Pfizer: Verdades e mentiras da vacinação infantil contra a Covid-19  

Por Ruben Rosenthal

A principal verdade é que pais e mães precisam estar bem informados para melhor poderem decidir se querem ou não que seus filhos sejam vacinados contra a Covid-19.

Anistia Internacional lucro das farmacêuticas com a vacina da Covid-19 C
Denúncia dos lucros com as vacinas contra a Covid-19. Anistia Internacional.

 A politização da vacinação infantil contra a Covid-19 teve mais um capítulo, desta vez envolvendo membros do Ministério Público. O caso teve início quando 5 defensores públicos de Goiás encaminharam recomendação ao Ministério da Saúde para divulgar que a vacina da Pfizer ainda se encontra na fase experimental, e que pode causar miocardite e periocardite nas crianças.

De fato, a própria Pfizer, através da Wyeth, relata na bula direcionada a pacientes a ocorrência de “casos muito raros de miocardite e periocardite após a vacinação com a Comirnaty”. O documento menciona ainda que o paciente deve ficar alerta após a vacinação para “falta de ar, palpitações e dores no peito”, e que, em caso de manifestação destes sintomas, é necessário atendimento médico. São também apresentadas outras precauções a serem consideradas em relação à vacinação.

O posicionamento dos cinco defensores públicos foi rebatido em nota da Defensoria Nacional e 13 Defensorias Regionais de Direitos Humanos da Defensoria Pública da União. Diz a nota que a vacina da Pfizer já tem registro definitivo e que todas as recomendações necessárias já foram indicadas pela ANVISA.

A nota da DN e DRDH/DPU vai mais além, ao declarar que pelo Estatuto da Criança e do Adolescente “é obrigatória a vacinação de crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias”, e que, portanto, a imunização de crianças na faixa de 5 a 11 anos contra a Covid-19 deve ser compulsória.

O confronto de posições dentro do Ministério Público reflete a polarização mais ampla na sociedade entre negacionistas da vacina e mesmo da própria existência de uma pandemia mortal, e amplos setores que, em nome da ciência, defendem vacinação irrestrita da população. Mas a ciência não oferece uma única resposta sobre a vacinação infantil.

Consta no site do Colégio Real de Pediatria e Saúde da Criança (RCPCH, na sigla em inglês) do Reino Unido: “o Comitê Conjunto em Vacinação e Imunização recomenda que recebam a vacina da Pfizer apenas as crianças na faixa de 5 a 11 anos que tenham elevado risco clínico, ou que tenham contato em suas casas com familiares que sejam imunossuprimidos”.  A vacinação de crianças dessa faixa etária, que não estejam nos grupos acima mencionados, está ainda pendente de decisão futura.

No mesmo documento estão especificadas quais são as situações de alto risco clínico em crianças de 5 a 15 anos, que as tornam alvos prioritários da campanha de vacinação infantil contra a Covid-19 no Reino Unido: doenças respiratórias crônicas, problema renal crônico, problema no fígado ou no sistema digestivo, doença neurológica crônica, desordens endócrinas, imunossupressão por doença ou tratamento, asplenia ou disfunção do baço, anormalidades genéticas sérias que afetem outros sistemas, e gravidez.

A decisão do Comitê do Reino Unido está em linha com a visão do Centro Europeu para Prevenção e Controle de Doenças (ECDC, na sigla em inglês), que, em manifestação de 1 de dezembro de 2021, relatou que foram raros os casos severos de Covid-19 em crianças na faixa de 5 a 11 anos durante o período de prevalência da variante Delta: 0,61% dos casos  demandaram internação, sendo 0,06% em unidades de tratamento intensivo/apoio respiratório.

Segundo o ECDC, a maior parte (78%) das crianças que necessitaram de internações não se enquadravam, no entanto, em situação prévia de elevado risco clínico. No Brasil morreram de Covid, até momento, 324 crianças na faixa de idade de 5 a 11 anos, mas não está acessível a informação de quantas delas estavam em situação de comorbidade.

É possível que outros países estejam adotando procedimentos semelhantes aos do Reino Unido. Na Austrália, onde a vacinação de crianças na faixa de 5 a 11 é voluntária, os responsáveis pela criança devem assinar um termo de consentimento.

Neste termo consta um formulário com 7 perguntas a serem respondidas. Caso pelo menos uma das respostas for SIM, a criança ainda assim poderá receber a vacina, mas antes deverá ser atendida por um especialista em imunização ou cardiologista. Este determinará as precauções necessárias e o momento adequado para a vacinação.

formulário de consentimento AUS
Formulário de consentimento para vacinação contra a Covid-19 de crianças de 5-11 anos, autoridade sanitária da Austrália.

O fato do setor de vacinação e imunização do Reino Unido ter optado por vacinar contra a Covid-19 apenas as crianças de 5 a 11 anos que se enquadrarem nas condições especificadas acima, não significa que a ANVISA esteja equivocada em sua decisão de aprovar a vacinação irrestrita. A instituição brasileira possui um quadro técnico extremamente qualificado e não precisa ficar a reboque da decisão de outros países.

Mas o que não deveria acontecer é a desinformação ou omissão de informações com o intuito de se “fabricar o consenso”. Os documentos emitidos pela ANVISA e pela Pfizer não alcançam a maioria da população, já que a mídia não está cumprindo o seu papel. A principal verdade é que pais e mães precisam estar bem informados para melhor poderem decidir se querem ou não que seus filhos sejam vacinados contra a Covid-19.

A mídia também falha ao não mostrar como a ganância das grandes farmacêuticas (Big Pharma) atropela a Ciência.

Pfizer, quando o passado condena

Em 2016, a organização Médicos Sem Fronteiras denunciou que a Pfizer fez uma campanha publicitária enganosa em Londres, para tentar influenciar os parlamentares britânicos de que os investimentos necessários em pesquisa e desenvolvimento para se produzir um novo medicamento alcançavam a cifra de 1 bilhão de libras esterlinas (atualmente equivalente a 7,6 bilhões de reais). Segundo o MSF o objetivo real da campanha era o de justificar os elevados preços dos medicamentos.

Más práticas nos testes da vacina da Pfizer

Os testes para verificar a eficácia e a segurança da vacina contra a Covid-19 produzida pela Pfizer foram conduzidos por uma contratada que cometeu  várias irregularidades no decorrer da pesquisa, segundo artigo publicado no British Medical Journal, em 2 de novembro de 2021.

A empresa Ventavia Research Group, que fora contratada pela Pfizer para conduzir os testes da vacina contra a Covid-19, teria cometido diversas irregularidades nos procedimentos adotados, que podem ter comprometido a integridade dos dados obtidos. Dentre estas se incluem desvios do protocolo, armazenamento das vacinas em temperaturas impróprias e erros na rotulagem das amostras.

Segundo a ex-diretora regional da Ventavia, Brook Jackson, a empresa falsificou dados, expôs a identidade de pacientes em testes que requerem anonimato, e contratou  pessoal sem qualificação para aplicar as vacinas. A então diretora enviou um e.mail à FDA em 25 de setembro de 2020, para avisar das práticas indevidas cometidas pela Ventavia. Brook Jackson foi demitida no mesmo dia em que fez a denúncia.

Em 10 de dezembro de 2020, a Pfizer encaminhou a solicitação de uso emergencial de sua vacina (para adultos) ao comitê da FDA, sem mencionar as falhas da Ventavia.  A farmacêutica voltou a contratar a Ventavia para testar as vacinas da Covid-19 para crianças, jovens adultos e mulheres grávidas.

Facebook blinda Pfizer de críticas

Em novembro de 2021 os editores do British Medical Journal enviaram uma carta aberta a Mark Zuckerberg, do Facebook, protestando que o artigo contendo o artigo contendo a denúncia sobre a Ventavia estava sendo tratado como Fake News pela agência terceirizada Lead Stories, que presta serviços ao Facebook. Desta forma o compartilhamento do artigo foi dificultado, o que na prática protegeu a Pfizer de críticas.

Sars-CoV-2, um vírus que veio para ficar

Enquanto a variante ômicron se espalha pelo mundo, foi detectada no sul da França uma nova variante do coronavírus, que foi denominada de IHU. A provável origem teria sido no Camarões, na África Central. No continente africano apenas 6,6% da população havia sido vacinada até o final de novembro de 2021.

Segundo declarou a BBC News,  Ayoade Olatunbosun-Alakija, porta-voz da Aliança Africana para a Distribuição de Vacinas, o “surgimento da variante (ômicron) foi inevitável. Isso ocorreu devido à falta de vacinação e ao acúmulo de vacinas pelos países desenvolvidos”.

Assim, parece que estamos fadados a conviver com por um longo tempo com novas cepas da Covid-19. Mesmo sendo mais fracas em comparação com a Delta, elas poderão continuar a causar mortes, problemas de saúde e afastamento do trabalho, afetando assim a economia de diversos países.

Enquanto isso, BIG Pharma continuará a auferir lucros com as vacinas e medicamentos contra a Covid-19. A empresa Pfizer lucrou 36 bilhões de dólares em 2021, apenas com sua vacina para a Covid-19. E poderá vir a superar este valor em 2022.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Glenn Greenwald no Agenda Mundo: As tretas na esquerda dos Estados Unidos 

Glenn: Google e Facebook podem controlar o nosso discurso político? Eu não confio em qualquer instituição humana controlando o discurso político

entrevista Glenn PNG

No primeiro programa do Agenda Mundo, na TV GGN, o jornalista Glenn Greenwald foi entrevistado pelo apresentador, Ruben Rosenthal. Glenn ganhou o Prêmio Pulitzer de 2014, pelo papel que desempenhou na divulgação dos programas de vigilância secreta conduzidos pela NSA, a Agência de Segurança Nacional norte-americana.  Aqui no Brasil, ele foi peça-chave na divulgação dos documentos da Vazajato.

A seguir são apresentados de forma resumida os temas tratados na instigante entrevista, que pode ser assistida aqui, na íntegra, a partir das 20 horas do dia 2 de novembro.

O foco da conversa foi nas brigas que estão chacoalhando o chamado campo progressista norte-americano. Em tese, pode-se dizer que este campo corresponde à esquerda não marxista norte-americana. Na prática, as posições de esquerda de boa parte dos progressistas ocorrem só nas mídias sociais, mas suas atuações parecem favorecer mais as grandes corporações do que as causas populares.

– Agenda Mundo: Uma polêmica desgastante no campo progressista, que começou pouco após a vitória eleitoral dos democratas em 2020, foi a questão do projeto de lei visando introduzir o equivalente a um sistema único de saúde, o Medicare for All – Cuidados Médicos para Todos. Esta polêmica foi descrita em detalhes em artigos anteriores (aqui e aqui).

Entretanto, os autores do projeto do sistema único de saúde (o senador Bernie Sanders e a deputada Pramila Jayapal) não colocavam o projeto em votação. O recuo talvez fosse para não bater de frente com as lideranças do Partido Democrata (PD), que se elegeram com verbas das grandes corporações, inclusive do sistema privado de saúde.

Então o comediante e YouTuber Jimmy Dore propôs que os congressistas ditos progressistas só apoiassem o reencaminhamento da congressista Democrata Nancy Pelosi à liderança da Câmara, se ela levasse o projeto ao plenário, mesmo que a vitória não fosse garantida. Só que as principais vozes progressistas se recusaram, como foi o caso da deputada Alexandria Ocasio-Cortez, conhecida como AOC, que pertence ao chamado Esquadrão Progressista. Jimmy Dore acusou então os progressistas de traírem as causas que eles defendiam antes das eleições do ano passado.

