BBC e Reuters na guerra híbrida contra a Rússia

Por Ruben Rosenthal

Cada vez mais, BBC e Reuters vêm desempenhando um papel agressivo na demonização de governos que não seguem a cartilha imposta por Washington e Londres

Reino Unido financiou BBC e Reuters em campanha de desinformação contra a Rússia
 Monumento em homenagem a dois príncipes que expulsaram invasores. Ao fundo, a Catedral de São Basílio, Moscou

Documentos vazados por hackers, publicados em artigo de Max Bluementhal no The Grayzone em fevereiro, mostram que BBC e Reuters participaram de programas secretos do Ministério das Relações Exteriores (FCO) do Reino Unido. Através de campanhas de desinformação, os programas pretenderam enfraquecer a influência regional da Rússia, bem como minar a autoridade e desestabilizar o governo Putin. O governo britânico faz assim pleno uso de táticas da guerra híbrida, que o Ocidente tanto acusa a Rússia de praticar.

A atuação do governo britânico se deu através do Departamento de Contra Desinformação e de Desenvolvimento de Mídia (CDMD, na sigla em inglês), cujas atividades são consideradas de segurança nacional. O CDMD/FCO fez uma convocação aos veículos de comunicação interessados em atuar para “conter a narrativa do governo russo”, e “enfraquecer a influência da Rússia junto aos países vizinhos”.  

BBC e Reuters submeteram propostas ao CDMD de estabelecer redes de influência na Rússia e países vizinhos que promovessem narrativas favoráveis a OTAN. Porta-voz da Reuters confirmou a autenticidade dos documentos, argumentando, no entanto, que as atividades não seriam secretas, e que faziam parte de um “trabalho de décadas em prol da imprensa livre a nível global”.

A Reuters já fora secretamente financiada pelo governo britânico para colaborar em propaganda anti-soviética nas décadas de 60 e 70, em atuação com o serviço de inteligência M16. A informação consta de documentos oficiais que tiveram o acesso liberado em janeiro de 2020. A BBC atuou como intermediária nos pagamentos à Reuters.

Ambos os veículos de mídia declararam que o que acontecera anteriormente não mais se repetiria, pois seus princípios são fundamentados na independência e na verdade. Os novos vazamentos mostraram exatamente o contrário. Cada vez mais, BBC e Reuters vêm desempenhando um papel agressivo na demonização de governos que não seguem a cartilha imposta por Washington e Londres.

Um exemplo da cooptação da mídia, incluindo a Al Jazeera, foi revelado em outro vazamento pelo grupo de hackers Anonymous, relatado pelo Grayzone em setembro de 2020. O vazamento expôs a ação de propaganda do FCO do Reino Unido visando angariar apoio para remover Assad do poder na Síria. O mesmo grupo hacker estaria envolvido nos novos vazamentos.

A Reuters se infiltra na mídia russa

A Reuters é o setor de notícias e mídia da Thomson Reuters, a maior agência internacional de multimídia. A empresa privada está sediada em Nova Iorque, e resultou da aquisição da britânica Reuters pela canadense Thomson Corporation.

Em 2017, a Fundação Thomson Reuters submeteu uma proposta formal para participar de um contrato confidencial com o FCO, que envolvia a embaixada britânica em Moscou. Tratava-se de um projeto de capacitação da mídia russa, através de um “programa de visitas temáticas de jornalistas e influenciadores digitais russos” ao Reino Unido. A meta pretendida era de promover nos jornalistas “um impacto positivo na percepção do Reino Unido”.

Em 2019, a Reuters ingressou em programa semelhante, com o objetivo de “conter a narrativa do governo russo e sua dominação da mídia e dos meios de informação”.  O plano do governo britânico era de se infiltrar na mídia russa para propagar sua própria narrativa através dos jornalistas russos treinados no Reino Unido.

A Reuters organizou então mais visitas de jornalistas russos, para promover “os valores políticos e culturais do Reino Unido”.  A Reuters proclama ter influenciado cerca de 400 jornalistas russos através de seus programas de visitas, e de contar com 1.500 jornalistas em sua rede global de influência.

Como parte de suas atividades de desinformação, a Reuters manteve ligações com o canal de televisão Belsat, da Bielorússia. O canal tem base na Polônia e recebe fundos de governos da União Européia. Belsat teve um papel preponderante na promoção dos protestos de maio de 2020 pela saída do presidente Alexander Lukashenko. 

