Mídia dos EUA ataca Biden em defesa das guerras do Pentágono

Por Ruben Rosenthal

A mídia procurou encobrir a forma desastrosa como os militares conduziram a guerra do Afeganistão desde o início.

People climb atop a plane at Kabul airport on Aug. 16. Thousands of people mobbed the airport trying to flee as Afghanistan fell to the Taliban. WAKIL KOHSAR/AFP VIA GETTY IMAGES
Milhares de afegãos invadem a pista do aeroporto de Cabul para fugir do talibã; algumas pessoas sobem no topo do avião,16 de agosto \ Foto: Wakil Kohsar/AFP via Getty Images

 

O presidente Biden ficou sob fogo cerrado da mídia dos EUA e do Ocidente por ter retirado as tropas do Afeganistão. Os pretextos para a avalanche de críticas foram as cenas no aeroporto de Cabul e a impossibilidade da retirada de todos os afegãos que se sentem ameaçados pelos talibãs, principalmente aqueles que  trabalharam com as forças de ocupação.

Mas por de trás deste pretenso interesse humanitário está um total alinhamento com teses militaristas. New York Times, Washington Post e tantos outros veículos de mídia se tornaram verdadeiros porta-vozes do Pentágono. Em parte, esta cooptação se deu através de think tanks financiados pelo complexo bélico.

Biden e as guerras sem fim

Joe Biden prometera em 2019 que, se chegasse à Casa Branca, daria fim às “guerras sem fim” no Afeganistão e Oriente Médio, e terminaria o envolvimento na guerra civil do Iêmen. Eleito presidente, ele pretende retomar a política de Obama de mudar o foco estratégico dos EUA para a região Ásia-Pacífico, para contenção da China e da Rússia.

Mas talvez ele só venha a cumprir parte do compromisso que assumira de remover todas as tropas envolvidas diretamente em combates.

Iraque. As 2.500 tropas de combate norte-americanas deixarão o país até o final do ano. Os Estados Unidos passarão a fornecer “suporte em treinamento e aconselhamento”, assim como apoio aéreo e capacitação de vigilância e inteligência na luta contra o Estado Islâmico. O número de militares poderá ser mantido.

Síria. Biden não pretende retirar a totalidade das tropas estacionadas na Síria. Deverão permanecer cerca de 900 combatentes, incluindo os Green Berets — forças especiais do exército, especializadas em guerras não-convencionais. A presença das tropas dos EUA impede que o governo sírio possa ter acesso aos campos de petróleo e a recursos de agricultura no nordeste do país.

No entanto, o Irã não deverá aliviar a pressão nas tropas estrangeiras que permanecerem no Iraque e Síria. Em apenas uma semana, no começo de julho, ocorreram seis ataques com morteiros e drones contra tropas e diplomatas dos EUA nos dois países. Os ataques teriam partido de milícias apoiadas pelo Irã.

Soldados norte-americanos da infantaria atendem colega ferido
Cena que não deverá se repetir no Afeganistão: soldados norte-americanos prestam assistência à colega ferido, setembro 2010, Kondoz, norte do país \ Foto: Damon Winter/ NYT

Afeganistão. Biden não cumpriu o exíguo prazo que herdara do acordo que Trump fizera com o Talibã, de remoção de todas as tropas  da OTAN até 1 de maio de 2021. Ao invés, a retirada foi iniciada em 1 de maio, com a conclusão sendo então anunciada para 11 de setembro. Os eventos que se seguiram já fazem parte da História.

As cenas caóticas no aeroporto internacional de Cabul trouxeram ecos da retirada norte-americana do Vietnã, em 1975. O atentado suicida junto ao portão do aeroporto — quando morreram 182 pessoas, incluindo 13 militares norte-americanos ­— só fez aumentar as críticas ao governo Biden na mídia.

Fabricando o consenso da mídia contra a retirada de tropas

No passado. Em novembro de 2010, durante o governo de Obama, o jornalista Mark Katz escrevia para o Middle East Policy Council sobre as implicações da saída das tropas norte-americanas do Iraque — que já havia se iniciado — e do Afeganistão.

Para Katz, caso os Estados Unidos saíssem do Iraque e do Afeganistão, seria gerada a percepção de que o poder e a influência norte-americana no Oriente Médio entrariam em declínio. Os aliados regionais poderiam buscar esquemas de segurança alternativos, e com isso reduzir ainda mais influência dos EUA. Os adversários globais ficariam então incentivados a tentar obter a saída das tropas norte-americanas de outros países.