Glenn, qual é a sua avaliação sobre o recuo dos progressistas, neste caso do Cuidados Médicos para Todos?

– Glenn: O contexto político é muito importante para entender o que está acontecendo nos democratas. Com o resultado das eleições de 2020, os progressistas passaram a ser o fiel da balança para dar maioria ao PD nas votações.

Para Jimmy Dore e alguns outros na esquerda, este poder deveria ser usado para receber algo em troca, de forma a conseguir aprovar projetos que atendam aspirações dos movimentos de base, como o sistema público de saúde. E, para tanto, o establishment do PD deveria ser tratado como um inimigo a ser desafiado.

No entanto, Bernie Sanders – que sempre teve simpatia por Joe Biden – e os membros do Esquadrão, optaram por considerar o PD como um aliado, e resolveram não pleitear nada em troca do apoio a Nancy Pelosi.

– Agenda Mundo: O Esquadrão Progressista consiste atualmente de 6 congressistas: Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), Ilhan Omar,  Rachida Tlaib, Ayanna Presley, Cori Bush e Jamaal Bowman.

O Jamaal escreveu no Twitter que o general Colin Powell, recém-falecido, foi uma inspiração para ele. O general esteve associado a vários episódios em sua carreira que podem ser caracterizados como crimes de guerra. A Ilhan Omar declarou que é fã da Margareth Tatcher,  que atacou os direitos trabalhistas, e fez cortes nos programas sociais no Reino Unido. E, além disso, cometeu crimes de guerra nas Malvinas e na Irlanda do Norte.

Glenn, você acha que essas declarações do Jamaal e da Ilham podem ser compatíveis com alguém que se diga progressista?

– Glenn: Muitas vezes as pessoas presumem que ser membro do Esquadrão significa estar bem à esquerda do espectro político, o que não corresponde à realidade.

Por questões eleitorais, Jamaal Bowman e AOC se posicionaram a favor de mais verbas norte-americanas para Israel aumentar sua proteção com o escudo antimísseis, ao passo que os outros quatro membros foram contrários, revelando uma divisão no grupo.

– Agenda Mundo: Glenn, vamos ver outras tretas no campo progressista.

Os jornalistas Cenk Uygur e Ana Kasparian apresentam no YouTube o programa Os Jovens Turcos (traduzido de The Young Turks), considerado liberal e progressista. Em um programa no mês de maio deste ano, Ana acusou o jornalista Aaron Maté de estar a serviço de ditadores desprezíveis, uma referência a Putin e Assad. Ana acusou Maté de negar que crianças sírias foram mortas com ataques químicos.

Aaron Maté é um jovem jornalista que contribuiu para expor a farsa que fora montada dentro da OPAQ, a Organização para Prevenção de Armas Químicas, para incriminar o governo Assad (ver artigo aqui). Maté também ajudou a expor outra farsa, que foi o caso que ficou conhecido   como Russiagate, em que Putin foi acusado de conluio com Donald Trump, para prejudicar Hillary Clinton nas eleições presidenciais de 2016.

Jimmy Dore se mostrou solidário com Aaron Maté.  E isto deu origem à outra treta, poucos dias depois. Ana Kasparian acusou Jimmy de ter cometido assédio sexual, quando eles trabalharam juntos, 10 anos antes.

Em seguida Os Jovens Turcos abriram chumbo grosso contra você, Glenn, por causa do artigo em que você comenta as táticas sujas que passaram a ser usadas para desqualificar adversários de políticos do establishment do PD. Você pode comentar sobre estas questões, Glenn?

– Glenn: O conflito parece muito pessoal, mas tem mais a ver com o debate sobre o relacionamento entre a esquerda e o Partido Democrata. Os Jovens Turcos querem ficar próximos ao PD, e recebem financiamentos de bilionários associados ao Partido. Então eles acusam os críticos do PD de serem agentes da Rússia, e para tanto, fazem uso de teorias da conspiração.

O que provocou o meu envolvimento direto foi que a Ana Kasparian já havia ameaçado o Jimmy de trazer a questão do assédio sexual, quando ele fez críticas pesadas aos Jovens Turcos. Uma acusação de assédio sexual não pode ser explorada como uma ferramenta contra o inimigo político.

– Agenda Mundo: O Cenk Uygur, que tem origem turca, escolheu para o seu programa dito progressista, o mesmo nome do grupo de jovens oficiais que assumiram o poder na Turquia através de um golpe, em 1913. E que são considerados responsáveis pelo genocídio de centenas de milhares de armênios. Você poderia comentar, Glenn?

– Glenn: É realmente bem estranho, mais do que uma coincidência, como eles alegam. É como se fosse criado um programa no Youtube com o nome de Juventude de Hitler, mas alegar que não tem nada a ver com nazismo.

– Agenda Mundo: Mudando um pouco o foco, o Facebook passou a considerar jornalistas como “figuras públicas involuntárias”, desta forma blindando eles contra críticas. Glenn, esta proteção se aplicaria apenas a quem trabalha na mídia tradicional?

– Glenn: Muitos jornalistas corporativos, como do The New York Times e de O Globo defendem que os jornalistas não possam ser criticados, para que não se perca a confiança na mídia. O Facebook foi muito pressionado pela grande mídia para adotar esta política. Para mim isso é uma loucura. É necessário que as grandes corporações de mídia possam ser criticadas, pois elas têm grande influência na nossa sociedade.

– Agenda Mundo: Aproveitando que estamos tratando do Facebook, você recebeu críticas por ter se colocado contra qualquer censura on line. Este tema se tornou especialmente sensível aqui no Brasil, após a declaração do Bolsonaro, associando vacina contra Covid-19 e AIDS. Que mecanismos você defende, em uma situação como essa?

– Glenn: Qualquer pessoa decente sabe que o vídeo que o Bolsonaro fez é uma maldade. Para mim, a questão é quem vai controlar o que podemos ou não falar. Quem vai definir o que falso, o que é discurso de ódio?

A pergunta crucial é em quais instituições você confia para decidir o que é verdade ou falso? Google e Facebook podem controlar o nosso discurso político? O governo do Bolsonaro? Eu não confio em qualquer instituição humana controlando o discurso político.

– Agenda Mundo: Concluindo então a nossa entrevista. Como você vê a possibilidade da extrema direita Republicana vencer as eleições de 2022 para o Congresso, e retomar a Casa Branca em 2024? Você vê Donald Trump passando o bastão para algum extremista mais competente que ele?

– Glenn: Os EUA têm muita estabilidade. São muitas facções poderosas, que sempre vão proteger o capitalismo, o militarismo e o corporativismo. Não acredito que Trump, ou qualquer outro candidato republicano possa derrubar o sistema democrático.

O risco não é zero, mas está sendo muito exagerado pelo Partido Democrata, porque eles não têm um programa para melhorar a vida das pessoas. Então eles estão usando a tática de infligir o medo de que Trump possa acabar com a democracia.

– Agenda Mundo: Glenn, a nossa audiência deve ter aproveitado bastante as suas análises. Agradecemos a sua presença, e esperamos recebê-lo novamente no programa.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Presidente Lula: interceda pelo defensor de direitos humanos no Reino Unido

Por Ruben Rosenthal

Ativista de direitos humanos e pela independência da Escócia, o ex-embaixador Craig Murray foi condenado a 8 meses de prisão.
Ex-embaixador Craig Murray foi encarcerado em 29 de julho, condenado a 8 meses de prisão. Foto: Guy Smallman/Getty Images

Presidente Lula, o ex-embaixador britânico e ativista de direitos humanos Craig Murray foi sentenciado a 8 meses de encarceramento pela Alta Corte do Judiciário da Escócia, tendo sido negada a possibilidade de que aguarde em liberdade pelo julgamento do recurso feito à Corte Suprema do Reino Unido.

Ele precisa agora da solidariedade ativa daqueles cuja voz possa ser ouvida em Edimburgo e Londres, para que seja libertado antes que sua saúde seja comprometida. Ninguém melhor que você sabe o que é ver negado o direito à liberdade quando se é vítima de perseguição política, sem poder recorrer a todas as instâncias do judiciário.

Craig Murray, ativista pela independência da Escócia, tem um histórico notável na defesa de direitos humanos, não importa o país ou continente. Ele foi uma das pouquíssimas pessoas que conseguiram acesso ao julgamento de Julian Assange, e seus precisos relatos ajudaram a expor a farsa kafkiana da corte britânica.

A acusação contra Murray foi de desacato à Corte, por ele ter denunciado em seus artigos, a falsa acusação de assédio sexual de que fora vítima o ex-primeiro-ministro escocês Alex Salmond (também fervoroso adepto da independência escocesa).  Murray expôs as entranhas da armação, indicando que as denunciantes seriam mulheres do círculo próximo da atual primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon.

Como a legislação não permite revelar os nomes das testemunhas, Murray fez uso de um jogo de palavras, dando algumas pistas nada conclusivas. Instado pela Corte a remover estas informações, Murray se recusou em nome da liberdade de expressão. O ex-embaixador passou a ser ele próprio vítima de lawfare. Surgira a oportunidade de calar sua incômoda voz.

Craig Murray, um dissidente político do Ocidente

Quem acompanhava o noticiário na época em que ainda existia a União Soviética, escutava ou lia sobre os dissidentes políticos que se posicionavam contra as restrições que o regime vigente impunha. Em geral, escritores e artistas, que muitas vezes aproveitavam as oportunidades para fugir para o Ocidente.

Atualmente, a dissidência política está no Ocidente. Como, por exemplo, aquelas pessoas que tomam coragem  de vazar ou divulgar documentos secretos que expõem crimes de guerra, interceptação telefônica e vigilância não autorizada dos cidadãos: Philip Agee, Daniel Ellsberg, Edward Snowden, Chelsea Manning e Julian Assange, apenas para citar alguns. Mas o preço a pagar pode ser bem caro.

Craig Murray não foi processado e preso por ter vazado algum documento específico, e sim por ter se tornado “uma pedra no sapato” para o Reino Unido e para a OTAN.

Breve histórico de um ativo defensor de direitos humanos

Quando embaixador no Uzbequistão, Craig Murray denunciou as frequentes torturas a que o presidente Islam Karimov submetia os opositores, com o beneplácito de seu próprio país, então governado pelo primeiro-ministro Tony Blair. E certamente com o apoio dos EUA, em plena “guerra ao terror” promovida por Bush filho.

Murray foi então demitido do serviço diplomático. A história é contada no livro Diplomacia Suja, publicado no Brasil pela Companhia da Letras, e acessível para download na internet. Melhor para o mundo, pois livre das amarras impostas pelo serviço diplomático, Murray passou a usar seu blog para denunciar as ações agressivas da OTAN. Ele também não se omitiu em criticar a Rússia, China, Irã ou qualquer outro país, sem, no entanto, se deixar levar pelas falsas narrativas propagadas pela mídia corporativa do Ocidente.

Declaração de Nadira, esposa de Craig Murray. 29.07.21

(A íntegra da declaração original pode ser acessada aqui)

Hoje é o dia mais dilacerante para mim. Meu marido, cuja saúde não é adequada para suportar a prisão, deve se entregar para detenção em poucas horas, após a decisão da Suprema Corte do Reino Unido de não ouvir seu recurso.

