinos da diáspora. Também entre os palestinos de Jerusalém e os de Ramallah existe um muro. Mesmo com esta divisão, os palestinos começam a tentar nos lembrar que ainda existe alguma solidariedade.

As pessoas em Israel não podem permanecer indiferentes quando a polícia fronteiriça penetra violenta e brutalmente na mesquita de Al-Aqsa, em um dos dias mais sagrados do mundo muçulmano.

Judeus israelenses e os direitos dos palestinos

KHALEK: Qual reação você espera dos judeus israelenses ao verem cidadãos palestinos de Israel protestando de uma forma sem precedentes?

LEVY: Espero que esta seja uma onda curta, mas que obviamente deixará algumas marcas e cicatrizes. Acho que em sua maioria os judeus israelenses estão com raiva, decepcionados e, como normalmente, se fazendo de vítimas, pretendendo não haver motivos para o que está ocorrendo.

A maioria dos judeus israelenses está vivendo em total negação com relação aos direitos da comunidade palestina. Quando se vive em negação e então algo assim acontece, você diz – oh , como pode ser? Quando se faz tantas coisas erradas, um dia chega a conta.

KHALEK: Há setores da comunidade de judeus israelenses que apoiam os palestinos, ou que estão chocados e se opõem ao que está ocorrendo? Ou você é uma espécie de lobo solitário neste cenário?

LEVY: Ambos. Eu sou um lobo solitário, mas ao mesmo tempo não posso dizer que seja o único. Ainda há muitos judeus israelenses e muitos jovens que estão realmente solidários com o povo palestino, e que estão dispostos a se juntar à luta.

No entanto, são mais de 6 milhões de judeus israelenses, e poucos destes estão realmente tratando os palestinos como seres humanos iguais, e acreditando que eles merecem os mesmos direitos nacionais neste pedaço de terra.

O declínio da esquerda israelense

KHALEK: O que ocorreu com a antiga esquerda israelense? Porque já houve antes uma vigorosa esquerda israelense, e agora o país parece realmente estar cada vez mais consumido por ideologias de direita.

LEVY: É um que processo que começou por volta do ano de 2000, quando o então primeiro-ministro Ehud Barak (do Partido Trabalhista) voltou de Camp David (nos EUA), declarando que não havia um parceiro palestino (para negociar). E então veio a segunda Intifada, que foi muito violenta, e muitas pessoas perderam a esperança e a crença na paz. Não havia portanto solidez nas propostas de paz de Camp David.

A direita israelense defende o apartheid e a ocupação

KHALEK: Você pode descrever as várias facções da direita israelense? Quais são as facções mais religiosas e as mais seculares? Elas dominam o governo?

LEVY: Antes de mais nada, você precisa entender que a maioria da opinião pública israelense é de direita. Há diferenças, mas quando se trata de questões básicas, como continuar a ocupação, o apartheid e acreditar na superioridade judaica, então existe uma concordância generalizada na sociedade israelense.

Algumas pessoas vão dizer que não se trata de apartheid ou de superioridade judaica, e convivem em paz com o que está acontecendo. Nem todos na direita são extremistas, havendo aqueles que acreditam na democracia formal. Mas há os que acreditam em menos democracia, aí se incluindo os ortodoxos judeus. Como há também os que fazem uso de crenças erradas sobre segurança e falsos perigos, além daqueles que são “apenas” racistas.

Na direita, alguns estão dispostos a recorrer à violência; há os que sonham com um Estado sem palestinos, e os acreditam que podemos conviver com eles, mesmo que nunca venham a obter seus direitos. Então, é uma mistura de crenças, mas com muitas coisas em comum entre elas.

Gaza: a capacidade do Hamas surpreendeu Israel?

KHALEK: A guerra em Gaza está aumentando e parece que não vai acabar tão cedo. Foi relatada (até a data da entrevista) a ocorrência de pelo menos 53 mortes de palestinos em Gaza, 14 das quais crianças; em Israel também houve mortes. Como você vê esta situação evoluindo? Você acredita que vai ser uma longa guerra?

