COVID-19: Bolsonaro faz do Brasil um grande campo de extermínio

Como Bolsonaro não vai mudar drasticamente o seu rumo ele precisa sair1. #BolsonaroCrimesContraHumanidade 

 

International Criminal Court Haia
Tribunal Penal Internacional, Haia, Holanda | Foto: Reuters

A pandemia do novo coronavírus parece estar inexoravelmente levando o Brasil a uma crise humanitária de proporções ainda imprevisíveis, mas certamente catastróficas. Neste momento, em que seria imprescindível que a presidência do país fosse exercida por alguém que tivesse na vida humana o principal valor a ser preservado, acontece exatamente o contrário.

No mês de março já havia ficado evidente que a catástrofe seria inevitável, se medidas efetivas de distanciamento social não fossem então implementadas. O vídeo do biólogo Átila Iamarino disparou o alarme que chacoalhou o país, e fez com que os governadores mais lúcidos se conscientizassem do único papel que lhes cabia assumir naquele momento. Não se tratava então de ser um político de esquerda, de centro ou de direita, mas de ser a favor da vida.

Por suas palavras e atos, o presidente Jair Messias Bolsonaro “não é a favor da vida”2. Ele é a pessoa errada para conduzir o Brasil através desta crise inédita na saúde, da forma menos traumática possível. No momento em que a ciência precisa prevalecer sobre o terraplanismo, a maioria da população assiste atônita às tentativas de Bolsonaro de boicotar as medidas preconizadas pela Organização Mundial da Saúde, e também pelos melhores infectologistas do país e do mundo.

O resultado desta ação inconsequente e criminosa de Bolsonaro e seguidores, foi o aumento dos casos de contaminação com o coronavírus, e mortos pela COVID-19. O número de mortes nas comunidades de baixa renda e na população de rua já começa a atingir números alarmantes. Estes grupos não estão conseguindo acesso a leitos de UTI, onde poderiam contar com respiradores, que podem fazer a diferença entre viver e morrer.

Em 29 de março, artigos do blogue Chacoalhando e de Bernardo Mello Franco  já prenunciavam que se Bolsonaro prosseguisse com suas políticas criminosas, estaria caminhando para um indiciamento pelo TPI, o Tribunal Penal Internacional (Corte de Haia), pelo cometimento de Crimes contra a Humanidade. E ele prosseguiu.

Em 2 de abril a ABJD, Associação Brasileira de Juristas pela Democracia, entrou junto ao TPI, com uma petição  pela instauração de procedimento para averiguar o cometimento de Crimes contra a Humanidade por Bolsonaro, “por expor a vida de cidadãos brasileiros, com ações concretas que estimulam o contágio e a proliferação do vírus causador da COVID-19”.

Na mesma ocasião, o escritor paraibano Diego de Oliveira3 lançou um abaixo-assinado  na plataforma Change.org, coletando assinaturas para que Bolsonaro seja processado por Crimes contra a Humanidade. Atualmente, cerca de 120.000 pessoas já aderiram à campanha. A meta estabelecida inicialmente é chegar a 150.000 assinaturas.

Os procedimentos no TPI costumam seguir um curso pré-estabelecido que, por vezes, pode não atender à urgência exigida em determinadas ocasiões. No caso da pandemia do coronavírus, cada semana de uma política equivocada, traz como resultado dezenas de milhares de mortes, que de outra forma não ocorreriam.

A pressão de um abaixo-assinado pode não apenas contribuir para apressar ações de entidades internacionais, como também dar mais respaldo aos governadores e prefeitos para manterem medidas de isolamento social, e mesmo ampliar as restrições, caso necessário.

A pressão massiva da população poderá fazer também com que Judiciário brasileiro, incluindo o Supremo, bem como Câmara dos Deputados e Senado estejam à altura das responsabilidades que o momento exige, para não serem também considerados como cúmplices, por inação, na morte de dezenas ou mesmo centenas de milhares de brasileiros.

Amplos setores da população estão impossibilitados de fazer manifestações nas ruas, para expressar seu repúdio à forma como Bolsonaro vem conduzindo o país durante a pandemia. Restaram principalmente os panelaços e as redes sociais. Mas pode haver uma outra forma de canalizar o sentimento de indignação e impotência que está em todos que não fazem parte dos agentes da morte que estão no poder em Brasília, e de seus adeptos fanáticos.

Será que com uma adesão em massa ao abaixo-assinado do escritor Diego de Oliveira consegue-se alcançar 1 milhão de assinaturas em pouco tempo? Ou mais? Tal número de assinaturas traria certamente forte impacto, interno e externo. Para se conseguir um número de adesões na casa dos 7 dígitos, seria fundamental que blogueiros e youtubers aderissem à campanha. Vários deles proclamam ter centenas de milhares de seguidores.

Pois este é o momento de mostrarem que são realmente influenciadores digitais, passando para seus seguidores o linque do abaixo-assinado. A História se faz também por ações individuais do cidadão comum, que percebe que pode interferir no rumo dos acontecimentos.

Diego de Oliveira é uma destas pessoas. Fica aqui uma convocação a todas as pessoas sensatas e lúcidas, que venham participar desta empreitada. Para que possam depois dizer que não foram espectadores de uma tragédia anunciada, mas atores importantes de um processo histórico que conseguiu evitar a maior catástrofe da história do país. O tempo está se esgotando.

Notas do autor:

1. A frase no título foi uma resposta ao editorial da revista médica The Lancet, intitulado COVID-19 no Brasil: “E daí?”

2. Peguei emprestadas estas palavras, que escutei pessoalmente de Leonardo Boff, cerca de 30 anos atrás, em referência ao papel da Igreja Católica durante a crise de saúde resultante da ação de outro vírus, o HIV, causador da AIDS.

3. Como homenagem ao bravo escritor, fica aqui divulgado o título de seu primeiro livro “Gato Pardo – Notas sobre o inicio de uma vida ébria”, lançamento de 2014 da Editora Imprell. Diego de Oliveira está vivendo atualmente do auxílio emergencial de 600 reais, conforme publicado no Carta Capital. Fica aqui também uma campanha pela aquisição deste livro, para descobrirmos o que mais este jovem escritor tem a nos dizer.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo blogue Chacoalhando.

COVID-19: Quem tem medo de tomar a vacina?, por Ruben Rosenthal

Enquanto o mundo anseia por uma vacina que ponha fim à pandemia, libertários de direita e conspiracionistas fazem campanha contra a imunização em massa nos Estados Unidos.

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Acredite em Deus, não nas vacinas: hashtag diga não a bill gates  \  Foto: Mario Tama/Getty Images

Nas últimas semanas, setores opostos do espectro político norte-americano vêm se opondo à vacina de proteção contra a COVID-19. Em comum, estão as críticas a Bill Gates, embora por motivos diferentes. Estes vão desde a defesa do direito do indivíduo em recusar a obrigatoriedade da vacinação, a uma teoria conspiratória de que, através da vacina, seria implantado um microchip, como parte do projeto de identificação digital ID2020, do qual a Fundação Bill e Mellinda Gates é um dos principais idealizadores.

Gates, co-fundador da Microsoft, é o segundo maior contribuinte da Organização Mundial da Saúde (OMS), através da Bill & Melinda Gates Foundation. Se os Estados Unidos deixarem de contribuir, conforme anunciado por Donald Trump, então a Fundação passaria a ser o maior doador, à frente do Reino Unido.

Contrariamente às especulações de que a China, outra grande doadora da OMS, foi o principal responsável pela eleição de Tedros Adhanom para o cargo de diretor-geral da Organização, é provável que tenha sido Gates quem exerceu o papel preponderante na escolha do microbiologista etíope.

Mas para Trump, a China é um alvo mais fácil para disparar sua artilharia, e justificar as falhas de seu próprio governo, onde críticos sensatos são afastados e aduladores são prestigiados. E as falhas não foram poucas.

Segundo artigo no Wall Street Journal de 22 de abril, o Secretário de Serviços Humanos e de Saúde norte-americano, Alex Azar, foi alertado desde 3 de janeiro pelo CDC, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças, sobre os riscos do coronavírus. Em 28 de janeiro o Secretário declarou que o vírus não traria impacto no dia-a-dia dos norte-americanos, e mesmo em 25 de fevereiro, quando o CDC alertou que já estava se preparando para uma pandemia, Azar informou à imprensa que o vírus estava “contido”.

O negacionista-mór da pandemia, Donald Trump, há poucos dias afastou o Dr. Rick Bright de seu cargo como chefe da Autoridade de Desenvolvimento e Pesquisa Biomédica Avançada, a agência governamental que está no centro dos esforços governamentais para obter um tratamento e uma vacina para o coronavírus. O cientista acredita que foi removido de sua função por ter insistido em impor limites ao uso da hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19, contrariando a Trump.

O afastamento do Dr. Rick Bright pode enfraquecer o papel da agência governamental que ele chefiava, em um momento crucial da busca por uma vacina para a prevenção da COVID-19. Neste contexto, cresce a relevância de entidades privadas como a Fundação Bill & Melinda Gates, o que deverá acirrar os ataques contra Gates, vindos de negacionistas da pandemia e da vacina, bem como dos adeptos de teorias conspiratórias.

Um dos principais projetos em que a Fundação está envolvida, já há alguns anos, é o da Aliança Global pelas Vacinas e Imunização, GAVI, na sigla em inglês.  O objetivo declarado da Aliança é o de “ajudar a vacinar a metade das crianças do mundo contra doenças infecciosas debilitantes e mortais”. Nas palavras de Bill Gates, “todas as vidas tem igual valor, …. não importa se ricas ou pobres”.

Vacina Gavi
Parceiros na Aliança Global pelas Vacinas e Imunização, GAVI

Os principais parceiros desta aliança incluem, além da Fundação Bill & Melinda Gates, a OMS, UNICEF, Banco Mundial. GAVI tem como doadores, diversos países e fundações privadas. Colaboram também, ONGs, fabricantes de vacinas, e institutos de pesquisa. Dentro do programa, a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) já produziu vacinas de baixo custo, através de parceria com a Fundação Bill & Mellinda Gates.

Para que se possa entender melhor a demonização de Bill Gates, falta abordar o “projeto ID2020”, também de iniciativa de sua Fundação. Em 2018, a “Aliança de Parceiros pelo ID2020”, em associação com o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR), lançou o Manifesto da Aliança ID2020, que argumenta em favor de uma identidade digital.

“Para enormes contingentes de refugiados, apátridas e outros grupos marginalizados, não é possível se recorrer a sistemas de identificação nacionais. Alguma forma alternativa necessita ser fornecida a estes indivíduos, para que possam acessar de forma segura e confiável os sistemas dos Estados. E que isto possa ser feito através de uma forma confiável, que possa ser verificada de forma física e online.”

Em setembro de 2019, a Aliança ID2020 realizou sua reunião de cúpula anual em Nova York. Na ocasião foi anunciado o lançamento de um programa de identidade digital entre o Governo de Bangladesh e GAVI, a Aliança pela Vacina.

“Reconhecendo a oportunidade que a imunização oferece para servir como plataforma para a identidade digital, o programa alavanca as operações de vacinação e de registro de nascimento, para oferecer aos recém-nascidos, uma identidade digital com associação biométrica, duradoura e portável.”

Em relação à biometria de crianças, o UNICEF, em associação com o Banco Mundial, já emitira dois documentos com diretrizes para uso biometria em crianças, alertando para certos riscos envolvidos. O UNICEF argumenta que a tecnologia biométrica, como no caso do reconhecimento facial, foi inicialmente projetada para uso em adultos, tornando-se mais sujeita a erros de reconhecimento quando usada em crianças, podendo ainda trazer “impactos negativos em comunidades vulneráveis”.  

A biometria se aplicaria a medidas faciais, impressões digitais, íris, impressões dos pés e das mãos. Ainda segundo o UNICEF, o uso destas tecnologias em crianças com menos de 5 anos de idade ainda requer mais pesquisas.

A associação da campanha de vacinação da GAVI com o programa de identificação digital contribuiu para alimentar teorias conspiratórias, e que podem interferir na questão do controle da pandemia e prevenção da COVID-19.

Este é, basicamente, o pano de fundo a partir do qual se alimentam as campanhas contra a vacinação em massa contra o coronavírus. Vamos ver como, nos Estados Unidos, os negacionistas da alta mortalidade do SARS-CoV-2, e adeptos de teorias conspiratórias,  fizeram de Bill Gates e seu projeto de desenvolver uma vacina para combater a pandemia, um alvo preferencial de suas críticas.

