Presidente Lula: interceda pelo defensor de direitos humanos no Reino Unido

Por Ruben Rosenthal

Ativista de direitos humanos e pela independência da Escócia, o ex-embaixador Craig Murray foi condenado a 8 meses de prisão.
Ex-embaixador Craig Murray foi encarcerado em 29 de julho, condenado a 8 meses de prisão. Foto: Guy Smallman/Getty Images

Presidente Lula, o ex-embaixador britânico e ativista de direitos humanos Craig Murray foi sentenciado a 8 meses de encarceramento pela Alta Corte do Judiciário da Escócia, tendo sido negada a possibilidade de que aguarde em liberdade pelo julgamento do recurso feito à Corte Suprema do Reino Unido.

Ele precisa agora da solidariedade ativa daqueles cuja voz possa ser ouvida em Edimburgo e Londres, para que seja libertado antes que sua saúde seja comprometida. Ninguém melhor que você sabe o que é ver negado o direito à liberdade quando se é vítima de perseguição política, sem poder recorrer a todas as instâncias do judiciário.

Craig Murray, ativista pela independência da Escócia, tem um histórico notável na defesa de direitos humanos, não importa o país ou continente. Ele foi uma das pouquíssimas pessoas que conseguiram acesso ao julgamento de Julian Assange, e seus precisos relatos ajudaram a expor a farsa kafkiana da corte britânica.

A acusação contra Murray foi de desacato à Corte, por ele ter denunciado em seus artigos, a falsa acusação de assédio sexual de que fora vítima o ex-primeiro-ministro escocês Alex Salmond (também fervoroso adepto da independência escocesa).  Murray expôs as entranhas da armação, indicando que as denunciantes seriam mulheres do círculo próximo da atual primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon.

Como a legislação não permite revelar os nomes das testemunhas, Murray fez uso de um jogo de palavras, dando algumas pistas nada conclusivas. Instado pela Corte a remover estas informações, Murray se recusou em nome da liberdade de expressão. O ex-embaixador passou a ser ele próprio vítima de lawfare. Surgira a oportunidade de calar sua incômoda voz.

Craig Murray, um dissidente político do Ocidente

Quem acompanhava o noticiário na época em que ainda existia a União Soviética, escutava ou lia sobre os dissidentes políticos que se posicionavam contra as restrições que o regime vigente impunha. Em geral, escritores e artistas, que muitas vezes aproveitavam as oportunidades para fugir para o Ocidente.

Atualmente, a dissidência política está no Ocidente. Como, por exemplo, aquelas pessoas que tomam coragem  de vazar ou divulgar documentos secretos que expõem crimes de guerra, interceptação telefônica e vigilância não autorizada dos cidadãos: Philip Agee, Daniel Ellsberg, Edward Snowden, Chelsea Manning e Julian Assange, apenas para citar alguns. Mas o preço a pagar pode ser bem caro.

Craig Murray não foi processado e preso por ter vazado algum documento específico, e sim por ter se tornado “uma pedra no sapato” para o Reino Unido e para a OTAN.

Breve histórico de um ativo defensor de direitos humanos

Quando embaixador no Uzbequistão, Craig Murray denunciou as frequentes torturas a que o presidente Islam Karimov submetia os opositores, com o beneplácito de seu próprio país, então governado pelo primeiro-ministro Tony Blair. E certamente com o apoio dos EUA, em plena “guerra ao terror” promovida por Bush filho.

Murray foi então demitido do serviço diplomático. A história é contada no livro Diplomacia Suja, publicado no Brasil pela Companhia da Letras, e acessível para download na internet. Melhor para o mundo, pois livre das amarras impostas pelo serviço diplomático, Murray passou a usar seu blog para denunciar as ações agressivas da OTAN. Ele também não se omitiu em criticar a Rússia, China, Irã ou qualquer outro país, sem, no entanto, se deixar levar pelas falsas narrativas propagadas pela mídia corporativa do Ocidente.

Declaração de Nadira, esposa de Craig Murray. 29.07.21

(A íntegra da declaração original pode ser acessada aqui)

Hoje é o dia mais dilacerante para mim. Meu marido, cuja saúde não é adequada para suportar a prisão, deve se entregar para detenção em poucas horas, após a decisão da Suprema Corte do Reino Unido de não ouvir seu recurso.

Estávamos extremamente esperançosos de que a Suprema Corte atendesse ao apelo, [……] dado o quão importante e relevante ele é no contexto da Liberdade de Expressão no Reino Unido. Em vez disso, a Suprema Corte se recusou.

[……] Além disso, a Corte Escocesa descartou totalmente que a saúde fraca de Craig e o seu bem-estar estariam em risco se ele fosse forçado a ir para a prisão, mesmo estando a Corte ciente desta condição através do relatório obrigatório do Serviço Social e dos relatórios médicos.

[……] estou triste e chocada ao saber que ele poderá ser colocado entre criminosos, sem poder levar livros ou ter permissão para escrever, sem a permissão de qualquer entretenimento. Ele está sendo tratado como um criminoso. Isto não é uma punição justa, é uma tentativa deliberada de quebrar o espírito de qualquer um, corajoso o suficiente para fazer uso da liberdade de expressão.

[……] Tendo convivido com Craig por duas décadas, ele sempre fez uso de seu tempo e energia para chamar a atenção para injustiças, se posicionando a favor do que é certo, de forma cuidadosa, consistente e com consideração.

Cresci durante os tempos da União Soviética, no período pós-independência do meu próprio país, o Uzbequistão. Testemunhei e experimentei pessoalmente qual é verdadeiramente o preço da liberdade de expressão. Os opositores “desapareciam”, supostamente “tiravam a própria vida”, ou eram trancafiados em asilos. [……] É terrível ver que Craig está passando pelo mesmo tratamento no Reino Unido, país considerado como respeitador dos “direitos humanos”.

Este é um ataque aos que dizem a verdade. Os textos dele são de um jornalista altamente qualificado, ativista de direitos humanos, ex-reitor da Universidade de Dundee, e ex-embaixador britânico. Para nós, sua família, esta situação é devastadora: agora estou com meu bebê de 5 meses, e tentando encontrar uma boa forma de explicar a sentença de prisão de Craig para seu filho de 12 anos, que está confuso e ansioso.

Para os leitores que estejam preocupados com a perda da liberdade de expressão e igualdade perante a lei, eu peço que demonstrem solidariedade ativa e direta com meu companheiro.

Murray mantém o humor

Em seu último artigo, publicado antes de ser encarcerado, o ex-embaixador escreveu: “A rainha gentilmente pagou por meus jantares por cerca de 20 anos, enquanto eu era um diplomata e embaixador britânico. E agora ela vai pagar pelos meus jantares novamente. Isto é muita gentileza, pois achei que ela tivesse me esquecido.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Brasil participa de manobras navais contra a Rússia no Mar Negro

Por Ruben Rosenthal

Que interesses no Brasil serão favorecidos pelo alinhamento com a política belicista de Biden? A decisão do governo brasileiro não chega a surpreender, vinda de um presidente que bate continência para a bandeira dos EUA. E os militares estão satisfeitos com esta posição subalterna, acreditando que a Rússia ainda é um país comunista?

Logotipo Sea Breeze
Sea Breeze, manobras anuais promovidas pelos EUA e Ucrânia, no mar, terra e ar \ Crédito: C6F-Sexta Frota

A manobra aeronaval Sea Breeze (Brisa do Mar) iniciada em 28 de junho no Mar Negro, nas proximidades do território russo, é liderada pelos Estados Unidos e conta com a participação de 32 países, inclusive do Brasil. As ações vêm na sequência de incidentes ocorridos no Mar Negro, quando um barco patrulha russo fez disparos de aviso contra o destroier da marinha britânica HMS Defender, que entrara em águas territoriais da Criméia, segundo declaração do ministro da defesa russo em 23 de junho.

A manobra faz parte de uma parceria dos EUA com a Ucrânia, e ocorre apenas algumas semanas após a reunião dos presidentes Biden e Putin em Genebra. A participação do Brasil em exercícios militares hostis à Rússia pode levar ao engajamento do país em uma confrontação, que parece reacender o clima da Guerra Fria que prevaleceu por décadas, para benefício da indústria bélica.

O incidente com o destroier HMS Defender

A anexação da Criméia pela Rússia, seguindo-se ao referendo de 2014 em que 97% da população da península teria se manifestado favorável à separação da Ucrânia, nunca foi reconhecida pelo Ocidente. Poucos meses antes da consulta popular, uma revolução colorida orquestrada em Washington tirara do poder o presidente ucraniano eleito, possibilitando a ascensão ao poder da extrema direita ucraniana, ferozmente antirrussa. 

Estes eventos alienaram as populações de origem russa da Criméia e da parte ocidental da Ucrânia.  A região do Donbass tentou seguir o mesmo caminho da Criméia, mas encontrou forte resistência de Kiev, o que originou confrontos bélicos entre o governo central e os separatistas, e o aumento das tropas russas na fronteira, causando alarme na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Este é o clima que antecedeu os exercícios militares deste ano no mar Negro, iniciados pelos britânicos.

O HMS Defender se encontrava no Mar Negro, na rota do porto ucraniano de Odessa para a Geórgia, quando violou águas territoriais na região da Criméia. Segundo o Deutsche Welle, a Rússia declarou que o HMS Defender deixou as águas territoriais russas após os disparos de aviso. Assista o  vídeo liberado pelo FSB, o Serviço de Segurança da Rússia. Um bombardeiro russo SU-24 teria também despejado quatro bombas à frente do Defender, para convencê-lo a mudar o curso.

British navy cruiser HMS Defender is intercepted by russian plane
HMS Defender muda o curso após aviso russo e despejo de 4 bombas pelo avião SU-24 \ Fonte: Less Daily

O ministro da defesa do Reino Unido declarou que “o navio da marinha real estava exercendo passagem inocente através de águas territoriais ucranianas, em concordância com a legislação internacional. E que não ocorreram disparos de alerta”.

Para o ex-embaixador britânico Craig Murray, crítico do belicismo da OTAN, não está em disputa que a Rússia exerce o controle de fato da Criméia, mesmo que a anexação não tenha sido conduzida de acordo com as normas internacionais. Um vaso de guerra navegar em águas territoriais da Criméia equivale a um regimento de tropas desembarcar na península, acrescentou Murray. 

A alegação de “passagem inocente” não procede, considera ele. Trataria-se na verdade de um ato de propaganda, pela presença de uma equipe da BBC a bordo do HMS Defender, como também de busca de informações sobre a defesa militar russa.

Mesmo que o governo de Sua Majestade apoie o pleito ucraniano de soberania, a posição legal seria a de considerar a Rússia como potência ocupante e não violar as águas territoriais da Criméia, avalia o ex-embaixador. Murray ressalta o contraste com que o Reino Unido trata outra potência ocupante, Israel. O próprio Reino Unido ocupa ilegalmente as Ilhas Chagos, em desobediência a diversas decisões de cortes internacionais, conforme denunciou anteriormente Murray.

Sea Breeze, as manobras elevam a tensão no Mar Negro

Os exercícios militares conjuntos entre Ucrânia e EUA no Mar Negro começaram em 1997, dois anos após Rússia e Ucrânia acertarem a divisão da frota, com o fim da União Soviética, conforme outro relato no Deutsche Welle. Com a secessão da Criméia, parte da frota ucraniana passou para a Rússia. 

Conforme relato no America’s Navy, as manobras de 2021 se estenderão de 28 de junho a 10 de julho, contando com a participação de 32 países de seis continentes, com 5.000 tropas, 32 embarcações, 40 aviões e 18 grupos de operações especiais.

Além dos países membros da OTAN e da Ucrânia, participam dentre outros, Israel, Egito, Marrocos, Emirados Árabes Unidos, Coréia do Sul, Japão, Austrália, Suécia, Moldávia, Geórgia e Brasil.

O incidente com  HMS Defender mostrou que a Rússia não está disposta a aceitar provocações sem reagir. Com menos de 6 meses na presidência, Joe Biden parece que fará as tensões entre EUA e Rússia escalarem, levando a uma nova Guerra Fria entre os dois países.  

Que interesses no Brasil serão favorecidos pelo alinhamento com a política belicista de Biden? A decisão do governo brasileiro não chega a surpreender, vinda de um presidente que bate continência para a bandeira dos EUA. E os militares estão satisfeitos com esta posição subalterna, acreditando que a Rússia ainda é um país comunista?