LEVY: Acho que não, a menos que ocorra alguma catástrofe, como uma bomba que cause a morte de dezenas de pessoas. Creio que deva durar mais alguns dias, e só. E então, haverá algum tipo de acordo, que não vai resolver nada, obviamente, e em uns dois anos nos encontraremos novamente (em confrontações bélicas), ou talvez até antes.

KHALEK: A reação militar do Hamas é diferente de antes?

LEVY: Sim, é inquestionável. Eles estão de fato melhorando o tempo todo, e tenho a sensação de que desta vez sua capacidade bélica surpreendeu até o exército israelense.

KHALEK: Eles foram capazes de disparar foguetes com maior frequência e alcance, como uma chuva de fogo vista em Tel Aviv. Qual o impacto nos cálculos do governo israelense sobre até onde está disposto a ir?

LEVY: Eu não tenho certeza, porque a capacidade bélica de Israel é 1.000 vezes maior que a do Hamas, não há comparação. O foguete Qasam é uma das armas mais primitivas da Terra. Acho que Israel será mais cuidadoso, porque está mais vulnerável. Para os israelenses, ficar uns poucos dias em abrigos é algo com que não são capazes de lidar, enquanto os palestinos em Gaza estão acostumados a isso, há muitos anos.

KHALEK: Você acha que a chuva de foguetes vindos de Gaza influiu na decisão (das autoridades israelenses) de tentar impedir as provocações dos manifestantes (judeus) nos bairros palestinos de Jerusalém, na marcha (do feriado anual de 12 de maio) do Dia de Jerusalém?

LEVY: Sim, mas a decisão (de coibir a marcha) poderia ter sido tomada 24 horas antes, evitando  muitas ações violentas.

Uma guerra sem vencedores

KHALEK: Você acha que a decisão de Netanyahu e dos militares israelenses de escalar o conflito saiu pela culatra? Pessoas correndo para abrigos antibombas, pessoas feridas, aulas interrompidas. Os árabes ao redor do Oriente Médio estão comemorando. Eles nunca veem mísseis choverem sobre cidades israelenses, o que fez Israel parecer fraco.

LEVY: Em primeiro lugar, ninguém vai ganhar esta guerra, como ninguém ganhou as guerras anteriores. Cada lado vai reivindicar a vitória, mas será uma falsa vitória, porque não se pode ganhar tal guerra. Os israelenses estão já por dois dias sob ataque, mas com poucas baixas. Vai durar apenas alguns dias, e será esquecida. Os palestinos estão pagando um preço muito mais pesado. É ridículo para ambos os lados se falar em vitória.

KHALEK: Como a mídia israelense justifica a visão da destruição de prédios de apartamentos? Não há questionamento sobre as crianças palestinas vitimadas?

LEVY: Muito pouco questionamento, e com certeza não na grande mídia. A maioria dos israelenses pode não estar feliz (com as mortes de crianças), mas certamente está muito orgulhosa (em ver os efeitos dos bombardeios). Eles querem se vingar; o ódio e a raiva são muito profundos, e há alguma sede de sangue em Israel para ver mais baixas do outro lado, não se pode negar.

Palestinos e judeus: uma convivência impossível?

KHALEK: você acompanhou as guerras que ocorreram nas últimas duas décadas. O desejo de vingança aumentou com o tempo? O que explica isto?

LEVY: Desespero, e nenhuma esperança de uma solução, nenhuma esperança para qualquer tipo de convivência. Aí você começa a ficar com raiva do outro lado, e colocar a culpa no outro lado.

Os israelenses dificilmente assumem qualquer culpa; eles sempre culpam apenas o outro. Você nunca vai ouvir em Israel – ok, nós tivemos também a nossa responsabilidade. Para não falar sobre o fato de que não se pode sequer comparar – não há simetria – os crimes e responsabilidades de Israel e dos palestinos.

O papel dos Estados Unidos

KHALEK: O governo dos EUA poderia fazer mais para impedir o que está ocorrendo, se quisesse. Tenho certeza que há coisas acontecendo nos bastidores, mas eles não parecem estar dizendo aos israelenses para desescalar.  Figuras políticas da esfera progressista, como Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez, dentre outras, apoiam abertamente a campanha a favor do BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) dentro do Congresso, e todos elas têm usado palavras muito duras sobre o que Israel está fazendo. Este tipo de retórica tem algum impacto na tomada de decisões pelos israelenses?