O negacionismo da pandemia e da vacinação. Um dos principais opositores da vacinação compulsória é o médico e ex-congressista Ron Paul, que através do Instituto que leva seu nome, dá voz a negacionistas, que comparam o número de vítimas fatais da atual pandemia à media de vítimas das gripes comuns no país.

Ron Paul faz parte dos libertários de direita nos Estados Unidos. Há menos de cinco anos ele estava bem alinhado com as teses do think tank Atlas Network1, um dos epicentros do ultraliberalismo no país, tendo se apresentado em 2015 como palestrante na Oitava Conferência do International Students for Liberty, entidade à qual o MBL estava ligado.

No entanto, em 2017, Ron Paul já renegara seu envolvimento anterior com a Atlas Network, reconhecendo o envolvimento da entidade na deposição de Dilma Roussef, ao afirmar que o MBL, de Kim Kataguiri, atuou segundo as instruções de Alexander Chafuen, o CEO da Atlas.  Paul denunciou também o envolvimento da Atlas com o lobby do tabaco2.

Mesmo se tornando crítico do principal think tank do ultraliberalismo norte- americano, Ron Paul continua a adotar uma política  de “libertarianismo de direita”, por vezes se alinhando com as posições de Trump. Ele é condescendente com o presidente em relação a algumas políticas, com a justificativa que os presidentes do país não conseguem suportar as pressões do “Deep State”.

Através de artigo na página de seu Instituto, Ron Paul questiona se as medidas adotadas em busca da cura não estão trazendo mais malefícios que a própria doença, por prejudicarem os negócios e trazerem desemprego. Ele defende ainda que os governos não têm o direito ou autoridade para definir que atividade é “essencial”.

Em alinhamento com a política disruptiva de Trump de solapar a quarentena, Paul dá força para as manifestações de protesto que se espalham pelo país, contra o que ele denomina de “prisão domiliciar”.

rifles de assalto Arizona capital
Manifestantes contra a quarentena com rifles de assalto, capital do Arizona \  Foto: Ross D. Franklin/AP

Agora Ron Paul investe contra a vacina para combater o coronavírus, alertando que as pessoas deveriam ficar “cautelosas” sobre a futura vacina. Ele alega que táticas de amedrontamento” estão sendo usadas para colocar pressão sobre as pessoas, para convencê-las de que deveriam se vacinar”. Em entrevista em áudio, Ron Paul declarou que Bill Gates  quer dominar o mundo através da vacinação compulsória3.

A dominação do mundo por Bill Gates é o elo de ligação entre negacionistas da pandemia e da vacinação compulsória da população, com os adeptos de teorias conspiratórias, de que um microchip ou cápsula será introduzido na vacina, e que supostamente possibilitaria formas de controle sobre as pessoas.

As teorias conspiratórias. Segundo a Agência Reuters, a teoria conspiratória surgiu a partir da deturpação de uma entrevista de Gates à rede de comunidades Reddit, e se espalhou em milhares de postagens pelo Facebook e TwitterNa entrevista ao Reddit, do tipo perguntas e respostas, Gates fez menção de que pode prever o uso de “certificados digitais associado à fichas clínicas”.   

Os boatos de implantação de chips surgiram a partir de 19 de março, com uma publicação no site Biohackinfo intitulada “Bill Gates irá usar implantes de microchips para combater o coronavírus”. O artigo acrescenta que, atualmente, a forma mais eficaz de implementar a identidade digital seria através de implantes de microchips, com identificação por radio-frequência. Entretanto, em nenhum momento da entrevista ao Reddit, Gates mencionou o uso de microchips implantados, seja no projeto do ID2020 ou na vacinação contra a COVID-19.

O artigo no Biohackinfo menciona um fato verídico, que é a tecnologia do “quantum dot dye” (corante ou tatuagem de ponto quântico), desenvolvida no prestigioso MITMassachusetts Institute of Technology.  O texto associa esta tecnologia aos certificados digitais a que Gates se referiu no projeto ID2020, para possibilitar que populações marginalizadas possuam documentos de identidade confiáveis. 

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Vacinação com microagulhas e implantação dos pontos quânticos \ Créditos: Second Bay Studios

Kevin McHugh, da Rice University, Texas, e especialista em bioengenharia, participou como co-líder na pesquisa do “quantum dot dye”, quando estava do MIT. Ele explicou em boletim técnico da Universidade de Rice, que pontos quânticos fluorescentes feitos de cobre são aplicados no corpo humano através de microagulhas de açúcar, contendo a vacina. As agulhas se dissolvem sob a pele, deixando os pontos quânticos encapsulados. O padrão dos pontos pode ser lido, para identificar qual vacina foi aplicada.

McHugh acrescenta que foi, de fato, procurado pela Fundação Bill & Mellinda Gates, que buscava formas de tornar mais efetivo o controle do histórico de vacinação de crianças. Não seria tão surpreendente, portanto, se a “tatuagem de pontos quânticos” estiver sendo considerada nos planos de Gates para o projeto de identificação digital ID2020, mas o aspecto ético deveria passar por ampla discussão prévia.

Segundo o Biohackinfo, alguns setores religiosos fundamentalistas se opõem à certos procedimentos  invasivos do corpo, mesmo se for para prevenir uma terrível pandemia. No caso de alguns grupos cristãos, esta rejeição se dá por acreditarem que estas novas tecnologias de identificação estariam associadas à chamada “marca de satã”, mencionada na Bíblia.

Enquanto isto, em uma aldeia no interior de Bangladesh, crianças estão sendo vacinadas no projeto da GAVI, e recebendo “certificados digitais” do ID2020. Serão elas precursoras de um “Admirável Mundo Novo”. Será utópica esta sociedade futura, ou distópica como no livro de Aldous Huxley?

Cidadãos norte-americanos estão sendo colocados diante de um dilema shakespeariano: “Tomar ou não tomar a vacina contra o coronavírus, eis a questão”. Mas a verdadeira decisão pode ser colocada de forma objetiva: “O valor da vida é maior que princípios (abstratos ou não) de liberdade, e que seus medos (infundados ou não) de ser constantemente controlado por alguma organização ou governo?” 

Notas do autor:

1. O ativismo da Atlas Network em prol do ultraliberalismo foi assunto de matéria anterior no blogue. 

2. O lobby internacional do tabaco foi abordado em artigo anterior. 

3. As acusações de dominação do mundo através de vacinas, feitas por Ron Paul a Bill Gates, foram também extensivas ao imunologista Anthony Fauci, que faz parte da força tarefa da Casa Branca de combate ao coronavírus, e uma das poucas mentes lúcidas na administração Trump.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo Blogue Chacoalhando.

COVID-19 e Cloroquina: Didier Raoult, quando o passado condena.

O médico chegou a ser afastado por um ano da Sociedade Americana de Microbiologia, pela acusação de ter adulterado resultados de pesquisa.

charge For Better Science
Charge por Leonid Schneider:  For Better Science

O título do artigo evoca algum filme moralista roliudiano antigo, mas é apropriado para se referir ao médico francês. No caso, um passado com acusações de adulteração de resultados de várias pesquisas, em busca do prestígio e de “l’argent” (dinheiro), que acompanha a fama. Raoult também foi acusado de acobertar agressões sexuais ocorridas em seu instituto de pesquisa.

Didier Raoult, 68, é diretor desde 2008, da Unidade de Pesquisa em Doenças Emergentes Infecciosas e Tropicais (URMITE, na sigla em francês), ligada à Faculdade de Medicina da Universidade de Aix-Marseille. Seu laboratório emprega mais de 200 pessoas, incluindo 86 pesquisadores, que publicam cerca de 300 trabalhos por ano, e já produziram mais de 50 patentes, segundo consta em seu perfil na Wikepedia. Este renomado médico está agora no centro da controvérsia sobre o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, no tratamento da COVID-19.

A cloroquina, obtida da casca da árvore da chinchona, e seu derivado, a hidroxicloroquina, em associação com o antibiótico azitromicina, podem ter efeito no combate ao Sars-CoV-2, o novo coronavírus. Esta atuação se dá através da inibição de um processo chamado glicolisação, que é uma transformação química de proteínas na camada mais externa do vírus, a qual participa do processo de infecção. Pesquisadores chineses fizeram cerca de meia dúzia de testes randômicos dos dois produtos, obtendo resultados supostamente1 promissores.

Tendo isto em mente, Didier Raoult  e co-autores, publicaram no início de março, uma pré-impressão2 no International Journal of Antimicrobial Agents, mostrando estudos in vitro (sem pacientes) com a cloroquina e hidroxicloroquina. Com base neste artigo, Raoult recomendou, não apenas pesquisas com humanos, mas, também, o início do uso clínico das drogas.

A história teve mais alguns desenvolvimentos, até se chegar à divulgação pela Fox News, ao tuíte de Trump, e ao desaparecimento da cloroquina das farmácias de todo o mundo. Mas diversas dúvidas foram levantadas sobre falhas na pesquisa realizada por Raoult e seu grupo, por não terem sido adotadas as metodologias necessárias nestes casos, para validação das pesquisas.

Também  foram feitas críticas, de que os autores omitiram resultados do 14o dia da pesquisa , bem como se recusaram a compartilhar dados de interesse adicional, como a efetividade  do tratamento no tempo até a ausência de febre, na normalização da taxa respiratória, na mortalidade e no tempo médio de permanência no hospital.

Didier Raoult defendeu sua pesquisa: “Eu nunca fiz estudos randomizados….O efeito dessa coisa randomizada talvez possa funcionar com pessoas que tenham infarto do miocárdio, mas não faz sentido para doenças infecciosas”. Em um artigo de opinião no Le Monde, ele escreveu que “um médico pode e deve pensar como médico, e não como alguém obcecado com a metodologia”.

No entanto, Françoise Barré-Sinoussi, cientista ganhadora do Prêmio Nobel de 2008, por sua participação na descoberta do vírus da AIDS, declarou ao Le Monde  que é “uma questão de ética, não dar falsas esperanças”. Barré-Sinoussi faz parte de um comitê de doze pesquisadores e médicos que aconselham o governo francês, no que concerne aos tratamentos da COVID-19.  

 No Brasil, mais que um embate entre esquerda e (extrema) direita, a polêmica colocou de um lado, bolsonaristas e seus apoiadores nas mídias sociais, e de outro, “seus inimigos”, que atualmente englobam todos aqueles que defendem que as posições da OMS precisam ser seguidas à risca.

Um exemplo da mídia bolsonarista é o blogue Brasil sem Medo. Artigo do correspondente em Portugal, o “olavista” Brás Oscar, fez a defesa incondicional de Didier Raoult. O artigo relata que Raoult, na defesa do tratamento de coronavírus com a cloroquina, “teve que enfrentar o lobby político da comunidade médica parisiense e a ditadura da metodologia, para salvar a vida de seus pacientes”. 

Mesmo com todos os questionamentos à validade de sua pesquisa, Raoult foi alçado para a fama mundial. Mas, como toda celebridade, ele ficou mais exposto ao holofotes da mídia e ao escrutínio de sua carreira. A vida pregressa do médico foi examinada, e foram levantadas acusações sobre sua conduta anterior, tanto científica como moral.

A matéria que se segue foi em parte obtida do artigo de Leonid Schneider, publicado em seu site For Better Science, em 26 de março.  Schneider se apresenta como um jornalista científico e cartunista (ver charge no começo deste artigo), com formação em biologia celular e molecular.

O artigo de Schneider já havia sido publicado na íntegra, no original em inglês, pelo GGN, em artigo que questionava já no título se Raoult é “gênio ou um embusteiro”. O Chacolhando irá mostrar agora porque o passado pode condenar Raoult. 

A maioria dos leitores pode não estar afinada com o conhecimento científico específico em microbiologia e infectologia, mas certamente entende de tratamento digital de imagens, e saberá reconhecer quando uma imagem foi adulterada com Photoshop ou técnica similar.

O artigo de Leonid Schneider relata diversas fraudes que teriam sido cometidas ao longo dos anos, nos artigos científicos publicados por Raoult e co-autores. Indicações da provável ocorrência de fraudes,  só puderam ser recentemente expostas, através dos esforços de Elisabeth Bik, que examinou a fundo várias publicações anteriores de Raoult. 

Elisabeth Margaretha Bik, PhD, tem especialização em pesquisa de microbiomas, e atua como consultora independente em integridade científica. Em outras palavras, ela é uma “caçadora de cientistas picaretas”. Seu currículo inclui cargos anteriores em diversas instituições científicas, tendo sido por 15 anos “Associada em Pesquisa do Departamento de Microbiologia e Imunologia da Escola de Medicina, da Universidade de Stanford”. Apresentadas as credenciais de Bik, vamos ver os resultados do exame com lupa, a que ela submeteu alguns dos inúmeros trabalhos publicados por Didier Raoult.