No presente. Artigo de Eric Levitz no New York Magazine, em 25 de agosto, considera que a mídia fabricou o consenso que atribuiu a Biden a maior parte da responsabilidade por uma situação que ele herdara das políticas de seus antecessores. Levitz argumenta que é impossível saber se uma retirada mais lenta das tropas teria evitado o clima caótico que ocorreu no aeroporto de Cabul.

Para o premiado jornalista Gareth Porter, os recentes ataques da mídia norte-americana ao presidente Biden  demonstram que ela é porta-voz do Pentágono e da liderança militar. Ao atribuir a Biden toda a responsabilidade pelas falhas que ocorreram na evacuação de afegãos, a mídia procurou encobrir a forma desastrosa como os militares conduziram a guerra do Afeganistão desde o início, avalia Porter.

A cooptação de jornalistas que atuam em política externa e segurança nacional envolve muitas vezes uma triangulação com think tanks (institutos de análise política) financiados pelo complexo bélico, sendo o principal destes o CNAS, Center for a New American Security (ver artigo no blogue Chacoalhando).

Assim como Levitz, Gareth Porter questiona a premissa que a operação de resgatar dezenas de milhares de afegãos que haviam colaborado com as forças de ocupação poderia ter sido conduzida de forma eficiente, sem gerar pânico.

A campanha de lobby do Pentágono contra a política de Biden se iniciou em abril, quando o presidente recusou-se a manter tropas de forma permanente no Afeganistão, rejeitando o ponto de vista dos generais.  A partir daí, entrou em cena a aliança entre complexo bélico, think tanks e mídia cooptada.

O jornalista David Sanger, do The New York Times, foi bolsista em 2008 do programa de residência do CNAS para escritores. Ele costuma difundir desinformação em seus artigos, em temas como o desenvolvimento de armas atômicas pelo Irã, ataques cibernéticos pela Rússia, como também sobre o vírus Sars-CoV-2 ter se originado no laboratório chinês de Wuhan.

As vésperas da tomada de Cabul pelo Talibã, Sanger e sua colega Helene Cooper retomaram a notícia que em abril o general Mark A. Milley, Chefe do Estado-Maior Conjunto, tentara convencer Biden a manter um efetivo de 3.000 a 4.500 combatentes no país.

Os jornalistas citaram “previsões da inteligência de que em 2 ou 3 anos a Al-Qaeda teria novamente uma base no Afeganistão”. No entanto, a política do Talibã sempre foi de se opor a que a Al-Qaeda fizesse uso do território afegão para planejar ataques terroristas. Os atentados do 11 de setembro foram planejados na Alemanha, lembra Porter.

A dupla Sanger e Cooper também buscou declarações do general aposentado David Petraeus, ex-comandante no Afeganistão no período 2010-2011. Desde então ele vinha liderando um grupo de ex-comandantes e diplomatas que faziam lobby pela manutenção de tropas no país.

Petraeus asseverou que Biden falhou ao não reconhecer a necessidade de garantir a manutenção dos vôos da força aérea afegã. O mesmo ponto de vista foi expresso por Richard Fontaine, CEO do CNAS. Porter contesta este posicionamento, salientando que sem um número suficiente de tropas dos EUA e OTAN no solo seria impossível manter a segurança dos empreiteiros da força aérea.

Talibãs posam junto a avião Super Tucano capturado
Talibãs posam junto a um avião A-29 Super Tucano capturado. A força aérea afegã dispunha de 26 destes aviões comprados pelos EUA. A maioria foi parar no Uzbequistão (Reprodução).

O massacre midiático sofrido Biden não poderia ter deixado de incluir as declarações de Michèlle Flournoy, co-fundadora do CNAS. Flournoy atuou como vice-secretária de Defesa de Políticas no governo Obama, dando suporte aos comandantes em campo do Pentágono.

Quando Biden assumiu a presidência, Flournoy esperava ser indicada secretária de Defesa, cargo máximo do Departamento de Defesa. Conforme relatado no site Mother Jones, alguns setores progressistas do Partido Democrata se opuseram fortemente a esta indicação.

A rejeição foi por Flournoy ter contribuído para o aumento do envolvimento militar norte-americano no Afeganistão, e pelo apoio à intervenção da OTAN na Líbia, em 2011. Ao final, ela foi preterida em favor da indicação do general Lloyd Austin, ex-comandante das tropas norte-americanas no Iraque.

Em entrevista a Greg Jaffe, do Washington Post (outro jornalista que recebeu bolsa de residência do CNAS), Flournoy atribuiu o fracasso dos EUA no Afeganistão ao empenho excessivo em se tentar introduzir “ideais democráticos, quando a realidade do país é outra”.