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacolhando.

Como o Deus dos judeus me tornou antissionista

Por Ruben Rosenthal 

Me afastar de Deus e, como consequência, de um convívio mais próximo com a comunidade judaica, contribuiu para que eu não incorporasse o sentimento de vítima a que os judeus frequentemente recorrem para justificar as ações de Israel, por mais desumanas que estas possam ser.

Sodoma e Gomorra em chamas
Sodoma e Gomorra em chamas: os anjos conduzem Ló e sua família; ao fundo, a estátua de sal da esposa de Ló \ Pintura: Jacob de Wet II, 1680
 

A partir de 2018 comecei a escrever de forma sistemática artigos de cunho político, em que o tema da Palestina foi e continua a ser bastante recorrente. O tom dos artigos foi sempre de crítica às ações do Estado de Israel contra o povo palestino, tanto internamente, como nos territórios ocupados ilegalmente e na Faixa de Gaza.  

Mas se hoje já consigo denunciar que Israel é um Estado opressor, que implementa uma política de apartheid, nem sempre pensei desta forma. Considero que a minha rejeição ao sionismo foi um processo gradual, que começou há várias décadas, com o meu afastamento do Deus punitivo dos judeus.   

A religião na infância  

Me recordo de quando meus pais me levavam no feriado judaico do Yom Kipur – o Dia do perdão – ao velho templo da Praça Onze, no Centro do Rio de Janeiro, demolido anos depois com as obras do metrô. Apenas os homens podiam ficar na parte de baixo, onde eram conduzidas as rezas pelos anciões do templo. Um destes era tio de minha mãe, o tio Chico. 

Nestas ocasiões, eu me sentia bastante incomodado pelo cheiro presente do salão de reza. O odor parecia vir do hálito dos que estavam jejuando desde as 18 horas do dia anterior, quando boa parte dos que estavam presentes provavelmente teria comido aliche em conserva na última refeição. Para complementar a composição do cheiro, talvez estivesse incluída uma pitada de odor vindo da naftalina usada na preservação dos ternos. 

O vozerio no salão por vezes crescia até alcançar um nível quase insuportável. Um dos anciões dava então uma pancada forte na bancada, cobrando silêncio. Algum tempo depois a mesma situação voltava a se repetir, e assim, até o encerramento às 18 horas.    

A minha memória mais antiga, no que se refere ao Estado de Israel, é de quando eu estudava em um colégio israelita no bairro de Botafogo. Creio que eu devesse ter uns 7 anos de idade na ocasião. Lembro que os professores ou a direção solicitavam aos alunos que intercedessem junto aos pais, para que estes contribuíssem na arrecadação de dinheiro para plantar árvores no deserto do Neguev, em Israel. Hoje eu me pergunto se tais doações não teriam sido destinadas à compra de armas.  

Foi também quando escutei pela primeira vez a frase que já vinha sendo usada há décadas pelos sionistas: “Uma terra sem povo para um povo sem terra”. Anos depois a verdade se sobrepôs, conforme o drama dos refugiados palestinos ficou evidenciado para o mundo.  

Naquela ocasião aprendi em sala de aula como ao longo da história milenar do povo hebreu Deus havia sido implacável com os inimigos de Israel: “Jeová é um Deus vingativo e ciumento, rico em ira; vinga-se dos seus adversários e guarda rancor aos seus inimigos” (Nahun 1, 2-8). Em luta contra os reis amorreus, “Josué consagrou todos os seres vivos ao extermínio, como Jeová havia ordenado, e apoderou-se de todos os territórios daqueles reis” (Josué 10, 6-8, 40-42). Naquela época eu não havia ainda ouvido falar nos palestinos, só nos filisteus – os grandes inimigos dos hebreus, que haviam se instalado em Gaza. 

Me ensinaram também que quando Deus era desrespeitado pelos israelitas, Ele os castigava, fosse com o ataque de inimigos ou com outras formas de punição. Lembro de algum professor mencionando em sala de aula a destruição de Sodoma e Gomorra, pelos pecados cometidos por seus cidadãos: “Então o Senhor fez chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra”. 

Na ocasião fiquei sem entender que comportamentos desviantes eram esses, que levaram Deus a punir com tamanha severidade seu próprio povo. Quando algum tempo depois vim a saber mais sobre Sodoma e Gomorra, me dei conta de que meus pensamentos já eram pecaminosos, mesmo na tenra idade.  

Ao final da adolescência, compreendi que só havia um jeito de me livrar do sentimento de culpa que carregava pelos “pecados” que continuavam a povoar meus pensamentos: tentar tirar Deus e a religião da minha vida. Ajudou bastante a este propósito, passar a estudar em um colégio laico, como o Pedro II.  

1967: o Grande Israel  

Eu estava perto de completar 16 anos, quando as imagens do general israelense usando um tapa-olho dominaram o noticiário. Vibrei com as notícias de como a estratégia bélica de Moshe Dayan havia levado à derrota dos exércitos do Egito, Síria, Jordânia e Iraque. E de como Israel passara a ocupar terras que aumentavam em várias vezes seu próprio território. Outra guerra entre os israelenses e os “vilões” árabes estourou em 1973, quando Israel foi atacado no feriado Yom Kippur.  

A questão palestina surgida com a fundação de Israel passou a ocupar uma relevância cada vez maior no contexto da crise no Oriente Médio, conforme diminuía a possibilidade da eclosão de novas guerras generalizadas. Na ocasião eu me perguntava por que os países árabes não faziam uso de seus petrodólares para acomodar os palestinos em novas terras.  Só que a questão dos refugiados e dos palestinos em geral não era tão fácil de ser resolvida.  

1977-1984: nas manifestações em Londres 

Em 1977 fui fazer pós-graduação em Londres. No primeiro ano morei em um alojamento para estudantes, uma verdadeira Babel de línguas e costumes. Foi lá que tive o meu primeiro contato com um palestino, cujo nome não recordo. Não ficamos amigos, mas tínhamos uma boa convivência.  

Ele tentava me convencer da responsabilidade dos governos de Israel pelo sofrimento de seu povo. Às vezes eu me sentia um tanto constrangido de conversar com ele. Por mais que eu pudesse ter percepção e compadecimento pelo sofrimento dos refugiados, eu não conseguia ver Israel como um algoz, e sim, como uma nação agindo em autodefesa, para seu povo não ser “varrido ao mar”. Os atentados praticados pela OLP, a Organização para a Libertação da Palestina, e outros grupos terroristas também colaboravam com esta visão.  

Quando mudei do alojamento perdi contato com o palestino; não sei se ele ficou no Ocidente após concluir seu curso – creio que de Direito, ou se retornou à Palestina. Talvez esteja atuando nos tribunais de Israel, em defesa de causas palestinas. Como também pode ter morrido em um dos devastadores bombardeios promovidos pelo exército israelense. 

Pode ser transformador viver, mesmo que por alguns anos, em um centro do imperialismo mundial, como a Inglaterra. Naquele período foram frequentes os eventos e manifestações contra o regime de apartheid da África do Sul, contra a intervenção de Reagan na Nicarágua e El Salvador, contra o domínio britânico na Irlanda do Norte, bem como pelo direito do povo palestino à autodeterminação. 

2018: o blogue Chacoalhando   

Quando comecei a escrever sobre Israel e a questão palestina, uma das minhas referências de informação foi o site Gush Shalom (Bloco da Paz), do ativista e herói israelense da guerra de independência de 1948, Uri Avnery, falecido em 2018.  

Avnery chegou a se encontrar mais de uma vez com o líder palestino Yasser Arafat, o que poderia tê-lo levado à acusação de traição. Ele acreditava na solução de “dois estados”, em que precisariam ser feitas algumas concessões territoriais de ambas as partes, além de compensações financeiras a uma parte dos palestinos que foram desalojados pela Nakba (Catástrofe).   

Estima-se que quando Israel proclamou de forma unilateral sua independência em 1948, cerca de 700 mil palestinos foram expulsos ou abandonaram suas casas com medo de serem massacrados. Muitos destes passaram a viver em campos de refugiados nos países vizinhos, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. 

Avnery, no entanto, até o final de sua longa e combativa vida relutou em usar o termo “apartheid”, em relação à situação interna de Israel e dos territórios ocupados da Cisjordânia. O último artigo em sua coluna no site foi em 4 de agosto, e intitulou-se: Quem diabos somos nós?  

O artigo foi escrito na sequência da aprovação pelo parlamento israelense, a Knesset, da legislação intitulada: “Lei Básica: Israel, o Estado-nação do Povo Judeu”. Quando o então presidente David Ben-Gurion leu a declaração de independência, esta proclamava a fundação de um Estado Judaico.  

Ainda segundo Avnery, a declaração não se tornou lei, embora a Suprema Corte passasse a adotar seus princípios, mesmo sem uma base legal. Ela mencionava um “Estado Judaico e democrático”, e prometia igualdade para todos os cidadãos, independentemente de religião, etnicidade ou sexo.  Em relação à Lei Básica, Avnery acrescentou: “Não há Democracia.  Não há igualdade. Um Estado dos judeus, para os judeus, pelos judeus”.  

Na mesma ocasião, uma importante doadora para causas beneficentes em Israel, a britânica Dame Vivien Duffield, foi bastante assertiva ao declarar: “Meu Israel está morto…. É apartheid! Para os ingleses que relembram a África do Sul, isto (agora) é a África do Sul! Uma lei para um grupo, e uma outra, para o outro grupo”.  

Para Netanyahu, os judeus que criticam a lei são esquerdistas e traidores, “que esqueceram o que é ser judeu”.  No entanto, é crescente o número de judeus fora de Israel que não compactuam com o tratamento concedido aos palestinos, e com os bombardeios do exército israelense a Gaza. Internamente, mesmo com a saída iminente de Netanyahu do poder, não há ainda indícios que o novo governo irá cessar as políticas de opressão aos palestinos e de usurpação de suas terras.

Palestina
Palestina: Uma Pátria Negada, Centro Cultural do Iraque, Londres,1979 \ Arte: Gecko e Tekla Alexiev

Finalizando 

Me afastar de Deus e, como consequência, de um convívio mais próximo com a comunidade judaica, contribuiu para que eu não incorporasse o sentimento de vítima a que os judeus frequentemente recorrem para justificar as ações de Israel, por mais desumanas que estas possam ser. O povo oprimido pelas perseguições centenárias se tornou opressor, mas precisa aliviar sua consciência. 

Com décadas de atraso, gostaria de poder dizer ao irmão palestino que conheci em Londres nos anos 70, que o sofrimento do povo dele também me faz sofrer. Que germinou e cresceu a pequena semente que ele plantou, possibilitando que agora eu possa ser mais uma voz a denunciar os crimes de Israel, através dos artigos que escrevo.  

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

Chocolate de Páscoa com recheio de trabalho infantil

Por Ruben Rosenthal

Os problemas estruturais que causam o trabalho infantil nas plantações de cacau só podem ser resolvidos através de cooperação entre os governos dos países produtores e consumidores, indústria e organizações não governamentais. 

Grande parte do chocolate consumido no mundo é produzido com cacau obtido com trabalho infantil
Chocolate produzido com exploração do trabalho infantil \ Foto: The New Daily

A Páscoa judaica celebra a libertação dos escravos hebreus do Egito. A Páscoa cristã celebra a ressurreição de Jesus, e incorporou a crença pagã de associar ao ovo uma simbologia de renascimento; com os confeiteiros franceses foi introduzido o costume dos ovos de chocolate. Mas o chocolate consumido na Páscoa cristã está associado a práticas de escravidão e de exploração de trabalho infantil de risco em países produtores de cacau. As crianças da África Ocidental ainda aguardam por uma Páscoa que possam comemorar em liberdade.

Alguns dos países produtores, como Gana e Costa do Marfim, resolveram tomar medidas unilaterais para conseguir melhores preços para as safras dos grãos de cacau. A intenção é de reverter a pobreza no campo, principal causadora do trabalho infantil. No entanto, a reação de parte da indústria foi negativa e colocou em rota de colisão países fornecedores de matéria-prima e multinacionais do chocolate. 

A cadeia produtiva: do cacau ao chocolate

A indústria de chocolate rende 100 bilhões de dólares anuais, cabendo à Gana cerca de 2 bilhões e à Costa do Marfim, 4 bilhões. Estes dois países respondem por 2/3 da produção mundial de cacau. No entanto, o cultivo está associado à baixa remuneração dos agricultores, ao trabalho infantil, e vem causando destruição de florestas para aumento da produção.