Bik encontrou indicações de fraude em um trabalho de 2001, publicado no periódico científico, Infection and ImmunityAs setas delineiam áreas com tonalidade diferente no entorno de células, que sugerem que as mesmas foram copiadas e coladas digitalmente, ou seja, teria sido utilizado o conhecido recurso do Control C Control V, bem conhecido por alunos que não querem fazer direito os trabalhos escolares, e preferem plagiar. Mas, pelo visto, o recurso também é usado por alguns cientistas. 

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Imagens adulteradas indicadas pelas setas:  periódico Infection and Imunity

Bik também levantou suspeitas de alterações de imagens em um trabalho de 2005, publicado no Journal of Clinical Microbiology. A consultora comenta suas críticas no PubPeer, um site da Web que possibilita a discussão pela comunidade científica de artigos já publicados, chamando a atenção para a semelhança de algumas faixas verticais, e que apenas diferem em tonalidade. No caso, as faixas delimitadas por retângulos de mesma cor tiveram a tonalidade alterada, através de um tratamento de imagem.

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Imagens alteradas na tonalidade:  periódico Journal of Clinical Microbiology

Em outro caso, um artigo de 2013 sobre um estudo do efeito de salmonela em ratos, publicado em  PLOS Pathogens, uma faixa de gel foi copiada três vezes (ver retângulos vermelhos). As setas verdes indicam faixas com evidências de manipulações adicionais da imagem, percebidas pelo apurado exame de Elisabeth Bik, que apresentou um comentário crítico no Pubpeer. Um dos co-autores, Stéphane Méresse, se desculpou: “esta imagem jamais deveria ter sido publicada”, mas não explicou como foi possível que o erro  fosse cometido por acidente.

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Adulteração das imagens de faixas de gel: periódico PLOS Pathogens

Em outro artigo em que Raoult é co-autor, publicado em 2016 no American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, percebe-se claramente a alteração de resultados. Nas imagens obtidas por imunofluorescência, para detectar a bactéria borrelia crocidurae, é bem visível a intervenção nas imagens, conforme indicado pelas áreas delineadas com uma mesma cor, revelando uma montagem feita com repetição de imagens. A farsa é tão evidente, que não há como deixar de questionar se o artigo passou pelas mãos de um revisor ou de uma criança de cinco anos.

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Imagens adulteradas: periódico American Journal of Tropical Medicine and Hygiene

Mais recentemente, em artigo publicado no Comparative Immunology, Microbiology and Infectious Diseases, uma imagem obtida pela técnica de western blot 2D, foi levemente escurecida e reutilizada novamente para uma nova bactéria, conforme se observa na comparação das fotografias delimitadas em vermelho. 

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Diferentes bactérias representadas pela mesma imagem em B e E: periódico Comparative Immunology, Microbiology, and Infectious Diseases

Em março de 2012, a revista Science publicou a matéria Sound and Fury in the Microbiology Lab, abordando “as conquistas científicas de Raoult”, em que ele é enaltecido como sendo o microbiologista francês mais produtivo. Entretanto, embutidas neste artigo de celebração, estavam descrições de falta de integridade científica da parte dele. Um dos pesquisadores contactados pela Science revelou que, só sob anonimato, concordaria em falar sobre Raoult, por receio de retaliações, e “ter sua carreira prejudicada pela influência do diretor da URMITE”.

A Science relatou que o revisor de um trabalho sobre tifo, de 2006,  enviado por Raoult ao jornal Infection and Immunity, e publicado pela American Society for Microbiology (ASM), descobriu que “quatro das figuras em um manuscrito revisado eram idênticas à figuras no manuscrito original, embora devessem descrever um experimento diferente”. 

No mês seguinte, a Science publicou uma errata, em que reconhecia que cometera uma falha, e que a crítica se referia a “uma única figura do manuscrito revisado, e não a quatro”.  Raoult se defendeu perante a Science: “Eu não lidei com o artigo, nem mesmo chequei a versão final”. 

Ainda segundo o relato na Science, dois dos co-autores, Christian Capo e Jean-Louis Mège, em cartas a ASM disponibilizadas por Raoult, aceitaram “completa responsabilidade” pelo ocorrido, e alegaram que se tratara de um equívoco inocente. Após consultar sua comissão ética, a ASM baniu todos os cinco autores, incluindo Raoult, de publicarem em seus periódicos por um ano, por “se considerar não satisfeita com as explicações fornecidas: a representação errada de dados … é uma afronta à conduta ética da pesquisa científica”.

Raoult escreveu para a ASM e alegou ter sido “uma vítima colateral de uma sanção coletiva”. Ele apelou do banimento, mas perdeu. “Furioso”, proibiu que membros de seu laboratório submetessem trabalhos para publicação pela ASM, onde ele já publicara 230 artigos. Além disto, cancelou a filiação na American Academy of Microbiology. Mas sua carreira não pareceu ter sido muito abalada pelo ocorrido, segundo o artigo da Science

Mas as críticas a Didier Raoult não se limitam ao campo científico. Em março de 2017, doze membros técnicos da unidade de pesquisa da URMITE, chefiada por Raoult, denunciaram condições de trabalho inaceitáveis, ​​e pediram por mudanças radicais que pusessem fim a uma situação “insuportável e degradante”. O comunicado foi feito pela FERC, a Seção Sindical de Educação, Pesquisa e Cultura da Confederação Geral do Trabalho. Também foi mencionado que denúncias de assédio sexual estavam sob investigação.

As denúncias de assédio e agressão sexual foram expostas, ainda em 2017, em artigo publicado no Marsactu, um jornal investigativo de Masseille, de propriedade de seus sete jornalistas. Foi revelado que uma das vítimas relatou que sofrera assédio sexual ao longo de sete anos, que consistiu de “observações com conotações sexuais, piadas de natureza sexual e observações sexistas”.

Outras quatro mulheres, que alegaram ter sido vítimas de atos de assédio sexual, também relataram “assédio moral, na forma de repetidas críticas a sua atividade, insultos e pressões, inclusive diante de colegas”, relatou o Marsactu. Como resultado das denúncias, um diretor de pesquisa foi demitido do serviço público, pelo comitê disciplinar do CNRS, o Centro Nacional de Pesquisa Científica. 

A CGT declarou que o diretor da URMITE não comunicou a seus superiores, por dois anos, os atos de assédio, e que ele pretendia demitir uma das vítimas. Uma estudante de pós-graduação teria sido ameaçada de não completar sua tese, caso fizesse denúncias, ainda segundo o Marsactu.

O médico negou as acusações contra si, bem como qualquer responsabilidade nos casos de assédio, alegando que a vítima tinha o “dever” de ter comunicado de imediato os casos de assédio. Ainda segundo Raoult, os fatos descritos não ocorreram dentro seu Instituto, mas “em uma ala distante da faculdade de medicina”. 

As acusações contra Didier Raoult são muito graves, e comprometem fortemente sua imagem, não apenas como um pesquisador íntegro, mas também em questões morais. Durante anos, pequenas fraudes que teriam sido cometidas nos artigos científicos puderam passar razoavelmente despercebidas. Então, quando ele se colocou sob o holofote da mídia, Elisabeth Bik entrou no jogo, revelando os truques de Raoult com as cartas.

Isto não quer dizer que a cloroquina, e seu derivado hidroxicloroquina, não possam vir a ter a efetividade comprovada no combate à COVID-19 em casos específicos, e sob estrito acompanhamento médico, devido aos efeitos colaterais. As pesquisas em andamento em vários laboratórios, adotando as metodologias requeridas, irão trazer a resposta em alguns dias.

Se tudo não tiver passado de um blefe, a aposta alta poderá significar o fim da carreira de Didier Raoult. Mas se os testes recomendarem o uso destes produtos, todos os pecados anteriores serão perdoados.  

Notas do autor:

1. Trabalho publicado por pesquisadores de três universidades do Reino Unido, na plataforma Zenodo, contestou as afirmações contidas no trabalho original de Raoult e co-atores, publicado no International Journal of Antimicrobial Agents, de que ocorreram resultados positivos na experiência clínica inicial, conduzida com pacientes chineses acometidos pela COVID-19, que foram tratados com a cloroquina.

2. A pré-impressão digitalizada de um trabalho científico dispensa a aprovação prévia formal por um grupo especializado de revisores, possibilitando a rápida troca de informações entre os cientistas, necessária em casos de epidemias.

O autor é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo Blogue Chacoalhando.

COVID-19: Estados Unidos aprovam métodos de desinfecção de máscaras N95 usadas. E a Anvisa?

Com Trump abocanhando as encomendas de EPIs vindas da China, Mandetta precisará adotar rapidamente a descontaminação de máscaras N95 para preservar os estoques. Resta decidir o método.

polícia usando máscaras na epidemia de 1918 time life pictures getty images
Polícia de Seattle durante a pandemia de influenza em  1918  | Foto: Time Life Pictures / Getty Images

Com o aumento da pandemia causada pelo coronavírus, a administração Trump exigiu no início de abril, através da Agência Federal de Manejo de Emergências (FEMA), que a 3M pare de exportar máscaras N95 produzidas no país para o Canadá e América Latina. Fazendo uso da Lei de Defesa da Produção, o presidente também determinou que a 3M priorizasse a exportação para os Estados Unidos, das máscaras N95 produzidas pela empresa em outros países, em particular na China. 

Em um comunicado emitido, a empresa declara que já vem colaborando para atender às encomendas do governo norte-americano, e que conseguiu a aprovação da China para a exportação de 10 milhões de máscaras. Ressalta também que implicações humanitárias significativas resultariam da interrupção dos fornecimentos de máscaras ao Canadá e América latina, e que retaliações já estão ocorrendo. Mas, a 3M indica se curvar aos desígnios de Trump, ao declarar que “anseia trabalhar em proximidade com a Administração, para implementar as determinações da Lei de Defesa da Produção”.

Desta forma, Trump conseguiu que equipamentos de proteção individual (EPIs), já adquiridos e pagos por vários países, incluindo Canadá, Alemanha e Brasil fossem desviados para os EUA. Em outros casos, os Estados Unidos ofereceram preços mais altos para garantir os fornecimentos, conforme reclamação dos franceses, relatou o The Guardian.

Para a China ter favorecido seu rival na disputa da hegemonia econômica global, deve existir provavelmente um preço que Trump precisará pagar, no momento devido. Que o Brasil tenha sido preterido, podemos colocar na conta de Eduardo Bolsonaro e alguns  membros da trupe bolsonarista, que se comportam como anencéfalos. Neste grupo, inclui-se o ministro da educação, Abraham Weintraub, a quem lamentavelmente estão subordinados os Hospitais Universitários federais.

Não adianta agora espernear, e sim, partir para encontrar soluções que possam garantir as necessidades dos profissionais de saúde no Brasil, conforme os estoques de máscaras N95 e similares estão praticamente esgotados. As soluções dificilmente virão das hostes bolsonaristas.

Em 27 de março, antes mesmo do “sequestro” pelos EUA, das encomendas já pagas, e do banimento das exportações oriundas deste país, o governador Dória já havia se dado conta da importância estratégica de garantir um estoque de EPIs para os hospitais de São Paulo e, simplesmente requisitou “na marra”, os estoques de máscaras da 3M da fábrica em Campinas.

O Ministro da Saúde do Brasil se encontra agora na situação de precisar garantir o fornecimento das máscaras do tipo N95 (ou equivalentes),  usadas pelo pessoal da saúde. Estas máscaras garantem  eficiência de filtração mínima de 95% das partículas maiores que 300 nanômetros1. A explicação para esta eficiência é que, mesmo com o vírus do SARS-CoV-2 tendo um tamanho que varia de 80 a 120 nanometros, ele “viaja” em partículas de tamanho acima de 600 nm, provenientes do trato respiratório dos pacientes. 

De fato, os relatos são de que  as máscaras N95 tem oferecido segurança aos profissionais de saúde que vêm atuando em procedimentos com risco de geração de aerossóis, durante o atendimento de pacientes suspeitos ou confirmados de infecção pelo novo coronavírus. 

médico com máscara n95
Máscara recomendada para proteção dos profissionais de saúde contra o coronavírus  |  Foto: Reprodução

Uma possibilidade para suprir a atual carência de máscaras é que a indústria nacional se engaje na produção em massa do “genérico” da máscara N95 ou de seus equivalentes (a FFP2 européia, DS japonesa, P2 australiana, ou Korea 1st class), o que não deve representar nenhuma dificuldade tecnológica. Se for necessário quebrar uma patente, que se faça isto.

