Quem está por trás das ações do Facebook contra Bolsonaro, por Ruben Rosenthal

Instruído pelo Atlantic Council o Facebook cancelou contas de assessores da família Bolsonaro contendo mensagens de ódio e fake news. Mas que interesses o Atlantic Council representa?

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Foto: Chris Ratcliffe / Getty Images

A cooperação entre o Facebook e o think tank¹ norte-americano Atlantic Council possibilitou a identificação de perfis falsos em contas e páginas contendo “discurso de ódio” ligadas a assessores da família Bolsonaro e ao PSL.  Foram removidas 35 contas, 14 páginas e 1 grupo do Facebook, além de mais 38 contas do Instagram

Estas irregularidades se encaixam no que o Facebook define como “Comportamento Inautêntico Coordenado”. O governo Bolsonaro retaliou, e em 9 de julho a Apex-Brasil, Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, cancelou a parceria firmada com o Atlantic Council em 2018. 

As revelações vieram fortalecer as denúncias de envolvimento da trupe bolsonarista com a produção e propagação de fake news contra seus adversários, que retrocedem à campanha eleitoral de 2018.

O ministro do STF Alexandre Moraes já instruiu a Polícia Federal para solicitar ao Facebook que forneça as informações obtidas na investigação das contas irregulares. Estes recentes acontecimentos foram disparados a partir da pressão que o Atlantic Council fez sobre Mark Zuckerberg. Mas qual foi a motivação do think tank para se envolver nesta investigação? 

O Atlantic Council é uma organização norte-americana que tem o objetivo declarado é de turbinar o avanço do poder econômico dos Estados Unidos. Por sua vez, o governo Bolsonaro, mesmo se enquadrando no populismo de direita e na anti-globalização, não é um governo que defende políticas nacionalistas. Ao contrário, seu governo não vem demonstrando qualquer limite em prol de políticas que favorecem  interesses estrangeiros, notadamente os dos Estados Unidos, em detrimento dos nacionais.

Seria então de se esperar que o Atlantic Council tivesse uma atitude favorável a Bolsonaro. E, de fato, até recentemente as relações eram próximas. Surge naturalmente o questionamento sobre os motivos pelos quais o Atlantic Council agiu de forma  a contribuir para  investigações que poderão atingir o presidente e seus filhos. Esta discussão será feita no decorrer do artigo. 

As denúncias. A identificação de irregularidades na rede bolsonarista foi realizada através do Laboratório Digital de Pesquisa Forense (DFRLab, na sigla em inglês), ligado ao Atlantic Council, em colaboração com o Facebook. A matéria de Luiza Bandeira, assistente de pesquisa do DFRLab, mostra diversos casos identificados de notícias falsas e de ataques a adversários de Bolsonaro. 

O gráfico a seguir mostra as conexões entre contas e páginas dos investigados. Uma versão interativa do gráfico pode ser acessada, clicando aqui. (Fonte: @luizabandeira/DRFLab). 

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A cooperação entre o Atlantic Council e Facebook visando identificar supostos atos considerados nocivos na internet retrocede a 2017. Conforme mencionado  na matéria do DFRLab, cancelamentos de contas como os que ocorreram recentemente no Brasil, foram também efetuados em 2018 nos EUA (relacionados com a internet russa), em 2019 no Reino Unido, Rússia, e Israel, e em 2010 na Tunísia.  

No caso do Brasil, a ação do Facebook veio de forma tardia, ocorrendo dois anos após a campanha presidencial de 2018, quando  irregularidades desta natureza foram recorrentes e contribuíram para a eleição de Jair Bolsonaro. Na análise do Atlantic Council, tanto a vitória  de Bolsonaro como a de Lula (e do PT) eram consideradas prejudiciais à recuperação da economia brasileira, segundo artigo no GGN. Este pode ter sido o motivo para  a falta de uma ação efetiva do Facebook na ocasião, deixando de denunciar as transgressões das regras de comportamento na rede. 

A cooperação bilateral Brasil-EUA no governo Bolsonaro. Com Bolsonaro no poder, a Apex-Brasil passou a ser vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, e com isto ficou envolvida nas disputas entre militares e o grupo olavista, do qual o próprio ministro faz parte. Com o almirante Sérgio Segóvia assumindo a presidência da Apex, as principais diretorias foram ocupadas por militares. 

Com a participação do Atlantic Council, um relatório conjunto foi elaborado com a Apex em que foram propostas recomendações para melhorar as relações econômicas bilaterais. A implementação das propostas abriria o caminho para um acordo de livre comércio, segundo Segóvia. Dentre os que participaram em 5 de março deste ano do evento do lançamento do relatório em Washington,  estavam Segóvia, Nestor Foster (indicado para embaixador nos EUA) e Adrienne Arsht, vice-presidente executiva do Atlantic Council (assista o vídeo com legendas em inglês).

Adrienne Arsht é fundadora do “Adrienne Arsht Latin America Center”, que é o setor específico do Atlantic Council que lida com as questões relacionadas com a América Latina. O Centro foi fundado em 2013 pela própria Adrienne, e teve  Peter Schechter como seu primeiro diretor.  Na equipe de especialistas brasileiros ligados ao Centro se incluem o economista Ricardo Sennes (indústria de defesa), Abrão Neto (finanças e economia), Roberta Braga, diretora-associada (corrupção, desinformação, mídia), e Luiza Bandeira (desinformação). Luiza é vinculada diretamente ao DFRlabe participou da autoria do gráfico interativo visto acima. 

Em 4 de junho, o Centro Adrienne Arsht organizou um evento virtual com o tema “A próxima fase na relação Brasil-Estados Unidos, para tratar do futuro das relações Brasil-EUA em um cenário pós-pandemia, da qual os dois países são atualmente os principais afetados. Até então, as relações do Atlantic Council com o governo Bolsonaro pareciam produtivas. 

Na ocasião, Nestor Foster aproveitou  para comentar sobre a forte oposição de congressistas Democratas ao aumento das relações econômicas com o Brasil, inclusive ao estabelecimento de acordos comerciais,  devido à política ambiental do governo Bolsonaro. Conforme declarou Foster, “a atual administração (do Brasil) está tão comprometida como qualquer outra (anterior), na proteção ambiental do país.  

Em poucas semanas o panorama das relações do Atlantic Council com o governo Bolsonaro mudou radicalmente, com a ocorrência das denúncias do Facebook. A Apex-Brasil, que atuara ativamente com o Atlantic Council, rompeu a parceria. Em face deste novo contexto, a maior aproximação comercial entre os dois países deverá ficar prejudicada, seja isto para o bem ou para o mal do Brasil. 

Por que poderia ser para o bem do Brasil, que estes novos acordos de comércio com os Estados Unidos, intermediados pelo Atlantic Council, não se concretizem? Por um lado, o governo Bolsonaro é totalmente submisso aos interesses norte-americanos, e  por outro, a ação pregressa do Atlantic Council  na América Latina apresenta um histórico deletério ao Brasil e demais países do continente.  Por estes dois motivos, pode-se esperar que acordos que derivassem desta relação seriam provavelmente lesivos ao país.  

Quando o passado condena. Anteriormente o Atlantic Council já estivera envolvido  no apoio a Lava Jato, segundo artigo no GGN. A organização atuara como facilitadora dos encontros do então Procurador Geral Rodrigo Janot com o Departamento de Justiça norte-americano. Em julho de 2017, a entidade organizou a palestra “Lições do Brasil: lutando contra a corrupção em meio à turbulência política”, com a participação de Rodrigo Janot e de Maurício Valeixo, este o então diretor da Polícia Federal. 

Quanto ao afastamento da presidente Dilma Roussef, é necessário relembrar que um outro think tank norte-americano foi também bastante atuante na ocasião, a Atlas Network, a organização que criou e apoiou o MBL. A Atlas possui uma rede em 95 países, consistindo de cerca de quatrocentos e quarenta institutos associados, que atuam em defesa de políticas ultraliberais.  

Na ArgentinaAtlantic Council e Atlas Network interagiram para eleger Mauricio Macri e apoiá-lo no poder, mas com o desastre econômico do governo Macri, a proposta ultraliberal foi derrotada nas urnas, após amplos protestos da população, então reprimidos com forte violência. 

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Joe Biden, orador frequente em eventos do Atlantic Council \ Crédito: domínio público

Fora do continente sulamericano, o Atlantic Council esteve envolvido em negócios com a empresa ucraniana de petróleo e gás Burisma Holdings, na qual o filho de Joe Biden fazia parte do conselho diretor.  Na ocasião Biden era vice-presidente de Obama, e fora indicado pela Casa Branca para ser o contato com o governo ucraniano, gerando críticas de que haveria conflito de interesses.  

Este seria apenas um de inúmeros casos de “lavagem de dinheiro de corrupção legal envolvendo o Atlantic Council, segundo matéria de Max Blumenthal, no The GrayzoneEm outro  artigo Max Blumenthal revelou que o Atlantic Council arrecada fundos da Turquia e de outros países autocráticos apoiados pela OTAN, atuando para minimizar as políticas repressivas destes países, de forma a facilitar contatos políticos e acordos comerciais. No caso da Turquia, vultosas doações são obtidas da Companhia Petrolífera Turca e do Turkey Army College

Antes de viajar para os Estados Unidos para se encontrar com Trump em maio de 2017, o presidente turco Recep Erdogan participou de um evento organizado pelo Atlantic Council, quando instou os Estados Unidos a deixarem de apoiar as milícias Curdas que enfrentavam o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. 

Já nos Estados Unidos, após sair do encontro com Trump, Erdogan foi direto se encontrar com um seleto grupo de proeminentes funcionários de administrações anteriores, em uma reunião acertada pelo Atlantic Council. Ali estavam David Petraeus, ex-diretor da CIA, ex-secretários de defesa, e a ex-secretária de estado Madeleine Albright.

 

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O presidente turco foi o orador principal na Istanbul Summit, 2017  \  Foto: Didar Yesilyurt

A estrutura do Atlantic Council. A entidade se apresenta como “uma organização não partidária, que estimula a liderança dos Estados Unidos e seu engajamento no mundo, em conjunto com aliados e parceiros, para moldar soluções aos desafios globais”.  

O atual CEO e presidente é o jornalista alemão Frederick Kempe, formado nos Estados Unidos. No quadro de diretores inclui-se o ex-secretário de estado norte-americano Henry Kissinger, que para muitos deveria ser julgado por crimes contra a humanidade por seu apoio à ditaduras sanguinárias na América do Sul nos anos 70, bem como por crimes de guerra em diversos países asiáticos. Na diretoria estão também dois ex-chefes da CIA, um representante do banco Goldman Sachs, além de outros tantos representantes do establishment norte-americano. Na diretoria de honra constam, dentre outros, os nomes de Codoleezza Rice, Colin Powell e George Shultz, todos com um ótimo currículo a serviço da expansão do poder global dos Estados Unidos. 

A página do Conselho na internet menciona que o financiamento da instituição vem de “uma base diversificada de doadores, para ajudar a assegurar a credibilidade, integridade e sustentabilidade da instituição”. Aí se incluem fundações privadas, agências de governo nacionais e estrangeiras, empresas e indivíduos. A lista completa de doadores no ano fiscal de 2019 pode ser acessada no linque indicado acima. 

No topo da lista está Adrianne Arsht, com um valor doado de 1 milhão de dólares ou acima.  Neste seleto grupo estão também o British Foreign and Commonwealth Office (Ministério do Exterior Britânico),  o Facebook, de Mark Zuckerberg, o banco Goldman Sachs, a Fundação Rockfeller e a Embaixada dos Emiratos Árabes. Dentre os doadores na faixa de 500.000 a 999.999 dólares estão a Saab North America, a SICPA S.A. (empresa suíça), e a empresa ucraniana de finanças e indústria, System Capital Management. A Saab atua no ramo da defesa militar e segurança civil.   

O Departamento de Estado norte-americano está na lista das contribuições incluídas na faixa entre 250.000 e 499.999 dólares.  Estão também incluídos nesta faixa o Google, a empresa petrolífera de Abu Dhabi, a Chevron, o banco HSBC e outros. As embaixadas do Japão e do Bahrein, e dois setores distintos da OTAN estão na lista dos que doaram valores entre 100.000 e 249.999 dólares. 

Mesmo com vários doadores preferindo permanecer anônimos, é instrutivo se examinar a relação completa dos doadores, incluindo governos estrangeiros, empresas e doadores individuais. Até 2013, os doadores não eram revelados. Foi por pressão do Senado norte-americano que em 2013, a relação completa (sem anonimatos) foi declarada, embora sem explicitar os valores das doações.  

O exame das duas listas evidencia o enorme poder de lobby que tem o Atlantic CouncilO New York Times publicou declaração do CEO Frederick Kempe, em que este afirmou que “o trabalho de think tanks tem mais credibilidade que o de lobistas, a qual é preservada através da independência intelectual”. 

Mas o mesmo artigo do NYT cita a atuação do Atlantic Council junto à Câmara de Comércio Europa-Estados Unidos, como exemplo de uma ação lobista típica.  Esta atuação levou à redução das tarifas transatlânticas, atendendo aos interesses da FedEx, que consta na relação das empresas que doaram ao Atlantic Council em 2019, valores entre 100.000 e 249.999 dólares.  

Atlantic Council é mais do que um lobista atuando no varejo, sendo também um indutor de decisões por órgãos governamentais,  que podem trazer benefícios não apenas para uma empresa, mas para diversos setores da economia norte-americana. No entanto, a ação do Atlantic Council extrapola a atuação que se esperaria de uma organização voltada apenas para a facilitação de contatos entre empresas e governos.    

Esta extrapolação ocorreu nos casos da ingerência em apoio à Lava Jato no Brasil, a Macri na Argentina, a Erdogan na Turquia, bem como em tantos casos em que o Atlantic Council atuou mais como um player político. Aí se enquadra também o envolvimento da organização, a partir de junho de 2018, no combate à supostas campanhas de desinformação que teriam sido conduzidas pelo Kremlin para favorecer Trump nas eleições presidenciais de 2016. Conforme análise de Luis Nassif no GGN, o foco na Rússia poderia ser  indicativo de objetivos geopolíticos por de trás dos combates à desinformação conduzidos pelo Atlantic Council.  