Com a concentração internacional do mercado de cacau, grande parte das atividades é controlada pelo Big Chocolate, o pequeno grupo de transnacionais que inclui empresas processadoras dos grãos e fabricantes de chocolate.

O cacau de Gana e da Costa do Marfim é geralmente adquirido por empresas processadoras dos grãos como a suíça Barry Callebaut, Cargill, ECOM e Olam. Dentre as principais empresas que produzem chocolate incluem-se a Nestlé, Hershey, Mars, Ferrero, além da própria Barry Callebaut.

Trabalho infantil nas fazendas de cacau

Segundo estudo de pesquisadores brasileiros, as violações de direitos humanos na cadeia produtiva de cacau na África Ocidental estão diretamente relacionadas com a atuação das empresas multinacionais. A estrutura oligopolista dessas grandes empresas e o grande poder de barganha que possuem no mercado mundial contribuiriam para a perpetuação de um círculo vicioso de pobreza, e assim, para o aumento do trabalho infantil na produção de cacau.

Muitas destas crianças são oriundas de outros países, onde foram vendidas por seus pais. Por outro lado, a situação de pobreza nas fazendas de cacau requer por vezes que os próprios filhos dos donos das plantações se envolvam na colheita, deixando assim de frequentar a escola.

A estimava do Fórum Internacional de Direitos do Trabalho (ILRF, na sigla em inglês) é de que na África Ocidental o número de crianças em situação de trabalho infantil no setor de cacau esteja entre 500.000 e 1.500.000. Nas atividades extrativas, crianças costumam lidar com ferramentas de corte afiadas e com o uso de pesticidas.

criança faz trabalho de risco na colheita do cacau
Criança usando facão na colheita do cacau, África Ocidental, 2015 \ Foto: Daniel Rosenthal/Laif

O pequeno tamanho dos lotes familiares também não ajuda na obtenção de uma remuneração digna com a venda dos grãos. A maioria das plantações tem tamanho inferior a 10 hectares (0,1km quadrados). Um produtor que dispõe de uma extensão de terra equivalente a 2 hectares e produtividade média, ganha cerca de U$755,30 por ano na Costa do Marfim e U$ 983,12 em Gana. Por vezes  os produtores se associam em cooperativas de até 500 membros, conforme também relatado no estudo brasileiro. 

O trabalho infantil na indústria de chocolate começou a chamar a atenção da comunidade internacional em 2000, quando o documentário da BBCSlavery: a Global Investigation (Escravidão: uma Investigação Global) expôs os abusos praticados em Gana e na Costa do Marfim. Neste documentário foi relatado que centenas de milhares de crianças de Burquina Faso, Máli e Togo estavam sendo compradas de suas famílias, e vendidas como escravas para agricultores na Costa do Marfim.

A pressão internacional

Em resposta à indignação da comunidade internacional, grandes empresas da indústria de chocolate desenvolveram políticas para a cadeia produtiva. Uma iniciativa vinda do setor privado se deu através das organizações Fair Trade (Comércio Justo), que procuram garantir que cadeias globais e empresas transnacionais não desrespeitem direitos humanos e sociais. Os produtos passariam a receber certificados de “livre de trabalho infantil”, e de que o produtor recebeu um preço justo pela matéria prima.

O setor privado promoveu diversas outras iniciativas voltadas para a questão social na base da pirâmide da cadeia produtora do chocolate. International Cocoa Initiative (ICI), World Cocoa Foundation, Roundtable for a Sustainable Cocoa Economy e Bill&Melinda Gates Foundation foram algumas das organizações que estiveram envolvidas com projetos. Algumas empresas, como a suíça Nestlé e a britânica Cadbury, lançaram seus próprios planos.

Entretanto, conforme relatado pela plataforma online Swissinfo.ch, um estudo conduzido pela Universidade de Chicago verificou que o trabalho infantil na cadeia de fornecimento do cacau na Costa do Marfim e em Gana aumentou de 31 para 45% entre 2008 e 2019, apesar do compromisso das multinacionais do Big Chocolate em erradicar esta prática nas regiões de cultivo.

A indústria agora avalia que “as metas foram definidas sem uma compreensão total da complexidade e da escala de um desafio fortemente associado à pobreza na África rural”. Para a ICI, “uma das lições aprendidas é que não funciona a abordagem que pune agricultores por usarem seus filhos para ajudar na colheita, quando são poucas as alternativas”. Além disso, os rendimentos dos agricultores ficam ao sabor dos preços globais de mercado, que despencam quando a safra é mais abundante.

Novas abordagens no combate ao trabalho infantil

A Unicef está incentivando a indústria a investir em saúde, alimentação e educação para romper com o ciclo de pobreza. E parte da indústria parece estar aderindo a esta visão, segundo relatado pelo swiss.co. A Nestlé se comprometeu em priorizar saneamento, água e igualdade de gênero em seu Plano do Cacau; a empresa também declarou que está construindo escolas em algumas aldeias.

Ainda segundo a matéria,  empresa Barry Callebaut desenvolve um projeto que está ajudando os agricultores a aproveitarem melhor suas terras, utilizando parte delas para cultivo de produtos agrícolas de subsistência e criação de pequenos animais, como galinhas. Desta forma não haveria dependência econômica exclusivamente no comércio de cacau.

Por outro lado, o governo suíço está investindo em parcerias com a indústria suíça do cacau e com ONGs, como parte da Plataforma Suíça para o Cacau Sustentável (SWISSCO), fundada em 2018.

A escala destas iniciativas é que determinará sua efetividade na solução dos problemas sociais e econômicos que envolvem os países produtores de cacau da África Ocidental. No entanto, alguns governantes africanos não estão dispostos a aguardar mais tempo pelo resultados das iniciativas vindas da indústria do chocolate.

A queda de braço com o Big Chocolate

Gana e Costa do Marfim resolveram impor unilateralmente a partir de outubro de 2020, um adicional de 400 dólares no preço da tonelada de grão. A taxa denominada “diferencial de condição de vida” (LID, na abreviatura em inglês) possibilitaria aos fazendeiros, enviar os filhos para a escola, arcar com despesas médicas e uma melhor alimentação.

Para alguns dos grandes produtores e comerciantes de chocolate existe de fato a preocupação que seus nomes não estejam associados com aumento de pobreza, trabalho infantil e degradação ambiental. A empresa suíça Barry Callebaut, maior compradora mundial de cacau, apoiou com cautela a nova taxa.

Entretanto, algumas reações foram negativas. Para Michiel Hendriksz, ex-comerciante de commodities, a imposição da taxa extra de 400 dólares está fadada ao fracasso. Conforme ele relatou ao Financial Times, “a LID seria uma má jogada de pôquer por quem não deveria jogar”. Para Hendriksz, “seria melhor usar parte das terras para plantar produtos agrícolas voltados para alimentação, e com isto reduzir a produção do cacau, fazendo os preços subirem”. 

Em carta enviada ao Financial Times, publicada em 1 de dezembro, Gana e Costa do Marfim acusaram produtores de chocolate de agir de má fé para não pagar a taxa LID. Foram citadas na carta as empresas Mars, Hershey e Olam, além de quatro pequenos comerciantes de cacau, que se defenderam das acusações. 

O presidente de Gana dobra a aposta

Em 28 de fevereiro deste ano, em discurso histórico perante os membros do Conselho Federal da Confederação Suíça, o presidente de Gana anunciou (ver vídeo) que seu país não quer continuar a ser dependente da exportação de matéria prima. O presidente Nana Akufo-Addo acrescentou que, “no caso do cacau, a intenção é de incrementar o processamento em Gana visando produzir mais chocolate no país”.

Após enaltecer a contribuição da Suíça com o desenvolvimento de Gana, o presidente foi taxativo ao afirmar que “não poderá haver prosperidade no futuro para o povo de Gana se forem mantidas as atuais estruturas econômicas”. Acrescentou ainda que a intenção de seu governo é de “adicionar valor agregado às matérias-primas do país, industrializar e aumentar a produção agrícola”. Ou seja, não mais exportar cacau sem beneficiamento prévio dos grãos.

Discurso do Presidente Nana Akufo-Addo anunciando a mudança na política para o cacau
Presidente de Gana anuncia para o Conselho da Suíça, a nova política para o cacau, 28 de fevereiro de 2021

Ainda são imprevisíveis os efeitos que a nova política – se for implementada a fundo, poderá trazer para a produção do chocolate suíço e para o mercado internacional de chocolate. Gana é o maior exportador de grãos de cacau para a Suíça, e o segundo produtor mundial, atrás apenas da Costa do Marfim.

O presidente Nana Akufo-Addo precisará fazer uso de uma visão sistêmica para conseguir trazer benefícios efetivos para o setor cacaueiro de seu país. Um caminho a considerar é contornar a intermediação das Trade Houses, as empresas de comércio que lidam com importação e exportação de commodities.  

Por um lado, é arriscado colocar todas as cartas no chocolate Made in Gana. O país não possui uma indústria de leite de porte suficiente, o que obrigaria recorrer à importação. Além disso, o custo da eletricidade é elevado, o que encareceria o preço final do chocolate, devido à necessidade do uso de refrigeração na fabricação e conservação.

O beneficiamento mais simples seria moer os grãos de cacau em Gana antes da exportação. Outra possibilidade seria produzir o licor e a manteiga de cacau, que não precisam ser mantidos em refrigeração. Iniciativas como a da Barry Callebaut de incentivar a diversificação da produção nas terras agriculturáveis, se aplicadas em larga escala nos países produtores, podem resultar em melhores preços de venda do cacau no mercado internacional. Ficará alterado poder de barganha com as multinacionais do Big Chocolate.

Mas na queda de braço com o Big Chocolate, os países produtores contam com aliados. Em 12 de fevereiro foi aberta uma ação na capital norte-americana pela organização International Rights Advocates (IRA) a favor de oito jovens adultos originalmente do Mali que, quando crianças, haviam sido forçados a trabalhar sem pagamento em plantações na Costa do Marfim. A ação foi movida contra a Nestlé, Mondelez, Cargill, Barry Callebaut, Mars, Olam e Hershey. Se defendendo,  as empresas proclamam estar comprometidas com a erradicação do trabalho infantil na cadeia de suprimento do cacau.

Para Nicko Debenham, chefe de sustentabilidade da Barry Callebaut, os problemas estruturais que causam o trabalho infantil nas plantações de cacau só podem ser resolvidos através de cooperação entre os governos dos países produtores e consumidores, indústria e organizações não governamentais. 

Enquanto isso, no Brasil…

Em artigo de novembro de 2019 publicado pelo Brasil de Fato, foi relatado que as multinacionais Nestlé, Mondelez, Barry Callebaut, Cargill e Olam Brasil exploram o trabalho infantil e o trabalho escravo em lavouras de cacau na Bahia e no Pará. As empresas já foram notificadas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), mas não assumiram responsabilidade pelo problema.

E a propósito, qual o recheio do ovo de chocolate que você comprou para esta Páscoa?

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo Blogue Chacoalhando.  

Uma jornada de cem anos sem solidão

Por Ruben Rosenthal

A vitória pessoal começou naquela primeira semana que não consta do registro de nascimento.

Tenente Israel Rosenthal Força Expedicionária Brasileira
Tenente da FEB Israel Rosenthal participa de solenidade

1921. Já não se falava tanto nos horrores da Grande Guerra, que tivera como palco principal o continente  europeu. O país contava então com uma população em torno de 30 milhões, e uma expectativa média de vida ao nascer de 35 anos para os homens. A medicina ainda avançava devagar.

31 de janeiro. Era quase impensável que alguém nascido no início dos anos 20, mesmo em uma metrópole como o Rio de Janeiro, pudesse chegar aos 100 anos de idade. Nas duas primeiras décadas do século o Brasil fora assolado por doenças como a febre amarela, peste bubônica, varíola, tuberculose e ao final da segunda década, pela espanhola.  Em 1921 ainda faltavam sete anos para a descoberta da penicilina, e duas décadas para que seu uso clínico fosse definido em Oxford em 1940, dando origem à era dos antibióticos.

Para o país, a década de 20 representou o começo da transição de um modelo exportador primário com base no café, para o da industrialização voltada para o consumo interno. O rádio foi uma novidade, com o início da radiodifusão no país em 1922. A criança então com nove anos talvez observasse seus pais acompanhando os discursos de Getúlio Vargas, mas é pouco provável que tivesse algum entendimento do que era dito ou mesmo que uma Revolução estava ocorrendo no país em 30. Poucos anos depois, esta mesma criança poderia notar a aflição dos pais ao escutarem as notícias de que o líder nazista Adolf Hitler se tornara chanceler da Alemanha.