Por outro lado, é preciso estender a duração dos atuais estoques. O ministro se deu conta que é imprescindível adotar procedimentos de esterilização das máscaras N95, para que as mesmas possam ser reutilizadas por um período maior, com mínimo risco para o profissional de saúde. O blogue Chacoalhando já havia alertado para esta necessidade desde o dia 24 de março, em artigo que tratou da desinfecção de máscaras com uso de luz ultravioleta, e que foi republicado pelo GGN.

Na ocasião da publicação, a Sociedade Brasileira de Infectologia, e outros agentes relevantes, foram diretamente alertados da necessidade de ser implementada a técnica de desinfecção das máscaras com uso da  luz ultravioleta, que fora recentemente aprovada em testes realizados pelo Centro Médico da Universidade de Nebraska.

O ministro precisa agir de imediato, em face do agravamento da situação. Para tanto será necessário que a Anvisa altere com presteza os procedimentos que estabeleceu para a reutilização de máscaras (que serão apresentados neste artigo), e que não incluem a desinfecção.

A Anvisa, embora esteja vinculada ao Ministério da Saúde, tem seu diretor-presidente indicado pelo presidente da República. Encontra-se à frente da instituição, o médico e contra-almirante Antonio Barra Torres, um bolsonarista de carteirinha. Trata-se da mesma pessoa que estava ao lado de Bolsonaro, quando este, supostamente infectado com o coronavírus, foi cumprimentar (e contaminar?) seus admiradores na porta do Palácio Alvorada.

Resta saber se Torres vai colaborar ou boicotar a iniciativa do ministro Mandetta. Bolsonaro, com fins inconfessáveis, vem investindo na política do caos, do quanto pior melhor, e não seria surpresa se fossem colocados empecilhos à rápida implementação dos procedimentos de desinfecção.

Se isto acontecer, Torres precisará ser afastado, mesmo que à revelia de Bolsonaro, para que Mandetta possa escolher alguém com quem possa ter uma relação de trabalho proveitosa a frente da Anvisa. Ou então, que os governadores de Estado determinem que os hospitais que dispõem de condições para realizar os procedimentos necessários de desinfecção, sigam os protocolos adotados no exterior, mesmo em desobediência à agência reguladora nacional. Isto deve necessariamente incluir também os Hospitais Universitários federais, também à revelia de Weintraub, se preciso for.

A desobediência civil é necessária quando há vidas em jogo. Os administradores do Centro Médico da Universidade de Nebraska, que desenvolveram o protocolo para uso da radiação UV na esterilização de máscaras, estavam na ocasião dispostos a desafiar as normas vigentes, para implementar o procedimento, segundo artigo no New York Times. 

Isto não foi no entanto necessário, pois o CDC, Centros de Prevenção e Controle de Doenças  dos Estados Unidos, considerou a situação emergencial, e aceitou o uso dos métodos mais promissores para a descontaminação das EPIs, que são a irradiação UV germicida, o vapor de peróxido de hidrogênio e o calor úmido.  O documento do CDC apresenta alguns detalhes técnicos de diversas metodologias de desinfecção.

A reutilização de máscaras N95 sem desinfecção prévia. Em 31 de março, a Anvisa atualizou a Nota Técnica GVIMS/GGTES/ANVISA Nº 04/2020, com orientações aos serviços de saúde das medidas de prevenção e controle, para lidar com a pandemia causada pelo  SARS-CoV-2, o novo coronavírus.

“Se as máscaras forem usadas por período maior ou por um número de vezes maior que o previsto pelo fabricante, elas podem não cumprir os requisitos para os quais foram certificados”. Apesar desta especificação do fabricante, a Anvisa determinou que, “com o aumento da demanda causada pela emergência de saúde pública da COVID-19, as máscaras de proteção respiratória (N95 ou equivalente) poderão, excepcionalmente, ser usadas por período maior, ou por um número de vezes maior que o previsto pelo fabricante, desde que sejam utilizadas pelo mesmo profissional e que sejam seguidas, minimamente algumas recomendações”.

“Com objetivo de minimizar a contaminação da máscara N95, se houver disponibilidade, o profissional de saúde deve utilizar um protetor facial (face shield), pois este equipamento protegerá a máscara, do contato com as gotículas expelidas pelo paciente.” Foi ainda recomendado pela Anvisa, que “o profissional de saúde não use uma máscara cirúrgica sobreposta à máscara N95, pois além de não garantir proteção de filtração ou de contaminação, pode também levar ao desperdício de mais um EPI”.

Em 26 de março, a vigilância sanitária do Distrito Federal emitiu uma nota, em que também tratou de recomendações para reutilização das máscaras N95. Diferentemente da Anvisa, o órgão do DF não opôs restrição ao uso de uma máscara cirúrgica sobre a máscara N95, como alternativa ao uso de um protetor facial.

A Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia se manifestou sobre a questão da reutilização das máscaras, em face da escassez de EPIs. A recomendação é que os profissionais da área da saúde em contato com pacientes com diagnóstico firmado de COVID-19, ou casos suspeitos, utilizem as máscaras N95 com uma máscara cirúrgica sobreposta à mesma, sendo esta de uso único.

A SBPT acrescentou ainda, que a N95 pode ser reutilizada por no máximo 15 dias, desde que esteja em bom estado de conservação. Ressalta, no entanto, que “esta sugestão baseia-se apenas na opinião de especialistas, carecendo ainda de comprovação por estudos científicos adequados”.

Ao contrário do uso do protetor facial, parece não haver consenso sobre se a utilização de uma segunda máscara, sobreposta a N95, traria algum benefício. Entretanto, nenhuma destas instituições garantiu que o profissional não será infectado, mesmo fazendo uso de uma dupla proteção, caso reutilize sua máscara N95 diversas vezes.

A reutilização de máscaras N95 com desinfecção prévia. Nos Estados Unidos, dois procedimentos de desinfecção já estão sendo utilizados, e serão apresentados a seguir. O ministro Mandetta precisará provavelmente optar por um destes dois métodos, se for adiante com a implementação desta medida, que ajuda a prolongar a duração do estoque, ao mesmo tempo que concede uma segurança maior ao profissional de saúde.

Uso de radiação ultravioleta. Um protocolo para uso da luz UV na esterilização de máscaras foi desenvolvido pelo Centro Médico da Universidade de Nebraska, conforme relatado em artigo anterior do Blogue, e já atraiu o interesse de outras entidades de saúde norte-americanas.

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Uso de luz UV na desinfecção de produtos hospitalares, Centro Médico da Universidade de Nebraska  | Créditos: Calla Kessler  / The New York Times

Como já foi mencionado no atual artigo, o uso da técnica de descontaminação de máscaras usando UV foi aprovado pelo Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC). O dr. John Lowe, que estabeleceu o protocolo de desinfecção, pode ser visto neste vídeo do Youtube. O método poderia ser facilmente utilizado no Brasil, pois diversas unidades de saúde no país já utilizam esta metodologia para outras aplicações de desinfecção.

A equipe da Universidade de Nebraska declarou que ficou satisfeita com os resultados obtidos, no que diz respeito a diversas reaplicações da radiação UV. A pesquisa  teve prosseguimento, para se determinar o número máximo de ciclos de descontaminação possível, sem causar danos às máscaras.

Uso de vapor de peróxido de hidrogênio. Em 29 de março, o Battelle Memorial Institute, Columbus, Ohio, recebeu autorização emergencial da FDA, Food and Drug Administration, para adotar a metodologia de esterilização de máscaras N95 contaminadas pelo SARS-CoV-2, usando vapor de peróxido de hidrogênio. Quando em solução aquosa, o produto é conhecido popularmente como água oxigenada.

Este procedimento de desinfecção de máscaras contaminadas por microorganismos já vinha sendo adotado pelo Battelle, desde 2016. Em 2015, o Instituto realizou um estudo encomendado pela FDA, para verificar a possibilidade de descontaminação de máscaras N95 (ou similares) para reutilização, no “evento de falta do produto em face de uma pandemia”. Como agente patógeno, foram utilizados no estudo, esporos de geobacillus stearothermophilus.

O Relatório Final mostrou que, mesmo após a realização de 20 ciclos de descontaminação, as máscaras mantiveram 99% de efetividade na filtração do agente patógeno testado, sem causar degradação da tiras elásticas. Após 30 ciclos, conforme consta no relatório, as tiras das máscaras ficaram danificadas.

Recentemente, a técnica foi testada para o novo coronavírus, os resultados revelando que o “Sistema de Descontaminação de Cuidado Crítico (CCDS)”  foi efetivo na desinfecção da N95, mantendo a integridade da máscara por até 20 ciclos. A câmara pode receber até 5.000 máscaras por vez, num total de 80.000 por dia.  Máscaras contendo fluidos (sangue) do paciente não podem ser reaproveitadas.

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Câmara de descontaminação por vapor de peróxido de hidrogênio | Foto: cortesia Battelle Memorial Institute 

É também mencionado na instrução anterior do Instituto, que “organizações externas” indicaram que outros métodos de desinfecção, como calor úmido, vapor gerado por micro-ondas, e irradiação ultravioleta germicida podem danificar as máscaras. Esta informação não coincide, no entanto, com as recomendações do CDC, nem com os resultados obtidos pela equipe do Centro Médico da Universidade de Nebraska, mesmo que a técnica usando UV não possa ser reaplicada por 20 ciclos.

Na ficha técnica dedicada ao pessoal da saúde, emitida pelo Battelle Memorial Institute, e divulgada pela FDA, está mencionado que “as máscaras reutilizadas podem não ter sido efetivamente descontaminadas do SARS-CoV-2 ou outros patógenos”, o que pode representar uma forma de proteger o Instituto e a FDA, contra eventuais processos judiciais.

Na carta encaminhada pela FDA ao Battelle, é explicitado que o sistema de descontaminação não poderá ser distribuído a terceiros, o que pode implicar que os administradores estão proibidos de colaborar com outros países no detalhamento de protocolos. Entretanto, um certo volume de informações está disponível pela internet, como nos linques incluídos neste artigo.

Cabe ao ministro Mandetta analisar qual das duas metodologias de desinfecção pode ser adotada no país, ou se ambas, e solicitar que a Anvisa estabeleça com a maior brevidade os protocolos para os procedimentos. É provável que os administradores do Centro Médico da Universidade de Nebraska estejam mais abertos a estabelecer vínculos de cooperação, que os do Battelle Memorial Institute, considerando-se as restrições impostas pela FDA.

Notas do autor:

1. Como referência, 1.000 nanômetros equivalem 1 milésimo de milímetro.

2. O conceito de Segurança Nacional precisará ser urgentemente reformulado quando esta crise passar. Uma nação não pode ser colocada de joelhos pela falta de insumos básicos para enfrentar crises mundiais de saúde, que deverão ficar mais frequentes no futuro. Uma comissão de especialistas de vários setores deveria ser convocada, para analisar em que áreas o país deve ser auto-suficiente, mesmo que inserido em uma economia globalizada.

3. A 3M emitiu um comunicado sobre a desinfecção de máscaras N95 (respiradores), em que desaconselhou diversos métodos, após realizar seus próprios estudos. A empresa salientou que “não pode ficar comprometido o desempenho de filtração do respirador ou sua capacidade de vedação ao rosto do usuário”. 

O autor é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo Blogue Chacoalhando.

COVID-19: Acusados vão a julgamento por Crimes contra a Humanidade

Para evitar a tragédia anunciada é preciso a saída do presidente, e que violações das determinações da Organização Mundial de Saúde sejam coibidas.

OMS logo
Símbolo do Tribunal Penal Internacional

A ficção pode se tornar realidade1. Ano 2021. Tribunal Penal Internacional, Haia, Holanda. O capitão Olson2 foi afastado da presidência do Brasil, e, após indiciamento  por Crimes contra a Humanidade, se tornou réu, juntamente com vários de seus colaboradores, alguns governadores,  juízes, prefeitos e empresários nacionais. A acusação é por atos e omissões cometidas durante a crise do novo coronavírus, que resultaram em uma catástrofe humanitária sem precedentes no país.

Estamos na audiência final do TPI, antes do juiz proferir as sentenças contra os principais acusados de terem boicotado a implementação das medidas preconizadas pela OMS, de combate à pandemia da Covid-19. Observadores internacionais estiveram presentes no decorrer do julgamento, para garantir que os acusados tivessem direito a um julgamento justo.