LEVY: Muito menos do que parece. Em primeiro lugar, Israel encontrou um novo apoiador nos EUA, os evangélicos. Eles são dezenas de milhões, bastante poderosos e ricos. Em segundo lugar, Israel aprendeu ao longo dos anos que condenações, ameaças e palavras nada significam se não forem seguidas por ações reais.

Os Estados Unidos poderiam dar um fim à ocupação em meses, mas por que fariam isto? Não sei se serviria aos interesses norte-americanos, já que tudo se trata de interesses. Se alguém como Barack Obama, cujo coração estava no lugar certo, nada fez para deter Israel, então o que esperar de outro governante?

KHALEK: Não sei se você teve a chance de assistir o vídeo com o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, quando ele foi perguntado no briefing diário se iria condenar a morte de crianças palestinas. E ele não condenou. Os repórteres perguntaram ainda se os palestinos têm o direito à autodefesa, e ele se esquivou também. Por que você acha que os EUA evitam tanto ofender os israelenses?

LEVY: Não tenho certeza se alguém pode explicar completamente. E esta é uma das administrações mais hostis em relação a Israel.  Há obviamente o poder do lobby judaico, que ninguém pode negar; ele é realmente poderoso, mesmo que nem tanto hoje como já foi anteriormente.

Há também os interesses norte-americanos, aos quais Israel está servindo em muitos aspectos.  Israel e os Estados Unidos falam sobre valores compartilhados, os quais temo sejam a favor do colonialismo e imperialismo.

Os Estados Unidos estão pagando um preço pelo apoio cego a Israel, em termos de sua imagem, de suas relações com o terceiro mundo e com o mundo muçulmano. Mas nenhum dirigente teve a coragem de realmente fazer uma mudança, pelo menos condicionando o apoio a algumas exigências. Atualmente Israel pode fazer o que quiser, sabendo que o cheque chegará até o final do mês.

KHALEK: Você considera que se os EUA tivessem menos envolvimento na região seria melhor para Israel e Palestina, bem como para o resto da região?

LEVY. Correto. Creio que se os Estados Unidos apoiassem menos a Israel, estaríamos diante de uma realidade mais uniforme, com um Israel menos arrogante. Então as coisas poderiam ser muito melhores.

O mundo árabe

KHALEK: Os EUA continuam a financiar uma terrível guerra promovida pelos sauditas contra o Iêmen. A Arábia Saudita é provavelmente um país muito pior que Israel em muitos aspectos: esquartejou um jornalista poucos anos atrás. Os EUA não responderam com qualquer ação real, além de apenas crítica retórica. A Arábia Saudita desempenha uma espécie de papel semelhante a Israel, compartilhando os valores dos EUA e do imperialismo, impulsionando-os na região.

Ocorreram (recentemente) acordos de normalização entre Israel e os Emirados Árabes Unidos e Bahrein. Ficou mais fácil para Israel bombardear Gaza, tendo relações normalizadas com alguns dos Estados do Golfo, ou não importa tanto?

LEVY: Deveria ter dificultado, porque se esperaria que estes países prestassem algum tipo de solidariedade aos palestinos. Até o momento não ouvi deles sequer uma condenação. É um jogo muito corrompido, sem comprometimento efetivo com os palestinos, seja por parte do Ocidente, dos Estados Unidos ou do mundo árabe.

O Hezbollah

KHALEK: Israelenses e Hezbollah estão em um impasse nos últimos dois anos, com ações retaliatórias olho-por-olho, geralmente na Síria.  Mas existe sempre o risco potencial de uma escalada. Eu vivo no Líbano a maior parte do ano, e cotidianamente Israel aparece no noticiário: violação do espaço aéreo libanês com drones, ou se os israelenses irão  bombardear a Síria.

A minha pergunta é como se dá a discussão sobre o Hezbollah na sociedade israelense? Você prevê algum tipo de conflito em um futuro próximo?