Estávamos extremamente esperançosos de que a Suprema Corte atendesse ao apelo, [……] dado o quão importante e relevante ele é no contexto da Liberdade de Expressão no Reino Unido. Em vez disso, a Suprema Corte se recusou.

[……] Além disso, a Corte Escocesa descartou totalmente que a saúde fraca de Craig e o seu bem-estar estariam em risco se ele fosse forçado a ir para a prisão, mesmo estando a Corte ciente desta condição através do relatório obrigatório do Serviço Social e dos relatórios médicos.

[……] estou triste e chocada ao saber que ele poderá ser colocado entre criminosos, sem poder levar livros ou ter permissão para escrever, sem a permissão de qualquer entretenimento. Ele está sendo tratado como um criminoso. Isto não é uma punição justa, é uma tentativa deliberada de quebrar o espírito de qualquer um, corajoso o suficiente para fazer uso da liberdade de expressão.

[……] Tendo convivido com Craig por duas décadas, ele sempre fez uso de seu tempo e energia para chamar a atenção para injustiças, se posicionando a favor do que é certo, de forma cuidadosa, consistente e com consideração.

Cresci durante os tempos da União Soviética, no período pós-independência do meu próprio país, o Uzbequistão. Testemunhei e experimentei pessoalmente qual é verdadeiramente o preço da liberdade de expressão. Os opositores “desapareciam”, supostamente “tiravam a própria vida”, ou eram trancafiados em asilos. [……] É terrível ver que Craig está passando pelo mesmo tratamento no Reino Unido, país considerado como respeitador dos “direitos humanos”.

Este é um ataque aos que dizem a verdade. Os textos dele são de um jornalista altamente qualificado, ativista de direitos humanos, ex-reitor da Universidade de Dundee, e ex-embaixador britânico. Para nós, sua família, esta situação é devastadora: agora estou com meu bebê de 5 meses, e tentando encontrar uma boa forma de explicar a sentença de prisão de Craig para seu filho de 12 anos, que está confuso e ansioso.

Para os leitores que estejam preocupados com a perda da liberdade de expressão e igualdade perante a lei, eu peço que demonstrem solidariedade ativa e direta com meu companheiro.

Murray mantém o humor

Em seu último artigo, publicado antes de ser encarcerado, o ex-embaixador escreveu: “A rainha gentilmente pagou por meus jantares por cerca de 20 anos, enquanto eu era um diplomata e embaixador britânico. E agora ela vai pagar pelos meus jantares novamente. Isto é muita gentileza, pois achei que ela tivesse me esquecido.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Brasil participa de manobras navais contra a Rússia no Mar Negro

Por Ruben Rosenthal

Que interesses no Brasil serão favorecidos pelo alinhamento com a política belicista de Biden? A decisão do governo brasileiro não chega a surpreender, vinda de um presidente que bate continência para a bandeira dos EUA. E os militares estão satisfeitos com esta posição subalterna, acreditando que a Rússia ainda é um país comunista?

Logotipo Sea Breeze
Sea Breeze, manobras anuais promovidas pelos EUA e Ucrânia, no mar, terra e ar \ Crédito: C6F-Sexta Frota

A manobra aeronaval Sea Breeze (Brisa do Mar) iniciada em 28 de junho no Mar Negro, nas proximidades do território russo, é liderada pelos Estados Unidos e conta com a participação de 32 países, inclusive do Brasil. As ações vêm na sequência de incidentes ocorridos no Mar Negro, quando um barco patrulha russo fez disparos de aviso contra o destroier da marinha britânica HMS Defender, que entrara em águas territoriais da Criméia, segundo declaração do ministro da defesa russo em 23 de junho.

A manobra faz parte de uma parceria dos EUA com a Ucrânia, e ocorre apenas algumas semanas após a reunião dos presidentes Biden e Putin em Genebra. A participação do Brasil em exercícios militares hostis à Rússia pode levar ao engajamento do país em uma confrontação, que parece reacender o clima da Guerra Fria que prevaleceu por décadas, para benefício da indústria bélica.

O incidente com o destroier HMS Defender

A anexação da Criméia pela Rússia, seguindo-se ao referendo de 2014 em que 97% da população da península teria se manifestado favorável à separação da Ucrânia, nunca foi reconhecida pelo Ocidente. Poucos meses antes da consulta popular, uma revolução colorida orquestrada em Washington tirara do poder o presidente ucraniano eleito, possibilitando a ascensão ao poder da extrema direita ucraniana, ferozmente antirrussa. 

Estes eventos alienaram as populações de origem russa da Criméia e da parte ocidental da Ucrânia.  A região do Donbass tentou seguir o mesmo caminho da Criméia, mas encontrou forte resistência de Kiev, o que originou confrontos bélicos entre o governo central e os separatistas, e o aumento das tropas russas na fronteira, causando alarme na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Este é o clima que antecedeu os exercícios militares deste ano no mar Negro, iniciados pelos britânicos.

O HMS Defender se encontrava no Mar Negro, na rota do porto ucraniano de Odessa para a Geórgia, quando violou águas territoriais na região da Criméia. Segundo o Deutsche Welle, a Rússia declarou que o HMS Defender deixou as águas territoriais russas após os disparos de aviso. Assista o  vídeo liberado pelo FSB, o Serviço de Segurança da Rússia. Um bombardeiro russo SU-24 teria também despejado quatro bombas à frente do Defender, para convencê-lo a mudar o curso.

British navy cruiser HMS Defender is intercepted by russian plane
HMS Defender muda o curso após aviso russo e despejo de 4 bombas pelo avião SU-24 \ Fonte: Less Daily

O ministro da defesa do Reino Unido declarou que “o navio da marinha real estava exercendo passagem inocente através de águas territoriais ucranianas, em concordância com a legislação internacional. E que não ocorreram disparos de alerta”.

Para o ex-embaixador britânico Craig Murray, crítico do belicismo da OTAN, não está em disputa que a Rússia exerce o controle de fato da Criméia, mesmo que a anexação não tenha sido conduzida de acordo com as normas internacionais. Um vaso de guerra navegar em águas territoriais da Criméia equivale a um regimento de tropas desembarcar na península, acrescentou Murray. 

A alegação de “passagem inocente” não procede, considera ele. Trataria-se na verdade de um ato de propaganda, pela presença de uma equipe da BBC a bordo do HMS Defender, como também de busca de informações sobre a defesa militar russa.

Mesmo que o governo de Sua Majestade apoie o pleito ucraniano de soberania, a posição legal seria a de considerar a Rússia como potência ocupante e não violar as águas territoriais da Criméia, avalia o ex-embaixador. Murray ressalta o contraste com que o Reino Unido trata outra potência ocupante, Israel. O próprio Reino Unido ocupa ilegalmente as Ilhas Chagos, em desobediência a diversas decisões de cortes internacionais, conforme denunciou anteriormente Murray.

Sea Breeze, as manobras elevam a tensão no Mar Negro

Os exercícios militares conjuntos entre Ucrânia e EUA no Mar Negro começaram em 1997, dois anos após Rússia e Ucrânia acertarem a divisão da frota, com o fim da União Soviética, conforme outro relato no Deutsche Welle. Com a secessão da Criméia, parte da frota ucraniana passou para a Rússia. 

Conforme relato no America’s Navy, as manobras de 2021 se estenderão de 28 de junho a 10 de julho, contando com a participação de 32 países de seis continentes, com 5.000 tropas, 32 embarcações, 40 aviões e 18 grupos de operações especiais.

Além dos países membros da OTAN e da Ucrânia, participam dentre outros, Israel, Egito, Marrocos, Emirados Árabes Unidos, Coréia do Sul, Japão, Austrália, Suécia, Moldávia, Geórgia e Brasil.

O incidente com  HMS Defender mostrou que a Rússia não está disposta a aceitar provocações sem reagir. Com menos de 6 meses na presidência, Joe Biden parece que fará as tensões entre EUA e Rússia escalarem, levando a uma nova Guerra Fria entre os dois países.  

Que interesses no Brasil serão favorecidos pelo alinhamento com a política belicista de Biden? A decisão do governo brasileiro não chega a surpreender, vinda de um presidente que bate continência para a bandeira dos EUA. E os militares estão satisfeitos com esta posição subalterna, acreditando que a Rússia ainda é um país comunista?

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacolhando.

Como o Deus dos judeus me tornou antissionista

Por Ruben Rosenthal 

Me afastar de Deus e, como consequência, de um convívio mais próximo com a comunidade judaica, contribuiu para que eu não incorporasse o sentimento de vítima a que os judeus frequentemente recorrem para justificar as ações de Israel, por mais desumanas que estas possam ser.

Sodoma e Gomorra em chamas
Sodoma e Gomorra em chamas: os anjos conduzem Ló e sua família; ao fundo, a estátua de sal da esposa de Ló \ Pintura: Jacob de Wet II, 1680
 

A partir de 2018 comecei a escrever de forma sistemática artigos de cunho político, em que o tema da Palestina foi e continua a ser bastante recorrente. O tom dos artigos foi sempre de crítica às ações do Estado de Israel contra o povo palestino, tanto internamente, como nos territórios ocupados ilegalmente e na Faixa de Gaza.  

Mas se hoje já consigo denunciar que Israel é um Estado opressor, que implementa uma política de apartheid, nem sempre pensei desta forma. Considero que a minha rejeição ao sionismo foi um processo gradual, que começou há várias décadas, com o meu afastamento do Deus punitivo dos judeus.   

A religião na infância  

Me recordo de quando meus pais me levavam no feriado judaico do Yom Kipur – o Dia do perdão – ao velho templo da Praça Onze, no Centro do Rio de Janeiro, demolido anos depois com as obras do metrô. Apenas os homens podiam ficar na parte de baixo, onde eram conduzidas as rezas pelos anciões do templo. Um destes era tio de minha mãe, o tio Chico. 

Nestas ocasiões, eu me sentia bastante incomodado pelo cheiro presente do salão de reza. O odor parecia vir do hálito dos que estavam jejuando desde as 18 horas do dia anterior, quando boa parte dos que estavam presentes provavelmente teria comido aliche em conserva na última refeição. Para complementar a composição do cheiro, talvez estivesse incluída uma pitada de odor vindo da naftalina usada na preservação dos ternos. 

O vozerio no salão por vezes crescia até alcançar um nível quase insuportável. Um dos anciões dava então uma pancada forte na bancada, cobrando silêncio. Algum tempo depois a mesma situação voltava a se repetir, e assim, até o encerramento às 18 horas.    

A minha memória mais antiga, no que se refere ao Estado de Israel, é de quando eu estudava em um colégio israelita no bairro de Botafogo. Creio que eu devesse ter uns 7 anos de idade na ocasião. Lembro que os professores ou a direção solicitavam aos alunos que intercedessem junto aos pais, para que estes contribuíssem na arrecadação de dinheiro para plantar árvores no deserto do Neguev, em Israel. Hoje eu me pergunto se tais doações não teriam sido destinadas à compra de armas.  

Foi também quando escutei pela primeira vez a frase que já vinha sendo usada há décadas pelos sionistas: “Uma terra sem povo para um povo sem terra”. Anos depois a verdade se sobrepôs, conforme o drama dos refugiados palestinos ficou evidenciado para o mundo.  