Após vários dias de audiências, quando foram ouvidas testemunhas e especialistas, a Promotoria resumirá agora as acusações contra os réus, para então fazer o encaminhamento final ao juiz. As penalidades que forem impostas servirão de referência para os demais julgamentos, que prosseguirão nas próximas semanas e meses. O promotor resumiu o caso contra cada acusado:

“Ex-presidente Olson, o senhor será também julgado em outro momento, por Crimes de Genocídio cometidos contra as populações indígenas do Brasil, e muito provavelmente irá responder por uma série de crimes comuns que estão sendo esclarecidos. Quanto às atuais acusações, estas estão relacionadas com sua responsabilidade na disseminação da Covid-19, violando inclusive o Código Penal de seu país, ao infringir medidas destinadas a impedir a introdução ou propagação de doença contagiosa. 

“Ao adotar medidas como considerar essenciais as atividades religiosas em templos, pedir a reabertura do comércio e escolas, atuando desta forma para o fim do confinamento em massa, de pessoalmente propagar o vírus quando estava contaminado, de confundir a população ao se referir aos efeitos da  contaminação pelo vírus como ‘uma gripezinha’, bem como promover a campanha  ‘O Brasil não pode parar’, que defendeu medidas contrárias às recomendadas pelo Ministério da Saúde do Brasil e pela OMS, o senhor causou imenso mal a população, e pode ser considerado como o principal responsável pela desastre humanitário que se abateu sobre o país”, continuou o promotor.

E concluindo: “Tendo em vista as evidências robustas para as dezenas de infrações cometidas, a Promotoria pede que seja aplicada a pena máxima para o acusado.”

“Ex-ministro Sujomoro, no exercício de seu cargo como ministro da justiça, o senhor não autorizou que prisioneiros de baixa periculosidade deixassem os locais de detenção durante a pandemia, para ficarem com suas famílias. Tal medida preventiva, se tivesse sido tomada, teria aliviado a superlotação das cadeias e penitenciárias do país, e reduzido o elevado número de mortes de detentos causadas pelo vírus. Acrescente-se o fato de que os motins que decorreram desta decisão, deram origem a mais mortes, tanto de internos como de guardas prisionais, em verdadeiras carnificinas. Trata-se de uma responsabilidade flagrante, e ‘não apenas de uma mera convicção’ desta Promotoria, que encaminha pela condenação.”

“Bispo Emir Machado, o senhor permitiu que cultos continuassem a ser realizados em vários templos de sua Igreja. Mesmo tendo recomendado que os fiéis mantivessem um certo afastamento entre si, isto não foi suficiente para impedir a ampla disseminação da Covid-19. O senhor poderia e deveria ter mantido apenas as ações sociais da Igreja, que são importantes para suprir muitas das necessidades das pessoas carentes, desassistidas pelo Estado. Estima-se que mais de cem mil pessoas no país tenham sido contaminadas a partir dos cultos realizados em templos de sua Igreja. Diante das evidências, a Promotoria encaminha pela condenação.”

Bispo Simas Malatesta, o senhor contribuiu para a disseminação da pandemia, ao deturpar a fala do diretor da OMS, Tedros Adhanom, que recomendava que os governos levassem em conta o forte impacto que o isolamento social teria sobre os mais pobres. O diretor da OMS enfatizava a necessidade de políticas sociais em favor destas camadas  desfavorecidas. O senhor tirou de contexto as declarações, para justificar um apoio ao posicionamento do então presidente Olson, de relaxamento das restrições a trabalhos não essenciais, e deve ser responsabilizado pelas consequências de seus atos. Assim sendo, a promotoria encaminha pela condenação.

“Empresário Injusto, o senhor proclamou que um vírus não poderia parar a economia brasileira, e que a quarentena horizontal preconizada pela OMS não se justificava, sob a alegação de que iria destruir a economia do país. Acrescentou ainda, em declaração amplamente divulgada pela mídia, que o coronavírus ocupava apenas o vigésimo lugar em grau de letalidade. Confundindo ainda mais a população, chamou a atenção para as centenas de milhares de pessoas que morrem em acidentes de automóvel por ano no Brasil, sugerindo ser este um fator de risco maior que o colocado pela pandemia.”

“Esta comparação foi totalmente maliciosa, pois já eram então conhecidos os efeitos prejudiciais da quarentena vertical na propagação da pandemia na Itália e Espanha, países que custaram implementar as providências demandadas pela Organização Mundial de Saúde. E como se viu pouco depois, a OMS estava certa.”

“Como empresário, o senhor colocou seus interesses individuais acima da coletividade, e, desta forma, trouxe desinformação à população, bem como colocou pressão adicional no presidente da República, fazendo com que ele, por sua fraqueza moral e de princípios, não recuasse da decisão de boicotar a implementação das recomendações da OMS, referendadas no Brasil pelo Ministério da Saúde. Portanto, a Promotoria encaminha pela condenação.”

“Empresário Véio do Havaí, o senhor desqualificou como sendo ‘histeria’, o justificado temor da população com a crise inédita na saúde que se avizinhava. Em uma declaração filmada, ameaçou demitir os seus milhares de funcionários. O senhor certamente não tem como negar estas declarações, e nem afirmar que elas tenham sido tiradas do contexto. Diante das evidências da sua contribuição para a disseminação da doença, a Promotoria encaminha pela condenação.”

“Ex-prefeito Trivela, o senhor, ainda no exercício do mandato de prefeito do Rio de Janeiro, cedeu à pressão de vereadores da base do governo e decidiu reabrir as lojas de materiais de construção, o que resultou na continuidade de obras no município, quando o momento requeria que apenas os serviços essenciais funcionassem. Já ficou comprovado que milhares de mortes decorreram desta decisão tomada pelo alcaide. A Promotoria encaminha pela condenação, e conclui pela acusação.”

Em seguida o juiz declarou o recesso até o pronunciamento dos vereditos.

Notas do autor:

1. Qualquer semelhança com personagens da vida real na peça de ficção apresentada acima, pode ter sido ou não uma mera coincidência. No entanto, a possibilidade da instalação de um Tribunal Especial para julgar Crimes contra a Humanidade cometidos no Brasil é bem real. Mas não precisamos chegar a uma situação catastrófica. Ainda é tempo de se adotar as medidas certas, mas com Bolsonaro boicotando as iniciativas do Ministério da Saúde  isto não será possível.

2. Em um artigo ficcional anterior no blogue, Brasil Uber Alles: Heil Mein Capitão, escrito na semana anterior ao segundo turno das eleições presidenciais de 2018, um certo capitão de extrema-direita de nome Olson, se elegeu presidente do Brasil, e sua queda do poder só ocorreu anos depois, em função das inúmeras mortes de combatentes do Exército Brasileiro, que haviam sido enviados para invadir e ocupar a Venezuela, presidida por Maduro.

O autor é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

COVID-19: Desobediência civil agora contra Bolsonaro, ou um Tribunal para Crimes contra a Humanidade depois?

Antes que uma tragédia de proporções inimagináveis seja irreversível, governantes que não respeitam a vida e a saúde da população devem perder o direito de permanecer nos cargos. 

International Criminal Court Haia

O Tribunal Penal Internacional, Haia, Holanda   /   Foto Reuters

O Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional trata no artigo 7, da definição de Crimes contra a Humanidade. Dentre 11 itens listados, inclui-se o “cometimento de atos desumanos contra a população civil, que causem intencionalmente grande sofrimento, ou sérios danos físicos e mentais, como parte de uma conduta política do Estado ou de uma Organização1”. Esta definição parece se encaixar perfeitamente nas ações recentes do Governo Bolsonaro, de alguns mandatários de governos locais, e de parte do empresariado nacional.

Poderão ocorrer indiciamentos pelo cometimento (ou conivência) de Crimes contra a Humanidade no país, caso seja imposta uma política de “quarentena vertical”, defendida por Bolsonaro e alguns setores do empresariado, como forma de combater a pandemia do coronavírus.  O presidente tem procurado boicotar as medidas que o ministro Mandetta tenta implementar, fundamentadas nas recomendações da Organização Mundial de Saúde. A OMS e os principais infectologistas recomendam a chamada “quarentena horizontal”, que está sendo adotada pela maioria dos países.

A quarentena vertical preconiza que apenas os grupos mais em risco deveriam ser mantidos isolados em quarentena, aí se incluindo os idosos e os portadores de algumas enfermidades, ou de condições de saúde debilitantes. Por outro lado, o isolamento horizontal requer que, com exceção das pessoas envolvidas em atividades essenciais, a população permaneça em suas residências. 

No entanto, como a maioria dos portadores são assintomáticos, eles levariam o vírus das ruas para as residências, contaminando seus familiares idosos e pessoas debilitadas, caso prevalecesse a quarentena vertical. É claro que para as classes mais abastadas, os idosos podem ficar em seus próprios quartos, em geral suítes, ou mesmo em residência própria, podendo melhor se proteger do contágio. 

A opção pelo confinamento horizontal deve oferecer uma maior proteção para a população como um todo. Entretanto, para grupos sociais em que as famílias moram em diminutas habitações, com diversas pessoas convivendo em um mesmo cômodo, as condições ideais de isolamento estão longe de ser as ideais. É fundamental se encontrar formas de superar estas deficiências, e garantir o direito à vida destas pessoas e comunidades. Tal iniciativa deve ser obrigação do Estado, mas organizações e indivíduos podem e devem participar deste esforço, como por exemplo, através de doações.

O exemplo da Itália é emblemático. Foi no período em que aquele país adotou a quarentena vertical, que o vírus se espalhou de tal forma, que os atuais casos já superam os da China. O prefeito de Milão reconhece o equívoco de sua política de contenção da doença. A Europa se deu conta do erro cometido pela Itália, e passou a adotar a quarentena horizontal. 

O Brasil irá repetir o caminho trágico da Itália, se Bolsonaro e seus seguidores não forem impedidos imediatamente de prosseguir com suas ações irresponsáveis. O sinal de alerta foi dado pelo biólogo Átila Iamarino em seu canal no Youtube, prevendo cerca de 1 milhão de mortes, caso o país não adotasse de imediato uma política séria de quarentena. Os dados apresentados foram baseados em um modelo matemático  desenvolvido no Reino Unido, pelo prestigioso Centro de Análises de Doenças Infecciosas, do Imperial College.

No entanto, as medidas iniciais adotadas no Brasil, pela orientação do ministro Mandetta, muitas à revelia da presidência da República, podem já ter aliviado a catastrófica previsão inicial. Foi o próprio Iamarino que apresentou as novas estatísticas obtidas pelo modelo do Imperial College, com base em uma revisão de cenário apoiada em dados mais atuais.  É verdade também, que modelos matemáticos não conseguem incluir todas as variáveis, portanto deve-se evitar o excesso de otimismo. Uma destas variáveis é a subnotificação de casos, o que pode comprometer a precisão do modelo matemático.

O país já passou da fase de “contenção da doença” pelo controle dos viajantes, pois a transmissão passou a ser comunitária. A fase atual é a de “mitigação da doença”. As medidas recomendadas nesta fase são quarentena para quem ter sido infectado, e recomendação de quarentena para o maior número de pessoas, distanciamento social, redução da circulação e de aglomerações públicas, cancelamento de eventos, paralisação das aulas.

As medidas de mitigação visam diminuir o avanço da pandemia, de forma a resguardar os sistemas de saúde, reduzindo a pressão por atendimento, e também diminuir os riscos de exposição de pessoas em grupos de risco, principalmente os idosos. Se as medidas forem aplicadas tarde demais ou se forem boicotadas, não se consegue diminuir a dispersão do vírus.

Aí voltaria o cenário da catástrofe que o biólogo Iamarino apresentou inicialmente. O país entraria então na fase em que precisariam ser adotadas as medidas de “supressão da doença”. Foi o que aconteceu na China, que conseguiu aplicar medidas radicais com sucesso.  O distanciamento social precisará envolver quase toda a população, com obrigatoriedade de quarentena geral, e realização de testes em massa, para que o infectado não sintomático possa ser identificado.

Se entrarmos nesta fase, o comando do país não poderá estar nas mãos do responsável pelas dezenas de milhares de mortes que já terão ocorrido. O povo precisará confiar em quem estiver na liderança.

Se realmente chegarmos a uma situação trágica por responsabilidade direta do presidente, por ele ter imposto medidas na contramão de todo o conhecimento científico, e das experiências já vivenciadas em outros países, poderá ficar caracterizado o cometimento de Crimes contra Humanidade. 