As feições do Rio de Janeiro herdadas dos tempos coloniais já haviam mudado substancialmente com as intervenções urbanísticas de Pereira Passos no início do século (1906), dando à capital do país uma aparência moderna. Mas estas reformas também contribuíram para aumentar a segregação da cidade. Até 1930 prosseguiu a remodelação do antigo Centro e desenvolveu-se o vetor na direção sul da cidade.  

No decorrer dos anos 30 o adolescente já poderia se dar conta do desenvolvimento urbano, como também do crescimento das favelas. Faziam sucesso nesta década as músicas O que é que a baiana tem, na voz de Carmen Miranda, Tico-tico no fubá, a marchinha de carnaval As Pastorinhas, Linda morena, Carinhoso, dentre outras.

Os jovens dançavam em clubes ou nas populares gafieiras, como o Elite Club. No final da década de 30 surgiu o Clube Cabiras, que passou a ser um ponto de diversão da juventude judaica. 

Tenente Rosenthal participa da campanha da FEB na Itália, 1945
Tenente Israel Rosenthal, FEB, Itália, 1945

No entanto, aquela despreocupação cedeu lugar à apreensão, quando as consequências do advento do nazi-fascismo no mundo se fizeram sentir. Ao final da década de 30 eclodiu a segunda Grande Guerra, e nos anos seguintes tropas da FEB, a Força Expedicionária Brasileira, foram enviadas para o teatro de operações na Europa para combater o nazi-fascismo.

O jovem tenente nascido em 1921 embarca com seus companheiros para passar por sua inesquecível experiência. Ao regressar ao país em 1945, o pracinha da FEB estará com 24 anos. Os momentos vividos serão sempre lembrados e celebrados. O retorno das tropas apressou o fim da ditadura Vargas.

Na década de 40 despontaram na música nomes como Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Ataulfo Alves, Nelson Gonçalves, Ciro Monteiro e Luiz Gonzaga, com Asa Branca. No Carnaval, Emilinha Borba reinou soberana em 1949, com Chiquita Bacana. Para aquele jovem adulto nascido em 21, era possível usufruir novamente de momentos de plena descontração, namorar, casar e constituir família.

A televisão surge no país em 1950 com a Tupi. Vargas retorna, eleito presidente em 51 e se suicida em 54. Em 58, o Brasil ganha o seu primeiro campeonato mundial de futebol. Eis que desponta Pelé, o Edson Arantes do Nascimento. O principal esporte ainda traria muitas alegrias e tristezas nas décadas seguintes.  Juscelino inaugura Brasília em 1960. Surge a Bossa Nova, na voz e violão de João Gilberto. Militares no poder em 64. Diretas Já. Ayrton Senna. Lula na presidência. Bolsonaro.

Estes foram apenas alguns dos momentos que mexeram com o país, que podem ter sido comemorados, ignorados ou repudiados por alguém nascido em 21. A música já lhe causava estranheza desde o surgimento do Rock & Roll e dos Beatles. Os aparelhos eletrônicos se sofisticaram e seu uso requer esforço da parte do agora idoso nascido em 1921, como no caso de computadores e celulares. A violência aumentou nas ruas do Rio de Janeiro, trazendo também insegurança ao outrora pacato bairro do Catete. 

2021. O ciclo de 100 anos se completa, e uma pandemia mortal como a espanhola voltou a se abater sobre o mundo. Também um novo ciclo de extremismo político se espalhou por vários países, 75 anos após a derrocada do nazi-fascismo.  A expectativa média de vida de um brasileiro que nascer em 2021 será de 77 anos, mas este cidadão poderá ter uma vida bem mais longa e saudável, se os vírus e os extremismos políticos não prevalecerem.

O nosso herói completa agora 100 anos. E chega a esta idade com lucidez e autonomia para desempenhar suas atividades diárias. A jornada não foi solitária, pois dela fizeram parte muitas pessoas. Algumas muito queridas ficaram pelo caminho, enquanto outras foram chegando e estão agora presentes. Os amigos e uma família de filhos, netos, bisnetos e sobrinhos comemoram esta longevidade.

Eleições 2020: direito ao voto ou direito à vida? por Ruben Rosenthal

Com as habituais filas e aglomerações que sempre se formam nas seções eleitorais, como garantir que os eleitores não se contaminem com o coronavírus?

Eleitores da Rocinha encontram longas filas para votar hoje (7) na garagem do Centro Municipal de Cidadania Rinaldo de Lamare e no Centro de Educação de Jovens e Adultos.
Fila na Rocinha nas eleições de 2018 \ Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Supondo a ausência de uma vacinação em massa até o dia 15 de novembro, e mantida a atual taxa de mortalidade, estaremos indo às urnas já beirando ou tendo ultrapassado um saldo de 200.000 mortes pelo coronavírus. A matemática não falha, por mais assustador que seja o resultado da conta. Mas as eleições podem agravar ainda mais a pandemia, se as medidas de segurança previstas não forem suficientes. Deve ser mantida a obrigatoriedade do voto nestas circunstâncias?

Pelo novo calendário eleitoral, as eleições municipais foram marcadas para os dias 15 e 29 de novembro, correspondendo ao primeiro e segundo turnos. O motivo do adiamento foi a pandemia da Covid-19. Para diminuir o risco de se contrair a doença, nestas eleições não será utilizada a biometria, álcool em gel será disponibilizado, bem como os eleitores receberão canetas individuais. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu ampliar em 1 hora o período de votação e reservou para pessoas acima de 60 anos, integrantes dos grupos de risco, o horário das 7 às 10 das manhã. Mas serão estas medidas suficientes para garantir a saúde dos 148 milhões de eleitores aptos a votar?

É de se supor que só seja permitida a entrada nos locais de votação, dos eleitores, mesários e fiscais que estejam usando máscaras de proteção, e da forma correta, sem deixar o nariz de fora, como é habitual se ver nas ruas. Resta ver se os apoiadores fanáticos de Bolsonaro que não usam máscaras respeitarão estas normas, ou se irão criar tumultos no dia da eleição.

Entretanto, mesmo que sejam cumpridos estes procedimentos, os eleitores poderão comparecer para votar em seus candidatos, sem a preocupação de que possam se contaminar nas seções eleitorais? Como garantir que não ocorrerão filas e aglomerações, para que não resulte um aumento vertiginoso dos casos de contaminação nos dias e semanas que se seguirão às eleições, com o consequente aumento do número de mortes?

Nas eleições de 2018 no Rio de Janeiro, imensas filas se formaram para votação. Segundo declarou na ocasião, a então diretora-geral do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), Adriana Brandão, as filas resultaram da extinção de diversas zonas eleitorais por contenção de custos. Ainda segundo ela, a iniciativa foi tomada porque o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) baixara uma resolução determinando a redução no número de zonas eleitorais (nos estados). No caso do Rio, esta redução foi de 244 para 165 zonas, afetando regiões de diferentes níveis sócio-econômicos. Mantida esta situação nas próximas eleições as aglomerações serão novamente inevitáveis, apesar das medidas já adotadas pelo TSE.

Filas na PUC-Rio nas eleições de 2018 \ Foto: Marcos Serra Lima/G1

A medida mais segura a adotar seria adiar novamente as eleições. A pandemia mostrou alguns sinais de regressão nos últimos dias, mas com a flexibilização precoce em muitos municípios, poderá ocorrer nas próximas semanas uma subida acentuada da curva de novos casos, como se sucede agora na Espanha e França.

Segundo relatado pela Agência Senado, durante a sessão remota de debates em 17 de junho, quando se decidiu pelo adiamento das eleições originalmente previstas para os dias 4 e 25 de outubro, os senadores afirmaram que “o futuro da pandemia de Covid-19 é imprevisível, e que isso precisava ser levado em conta na hora de redigir a proposta de emenda à Constituição que trata do adiamento”. 

Estava correta a primeira parte da afirmação, sobre a imprevisibilidade do futuro da pandemia, mas os senadores não levaram isto em conta na redação da PEC, que não contemplou os diferentes cenários que  Antonio Anastasia (PSD-MG) parecia então defender. O senador também afirmou não concordar com a prorrogação dos atuais mandatos de prefeitos e vereadores. No entanto, a decisão dos senadores foi tomada nas condições seguras de uma sessão remota, segurança que até agora está sendo negada aos eleitores.  

Para o Senador Nelsinho Trad (PSD-MS) as decisões precisam se basear nos dados epidemiológicos. Mas se estes forem realmente levados em consideração, então as eleições precisariam ser adiadas novamente, mesmo que isto signifique prorrogar os mandatos. Fica a questão: para os políticos, seus interesses particulares estão acima da saúde da população? Que garantias  Congresso e TSE poderão oferecer aos eleitores de que não irão se contrair o coronavírus, caso decidam comparecer às seções eleitorais para votar?

Muitos eleitores poderão se sentir inseguros com as medidas que foram adotadas até agora, e preferir manter a quarentena. Trata-se de um momento excepcional, em que não deveria prevalecer a obrigatoriedade do voto. Não deveria haver medidas punitivas para os que optassem por não comparecer às urnas em 15 de novembro, supondo-se que esta data não seja novamente alterada.

Nos Estados Unidos é possível o voto pelo sistema postal, em que urnas são espalhadas pelas ruas das cidades, sem que o eleitor precise comparecer aos centros de votação. No Brasil este método não parece ter sido cogitado até o momento, o que exigiria agora uma missão talvez impossível para se conseguir viabilizar esta alternativa, sem que possam ocorrer fraudes.  

Urna para coleta de votos em Maryland, Estados Unidos \ Foto: Tom Williams/CQ-Roll Call, Inc via Getty Images

Uma possibilidade de reduzir ainda mais os riscos de contágio seria realizar pelo menos o primeiro turno em dois dias separados (consecutivos ou não), sendo que em cada dia os eleitores poderiam ser distribuídos em horários de votação previamente estipulados, de acordo com algum critério definido e amplamente divulgado.

A quem caberá responsabilidade se nada for feito para evitar uma maior disseminação da pandemia? Aos sociopatas que estão no poder em Brasília ou aos membros do Congresso e ministros do TSE, por não terem tomado as medidas necessárias. O julgamento certamente virá se o pior acontecer, se não for pelo Tribunal de Haia será pelo Tribunal da Infâmia.

Ou então, só restará torcer para que o seu candidato a prefeito, meu caro leitor e eleitor, ganhe no primeiro turno, para que não haja necessidade do comparecimento às urnas uma segunda vez, aumentando ainda mais os riscos de contrair a Covid.  

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo blogue Chacoalhando. Acesse o índice dos artigos já publicados. 

Quem está por trás das ações do Facebook contra Bolsonaro, por Ruben Rosenthal

Instruído pelo Atlantic Council o Facebook cancelou contas de assessores da família Bolsonaro contendo mensagens de ódio e fake news. Mas que interesses o Atlantic Council representa?

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Foto: Chris Ratcliffe / Getty Images

A cooperação entre o Facebook e o think tank¹ norte-americano Atlantic Council possibilitou a identificação de perfis falsos em contas e páginas contendo “discurso de ódio” ligadas a assessores da família Bolsonaro e ao PSL.  Foram removidas 35 contas, 14 páginas e 1 grupo do Facebook, além de mais 38 contas do Instagram

Estas irregularidades se encaixam no que o Facebook define como “Comportamento Inautêntico Coordenado”. O governo Bolsonaro retaliou, e em 9 de julho a Apex-Brasil, Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, cancelou a parceria firmada com o Atlantic Council em 2018. 

As revelações vieram fortalecer as denúncias de envolvimento da trupe bolsonarista com a produção e propagação de fake news contra seus adversários, que retrocedem à campanha eleitoral de 2018.

O ministro do STF Alexandre Moraes já instruiu a Polícia Federal para solicitar ao Facebook que forneça as informações obtidas na investigação das contas irregulares. Estes recentes acontecimentos foram disparados a partir da pressão que o Atlantic Council fez sobre Mark Zuckerberg. Mas qual foi a motivação do think tank para se envolver nesta investigação? 