Para Gareth Porter, Flournoy omitiu o fato crucial que, desde o começo, a intervenção se baseou em uma aliança dos EUA com facções de milicianos corruptos e assassinos. As milícias foram contratadas para atuar como polícias nas províncias, fornecendo segurança para os comboios que acessavam as bases militares dos EUA e da OTAN.

No entanto, os líderes das milícias (“warlords”) não estavam submetidos ao governo civil de Cabul. Eles e seus comandados agiam como bandidos, roubando e extorquindo a população, sequestrando e estuprando mulheres, moças e meninos — o que foi constatado pela Anistia Internacional desde 2003. Apesar das diversas denúncias encaminhadas, os militares norte-americanos nada fizeram a respeito.

O periódico on-line Foreign Policy também mantém uma posição favorável a intervenções militares pelos EUA. Em relação à saída das tropas do Afeganistão, FP relatou que vários atuais e ex-diplomatas expressaram anonimamente “imensa raiva, choque e amargura pelo colapso do governo que eles passaram décadas apoiando”.

Robin Wright, do New Yorker, expressou frustração pelo “fim desonrável, que enfraquece a posição dos EUA perante o mundo, talvez de forma irreparável…. O Talibã ganhou uma batalha-chave contra a democracia no Afeganistão”….O país certamente se tornará um paraíso para membros da Al-Qaeda”.

Assim, em coro uníssono, os veículos da mídia corporativa e mesmo independente responsabilizaram Biden por tudo o que já ocorreu ou venha a ocorrer como decorrência da retirada das tropas.

Resta ver se, em substituição ao engajamento direto de tropas norte-americanas em combates, Biden optará por terceirizar as guerras, empregando tropas de outros países, mercenários ou mesmo facções terroristas. O que não seria novidade.

Crise Humanitária no Afeganistão

Os preços de alimentos e de combustíveis dispararam no Afeganistão, que atravessa um período de seca, fazendo com que o país precise de ajuda humanitária, segundo a ONU.

Displaced Afghans who have fled the advancing Taliban reach out for aid at a camp in Kabul, Afghanistan. Photograph: Paula Bronstein/Getty Images
Afegãos pedem ajuda humanitária em um campo de Cabul, Afeganistão, agosto 2021 \ Foto: Paula Bronstein/Getty Images

Como forma de usar o sofrimento do povo afegão para pressionar o governo Talibã, o governo Biden não pretende liberar cerca de 10 bilhões de dólares em ouro, investimentos e reservas que estão custodiados nos Estados Unidos. A falta de liquidez financeira pode levar ao colapso da economia afegã.

O Departamento do Tesouro norte-americano declarou à agência Reuters que não irá aliviar as sanções sobre o governo Talibã, ou as restrições que impedem o acesso ao Fundo Monetário Internacional. Assim, mais um povo fica refém do controle que os Estados Unidos exerce no sistema financeiro.

Segundo relato no The Guardian, na conferência realizada em 13 de setembro pela ONU em Genebra para tratar da crise humanitária, o governo Talibã assegurou que as agências de ajuda poderão operar de forma independente, em segurança, e contratar mulheres.

Concluindo. A saída dos Estados Unidos do Afeganistão gerou um vácuo de poder que abre caminho para um possível aumento da influência do Paquistão, China, Irã e Rússia. No Oriente Médio, novos alinhamentos dos atores regionais também irão alterar a geopolítica pelos próximos anos.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Privatizando a guerra no Afeganistão: saem as tropas regulares, ficam os mercenários

Por Ruben Rosenthal

O temor do governo norte-americano é que a retirada de todas as tropas do solo afegão possa abrir caminho para o aumento da influência de russos e chineses.

Soldados norte-americanos da infantaria atendem colega ferido
Soldados norte americanos prestam assistência a colega ferido, setembro 2010, Kondoz, norte do Afeganistão \ Foto: Damon Winter/ NYT

Conforme determinação do presidente Joe Biden, em 1 de maio foi iniciada a retirada das tropas de combate norte-americanas da nação afegã. Até 11 de setembro está prevista a total remoção dos atuais efetivos – de 2.500 a 3.500 combatentes, e também do contingente da Otan, de 7.000 militares. Biden teria rejeitado as advertências em contrário de seus conselheiros militares e do Pentágono, que alertaram que a saída poderia resultar no “ressurgimento das ameaças terroristas e em guerra civil”, com o fortalecimento do Talibã. 