O artigo no GGN mostrou também como o Atlantic Council conseguiu dobrar o Facebook, para que este passasse a censurar determinados conteúdos. Mark Zuckerberg foi encurralado e forçado a aceitar que o Facebook fosse assessorado no combate à desinformação na rede. O pretexto surgiu quando fake news de que a Rússia havia interferido nas eleições de 2016 se difundiram nos Estados Unidos.  

Atlantic Council, através de sua equipe forense, o DRFLab, passaria a trabalhar em cooperação com o Facebook na identificação de desinformação nas mídias sociais. Ou melhor, o Facebook se submeteria às instruções do Atlantic Council na escolha seletiva de alvos a serem investigados na campanha. Era a oportunidade esperada para fazer com que o Facebook passasse a filtrar as informações que difundia.  

O artigo no GGN também indicou como o Atlantic Council  buscou combater na internet os discursos contrários à globalização. Agências de checagem passaram a atuar em defesa dos interesses pró-globalização, na luta contra o nacionalismo da extrema-direita que vinha de forma inexorável ganhando espaço nas eleições pelo mundo. No Brasil, a Open Society de George Soros atuaria como  um participante deste esforço pró-globalização, de filtragem de conteúdo na internet e redes sociais. 

Os ataques ao governo Bolsonaro. Voltamos novamente ao questionamento sobre os motivos que levaram o Atlantic Council a forçar o Facebook, a investigar e revelar os perfis falsos e a divulgação de fake news pela trupe bolsonarista.   

Bolsonaro vinha sendo cada vez mais associado a crimes ambientais na Amazônia, à acusações de envolvimento ou tolerância com o genocídio de povos indígenas, e de estar contribuindo de forma criminosa para o alastramento da pandemia da COVID-19 no Brasil. Bolsonaro e diversos membros de seu governo poderão inclusive ser levados a julgamento no Tribunal Penal Internacional em Haia, por “crimes contra a humanidade”. 

As empresas transnacionais estão cada vez mais conscientes de que podem sofrer boicote, se forem associadas a um país que se tornou um pária pelas ações de seu governo. Para o Atlantic Council estava se tornando uma missão impossível conseguir concretizar o seu lobby habitual. 

As crescentes manifestações contra o STF, não desautorizadas por Bolsonaro, podem ter sido determinantes para que o Atlantic Council finalmente resolvesse agir através do Facebook. O Brasil parecia se encaminhar inexoravelmente para um protofascismo, o que agravaria ainda mais a rejeição ao país. Havia chegado a hora de dar uma ajuda à justiça brasileira, que começara a resistir aos avanços antidemocráticos de Bolsonaro.  Resta ver se esta mesma justiça vai manter a coragem.

Entretanto, a História do Brasil também é construída por seu povo, que precisará resistir não apenas às forças da extrema-direita que foram despertadas por Bolsonaro, mas também ao papel que a globalização lhe reservou na ordem econômica mundial, de ter sua economia calcada no fornecimento de commodities, abrindo mão de ter uma indústria avançada.  

A China mostrou caminhos que podem ser seguidos para se avançar na industrialização e construir uma nação soberana, como será visto no próximo artigo do blogue Chacoalhando.  

Notas do autor: 

¹ O termo think tank pode ser traduzido como “gerador de idéias”. Atua como um centro de estudos, em geral de natureza política, e que recebe financiamento de fontes privadas ou oficiais.  

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando (acesse o índice de artigos). 

 

 

Canal de TV evangélico tenta converter judeus de Israel, por Ruben Rosenthal

Israel vai proibir a pregação em hebraico pela televisão que Jesus é o messias dos judeus? Ou vai pagar a conta pelo apoio dos evangélicos a suas políticas expansionistas na Palestina e autorizar a ação missionária do canal Shelanu? 

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Logotipo do canal de TV Shelanu \ Crédito: Evan Santoro

O canal evangélico de TV a cabo Shelanu (Nosso, em hebraico), lançado em 29 de abril, ficou no centro de uma polêmica que testou o limite da liberdade de expressão e de religião em Israel. A programação missionária voltada para o público judeu enfureceu diversos setores no país, que passaram a exigir o cancelamento da concessão ao canal.

Shelanu não foi o primeiro canal cristão a transmitir em Israel, mas o primeiro a usar o hebraico no trabalho missionário de propagar as “boas novas” do evangelho de Jesus diretamente aos lares judaicos. O canal é afiliado da GOD TV, a terceira maior rede de mídia cristã internacional, transmitindo para 200 países uma programação voltada mais para os jovens. A rede assinou um contrato de sete anos com a empresa israelense de televisão a cabo Hot, acessada em mais de 700.000 lares israelenses, relata a jornalista Judy Maltz no periódico israelense Haaretz.

Em 2016 a GOD TV já obtivera uma licença para transmitir “conteúdo em inglês voltado para audiências cristãs”, mas a Hot não teve interesse em manter a banda para o canal de fé. Entretanto, em abril de 2019 um executivo da Hot convidou a GOD TV a retomar as transmissões.

Foi quando a rede cristã expressou o desejo de fazer a transmissão em hebraico. A Hot submeteu então uma nova solicitação de licença ao “Conselho para Transmissão por Cabo e Satélite”, que é o órgão regulador ligado ao Ministério das Comunicações israelense. Foi utilizada a mesma documentação original de 2016, de acordo com fontes que viram a documentação, segundo noticiou Judy Maltz em outro artigo no Haaretz.

Depois da aprovação, a Hot informou ao Conselho que os programas poderiam ser dublados ou traduzidos para o hebraico. Não foi alterada, no entanto, a descrição da finalidade do canal, que permanecia em tese voltada para audiências cristãs. Pouco tempo depois o Conselho foi informado de que o nome do canal seria trocado de GOD TV para Shelanu.

Os membros do conselho começaram a suspeitar de algo, e pediram para ver extratos dos programas que o canal Shelanu iria transmitir. Nos programas que foram mostrados ao Conselho não haveria nada que indicasse que eles seriam voltados para uma audiência judaica, segundo Maltz apurou.

Quando do anúncio do lançamento do canal, o CEO da GOD TV, Ward Simpson,  declarou em mensagem de vídeo que a rede havia recebido permissão do governo para transmitir o evangelho de Jesus Cristo na língua hebraica. Poucos dias depois este vídeo foi removido pela GOD TV, mas a polêmica já estava instalada.

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Estúdio do canal Shelanu \ Crédito: Evan Santoro

Reclamações de vários setores, inclusive da chefia do rabinato, foram feitas ao órgão regulador. Só então os inspetores do Conselho acessaram o canal Shelanu pela primeira vez. E o que assistiram foi considerado proselitismo explícito em hebraico. Se a GOD TV foi franca com a empresa  de televisão a cabo Hot, teria esta deliberadamente enganado as autoridades reguladoras, questiona Maltz?

O ministro das comunicações David Amsalem ameaçou tirar o canal do ar se  o proselitismo continuasse, declarando que não iria permitir que um canal missionário operasse no Estado de Israel. Maltz aponta que a lei israelense proíbe pregação religiosa a menores de 18 anos sem o consentimento dos pais. Também é proibida a transmissão de conteúdo que possa causar “influência indevida” nos expectadores, podendo o proselitismo se encaixar neste conceito. Solicitação de benefícios materiais, uma prática comum em cultos evangélicos televisivos, também não é permitida em Israel.

Em 10 de maio o Haaretz publicou novo artigo de Judy Maltz, em que foi apresentada a justificativa dada por Ward Simpson, o CEO da GOD TV: “não estamos tentando converter judeus; queremos apenas que eles aceitem Jesus como o messias, sem renunciar ao judaísmo. O objetivo é torná-los judeus messiânicos”. A explicação gerou ainda mais polêmica.

A polêmica foi alimentada com o artigo de opinião de  Jonathan S. Tobin, editor-chefe do JNS (Jewish News Syndicate), publicado no Haaretz em 11 de maio. O autor questiona se “tolerar que evangélicos tentem converter judeus, não seria um preço justo a pagar pelo apoio dos cristãos a Israel”.

Para Tobin, a admiração e afeição dos milhões de evangélicos norte-americanos por Israel é sincera e fundamentada na crença das referências bíblicas ao direito dos judeus à terra de Israel. “Este direito se estenderia a regiões citadas na Bíblia com os nomes de Judeia e Samaria, e que fazem parte da Cisjordânia, que coube aos palestinos quando da partilha aprovada (em 1947) pelas Nações Unidas”.

Para Tobin, os judeus com posições liberais em temas como aborto e direitos dos gays sempre se sentiram incomodados com a boa acolhida aos cristãos evangélicos pela direita israelense, notadamente pelos colonos que ocuparam territórios palestinos na Cisjordânia. Entretanto, o sermão na  transmissão inicial da GOD TV levantou a ira dos colonos, que passaram a defender que a emissora parasse de tentar converter judeus ao cristianismo.

Tobin criticou o CEO da GOD TV: “quando Ward Simpson declara que não busca a conversão dos judeus ao cristianismo, mas apenas que eles aceitem Jesus como o messias mantendo a identidade judaica, isto soa como algo fraudulento, pois um judeu que aceita o messias cristão não é mais um judeu”.

O rabino Pesach Wolicki não poupou críticas ao canal Shelanu, conforme expressou em seu artigo publicado em 12 de maio no Jerusalem Post. Relembrando “o terrível histórico de antissemitismo presente em doutrinas cristãs no passado”, ele  afirmou que “tentar evangelizar um judeu é como pegar uma faca e tentar esfaqueá-lo”.

O rabino ressaltou que a abertura de um canal de TV cristão com o propósito declarado de evangelizar judeus, para muitos judeus confirma as suspeitas que eles têm, de que o verdadeiro motivo da amizade dos evangélicos com Israel está na eventual conversão dos judeus israelenses à fé cristã. Mas o rabino não generalizou suas críticas, afirmando ser amigo de muitos pastores, de acadêmicos cristãos e de proeminentes cristãos sionistas, e que pode atestar a sensibilidade e respeito que eles mostram pela identidade e fé judaicas.

Uma resposta ressentida veio dos evangélicos, através do artigo de opinião de Michael Brown, escritor, radialista, e apresentador de um programa na GOD TV, publicado em 17 de maio no Haaretz: “os judeus apreciam o amor e a influência dos evangélicos, mas consideram que a nossa cristandade é tóxica e destrutiva”.  E acrescentou: “não iremos e não podemos parar de pregar para os judeus….Mesmo se o governo fechar o canal de TV, não deixaremos de amar o povo judeu e apoiar Israel”.

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Manifestação dos Cristãos Unidos por Israel em Jerusalém, 2008 \ Foto: Reuters

Avi Bell, professor de direito na Bar Ilan University (em Israel) e na University of San Diego (Estados Unidos), comentou o artigo de Michael Brown. Se dirigindo diretamente a Brown, declarou: “quando você e seus colegas de pregação da GOD TV clamam que a cristandade é o verdadeiro judaísmo, vocês estão fazendo uma afirmação desrespeitosa, antissemita e tóxica”.

E prosseguindo na crítica: “vocês estão nos dizendo que não apenas têm o direito de definir sua fé cristã e interpretar sua própria tradição, mas que também têm o direito de definir a nossa fé judaica, e negar a nós, judeus, o direito de interpretar a nossa tradição religiosa….O seu amor por nós….nada mais é que o veneno da serpente”.

Finalizando, Bell acrescentou: “não precisamos do tipo de amor que você oferece. Se você acha que tem o direito de destruir nossas tradições, desrespeitar nossas crenças, violar nossas leis e mostrar desprezo por nós como povo porque você nos oferece ‘apoio, dinheiro, influência política e serviço’, então guarde este ‘apoio’ para si mesmo”.

Em novo artigo no Haaretz em 5 de julho, Michael Brown reclama que Israel discrimina contra os cristãos evangélicos, por não garantir a estes o direito à liberdade de imprensa. Ele afirma que não houve “nenhuma ambiguidade, enganação ou ilegalidade” por parte da GOD TV.

Brown alega ainda que as transmissões em hebraico eram dirigidas aos (cerca de 20.000) judeus já convertidos ao cristianismo, que constituem a comunidade messiânica judaica. Portanto não se trataria de proselitismo, pois não havia a intenção de se obter novas conversões.

No artigo, Brown comenta que o órgão regulador cancelou a licença de transmissão do canal Shelanu que havia sido acordada com a empresa Hot, e que GOD TV precisaria entrar com um novo pedido de licença. Brown considera que isto ficou inviável, por que o canal Shelanu se tornou algo muito “quente” para a Hot lidar. Brown acrescentou que a decisão de banir as transmissões da rede representa “um tapa na cara contra as liberdades religiosas”.

Mas adotando um tom mais conciliatório, Brown declarou que o CEO da GOD TV, Ward Simpson, mesmo acreditando que a emissora pudesse vencer na justiça, prefere não atrair atenção negativa para Israel (e aceita a decisão do órgão regulador israelense).

Ao que tudo indica Israel resolveu não pagar a conta aos evangélicos pelo apoio ilimitado que vem recebendo destes. Resta ver se a polêmica explícita que durou apenas alguns meses poderá vir a abalar o apoio político e financeiro recebido dos evangélicos, e que sequelas futuras poderão advir para a liberdade de expressão e de religião no país.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

 

 

Prisão de dois jornalistas escoceses causa repúdio internacional, por Ruben Rosenthal

Craig Murray, ativista pela independência da Escócia, pode ser condenado a dois anos de prisão por desacato à Corte e à polícia.

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Craig Murray, ex-embaixador do Reino Unido e ativista de direitos humanos \  Foto: reprodução

Está circulando um abaixo-assinado, na forma de uma Carta Aberta, em defesa da liberdade de expressão e contra o autoritarismo no Reino Unido, em face das ações adotadas pelo Escritório da Coroa (Crown Office) e da Polícia da Escócia contra o jornalista e defensor de direitos humanos Craig Murray, e o jornalista Mark Hirst. 