O Atlantic Council é uma organização norte-americana que tem o objetivo declarado é de turbinar o avanço do poder econômico dos Estados Unidos. Por sua vez, o governo Bolsonaro, mesmo se enquadrando no populismo de direita e na anti-globalização, não é um governo que defende políticas nacionalistas. Ao contrário, seu governo não vem demonstrando qualquer limite em prol de políticas que favorecem  interesses estrangeiros, notadamente os dos Estados Unidos, em detrimento dos nacionais.

Seria então de se esperar que o Atlantic Council tivesse uma atitude favorável a Bolsonaro. E, de fato, até recentemente as relações eram próximas. Surge naturalmente o questionamento sobre os motivos pelos quais o Atlantic Council agiu de forma  a contribuir para  investigações que poderão atingir o presidente e seus filhos. Esta discussão será feita no decorrer do artigo. 

As denúncias. A identificação de irregularidades na rede bolsonarista foi realizada através do Laboratório Digital de Pesquisa Forense (DFRLab, na sigla em inglês), ligado ao Atlantic Council, em colaboração com o Facebook. A matéria de Luiza Bandeira, assistente de pesquisa do DFRLab, mostra diversos casos identificados de notícias falsas e de ataques a adversários de Bolsonaro. 

O gráfico a seguir mostra as conexões entre contas e páginas dos investigados. Uma versão interativa do gráfico pode ser acessada, clicando aqui. (Fonte: @luizabandeira/DRFLab). 

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A cooperação entre o Atlantic Council e Facebook visando identificar supostos atos considerados nocivos na internet retrocede a 2017. Conforme mencionado  na matéria do DFRLab, cancelamentos de contas como os que ocorreram recentemente no Brasil, foram também efetuados em 2018 nos EUA (relacionados com a internet russa), em 2019 no Reino Unido, Rússia, e Israel, e em 2010 na Tunísia.  

No caso do Brasil, a ação do Facebook veio de forma tardia, ocorrendo dois anos após a campanha presidencial de 2018, quando  irregularidades desta natureza foram recorrentes e contribuíram para a eleição de Jair Bolsonaro. Na análise do Atlantic Council, tanto a vitória  de Bolsonaro como a de Lula (e do PT) eram consideradas prejudiciais à recuperação da economia brasileira, segundo artigo no GGN. Este pode ter sido o motivo para  a falta de uma ação efetiva do Facebook na ocasião, deixando de denunciar as transgressões das regras de comportamento na rede. 

A cooperação bilateral Brasil-EUA no governo Bolsonaro. Com Bolsonaro no poder, a Apex-Brasil passou a ser vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, e com isto ficou envolvida nas disputas entre militares e o grupo olavista, do qual o próprio ministro faz parte. Com o almirante Sérgio Segóvia assumindo a presidência da Apex, as principais diretorias foram ocupadas por militares. 

Com a participação do Atlantic Council, um relatório conjunto foi elaborado com a Apex em que foram propostas recomendações para melhorar as relações econômicas bilaterais. A implementação das propostas abriria o caminho para um acordo de livre comércio, segundo Segóvia. Dentre os que participaram em 5 de março deste ano do evento do lançamento do relatório em Washington,  estavam Segóvia, Nestor Foster (indicado para embaixador nos EUA) e Adrienne Arsht, vice-presidente executiva do Atlantic Council (assista o vídeo com legendas em inglês).

Adrienne Arsht é fundadora do “Adrienne Arsht Latin America Center”, que é o setor específico do Atlantic Council que lida com as questões relacionadas com a América Latina. O Centro foi fundado em 2013 pela própria Adrienne, e teve  Peter Schechter como seu primeiro diretor.  Na equipe de especialistas brasileiros ligados ao Centro se incluem o economista Ricardo Sennes (indústria de defesa), Abrão Neto (finanças e economia), Roberta Braga, diretora-associada (corrupção, desinformação, mídia), e Luiza Bandeira (desinformação). Luiza é vinculada diretamente ao DFRlabe participou da autoria do gráfico interativo visto acima. 

Em 4 de junho, o Centro Adrienne Arsht organizou um evento virtual com o tema “A próxima fase na relação Brasil-Estados Unidos, para tratar do futuro das relações Brasil-EUA em um cenário pós-pandemia, da qual os dois países são atualmente os principais afetados. Até então, as relações do Atlantic Council com o governo Bolsonaro pareciam produtivas. 

Na ocasião, Nestor Foster aproveitou  para comentar sobre a forte oposição de congressistas Democratas ao aumento das relações econômicas com o Brasil, inclusive ao estabelecimento de acordos comerciais,  devido à política ambiental do governo Bolsonaro. Conforme declarou Foster, “a atual administração (do Brasil) está tão comprometida como qualquer outra (anterior), na proteção ambiental do país.  

Em poucas semanas o panorama das relações do Atlantic Council com o governo Bolsonaro mudou radicalmente, com a ocorrência das denúncias do Facebook. A Apex-Brasil, que atuara ativamente com o Atlantic Council, rompeu a parceria. Em face deste novo contexto, a maior aproximação comercial entre os dois países deverá ficar prejudicada, seja isto para o bem ou para o mal do Brasil. 

Por que poderia ser para o bem do Brasil, que estes novos acordos de comércio com os Estados Unidos, intermediados pelo Atlantic Council, não se concretizem? Por um lado, o governo Bolsonaro é totalmente submisso aos interesses norte-americanos, e  por outro, a ação pregressa do Atlantic Council  na América Latina apresenta um histórico deletério ao Brasil e demais países do continente.  Por estes dois motivos, pode-se esperar que acordos que derivassem desta relação seriam provavelmente lesivos ao país.  

Quando o passado condena. Anteriormente o Atlantic Council já estivera envolvido  no apoio a Lava Jato, segundo artigo no GGN. A organização atuara como facilitadora dos encontros do então Procurador Geral Rodrigo Janot com o Departamento de Justiça norte-americano. Em julho de 2017, a entidade organizou a palestra “Lições do Brasil: lutando contra a corrupção em meio à turbulência política”, com a participação de Rodrigo Janot e de Maurício Valeixo, este o então diretor da Polícia Federal. 

Quanto ao afastamento da presidente Dilma Roussef, é necessário relembrar que um outro think tank norte-americano foi também bastante atuante na ocasião, a Atlas Network, a organização que criou e apoiou o MBL. A Atlas possui uma rede em 95 países, consistindo de cerca de quatrocentos e quarenta institutos associados, que atuam em defesa de políticas ultraliberais.  

Na ArgentinaAtlantic Council e Atlas Network interagiram para eleger Mauricio Macri e apoiá-lo no poder, mas com o desastre econômico do governo Macri, a proposta ultraliberal foi derrotada nas urnas, após amplos protestos da população, então reprimidos com forte violência. 

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Joe Biden, orador frequente em eventos do Atlantic Council \ Crédito: domínio público

Fora do continente sulamericano, o Atlantic Council esteve envolvido em negócios com a empresa ucraniana de petróleo e gás Burisma Holdings, na qual o filho de Joe Biden fazia parte do conselho diretor.  Na ocasião Biden era vice-presidente de Obama, e fora indicado pela Casa Branca para ser o contato com o governo ucraniano, gerando críticas de que haveria conflito de interesses.  

Este seria apenas um de inúmeros casos de “lavagem de dinheiro de corrupção legal envolvendo o Atlantic Council, segundo matéria de Max Blumenthal, no The GrayzoneEm outro  artigo Max Blumenthal revelou que o Atlantic Council arrecada fundos da Turquia e de outros países autocráticos apoiados pela OTAN, atuando para minimizar as políticas repressivas destes países, de forma a facilitar contatos políticos e acordos comerciais. No caso da Turquia, vultosas doações são obtidas da Companhia Petrolífera Turca e do Turkey Army College

Antes de viajar para os Estados Unidos para se encontrar com Trump em maio de 2017, o presidente turco Recep Erdogan participou de um evento organizado pelo Atlantic Council, quando instou os Estados Unidos a deixarem de apoiar as milícias Curdas que enfrentavam o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. 

Já nos Estados Unidos, após sair do encontro com Trump, Erdogan foi direto se encontrar com um seleto grupo de proeminentes funcionários de administrações anteriores, em uma reunião acertada pelo Atlantic Council. Ali estavam David Petraeus, ex-diretor da CIA, ex-secretários de defesa, e a ex-secretária de estado Madeleine Albright.

 

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O presidente turco foi o orador principal na Istanbul Summit, 2017  \  Foto: Didar Yesilyurt

A estrutura do Atlantic Council. A entidade se apresenta como “uma organização não partidária, que estimula a liderança dos Estados Unidos e seu engajamento no mundo, em conjunto com aliados e parceiros, para moldar soluções aos desafios globais”.  

O atual CEO e presidente é o jornalista alemão Frederick Kempe, formado nos Estados Unidos. No quadro de diretores inclui-se o ex-secretário de estado norte-americano Henry Kissinger, que para muitos deveria ser julgado por crimes contra a humanidade por seu apoio à ditaduras sanguinárias na América do Sul nos anos 70, bem como por crimes de guerra em diversos países asiáticos. Na diretoria estão também dois ex-chefes da CIA, um representante do banco Goldman Sachs, além de outros tantos representantes do establishment norte-americano. Na diretoria de honra constam, dentre outros, os nomes de Codoleezza Rice, Colin Powell e George Shultz, todos com um ótimo currículo a serviço da expansão do poder global dos Estados Unidos. 

A página do Conselho na internet menciona que o financiamento da instituição vem de “uma base diversificada de doadores, para ajudar a assegurar a credibilidade, integridade e sustentabilidade da instituição”. Aí se incluem fundações privadas, agências de governo nacionais e estrangeiras, empresas e indivíduos. A lista completa de doadores no ano fiscal de 2019 pode ser acessada no linque indicado acima. 

No topo da lista está Adrianne Arsht, com um valor doado de 1 milhão de dólares ou acima.  Neste seleto grupo estão também o British Foreign and Commonwealth Office (Ministério do Exterior Britânico),  o Facebook, de Mark Zuckerberg, o banco Goldman Sachs, a Fundação Rockfeller e a Embaixada dos Emiratos Árabes. Dentre os doadores na faixa de 500.000 a 999.999 dólares estão a Saab North America, a SICPA S.A. (empresa suíça), e a empresa ucraniana de finanças e indústria, System Capital Management. A Saab atua no ramo da defesa militar e segurança civil.   

O Departamento de Estado norte-americano está na lista das contribuições incluídas na faixa entre 250.000 e 499.999 dólares.  Estão também incluídos nesta faixa o Google, a empresa petrolífera de Abu Dhabi, a Chevron, o banco HSBC e outros. As embaixadas do Japão e do Bahrein, e dois setores distintos da OTAN estão na lista dos que doaram valores entre 100.000 e 249.999 dólares. 

Mesmo com vários doadores preferindo permanecer anônimos, é instrutivo se examinar a relação completa dos doadores, incluindo governos estrangeiros, empresas e doadores individuais. Até 2013, os doadores não eram revelados. Foi por pressão do Senado norte-americano que em 2013, a relação completa (sem anonimatos) foi declarada, embora sem explicitar os valores das doações.  

O exame das duas listas evidencia o enorme poder de lobby que tem o Atlantic CouncilO New York Times publicou declaração do CEO Frederick Kempe, em que este afirmou que “o trabalho de think tanks tem mais credibilidade que o de lobistas, a qual é preservada através da independência intelectual”. 

Mas o mesmo artigo do NYT cita a atuação do Atlantic Council junto à Câmara de Comércio Europa-Estados Unidos, como exemplo de uma ação lobista típica.  Esta atuação levou à redução das tarifas transatlânticas, atendendo aos interesses da FedEx, que consta na relação das empresas que doaram ao Atlantic Council em 2019, valores entre 100.000 e 249.999 dólares.  

Atlantic Council é mais do que um lobista atuando no varejo, sendo também um indutor de decisões por órgãos governamentais,  que podem trazer benefícios não apenas para uma empresa, mas para diversos setores da economia norte-americana. No entanto, a ação do Atlantic Council extrapola a atuação que se esperaria de uma organização voltada apenas para a facilitação de contatos entre empresas e governos.    

Esta extrapolação ocorreu nos casos da ingerência em apoio à Lava Jato no Brasil, a Macri na Argentina, a Erdogan na Turquia, bem como em tantos casos em que o Atlantic Council atuou mais como um player político. Aí se enquadra também o envolvimento da organização, a partir de junho de 2018, no combate à supostas campanhas de desinformação que teriam sido conduzidas pelo Kremlin para favorecer Trump nas eleições presidenciais de 2016. Conforme análise de Luis Nassif no GGN, o foco na Rússia poderia ser  indicativo de objetivos geopolíticos por de trás dos combates à desinformação conduzidos pelo Atlantic Council.  