Todos que, de alguma forma, tiverem contribuído para a implementação da política criminosa de Bolsonaro, ou se aproveitado dela para auferir lucros, deverão ser julgados pelos seus atos em um Tribunal Especial.

Deveriam ser responsabilizados, não apenas Bolsonaro e sua trupe, mas também mandatários dos governos estaduais e municipais que tenham conscientemente implementado políticas do tipo “vai pra rua”, bem como empresários que tenham pressionado seus funcionários com ameaças de demissão, ou divulgado mensagens incitando as pessoas a não aderirem às medidas de quarentena recomendadas pelo Ministério da Saúde.

Nero e o incêndio de Roma

Volaire, Pierre-Jacques Antoine, 1769 (?): O Incêndio do Palácio (por Nero)

A palavra de ordem que está no consciente coletivo é “desobediência civil já”, com exceção dos fanáticos acerebrados.  Desobediência a um presidente da República que age como Nero, o louco imperador romano que viu Roma pegar fogo, enquanto tocava a sua lira (este foi o registro que ficou na História). Um movimento de desobediência civil ao Planalto precisaria partir de governadores dos Estados e de prefeitos que ainda preservam a sanidade.

Também, e principalmente, o ministro Mandetta deve parar de obedecer à instruções de Bolsonaro que contrariem recomendações da OMS. Bolsonaro que o demita, se tiver peito para tanto! Caso contrário caro ministro, o senhor se arrisca a ir parar no banco dos réus, quando o dia do acerto de contas chegar, apesar de toda a simpatia com que o senhor conta até o  momento.  Pode continuar a elogiar Bolsonaro, e dizer que as decisões são dele, mas não ceda às loucuras do capitão.

Em um artigo ficcional anterior no blogue, Brasil Uber Alles: Heil Mein Capitão, escrito na semana anterior ao segundo turno das eleições presidenciais de 2018, um certo capitão de extrema-direita de nome Olson, se elegeu presidente do Brasil, e sua queda do poder só ocorreu anos depois, em função das inúmeras mortes de combatentes do Exército Brasileiro, que haviam sido enviados para invadir e ocupar a Venezuela, presidida por Maduro. 

Agora, um presidente de extrema-direita, nada ficcional, pode ser afastado do poder no Brasil e indiciado pelo cometimento Crimes contra a Humanidade, caso suas políticas o tornem responsável por incontáveis mortes no país, tanto de civis como militares.

Notas do autor:

1. Embora a definição de “Organização”, que consta no parágrafo 2, do artigo 7, do Estatuto de Roma, ainda esteja sujeita a debate, empresas e/ou seus dirigentes tem sido processados pelo Tribunal Penal Internacional, ou pelo próprio Estado, por Crimes contra a Humanidade. 

O autor é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

Luz ultravioleta na desinfecção de máscaras de proteção contra o coronavírus, por Ruben Rosenthal

Com a falta de máscaras nos hospitais para proteger os profissionais da saúde, o método pode possibilitar a reutilização de uma máscara por diversos dias.

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Uso de luz UV na desinfecção de produtos hospitalares, Centro Médico da Universidade de Nebraska  /  Créditos: Calla Kessler  / The New York Times

Artigo de Calla Kessler, no The New York Times revelou que os administradores do Centro Médico da Universidade de Nebraska, Omaha, estão conduzindo experimento com uso de  luz ultravioleta para descontaminar máscaras N95, que são utilizadas por profissionais de saúde que tratam pacientes infectados com o COVID-19.

Estas máscaras são certificadas para uso por uma única vez, mas, com a ameaça de falta de estoques, a administração do Centro resolveu adotar a experiência do reuso após desinfecção. O procedimento, ainda em fase experimental, começou na quinta feira, dia 19. O objetivo é conseguir estender o uso da máscara para mais de uma semana.

Trata-se possivelmente da primeira experiência de tentativa de desinfecção para reutilização destas máscaras, acreditam os administradores. Segundo John Lowe, que projetou o programa, outros centros médicos se interessaram em replicar os procedimentos adotados na Universidade de Nebraska.

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Dr. John Lowe, Centro Médico da Universidade de Nebraska, desenvolveu projeto desinfecção da máscara cirúrgica N95  / Créditos: Calla Kessler  / The New York Times

A administração estava ciente que os procedimentos estavam em violação das regras estipuladas pelos Centros de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos. Entretanto, ainda na quinta-feira, novas diretrizes foram emitidas para lidar com situações de falta da máscara N95 nos centros de saúde. Foi determinado que, em casos excepcionais, os hospitais poderiam fazer uso de máscaras não aprovadas pelo Instituto Nacional de Saúde e Segurança Ocupacional.

Mesmo com esta “autorização” para que os hospitais possam descontaminar e reutilizar máscaras durante a pandemia, os administradores estão cientes de que podem vir a ocorrer casos de responsabilização judicial. Mas, para o Centro Médico da Universidade de Nebraska, a outra opção seria deixar esgotar o estoque de máscaras cirúrgicas em questão de poucas semanas.

O  dr. Mark Rupp, chefe do Centro Médico de Doenças Infecciosas da Universidade, está confiante de que as máscaras tratadas com radiação UV não serão danificadas e oferecerão proteção aos trabalhadores da saúde.

Pesquisas anteriores já haviam sido realizadas sobre possíveis métodos de desinfecção de máscaras cirúrgicas, inclusive com uso de luz UV, hipoclorito de sódio, gás etileno e calor úmido. Trabalhos publicados mostraram a viabilidade da reutilização de máscaras. No entanto, os estudos foram limitados, pois as crises anteriores como a epidemia SARS e da gripe H1N1 não chegaram a representar uma ameaça como a que existe atualmente.

O artigo do NYT salienta que a opção do Centro Médico da Universidade de Nebraska pelo uso da luz UV foi tomada, não apenas pela efetividade, como também pela conveniência.  Hospitais já utilizavam a luz UV para descontaminar quartos após a remoção de pacientes portadores de infecciosas perigosas, como no caso da bactéria Clostridium difficile ou do vírus Ebola.

Segundo relato do dr. Lowe, grandes lâmpadas UV são utilizadas na desinfecção, mas sem a presença de qualquer pessoa no local durante o procedimento. Pelo protocolo projetado por ele, a intensidade da radiação é 3  vezes maior que a necessária para matar o vírus, e a duração da exposição é de 3 a 5 minutos. O local onde o procedimento é conduzido tem as paredes na cor bege, para refletir a luz UV.

Lowe acrescenta ainda que, como a máscara se molda a face do profissional da saúde que a utilizou, ela deve ser retornada ao usuário original, de forma a manter uma perfeita vedação. Cuidados são tomados para que não ocorra a troca de máscaras.

Algumas respostas ainda não foram obtidas, como o número de vezes que uma máscara pode ser reutilizada. Por enquanto, o tempo de uso está limitado a uma semana, mas a intenção é de prosseguir no experimento, de forma a ampliar de alguns dias esta utilização, segundo o dr. Rupp. E se processos judiciais decorrerem, pelo menos foi por fazer a coisa certa, acrescentou o chefe do Centro Médico de Doenças Infecciosas da Universidade.

Ainda sobre o uso da luz ultravioleta no combate ao novo coronavírus, artigo de Cláudio Yuge, publicado no Canaltech, relata que na China, a empresa de transporte público de Xangai faz uso da radiação UV na desinfecção dos ônibus, levando o procedimento apenas 5 minutos.  Também o banco central da China vem fazendo uso da técnica para desinfetar cédulas de dinheiro, no combate a pandemia. O próximo passo será a utilização em elevadores.

O artigo no Canaltech ressalta também o aviso da Organização Mundial da Saúde que as equipes devem permanecer fora dos recintos em que a esterilização ocorre, e o alerta para os riscos de uso em ambiente residencial. As lâmpadas UV não devem ser usadas para desinfetar as mãos ou outras áreas da pele, acrescenta.  

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

 

 

 

 

ALERTA: O cesco pode causar mais mortes que o coronavírus, e já chegou ao Brasil, por Ruben Rosenthal

O CESCO não é um vírus, mas pode ser extremamente letal. O Centro de Escolha do Consumidor é lobista das indústrias do tabaco e de agrotóxicos, e faz campanha para asfixiar financeiramente a OMS, o que terá o efeito de uma pandemia.

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Quando você fuma, o seu bebê fuma  /  Vermont Department of Health (arte editada)

 O CESCO é o representante no Brasil do Consumer Choice Center (CCC), um novo grupo lobista, que se declara uma organização sem fins lucrativos, que visa defender os interesses dos consumidores. O CCC  foi formado em fevereiro de 2017, inicialmente nos Estados Unidos, Canadá e União Européia. Ainda no mesmo ano o CESCO se estabeleceu no Brasil, inicialmente para atender ao agronegócio

Nos Estados Unidos, o CCC é vinculado à organização de direita Students for Liberty, ligada aos bilionários irmãos norte-americanos Charles e David Koch, e ao Institute of Economic Affairs, este sediado em Londres. O CCC é parceiro da Atlas Network, organização que defende políticas de desregulamentação ultraliberais. No Brasil, o CESCO é diretamente vinculado ao “Estudantes pela Liberdade”, grupo que pariu o golpista MBL.

Em artigo anterior no blogue, foi apresentada a rede de 14 parceiros da Atlas no Brasil, e que representa apenas uma parte dos cerca de 500 parceiros que organização possui em 90 países. O Centro de Escolha do Consumidor atua como lobista da Atlas Network no Brasil, e dos interesses que a Atlas representa.

A missão declarada pelo CCC/CESCO, é de “empoderar os consumidores, promovendo o ativismo, para que tenham voz perante a mídia, na internet e nas ruas”. No entanto, a organização que declara atuar em prol dos consumidores, tem sua  agenda focada na desregulamentação de setores como os da saúde, tabagista, de produtos alimentícios, de pesticidas, dentre outros, além de criticar subsídios para as energias alternativas, e defender o negacionismo climático, que não reconhece o enfoque científico na questão das mudanças climáticas.

No Brasil, dentre os principais objetivos do CESCO, segundo declarado pela própria Atlas Network, consta a oposição à restrições nos rótulos de pacotes de cigarros e de alimentos, bem como ao controle do uso de agrotóxicos. Quanto a este último, coincidência ou não, mas parece que os lobistas estão conseguindo alcançar seus objetivos, pois, desde a abertura dos escritórios do CESCO no país em 2017, dezenas de agrotóxicos com comercialização proibida em outros países foram aqui liberados nos governos Temer e Bolsonaro (ver Pedlowski).

A desregulamentação da legislação relativa ao tabaco é uma das principais áreas de atuação do CCC, a nível mundial, e do CESCO, no Brasil. Isto não chega a ser uma surpresa, pois, tanto o CCC como a Atlas Network, vem mantendo há anos fortes vínculos com as indústrias do setor tabagista.

Conforme relato no The Guardian, mais de 100 organizações que defendem o livre mercado se colocaram contra as políticas de controle do tabaco, ou aceitaram doações da indústria do tabaco. 

Segundo o periódico britânico, a Atlas Network recebeu nos últimos anos doações da British American Tobacco (BAT), da Japan Tobacco Internacional (JTI), além da Phillip Morris Internacional (PMI). Membros de várias das grandes empresas do setor tabagista já fizeram parte do conselho diretor da Atlas

No Brasil, um dos principais enfoques do CESCO é colocar obstáculos às campanhas que visam diminuir o uso de cigarros. Uma das campanhas do setor de saúde que está na mira dos lobistas do tabaco, é a da padronização das embalagens dos maços de cigarros para remover o apelo de propaganda. Segundo os lobistas, “as novas regulamentações buscam afastar o consumidor, ao substituir maços atrativos, por modelos padronizados enfadonhos, com uso de cores e rótulos sem apelo”.

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Campanha da Fiocruz, 2016 : Dia Mundial sem Tabaco 

Estudo publicado por pesquisadores da Simon Fraser University, na revista científica The International Journal of Health Planning and Management, mostrou que a Atlas Network é uma antiga aliada estratégica da indústria do tabaco. Segundo a pesquisa, uma das formas da Atlas angariar apoio para o setor do tabaco, consiste em secretamente canalizar fundos para setores que estejam dispostos a se opor à políticas de controle do tabaco. 

O próprio CEO da Atlas, Alexander Chafuen, já declarara ao presidente da PMI, que doações vindas da indústria do tabaco são utilizadas para apoiar indivíduos e legitimar organizações que defendem os direitos individuais. No caso, Chafuen se referia provavelmente ao direito que cada um tem de prejudicar sua própria sua saúde, e a dos fumantes passivos.