Na verdade, o acordo original que havia sido acertado com o Talibã na administração Trump, em 29 de fevereiro de 2020, previa a retirada completa das tropas estrangeiras no prazo de 14 meses após a assinatura do acordo, ou seja, até 1 de maio de 2021. Portanto, Biden não está cumprindo o acordo. Em resposta a esse descumprimento, o Talibã emitiu o seguinte comunicado: “A violação, em princípio, abriu caminho para o Emirado Islâmico do Afeganistão tomar todas as ações que considerar apropriadas contra as forças de ocupação”. 

No entanto, a violação do acordo é ainda mais grave que “apenas” um atraso no cronograma da retirada. Conforme publicado no New York Times, permanecerão no Afeganistão as Forças Especiais de Operação, que atuam de forma clandestina, agentes secretos de inteligência, e mercenários sob contrato do Pentágono.  

Em janeiro deste ano haviam mais de 18.000 mercenários em atuação no Afeganistão, segundo um relatório do Departamento de Defesa dos EUA. A informação que foi divulgada no CovertAction Magazine, um site voltado para expor ações clandestinas de governos norte-americanos, foi originalmente obtida no site Stars and Stripes (Estrelas e Listras, evocando a bandeira dos EUA), voltado para os interesses das forças armadas norte-americanas.  

A estratégia do governo norte-americano é de contratar mercenários através de corporações privadas, como forma de distanciar da população os impactos da guerra nas tropas. Uma das maiores empresas que intermediam na contratação de mercenários é a DynCorp International, de Falls Church, na Virgínia.  

A empresa recebeu mais de 7 bilhões de dólares em contratos com o governo norte-americano, conforme revelado no CovertAction Magazine. Esta vantagem da DynCorp na obtenção dos contratos para as guerras do Afeganistão e Iraque já havia sido relatada em artigo de 2009 da Forbes.   

Evolução da presença militar dos EUA no Afeganistão 

O engajamento militar norte-americano contra o Talibã começou em novembro de 2001, com a chegada de 1.300 combatentes, principalmente marines. No mês anterior, o então presidente George W. Bush bombardeara o Afeganistão em represália pela presença de terroristas da al-Qaida, responsável pelos  atentados de 11 de setembro às torres gêmeas em Nova York, e ao Pentágono. A evolução do engajamento militar norte-americano até o final do segundo governo Obama pode ser acompanhada no Military Times

Soldados norte-americanos em avião de transporte chegam a Mazar-i-Sharif, Afeganistão, abril 2010
Cena que talvez não mais se repita: Soldados norte-americanos chegam ao Afeganistão, abril 2010 \ Foto: Damon Winter/NYT

Em agosto de 2010, o contingente dos EUA em solo afegão alcançou a marca de 100.000. Com a morte de Bin Laden em 2011 no Paquistão, Obama anunciou a diminuição gradativa do efetivo. Em julho de 2016 ele quebra a promessa que fizera de retirar todas as tropas até o final de seu segundo mandato, declarando que manterá 8.400 combatentes, segundo relatou o Washington Post na ocasião.  

Trump também quebrou sua promessa inicial de remover todas as tropas. Em setembro de 2017 ele chegou, inclusive, a anunciar um aumento do efetivo. Ao final de seu governo, permaneceu um contingente de 2.500 a 3.500 norte-americanos nas tropas regulares, segundo relato no DW-Brasil. No entanto, ao assinar o  acordo com o Talibã, em que os EUA concordaram em retirar todas as tropas do país até 1 de maio de 2021, Donald Trump deixou este compromisso para seu sucessor, Joe Biden. Pertence apenas ao campo especulativo, se Trump teria ou não cumprido o que fora acordado, caso tivesse conseguido se reeleger.  

Mas o governo Biden parece não estar disposto a perder o controle sobre o território afegão. Biden procura ganhar tempo com a decisão de transferir o prazo para 11 de setembro, aniversário dos atentados da al-Qaida, mas está em violação do que ficara acordado.  

Embora os Estados Unidos disponham de inúmeras bases aéreas na região do Golfo Pérsico, recorrer ao lançamento de bombardeiros de longo alcance ou a drones armados pode não ser tão efetivo como a presença de tropas em território afegão, menciona o artigo do NYT, citando como fontes, “atuais e ex-funcionários norte-americanos”. A presença clandestina das Forças de Operação Especiais e de mercenários poderia suprir a necessidade de forças regulares presenciais.  

Provincia de Laghman controlada pelo Talibã: duas crianças passam por grupo de elite armado, março 2020
Civis passam por grupo de elite armado, Província de Laghman controlada pelo Talibã, março 2020 \ Foto: Jim Huylebroek / NYT

A importância geopolítica do Afeganistão 

Craig Murray, ex-embaixador do Reino Unido no Uzbequistão – país vizinho ao Afeganistão, compara as motivações dos EUA para dominar o Afeganistão, com os casos das ocupações pela Grã-Bretanha e, posteriormente, pela então União Soviética.  