O artigo no GGN mostrou também como o Atlantic Council conseguiu dobrar o Facebook, para que este passasse a censurar determinados conteúdos. Mark Zuckerberg foi encurralado e forçado a aceitar que o Facebook fosse assessorado no combate à desinformação na rede. O pretexto surgiu quando fake news de que a Rússia havia interferido nas eleições de 2016 se difundiram nos Estados Unidos.  

Atlantic Council, através de sua equipe forense, o DRFLab, passaria a trabalhar em cooperação com o Facebook na identificação de desinformação nas mídias sociais. Ou melhor, o Facebook se submeteria às instruções do Atlantic Council na escolha seletiva de alvos a serem investigados na campanha. Era a oportunidade esperada para fazer com que o Facebook passasse a filtrar as informações que difundia.  

O artigo no GGN também indicou como o Atlantic Council  buscou combater na internet os discursos contrários à globalização. Agências de checagem passaram a atuar em defesa dos interesses pró-globalização, na luta contra o nacionalismo da extrema-direita que vinha de forma inexorável ganhando espaço nas eleições pelo mundo. No Brasil, a Open Society de George Soros atuaria como  um participante deste esforço pró-globalização, de filtragem de conteúdo na internet e redes sociais. 

Os ataques ao governo Bolsonaro. Voltamos novamente ao questionamento sobre os motivos que levaram o Atlantic Council a forçar o Facebook, a investigar e revelar os perfis falsos e a divulgação de fake news pela trupe bolsonarista.   

Bolsonaro vinha sendo cada vez mais associado a crimes ambientais na Amazônia, à acusações de envolvimento ou tolerância com o genocídio de povos indígenas, e de estar contribuindo de forma criminosa para o alastramento da pandemia da COVID-19 no Brasil. Bolsonaro e diversos membros de seu governo poderão inclusive ser levados a julgamento no Tribunal Penal Internacional em Haia, por “crimes contra a humanidade”. 

As empresas transnacionais estão cada vez mais conscientes de que podem sofrer boicote, se forem associadas a um país que se tornou um pária pelas ações de seu governo. Para o Atlantic Council estava se tornando uma missão impossível conseguir concretizar o seu lobby habitual. 

As crescentes manifestações contra o STF, não desautorizadas por Bolsonaro, podem ter sido determinantes para que o Atlantic Council finalmente resolvesse agir através do Facebook. O Brasil parecia se encaminhar inexoravelmente para um protofascismo, o que agravaria ainda mais a rejeição ao país. Havia chegado a hora de dar uma ajuda à justiça brasileira, que começara a resistir aos avanços antidemocráticos de Bolsonaro.  Resta ver se esta mesma justiça vai manter a coragem.

Entretanto, a História do Brasil também é construída por seu povo, que precisará resistir não apenas às forças da extrema-direita que foram despertadas por Bolsonaro, mas também ao papel que a globalização lhe reservou na ordem econômica mundial, de ter sua economia calcada no fornecimento de commodities, abrindo mão de ter uma indústria avançada.  

A China mostrou caminhos que podem ser seguidos para se avançar na industrialização e construir uma nação soberana, como será visto no próximo artigo do blogue Chacoalhando.  

Notas do autor: 

¹ O termo think tank pode ser traduzido como “gerador de idéias”. Atua como um centro de estudos, em geral de natureza política, e que recebe financiamento de fontes privadas ou oficiais.  

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando (acesse o índice de artigos). 

 

 

COVID-19: Bolsonaro faz do Brasil um grande campo de extermínio

Como Bolsonaro não vai mudar drasticamente o seu rumo ele precisa sair1. #BolsonaroCrimesContraHumanidade 

 

International Criminal Court Haia
Tribunal Penal Internacional, Haia, Holanda | Foto: Reuters

A pandemia do novo coronavírus parece estar inexoravelmente levando o Brasil a uma crise humanitária de proporções ainda imprevisíveis, mas certamente catastróficas. Neste momento, em que seria imprescindível que a presidência do país fosse exercida por alguém que tivesse na vida humana o principal valor a ser preservado, acontece exatamente o contrário.

No mês de março já havia ficado evidente que a catástrofe seria inevitável, se medidas efetivas de distanciamento social não fossem então implementadas. O vídeo do biólogo Átila Iamarino disparou o alarme que chacoalhou o país, e fez com que os governadores mais lúcidos se conscientizassem do único papel que lhes cabia assumir naquele momento. Não se tratava então de ser um político de esquerda, de centro ou de direita, mas de ser a favor da vida.

Por suas palavras e atos, o presidente Jair Messias Bolsonaro “não é a favor da vida”2. Ele é a pessoa errada para conduzir o Brasil através desta crise inédita na saúde, da forma menos traumática possível. No momento em que a ciência precisa prevalecer sobre o terraplanismo, a maioria da população assiste atônita às tentativas de Bolsonaro de boicotar as medidas preconizadas pela Organização Mundial da Saúde, e também pelos melhores infectologistas do país e do mundo.

O resultado desta ação inconsequente e criminosa de Bolsonaro e seguidores, foi o aumento dos casos de contaminação com o coronavírus, e mortos pela COVID-19. O número de mortes nas comunidades de baixa renda e na população de rua já começa a atingir números alarmantes. Estes grupos não estão conseguindo acesso a leitos de UTI, onde poderiam contar com respiradores, que podem fazer a diferença entre viver e morrer.

Em 29 de março, artigos do blogue Chacoalhando e de Bernardo Mello Franco  já prenunciavam que se Bolsonaro prosseguisse com suas políticas criminosas, estaria caminhando para um indiciamento pelo TPI, o Tribunal Penal Internacional (Corte de Haia), pelo cometimento de Crimes contra a Humanidade. E ele prosseguiu.

Em 2 de abril a ABJD, Associação Brasileira de Juristas pela Democracia, entrou junto ao TPI, com uma petição  pela instauração de procedimento para averiguar o cometimento de Crimes contra a Humanidade por Bolsonaro, “por expor a vida de cidadãos brasileiros, com ações concretas que estimulam o contágio e a proliferação do vírus causador da COVID-19”.

Na mesma ocasião, o escritor paraibano Diego de Oliveira3 lançou um abaixo-assinado  na plataforma Change.org, coletando assinaturas para que Bolsonaro seja processado por Crimes contra a Humanidade. Atualmente, cerca de 120.000 pessoas já aderiram à campanha. A meta estabelecida inicialmente é chegar a 150.000 assinaturas.

Os procedimentos no TPI costumam seguir um curso pré-estabelecido que, por vezes, pode não atender à urgência exigida em determinadas ocasiões. No caso da pandemia do coronavírus, cada semana de uma política equivocada, traz como resultado dezenas de milhares de mortes, que de outra forma não ocorreriam.

A pressão de um abaixo-assinado pode não apenas contribuir para apressar ações de entidades internacionais, como também dar mais respaldo aos governadores e prefeitos para manterem medidas de isolamento social, e mesmo ampliar as restrições, caso necessário.

A pressão massiva da população poderá fazer também com que Judiciário brasileiro, incluindo o Supremo, bem como Câmara dos Deputados e Senado estejam à altura das responsabilidades que o momento exige, para não serem também considerados como cúmplices, por inação, na morte de dezenas ou mesmo centenas de milhares de brasileiros.

Amplos setores da população estão impossibilitados de fazer manifestações nas ruas, para expressar seu repúdio à forma como Bolsonaro vem conduzindo o país durante a pandemia. Restaram principalmente os panelaços e as redes sociais. Mas pode haver uma outra forma de canalizar o sentimento de indignação e impotência que está em todos que não fazem parte dos agentes da morte que estão no poder em Brasília, e de seus adeptos fanáticos.

Será que com uma adesão em massa ao abaixo-assinado do escritor Diego de Oliveira consegue-se alcançar 1 milhão de assinaturas em pouco tempo? Ou mais? Tal número de assinaturas traria certamente forte impacto, interno e externo. Para se conseguir um número de adesões na casa dos 7 dígitos, seria fundamental que blogueiros e youtubers aderissem à campanha. Vários deles proclamam ter centenas de milhares de seguidores.

Pois este é o momento de mostrarem que são realmente influenciadores digitais, passando para seus seguidores o linque do abaixo-assinado. A História se faz também por ações individuais do cidadão comum, que percebe que pode interferir no rumo dos acontecimentos.

Diego de Oliveira é uma destas pessoas. Fica aqui uma convocação a todas as pessoas sensatas e lúcidas, que venham participar desta empreitada. Para que possam depois dizer que não foram espectadores de uma tragédia anunciada, mas atores importantes de um processo histórico que conseguiu evitar a maior catástrofe da história do país. O tempo está se esgotando.

Notas do autor:

1. A frase no título foi uma resposta ao editorial da revista médica The Lancet, intitulado COVID-19 no Brasil: “E daí?”

2. Peguei emprestadas estas palavras, que escutei pessoalmente de Leonardo Boff, cerca de 30 anos atrás, em referência ao papel da Igreja Católica durante a crise de saúde resultante da ação de outro vírus, o HIV, causador da AIDS.

3. Como homenagem ao bravo escritor, fica aqui divulgado o título de seu primeiro livro “Gato Pardo – Notas sobre o inicio de uma vida ébria”, lançamento de 2014 da Editora Imprell. Diego de Oliveira está vivendo atualmente do auxílio emergencial de 600 reais, conforme publicado no Carta Capital. Fica aqui também uma campanha pela aquisição deste livro, para descobrirmos o que mais este jovem escritor tem a nos dizer.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo blogue Chacoalhando.

COVID-19: Quem tem medo de tomar a vacina?, por Ruben Rosenthal

Enquanto o mundo anseia por uma vacina que ponha fim à pandemia, libertários de direita e conspiracionistas fazem campanha contra a imunização em massa nos Estados Unidos.

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Acredite em Deus, não nas vacinas: hashtag diga não a bill gates  \  Foto: Mario Tama/Getty Images

Nas últimas semanas, setores opostos do espectro político norte-americano vêm se opondo à vacina de proteção contra a COVID-19. Em comum, estão as críticas a Bill Gates, embora por motivos diferentes. Estes vão desde a defesa do direito do indivíduo em recusar a obrigatoriedade da vacinação, a uma teoria conspiratória de que, através da vacina, seria implantado um microchip, como parte do projeto de identificação digital ID2020, do qual a Fundação Bill e Mellinda Gates é um dos principais idealizadores.

Gates, co-fundador da Microsoft, é o segundo maior contribuinte da Organização Mundial da Saúde (OMS), através da Bill & Melinda Gates Foundation. Se os Estados Unidos deixarem de contribuir, conforme anunciado por Donald Trump, então a Fundação passaria a ser o maior doador, à frente do Reino Unido.

Contrariamente às especulações de que a China, outra grande doadora da OMS, foi o principal responsável pela eleição de Tedros Adhanom para o cargo de diretor-geral da Organização, é provável que tenha sido Gates quem exerceu o papel preponderante na escolha do microbiologista etíope.

Mas para Trump, a China é um alvo mais fácil para disparar sua artilharia, e justificar as falhas de seu próprio governo, onde críticos sensatos são afastados e aduladores são prestigiados. E as falhas não foram poucas.

Segundo artigo no Wall Street Journal de 22 de abril, o Secretário de Serviços Humanos e de Saúde norte-americano, Alex Azar, foi alertado desde 3 de janeiro pelo CDC, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças, sobre os riscos do coronavírus. Em 28 de janeiro o Secretário declarou que o vírus não traria impacto no dia-a-dia dos norte-americanos, e mesmo em 25 de fevereiro, quando o CDC alertou que já estava se preparando para uma pandemia, Azar informou à imprensa que o vírus estava “contido”.

O negacionista-mór da pandemia, Donald Trump, há poucos dias afastou o Dr. Rick Bright de seu cargo como chefe da Autoridade de Desenvolvimento e Pesquisa Biomédica Avançada, a agência governamental que está no centro dos esforços governamentais para obter um tratamento e uma vacina para o coronavírus. O cientista acredita que foi removido de sua função por ter insistido em impor limites ao uso da hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19, contrariando a Trump.