Encabeçam as assinaturas Noam Chomsky (cientista político), Tariq Ali (historiador e ativista de direitos humanos), Yanis Varoufakis (economista e ex-ministro das finanças da Grécia), David Hare (teatrólogo), Roger Waters (do grupo Pink Floyd), Robert Black (professor emérito de direito), Kristinn Hrnafsson (editor-chefe do Wikileaks), Christine Assange (mãe de Julian Assange).  

A audiência inicial será virtual, em face do coronavírus, e ocorrerá no dia 10 de junho, com a participação de três juízes da Corte de Apelações. Craig Murray está incentivando que mais pessoas acompanhem a audiência, de forma a mostrar ao judiciário escocês que o caso está recebendo ampla repercussão. A solicitação para acesso virtual pode ser feita para judicialcomms@scotcourts.gov.uk. O blogue Chacoalhando solicitou esta autorização.  

As ações contra Murray e Hirst denotam natureza política, e vêm na esteira do processo judicial contra Alex Salmond, ex-primeiro-ministro e ferrenho defensor da independência da Escócia. Salmond foi inocentado pelo júri, das acusações de assédio sexual e estupro falsamente levantadas contra ele por seus inimigos políticos, em uma armação que aparentemente contou com a cumplicidade de setores do governo escocês, bem como com o beneplácito do judiciário e da polícia escoceses.

É apresentada a seguir, a tradução da Carta Aberta encaminhada ao Procurador Geral de Sua Majestade, Lorde Advocate  James Wolffe, com mais de 3.000 assinaturas de personalidades do Reino Unido e internacionais.

Prezado Sr. Wolffe,                                                                                                 

Estamos escrevendo para expressar nossa crescente preocupação em face das ações do Escritório da Coroa (Crown Office) e da Polícia da Escócia. Nas  semanas recentes, apoiadores do ex-primeiro-ministro Alex Salmond, em particular o ex-diplomata e ativista de direitos humanos Craig Murray, e o jornalista Mark Hirst, foram detidos e acusados em relação a comentários que eles tornaram públicos, durante e na sequência do julgamento do Sr. Salmond.  Outros apoiadores do Sr. Salmond também foram contactados pela polícia, e advertidos sobre comentários por eles feitos, relacionados ao julgamento.   

Estamos particularmente apreensivos em observar que os oficiais da polícia investigativa são os mesmos detetives que, por um período de dois anos, conduziram a investigação contra o Sr. Salmond, com custos consideráveis para o erário. Conforme é de seu conhecimento, o julgamento que se seguiu à investigação, também com custos consideráveis ao erário, resultou na absolvição do Sr. Salmond de todas as acusações, e agora levanta um sério questionamento sobre a motivação daquela investigação e das acusações.  

Embora entendamos que o Procurador Geral não possa se envolver em casos individuais,  você está provavelmente ciente de que reclamações de alegado desacato à Corte foram feitas contra seis outros jornalistas considerados francamente hostis em seus relatos ao Sr. Salmond. Entretanto, nenhuma ação de desacato ao Escritório da Corte ou à Polícia da Escócia foi feita contra qualquer destes indivíduos.

Isto deixa uma nítida impressão de que a Polícia da Escócia, orientada pelo Crown Office, está agindo de forma tendenciosa e desproporcional. Como você está ciente, para que haja confiança do público na independência de nosso sistema legal, a lei deve ser capaz de agir imparcialmente, e ser vista desta forma.  

As ações tomadas até agora trazem o risco de serem percebidas pelo público que, tanto a Polícia da Escócia como o Escritório da Coroa estão se conduzindo de forma tendenciosa, e realmente mostrando motivação política.  

Nós contamos com sua resposta às preocupações trazidas nesta carta, e que sejam oferecidas garantias públicas significativas de que a Polícia da Escócia e o Escritório da Corte estão cumprindo suas obrigações de agir com completa imparcialidade e de aplicar a lei de forma adequada.

Nota do autor:

Conforme publicado em artigo anterior do blogue Chacoalhando e do GGN, Murray foi categórico em afirmar que “a intenção desta operação contra o direito de opinião é uma tentativa desesperada de esconder a natureza da conspiração de Estado executada para incriminar Alex Salmond”. E acrescentou ainda: “Se a Escócia é um país em que se vai para a cadeia por dizer isto, então já vou separar a minha escova de dentes.”

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Hong Kong: Washington financia os protestos contra a China

A nova lei de segurança nacional de Hong Kong foi aprovada na sequência a protestos separatistas financiados pelos Estados Unidos e à escalada da violência alimentada por grupos de neonazistas ucranianos.

butijão de gás
Artefato explosivo caseiro encontrado junto à entrada da Universidade Politécnica de Hong Kong, novembro 2019 \ Foto: Aidan Marzo/CNN

As manifestações de rua que ocorreram em Hong Kong na última semana de maio se inserem no que a mídia denominou de protestos “pró-democracia”, e que vêm ocorrendo esporadicamente há praticamente duas décadas na ex-colônia britânica. No entanto, lideranças do movimento vêm atuando em defesa de interesses econômicos e geopolíticos dos Estados Unidos, que financiam uma rede anti-China. Neonazistas ucranianos se juntaram aos manifestantes, o que pode fazer antever a escalada da violência. Com o acirramento da crise, a autonomia dos honcongueses poderá ficar comprometida, antes mesmo do término do prazo de 50 anos que fora garantido pelo acordo entre China e Reino Unido. 

Colônia por 145 anos. Hong Kong se tornou uma colônia britânica em 1842, quando a China foi obrigada, pelo Tratado Nanjing, a ceder o território que fora ocupado durante a Primeira Guerra do Ópio. A guerra foi o resultado da tentativa do imperador chinês de impedir o comércio ilegal do ópio da Inglaterra para a China, que estava causando imenso vício na população do país. Nos anos seguintes, a Inglaterra promoveu ainda a anexação dos Novos Territórios e da península de Kowloon, de forma a garantir o abastecimento agrícola da colônia.

Mapa da Convenção de Hong Kong
Mapa da Convenção para a Extensão do Território de Hong Kong, 1898

O tratado final entre os dois países, a Convenção para a Extensão do Território de Hong Kong, foi assinado em 1898, concedendo o arrendamento dos Novos Territórios por 99 anos, expirando, portanto, em julho de 1997. A China sofrera imensa humilhação, mas soube esperar. Neste intervalo de tempo a China continental passou pela revolução comunista de 1949, enquanto que Hong Kong, já acrescida dos territórios incorporados em 1898 (ver mapa abaixo), tornou-se um moderno centro capitalista.

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Região anexada pelo Reino Unido, com a Ilha de Hong Kong mais ao sul do mapa

Mas se por um lado o sistema econômico implantado foi o liberalismo, na política o ordenamento não foi o de uma democracia liberal. O território era comandado por um governador indicado pelo Reino Unido.  Manifestações de trabalhadores nos anos 60, por melhores condições de trabalho em uma fábrica, evoluíram para amplos protestos contra o imperialismo britânico. Londres respondeu com a imposição de lei marcial e ferrenha repressão.  Segundo a China Global Television Network, o saldo após 18 meses de distúrbios foi de 5000 detenções e 36 honcongueses mortos. 

Retorno à soberania chinesa. Com a proximidade do término do arrendamento da região dos Novos Territórios (pelo qual a China nada recebeu), seria inviável economicamente para a Inglaterra manter apenas a Ilha de Hong Kong, ocupada antes do arrendamento. Pelo acordo entre Margareth Thatcher e Deng Xiaoping, que devolveu todos territórios ocupados à China, esta aceitou conceder um grau de semi-autonomia a Hong Kong. 

A Declaração Conjunta seria a garantia da política “um país, dois sistemas”, que deveria ser respeitada pela China pelo prazo de 50 anos. Em contrapartida, o artigo 23 da Lei Básica, a Constituição de facto de Hong Kong, estabeleceu que a Administração Regional deveria decretar leis que proibissem quaisquer atos de traição, secessão, sedição e subversão contra o governo central chinês, além de coibir organizações políticas locais de estabelecer vínculos com entidades políticas estrangeiras. A legislação pertinente não foi, no entanto, implementada na ocasião pela ex-colônia. 

O início dos protestos. Segundo relato no The Guardian, visando regulamentar o artigo 23, o governo local propôs em 2003 uma lei de segurança nacional, o que trouxe temores na oposição de que as liberdades civis ficariam em risco. Amplos protestos nas ruas fizeram com que o projeto fosse engavetado. The Guardian relatou ainda as principais crises ocorridas desde então.

Em 2012, o escritório de educação de Hong Kong propôs um currículo de educação moral e cívica que criticava o sistema de multipartidarismo. A oposição denunciou a mudança como uma tentativa de lavagem cerebral. Após protestos dos estudantes, o projeto não foi adiante. Do movimento estudantil surgiram lideranças atuais, como o ativista Joshua Wong.

Em 2014, ocorreram protestos em defesa do sufrágio universal, que levaram à ocupação do centro de Hong Kong por 74 dias. As manifestações foram chamadas de Umbrella movement, quando guarda-chuvas foram usados na proteção contra gás lacrimogêneo.

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Guarda-chuvas como proteção para gás lacrimogêneo, 2019 \  Foto: Anthony Kwan/Getty Images

Nova crise irrompeu em julho 2019, quando o governo local tentou aprovar emendas à Lei de Extradição, que possibilitariam o envio de criminosos para as autoridades no continente. Opositores da mudança na lei argumentaram que, com a aprovação, ficaria aberta a porta para a extradição de críticos do governo central chinês. As manifestações não foram todas pacíficas, ocorrendo vandalismo e violentos choques com a polícia, e entre diferentes grupos. O andamento do projeto foi suspenso.

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Gás lacrimogêneo contra manifestantes da Universidade Politécnica, novembro 2019  \  Foto: Dahlan Iskanq / AFP

A crise atual. Chegamos então a maio de 2020. No dia 28, o Congresso da China aprovou a nova Lei de Segurança Nacional para Hong Kong, com foco no artigo 23. Desde o dia 24, protestos em massa contra a lei de segurança já vinham ocorrendo nas ruas, reprimidos pelas forças policiais com uso de gás lacrimogêneo, esprei de pimenta e canhões de água, segundo amplamente relatado na mídia.

Na sequência da aprovação da lei de segurança, o secretário de estado norte-americano, Mike Pompeo, declarou que os Estados Unidos não mais considerariam Hong Kong como uma região autônoma, o que tornaria a região sujeita às mesmas tarifas comerciais que o restante da China. 

Está prevista para breve a votação de uma lei que penaliza insultos ao hino nacional chinês, com penalidades previstas de multas e prisão por até 3 anos, o que deve gerar mais atrito com setores da população críticos de Pequim. Vaias ao hino Marcha dos Voluntários, bem como mudanças desrespeitosas na letra ou na música têm ocorrido principalmente durante jogos de futebol.

Os fatos que a mídia omite. Com base em uma série de reportagens publicadas no The Grayzone, uma outra narrativa pode ser construída, que ajuda a entender melhor o papel desempenhado pelos Estados Unidos no acirramento da crise. 

Em 27 de novembro de 2019, o senado norte-americano já aprovara por unanimidade a Lei de Direitos Humanos e Democracia de Hong Kong, com a liderança do senador Mark Rubio. O documento reforça a importância que os honcongueses tenham autonomia para escolher, através do voto universal, o Chefe do Executivo  e a totalidade do Conselho Legislativo. O direito à livre expressão e outros direitos fundamentais são também defendidos no documento.

Entretanto, o jornalista Ajit Singh chama a atenção que um dos focos principais da nova legislação é de salvaguardar os negócios dos Estados Unidos no território. Hong Kong teria que agir em conformidade com a política externa norte-americana, incluindo adesão às sanções impostas a países listados como “ameaças à segurança nacional, política externa e economia dos Estados Unidos”. Ficou também explicitada a necessária adesão de Hong Kong à política comercial e aos controles de exportação estabelecidos por Washington, inclusive para com a própria China. A proposta de lei vinha sendo discutida em Washington desde 2016, com a constante presença de Joshua Wong, o jovem ativista que despontou nos protestos estudantis de 2012.

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Joshua Wong no congresso norte-americano, setembro 2019 \ Fonte: Ajit Singh/The Grayzone

Diversos líderes da oposição de Hong Kong foram recrutados para o conselho diretor de uma nova entidade anti-China, o Conselho pela Democracia em Hong Kong (HKDC, na sigla em inglês). Sediada em Washington, HKDC foi criada e financiada pela National Endowment for Democracy (NED), um dos braços intervencionistas de Washington. Dentre outros financiamentos aos movimentos anti-China, a NED forneceu mais de 2 milhões de dólares à organização Monitor de Direitos Humanos de Hong Kong, para financiar o movimento contra a lei de extradição, relata Singh.

Um dos principais influenciadores do atual protesto é Jimmy Lai, o magnata local da mídia, que vem financiando as manifestações com milhões de dólares, e incentivando um sentimento xenofóbico contra a China em seus veículos de comunicação, segundo Dan Cohen relata em seu artigo. Em julho de 2019, quando se iniciavam os protestos contra a proposta da Lei de Extradição, Lai viajou para Washington e se reuniu com o vice-presidente Mike Pence, o secretário de estado Mike Pompeo, e o então conselheiro de segurança nacional, John Bolton, além de alguns senadores republicanos.   

A oposição ao governo apoiado por Pequim se afastou da missão principal de garantir um certo grau de  autonomia para os honcongueses,  ao aderir à agenda geopolítica e aos interesses econômicos de Washington, atraindo desta forma a ira de Pequim. Fica um pouco mais fácil de se entender a motivação do governo chinês de impor a Hong Kong a recém aprovada Lei de Segurança, que penaliza atos que sejam considerados como de subversão e a favor do separatismo.