LEVY: Há um certo medo do Hezbollah, e mesmo agora as pessoas estão discutindo isto, comparando com o poder potencial do Hamas. O Hamas conta com cerca de 20.000 guerreiros, que se encontram sitiados, sem fazer parte de um Estado. Mas atente para sua capacidade (bélica).

Agora, imagine o Hezbollah, que não está sob qualquer cerco, que tem um Estado apoiado pelo Irã,  e contando com reconhecida capacidade (militar).  Ele pode ser extremamente perigoso para Israel, e as pessoas têm muito medo.

Devo dizer que não tenho certeza se Israel irá ousar esticar muito a corda com eles. Mas é tudo imprevisível. Acredito que um dia teremos que enfrentar também esta frente. Israel já enfrentou antes e terá que fazê-lo novamente, porque todas as armas que o Hezbollah armazenou serão utilizadas um dia.

KHALEK: Não se trata apenas de armas, mas também de treinamento. O Hezbollah operava na Síria ao lado dos russos. Imagino que a capacidade de fazer operações ofensivas em uma guerra de estilo mais convencional tenha concedido ao Hezbollah um enorme poder de dissuasão, comparativamente ao que tinham antes com apenas foguetes e guerrilha. Espero que não vejamos uma guerra com Israel, o que seria extremamente devastador para ambos os lados.

O acordo nuclear EUA-Irã

KHALEK: Também estou curiosa sobre o que é falado agora em Israel sobre o Irã. Com a nova administração Biden querendo reimplementar um acordo nuclear com o Irã, qual a repercussão na mídia israelense e na retórica oficial do governo israelense?

LEVY: O governo está fazendo todo o possível para sabotar os esforços diplomáticos e a possibilidade de sair um novo acordo. Mas acho que  isto ficou bem claro para a atual administração dos EUA, que está ordenando a Israel que pare com a sabotagem. Tenho certeza que haverá um acordo. Em Israel, o governo está gostando.

Assim como eu, outras pessoas também acham que a única forma de garantir nossa segurança é através de acordos, mesmo com o Hamas, mesmo com o Hezbollah, e mesmo com o Irã. Todas as outras formas serão temporárias e frágeis, e nunca garantirão uma segurança real.

Guerra civil em Lod?

KHALEK: Eu gostaria de retornar a alguns dos desenvolvimentos da última semana – os protestos de solidariedade ocorridos em 48 áreas palestinas. Não sei se é exagero, mas o prefeito de Lod teria dito que o que está ocorrendo lá é uma guerra civil. Ele disse que árabes e judeus estão atirando uns nos outros. As pessoas não têm prestado atenção, porque grande parte das histórias e manchetes têm sido sobre Gaza.

Você pode me corrigir se eu estiver errada. Lod é uma cidade mista, onde vivem judeus e árabes.   Na segunda-feira (10 de maio), durante protestos de solidariedade  com os palestinos de Jerusalém, um atirador judeu acertou um palestino.

No funeral deste palestino ocorreram mais protestos, e agora os dois lados, que realmente vivem juntos em uma comunidade,  estão colocando fogo na propriedade do outro, agredindo um ao outro. Você pode explicar o que está acontecendo lá? Há o risco de escalar?

A man passes by cars torched after a night of violence between palestinians and israelis in Arab-Jewish town of Lod, central Israel, May 11, 2021.
Carros incendiados após uma noite de violência na cidade de Lod, Israel, 11 de maio \ Foto: Heidi Levine/AP

LEVY: Muitos israelenses estão mais preocupados agora com esta situação do que com Gaza, e talvez com razão. Por ser uma história doméstica, ela é muito mais perigosa. Você fez uma boa descrição, mas faltou mencionar o passado de Lod.  Em 1948, quase toda a população de Lod foi expulsa à força. Houve até um massacre na mesquita. Só os mais fracos ficaram em Lod, e eles têm sido discriminados desde então.

Nos últimos anos, judeus ortodoxos vieram se instalar em Lod, apenas para provocar e oprimir os membros da comunidade palestina. Esta comunidade é muito pobre, e tem envolvimento com crime. O que ocorreu agora foi uma explosão de todas as frustrações sociais sobre o que está acontecendo diariamente em Lod. Obviamente, o que ocorreu na montanha do Templo (na mesquita Al-Aqsa) acirrou as emoções.