O afastamento do Dr. Rick Bright pode enfraquecer o papel da agência governamental que ele chefiava, em um momento crucial da busca por uma vacina para a prevenção da COVID-19. Neste contexto, cresce a relevância de entidades privadas como a Fundação Bill & Melinda Gates, o que deverá acirrar os ataques contra Gates, vindos de negacionistas da pandemia e da vacina, bem como dos adeptos de teorias conspiratórias.

Um dos principais projetos em que a Fundação está envolvida, já há alguns anos, é o da Aliança Global pelas Vacinas e Imunização, GAVI, na sigla em inglês.  O objetivo declarado da Aliança é o de “ajudar a vacinar a metade das crianças do mundo contra doenças infecciosas debilitantes e mortais”. Nas palavras de Bill Gates, “todas as vidas tem igual valor, …. não importa se ricas ou pobres”.

Vacina Gavi
Parceiros na Aliança Global pelas Vacinas e Imunização, GAVI

Os principais parceiros desta aliança incluem, além da Fundação Bill & Melinda Gates, a OMS, UNICEF, Banco Mundial. GAVI tem como doadores, diversos países e fundações privadas. Colaboram também, ONGs, fabricantes de vacinas, e institutos de pesquisa. Dentro do programa, a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) já produziu vacinas de baixo custo, através de parceria com a Fundação Bill & Mellinda Gates.

Para que se possa entender melhor a demonização de Bill Gates, falta abordar o “projeto ID2020”, também de iniciativa de sua Fundação. Em 2018, a “Aliança de Parceiros pelo ID2020”, em associação com o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR), lançou o Manifesto da Aliança ID2020, que argumenta em favor de uma identidade digital.

“Para enormes contingentes de refugiados, apátridas e outros grupos marginalizados, não é possível se recorrer a sistemas de identificação nacionais. Alguma forma alternativa necessita ser fornecida a estes indivíduos, para que possam acessar de forma segura e confiável os sistemas dos Estados. E que isto possa ser feito através de uma forma confiável, que possa ser verificada de forma física e online.”

Em setembro de 2019, a Aliança ID2020 realizou sua reunião de cúpula anual em Nova York. Na ocasião foi anunciado o lançamento de um programa de identidade digital entre o Governo de Bangladesh e GAVI, a Aliança pela Vacina.

“Reconhecendo a oportunidade que a imunização oferece para servir como plataforma para a identidade digital, o programa alavanca as operações de vacinação e de registro de nascimento, para oferecer aos recém-nascidos, uma identidade digital com associação biométrica, duradoura e portável.”

Em relação à biometria de crianças, o UNICEF, em associação com o Banco Mundial, já emitira dois documentos com diretrizes para uso biometria em crianças, alertando para certos riscos envolvidos. O UNICEF argumenta que a tecnologia biométrica, como no caso do reconhecimento facial, foi inicialmente projetada para uso em adultos, tornando-se mais sujeita a erros de reconhecimento quando usada em crianças, podendo ainda trazer “impactos negativos em comunidades vulneráveis”.  

A biometria se aplicaria a medidas faciais, impressões digitais, íris, impressões dos pés e das mãos. Ainda segundo o UNICEF, o uso destas tecnologias em crianças com menos de 5 anos de idade ainda requer mais pesquisas.

A associação da campanha de vacinação da GAVI com o programa de identificação digital contribuiu para alimentar teorias conspiratórias, e que podem interferir na questão do controle da pandemia e prevenção da COVID-19.

Este é, basicamente, o pano de fundo a partir do qual se alimentam as campanhas contra a vacinação em massa contra o coronavírus. Vamos ver como, nos Estados Unidos, os negacionistas da alta mortalidade do SARS-CoV-2, e adeptos de teorias conspiratórias,  fizeram de Bill Gates e seu projeto de desenvolver uma vacina para combater a pandemia, um alvo preferencial de suas críticas.

O negacionismo da pandemia e da vacinação. Um dos principais opositores da vacinação compulsória é o médico e ex-congressista Ron Paul, que através do Instituto que leva seu nome, dá voz a negacionistas, que comparam o número de vítimas fatais da atual pandemia à media de vítimas das gripes comuns no país.

Ron Paul faz parte dos libertários de direita nos Estados Unidos. Há menos de cinco anos ele estava bem alinhado com as teses do think tank Atlas Network1, um dos epicentros do ultraliberalismo no país, tendo se apresentado em 2015 como palestrante na Oitava Conferência do International Students for Liberty, entidade à qual o MBL estava ligado.

No entanto, em 2017, Ron Paul já renegara seu envolvimento anterior com a Atlas Network, reconhecendo o envolvimento da entidade na deposição de Dilma Roussef, ao afirmar que o MBL, de Kim Kataguiri, atuou segundo as instruções de Alexander Chafuen, o CEO da Atlas.  Paul denunciou também o envolvimento da Atlas com o lobby do tabaco2.

Mesmo se tornando crítico do principal think tank do ultraliberalismo norte- americano, Ron Paul continua a adotar uma política  de “libertarianismo de direita”, por vezes se alinhando com as posições de Trump. Ele é condescendente com o presidente em relação a algumas políticas, com a justificativa que os presidentes do país não conseguem suportar as pressões do “Deep State”.

Através de artigo na página de seu Instituto, Ron Paul questiona se as medidas adotadas em busca da cura não estão trazendo mais malefícios que a própria doença, por prejudicarem os negócios e trazerem desemprego. Ele defende ainda que os governos não têm o direito ou autoridade para definir que atividade é “essencial”.

Em alinhamento com a política disruptiva de Trump de solapar a quarentena, Paul dá força para as manifestações de protesto que se espalham pelo país, contra o que ele denomina de “prisão domiliciar”.

rifles de assalto Arizona capital
Manifestantes contra a quarentena com rifles de assalto, capital do Arizona \  Foto: Ross D. Franklin/AP

Agora Ron Paul investe contra a vacina para combater o coronavírus, alertando que as pessoas deveriam ficar “cautelosas” sobre a futura vacina. Ele alega que táticas de amedrontamento” estão sendo usadas para colocar pressão sobre as pessoas, para convencê-las de que deveriam se vacinar”. Em entrevista em áudio, Ron Paul declarou que Bill Gates  quer dominar o mundo através da vacinação compulsória3.

A dominação do mundo por Bill Gates é o elo de ligação entre negacionistas da pandemia e da vacinação compulsória da população, com os adeptos de teorias conspiratórias, de que um microchip ou cápsula será introduzido na vacina, e que supostamente possibilitaria formas de controle sobre as pessoas.

As teorias conspiratórias. Segundo a Agência Reuters, a teoria conspiratória surgiu a partir da deturpação de uma entrevista de Gates à rede de comunidades Reddit, e se espalhou em milhares de postagens pelo Facebook e TwitterNa entrevista ao Reddit, do tipo perguntas e respostas, Gates fez menção de que pode prever o uso de “certificados digitais associado à fichas clínicas”.   

Os boatos de implantação de chips surgiram a partir de 19 de março, com uma publicação no site Biohackinfo intitulada “Bill Gates irá usar implantes de microchips para combater o coronavírus”. O artigo acrescenta que, atualmente, a forma mais eficaz de implementar a identidade digital seria através de implantes de microchips, com identificação por radio-frequência. Entretanto, em nenhum momento da entrevista ao Reddit, Gates mencionou o uso de microchips implantados, seja no projeto do ID2020 ou na vacinação contra a COVID-19.

O artigo no Biohackinfo menciona um fato verídico, que é a tecnologia do “quantum dot dye” (corante ou tatuagem de ponto quântico), desenvolvida no prestigioso MITMassachusetts Institute of Technology.  O texto associa esta tecnologia aos certificados digitais a que Gates se referiu no projeto ID2020, para possibilitar que populações marginalizadas possuam documentos de identidade confiáveis. 

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Vacinação com microagulhas e implantação dos pontos quânticos \ Créditos: Second Bay Studios

Kevin McHugh, da Rice University, Texas, e especialista em bioengenharia, participou como co-líder na pesquisa do “quantum dot dye”, quando estava do MIT. Ele explicou em boletim técnico da Universidade de Rice, que pontos quânticos fluorescentes feitos de cobre são aplicados no corpo humano através de microagulhas de açúcar, contendo a vacina. As agulhas se dissolvem sob a pele, deixando os pontos quânticos encapsulados. O padrão dos pontos pode ser lido, para identificar qual vacina foi aplicada.

McHugh acrescenta que foi, de fato, procurado pela Fundação Bill & Mellinda Gates, que buscava formas de tornar mais efetivo o controle do histórico de vacinação de crianças. Não seria tão surpreendente, portanto, se a “tatuagem de pontos quânticos” estiver sendo considerada nos planos de Gates para o projeto de identificação digital ID2020, mas o aspecto ético deveria passar por ampla discussão prévia.

Segundo o Biohackinfo, alguns setores religiosos fundamentalistas se opõem à certos procedimentos  invasivos do corpo, mesmo se for para prevenir uma terrível pandemia. No caso de alguns grupos cristãos, esta rejeição se dá por acreditarem que estas novas tecnologias de identificação estariam associadas à chamada “marca de satã”, mencionada na Bíblia.

Enquanto isto, em uma aldeia no interior de Bangladesh, crianças estão sendo vacinadas no projeto da GAVI, e recebendo “certificados digitais” do ID2020. Serão elas precursoras de um “Admirável Mundo Novo”. Será utópica esta sociedade futura, ou distópica como no livro de Aldous Huxley?

Cidadãos norte-americanos estão sendo colocados diante de um dilema shakespeariano: “Tomar ou não tomar a vacina contra o coronavírus, eis a questão”. Mas a verdadeira decisão pode ser colocada de forma objetiva: “O valor da vida é maior que princípios (abstratos ou não) de liberdade, e que seus medos (infundados ou não) de ser constantemente controlado por alguma organização ou governo?” 

Notas do autor:

1. O ativismo da Atlas Network em prol do ultraliberalismo foi assunto de matéria anterior no blogue. 

2. O lobby internacional do tabaco foi abordado em artigo anterior. 

3. As acusações de dominação do mundo através de vacinas, feitas por Ron Paul a Bill Gates, foram também extensivas ao imunologista Anthony Fauci, que faz parte da força tarefa da Casa Branca de combate ao coronavírus, e uma das poucas mentes lúcidas na administração Trump.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo Blogue Chacoalhando.

COVID-19 e Cloroquina: Didier Raoult, quando o passado condena.

O médico chegou a ser afastado por um ano da Sociedade Americana de Microbiologia, pela acusação de ter adulterado resultados de pesquisa.

charge For Better Science
Charge por Leonid Schneider:  For Better Science

O título do artigo evoca algum filme moralista roliudiano antigo, mas é apropriado para se referir ao médico francês. No caso, um passado com acusações de adulteração de resultados de várias pesquisas, em busca do prestígio e de “l’argent” (dinheiro), que acompanha a fama. Raoult também foi acusado de acobertar agressões sexuais ocorridas em seu instituto de pesquisa.

Didier Raoult, 68, é diretor desde 2008, da Unidade de Pesquisa em Doenças Emergentes Infecciosas e Tropicais (URMITE, na sigla em francês), ligada à Faculdade de Medicina da Universidade de Aix-Marseille. Seu laboratório emprega mais de 200 pessoas, incluindo 86 pesquisadores, que publicam cerca de 300 trabalhos por ano, e já produziram mais de 50 patentes, segundo consta em seu perfil na Wikepedia. Este renomado médico está agora no centro da controvérsia sobre o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, no tratamento da COVID-19.

A cloroquina, obtida da casca da árvore da chinchona, e seu derivado, a hidroxicloroquina, em associação com o antibiótico azitromicina, podem ter efeito no combate ao Sars-CoV-2, o novo coronavírus. Esta atuação se dá através da inibição de um processo chamado glicolisação, que é uma transformação química de proteínas na camada mais externa do vírus, a qual participa do processo de infecção. Pesquisadores chineses fizeram cerca de meia dúzia de testes randômicos dos dois produtos, obtendo resultados supostamente1 promissores.

Tendo isto em mente, Didier Raoult  e co-autores, publicaram no início de março, uma pré-impressão2 no International Journal of Antimicrobial Agents, mostrando estudos in vitro (sem pacientes) com a cloroquina e hidroxicloroquina. Com base neste artigo, Raoult recomendou, não apenas pesquisas com humanos, mas, também, o início do uso clínico das drogas.