Os ucranianos nos protestos. Em 2019, grupos de extrema direita viajaram de diversas regiões do mundo, para se juntar aos protestos separatistas em Hong Kong, conforme relata Ben Norton, em artigo para o The Grayzone. Dentre estes, incluem-se extremistas ucranianos que se autodenominam “Gonor”. Este grupo participou da milícia neonazista chamada Batalhão Azov, que se notabilizou por atos brutais na luta contra os militantes ucranianos pró-Rússia. Uma revolta foi iniciada na Praça Maidan, Kiev, em 2013-14, que deu origem ao movimento Euromaidan, pró-Ocidente, que levou ao afastamento do presidente eleito Yanukovich.

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Neonazistas ucranianos em Hong Kong, dezembro 2019  \  Fonte: Ben Norton / The Grayzone

O Batalhão Azov é um grupo paramilitar que englobou diversos grupos da ultra direita como o Right Sector (Setor de Direita), responsável por incendiar o prédio de um sindicato laboral durante o golpe de 2014, o que resultou na morte de 42 pessoas.  O Azov foi incorporado à guarda nacional ucraniana, e vem recebendo armamentos e treinamento de Washington desde 2016, para manter a pressão contra Moscou. Segundo artigo de Max Blumenthal, seus membros também participaram do treinamento militar e na doutrinação de supremacistas brancos norte-americanos que estiveram envolvidos em violentas confrontações na Califórnia e na Virgínia.

Ainda segundo o artigo de Dan Cohen no The Intercept, um dos ucranianos que tiveram sua presença identificada em Hong Kong foi Serhii Sternenko, ex-líder do Right Sector. Os fascistas ucranianos estiveram presentes no campus da PolyU, a Universidade Politécnica de Hong Kong, local de violentos protestos. Suspeita-se que os extremistas ucranianos possam ter compartilhado táticas de insurgência com os ativistas de Hong Kong.

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Material de fabricação caseira para uso bélico, campus da PolyU, dezembro 2019 \  Foto: Sam Tsang

De acordo com o relato no South China Morning Post foram encontrados na PolyU cerca de 4.000 bombas incendiárias,  1.340 apetrechos explosivos, e 600 embalagens de líquido corrosivo. A CNN mostrou um artefato explosivo de fabricação caseira encontrado na universidade, com o poder devastador de uma bomba de fragmentação, apresentado na foto que abre este artigo. 

Finalizando, a ação de Washington de apoiar atos contra a China se insere no que atualmente recebe o rótulo de “guerra híbrida”, como parte da nova Guerra Fria. É mais uma tentativa de deter a ascensão econômica da China, em um mundo multipolar que desponta. Mas, ironicamente, manifestações muito mais amplas que  as ocorridas em Hong Kong se espalharam pelos Estados Unidos nos últimos dias, escancarando as contradições que permeiam a estrutura social da “grande nação das oportunidades iguais para todos”.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

 

A etnia Uigur de Xinjiang e a Guerra Fria contra a China, por Ruben Rosenthal

Como parte da campanha para deter a ascensão econômica da China, os Estados Unidos recorrem à acusações de perseguição religiosa a muçulmanos em Xinjiang.

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Província chinesa de Xinjiang, foco do separatismo uigur Arte gráfica: VOA

Antes do surgimento da crise do coronavírus e das acusações de Trump sobre “o vírus chinês”, a mídia corporativa ocidental já estava em plena campanha contra a China, ao acusar o governo de Pequim de perseguição religiosa a muçulmanos da etnia Uigur na província de Xinjiang, noroeste do país. Campanhas contra a China tem sido constantes desde a revolução comunista de 1949, que contrariou interesses econômicos e geopolíticos do Ocidente. 

O recrudescimento desta campanha em diversas frentes de embate faz evocar o clima da chamada Guerra Fria entre Estados Unidos e a então União Soviética, que prevaleceu na segunda metade do século 20, e que deixava o mundo em constante sobressalto de um conflito bélico direto entre as duas superpotências, que pudesse evoluir para o confronto nuclear.

As denúncias de violação dos direitos humanos dos uigures vêm sendo difundidas desde 2017, sem que no entanto fosse verificada a veracidade das mesmas. O que também não foi revelado pela mídia, é que as fontes das acusações recebem financiamento de Washington.Segundo artigo de Ajit Singh e Max Blumenthal no blogue de notícias The Grayzone, toda a mídia corporativa, e mesmo veículos da imprensa independente, como Democracy Now!   e The Intercept  participaram da divulgação das acusações, sem qualquer investigação prévia séria.

Portanto, não constitui surpresa a adesão da mídia do Brasil a esta campanha contra a China, pois sistematicamente reproduz o noticiário das grandes agências noticiosas do Ocidente, sem a menor visão crítica.

Em fevereiro deste ano, o portal G1, associado ao Grupo Globo, repassou informações vindas da CNN de que o governo chinês promoveu perseguições a muçulmanos integrantes da etnia Uigur, “pela prática ilegal de orações, por uso impróprio da internet, a casais que tivessem mais filhos do que o permitido pela ‘ditadura chinesa’ (sic), a homens com barba longa, e a mulheres que cobrissem o rosto com véu”.

Anteriormente, em novembro de 2019, o portal G1  já relatara que “documentos vazados mostravam que a China mantinha em campos de detenção cerca de 1 milhão de muçulmanos”. Os documentos teriam sido encaminhados ao The New York Times  por uma “fonte anônima” oriunda do escalão político chinês.

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Trecho do documento chinês vazado para o The New York Times

A referida “fonte” responsabilizou o presidente Xi Jinping, por este ter anteriormente defendido “uma cura ideológica para reprimir a agitação em Xinjiang, através de um programa de doutrinação nas prisões”. Conforme também reproduzido pelo G1, “meses após o discurso do presidente chinês, campos de doutrinação começaram a ser abertos, onde cidadãos da etnia Uigur eram pressionados a renegar sua devoção ao Islã, e demonstrar lealdade ao Partido Comunista da China”.

Ainda segundo o relato difundido pelo NYT, a situação teria se agravado em 2017, quando o novo governante local iniciou uma detenção em massa de muçulmanos uigures. O documento faz também referência de que o combate ao Islã iria se estender a outras regiões da China. O Congresso norte-americano, usando como justificativa a suposta detenção de mais de 1 milhão de muçulmanos em Xinjiang, aprovou legislação em 3 de dezembro de 2019, tratando da “Política de Direitos Humanos dos Uigures”, e demandou que Donald Trump impusesse sanções econômicas contra a China, conforme relatado no The Guardian.

Para criar o clima propício que levasse à aprovação das sanções, membros do Congresso norte-americano compararam a China à Alemanha nazista: “a internação em massa de milhões (de uigures) em campos de concentração tem uma dimensão não vista desde o Holocausto”, segundo publicado pela Al Jazeera.

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Fazendeiro transporta fardos de algodão em uma fábrica de Shihezi, Xinjiang 2007 \ Foto: China Photos / Getty Images

Na contramão do relato majoritário que prevaleceu nas mídias corporativas, o artigo no Grayzone considera que as acusações contra o governo chinês foram baseadas em dois estudos altamente dúbios, cuja veracidade não foi questionada.

O “primeiro estudo”  foi apresentado pela Rede Chinesa de Defensores de Direitos Humanos (NCHRD ou CHRD, na sigla em inglês), sediada em Washington, e apoiada financeiramente pela National Endowment for Democracy, o Fundo Nacional pela Democracia (NED, na sigla em inglês). Esta se trata de uma fundação privada, financiada principalmente pelo Congresso norte-americano, e cujo conselho diretor tem participação igualitária de republicanos e democratas.

O referido estudo foi baseado em entrevistas com apenas oito pessoas, e originou um relatório submetido ao Comitê na ONU para a Eliminação da Discriminação Racial. Neste relatório de 2018 foi apresentada a estimativa de que cerca de 1 milhão de pessoas da etnia Uigur haviam sido enviadas para campos de reeducação,  e que cerca de 2 milhões eram forçadas a frequentar programas de reeducação em Xinjiang, segundo a versão do CHRD.

Para se chegar às estimativas apresentadas no relatório encaminhado ao órgão da ONU, os dados obtidos a partir da pequena amostra de entrevistados em vilarejos de Kashgar foram extrapolados para uma população que totaliza 20 milhões de pessoas, analisa o Grayzone.

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Mulher uigur varrendo fora de sua casa em Kashgar \ Foto: Kevin Frayer/Getty Images

A agência Reuters aproveitou para publicar em 10 de agosto de 2018, que a ONU diz possuir relatórios confiáveis de que a China mantém 1 milhão de uigures em campos secretos. No entanto, segundo o Grayzone esta notícia é falsa, pois a ONU não fez tal declaração. No documento emitido pelo Comitê da ONU para a Eliminação da Discriminação Racial consta de fato menção a campos de reeducação, mas feita apenas por Gay McDougall, representante norte-americana no Comitê.

O The New York Times e The Washington Post foram ávidos em denunciar a China, e pedir uma ação internacional. Mesmo o Intercept  embarcou nesta onda, com o artigo de Mehdi Hasan, “Um milhão de muçulmanos uigures foram detidos pela China, ONU afirma. Onde está a indignação mundial?”.

Com base nestes dados, o governo norte-americano acusou a China de “detenção arbitrária de 800 mil a possivelmente 2 milhões de uigures, cazaques e outros muçulmanos em campos de internação, para apagar suas identidades religiosas e étnicas”.

Ainda segundo o Grayzone, o governo chinês rejeitou as alegações dos Estados Unidos, embora reconheça que de fato estabeleceu “centros de educação e de treinamento vocacional”, para prevenir a difusão do terrorismo e do extremismo religioso. O propósito seria o de “capacitar profissionalmente um pequeno número de pessoas afetadas pela ideologia extremista, de forma que estas possam se reintegrar na sociedade”.

O “segundo estudo” que proclama que a China deteve milhões de uigures se baseou em relatos de autoria do alemão Adrian Zenz, um fundamentalista cristão de extrema direita. Zenz, que se apresenta como um pesquisador independente, é conhecido por suas posições contra o homossexualismo, igualdade de gêneros, e a favor de castigos corporais em crianças, tudo com base no cristianismo.

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Adrian Zenz, apresentado como pesquisador independente no noticiário do Democracy Now!

Este “especialista em Xinjiang”, adepto do “evangelismo do fim dos tempos”, se considera enviado de Deus em uma cruzada contra a China, como declarou em entrevista recente ao The Wall Street Journal.

Segundo o Grayzone, Zenz é um membro senior da Fundação Memorial para as Vítimas do Comunismo, organização estabelecida nos Estados Unidos em 1983, e com vinculações a pessoas e entidades simpatizantes de neonazistas, fascistas e extremistas antissemitas. A Fundação também atua contra o governo da Venezuela.

Em 2018, Adrian Zenz estimou “em mais de um milhão, o número de internos nos campos de reeducação em Xinjiang”. O Grayzone revela que estes dados se basearam em um relato da TV Istiqlal, sediada na Turquia, e ligada a exilados uigures. A emissora promove a causa separatista da região de Xinjiang para formar o Turquistão Oriental.

Relata ainda o Grayzone que o Movimento Islâmico do Turquistão Oriental tem laços com a al-Qaeda, e foi declarado como sendo uma organização terrorista pelos Estados Unidos, União Européia, e Conselho de Segurança da ONU. Segundo a agência noticiosa Associated Press, desde 2013 milhares de uigures se juntaram ao Partido Islâmico do Turquistão, para lutar ao lado da al-Qaeda na Síria, e algumas centenas aderiram ao Estado Islâmico. 

Posteriormente, em 2019, Zenz inflou para 1,5 milhão o número de detidos em Xinjiang pertencentes a minorias étnicas muçulmanas. Ao Der Spiegel, ele declarou que a prática do islamismo foi efetivamente banida de Xinjiang pela China. Zenz passou a ser o especialista em Xinjiang a quem a mídia Ocidental recorre quando necessita de relatos acusatórios contra a China. Aí se incluem veículos de informação como o New York TimesWashington Post e CNN.

Outro artigo do The Grayzone revela que a entidade conhecida como Congresso Mundial Uigur (WUC, na sigla em inglês), que se proclama como uma organização engajada em “um movimento pacífico, não violento e democrático em prol dos direitos humanos”, está na verdade focada na desestabilização da China, e na queda do sistema comunista. Assim como a Rede Chinesa de Defensores de Direitos Humanos, o WUC também recebe financiamento norte-americano através da National Endowment for Democracy. O WUC está sediado em Munique, com presença em 18 países.

O Congresso Mundial Uigur considera que os muçulmanos da etnia Uigur são membros de uma nação pan-turca, que se estende da Ásia Central à Turquia. O patriarca do movimento separatista de Xinjiang foi Isa Yusuf Alptekin, que se exilou em 1949 na Turquia, com a vitória dos comunistas na Revolução Chinesa. Alptekin defendeu a intervenção norte-americana no Vietname, e pedia ao então presidente norte-americano Richard Nixon que apoiasse os nacionalistas do Turquistão Oriental, como forma de apressar o desmembramento da China.

O velho Alptekin em 1966
Isa Alptekin (segurando um livro) lidera manifestação pelo separatismo de Xinjiang, 1966. Na faixa: “Comunismo é o inimigo do Islã”. Foto: Reprodução

Seu filho, Erkin Alptekin, fundou o WUC em 2004 e se manteve fiel ao objetivo do pai de “provocar a queda da China, da mesma forma como a União Soviética se desmantelara alguns anos antes”. Dolkun Isa, atual presidente do WUC, faz lobby constante em Washington pela aplicação de sanções econômicas contra a China.

O WUC tem vínculos próximos com o Dalai Lama, também financiado pelos Estados Unidos através da CIA, relata o Grayzone. Cabe notar que as províncias de Xinjiang e do Tibet são vizinhas.