Naquela ocasião aprendi em sala de aula como ao longo da história milenar do povo hebreu Deus havia sido implacável com os inimigos de Israel: “Jeová é um Deus vingativo e ciumento, rico em ira; vinga-se dos seus adversários e guarda rancor aos seus inimigos” (Nahun 1, 2-8). Em luta contra os reis amorreus, “Josué consagrou todos os seres vivos ao extermínio, como Jeová havia ordenado, e apoderou-se de todos os territórios daqueles reis” (Josué 10, 6-8, 40-42). Naquela época eu não havia ainda ouvido falar nos palestinos, só nos filisteus – os grandes inimigos dos hebreus, que haviam se instalado em Gaza. 

Me ensinaram também que quando Deus era desrespeitado pelos israelitas, Ele os castigava, fosse com o ataque de inimigos ou com outras formas de punição. Lembro de algum professor mencionando em sala de aula a destruição de Sodoma e Gomorra, pelos pecados cometidos por seus cidadãos: “Então o Senhor fez chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra”. 

Na ocasião fiquei sem entender que comportamentos desviantes eram esses, que levaram Deus a punir com tamanha severidade seu próprio povo. Quando algum tempo depois vim a saber mais sobre Sodoma e Gomorra, me dei conta de que meus pensamentos já eram pecaminosos, mesmo na tenra idade.  

Ao final da adolescência, compreendi que só havia um jeito de me livrar do sentimento de culpa que carregava pelos “pecados” que continuavam a povoar meus pensamentos: tentar tirar Deus e a religião da minha vida. Ajudou bastante a este propósito, passar a estudar em um colégio laico, como o Pedro II.  

1967: o Grande Israel  

Eu estava perto de completar 16 anos, quando as imagens do general israelense usando um tapa-olho dominaram o noticiário. Vibrei com as notícias de como a estratégia bélica de Moshe Dayan havia levado à derrota dos exércitos do Egito, Síria, Jordânia e Iraque. E de como Israel passara a ocupar terras que aumentavam em várias vezes seu próprio território. Outra guerra entre os israelenses e os “vilões” árabes estourou em 1973, quando Israel foi atacado no feriado Yom Kippur.  

A questão palestina surgida com a fundação de Israel passou a ocupar uma relevância cada vez maior no contexto da crise no Oriente Médio, conforme diminuía a possibilidade da eclosão de novas guerras generalizadas. Na ocasião eu me perguntava por que os países árabes não faziam uso de seus petrodólares para acomodar os palestinos em novas terras.  Só que a questão dos refugiados e dos palestinos em geral não era tão fácil de ser resolvida.  

1977-1984: nas manifestações em Londres 

Em 1977 fui fazer pós-graduação em Londres. No primeiro ano morei em um alojamento para estudantes, uma verdadeira Babel de línguas e costumes. Foi lá que tive o meu primeiro contato com um palestino, cujo nome não recordo. Não ficamos amigos, mas tínhamos uma boa convivência.  

Ele tentava me convencer da responsabilidade dos governos de Israel pelo sofrimento de seu povo. Às vezes eu me sentia um tanto constrangido de conversar com ele. Por mais que eu pudesse ter percepção e compadecimento pelo sofrimento dos refugiados, eu não conseguia ver Israel como um algoz, e sim, como uma nação agindo em autodefesa, para seu povo não ser “varrido ao mar”. Os atentados praticados pela OLP, a Organização para a Libertação da Palestina, e outros grupos terroristas também colaboravam com esta visão.  

Quando mudei do alojamento perdi contato com o palestino; não sei se ele ficou no Ocidente após concluir seu curso – creio que de Direito, ou se retornou à Palestina. Talvez esteja atuando nos tribunais de Israel, em defesa de causas palestinas. Como também pode ter morrido em um dos devastadores bombardeios promovidos pelo exército israelense. 

Pode ser transformador viver, mesmo que por alguns anos, em um centro do imperialismo mundial, como a Inglaterra. Naquele período foram frequentes os eventos e manifestações contra o regime de apartheid da África do Sul, contra a intervenção de Reagan na Nicarágua e El Salvador, contra o domínio britânico na Irlanda do Norte, bem como pelo direito do povo palestino à autodeterminação. 

2018: o blogue Chacoalhando   

Quando comecei a escrever sobre Israel e a questão palestina, uma das minhas referências de informação foi o site Gush Shalom (Bloco da Paz), do ativista e herói israelense da guerra de independência de 1948, Uri Avnery, falecido em 2018.  

Avnery chegou a se encontrar mais de uma vez com o líder palestino Yasser Arafat, o que poderia tê-lo levado à acusação de traição. Ele acreditava na solução de “dois estados”, em que precisariam ser feitas algumas concessões territoriais de ambas as partes, além de compensações financeiras a uma parte dos palestinos que foram desalojados pela Nakba (Catástrofe).   

Estima-se que quando Israel proclamou de forma unilateral sua independência em 1948, cerca de 700 mil palestinos foram expulsos ou abandonaram suas casas com medo de serem massacrados. Muitos destes passaram a viver em campos de refugiados nos países vizinhos, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. 

Avnery, no entanto, até o final de sua longa e combativa vida relutou em usar o termo “apartheid”, em relação à situação interna de Israel e dos territórios ocupados da Cisjordânia. O último artigo em sua coluna no site foi em 4 de agosto, e intitulou-se: Quem diabos somos nós?  

O artigo foi escrito na sequência da aprovação pelo parlamento israelense, a Knesset, da legislação intitulada: “Lei Básica: Israel, o Estado-nação do Povo Judeu”. Quando o então presidente David Ben-Gurion leu a declaração de independência, esta proclamava a fundação de um Estado Judaico.  

Ainda segundo Avnery, a declaração não se tornou lei, embora a Suprema Corte passasse a adotar seus princípios, mesmo sem uma base legal. Ela mencionava um “Estado Judaico e democrático”, e prometia igualdade para todos os cidadãos, independentemente de religião, etnicidade ou sexo.  Em relação à Lei Básica, Avnery acrescentou: “Não há Democracia.  Não há igualdade. Um Estado dos judeus, para os judeus, pelos judeus”.  

Na mesma ocasião, uma importante doadora para causas beneficentes em Israel, a britânica Dame Vivien Duffield, foi bastante assertiva ao declarar: “Meu Israel está morto…. É apartheid! Para os ingleses que relembram a África do Sul, isto (agora) é a África do Sul! Uma lei para um grupo, e uma outra, para o outro grupo”.  

Para Netanyahu, os judeus que criticam a lei são esquerdistas e traidores, “que esqueceram o que é ser judeu”.  No entanto, é crescente o número de judeus fora de Israel que não compactuam com o tratamento concedido aos palestinos, e com os bombardeios do exército israelense a Gaza. Internamente, mesmo com a saída iminente de Netanyahu do poder, não há ainda indícios que o novo governo irá cessar as políticas de opressão aos palestinos e de usurpação de suas terras.

Palestina
Palestina: Uma Pátria Negada, Centro Cultural do Iraque, Londres,1979 \ Arte: Gecko e Tekla Alexiev

Finalizando 

Me afastar de Deus e, como consequência, de um convívio mais próximo com a comunidade judaica, contribuiu para que eu não incorporasse o sentimento de vítima a que os judeus frequentemente recorrem para justificar as ações de Israel, por mais desumanas que estas possam ser. O povo oprimido pelas perseguições centenárias se tornou opressor, mas precisa aliviar sua consciência. 

Com décadas de atraso, gostaria de poder dizer ao irmão palestino que conheci em Londres nos anos 70, que o sofrimento do povo dele também me faz sofrer. Que germinou e cresceu a pequena semente que ele plantou, possibilitando que agora eu possa ser mais uma voz a denunciar os crimes de Israel, através dos artigos que escrevo.  

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

Chocolate de Páscoa com recheio de trabalho infantil

Por Ruben Rosenthal

Os problemas estruturais que causam o trabalho infantil nas plantações de cacau só podem ser resolvidos através de cooperação entre os governos dos países produtores e consumidores, indústria e organizações não governamentais. 

Grande parte do chocolate consumido no mundo é produzido com cacau obtido com trabalho infantil
Chocolate produzido com exploração do trabalho infantil \ Foto: The New Daily

A Páscoa judaica celebra a libertação dos escravos hebreus do Egito. A Páscoa cristã celebra a ressurreição de Jesus, e incorporou a crença pagã de associar ao ovo uma simbologia de renascimento; com os confeiteiros franceses foi introduzido o costume dos ovos de chocolate. Mas o chocolate consumido na Páscoa cristã está associado a práticas de escravidão e de exploração de trabalho infantil de risco em países produtores de cacau. As crianças da África Ocidental ainda aguardam por uma Páscoa que possam comemorar em liberdade.

Alguns dos países produtores, como Gana e Costa do Marfim, resolveram tomar medidas unilaterais para conseguir melhores preços para as safras dos grãos de cacau. A intenção é de reverter a pobreza no campo, principal causadora do trabalho infantil. No entanto, a reação de parte da indústria foi negativa e colocou em rota de colisão países fornecedores de matéria-prima e multinacionais do chocolate. 

A cadeia produtiva: do cacau ao chocolate

A indústria de chocolate rende 100 bilhões de dólares anuais, cabendo à Gana cerca de 2 bilhões e à Costa do Marfim, 4 bilhões. Estes dois países respondem por 2/3 da produção mundial de cacau. No entanto, o cultivo está associado à baixa remuneração dos agricultores, ao trabalho infantil, e vem causando destruição de florestas para aumento da produção.

Com a concentração internacional do mercado de cacau, grande parte das atividades é controlada pelo Big Chocolate, o pequeno grupo de transnacionais que inclui empresas processadoras dos grãos e fabricantes de chocolate.

O cacau de Gana e da Costa do Marfim é geralmente adquirido por empresas processadoras dos grãos como a suíça Barry Callebaut, Cargill, ECOM e Olam. Dentre as principais empresas que produzem chocolate incluem-se a Nestlé, Hershey, Mars, Ferrero, além da própria Barry Callebaut.

Trabalho infantil nas fazendas de cacau

Segundo estudo de pesquisadores brasileiros, as violações de direitos humanos na cadeia produtiva de cacau na África Ocidental estão diretamente relacionadas com a atuação das empresas multinacionais. A estrutura oligopolista dessas grandes empresas e o grande poder de barganha que possuem no mercado mundial contribuiriam para a perpetuação de um círculo vicioso de pobreza, e assim, para o aumento do trabalho infantil na produção de cacau.

Muitas destas crianças são oriundas de outros países, onde foram vendidas por seus pais. Por outro lado, a situação de pobreza nas fazendas de cacau requer por vezes que os próprios filhos dos donos das plantações se envolvam na colheita, deixando assim de frequentar a escola.