A limpeza étnica

KHALEK: O jornalista David Sheen (do periódico israelense Haaretz) me disse que, nos últimos anos, organizações de colonos tentam levar judeus ortodoxos para locais onde ainda há remanescentes de comunidades palestinas, como em Lod. Isto também estaria acontecendo Jaffa e em Haifa.

LEVY: Também em Akka (Acre, em hebraico). Trata-se de provocação, com o propósito de finalmente para expulsá-los, com certeza

KHALEK: Para onde?

LEVY: Para onde eles sonham em enviar todos os palestinos: para a Jordânia, para o Iraque, para a Arábia Saudita, para longe de Israel. Eles sabem que não vão conseguir, pelo menos não em breve, mas plantam as sementes.

Não são apenas forças políticas, mas também os poderes econômicos que estão atuando (no sentido de limpeza étnica). Jaffa, por exemplo, se tornou um lugar bastante burguês, atraindo judeus para viverem lá. Então eles compram mais e mais propriedades, afastando os palestinos. É um processo muito triste.

KHALEK: Existe apoio do governo israelense a este processo ou a iniciativa parte apenas de organizações individuais?

LEVY: Com certeza é apoiado pelo Estado, talvez não iniciado por ele. O Estado apoia qualquer atividade que fortaleça a presença e a superioridade judaica em todos os lugares de Israel.  Como nos assentamentos, que são totalmente apoiados pelo governo. Não culpe os colonos, culpe todos os governos de Israel que os apoiaram e financiaram.

KHALEK: Uma última pergunta, Gideon. A respeito da violência atual, há vozes em Israel pedindo a desescalada neste momento?

LEVY: Muito poucas. É sempre assim no início. Se durar mais tempo, você vai ouvir mais protestos contra os conflitos. Agora, nos primeiros dias, todos estão muito cautelosos, porque a população israelense está realmente vivendo sob ameaça. É muito difícil culpar apenas a Israel; então as pessoas são cautelosas. Mas tenho certeza que se continuarem os embates, em poucos dias começarão os protestos. Mas não espere muito da comunidade judaica.

Nota do tradutor:

1. Não existe consenso entre os defensores da causa palestina se ainda é viável a solução de Dois Estados. Para alguns, seria melhor canalizar os esforços para viabilizar a formação de um Estado democrático, com igualdade de direitos para todas as nacionalidades e religiões. Tal Estado incluiria toda a região englobada no Plano da Partilha pela ONU, de 1947. Ambas as soluções precisariam, no entanto, superar imensas dificuldades, aparentemente intransponíveis. Nunca alguém como Nelson Mandela foi tão necessário.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Reino Unido: condenado, defensor de direitos humano poderá morrer na prisão

Por Ruben Rosenthal

Para que Murray possa aguardar em liberdade, o encaminhamento à mais alta instância judicial precisa ser aprovado pela mesma corte que o condenou.

Ativista de direitos humanos e pela independência da Escócia, o ex-embaixador Craig Murray foi condenado a 8 meses de prisão.
Ex-embaixador Craig Murray condenado a 8 meses de prisão. Foto: Guy Smallman/Getty Images

Em 11 de maio saiu a sentença do julgamento do ex-embaixador britânico Craig Murray, defensor de direitos humanos e ativista ferrenho pela independência da Escócia. Acusado de desacato à Corte, ele foi sentenciado pela juíza, Lady Dorrian, da Alta Corte do Judiciário, em Edinburgo, Escócia, a 8 meses de encarceramento, como relatado no britânico The Guardian.

Entretanto, as condições de saúde de Murray requerem cuidados especiais, e poderão se agravar durante o período de detenção, trazendo risco de morte para o ex-embaixador. Em sua sentença, a juíza relata que levou em consideração as condições clínicas do sentenciado.

Murray irá recorrer à Corte Suprema do Reino Unido, pois não confia no sistema judiciário da Escócia, que considera corrompido. Para que Murray possa aguardar em liberdade, o encaminhamento à mais alta instância judicial precisa ser aprovado pela mesma corte que o condenou. Entretanto, se a juíza Dorrian negar tal aprovação, Murray terá que aguardar por meses na prisão, até o processo ser julgado na Corte Suprema.  