Fumantes passivos: Documentos internos da indústria do tabaco revelaram que a Atlas procurou desacreditar o relatório de 1993 da EPA, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, sobre os riscos de câncer de pulmão a que o fumante passivo está submetido. A Atlas financiou eventos e conferências, onde palestrantes procuraram questionar os resultados das pesquisas citadas no relatório da EPA. A indústria conseguiu se infiltrar em organizações internacionais de saúde, inclusive na Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer.

Através do “Latin Project”, cientistas e médicos da América Latina, inclusive do Brasil, foram corrompidos com fundos fornecidos por BAT e PMI. Artigo de Barnoya e Glantz, publicado em julho de 2002 no periódico científico Tobacco Control, revelou que o “Latin Project”, iniciado em 1991, subornou médicos e cientistas para apresentarem falsos resultados de pesquisas sobre qualidade do ar em recintos fechados (indoor air quality, IAQ).

O objetivo era publicar artigos que contestassem dados científicos que tivessem estabelecido a vinculação de fumo passivo com doenças diversas, bem como organizar simpósios regionais para cientistas e mídia, quando falsos dados favoráveis à indústria poderiam ser apresentados.

No Brasil, participaram do Latin Project dois professores do Instituto de Química da UFRJ, e outro, Universidade de São Paulo. Além destes, são mencionados um epidemiologista do SUDS/RJ (Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde), e outros, cujas filiações não estão identificadas no artigo de Barnoya e Glantz. Algumas das remunerações recebidas pelos profissionais foram especificadas no artigo.

Em sua atuação como lobista, o foco principal do Centro de Escolha do Consumidor é desacreditar a Organização Mundial de Saúde e a Agência Internacional de Pesquisa do Câncer. Esta última, por ter avaliado o pesticida glifosato, como um provável agente cancerígeno, e a OMS, por ter implementado, em 2005, a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (FCTC, na sigla em inglês).

A relevância do que representou a Convenção-Quadro para o controle do tabaco no Brasil, em um período de 10 anos (2005-2015), pode ser vista em extenso documento do INCA, o Instituto Nacional do Câncer. Segundo o artigo 5.3 da Convenção-Quadro: “Ao estabelecer e implementar suas políticas de saúde pública relativas ao controle do tabaco, as Partes agirão para proteger essas políticas dos interesses comerciais e de outros interesses da indústria do tabaco, em conformidade com a legislação nacional. As  Diretrizes para a implementação do artigo 5.3, da Convenção-Quadro se tornaram alvo dos lobistas.

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Nos próprios sites do CCC , a estratégia para combater as políticas da OMS que prejudicam a indústria do tabaco é explícita na chantagem: Defund WHO. Ou seja, trata-se de uma campanha para convencer governos a cortarem fundos de financiamento da OMS, numa tentativa de asfixiar a organização. O objetivo principal pretendido com a campanha é reverter ou neutralizar a Convenção-Quadro, mas os pretextos alegados são outros.

Uma das principais alegações que o CCC (e o CESCO) faz contra a OMS, é que o foco principal da entidade estaria mais no combate de doenças não transmissíveis, do que naquelas que representam riscos à saúde global, como o “combate ao vírus Ebola”. Também é alvo de críticas, a suposta falta de transparência nas decisões relativas ao FCTC nas Conferências das Partes (COP), por “serem tomadas à portas fechadas, sem a presença de jornalistas”. Outras alegações incluem excessos de despesas com viagens e mordomias, às custas do contribuinte do Ocidente.

O CCC critica que Convenção-Quadro da OMS condene de forma absoluta a nicotina, ao invés de apoiar políticas de “redução de risco”. Os lobistas defendem que os consumidores possam optar por tecnologias alternativas, que possibilitem o uso de formas menos prejudiciais de se consumir nicotina: “Nós promovemos idéias de legalizar anúncios, propaganda, e escolha pelo consumidor”.

O Centro de Escolha do Consumidor promove as novas tecnologias, argumentando que os riscos da nicotina podem ser diminuídos. Este seria o caso com o uso de cigarros eletrônicos (que funcionam à base de vaporização), de dispositivos que aquecem o tabaco sem queimá-lo, ou ainda, do snus sueco, que consiste de um tabaco em pó (tipo rapé) úmido.

Resta saber se foram financiados pelos lobistas do tabaco, os cientistas do Royal College of Physicians, que chegaram à conclusão que estas tecnologias são até 95% menos prejudiciais à saúde que o cigarro tradicional. Pesquisas independentes demonstraram que produtos a base de tabaco aquecido, sem combustão, não trazem benefícios à saúde dos usuários (acesse aqui  e  aqui).

A brasileira Stella Aguinaga Bialous, PhD, professora da Universidade da Califórnia, e especialista em saúde pública, descreve em artigo de 2019 no periódico Tobacco Control, o impacto que a implementação da FCTC teve no comportamento da indústria do tabaco. O artigo ajuda a entender a reação extremada do CCC/CESCO, em desenvolver a campanha para bloquear fundos destinados ao financiamento da OMS.

A pesquisadora relata que a indústria do tabaco se opôs a FCTC desde o início, propondo políticas voluntárias alternativas, e tentando influenciar países a seu favor.  Com a inevitabilidade da implementação da Convenção-Quadro, a indústria passou a atuar, então, no sentido de enfraquecer a legislação aprovada pelos países, e de tentar interferir na implementação de medidas aprovadas que pudessem prejudicar os negócios do setor tabagista.

O artigo rebate as críticas vindas dos lobistas de que ocorre falta de transparência por parte da OMS, por excluir a indústria das deliberações da FCTC. Durante a Oitava Conferência das Partes (COP8), realizada em outubro de 2018 em Genebra, Phillip Morris International promoveu um evento científico paralelo, para promover seus novos produtos. A cientista que representou PMI no evento ressaltou em seu Twitter, que o artigo 5.3 da Convenção-Quadro requer transparência, e que não coíbe as reuniões da indústria com os governos.

Bialous considera que chega ser irônico que a indústria recorra ao artigo 5.3, que tanto combate, para argumentar que as Diretrizes não proíbem as interações com a indústria: “As afirmações da cientista que representava PMI são errôneas, pois as Diretrizes são claras na determinação de que as interações entre governos e indústria devem ser apenas para propósitos regulatórios (e não para explanações ou outras confabulações). As evidências são de que as Diretrizes estão sendo bem sucedidas nestes objetivos, o que explica as investidas dos lobistas”.

Bialous ressalta que a indústria atuou principalmente em três áreas, para tentar interferir contrariamente à aplicação da legislação do setor tabagista, e do protocolo para eliminar o comércio ilegal: promoção de produtos que reduziriam os riscos da nicotina, litígio em tribunais, e recurso a acordos comerciais internacionais.

As estratégias de redução de risco já foram mencionadas neste artigo. Bialous salienta que elas precisam ser vistas no contexto do longo histórico da indústria, de manipular as embalagens e ingredientes, visando aumentar o apelo e o prazer, bem como da oposição às políticas de  implementação dos Artigos 9 e 10 da FCTC.

O Artigo 9 trata da análise e da medição dos conteúdos e emissões dos produtos de tabaco, e sua regulamentação, enquanto que o Artigo 10, trata da divulgação de informações sobre tais conteúdos e emissões para as autoridades governamentais e para o público. A íntegra das Diretrizes para a implementação destes artigos pode ser acessada em documento do INCA. 

A indústria vem também utilizando a estratégia de recorrer ao litígio para bloquear o avanço da FCTC. Chega a 300, o número de casos levados aos tribunais, em direta contestação de políticas de governos voltadas para o controle do tabaco, com foco na saúde pública. No Brasil, a regulação de banir aditivos foi disputada nos tribunais, desde que foi aprovada em 2012. Entretanto, mesmo com a Suprema Corte decidindo a favor do banimento, este ainda não foi implementado, segundo relatou Bialous.

Como terceira estratégia para se opor à implementação da Convenção-Quadro, a indústria do tabaco defende que medidas de controle do tabaco violam acordos do comércio internacional, principalmente na questão de regras que eliminam o apelo visual dos pacotes de cigarros.

Por outro lado, a indústria do tabaco nunca foi uma fiel seguidora de regras de comércio, pois esteve envolvida, direta e indiretamente, no comércio ilegal de cigarros por décadas. Menos de 5% do comércio ilegal é de produtos falsificados. Segundo Bialous, a indústria intensificou esforços na última década, para interferir contra a implementação de um protocolo voltado para o combate ao comércio ilegal de produtos do tabaco. O protocolo finalmente entrou em vigor em setembro de 2018, mas novas investidas da indústria são esperadas.

A emergência do Centro de Escolha do Consumidor representa uma quarta e nova estratégia usada pela indústria do tabaco, em sua campanha contra a OMS, com o intuito de bloquear a aplicação da Convenção-Quadro. Os riscos para a saúde pública extrapolam a questão de fumantes ativos ou passivos, aditivos no tabaco, ou novos produtos com redução de riscos.

Não bastassem as mortes e doenças que certamente irão advir, caso a OMS seja impedida de implementar a contento suas políticas de redução do consumo do tabaco e derivados, outros setores de atuação da OMS serão afetados, se a Organização tiver suas condições operacionais comprometidas pela criminosa campanha de boicote ao seu financiamento pelos governos, capitaneada pelo lobby do Centro de Escolha do Consumidor   

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

 

 

           

O ouro de Washington financia a Atlas Network e a subversão da democracia pela direita golpista no Brasil, por Ruben Rosenthal

A Atlas Network, sediada nos Estados Unidos, é talvez a principal arma na propagação do pensamento ultraliberal no Brasil e no mundo, e esteve envolvida na trama do golpe contra Dilma Roussef.

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Institutos filiados a Atlas Network  /  Fonte: Atlas Network

Nos tempos não tão longínquos da ditadura, o ouro de Moscou financiava a esquerda no Brasil. Pelo menos era isto que o governo militar divulgava através da imprensa amordaçada.  Se era falso ou verdadeiro, não vem ao caso agora. Nos novos tempos da pós-verdade, o ouro de Washington financia os think tanks que corroem a democracia em vários países do mundo, ao impor o pensamento “liberal” em oposição à idéias e políticas que tenham algum viés de esquerda.

A Atlas Network, nome fantasia para Atlas Economic Research Foundation, é um destes “tanques de idéias”, centros de formulação de políticas estratégicas voltadas não apenas para derrotar eleitoralmente as esquerdas, mas para fazer prevalecer o  liberalismo em sua versão mais perversa, o ultraliberalismo

Com sede em Washington, e atualmente presidida pelo Alejandro Chafuen, argentino-norte-americano, a Atlas está no centro de uma rede com mais de 500 entidades parceiras, alcançando 99 países. Pelo menos é isto que consta no site oficial da entidade. É possível, ou mesmo provável, que nem todas as parcerias ou financiamentos possam ser declarados, por questão de estratégia ou de infração à alguma legislação.

Seus simpatizantes se auto-denominam de libertaristas (ou libertarianistas), uma tradução do termo inglês, libertarians1, e têm a visão de que qualquer vestígio de um Estado de bem estar social deve ser eliminado. O acesso à saúde e educação caberia apenas aos que puderem pagar, segundo professam os adeptos deste darwinismo social.

Diferentemente do liberalismo histórico, e seguindo-se ao neoliberalismo das décadas de 70, 80 e 90, a fase do ultraliberalismo se estabeleceu após a crise de 2008, em oposição aos programas sociais de  Obama, visando aperfeiçoar ainda mais o modelo de exploração e opressão da força de trabalho, além de montar uma espécie de “Internacional Conservadora”. 

Os Chicago Boys introduziram as políticas neoliberais no Chile de Pinochet, cujas nefastas consequências sociais são sentidas até hoje pela população do país. No Brasil de Bolsonaro, a direita ultraliberal representada por Paulo Guedes, não tem qualquer problema de convivência com a extrema-direita

Margaret Thatcher, primeira-ministra da Grã-Bretanha (1979-1990), foi também adepta das políticas neoliberais de redução drástica da participação do Estado na economia, cabendo ao mercado regular os preços. Em 1955, o britânico Anthony Fisher fundou em Londres, o Institute of Economic Affairs (IEA), que viria a influenciar Thatcher, em cujo governo  ocorreu considerável desmonte do Estado de bem-estar social. O IEA foi quem primeiro publicou (em 1970) “A contra-revolução na teoria monetária”, de Milton Friedman, outro ganhador do prêmio Nobel de economia. 

thatcher_and_fisher__largeMargareth Thatcher e Anthony Fisher, fundador da Atlas Network  /  Foto Atlas Network

Anthony Fisher, que era defensor das concepções do economista austríaco Friedrich Hayek, ganhador do prêmio Nobel de economia de 1974, formou em 1981 a Atlas Economic Research Foundation, que desde então atua na defesa e propagação do liberalismo radical.