A estimava do Fórum Internacional de Direitos do Trabalho (ILRF, na sigla em inglês) é de que na África Ocidental o número de crianças em situação de trabalho infantil no setor de cacau esteja entre 500.000 e 1.500.000. Nas atividades extrativas, crianças costumam lidar com ferramentas de corte afiadas e com o uso de pesticidas.

criança faz trabalho de risco na colheita do cacau
Criança usando facão na colheita do cacau, África Ocidental, 2015 \ Foto: Daniel Rosenthal/Laif

O pequeno tamanho dos lotes familiares também não ajuda na obtenção de uma remuneração digna com a venda dos grãos. A maioria das plantações tem tamanho inferior a 10 hectares (0,1km quadrados). Um produtor que dispõe de uma extensão de terra equivalente a 2 hectares e produtividade média, ganha cerca de U$755,30 por ano na Costa do Marfim e U$ 983,12 em Gana. Por vezes  os produtores se associam em cooperativas de até 500 membros, conforme também relatado no estudo brasileiro. 

O trabalho infantil na indústria de chocolate começou a chamar a atenção da comunidade internacional em 2000, quando o documentário da BBCSlavery: a Global Investigation (Escravidão: uma Investigação Global) expôs os abusos praticados em Gana e na Costa do Marfim. Neste documentário foi relatado que centenas de milhares de crianças de Burquina Faso, Máli e Togo estavam sendo compradas de suas famílias, e vendidas como escravas para agricultores na Costa do Marfim.

A pressão internacional

Em resposta à indignação da comunidade internacional, grandes empresas da indústria de chocolate desenvolveram políticas para a cadeia produtiva. Uma iniciativa vinda do setor privado se deu através das organizações Fair Trade (Comércio Justo), que procuram garantir que cadeias globais e empresas transnacionais não desrespeitem direitos humanos e sociais. Os produtos passariam a receber certificados de “livre de trabalho infantil”, e de que o produtor recebeu um preço justo pela matéria prima.

O setor privado promoveu diversas outras iniciativas voltadas para a questão social na base da pirâmide da cadeia produtora do chocolate. International Cocoa Initiative (ICI), World Cocoa Foundation, Roundtable for a Sustainable Cocoa Economy e Bill&Melinda Gates Foundation foram algumas das organizações que estiveram envolvidas com projetos. Algumas empresas, como a suíça Nestlé e a britânica Cadbury, lançaram seus próprios planos.

Entretanto, conforme relatado pela plataforma online Swissinfo.ch, um estudo conduzido pela Universidade de Chicago verificou que o trabalho infantil na cadeia de fornecimento do cacau na Costa do Marfim e em Gana aumentou de 31 para 45% entre 2008 e 2019, apesar do compromisso das multinacionais do Big Chocolate em erradicar esta prática nas regiões de cultivo.

A indústria agora avalia que “as metas foram definidas sem uma compreensão total da complexidade e da escala de um desafio fortemente associado à pobreza na África rural”. Para a ICI, “uma das lições aprendidas é que não funciona a abordagem que pune agricultores por usarem seus filhos para ajudar na colheita, quando são poucas as alternativas”. Além disso, os rendimentos dos agricultores ficam ao sabor dos preços globais de mercado, que despencam quando a safra é mais abundante.

Novas abordagens no combate ao trabalho infantil

A Unicef está incentivando a indústria a investir em saúde, alimentação e educação para romper com o ciclo de pobreza. E parte da indústria parece estar aderindo a esta visão, segundo relatado pelo swiss.co. A Nestlé se comprometeu em priorizar saneamento, água e igualdade de gênero em seu Plano do Cacau; a empresa também declarou que está construindo escolas em algumas aldeias.

Ainda segundo a matéria,  empresa Barry Callebaut desenvolve um projeto que está ajudando os agricultores a aproveitarem melhor suas terras, utilizando parte delas para cultivo de produtos agrícolas de subsistência e criação de pequenos animais, como galinhas. Desta forma não haveria dependência econômica exclusivamente no comércio de cacau.

Por outro lado, o governo suíço está investindo em parcerias com a indústria suíça do cacau e com ONGs, como parte da Plataforma Suíça para o Cacau Sustentável (SWISSCO), fundada em 2018.

A escala destas iniciativas é que determinará sua efetividade na solução dos problemas sociais e econômicos que envolvem os países produtores de cacau da África Ocidental. No entanto, alguns governantes africanos não estão dispostos a aguardar mais tempo pelo resultados das iniciativas vindas da indústria do chocolate.

A queda de braço com o Big Chocolate

Gana e Costa do Marfim resolveram impor unilateralmente a partir de outubro de 2020, um adicional de 400 dólares no preço da tonelada de grão. A taxa denominada “diferencial de condição de vida” (LID, na abreviatura em inglês) possibilitaria aos fazendeiros, enviar os filhos para a escola, arcar com despesas médicas e uma melhor alimentação.

Para alguns dos grandes produtores e comerciantes de chocolate existe de fato a preocupação que seus nomes não estejam associados com aumento de pobreza, trabalho infantil e degradação ambiental. A empresa suíça Barry Callebaut, maior compradora mundial de cacau, apoiou com cautela a nova taxa.

Entretanto, algumas reações foram negativas. Para Michiel Hendriksz, ex-comerciante de commodities, a imposição da taxa extra de 400 dólares está fadada ao fracasso. Conforme ele relatou ao Financial Times, “a LID seria uma má jogada de pôquer por quem não deveria jogar”. Para Hendriksz, “seria melhor usar parte das terras para plantar produtos agrícolas voltados para alimentação, e com isto reduzir a produção do cacau, fazendo os preços subirem”. 

Em carta enviada ao Financial Times, publicada em 1 de dezembro, Gana e Costa do Marfim acusaram produtores de chocolate de agir de má fé para não pagar a taxa LID. Foram citadas na carta as empresas Mars, Hershey e Olam, além de quatro pequenos comerciantes de cacau, que se defenderam das acusações. 

O presidente de Gana dobra a aposta

Em 28 de fevereiro deste ano, em discurso histórico perante os membros do Conselho Federal da Confederação Suíça, o presidente de Gana anunciou (ver vídeo) que seu país não quer continuar a ser dependente da exportação de matéria prima. O presidente Nana Akufo-Addo acrescentou que, “no caso do cacau, a intenção é de incrementar o processamento em Gana visando produzir mais chocolate no país”.

Após enaltecer a contribuição da Suíça com o desenvolvimento de Gana, o presidente foi taxativo ao afirmar que “não poderá haver prosperidade no futuro para o povo de Gana se forem mantidas as atuais estruturas econômicas”. Acrescentou ainda que a intenção de seu governo é de “adicionar valor agregado às matérias-primas do país, industrializar e aumentar a produção agrícola”. Ou seja, não mais exportar cacau sem beneficiamento prévio dos grãos.

Discurso do Presidente Nana Akufo-Addo anunciando a mudança na política para o cacau
Presidente de Gana anuncia para o Conselho da Suíça, a nova política para o cacau, 28 de fevereiro de 2021

Ainda são imprevisíveis os efeitos que a nova política – se for implementada a fundo, poderá trazer para a produção do chocolate suíço e para o mercado internacional de chocolate. Gana é o maior exportador de grãos de cacau para a Suíça, e o segundo produtor mundial, atrás apenas da Costa do Marfim.

O presidente Nana Akufo-Addo precisará fazer uso de uma visão sistêmica para conseguir trazer benefícios efetivos para o setor cacaueiro de seu país. Um caminho a considerar é contornar a intermediação das Trade Houses, as empresas de comércio que lidam com importação e exportação de commodities.  

Por um lado, é arriscado colocar todas as cartas no chocolate Made in Gana. O país não possui uma indústria de leite de porte suficiente, o que obrigaria recorrer à importação. Além disso, o custo da eletricidade é elevado, o que encareceria o preço final do chocolate, devido à necessidade do uso de refrigeração na fabricação e conservação.

O beneficiamento mais simples seria moer os grãos de cacau em Gana antes da exportação. Outra possibilidade seria produzir o licor e a manteiga de cacau, que não precisam ser mantidos em refrigeração. Iniciativas como a da Barry Callebaut de incentivar a diversificação da produção nas terras agriculturáveis, se aplicadas em larga escala nos países produtores, podem resultar em melhores preços de venda do cacau no mercado internacional. Ficará alterado poder de barganha com as multinacionais do Big Chocolate.

Mas na queda de braço com o Big Chocolate, os países produtores contam com aliados. Em 12 de fevereiro foi aberta uma ação na capital norte-americana pela organização International Rights Advocates (IRA) a favor de oito jovens adultos originalmente do Mali que, quando crianças, haviam sido forçados a trabalhar sem pagamento em plantações na Costa do Marfim. A ação foi movida contra a Nestlé, Mondelez, Cargill, Barry Callebaut, Mars, Olam e Hershey. Se defendendo,  as empresas proclamam estar comprometidas com a erradicação do trabalho infantil na cadeia de suprimento do cacau.

Para Nicko Debenham, chefe de sustentabilidade da Barry Callebaut, os problemas estruturais que causam o trabalho infantil nas plantações de cacau só podem ser resolvidos através de cooperação entre os governos dos países produtores e consumidores, indústria e organizações não governamentais. 

Enquanto isso, no Brasil…

Em artigo de novembro de 2019 publicado pelo Brasil de Fato, foi relatado que as multinacionais Nestlé, Mondelez, Barry Callebaut, Cargill e Olam Brasil exploram o trabalho infantil e o trabalho escravo em lavouras de cacau na Bahia e no Pará. As empresas já foram notificadas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), mas não assumiram responsabilidade pelo problema.

E a propósito, qual o recheio do ovo de chocolate que você comprou para esta Páscoa?

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo Blogue Chacoalhando.  

Uma jornada de cem anos sem solidão

Por Ruben Rosenthal

A vitória pessoal começou naquela primeira semana que não consta do registro de nascimento.

Tenente Israel Rosenthal Força Expedicionária Brasileira
Tenente da FEB Israel Rosenthal participa de solenidade

1921. Já não se falava tanto nos horrores da Grande Guerra, que tivera como palco principal o continente  europeu. O país contava então com uma população em torno de 30 milhões, e uma expectativa média de vida ao nascer de 35 anos para os homens. A medicina ainda avançava devagar.

31 de janeiro. Era quase impensável que alguém nascido no início dos anos 20, mesmo em uma metrópole como o Rio de Janeiro, pudesse chegar aos 100 anos de idade. Nas duas primeiras décadas do século o Brasil fora assolado por doenças como a febre amarela, peste bubônica, varíola, tuberculose e ao final da segunda década, pela espanhola.  Em 1921 ainda faltavam sete anos para a descoberta da penicilina, e duas décadas para que seu uso clínico fosse definido em Oxford em 1940, dando origem à era dos antibióticos.

Para o país, a década de 20 representou o começo da transição de um modelo exportador primário com base no café, para o da industrialização voltada para o consumo interno. O rádio foi uma novidade, com o início da radiodifusão no país em 1922. A criança então com nove anos talvez observasse seus pais acompanhando os discursos de Getúlio Vargas, mas é pouco provável que tivesse algum entendimento do que era dito ou mesmo que uma Revolução estava ocorrendo no país em 30. Poucos anos depois, esta mesma criança poderia notar a aflição dos pais ao escutarem as notícias de que o líder nazista Adolf Hitler se tornara chanceler da Alemanha.

As feições do Rio de Janeiro herdadas dos tempos coloniais já haviam mudado substancialmente com as intervenções urbanísticas de Pereira Passos no início do século (1906), dando à capital do país uma aparência moderna. Mas estas reformas também contribuíram para aumentar a segregação da cidade. Até 1930 prosseguiu a remodelação do antigo Centro e desenvolveu-se o vetor na direção sul da cidade.  