A primeira ocupação britânica se deu em 1839, sob o pretexto de prevenir uma aliança com a Rússia e a Pérsia (atual Irã), visando a invasão da Índia, então uma possessão britânica. Duas outras intervenções pelos britânicos tiveram a mesma justificativa. 

A invasão soviética em 1979 foi com o intuito de proteger regiões da Ásia Central pertencentes à União Soviética, da difusão do radicalismo islâmico. A ocupação durou 10 anos, e trouxe imenso desgaste à então superpotência, contribuindo para o seu declínio. 

O pretexto dos norte-americanos em invadir e ocupar o Afeganistão foi o de deter ataques de extremistas islâmicos que se encontrariam abrigados no Afeganistão, embora os ataques terroristas de “11 de setembro” estivessem mais relacionados com a Arábia Saudita.   

Murray relata que com a ocupação pelos EUA, disparou a produção de ópio e heroína em solo afegão, com o apoio da CIA. Para manter a ocupação, os EUA precisavam do apoio dos “senhores da guerra” locais, que eram os produtores de heroína.  

Entretanto, segundo Murray, o motivo principal da ocupação original do Afeganistão foi o Gasoduto Trans Afegão, que levaria gás natural das reservas do Turcomenistão para o Paquistão, Índia, e então chegando ao Oceano Índico. Em 1997, foi formado um consórcio de seis empresas, juntamente com o governo do Turcomenistão, para construir o gasoduto de 1.271 quilômetros até o Paquistão. 

A maior participação no consórcio (54%) cabia à Corporação Unocal, sediada na Califórnia. Uma delegação do Talibã iria viajar ao Texas para tratar das negociações, que contariam com a benção do então governador do Texas, George W. Bush.  Com os ataques da al-Qaeda em 1998 contra alvos dos EUA na Tanzânia e no Quênia, o projeto foi engavetado, relata Murray. Na ocasião, Osama Bin Laden estava abrigado no Afeganistão.  Posteriormente, já na presidência do país, Bush invadiu o Afeganistão.  

Recentemente, uma delegação do Talibã fez uma visita ao Turcomenistão para conseguir apoio para a tão planejada e adiada linha de gás natural através do Afeganistão. O Turcomenistão possui a quarta maior reserva de gás natural no mundo, estimada em 19,5 trilhões de metros cúbicos.   

Conforme o relato no CovertAction Magazine, o objetivo almejado pelos EUA atualmente não é mais apenas o controle das linhas de suprimento de combustíveis naquela região da Ásia Central. Em 2007, o Serviço Geológico dos Estados Unidos teria identificado a presença no Afeganistão de minerais no valor estimado de 1 trilhão de dólares, incluindo ferro, cobre, cobalto, ouro e o estratégico lítio, usado em baterias de computadores.   

O temor do governo norte-americano é que a retirada de todas as tropas do solo afegão possa abrir caminho para o aumento da influência de russos e chineses. A China aumentou seus investimentos no Afeganistão, país com o qual faz fronteira, mantendo ao mesmo tempo relações com os rebeldes talibãs. Por seu lado, a Rússia investiu em projetos de moradia e no fornecimento de rifles Kalashnikov ao governo afegão, sem, no entanto, deixar de cortejar o Talibã.  

Mapa do Afeganistão mostrando distritos sob controle do Talibã
Mapa mostra o controle por distrito, março 2021: vermelho escuro- Talibã; cinza- governo central ou indeterminado- cinza; vermelho claro- em contestação \ Fonte: Long War Journal

O Talibã já controla diversas regiões do país. Os Estados Unidos tentam manter no poder o atual presidente Ghani ou substituí-lo por alguém que possam controlar. Por outro lado, nas negociações com o Talibã, as únicas cartas que os norte-americanos podem oferecer em troca da mudança do prazo final da retirada total das tropas são o levantamento das sanções e a libertação de prisioneiros. Mas Cabul não deverá concordar com a libertação de prisioneiros talibãs.   

Finalizando 

Em meio às tragédias de uma guerra, os fotógrafos conseguem captar imagens que impressionam. São registros de importância histórica, retratando tragédias humanas e personagens, anônimos ou famosos, que participaram de formas diversas das ações de guerra e da busca da paz. Mas, por outro lado, conseguindo expressar a arte de onde menos se espera. A guerra do Afeganistão pode ser, em parte, acompanhada através das lentes dos fotógrafos do Washington Post e do The New York Times.

O autor é professor aposentado pela UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.