O WUC também mantém ligações estreitas com movimentos de direita etno-nacionalistas.  A organização estabeleceu vínculos com o grupo turco Grey Wolves (Lobos Cinzentos), engajado em violência sectária na Síria e Leste da Ásia. O atentado sofrido pelo Papa João Paulo II, em 1981, foi perpetrado por um membro dos Lobos Cinzentos.

Militantes dos Lobos Cinzentos estiveram envolvidos no atentado a bomba em um local religioso na Tailândia, que resultou na morte de 20 pessoas. Segundo a polícia tailandesa militantes uigures também estiveram envolvidos no ataque, que foi uma retaliação à repatriação de um grupo vindo de Xinjiang, que fora impedido de se juntar a combatentes do Estado Islâmico e da al-Qaeda no Iraque e na Síria1.

“Líderes do WUC‘a pacífica organização de direitos humanos’ apoiada por Washington, proclamaram que centenas de milhares de uigures de Xinjiang estariam dispostos a se alistar no exército turco para invadir o norte da Síria, se o presidente turco Recep Erdogan assim o determinasse”, revelou Grayzone.  

jihadistas chineses

Independentemente da questão dos uigures, a deterioração das relações sino-americanas cresceu no governo Trump. Artigo de dezembro de 2019 no New York Times, “A nova Guerra Fria? É com a China e já começou”ressalta que 2019 foi o ano que pode ficar na História como o início da Segunda Guerra Fria, e não 2014, quando a Rússia mandou tropas para a Ucrânia.

Além da situação em Xinjiang, o artigo levanta principalmente a questão da guerra tecnológica com a empresa Huawei, pela dominação global da tecnologia 5G nas telecomunicações, e a questão cambial, decorrente da desvalorização do Yuan frente ao dólar.

Surge então a crise do coronavírus em dezembro de 2019, que se tornou uma pandemia mundial em 2020. Em ano eleitoral, Trump procura culpar a China por suas próprias falhas em lidar com a pandemia, e ameaça com retaliações, inclusive cobrar uma  indenização bilionária dos chineses.

Nesta nova Guerra Fria, a China também tem trunfos a que poderá recorrer, como será visto em um próximo artigo. Agora é esperar por novos movimentos das peças, neste xadrez da geopolítica entre as duas principais potências econômicas.

Notas do autor:

1. Cerca de 5.000 uigures estiveram lutando na Síria, segundo o site SOFREP, formado por jornalistas norte-americanos, ex-veteranos de guerra. A estes jihadistas vinculados ao Partido Islâmico do Turquistão é atribuído o atentado com armas químicas em Lakatia, na Síria, uma tentativa de culpar o presidente Bashar al Assad, como noticiado anteriormente pelo blogue Chacolhando.

2. O atual artigo não deve ser interpretado como uma defesa incondicional do sistema político que vigora na China, e de sua política de direitos humanos. 

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Reino Unido: justiça indicia defensor de direitos humanos, por Ruben Rosenthal

O ex-embaixador britânico Craig Murray vai a julgamento na Escócia, e pode ser condenado a dois anos de prisão e ao pagamento de uma multa de valor ilimitado.

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Craig Murray, ativista de direitos humanos \  Foto: reprodução

A Alta Corte de Justiça da Escócia convocou Craig Murray a comparecer a uma audiência, em 7 de julho, para responder à acusação de violação da Lei de Desacato à Corte e da lei comum. Em questão, estão vários artigos que ele escreveu sobre o julgamento do ex-primeiro-ministro da Escócia, Alexander Salmond, que fora acusado de ter cometido crimes sexuais, mas inocentado ao final pelo júri.

Entretanto, no julgamento de Murray não haverá a proteção que o sistema de júri pode conceder, cabendo ao juiz uma decisão monocrática, que poderá resultar em condenação de até dois anos de prisão e multa de valor ilimitado.

Ao final deste artigo1 é repassado o e.mail de contato do Procurador Geral de Sua Majestade, para que personalidades e Associações que defendem a liberdade de imprensa e de expressão no Brasil possam enviar notas de repúdio à perseguição política de que Craig Murray está sendo vítima. Ele, que sempre foi um árduo defensor dos direitos humanos, está precisando de todo o apoio neste momento.

Segundo relato no The Grayzone, artigos publicados por Murray questionaram conflitos de interesse que existiriam nas acusações contra Salmond, bem como irregularidades na condução do caso pelas autoridades. O ativista chegou a comparecer a dois dias de sessões do julgamento do ex-primeiro-ministro, mas a Corte resolveu bani-lo das sessões, negando a ele credenciais de imprensa. 

As acusações contra Murray se referem especificamente à publicação de matéria que seria passível de influenciar os jurados, e também por por ficarem explicitadas algumas pistas, que permitiriam identificar testemunhas de acusação contra Salmond, suas supostas vítimas de ofensas sexuais.

Mesmo com a ameaça que paira sobre si, Craig Murray mantém um tom altivo e desafiador, reafirmando que “o caso contra Alex Salmond foi uma conspiração em que o Escritório da Coroa na Escócia (Crown Office) esteve implicado, mas que foi impedida pelo júri, ao inocentar Salmond”. E prosseguiu: “Se a Escócia é um país em que se vai para a cadeia por dizer isto, então já vou separar a minha escova de dentes.”

Quem é Craig Murray. Ex-Embaixador do Reino Unido e ex-Reitor da Universidade de Dundee, o escocês Craig Murray atua como ativista de direitos humanos e pela independência da Escócia, principalmente através de seu conhecido blogue. Ele pode ser classificado como sendo um “dissidente político”, termo que foi usado pelo Ocidente no período da chamada Guerra Fria, principalmente em relação aos intelectuais russos que criticavam o regime soviético.

Após ter servido como diplomata em diversos países, o rompimento de Murray com o establishment britânico começou a se dar no período em que atuou no Uzbequistão (2002-2004). Esta experiência foi narrada em livro, que no Brasil recebeu o título de Diplomacia Suja. Ao se dar conta das terríveis torturas a que eram submetidos os críticos do presidente Karimov, Murray encaminhou a seus superiores críticas à conivência da CIA com os casos de tortura.

Por pressão dos Estados Unidos, Murray foi afastado do serviço diplomático britânico, o que resultou em um tremendo reforço na luta por direitos humanos no mundo. Diplomatas que preferem se manter anônimos, costumam vazar importantes informações para Murray.

Conforme lembra o The Grayzone, Murray vem denunciando crimes cometidos pelos governos do Reino Unido, dos Estados Unidos e de Israel, bem como demonstrou as inconsistências na acusação de que o governo russo foi responsável pelo envenenamento do agente duplo Sergei Skripal, e no caso conhecido como Russiagate, dos e.mails de Hillary Clinton na eleição presidencial

Murray se tornou apoiador do Wikileaks, e amigo de Julian Assange, tendo acompanhado as audiências iniciais do julgamento que pode resultar na extradição de Assange para os Estados Unidos. Ele vem também denunciando os maus tratos a que o fundador do Wikileaks tem sido submetido na prisão de segurança máxima de Belmarsh. Os relatos escritos por Murray das quatro audiências iniciais do julgamento de Assange foram publicados no blogue Chacoalhando e no GGN.

Mas a apresentação de Murray ficaria incompleta se não fosse mostrado o lado festeiro do escocês,  que anualmente promove com sua família um festival típico no país, o “Doune The rabbit hole”, Doune A toca do coelho. Doune é uma pequena vila do país (ver vídeo). Esperemos que em 2020 ele possa repetir o evento.

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Craig Murray no evento do “Doune The rabbit hole”  \  Foto: Reprodução

O caso Salmond. Ainda segundo o The Greyzone, Alex Salmond se tornou um dos principais líderes do movimento pró-independência da Escócia e, com isto, alvo do contra-ataque dos apoiadores da permanência do país no Reino Unido.  

Salmond foi primeiro-ministro da Escócia no período de 2007 a 2014, tendo atuado como líder do SNP, o Partido Nacional Escocês, por cerca de duas décadas (até 2014), mas foi obrigado a se afastar do partido em 2018, após ter sido denunciado por agressão sexual contra várias mulheres.

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Alex Salmond,  após depoimento na  Corte do Xerife de Edimburgo, jan. 2019 \ Foto: Russell Cheyne/Reuters

Com sua saída da liderança, o partido migrou para a direita, com a ascensão de Nicola Sturgeon, que se tornou primeira-ministra do país. Sturgeon não tem demonstrado entusiasmo pela separação do Reino Unido, segundo o próprio Murray vem questionando em vários de seus artigos, nos quais o Chacolhando se baseou para tratar do tema.

O julgamento de Salmond se estendeu de 9 a 20 de março de 2020. Ao final, ele foi inocentado por um júri majoritariamente feminino, de 13 das 14 acusações pendentes, sendo que a Promotoria desistiu da acusação restante.

Segundo Murray escreveu em seu blogue em 24 de março, tratou-se de um caso em que testemunhas de acusação não estavam presentes nos locais onde teriam ocorrido abusos sexuais. Além disso, evidências e testemunhas de que havia uma conspiração contra Salmond foram excluídas das audiências.  

As acusações contra Murray. No documento do Crown Office encaminhado a Murray, relativo ao caso “Her Majesty Advocate v. Craig Murray”, estão detalhadas as violações da lei que ele teria cometido em publicações no blogue, no período de 23 de agosto de 2019 a 3 de abril de 2020.

Nos artigos, Murray exerceu sua verve humorística e irônica, ao dar algumas pistas sobre pessoas envolvidas nas acusações contra Salmond. Um exemplo foi ao escrever que uma das testemunhas tem cabelos tão encaracolados, que se você puxar eles voltam.

Um outro artigo, escrito na forma de roteiro ficcional, foi apresentado como sendo uma pilhéria ao programa de televisão conhecido como Yes Minister (Sim Ministro). Os personagens são um Secretário Permanente e um Ministro, que discutem se a reputação do predecessor do Ministro pode ser destruída por acusações de ofensas sexuais fabricadas por agentes do governo. No roteiro, uma ex-conselheira especial, esposa de um ex-político, estaria disposta a inventar alegações de abuso sexual, para alimentar as carreiras políticas do casal.

O Escritório da Coroa considerou que a descrição do político e de sua esposa traz similaridades com uma das reclamantes no caso Salmond, sendo portanto, uma violação da Lei de Desacato à Corte, e instou Murray a retirar o artigo.

No artigo intitulado “O julgamento de Alex Salmond e a Censura”, Murray escreveu que “interpreta a carta que recebeu do Agente da Coroa como uma tentativa de censura, e que a referida carta representava uma violação de direitos humanos”.

Não foi a primeira nem a última carta que Murray recebeu do judiciário escocês requerendo que ele removesse trechos de artigos, por possibilitarem à identificação dos reclamantes, contrariando a restrição imposta pela Corte.

Murray se defende. Em artigo de 24 de abril, Murray denunciou que a Polícia da Escócia intimidou ativistas pró-independência, com ameaças de processos judiciais por desacato à Corte, caso publicassem em mídias sociais abordando procedimentos do julgamento de Salmond. Mencionou também que um jornalista conhecido teve a casa revistada, e computadores e celulares confiscados.

Murray revelou ainda que, dias antes de receber a notificação da abertura de processo contra si, vários policiais ficaram em frente a sua casa, e só se afastaram após seu advogado contactar o Escritório da Coroa, evitando assim que ocorresse um procedimento de busca e apreensão.

O ativista argumenta que todos os jornais publicaram pistas de identificação das testemunhas, e não foram intimados. E que se o material que ele publicou fosse realmente afetar o júri, então as “autoridades tinham a obrigação de haver tomado uma atitude antes de começar o julgamento. A falta de ação prévia teria se constituído, então, em sério caso de negligência”.

Murray chama também a atenção de que “a justiça não tomou qualquer providência quanto às reportagens que saíram na mídia, antes e durante julgamento, chamando Salmond de estuprador, de pervertido, e antecipando um veredito de culpa. As mídias sociais foram também infestadas com milhares destas postagens.

Na véspera do julgamento, o jornal Herald publicou um artigo sobre grandes julgamentos do passado, que mostrava uma foto de Salmond próxima a uma montagem fotográfica, que incluía dentre outros o nazista Adolf Eichmann, o psicopata assassino Charles Manson, um casal que assassinava crianças, o estuprador de Yorkshire, e Harvey Weinstein, o produtor de cinema preso por estupro.  O jornal não foi sequer admoestado pela justiça.

Salmond montagem no Herald
Criminosos condenados em julgamentos famosos, março 2020 \ Montagem: Herald Scotland

Murray é categórico ao afirmar: “A intenção desta operação contra o direito de opinião é uma tentativa desesperada de esconder a natureza da conspiração de Estado executada para incriminar Alex Salmond. A perseguição que estou sofrendo faz parte de uma tentativa de intimidar figuras independentes.”

 Notas do Autor:

1. Mensagens de repúdio ao processo político contra Craig Murray podem ser enviadas ao Procurador Geral do Escritório da Coroa: The Right Honourable James Wolffe, Her Majesty´s Advocate, pelo e.mail: PDCAseriouscasework@copfs.gov.uk

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacolhando.

COVID-19: Quem tem medo de tomar a vacina?, por Ruben Rosenthal

Enquanto o mundo anseia por uma vacina que ponha fim à pandemia, libertários de direita e conspiracionistas fazem campanha contra a imunização em massa nos Estados Unidos.

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Acredite em Deus, não nas vacinas: hashtag diga não a bill gates  \  Foto: Mario Tama/Getty Images

Nas últimas semanas, setores opostos do espectro político norte-americano vêm se opondo à vacina de proteção contra a COVID-19. Em comum, estão as críticas a Bill Gates, embora por motivos diferentes. Estes vão desde a defesa do direito do indivíduo em recusar a obrigatoriedade da vacinação, a uma teoria conspiratória de que, através da vacina, seria implantado um microchip, como parte do projeto de identificação digital ID2020, do qual a Fundação Bill e Mellinda Gates é um dos principais idealizadores.