No decorrer dos anos 30 o adolescente já poderia se dar conta do desenvolvimento urbano, como também do crescimento das favelas. Faziam sucesso nesta década as músicas O que é que a baiana tem, na voz de Carmen Miranda, Tico-tico no fubá, a marchinha de carnaval As Pastorinhas, Linda morena, Carinhoso, dentre outras.

Os jovens dançavam em clubes ou nas populares gafieiras, como o Elite Club. No final da década de 30 surgiu o Clube Cabiras, que passou a ser um ponto de diversão da juventude judaica. 

Tenente Rosenthal participa da campanha da FEB na Itália, 1945
Tenente Israel Rosenthal, FEB, Itália, 1945

No entanto, aquela despreocupação cedeu lugar à apreensão, quando as consequências do advento do nazi-fascismo no mundo se fizeram sentir. Ao final da década de 30 eclodiu a segunda Grande Guerra, e nos anos seguintes tropas da FEB, a Força Expedicionária Brasileira, foram enviadas para o teatro de operações na Europa para combater o nazi-fascismo.

O jovem tenente nascido em 1921 embarca com seus companheiros para passar por sua inesquecível experiência. Ao regressar ao país em 1945, o pracinha da FEB estará com 24 anos. Os momentos vividos serão sempre lembrados e celebrados. O retorno das tropas apressou o fim da ditadura Vargas.

Na década de 40 despontaram na música nomes como Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Ataulfo Alves, Nelson Gonçalves, Ciro Monteiro e Luiz Gonzaga, com Asa Branca. No Carnaval, Emilinha Borba reinou soberana em 1949, com Chiquita Bacana. Para aquele jovem adulto nascido em 21, era possível usufruir novamente de momentos de plena descontração, namorar, casar e constituir família.

A televisão surge no país em 1950 com a Tupi. Vargas retorna, eleito presidente em 51 e se suicida em 54. Em 58, o Brasil ganha o seu primeiro campeonato mundial de futebol. Eis que desponta Pelé, o Edson Arantes do Nascimento. O principal esporte ainda traria muitas alegrias e tristezas nas décadas seguintes.  Juscelino inaugura Brasília em 1960. Surge a Bossa Nova, na voz e violão de João Gilberto. Militares no poder em 64. Diretas Já. Ayrton Senna. Lula na presidência. Bolsonaro.

Estes foram apenas alguns dos momentos que mexeram com o país, que podem ter sido comemorados, ignorados ou repudiados por alguém nascido em 21. A música já lhe causava estranheza desde o surgimento do Rock & Roll e dos Beatles. Os aparelhos eletrônicos se sofisticaram e seu uso requer esforço da parte do agora idoso nascido em 1921, como no caso de computadores e celulares. A violência aumentou nas ruas do Rio de Janeiro, trazendo também insegurança ao outrora pacato bairro do Catete. 

2021. O ciclo de 100 anos se completa, e uma pandemia mortal como a espanhola voltou a se abater sobre o mundo. Também um novo ciclo de extremismo político se espalhou por vários países, 75 anos após a derrocada do nazi-fascismo.  A expectativa média de vida de um brasileiro que nascer em 2021 será de 77 anos, mas este cidadão poderá ter uma vida bem mais longa e saudável, se os vírus e os extremismos políticos não prevalecerem.

O nosso herói completa agora 100 anos. E chega a esta idade com lucidez e autonomia para desempenhar suas atividades diárias. A jornada não foi solitária, pois dela fizeram parte muitas pessoas. Algumas muito queridas ficaram pelo caminho, enquanto outras foram chegando e estão agora presentes. Os amigos e uma família de filhos, netos, bisnetos e sobrinhos comemoram esta longevidade.

Eleições 2020: direito ao voto ou direito à vida? por Ruben Rosenthal

Com as habituais filas e aglomerações que sempre se formam nas seções eleitorais, como garantir que os eleitores não se contaminem com o coronavírus?

Eleitores da Rocinha encontram longas filas para votar hoje (7) na garagem do Centro Municipal de Cidadania Rinaldo de Lamare e no Centro de Educação de Jovens e Adultos.
Fila na Rocinha nas eleições de 2018 \ Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Supondo a ausência de uma vacinação em massa até o dia 15 de novembro, e mantida a atual taxa de mortalidade, estaremos indo às urnas já beirando ou tendo ultrapassado um saldo de 200.000 mortes pelo coronavírus. A matemática não falha, por mais assustador que seja o resultado da conta. Mas as eleições podem agravar ainda mais a pandemia, se as medidas de segurança previstas não forem suficientes. Deve ser mantida a obrigatoriedade do voto nestas circunstâncias?

Pelo novo calendário eleitoral, as eleições municipais foram marcadas para os dias 15 e 29 de novembro, correspondendo ao primeiro e segundo turnos. O motivo do adiamento foi a pandemia da Covid-19. Para diminuir o risco de se contrair a doença, nestas eleições não será utilizada a biometria, álcool em gel será disponibilizado, bem como os eleitores receberão canetas individuais. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu ampliar em 1 hora o período de votação e reservou para pessoas acima de 60 anos, integrantes dos grupos de risco, o horário das 7 às 10 das manhã. Mas serão estas medidas suficientes para garantir a saúde dos 148 milhões de eleitores aptos a votar?

É de se supor que só seja permitida a entrada nos locais de votação, dos eleitores, mesários e fiscais que estejam usando máscaras de proteção, e da forma correta, sem deixar o nariz de fora, como é habitual se ver nas ruas. Resta ver se os apoiadores fanáticos de Bolsonaro que não usam máscaras respeitarão estas normas, ou se irão criar tumultos no dia da eleição.

Entretanto, mesmo que sejam cumpridos estes procedimentos, os eleitores poderão comparecer para votar em seus candidatos, sem a preocupação de que possam se contaminar nas seções eleitorais? Como garantir que não ocorrerão filas e aglomerações, para que não resulte um aumento vertiginoso dos casos de contaminação nos dias e semanas que se seguirão às eleições, com o consequente aumento do número de mortes?

Nas eleições de 2018 no Rio de Janeiro, imensas filas se formaram para votação. Segundo declarou na ocasião, a então diretora-geral do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), Adriana Brandão, as filas resultaram da extinção de diversas zonas eleitorais por contenção de custos. Ainda segundo ela, a iniciativa foi tomada porque o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) baixara uma resolução determinando a redução no número de zonas eleitorais (nos estados). No caso do Rio, esta redução foi de 244 para 165 zonas, afetando regiões de diferentes níveis sócio-econômicos. Mantida esta situação nas próximas eleições as aglomerações serão novamente inevitáveis, apesar das medidas já adotadas pelo TSE.

Filas na PUC-Rio nas eleições de 2018 \ Foto: Marcos Serra Lima/G1

A medida mais segura a adotar seria adiar novamente as eleições. A pandemia mostrou alguns sinais de regressão nos últimos dias, mas com a flexibilização precoce em muitos municípios, poderá ocorrer nas próximas semanas uma subida acentuada da curva de novos casos, como se sucede agora na Espanha e França.

Segundo relatado pela Agência Senado, durante a sessão remota de debates em 17 de junho, quando se decidiu pelo adiamento das eleições originalmente previstas para os dias 4 e 25 de outubro, os senadores afirmaram que “o futuro da pandemia de Covid-19 é imprevisível, e que isso precisava ser levado em conta na hora de redigir a proposta de emenda à Constituição que trata do adiamento”. 

Estava correta a primeira parte da afirmação, sobre a imprevisibilidade do futuro da pandemia, mas os senadores não levaram isto em conta na redação da PEC, que não contemplou os diferentes cenários que  Antonio Anastasia (PSD-MG) parecia então defender. O senador também afirmou não concordar com a prorrogação dos atuais mandatos de prefeitos e vereadores. No entanto, a decisão dos senadores foi tomada nas condições seguras de uma sessão remota, segurança que até agora está sendo negada aos eleitores.  

Para o Senador Nelsinho Trad (PSD-MS) as decisões precisam se basear nos dados epidemiológicos. Mas se estes forem realmente levados em consideração, então as eleições precisariam ser adiadas novamente, mesmo que isto signifique prorrogar os mandatos. Fica a questão: para os políticos, seus interesses particulares estão acima da saúde da população? Que garantias  Congresso e TSE poderão oferecer aos eleitores de que não irão se contrair o coronavírus, caso decidam comparecer às seções eleitorais para votar?

Muitos eleitores poderão se sentir inseguros com as medidas que foram adotadas até agora, e preferir manter a quarentena. Trata-se de um momento excepcional, em que não deveria prevalecer a obrigatoriedade do voto. Não deveria haver medidas punitivas para os que optassem por não comparecer às urnas em 15 de novembro, supondo-se que esta data não seja novamente alterada.

Nos Estados Unidos é possível o voto pelo sistema postal, em que urnas são espalhadas pelas ruas das cidades, sem que o eleitor precise comparecer aos centros de votação. No Brasil este método não parece ter sido cogitado até o momento, o que exigiria agora uma missão talvez impossível para se conseguir viabilizar esta alternativa, sem que possam ocorrer fraudes.  

Urna para coleta de votos em Maryland, Estados Unidos \ Foto: Tom Williams/CQ-Roll Call, Inc via Getty Images

Uma possibilidade de reduzir ainda mais os riscos de contágio seria realizar pelo menos o primeiro turno em dois dias separados (consecutivos ou não), sendo que em cada dia os eleitores poderiam ser distribuídos em horários de votação previamente estipulados, de acordo com algum critério definido e amplamente divulgado.

A quem caberá responsabilidade se nada for feito para evitar uma maior disseminação da pandemia? Aos sociopatas que estão no poder em Brasília ou aos membros do Congresso e ministros do TSE, por não terem tomado as medidas necessárias. O julgamento certamente virá se o pior acontecer, se não for pelo Tribunal de Haia será pelo Tribunal da Infâmia.

Ou então, só restará torcer para que o seu candidato a prefeito, meu caro leitor e eleitor, ganhe no primeiro turno, para que não haja necessidade do comparecimento às urnas uma segunda vez, aumentando ainda mais os riscos de contrair a Covid.  

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo blogue Chacoalhando. Acesse o índice dos artigos já publicados. 

Quem está por trás das ações do Facebook contra Bolsonaro, por Ruben Rosenthal

Instruído pelo Atlantic Council o Facebook cancelou contas de assessores da família Bolsonaro contendo mensagens de ódio e fake news. Mas que interesses o Atlantic Council representa?

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Foto: Chris Ratcliffe / Getty Images

A cooperação entre o Facebook e o think tank¹ norte-americano Atlantic Council possibilitou a identificação de perfis falsos em contas e páginas contendo “discurso de ódio” ligadas a assessores da família Bolsonaro e ao PSL.  Foram removidas 35 contas, 14 páginas e 1 grupo do Facebook, além de mais 38 contas do Instagram

Estas irregularidades se encaixam no que o Facebook define como “Comportamento Inautêntico Coordenado”. O governo Bolsonaro retaliou, e em 9 de julho a Apex-Brasil, Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, cancelou a parceria firmada com o Atlantic Council em 2018. 

As revelações vieram fortalecer as denúncias de envolvimento da trupe bolsonarista com a produção e propagação de fake news contra seus adversários, que retrocedem à campanha eleitoral de 2018.