Artigos publicados por Marina Amaral, na Agência Pública, em 2015, e por Lee Fang, no The Intercept Brasil, em 2017, apresentaram relatos minuciosos de como foi formada a Atlas, e do crescimento de sua influência através da expansão da rede de filiados e apoiadores. Com base principalmente em informações publicadas nestes dois veículos, e nos sites da Atlas e de seus parceiros, o atual artigo irá apresentar dados relacionados a Atlas e a alguns de seus 14 parceiros declarados, que atuam no Brasil formando a chamada “Rede da Liberdade”. Conhecer melhor o adversário e suas táticas, é a melhor forma de combatê-lo.

Existem, no entanto, outros institutos liberais no Brasil que não fazem parte da rede da Atlas. Segundo publicado em Carta Maior, Hélio Beltrão, que preside atualmente o Instituto Ludwik von Mises, afirmou que 30 Institutos recebem apoio da Atlas no país, e  colaboram entre si. 

Grandes corporações como a Exxon Mobil, a Master Card e empresas do ramo tabagista já financiaram a Atlas. As Fundações dos bilionários irmãos Koch e do investidor John Templeton fazem vultosas contribuições. O governo norte-americano também tem participação no direcionamento de fundos para a Atlas, através da National Endowment for Democracy (Fundação Nacional para a Democracia).

 A NED  é uma instituição privada, “que não visa o lucro, dedicada ao crescimento e fortalecimento de instituições democráticas ao redor do mundo”, segundo consta em seu site.  Recebe fundos principalmente do Congresso Americano, e é governada por um conselho diretor, com participação igualitária de Republicanos e Democratas.

Com a vitória de Trump, foi indicada para a presidência da instituição, a economista Judy Shelton, senior fellow da Atlas desde 2010. Segundo o artigo no The Intercept, Chafuen teria declarado que “agora tem gente da Atlas na presidência da National Endowment for Democracy”.

Donald Trump também indicou Shelton para o Federal Reserve Bank em janeiro deste ano, o que foi considerado como uma intenção do presidente norte-americano de moldar o banco central mais poderoso do mundo aos seus desígnios. 

A Atlas disponibiliza verbas para instituições parceiras em outros países, inclusive para treinamento na matriz. Este é um dos caminhos que “ouro de Washington” encontra para subverter a democracia no Brasil e nos países em que está presente.

Fazem parte da rede brasileira da Atlas: Instituto Atlantos (Porto Alegre), Instituto de Estudos Empresariais (Porto Alegre), Instituto de Formação de Líderes de Belo Horizonte, Instituto de Formação de Líderes de Santa Catarina, Instituto de Formação de Líderes de São Paulo, Instituto Liberal de São Paulo, Instituto Liberdade (Porto Alegre), Instituto Liberal (Rio de Janeiro), Instituto Líderes do Amanhã (Vitória), Instituto Ludwik von Mises (São Paulo), Instituto  Millenium (Rio de Janeiro), Livres (Rio de Janeiro), Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (São Paulo), Estudantes pela Liberdade (São Paulo). 

Segundo o The Intercept, o modelo da Atlas e de seus institutos parceiros se preocupa menos com a formulação de novas soluções inovadoras para os problemas dos países em que estão presentes, e mais com o estabelecimento de organizações políticas disfarçadas de instituições acadêmicas, como forma de melhor conquistar o público para a ideologia liberal.

A maioria dos Institutos parceiros da Atlas apresenta em seus sites os diretores e membros dos conselhos, bem como as fontes de financiamento e de apoio no meio empresarial. Na aparência, existe ampla transparência. Pelos estatutos não é permitido receber dinheiro público ou de partidos políticos, bem como assumir posições partidárias.  

Os objetivos que estão declarados nos sites dos Institutos são essencialmente os mesmos. Tomando como exemplo o Instituto de Formação de Líderes de Santa Catarina: “Somos uma entidade civil independente, apartidária e sem fins lucrativos, que visa à formação de lideranças comprometidas com a defesa das liberdades individuais, do Estado de Direito, da propriedade privada e da ética. Para tanto, engajamos nossos associados numa rotina de estudos e debates, a qual chamamos de Ciclo de Formação, que inclui palestras semanais, treinamentos, leituras de livros e júris simulados.”

O Instituto Atlantos relata que pretende alcançar seus objetivos “através da realização de palestras e eventos gratuitos e abertos ao público, nas áreas de economia, ciência política, direito, filosofia, sociologia, história e empreendedorismo, em pelo menos cinco das maiores faculdades da capital gaúcha (UFRGS, PUCRS, ESPM-Sul, Fadergs e FMP), onde coordena clubes estudantis e grupos de estudos específicos para cada faculdade/curso”. O conteúdo das palestras e cursos também é divulgado na página oficial no Facebook, que contaria com mais de 60 mil seguidores.

Os Institutos também em geral declaram suas fontes de financiamento. O Instituto de Estudos Empresariais, de Porto Alegre, tem como empresas investidoras a Ipiranga, do grupo Ultra, e a Celulose Rio Grandense, do grupo CMPC, além de várias empresas apoiadoras. Já o Instituto de Formação de Líderes de Belo Horizonte tem como principal investidor, a Suzano Celulose. O Instituto de Formação de Líderes de São Paulo tem como instituições mantenedoras, a Suzano Celulose e o Instituto Ludwig von Mises Brasil, presidido por Hélio Beltrão.

O Instituto Millenium nomeia 25 mantenedores em seu site. Apenas para citar 3 destes, incluímos aqui os nomes de João Roberto Marinho, Jorge Gerdau Johannpeter e Armínio Fraga. Na presidência de seu Conselho de Governança está  Ricardo Diniz, vice-presidente do Bank of America Merry Linch Brasil.  Um dos fundadores do Instituto Millenium foi Rodrigo Constantino, atualmente na presidência do Instituto Liberdade, do Rio de Janeiro. Constantino tem MBA de Finanças pelo IBEMEC e foi colunista na Veja, escrevendo atualmente para o Globo e Valor Econômico.

O Instituto Liberal foi criado em 1983 por Donald Stewart Jr, então dono da Construtora Ecisa. Stewart foi um dos grandes expoentes do liberalismo no Brasil, e manteve vínculos estreitos com entidades no exterior defensoras do liberalismo, como a Sociedade Mont Pèlerin, CATO Institute, Heritage Foundation, Atlas Foundation, Fraser Institute, Liberty Fund e Institute of Economic Affairs.

O grupo Estudantes pela Liberdade, com sede em São Paulo, corresponde à seção brasileira do Students for Liberty, e teve uma participação fundamental no golpe institucional que levou ao afastamento de Dilma Roussef. O diretor executivo do grupo, Juliano Torres, foi bem direto sobre a ligação existente entre o EPL e o Movimento Brasil Livre (MBL), onde despontou a estrela de Kim Kataguiri, conforme seu relato ao Agência Pública.

“Quando teve os protestos em 2013 pelo Passe Livre, vários membros do Estudantes pela Liberdade queriam participar, só que, como a gente recebe recursos de organizações como a Atlas e a Students for Liberty (internacional), por uma questão de imposto de renda lá, eles não podem desenvolver atividades políticas. Então a gente falou: Os membros do EPL podem participar como pessoas físicas, mas não como organização, para evitar problemas.”

Juliano prossegue em seu relato: “Aí a gente resolveu criar uma marca, não era uma organização, era só uma marca para a gente se vender nas manifestações como Movimento Brasil Livre. Então juntou eu, Fábio [Ostermann], juntou o Felipe França, que é de Recife e São Paulo, mais umas quatro, cinco pessoas, criamos o logo, a campanha de Facebook. E aí acabaram as manifestações, acabou o projeto.”

“A gente estava procurando alguém para assumir, já tinha mais de 10 mil likes na página, panfletos. E aí a gente encontrou o Kim [Kataguiri] e o Renan [Haas], que afinal deram uma guinada incrível no movimento, com as passeatas contra a Dilma e coisas do tipo. Inclusive, o Kim é membro da EPL, então ele foi treinado pela EPL também. E boa parte dos organizadores locais são membros do EPL. Eles atuam como integrantes do Movimento Brasil Livre, mas foram treinados pela gente, em cursos de liderança.”

Chafuem e osterman
Alejandro Chafuen, da Atlas, com Fábio Ostermann, do MBL, na manifestação em Porto Alegre. Foto: Reprodução/Facebook

Alejandro Chafuen, o presidente da Atlas, esteve presente nos protestos de abril de 2015 em Porto Alegre pelo impeachment de Dilma Roussef, quando confraternizou com membros do MBL, como mostrado na foto de seu Facebook, em que aparece com Fábio Ostermann, da coordenação do MBL.

Os Institutos vinculados a Atlas organizam anualmente, nas capitais onde atuam, o evento “Fórum da Liberdade”, para discutir a conjuntura política e econômica. Atualmente, Paulo Guedes é figurinha fácil de ser encontrada nestas ocasiões. A Atlas vai realizar seu próprio Liberty Forum anual em novembro, em Nova York. Os convidados deverão respeitar várias regras para não serem expulsos do evento e processados criminalmente, principalmente não tirar fotos ou fazer gravações não autorizadas. Libertà , ma non troppo!

A direita não está brincando em serviço, na luta pelos corações e mentes dos brasileiros. No entanto, governos tidos como “democráticos” e que adotam medidas antipopulares, terão dificuldade de permanecer no poder, principalmente se ocorrerem conflitos generalizados de rua e o uso do poder repressivo do Estado. Isto ocorreu com Macri, na Argentina, que não conseguiu se reeleger, apesar da forte presença das teias da Atlas no país. O mesmo poderá acontecer com Piñera, no Chile. Mas cada país tem sua própria dinâmica política, e o Brasil poderá continuar a afundar, sem conseguir reagir.

Em clara contradição com os evangélicos, a nova direita libertarista não recrimina a liberdade sexual, os movimentos LGBT e o uso de drogas, por serem expressões do indivíduo. Portanto, estas bandeiras já não pertencem exclusivamente à esquerda. Já as políticas sociais bancadas pelo Estado representam anátema para os grupos de liberais radicais, assim como a defesa do meio ambiente e das comunidades indígenas e quilombolas. Estas  deveriam ser as principais batalhas a serem travadas pela esquerda, sem no entanto abandonar as pautas identitárias.

Mas os novos tempos requerem a adoção de novas estratégias. Se não quiser ficar alijada do poder por um longo período, e presenciar a continuação do retrocesso civilizatório em curso no Brasil, a esquerda precisará estudar melhor como a atuação da direita está conseguindo difundir o pensamento ultraliberal pelo país, e conquistando os jovens.

Na última campanha presidencial, ficou claramente evidenciada a predominância de cabelos grisalhos nas manifestações do PT, sugerindo uma perda de representatividade do partido entre os jovens. Este pode ser também um problema que afete ao PSOL e PCdoB, partidos identificados com teses de esquerda.

Medidas se fazem necessárias para atrair novamente os jovens para as causas da esquerda, talvez usando as mesmas táticas dos liberalistas. Uma presença ativa nas escolas e universidades, e o uso intensivo das mídias sociais é um dos caminhos que podem ser seguidos na reconquista dos corações e mentes dos jovens. 

Notas do autor:

1.  O pensamento dos seguidores libertaristas da Atlas está em oposição à tradição centenária dos libertários de esquerda, que são adeptos do anarquismo, como forma de organização social e econômica. O Instituto Mises Brasil, através de um texto de Murray N. Rothbard (1926-1995), fundador do moderno libertarismo (de direita), procura orientar seus filiados sobre como argumentar em defesa das teses de um estado mínimo. 

Rothbard, que esteve vinculado ao Ludwig von Mises Institute e ao Center for Libertarian Studies,  confessava no entanto não ter uma resposta para a seguinte pergunta, que poderia ser feita por um defensor da presença estatal na economia: “Se você concorda que é legítimo as pessoas permitirem que o Estado force o pagamento de impostos para cobrir por um certo serviço, como ‘defesa’ (do país, da propriedade privada e do indivíduo), então por que não é igualmente moral e legítimo que as pessoas  tenham o direito de delegar ao Estado o direito ao fornecimento de outros serviços, tais como ‘correios, assistencialismo, siderurgia, eletricidade’ e outros?”

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.