Trata-se de um caso que coloca também em jogo a liberdade de expressão no Reino Unido. Atuando como blogueiro, Murray exerce atividades de jornalismo, até mesmo com mais brilhantismo e integridade que a maioria dos profissionais da mídia corporativa britânica.  

A Coroa contra Craig Murray 

As acusações de desrespeito à Corte (contempt of Court) que levaram ao indiciamento do ex-embaixador decorreram de artigos que Murray publicou em seu blog e no Twitter, em 2019 e 2020. Nestas matérias, Murray denunciou a armação que fora montada contra o ex-primeiro-ministro escocês Alex Salmond, falsamente acusado de assédio sexual por algumas mulheres que tinham algum envolvimento em seu governo.  

O Blogue Chacoalhando já relatou anteriormente como Murray recorreu a artifícios para conseguir denunciar a farsa que fora montada contra Salmond, com a possível conivência da atual primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon. Craig recorreu a uma espécie de quebra-cabeças (jigsaw), em que apresentava algum detalhe físico ou factual sobre as testemunhas que supostamente teriam sofrido assédio sexual.  

Para a Corte que julgava Salmond, “as pistas poderiam ajudar na identificação de uma destas mulheres por algum colega de trabalho”. Instado pelo Escritório da Coroa (Crown Office) a remover de seu blog e do Twitter qualquer menção que pudesse minimamente levar à identificação ou mesmo suspeição de quem seriam as testemunhas, Murray se recusou a fazê-lo, em nome da liberdade de expressão. Ele também alegou que outros veículos de mídia publicaram relatos que poderiam levar à identificação das testemunhas. Com base nesta recusa, foi aberto o processo que resultou na condenação e na sentença de prisão proferida no dia 11 de maio.  

Para Craig Murray, o caso contra Alex Salmond se tratou de uma conspiração em que o Escritório da Coroa na Escócia esteve implicado, mas que foi impedida pelo júri, que inocentou Salmond de todas as acusações. Murray denuncia que está sofrendo uma “vergonhosa e escancarada perseguição política“, por ter revelado a verdade sobre os motivos que levaram à absolvição de Alex Salmond pelo júri. E acrescenta: “temos que tirar (o caso) da fétida corrupção de Edinburgo e levar a Estrasburgo (Tribunal Europeu de Direitos Humanos). E isto é somente possível através da Corte Suprema do Reino Unido”.  

A saúde do condenado 

Se Murray for encarcerado, mesmo que por alguns meses, sua saúde poderá ser irremediavelmente comprometida, com consequências imprevisíveis. Durante o julgamento, a Corte foi informada por dois médicos sobre as condições clínicas de Murray e sobre internações prévias.  

Foram mencionadas as seguintes anormalidades: hipertensão pulmonar, fibrilação atrial, embolismo pulmonar recorrente, possível síndrome anti-fosfolípide, prolapso da válvula mitral, esôfago de Barret, além de deslocamento recorrente dos ombros e desordem bipolar. 

A Corte não questionou o parecer dos médicos sobre a vulnerabilidade física em que o ex-embaixador se encontra, e, mesmo assim, determinou que ele seja encarcerado por oito meses.  Por outro lado, a Corte considerou que Murray é inadequado para realizar trabalhos comunitários, exatamente por suas “dificuldades de saúde de longa data”. Murray havia se disponibilizado para prestar auxílio comunitário junto a estrangeiros buscando asilo, algo com ele já havia se envolvido anteriormente. 

Finalizando 

Para Murray, orquestrar falsas acusações de assédio sexual, como foi feito contra Alex Salmond e também com Julian Assange, é uma forma que o Estado encontrou para se livrar da ameaça representada por opositores e dissidentes políticos. E para quem tentar denunciar tais armações, uma boa temporada na prisão é a punição, como pode ocorrer com ele próprio.   

A mídia corporativa do Ocidente não mostra indignação com estas violações de direitos humanos, e ainda colabora na desinformação. Tudo em contraste com a forma com que é relatada a suposta perseguição movida pelo governo russo contra Navalvy, opositor de Putin.  

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.