O ministro do STF Alexandre Moraes já instruiu a Polícia Federal para solicitar ao Facebook que forneça as informações obtidas na investigação das contas irregulares. Estes recentes acontecimentos foram disparados a partir da pressão que o Atlantic Council fez sobre Mark Zuckerberg. Mas qual foi a motivação do think tank para se envolver nesta investigação? 

O Atlantic Council é uma organização norte-americana que tem o objetivo declarado é de turbinar o avanço do poder econômico dos Estados Unidos. Por sua vez, o governo Bolsonaro, mesmo se enquadrando no populismo de direita e na anti-globalização, não é um governo que defende políticas nacionalistas. Ao contrário, seu governo não vem demonstrando qualquer limite em prol de políticas que favorecem  interesses estrangeiros, notadamente os dos Estados Unidos, em detrimento dos nacionais.

Seria então de se esperar que o Atlantic Council tivesse uma atitude favorável a Bolsonaro. E, de fato, até recentemente as relações eram próximas. Surge naturalmente o questionamento sobre os motivos pelos quais o Atlantic Council agiu de forma  a contribuir para  investigações que poderão atingir o presidente e seus filhos. Esta discussão será feita no decorrer do artigo. 

As denúncias. A identificação de irregularidades na rede bolsonarista foi realizada através do Laboratório Digital de Pesquisa Forense (DFRLab, na sigla em inglês), ligado ao Atlantic Council, em colaboração com o Facebook. A matéria de Luiza Bandeira, assistente de pesquisa do DFRLab, mostra diversos casos identificados de notícias falsas e de ataques a adversários de Bolsonaro. 

O gráfico a seguir mostra as conexões entre contas e páginas dos investigados. Uma versão interativa do gráfico pode ser acessada, clicando aqui. (Fonte: @luizabandeira/DRFLab). 

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A cooperação entre o Atlantic Council e Facebook visando identificar supostos atos considerados nocivos na internet retrocede a 2017. Conforme mencionado  na matéria do DFRLab, cancelamentos de contas como os que ocorreram recentemente no Brasil, foram também efetuados em 2018 nos EUA (relacionados com a internet russa), em 2019 no Reino Unido, Rússia, e Israel, e em 2010 na Tunísia.  

No caso do Brasil, a ação do Facebook veio de forma tardia, ocorrendo dois anos após a campanha presidencial de 2018, quando  irregularidades desta natureza foram recorrentes e contribuíram para a eleição de Jair Bolsonaro. Na análise do Atlantic Council, tanto a vitória  de Bolsonaro como a de Lula (e do PT) eram consideradas prejudiciais à recuperação da economia brasileira, segundo artigo no GGN. Este pode ter sido o motivo para  a falta de uma ação efetiva do Facebook na ocasião, deixando de denunciar as transgressões das regras de comportamento na rede. 

A cooperação bilateral Brasil-EUA no governo Bolsonaro. Com Bolsonaro no poder, a Apex-Brasil passou a ser vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, e com isto ficou envolvida nas disputas entre militares e o grupo olavista, do qual o próprio ministro faz parte. Com o almirante Sérgio Segóvia assumindo a presidência da Apex, as principais diretorias foram ocupadas por militares. 

Com a participação do Atlantic Council, um relatório conjunto foi elaborado com a Apex em que foram propostas recomendações para melhorar as relações econômicas bilaterais. A implementação das propostas abriria o caminho para um acordo de livre comércio, segundo Segóvia. Dentre os que participaram em 5 de março deste ano do evento do lançamento do relatório em Washington,  estavam Segóvia, Nestor Foster (indicado para embaixador nos EUA) e Adrienne Arsht, vice-presidente executiva do Atlantic Council (assista o vídeo com legendas em inglês).

Adrienne Arsht é fundadora do “Adrienne Arsht Latin America Center”, que é o setor específico do Atlantic Council que lida com as questões relacionadas com a América Latina. O Centro foi fundado em 2013 pela própria Adrienne, e teve  Peter Schechter como seu primeiro diretor.  Na equipe de especialistas brasileiros ligados ao Centro se incluem o economista Ricardo Sennes (indústria de defesa), Abrão Neto (finanças e economia), Roberta Braga, diretora-associada (corrupção, desinformação, mídia), e Luiza Bandeira (desinformação). Luiza é vinculada diretamente ao DFRlabe participou da autoria do gráfico interativo visto acima. 

Em 4 de junho, o Centro Adrienne Arsht organizou um evento virtual com o tema “A próxima fase na relação Brasil-Estados Unidos, para tratar do futuro das relações Brasil-EUA em um cenário pós-pandemia, da qual os dois países são atualmente os principais afetados. Até então, as relações do Atlantic Council com o governo Bolsonaro pareciam produtivas. 

Na ocasião, Nestor Foster aproveitou  para comentar sobre a forte oposição de congressistas Democratas ao aumento das relações econômicas com o Brasil, inclusive ao estabelecimento de acordos comerciais,  devido à política ambiental do governo Bolsonaro. Conforme declarou Foster, “a atual administração (do Brasil) está tão comprometida como qualquer outra (anterior), na proteção ambiental do país.  

Em poucas semanas o panorama das relações do Atlantic Council com o governo Bolsonaro mudou radicalmente, com a ocorrência das denúncias do Facebook. A Apex-Brasil, que atuara ativamente com o Atlantic Council, rompeu a parceria. Em face deste novo contexto, a maior aproximação comercial entre os dois países deverá ficar prejudicada, seja isto para o bem ou para o mal do Brasil. 

Por que poderia ser para o bem do Brasil, que estes novos acordos de comércio com os Estados Unidos, intermediados pelo Atlantic Council, não se concretizem? Por um lado, o governo Bolsonaro é totalmente submisso aos interesses norte-americanos, e  por outro, a ação pregressa do Atlantic Council  na América Latina apresenta um histórico deletério ao Brasil e demais países do continente.  Por estes dois motivos, pode-se esperar que acordos que derivassem desta relação seriam provavelmente lesivos ao país.  

Quando o passado condena. Anteriormente o Atlantic Council já estivera envolvido  no apoio a Lava Jato, segundo artigo no GGN. A organização atuara como facilitadora dos encontros do então Procurador Geral Rodrigo Janot com o Departamento de Justiça norte-americano. Em julho de 2017, a entidade organizou a palestra “Lições do Brasil: lutando contra a corrupção em meio à turbulência política”, com a participação de Rodrigo Janot e de Maurício Valeixo, este o então diretor da Polícia Federal. 

Quanto ao afastamento da presidente Dilma Roussef, é necessário relembrar que um outro think tank norte-americano foi também bastante atuante na ocasião, a Atlas Network, a organização que criou e apoiou o MBL. A Atlas possui uma rede em 95 países, consistindo de cerca de quatrocentos e quarenta institutos associados, que atuam em defesa de políticas ultraliberais.  

Na ArgentinaAtlantic Council e Atlas Network interagiram para eleger Mauricio Macri e apoiá-lo no poder, mas com o desastre econômico do governo Macri, a proposta ultraliberal foi derrotada nas urnas, após amplos protestos da população, então reprimidos com forte violência. 

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Joe Biden, orador frequente em eventos do Atlantic Council \ Crédito: domínio público

Fora do continente sulamericano, o Atlantic Council esteve envolvido em negócios com a empresa ucraniana de petróleo e gás Burisma Holdings, na qual o filho de Joe Biden fazia parte do conselho diretor.  Na ocasião Biden era vice-presidente de Obama, e fora indicado pela Casa Branca para ser o contato com o governo ucraniano, gerando críticas de que haveria conflito de interesses.  

Este seria apenas um de inúmeros casos de “lavagem de dinheiro de corrupção legal envolvendo o Atlantic Council, segundo matéria de Max Blumenthal, no The GrayzoneEm outro  artigo Max Blumenthal revelou que o Atlantic Council arrecada fundos da Turquia e de outros países autocráticos apoiados pela OTAN, atuando para minimizar as políticas repressivas destes países, de forma a facilitar contatos políticos e acordos comerciais. No caso da Turquia, vultosas doações são obtidas da Companhia Petrolífera Turca e do Turkey Army College

Antes de viajar para os Estados Unidos para se encontrar com Trump em maio de 2017, o presidente turco Recep Erdogan participou de um evento organizado pelo Atlantic Council, quando instou os Estados Unidos a deixarem de apoiar as milícias Curdas que enfrentavam o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. 

Já nos Estados Unidos, após sair do encontro com Trump, Erdogan foi direto se encontrar com um seleto grupo de proeminentes funcionários de administrações anteriores, em uma reunião acertada pelo Atlantic Council. Ali estavam David Petraeus, ex-diretor da CIA, ex-secretários de defesa, e a ex-secretária de estado Madeleine Albright.

 

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O presidente turco foi o orador principal na Istanbul Summit, 2017  \  Foto: Didar Yesilyurt

A estrutura do Atlantic Council. A entidade se apresenta como “uma organização não partidária, que estimula a liderança dos Estados Unidos e seu engajamento no mundo, em conjunto com aliados e parceiros, para moldar soluções aos desafios globais”.  

O atual CEO e presidente é o jornalista alemão Frederick Kempe, formado nos Estados Unidos. No quadro de diretores inclui-se o ex-secretário de estado norte-americano Henry Kissinger, que para muitos deveria ser julgado por crimes contra a humanidade por seu apoio à ditaduras sanguinárias na América do Sul nos anos 70, bem como por crimes de guerra em diversos países asiáticos. Na diretoria estão também dois ex-chefes da CIA, um representante do banco Goldman Sachs, além de outros tantos representantes do establishment norte-americano. Na diretoria de honra constam, dentre outros, os nomes de Codoleezza Rice, Colin Powell e George Shultz, todos com um ótimo currículo a serviço da expansão do poder global dos Estados Unidos. 

A página do Conselho na internet menciona que o financiamento da instituição vem de “uma base diversificada de doadores, para ajudar a assegurar a credibilidade, integridade e sustentabilidade da instituição”. Aí se incluem fundações privadas, agências de governo nacionais e estrangeiras, empresas e indivíduos. A lista completa de doadores no ano fiscal de 2019 pode ser acessada no linque indicado acima. 

No topo da lista está Adrianne Arsht, com um valor doado de 1 milhão de dólares ou acima.  Neste seleto grupo estão também o British Foreign and Commonwealth Office (Ministério do Exterior Britânico),  o Facebook, de Mark Zuckerberg, o banco Goldman Sachs, a Fundação Rockfeller e a Embaixada dos Emiratos Árabes. Dentre os doadores na faixa de 500.000 a 999.999 dólares estão a Saab North America, a SICPA S.A. (empresa suíça), e a empresa ucraniana de finanças e indústria, System Capital Management. A Saab atua no ramo da defesa militar e segurança civil.   

O Departamento de Estado norte-americano está na lista das contribuições incluídas na faixa entre 250.000 e 499.999 dólares.  Estão também incluídos nesta faixa o Google, a empresa petrolífera de Abu Dhabi, a Chevron, o banco HSBC e outros. As embaixadas do Japão e do Bahrein, e dois setores distintos da OTAN estão na lista dos que doaram valores entre 100.000 e 249.999 dólares. 

Mesmo com vários doadores preferindo permanecer anônimos, é instrutivo se examinar a relação completa dos doadores, incluindo governos estrangeiros, empresas e doadores individuais. Até 2013, os doadores não eram revelados. Foi por pressão do Senado norte-americano que em 2013, a relação completa (sem anonimatos) foi declarada, embora sem explicitar os valores das doações.  