A história teve mais alguns desenvolvimentos, até se chegar à divulgação pela Fox News, ao tuíte de Trump, e ao desaparecimento da cloroquina das farmácias de todo o mundo. Mas diversas dúvidas foram levantadas sobre falhas na pesquisa realizada por Raoult e seu grupo, por não terem sido adotadas as metodologias necessárias nestes casos, para validação das pesquisas.

Também  foram feitas críticas, de que os autores omitiram resultados do 14o dia da pesquisa , bem como se recusaram a compartilhar dados de interesse adicional, como a efetividade  do tratamento no tempo até a ausência de febre, na normalização da taxa respiratória, na mortalidade e no tempo médio de permanência no hospital.

Didier Raoult defendeu sua pesquisa: “Eu nunca fiz estudos randomizados….O efeito dessa coisa randomizada talvez possa funcionar com pessoas que tenham infarto do miocárdio, mas não faz sentido para doenças infecciosas”. Em um artigo de opinião no Le Monde, ele escreveu que “um médico pode e deve pensar como médico, e não como alguém obcecado com a metodologia”.

No entanto, Françoise Barré-Sinoussi, cientista ganhadora do Prêmio Nobel de 2008, por sua participação na descoberta do vírus da AIDS, declarou ao Le Monde  que é “uma questão de ética, não dar falsas esperanças”. Barré-Sinoussi faz parte de um comitê de doze pesquisadores e médicos que aconselham o governo francês, no que concerne aos tratamentos da COVID-19.  

 No Brasil, mais que um embate entre esquerda e (extrema) direita, a polêmica colocou de um lado, bolsonaristas e seus apoiadores nas mídias sociais, e de outro, “seus inimigos”, que atualmente englobam todos aqueles que defendem que as posições da OMS precisam ser seguidas à risca.

Um exemplo da mídia bolsonarista é o blogue Brasil sem Medo. Artigo do correspondente em Portugal, o “olavista” Brás Oscar, fez a defesa incondicional de Didier Raoult. O artigo relata que Raoult, na defesa do tratamento de coronavírus com a cloroquina, “teve que enfrentar o lobby político da comunidade médica parisiense e a ditadura da metodologia, para salvar a vida de seus pacientes”. 

Mesmo com todos os questionamentos à validade de sua pesquisa, Raoult foi alçado para a fama mundial. Mas, como toda celebridade, ele ficou mais exposto ao holofotes da mídia e ao escrutínio de sua carreira. A vida pregressa do médico foi examinada, e foram levantadas acusações sobre sua conduta anterior, tanto científica como moral.

A matéria que se segue foi em parte obtida do artigo de Leonid Schneider, publicado em seu site For Better Science, em 26 de março.  Schneider se apresenta como um jornalista científico e cartunista (ver charge no começo deste artigo), com formação em biologia celular e molecular.

O artigo de Schneider já havia sido publicado na íntegra, no original em inglês, pelo GGN, em artigo que questionava já no título se Raoult é “gênio ou um embusteiro”. O Chacolhando irá mostrar agora porque o passado pode condenar Raoult. 

A maioria dos leitores pode não estar afinada com o conhecimento científico específico em microbiologia e infectologia, mas certamente entende de tratamento digital de imagens, e saberá reconhecer quando uma imagem foi adulterada com Photoshop ou técnica similar.

O artigo de Leonid Schneider relata diversas fraudes que teriam sido cometidas ao longo dos anos, nos artigos científicos publicados por Raoult e co-autores. Indicações da provável ocorrência de fraudes,  só puderam ser recentemente expostas, através dos esforços de Elisabeth Bik, que examinou a fundo várias publicações anteriores de Raoult. 

Elisabeth Margaretha Bik, PhD, tem especialização em pesquisa de microbiomas, e atua como consultora independente em integridade científica. Em outras palavras, ela é uma “caçadora de cientistas picaretas”. Seu currículo inclui cargos anteriores em diversas instituições científicas, tendo sido por 15 anos “Associada em Pesquisa do Departamento de Microbiologia e Imunologia da Escola de Medicina, da Universidade de Stanford”. Apresentadas as credenciais de Bik, vamos ver os resultados do exame com lupa, a que ela submeteu alguns dos inúmeros trabalhos publicados por Didier Raoult.

Bik encontrou indicações de fraude em um trabalho de 2001, publicado no periódico científico, Infection and ImmunityAs setas delineiam áreas com tonalidade diferente no entorno de células, que sugerem que as mesmas foram copiadas e coladas digitalmente, ou seja, teria sido utilizado o conhecido recurso do Control C Control V, bem conhecido por alunos que não querem fazer direito os trabalhos escolares, e preferem plagiar. Mas, pelo visto, o recurso também é usado por alguns cientistas. 

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Imagens adulteradas indicadas pelas setas:  periódico Infection and Imunity

Bik também levantou suspeitas de alterações de imagens em um trabalho de 2005, publicado no Journal of Clinical Microbiology. A consultora comenta suas críticas no PubPeer, um site da Web que possibilita a discussão pela comunidade científica de artigos já publicados, chamando a atenção para a semelhança de algumas faixas verticais, e que apenas diferem em tonalidade. No caso, as faixas delimitadas por retângulos de mesma cor tiveram a tonalidade alterada, através de um tratamento de imagem.

didier clinical microbiology 2005
Imagens alteradas na tonalidade:  periódico Journal of Clinical Microbiology

Em outro caso, um artigo de 2013 sobre um estudo do efeito de salmonela em ratos, publicado em  PLOS Pathogens, uma faixa de gel foi copiada três vezes (ver retângulos vermelhos). As setas verdes indicam faixas com evidências de manipulações adicionais da imagem, percebidas pelo apurado exame de Elisabeth Bik, que apresentou um comentário crítico no Pubpeer. Um dos co-autores, Stéphane Méresse, se desculpou: “esta imagem jamais deveria ter sido publicada”, mas não explicou como foi possível que o erro  fosse cometido por acidente.

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Adulteração das imagens de faixas de gel: periódico PLOS Pathogens

Em outro artigo em que Raoult é co-autor, publicado em 2016 no American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, percebe-se claramente a alteração de resultados. Nas imagens obtidas por imunofluorescência, para detectar a bactéria borrelia crocidurae, é bem visível a intervenção nas imagens, conforme indicado pelas áreas delineadas com uma mesma cor, revelando uma montagem feita com repetição de imagens. A farsa é tão evidente, que não há como deixar de questionar se o artigo passou pelas mãos de um revisor ou de uma criança de cinco anos.

didier imuno luminescencia
Imagens adulteradas: periódico American Journal of Tropical Medicine and Hygiene

Mais recentemente, em artigo publicado no Comparative Immunology, Microbiology and Infectious Diseases, uma imagem obtida pela técnica de western blot 2D, foi levemente escurecida e reutilizada novamente para uma nova bactéria, conforme se observa na comparação das fotografias delimitadas em vermelho. 

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Diferentes bactérias representadas pela mesma imagem em B e E: periódico Comparative Immunology, Microbiology, and Infectious Diseases

Em março de 2012, a revista Science publicou a matéria Sound and Fury in the Microbiology Lab, abordando “as conquistas científicas de Raoult”, em que ele é enaltecido como sendo o microbiologista francês mais produtivo. Entretanto, embutidas neste artigo de celebração, estavam descrições de falta de integridade científica da parte dele. Um dos pesquisadores contactados pela Science revelou que, só sob anonimato, concordaria em falar sobre Raoult, por receio de retaliações, e “ter sua carreira prejudicada pela influência do diretor da URMITE”.

A Science relatou que o revisor de um trabalho sobre tifo, de 2006,  enviado por Raoult ao jornal Infection and Immunity, e publicado pela American Society for Microbiology (ASM), descobriu que “quatro das figuras em um manuscrito revisado eram idênticas à figuras no manuscrito original, embora devessem descrever um experimento diferente”. 

No mês seguinte, a Science publicou uma errata, em que reconhecia que cometera uma falha, e que a crítica se referia a “uma única figura do manuscrito revisado, e não a quatro”.  Raoult se defendeu perante a Science: “Eu não lidei com o artigo, nem mesmo chequei a versão final”. 

Ainda segundo o relato na Science, dois dos co-autores, Christian Capo e Jean-Louis Mège, em cartas a ASM disponibilizadas por Raoult, aceitaram “completa responsabilidade” pelo ocorrido, e alegaram que se tratara de um equívoco inocente. Após consultar sua comissão ética, a ASM baniu todos os cinco autores, incluindo Raoult, de publicarem em seus periódicos por um ano, por “se considerar não satisfeita com as explicações fornecidas: a representação errada de dados … é uma afronta à conduta ética da pesquisa científica”.

Raoult escreveu para a ASM e alegou ter sido “uma vítima colateral de uma sanção coletiva”. Ele apelou do banimento, mas perdeu. “Furioso”, proibiu que membros de seu laboratório submetessem trabalhos para publicação pela ASM, onde ele já publicara 230 artigos. Além disto, cancelou a filiação na American Academy of Microbiology. Mas sua carreira não pareceu ter sido muito abalada pelo ocorrido, segundo o artigo da Science

Mas as críticas a Didier Raoult não se limitam ao campo científico. Em março de 2017, doze membros técnicos da unidade de pesquisa da URMITE, chefiada por Raoult, denunciaram condições de trabalho inaceitáveis, ​​e pediram por mudanças radicais que pusessem fim a uma situação “insuportável e degradante”. O comunicado foi feito pela FERC, a Seção Sindical de Educação, Pesquisa e Cultura da Confederação Geral do Trabalho. Também foi mencionado que denúncias de assédio sexual estavam sob investigação.

As denúncias de assédio e agressão sexual foram expostas, ainda em 2017, em artigo publicado no Marsactu, um jornal investigativo de Masseille, de propriedade de seus sete jornalistas. Foi revelado que uma das vítimas relatou que sofrera assédio sexual ao longo de sete anos, que consistiu de “observações com conotações sexuais, piadas de natureza sexual e observações sexistas”.

Outras quatro mulheres, que alegaram ter sido vítimas de atos de assédio sexual, também relataram “assédio moral, na forma de repetidas críticas a sua atividade, insultos e pressões, inclusive diante de colegas”, relatou o Marsactu. Como resultado das denúncias, um diretor de pesquisa foi demitido do serviço público, pelo comitê disciplinar do CNRS, o Centro Nacional de Pesquisa Científica. 

A CGT declarou que o diretor da URMITE não comunicou a seus superiores, por dois anos, os atos de assédio, e que ele pretendia demitir uma das vítimas. Uma estudante de pós-graduação teria sido ameaçada de não completar sua tese, caso fizesse denúncias, ainda segundo o Marsactu.

O médico negou as acusações contra si, bem como qualquer responsabilidade nos casos de assédio, alegando que a vítima tinha o “dever” de ter comunicado de imediato os casos de assédio. Ainda segundo Raoult, os fatos descritos não ocorreram dentro seu Instituto, mas “em uma ala distante da faculdade de medicina”. 

As acusações contra Didier Raoult são muito graves, e comprometem fortemente sua imagem, não apenas como um pesquisador íntegro, mas também em questões morais. Durante anos, pequenas fraudes que teriam sido cometidas nos artigos científicos puderam passar razoavelmente despercebidas. Então, quando ele se colocou sob o holofote da mídia, Elisabeth Bik entrou no jogo, revelando os truques de Raoult com as cartas.

Isto não quer dizer que a cloroquina, e seu derivado hidroxicloroquina, não possam vir a ter a efetividade comprovada no combate à COVID-19 em casos específicos, e sob estrito acompanhamento médico, devido aos efeitos colaterais. As pesquisas em andamento em vários laboratórios, adotando as metodologias requeridas, irão trazer a resposta em alguns dias.

Se tudo não tiver passado de um blefe, a aposta alta poderá significar o fim da carreira de Didier Raoult. Mas se os testes recomendarem o uso destes produtos, todos os pecados anteriores serão perdoados.  

Notas do autor:

1. Trabalho publicado por pesquisadores de três universidades do Reino Unido, na plataforma Zenodo, contestou as afirmações contidas no trabalho original de Raoult e co-atores, publicado no International Journal of Antimicrobial Agents, de que ocorreram resultados positivos na experiência clínica inicial, conduzida com pacientes chineses acometidos pela COVID-19, que foram tratados com a cloroquina.

2. A pré-impressão digitalizada de um trabalho científico dispensa a aprovação prévia formal por um grupo especializado de revisores, possibilitando a rápida troca de informações entre os cientistas, necessária em casos de epidemias.

O autor é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo Blogue Chacoalhando.