Gates, co-fundador da Microsoft, é o segundo maior contribuinte da Organização Mundial da Saúde (OMS), através da Bill & Melinda Gates Foundation. Se os Estados Unidos deixarem de contribuir, conforme anunciado por Donald Trump, então a Fundação passaria a ser o maior doador, à frente do Reino Unido.

Contrariamente às especulações de que a China, outra grande doadora da OMS, foi o principal responsável pela eleição de Tedros Adhanom para o cargo de diretor-geral da Organização, é provável que tenha sido Gates quem exerceu o papel preponderante na escolha do microbiologista etíope.

Mas para Trump, a China é um alvo mais fácil para disparar sua artilharia, e justificar as falhas de seu próprio governo, onde críticos sensatos são afastados e aduladores são prestigiados. E as falhas não foram poucas.

Segundo artigo no Wall Street Journal de 22 de abril, o Secretário de Serviços Humanos e de Saúde norte-americano, Alex Azar, foi alertado desde 3 de janeiro pelo CDC, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças, sobre os riscos do coronavírus. Em 28 de janeiro o Secretário declarou que o vírus não traria impacto no dia-a-dia dos norte-americanos, e mesmo em 25 de fevereiro, quando o CDC alertou que já estava se preparando para uma pandemia, Azar informou à imprensa que o vírus estava “contido”.

O negacionista-mór da pandemia, Donald Trump, há poucos dias afastou o Dr. Rick Bright de seu cargo como chefe da Autoridade de Desenvolvimento e Pesquisa Biomédica Avançada, a agência governamental que está no centro dos esforços governamentais para obter um tratamento e uma vacina para o coronavírus. O cientista acredita que foi removido de sua função por ter insistido em impor limites ao uso da hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19, contrariando a Trump.

O afastamento do Dr. Rick Bright pode enfraquecer o papel da agência governamental que ele chefiava, em um momento crucial da busca por uma vacina para a prevenção da COVID-19. Neste contexto, cresce a relevância de entidades privadas como a Fundação Bill & Melinda Gates, o que deverá acirrar os ataques contra Gates, vindos de negacionistas da pandemia e da vacina, bem como dos adeptos de teorias conspiratórias.

Um dos principais projetos em que a Fundação está envolvida, já há alguns anos, é o da Aliança Global pelas Vacinas e Imunização, GAVI, na sigla em inglês.  O objetivo declarado da Aliança é o de “ajudar a vacinar a metade das crianças do mundo contra doenças infecciosas debilitantes e mortais”. Nas palavras de Bill Gates, “todas as vidas tem igual valor, …. não importa se ricas ou pobres”.

Vacina Gavi
Parceiros na Aliança Global pelas Vacinas e Imunização, GAVI

Os principais parceiros desta aliança incluem, além da Fundação Bill & Melinda Gates, a OMS, UNICEF, Banco Mundial. GAVI tem como doadores, diversos países e fundações privadas. Colaboram também, ONGs, fabricantes de vacinas, e institutos de pesquisa. Dentro do programa, a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) já produziu vacinas de baixo custo, através de parceria com a Fundação Bill & Mellinda Gates.

Para que se possa entender melhor a demonização de Bill Gates, falta abordar o “projeto ID2020”, também de iniciativa de sua Fundação. Em 2018, a “Aliança de Parceiros pelo ID2020”, em associação com o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR), lançou o Manifesto da Aliança ID2020, que argumenta em favor de uma identidade digital.

“Para enormes contingentes de refugiados, apátridas e outros grupos marginalizados, não é possível se recorrer a sistemas de identificação nacionais. Alguma forma alternativa necessita ser fornecida a estes indivíduos, para que possam acessar de forma segura e confiável os sistemas dos Estados. E que isto possa ser feito através de uma forma confiável, que possa ser verificada de forma física e online.”

Em setembro de 2019, a Aliança ID2020 realizou sua reunião de cúpula anual em Nova York. Na ocasião foi anunciado o lançamento de um programa de identidade digital entre o Governo de Bangladesh e GAVI, a Aliança pela Vacina.

“Reconhecendo a oportunidade que a imunização oferece para servir como plataforma para a identidade digital, o programa alavanca as operações de vacinação e de registro de nascimento, para oferecer aos recém-nascidos, uma identidade digital com associação biométrica, duradoura e portável.”

Em relação à biometria de crianças, o UNICEF, em associação com o Banco Mundial, já emitira dois documentos com diretrizes para uso biometria em crianças, alertando para certos riscos envolvidos. O UNICEF argumenta que a tecnologia biométrica, como no caso do reconhecimento facial, foi inicialmente projetada para uso em adultos, tornando-se mais sujeita a erros de reconhecimento quando usada em crianças, podendo ainda trazer “impactos negativos em comunidades vulneráveis”.  

A biometria se aplicaria a medidas faciais, impressões digitais, íris, impressões dos pés e das mãos. Ainda segundo o UNICEF, o uso destas tecnologias em crianças com menos de 5 anos de idade ainda requer mais pesquisas.

A associação da campanha de vacinação da GAVI com o programa de identificação digital contribuiu para alimentar teorias conspiratórias, e que podem interferir na questão do controle da pandemia e prevenção da COVID-19.

Este é, basicamente, o pano de fundo a partir do qual se alimentam as campanhas contra a vacinação em massa contra o coronavírus. Vamos ver como, nos Estados Unidos, os negacionistas da alta mortalidade do SARS-CoV-2, e adeptos de teorias conspiratórias,  fizeram de Bill Gates e seu projeto de desenvolver uma vacina para combater a pandemia, um alvo preferencial de suas críticas.

O negacionismo da pandemia e da vacinação. Um dos principais opositores da vacinação compulsória é o médico e ex-congressista Ron Paul, que através do Instituto que leva seu nome, dá voz a negacionistas, que comparam o número de vítimas fatais da atual pandemia à media de vítimas das gripes comuns no país.

Ron Paul faz parte dos libertários de direita nos Estados Unidos. Há menos de cinco anos ele estava bem alinhado com as teses do think tank Atlas Network1, um dos epicentros do ultraliberalismo no país, tendo se apresentado em 2015 como palestrante na Oitava Conferência do International Students for Liberty, entidade à qual o MBL estava ligado.

No entanto, em 2017, Ron Paul já renegara seu envolvimento anterior com a Atlas Network, reconhecendo o envolvimento da entidade na deposição de Dilma Roussef, ao afirmar que o MBL, de Kim Kataguiri, atuou segundo as instruções de Alexander Chafuen, o CEO da Atlas.  Paul denunciou também o envolvimento da Atlas com o lobby do tabaco2.

Mesmo se tornando crítico do principal think tank do ultraliberalismo norte- americano, Ron Paul continua a adotar uma política  de “libertarianismo de direita”, por vezes se alinhando com as posições de Trump. Ele é condescendente com o presidente em relação a algumas políticas, com a justificativa que os presidentes do país não conseguem suportar as pressões do “Deep State”.

Através de artigo na página de seu Instituto, Ron Paul questiona se as medidas adotadas em busca da cura não estão trazendo mais malefícios que a própria doença, por prejudicarem os negócios e trazerem desemprego. Ele defende ainda que os governos não têm o direito ou autoridade para definir que atividade é “essencial”.

Em alinhamento com a política disruptiva de Trump de solapar a quarentena, Paul dá força para as manifestações de protesto que se espalham pelo país, contra o que ele denomina de “prisão domiliciar”.

rifles de assalto Arizona capital
Manifestantes contra a quarentena com rifles de assalto, capital do Arizona \  Foto: Ross D. Franklin/AP

Agora Ron Paul investe contra a vacina para combater o coronavírus, alertando que as pessoas deveriam ficar “cautelosas” sobre a futura vacina. Ele alega que táticas de amedrontamento” estão sendo usadas para colocar pressão sobre as pessoas, para convencê-las de que deveriam se vacinar”. Em entrevista em áudio, Ron Paul declarou que Bill Gates  quer dominar o mundo através da vacinação compulsória3.

A dominação do mundo por Bill Gates é o elo de ligação entre negacionistas da pandemia e da vacinação compulsória da população, com os adeptos de teorias conspiratórias, de que um microchip ou cápsula será introduzido na vacina, e que supostamente possibilitaria formas de controle sobre as pessoas.

As teorias conspiratórias. Segundo a Agência Reuters, a teoria conspiratória surgiu a partir da deturpação de uma entrevista de Gates à rede de comunidades Reddit, e se espalhou em milhares de postagens pelo Facebook e TwitterNa entrevista ao Reddit, do tipo perguntas e respostas, Gates fez menção de que pode prever o uso de “certificados digitais associado à fichas clínicas”.   

Os boatos de implantação de chips surgiram a partir de 19 de março, com uma publicação no site Biohackinfo intitulada “Bill Gates irá usar implantes de microchips para combater o coronavírus”. O artigo acrescenta que, atualmente, a forma mais eficaz de implementar a identidade digital seria através de implantes de microchips, com identificação por radio-frequência. Entretanto, em nenhum momento da entrevista ao Reddit, Gates mencionou o uso de microchips implantados, seja no projeto do ID2020 ou na vacinação contra a COVID-19.

O artigo no Biohackinfo menciona um fato verídico, que é a tecnologia do “quantum dot dye” (corante ou tatuagem de ponto quântico), desenvolvida no prestigioso MITMassachusetts Institute of Technology.  O texto associa esta tecnologia aos certificados digitais a que Gates se referiu no projeto ID2020, para possibilitar que populações marginalizadas possuam documentos de identidade confiáveis. 

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Vacinação com microagulhas e implantação dos pontos quânticos \ Créditos: Second Bay Studios

Kevin McHugh, da Rice University, Texas, e especialista em bioengenharia, participou como co-líder na pesquisa do “quantum dot dye”, quando estava do MIT. Ele explicou em boletim técnico da Universidade de Rice, que pontos quânticos fluorescentes feitos de cobre são aplicados no corpo humano através de microagulhas de açúcar, contendo a vacina. As agulhas se dissolvem sob a pele, deixando os pontos quânticos encapsulados. O padrão dos pontos pode ser lido, para identificar qual vacina foi aplicada.

McHugh acrescenta que foi, de fato, procurado pela Fundação Bill & Mellinda Gates, que buscava formas de tornar mais efetivo o controle do histórico de vacinação de crianças. Não seria tão surpreendente, portanto, se a “tatuagem de pontos quânticos” estiver sendo considerada nos planos de Gates para o projeto de identificação digital ID2020, mas o aspecto ético deveria passar por ampla discussão prévia.

Segundo o Biohackinfo, alguns setores religiosos fundamentalistas se opõem à certos procedimentos  invasivos do corpo, mesmo se for para prevenir uma terrível pandemia. No caso de alguns grupos cristãos, esta rejeição se dá por acreditarem que estas novas tecnologias de identificação estariam associadas à chamada “marca de satã”, mencionada na Bíblia.

Enquanto isto, em uma aldeia no interior de Bangladesh, crianças estão sendo vacinadas no projeto da GAVI, e recebendo “certificados digitais” do ID2020. Serão elas precursoras de um “Admirável Mundo Novo”. Será utópica esta sociedade futura, ou distópica como no livro de Aldous Huxley?

Cidadãos norte-americanos estão sendo colocados diante de um dilema shakespeariano: “Tomar ou não tomar a vacina contra o coronavírus, eis a questão”. Mas a verdadeira decisão pode ser colocada de forma objetiva: “O valor da vida é maior que princípios (abstratos ou não) de liberdade, e que seus medos (infundados ou não) de ser constantemente controlado por alguma organização ou governo?” 

Notas do autor:

1. O ativismo da Atlas Network em prol do ultraliberalismo foi assunto de matéria anterior no blogue. 

2. O lobby internacional do tabaco foi abordado em artigo anterior. 

3. As acusações de dominação do mundo através de vacinas, feitas por Ron Paul a Bill Gates, foram também extensivas ao imunologista Anthony Fauci, que faz parte da força tarefa da Casa Branca de combate ao coronavírus, e uma das poucas mentes lúcidas na administração Trump.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo Blogue Chacoalhando.

COVID-19 e Cloroquina: Didier Raoult, quando o passado condena.

O médico chegou a ser afastado por um ano da Sociedade Americana de Microbiologia, pela acusação de ter adulterado resultados de pesquisa.

charge For Better Science
Charge por Leonid Schneider:  For Better Science

O título do artigo evoca algum filme moralista roliudiano antigo, mas é apropriado para se referir ao médico francês. No caso, um passado com acusações de adulteração de resultados de várias pesquisas, em busca do prestígio e de “l’argent” (dinheiro), que acompanha a fama. Raoult também foi acusado de acobertar agressões sexuais ocorridas em seu instituto de pesquisa.

Didier Raoult, 68, é diretor desde 2008, da Unidade de Pesquisa em Doenças Emergentes Infecciosas e Tropicais (URMITE, na sigla em francês), ligada à Faculdade de Medicina da Universidade de Aix-Marseille. Seu laboratório emprega mais de 200 pessoas, incluindo 86 pesquisadores, que publicam cerca de 300 trabalhos por ano, e já produziram mais de 50 patentes, segundo consta em seu perfil na Wikepedia. Este renomado médico está agora no centro da controvérsia sobre o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, no tratamento da COVID-19.

A cloroquina, obtida da casca da árvore da chinchona, e seu derivado, a hidroxicloroquina, em associação com o antibiótico azitromicina, podem ter efeito no combate ao Sars-CoV-2, o novo coronavírus. Esta atuação se dá através da inibição de um processo chamado glicolisação, que é uma transformação química de proteínas na camada mais externa do vírus, a qual participa do processo de infecção. Pesquisadores chineses fizeram cerca de meia dúzia de testes randômicos dos dois produtos, obtendo resultados supostamente1 promissores.

Tendo isto em mente, Didier Raoult  e co-autores, publicaram no início de março, uma pré-impressão2 no International Journal of Antimicrobial Agents, mostrando estudos in vitro (sem pacientes) com a cloroquina e hidroxicloroquina. Com base neste artigo, Raoult recomendou, não apenas pesquisas com humanos, mas, também, o início do uso clínico das drogas.