O exame das duas listas evidencia o enorme poder de lobby que tem o Atlantic CouncilO New York Times publicou declaração do CEO Frederick Kempe, em que este afirmou que “o trabalho de think tanks tem mais credibilidade que o de lobistas, a qual é preservada através da independência intelectual”. 

Mas o mesmo artigo do NYT cita a atuação do Atlantic Council junto à Câmara de Comércio Europa-Estados Unidos, como exemplo de uma ação lobista típica.  Esta atuação levou à redução das tarifas transatlânticas, atendendo aos interesses da FedEx, que consta na relação das empresas que doaram ao Atlantic Council em 2019, valores entre 100.000 e 249.999 dólares.  

Atlantic Council é mais do que um lobista atuando no varejo, sendo também um indutor de decisões por órgãos governamentais,  que podem trazer benefícios não apenas para uma empresa, mas para diversos setores da economia norte-americana. No entanto, a ação do Atlantic Council extrapola a atuação que se esperaria de uma organização voltada apenas para a facilitação de contatos entre empresas e governos.    

Esta extrapolação ocorreu nos casos da ingerência em apoio à Lava Jato no Brasil, a Macri na Argentina, a Erdogan na Turquia, bem como em tantos casos em que o Atlantic Council atuou mais como um player político. Aí se enquadra também o envolvimento da organização, a partir de junho de 2018, no combate à supostas campanhas de desinformação que teriam sido conduzidas pelo Kremlin para favorecer Trump nas eleições presidenciais de 2016. Conforme análise de Luis Nassif no GGN, o foco na Rússia poderia ser  indicativo de objetivos geopolíticos por de trás dos combates à desinformação conduzidos pelo Atlantic Council.  

O artigo no GGN mostrou também como o Atlantic Council conseguiu dobrar o Facebook, para que este passasse a censurar determinados conteúdos. Mark Zuckerberg foi encurralado e forçado a aceitar que o Facebook fosse assessorado no combate à desinformação na rede. O pretexto surgiu quando fake news de que a Rússia havia interferido nas eleições de 2016 se difundiram nos Estados Unidos.  

Atlantic Council, através de sua equipe forense, o DRFLab, passaria a trabalhar em cooperação com o Facebook na identificação de desinformação nas mídias sociais. Ou melhor, o Facebook se submeteria às instruções do Atlantic Council na escolha seletiva de alvos a serem investigados na campanha. Era a oportunidade esperada para fazer com que o Facebook passasse a filtrar as informações que difundia.  

O artigo no GGN também indicou como o Atlantic Council  buscou combater na internet os discursos contrários à globalização. Agências de checagem passaram a atuar em defesa dos interesses pró-globalização, na luta contra o nacionalismo da extrema-direita que vinha de forma inexorável ganhando espaço nas eleições pelo mundo. No Brasil, a Open Society de George Soros atuaria como  um participante deste esforço pró-globalização, de filtragem de conteúdo na internet e redes sociais. 

Os ataques ao governo Bolsonaro. Voltamos novamente ao questionamento sobre os motivos que levaram o Atlantic Council a forçar o Facebook, a investigar e revelar os perfis falsos e a divulgação de fake news pela trupe bolsonarista.   

Bolsonaro vinha sendo cada vez mais associado a crimes ambientais na Amazônia, à acusações de envolvimento ou tolerância com o genocídio de povos indígenas, e de estar contribuindo de forma criminosa para o alastramento da pandemia da COVID-19 no Brasil. Bolsonaro e diversos membros de seu governo poderão inclusive ser levados a julgamento no Tribunal Penal Internacional em Haia, por “crimes contra a humanidade”. 

As empresas transnacionais estão cada vez mais conscientes de que podem sofrer boicote, se forem associadas a um país que se tornou um pária pelas ações de seu governo. Para o Atlantic Council estava se tornando uma missão impossível conseguir concretizar o seu lobby habitual. 

As crescentes manifestações contra o STF, não desautorizadas por Bolsonaro, podem ter sido determinantes para que o Atlantic Council finalmente resolvesse agir através do Facebook. O Brasil parecia se encaminhar inexoravelmente para um protofascismo, o que agravaria ainda mais a rejeição ao país. Havia chegado a hora de dar uma ajuda à justiça brasileira, que começara a resistir aos avanços antidemocráticos de Bolsonaro.  Resta ver se esta mesma justiça vai manter a coragem.

Entretanto, a História do Brasil também é construída por seu povo, que precisará resistir não apenas às forças da extrema-direita que foram despertadas por Bolsonaro, mas também ao papel que a globalização lhe reservou na ordem econômica mundial, de ter sua economia calcada no fornecimento de commodities, abrindo mão de ter uma indústria avançada.  

A China mostrou caminhos que podem ser seguidos para se avançar na industrialização e construir uma nação soberana, como será visto no próximo artigo do blogue Chacoalhando.  

Notas do autor: 

¹ O termo think tank pode ser traduzido como “gerador de idéias”. Atua como um centro de estudos, em geral de natureza política, e que recebe financiamento de fontes privadas ou oficiais.  

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando (acesse o índice de artigos). 

 

 

COVID-19: Bolsonaro faz do Brasil um grande campo de extermínio

Como Bolsonaro não vai mudar drasticamente o seu rumo ele precisa sair1. #BolsonaroCrimesContraHumanidade 

 

International Criminal Court Haia
Tribunal Penal Internacional, Haia, Holanda | Foto: Reuters

A pandemia do novo coronavírus parece estar inexoravelmente levando o Brasil a uma crise humanitária de proporções ainda imprevisíveis, mas certamente catastróficas. Neste momento, em que seria imprescindível que a presidência do país fosse exercida por alguém que tivesse na vida humana o principal valor a ser preservado, acontece exatamente o contrário.

No mês de março já havia ficado evidente que a catástrofe seria inevitável, se medidas efetivas de distanciamento social não fossem então implementadas. O vídeo do biólogo Átila Iamarino disparou o alarme que chacoalhou o país, e fez com que os governadores mais lúcidos se conscientizassem do único papel que lhes cabia assumir naquele momento. Não se tratava então de ser um político de esquerda, de centro ou de direita, mas de ser a favor da vida.

Por suas palavras e atos, o presidente Jair Messias Bolsonaro “não é a favor da vida”2. Ele é a pessoa errada para conduzir o Brasil através desta crise inédita na saúde, da forma menos traumática possível. No momento em que a ciência precisa prevalecer sobre o terraplanismo, a maioria da população assiste atônita às tentativas de Bolsonaro de boicotar as medidas preconizadas pela Organização Mundial da Saúde, e também pelos melhores infectologistas do país e do mundo.

O resultado desta ação inconsequente e criminosa de Bolsonaro e seguidores, foi o aumento dos casos de contaminação com o coronavírus, e mortos pela COVID-19. O número de mortes nas comunidades de baixa renda e na população de rua já começa a atingir números alarmantes. Estes grupos não estão conseguindo acesso a leitos de UTI, onde poderiam contar com respiradores, que podem fazer a diferença entre viver e morrer.

Em 29 de março, artigos do blogue Chacoalhando e de Bernardo Mello Franco  já prenunciavam que se Bolsonaro prosseguisse com suas políticas criminosas, estaria caminhando para um indiciamento pelo TPI, o Tribunal Penal Internacional (Corte de Haia), pelo cometimento de Crimes contra a Humanidade. E ele prosseguiu.

Em 2 de abril a ABJD, Associação Brasileira de Juristas pela Democracia, entrou junto ao TPI, com uma petição  pela instauração de procedimento para averiguar o cometimento de Crimes contra a Humanidade por Bolsonaro, “por expor a vida de cidadãos brasileiros, com ações concretas que estimulam o contágio e a proliferação do vírus causador da COVID-19”.

Na mesma ocasião, o escritor paraibano Diego de Oliveira3 lançou um abaixo-assinado  na plataforma Change.org, coletando assinaturas para que Bolsonaro seja processado por Crimes contra a Humanidade. Atualmente, cerca de 120.000 pessoas já aderiram à campanha. A meta estabelecida inicialmente é chegar a 150.000 assinaturas.

Os procedimentos no TPI costumam seguir um curso pré-estabelecido que, por vezes, pode não atender à urgência exigida em determinadas ocasiões. No caso da pandemia do coronavírus, cada semana de uma política equivocada, traz como resultado dezenas de milhares de mortes, que de outra forma não ocorreriam.

A pressão de um abaixo-assinado pode não apenas contribuir para apressar ações de entidades internacionais, como também dar mais respaldo aos governadores e prefeitos para manterem medidas de isolamento social, e mesmo ampliar as restrições, caso necessário.

A pressão massiva da população poderá fazer também com que Judiciário brasileiro, incluindo o Supremo, bem como Câmara dos Deputados e Senado estejam à altura das responsabilidades que o momento exige, para não serem também considerados como cúmplices, por inação, na morte de dezenas ou mesmo centenas de milhares de brasileiros.

Amplos setores da população estão impossibilitados de fazer manifestações nas ruas, para expressar seu repúdio à forma como Bolsonaro vem conduzindo o país durante a pandemia. Restaram principalmente os panelaços e as redes sociais. Mas pode haver uma outra forma de canalizar o sentimento de indignação e impotência que está em todos que não fazem parte dos agentes da morte que estão no poder em Brasília, e de seus adeptos fanáticos.

Será que com uma adesão em massa ao abaixo-assinado do escritor Diego de Oliveira consegue-se alcançar 1 milhão de assinaturas em pouco tempo? Ou mais? Tal número de assinaturas traria certamente forte impacto, interno e externo. Para se conseguir um número de adesões na casa dos 7 dígitos, seria fundamental que blogueiros e youtubers aderissem à campanha. Vários deles proclamam ter centenas de milhares de seguidores.

Pois este é o momento de mostrarem que são realmente influenciadores digitais, passando para seus seguidores o linque do abaixo-assinado. A História se faz também por ações individuais do cidadão comum, que percebe que pode interferir no rumo dos acontecimentos.

Diego de Oliveira é uma destas pessoas. Fica aqui uma convocação a todas as pessoas sensatas e lúcidas, que venham participar desta empreitada. Para que possam depois dizer que não foram espectadores de uma tragédia anunciada, mas atores importantes de um processo histórico que conseguiu evitar a maior catástrofe da história do país. O tempo está se esgotando.

Notas do autor:

1. A frase no título foi uma resposta ao editorial da revista médica The Lancet, intitulado COVID-19 no Brasil: “E daí?”

2. Peguei emprestadas estas palavras, que escutei pessoalmente de Leonardo Boff, cerca de 30 anos atrás, em referência ao papel da Igreja Católica durante a crise de saúde resultante da ação de outro vírus, o HIV, causador da AIDS.

3. Como homenagem ao bravo escritor, fica aqui divulgado o título de seu primeiro livro “Gato Pardo – Notas sobre o inicio de uma vida ébria”, lançamento de 2014 da Editora Imprell. Diego de Oliveira está vivendo atualmente do auxílio emergencial de 600 reais, conforme publicado no Carta Capital. Fica aqui também uma campanha pela aquisição deste livro, para descobrirmos o que mais este jovem escritor tem a nos dizer.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo blogue Chacoalhando.