A história teve mais alguns desenvolvimentos, até se chegar à divulgação pela Fox News, ao tuíte de Trump, e ao desaparecimento da cloroquina das farmácias de todo o mundo. Mas diversas dúvidas foram levantadas sobre falhas na pesquisa realizada por Raoult e seu grupo, por não terem sido adotadas as metodologias necessárias nestes casos, para validação das pesquisas.

Também  foram feitas críticas, de que os autores omitiram resultados do 14o dia da pesquisa , bem como se recusaram a compartilhar dados de interesse adicional, como a efetividade  do tratamento no tempo até a ausência de febre, na normalização da taxa respiratória, na mortalidade e no tempo médio de permanência no hospital.

Didier Raoult defendeu sua pesquisa: “Eu nunca fiz estudos randomizados….O efeito dessa coisa randomizada talvez possa funcionar com pessoas que tenham infarto do miocárdio, mas não faz sentido para doenças infecciosas”. Em um artigo de opinião no Le Monde, ele escreveu que “um médico pode e deve pensar como médico, e não como alguém obcecado com a metodologia”.

No entanto, Françoise Barré-Sinoussi, cientista ganhadora do Prêmio Nobel de 2008, por sua participação na descoberta do vírus da AIDS, declarou ao Le Monde  que é “uma questão de ética, não dar falsas esperanças”. Barré-Sinoussi faz parte de um comitê de doze pesquisadores e médicos que aconselham o governo francês, no que concerne aos tratamentos da COVID-19.  

 No Brasil, mais que um embate entre esquerda e (extrema) direita, a polêmica colocou de um lado, bolsonaristas e seus apoiadores nas mídias sociais, e de outro, “seus inimigos”, que atualmente englobam todos aqueles que defendem que as posições da OMS precisam ser seguidas à risca.

Um exemplo da mídia bolsonarista é o blogue Brasil sem Medo. Artigo do correspondente em Portugal, o “olavista” Brás Oscar, fez a defesa incondicional de Didier Raoult. O artigo relata que Raoult, na defesa do tratamento de coronavírus com a cloroquina, “teve que enfrentar o lobby político da comunidade médica parisiense e a ditadura da metodologia, para salvar a vida de seus pacientes”. 

Mesmo com todos os questionamentos à validade de sua pesquisa, Raoult foi alçado para a fama mundial. Mas, como toda celebridade, ele ficou mais exposto ao holofotes da mídia e ao escrutínio de sua carreira. A vida pregressa do médico foi examinada, e foram levantadas acusações sobre sua conduta anterior, tanto científica como moral.

A matéria que se segue foi em parte obtida do artigo de Leonid Schneider, publicado em seu site For Better Science, em 26 de março.  Schneider se apresenta como um jornalista científico e cartunista (ver charge no começo deste artigo), com formação em biologia celular e molecular.

O artigo de Schneider já havia sido publicado na íntegra, no original em inglês, pelo GGN, em artigo que questionava já no título se Raoult é “gênio ou um embusteiro”. O Chacolhando irá mostrar agora porque o passado pode condenar Raoult. 

A maioria dos leitores pode não estar afinada com o conhecimento científico específico em microbiologia e infectologia, mas certamente entende de tratamento digital de imagens, e saberá reconhecer quando uma imagem foi adulterada com Photoshop ou técnica similar.

O artigo de Leonid Schneider relata diversas fraudes que teriam sido cometidas ao longo dos anos, nos artigos científicos publicados por Raoult e co-autores. Indicações da provável ocorrência de fraudes,  só puderam ser recentemente expostas, através dos esforços de Elisabeth Bik, que examinou a fundo várias publicações anteriores de Raoult. 

Elisabeth Margaretha Bik, PhD, tem especialização em pesquisa de microbiomas, e atua como consultora independente em integridade científica. Em outras palavras, ela é uma “caçadora de cientistas picaretas”. Seu currículo inclui cargos anteriores em diversas instituições científicas, tendo sido por 15 anos “Associada em Pesquisa do Departamento de Microbiologia e Imunologia da Escola de Medicina, da Universidade de Stanford”. Apresentadas as credenciais de Bik, vamos ver os resultados do exame com lupa, a que ela submeteu alguns dos inúmeros trabalhos publicados por Didier Raoult.

Bik encontrou indicações de fraude em um trabalho de 2001, publicado no periódico científico, Infection and ImmunityAs setas delineiam áreas com tonalidade diferente no entorno de células, que sugerem que as mesmas foram copiadas e coladas digitalmente, ou seja, teria sido utilizado o conhecido recurso do Control C Control V, bem conhecido por alunos que não querem fazer direito os trabalhos escolares, e preferem plagiar. Mas, pelo visto, o recurso também é usado por alguns cientistas. 

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Imagens adulteradas indicadas pelas setas:  periódico Infection and Imunity

Bik também levantou suspeitas de alterações de imagens em um trabalho de 2005, publicado no Journal of Clinical Microbiology. A consultora comenta suas críticas no PubPeer, um site da Web que possibilita a discussão pela comunidade científica de artigos já publicados, chamando a atenção para a semelhança de algumas faixas verticais, e que apenas diferem em tonalidade. No caso, as faixas delimitadas por retângulos de mesma cor tiveram a tonalidade alterada, através de um tratamento de imagem.

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Imagens alteradas na tonalidade:  periódico Journal of Clinical Microbiology

Em outro caso, um artigo de 2013 sobre um estudo do efeito de salmonela em ratos, publicado em  PLOS Pathogens, uma faixa de gel foi copiada três vezes (ver retângulos vermelhos). As setas verdes indicam faixas com evidências de manipulações adicionais da imagem, percebidas pelo apurado exame de Elisabeth Bik, que apresentou um comentário crítico no Pubpeer. Um dos co-autores, Stéphane Méresse, se desculpou: “esta imagem jamais deveria ter sido publicada”, mas não explicou como foi possível que o erro  fosse cometido por acidente.

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Adulteração das imagens de faixas de gel: periódico PLOS Pathogens

Em outro artigo em que Raoult é co-autor, publicado em 2016 no American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, percebe-se claramente a alteração de resultados. Nas imagens obtidas por imunofluorescência, para detectar a bactéria borrelia crocidurae, é bem visível a intervenção nas imagens, conforme indicado pelas áreas delineadas com uma mesma cor, revelando uma montagem feita com repetição de imagens. A farsa é tão evidente, que não há como deixar de questionar se o artigo passou pelas mãos de um revisor ou de uma criança de cinco anos.

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Imagens adulteradas: periódico American Journal of Tropical Medicine and Hygiene

Mais recentemente, em artigo publicado no Comparative Immunology, Microbiology and Infectious Diseases, uma imagem obtida pela técnica de western blot 2D, foi levemente escurecida e reutilizada novamente para uma nova bactéria, conforme se observa na comparação das fotografias delimitadas em vermelho. 

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Diferentes bactérias representadas pela mesma imagem em B e E: periódico Comparative Immunology, Microbiology, and Infectious Diseases

Em março de 2012, a revista Science publicou a matéria Sound and Fury in the Microbiology Lab, abordando “as conquistas científicas de Raoult”, em que ele é enaltecido como sendo o microbiologista francês mais produtivo. Entretanto, embutidas neste artigo de celebração, estavam descrições de falta de integridade científica da parte dele. Um dos pesquisadores contactados pela Science revelou que, só sob anonimato, concordaria em falar sobre Raoult, por receio de retaliações, e “ter sua carreira prejudicada pela influência do diretor da URMITE”.

A Science relatou que o revisor de um trabalho sobre tifo, de 2006,  enviado por Raoult ao jornal Infection and Immunity, e publicado pela American Society for Microbiology (ASM), descobriu que “quatro das figuras em um manuscrito revisado eram idênticas à figuras no manuscrito original, embora devessem descrever um experimento diferente”. 

No mês seguinte, a Science publicou uma errata, em que reconhecia que cometera uma falha, e que a crítica se referia a “uma única figura do manuscrito revisado, e não a quatro”.  Raoult se defendeu perante a Science: “Eu não lidei com o artigo, nem mesmo chequei a versão final”. 

Ainda segundo o relato na Science, dois dos co-autores, Christian Capo e Jean-Louis Mège, em cartas a ASM disponibilizadas por Raoult, aceitaram “completa responsabilidade” pelo ocorrido, e alegaram que se tratara de um equívoco inocente. Após consultar sua comissão ética, a ASM baniu todos os cinco autores, incluindo Raoult, de publicarem em seus periódicos por um ano, por “se considerar não satisfeita com as explicações fornecidas: a representação errada de dados … é uma afronta à conduta ética da pesquisa científica”.

Raoult escreveu para a ASM e alegou ter sido “uma vítima colateral de uma sanção coletiva”. Ele apelou do banimento, mas perdeu. “Furioso”, proibiu que membros de seu laboratório submetessem trabalhos para publicação pela ASM, onde ele já publicara 230 artigos. Além disto, cancelou a filiação na American Academy of Microbiology. Mas sua carreira não pareceu ter sido muito abalada pelo ocorrido, segundo o artigo da Science

Mas as críticas a Didier Raoult não se limitam ao campo científico. Em março de 2017, doze membros técnicos da unidade de pesquisa da URMITE, chefiada por Raoult, denunciaram condições de trabalho inaceitáveis, ​​e pediram por mudanças radicais que pusessem fim a uma situação “insuportável e degradante”. O comunicado foi feito pela FERC, a Seção Sindical de Educação, Pesquisa e Cultura da Confederação Geral do Trabalho. Também foi mencionado que denúncias de assédio sexual estavam sob investigação.

As denúncias de assédio e agressão sexual foram expostas, ainda em 2017, em artigo publicado no Marsactu, um jornal investigativo de Masseille, de propriedade de seus sete jornalistas. Foi revelado que uma das vítimas relatou que sofrera assédio sexual ao longo de sete anos, que consistiu de “observações com conotações sexuais, piadas de natureza sexual e observações sexistas”.

Outras quatro mulheres, que alegaram ter sido vítimas de atos de assédio sexual, também relataram “assédio moral, na forma de repetidas críticas a sua atividade, insultos e pressões, inclusive diante de colegas”, relatou o Marsactu. Como resultado das denúncias, um diretor de pesquisa foi demitido do serviço público, pelo comitê disciplinar do CNRS, o Centro Nacional de Pesquisa Científica. 

A CGT declarou que o diretor da URMITE não comunicou a seus superiores, por dois anos, os atos de assédio, e que ele pretendia demitir uma das vítimas. Uma estudante de pós-graduação teria sido ameaçada de não completar sua tese, caso fizesse denúncias, ainda segundo o Marsactu.

O médico negou as acusações contra si, bem como qualquer responsabilidade nos casos de assédio, alegando que a vítima tinha o “dever” de ter comunicado de imediato os casos de assédio. Ainda segundo Raoult, os fatos descritos não ocorreram dentro seu Instituto, mas “em uma ala distante da faculdade de medicina”. 

As acusações contra Didier Raoult são muito graves, e comprometem fortemente sua imagem, não apenas como um pesquisador íntegro, mas também em questões morais. Durante anos, pequenas fraudes que teriam sido cometidas nos artigos científicos puderam passar razoavelmente despercebidas. Então, quando ele se colocou sob o holofote da mídia, Elisabeth Bik entrou no jogo, revelando os truques de Raoult com as cartas.

Isto não quer dizer que a cloroquina, e seu derivado hidroxicloroquina, não possam vir a ter a efetividade comprovada no combate à COVID-19 em casos específicos, e sob estrito acompanhamento médico, devido aos efeitos colaterais. As pesquisas em andamento em vários laboratórios, adotando as metodologias requeridas, irão trazer a resposta em alguns dias.

Se tudo não tiver passado de um blefe, a aposta alta poderá significar o fim da carreira de Didier Raoult. Mas se os testes recomendarem o uso destes produtos, todos os pecados anteriores serão perdoados.  

Notas do autor:

1. Trabalho publicado por pesquisadores de três universidades do Reino Unido, na plataforma Zenodo, contestou as afirmações contidas no trabalho original de Raoult e co-atores, publicado no International Journal of Antimicrobial Agents, de que ocorreram resultados positivos na experiência clínica inicial, conduzida com pacientes chineses acometidos pela COVID-19, que foram tratados com a cloroquina.

2. A pré-impressão digitalizada de um trabalho científico dispensa a aprovação prévia formal por um grupo especializado de revisores, possibilitando a rápida troca de informações entre os cientistas, necessária em casos de epidemias.

O autor é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo Blogue Chacoalhando.

COVID-19: Estados Unidos aprovam métodos de desinfecção de máscaras N95 usadas. E a Anvisa?

Com Trump abocanhando as encomendas de EPIs vindas da China, Mandetta precisará adotar rapidamente a descontaminação de máscaras N95 para preservar os estoques. Resta decidir o método.

polícia usando máscaras na epidemia de 1918 time life pictures getty images
Polícia de Seattle durante a pandemia de influenza em  1918  | Foto: Time Life Pictures / Getty Images

Com o aumento da pandemia causada pelo coronavírus, a administração Trump exigiu no início de abril, através da Agência Federal de Manejo de Emergências (FEMA), que a 3M pare de exportar máscaras N95 produzidas no país para o Canadá e América Latina. Fazendo uso da Lei de Defesa da Produção, o presidente também determinou que a 3M priorizasse a exportação para os Estados Unidos, das máscaras N95 produzidas pela empresa em outros países, em particular na China. 

Em um comunicado emitido, a empresa declara que já vem colaborando para atender às encomendas do governo norte-americano, e que conseguiu a aprovação da China para a exportação de 10 milhões de máscaras. Ressalta também que implicações humanitárias significativas resultariam da interrupção dos fornecimentos de máscaras ao Canadá e América latina, e que retaliações já estão ocorrendo. Mas, a 3M indica se curvar aos desígnios de Trump, ao declarar que “anseia trabalhar em proximidade com a Administração, para implementar as determinações da Lei de Defesa da Produção”.

Desta forma, Trump conseguiu que equipamentos de proteção individual (EPIs), já adquiridos e pagos por vários países, incluindo Canadá, Alemanha e Brasil fossem desviados para os EUA. Em outros casos, os Estados Unidos ofereceram preços mais altos para garantir os fornecimentos, conforme reclamação dos franceses, relatou o The Guardian.

Para a China ter favorecido seu rival na disputa da hegemonia econômica global, deve existir provavelmente um preço que Trump precisará pagar, no momento devido. Que o Brasil tenha sido preterido, podemos colocar na conta de Eduardo Bolsonaro e alguns  membros da trupe bolsonarista, que se comportam como anencéfalos. Neste grupo, inclui-se o ministro da educação, Abraham Weintraub, a quem lamentavelmente estão subordinados os Hospitais Universitários federais.

Não adianta agora espernear, e sim, partir para encontrar soluções que possam garantir as necessidades dos profissionais de saúde no Brasil, conforme os estoques de máscaras N95 e similares estão praticamente esgotados. As soluções dificilmente virão das hostes bolsonaristas.

Em 27 de março, antes mesmo do “sequestro” pelos EUA, das encomendas já pagas, e do banimento das exportações oriundas deste país, o governador Dória já havia se dado conta da importância estratégica de garantir um estoque de EPIs para os hospitais de São Paulo e, simplesmente requisitou “na marra”, os estoques de máscaras da 3M da fábrica em Campinas.

O Ministro da Saúde do Brasil se encontra agora na situação de precisar garantir o fornecimento das máscaras do tipo N95 (ou equivalentes),  usadas pelo pessoal da saúde. Estas máscaras garantem  eficiência de filtração mínima de 95% das partículas maiores que 300 nanômetros1. A explicação para esta eficiência é que, mesmo com o vírus do SARS-CoV-2 tendo um tamanho que varia de 80 a 120 nanometros, ele “viaja” em partículas de tamanho acima de 600 nm, provenientes do trato respiratório dos pacientes. 

De fato, os relatos são de que  as máscaras N95 tem oferecido segurança aos profissionais de saúde que vêm atuando em procedimentos com risco de geração de aerossóis, durante o atendimento de pacientes suspeitos ou confirmados de infecção pelo novo coronavírus. 

médico com máscara n95
Máscara recomendada para proteção dos profissionais de saúde contra o coronavírus  |  Foto: Reprodução

Uma possibilidade para suprir a atual carência de máscaras é que a indústria nacional se engaje na produção em massa do “genérico” da máscara N95 ou de seus equivalentes (a FFP2 européia, DS japonesa, P2 australiana, ou Korea 1st class), o que não deve representar nenhuma dificuldade tecnológica. Se for necessário quebrar uma patente, que se faça isto.

Por outro lado, é preciso estender a duração dos atuais estoques. O ministro se deu conta que é imprescindível adotar procedimentos de esterilização das máscaras N95, para que as mesmas possam ser reutilizadas por um período maior, com mínimo risco para o profissional de saúde. O blogue Chacoalhando já havia alertado para esta necessidade desde o dia 24 de março, em artigo que tratou da desinfecção de máscaras com uso de luz ultravioleta, e que foi republicado pelo GGN.

Na ocasião da publicação, a Sociedade Brasileira de Infectologia, e outros agentes relevantes, foram diretamente alertados da necessidade de ser implementada a técnica de desinfecção das máscaras com uso da  luz ultravioleta, que fora recentemente aprovada em testes realizados pelo Centro Médico da Universidade de Nebraska.

O ministro precisa agir de imediato, em face do agravamento da situação. Para tanto será necessário que a Anvisa altere com presteza os procedimentos que estabeleceu para a reutilização de máscaras (que serão apresentados neste artigo), e que não incluem a desinfecção.

A Anvisa, embora esteja vinculada ao Ministério da Saúde, tem seu diretor-presidente indicado pelo presidente da República. Encontra-se à frente da instituição, o médico e contra-almirante Antonio Barra Torres, um bolsonarista de carteirinha. Trata-se da mesma pessoa que estava ao lado de Bolsonaro, quando este, supostamente infectado com o coronavírus, foi cumprimentar (e contaminar?) seus admiradores na porta do Palácio Alvorada.

Resta saber se Torres vai colaborar ou boicotar a iniciativa do ministro Mandetta. Bolsonaro, com fins inconfessáveis, vem investindo na política do caos, do quanto pior melhor, e não seria surpresa se fossem colocados empecilhos à rápida implementação dos procedimentos de desinfecção.

Se isto acontecer, Torres precisará ser afastado, mesmo que à revelia de Bolsonaro, para que Mandetta possa escolher alguém com quem possa ter uma relação de trabalho proveitosa a frente da Anvisa. Ou então, que os governadores de Estado determinem que os hospitais que dispõem de condições para realizar os procedimentos necessários de desinfecção, sigam os protocolos adotados no exterior, mesmo em desobediência à agência reguladora nacional. Isto deve necessariamente incluir também os Hospitais Universitários federais, também à revelia de Weintraub, se preciso for.

A desobediência civil é necessária quando há vidas em jogo. Os administradores do Centro Médico da Universidade de Nebraska, que desenvolveram o protocolo para uso da radiação UV na esterilização de máscaras, estavam na ocasião dispostos a desafiar as normas vigentes, para implementar o procedimento, segundo artigo no New York Times. 

Isto não foi no entanto necessário, pois o CDC, Centros de Prevenção e Controle de Doenças  dos Estados Unidos, considerou a situação emergencial, e aceitou o uso dos métodos mais promissores para a descontaminação das EPIs, que são a irradiação UV germicida, o vapor de peróxido de hidrogênio e o calor úmido.  O documento do CDC apresenta alguns detalhes técnicos de diversas metodologias de desinfecção.

A reutilização de máscaras N95 sem desinfecção prévia. Em 31 de março, a Anvisa atualizou a Nota Técnica GVIMS/GGTES/ANVISA Nº 04/2020, com orientações aos serviços de saúde das medidas de prevenção e controle, para lidar com a pandemia causada pelo  SARS-CoV-2, o novo coronavírus.

“Se as máscaras forem usadas por período maior ou por um número de vezes maior que o previsto pelo fabricante, elas podem não cumprir os requisitos para os quais foram certificados”. Apesar desta especificação do fabricante, a Anvisa determinou que, “com o aumento da demanda causada pela emergência de saúde pública da COVID-19, as máscaras de proteção respiratória (N95 ou equivalente) poderão, excepcionalmente, ser usadas por período maior, ou por um número de vezes maior que o previsto pelo fabricante, desde que sejam utilizadas pelo mesmo profissional e que sejam seguidas, minimamente algumas recomendações”.

“Com objetivo de minimizar a contaminação da máscara N95, se houver disponibilidade, o profissional de saúde deve utilizar um protetor facial (face shield), pois este equipamento protegerá a máscara, do contato com as gotículas expelidas pelo paciente.” Foi ainda recomendado pela Anvisa, que “o profissional de saúde não use uma máscara cirúrgica sobreposta à máscara N95, pois além de não garantir proteção de filtração ou de contaminação, pode também levar ao desperdício de mais um EPI”.

Em 26 de março, a vigilância sanitária do Distrito Federal emitiu uma nota, em que também tratou de recomendações para reutilização das máscaras N95. Diferentemente da Anvisa, o órgão do DF não opôs restrição ao uso de uma máscara cirúrgica sobre a máscara N95, como alternativa ao uso de um protetor facial.

A Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia se manifestou sobre a questão da reutilização das máscaras, em face da escassez de EPIs. A recomendação é que os profissionais da área da saúde em contato com pacientes com diagnóstico firmado de COVID-19, ou casos suspeitos, utilizem as máscaras N95 com uma máscara cirúrgica sobreposta à mesma, sendo esta de uso único.

A SBPT acrescentou ainda, que a N95 pode ser reutilizada por no máximo 15 dias, desde que esteja em bom estado de conservação. Ressalta, no entanto, que “esta sugestão baseia-se apenas na opinião de especialistas, carecendo ainda de comprovação por estudos científicos adequados”.

Ao contrário do uso do protetor facial, parece não haver consenso sobre se a utilização de uma segunda máscara, sobreposta a N95, traria algum benefício. Entretanto, nenhuma destas instituições garantiu que o profissional não será infectado, mesmo fazendo uso de uma dupla proteção, caso reutilize sua máscara N95 diversas vezes.

A reutilização de máscaras N95 com desinfecção prévia. Nos Estados Unidos, dois procedimentos de desinfecção já estão sendo utilizados, e serão apresentados a seguir. O ministro Mandetta precisará provavelmente optar por um destes dois métodos, se for adiante com a implementação desta medida, que ajuda a prolongar a duração do estoque, ao mesmo tempo que concede uma segurança maior ao profissional de saúde.

Uso de radiação ultravioleta. Um protocolo para uso da luz UV na esterilização de máscaras foi desenvolvido pelo Centro Médico da Universidade de Nebraska, conforme relatado em artigo anterior do Blogue, e já atraiu o interesse de outras entidades de saúde norte-americanas.

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Uso de luz UV na desinfecção de produtos hospitalares, Centro Médico da Universidade de Nebraska  | Créditos: Calla Kessler  / The New York Times

Como já foi mencionado no atual artigo, o uso da técnica de descontaminação de máscaras usando UV foi aprovado pelo Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC). O dr. John Lowe, que estabeleceu o protocolo de desinfecção, pode ser visto neste vídeo do Youtube. O método poderia ser facilmente utilizado no Brasil, pois diversas unidades de saúde no país já utilizam esta metodologia para outras aplicações de desinfecção.

A equipe da Universidade de Nebraska declarou que ficou satisfeita com os resultados obtidos, no que diz respeito a diversas reaplicações da radiação UV. A pesquisa  teve prosseguimento, para se determinar o número máximo de ciclos de descontaminação possível, sem causar danos às máscaras.

Uso de vapor de peróxido de hidrogênio. Em 29 de março, o Battelle Memorial Institute, Columbus, Ohio, recebeu autorização emergencial da FDA, Food and Drug Administration, para adotar a metodologia de esterilização de máscaras N95 contaminadas pelo SARS-CoV-2, usando vapor de peróxido de hidrogênio. Quando em solução aquosa, o produto é conhecido popularmente como água oxigenada.

Este procedimento de desinfecção de máscaras contaminadas por microorganismos já vinha sendo adotado pelo Battelle, desde 2016. Em 2015, o Instituto realizou um estudo encomendado pela FDA, para verificar a possibilidade de descontaminação de máscaras N95 (ou similares) para reutilização, no “evento de falta do produto em face de uma pandemia”. Como agente patógeno, foram utilizados no estudo, esporos de geobacillus stearothermophilus.

O Relatório Final mostrou que, mesmo após a realização de 20 ciclos de descontaminação, as máscaras mantiveram 99% de efetividade na filtração do agente patógeno testado, sem causar degradação da tiras elásticas. Após 30 ciclos, conforme consta no relatório, as tiras das máscaras ficaram danificadas.

Recentemente, a técnica foi testada para o novo coronavírus, os resultados revelando que o “Sistema de Descontaminação de Cuidado Crítico (CCDS)”  foi efetivo na desinfecção da N95, mantendo a integridade da máscara por até 20 ciclos. A câmara pode receber até 5.000 máscaras por vez, num total de 80.000 por dia.  Máscaras contendo fluidos (sangue) do paciente não podem ser reaproveitadas.

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Câmara de descontaminação por vapor de peróxido de hidrogênio | Foto: cortesia Battelle Memorial Institute 

É também mencionado na instrução anterior do Instituto, que “organizações externas” indicaram que outros métodos de desinfecção, como calor úmido, vapor gerado por micro-ondas, e irradiação ultravioleta germicida podem danificar as máscaras. Esta informação não coincide, no entanto, com as recomendações do CDC, nem com os resultados obtidos pela equipe do Centro Médico da Universidade de Nebraska, mesmo que a técnica usando UV não possa ser reaplicada por 20 ciclos.

Na ficha técnica dedicada ao pessoal da saúde, emitida pelo Battelle Memorial Institute, e divulgada pela FDA, está mencionado que “as máscaras reutilizadas podem não ter sido efetivamente descontaminadas do SARS-CoV-2 ou outros patógenos”, o que pode representar uma forma de proteger o Instituto e a FDA, contra eventuais processos judiciais.

Na carta encaminhada pela FDA ao Battelle, é explicitado que o sistema de descontaminação não poderá ser distribuído a terceiros, o que pode implicar que os administradores estão proibidos de colaborar com outros países no detalhamento de protocolos. Entretanto, um certo volume de informações está disponível pela internet, como nos linques incluídos neste artigo.

Cabe ao ministro Mandetta analisar qual das duas metodologias de desinfecção pode ser adotada no país, ou se ambas, e solicitar que a Anvisa estabeleça com a maior brevidade os protocolos para os procedimentos. É provável que os administradores do Centro Médico da Universidade de Nebraska estejam mais abertos a estabelecer vínculos de cooperação, que os do Battelle Memorial Institute, considerando-se as restrições impostas pela FDA.

Notas do autor:

1. Como referência, 1.000 nanômetros equivalem 1 milésimo de milímetro.

2. O conceito de Segurança Nacional precisará ser urgentemente reformulado quando esta crise passar. Uma nação não pode ser colocada de joelhos pela falta de insumos básicos para enfrentar crises mundiais de saúde, que deverão ficar mais frequentes no futuro. Uma comissão de especialistas de vários setores deveria ser convocada, para analisar em que áreas o país deve ser auto-suficiente, mesmo que inserido em uma economia globalizada.

3. A 3M emitiu um comunicado sobre a desinfecção de máscaras N95 (respiradores), em que desaconselhou diversos métodos, após realizar seus próprios estudos. A empresa salientou que “não pode ficar comprometido o desempenho de filtração do respirador ou sua capacidade de vedação ao rosto do usuário”. 

O autor é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo Blogue Chacoalhando.