A BBC na campanha de desinformação contra a Rússia

A britânica BBC consiste na maior emissora pública internacional, e se apresenta como imparcial e independente. Através do setor BBC Media Action, a emissora estatal se propôs a participar de um programa secreto do CDMD/FCO britânico, de 2019 a 2022, voltado para conter a influência russa na região Báltica por meio de novos veículos de mídia pretensamente independentes, mas que promoveriam posicionamentos pró-OTAN.

A BBC se interessou em participar de outro programa de propaganda na mídia, com foco na Ucrânia, Moldávia e Geórgia. Seria formado um consórcio, que incluiria a Reuters e uma empresa de inteligência não mais existente, a Atkins Strategy.

A BBC Media Action também propôs desenvolver, junto com a Atkins, um trabalho pró-OTAN na guerra de informação em áreas de conflito, como na região de Donbas, leste da Ucrânia, onde ocorriam choques dos separatistas pró-Rússia com as forças militares do governo apoiado pelo Ocidente.

O Consórcio entre empresas de notícias e de inteligência

Dentre as empresas de inteligência que se inscreveram para participar do Consórcio custeado pelo CDMD/FCO britânico estavam a Albany Communication e a Zinc Network.

Segundo relato de Ben Norton no Grayzone, a Albany já atuara junto a setores de mídia para propagar as narrativas do Ocidente, enquanto OTAN e as monarquias do Golfo Pérsico procuravam forçar uma mudança de regime de na Síria.

A Zinc teve participação anterior em projetos clandestinos de mídia junto a comunidades mulçumanas, tanto no Reino Unido como na Austrália, como parte de estratégias de contraterrorismo. A Zinc buscou apoio para a Mediazone, um veículo de mídia anti-Putin fundado por duas participantes do grupo performático feminista de punk rock, Pussy Riot (assista a performance Reza Punk no vídeo). 

A Zinc se propôs também a reduzir a visibilidade nas buscas no Google, do site RT (ex-Russian Television), apoiado pelo governo russo. O recente vazamento também revelou que a Zinc propusera atuar no Consórcio, para ajudar influenciadores digitais a “desenvolverem estratégias editoriais no YouTube”. O objetivo era o de estabelecer uma rede de YouTubers na Rússia e na Ásia Central, que promovesse de forma camuflada a visão do Reino Unido e dos países da OTAN, enquanto pretendendo atuar na “promoção de valores democráticos e de integridade da mídia”.

Um nome que aparece relacionado aos documentos vazados é o de Vladimir Ashurkov, diretor executivo da Fundação Anti-Corrupção, FBK, capitaneada por Alexei Navalny. Navalny é opositor de Putin e o queridinho da mídia Ocidental, apesar de sua pouca representatividade política na Rússia; ele é também conhecido por seu discurso de ódio e por suas posições racistas e xenófobas (ver artigo no Chacoalhando).

Alexei Navalny é detido durante protesto em Moscou, 2018
Detenção de Alexei Navalny no protesto de maio de 2018 em Moscou \ Foto: TASS/Barcroft Images

Em 2013, Ashurkov foi filmado em encontro com um agente do M16  da inteligência britânica, em que o russo solicita de 10 a 20 milhões de dólares por ano, para modificar o cenário político.  Pouco tempo depois, Ashurkov buscou asilo no Reino Unido.

Em 2018, o nome de Ashurkov apareceu em documentos vazados divulgados pelo Grayzone, em conexão com a rede de influência Integrity Iniciative, ligada ao FCO britânico. O grupo de propaganda clandestina, composto por militares da inteligência, atuava através de influenciadores britânicos na mídia e na política. O objetivo era de estigmatizar ao máximo a Rússia por suas “intenções malignas”, e aumentar as tensões entre o Ocidente e a Rússia.

Outro parceiro da rede da Zinc no Consórcio exposto pelo vazamento de 2021 é o site Bellingcat. O site já havia interagido com Navalny para culpar a inteligência russa pelo envenenamento do opositor de Putin com o gás neurológico Novichok, conforme relatado pelo Grayzone.

Bellingcat esteve envolvido nas eleições na Macedônia do Norte, promovendo o candidato pró-OTAN, que saiu vencedor. A tática empregada incluiu acusar a Rússia de interferência nas eleições na Macedônia. Também participou da campanha de desinformação na Macedônia, o DFRlab, vinculado ao Atlantic Council, entidade que atua de forma obscura na promoção dos interesses norte-americanos. 

O artigo do Grayzone menciona que Bellingcat recebe fundos da NED, National Endowment for Democracy, entidade privada norte-americana, bancada em grande parte pelos partidos Republicano e Democrata. A NED atua na promoção de mudanças de regime político em diversos países, como fez no Brasil no governo Dilma, através da Atlas Network.

Com a veracidade dos documentos vazados plenamente comprovada, ficaram comprometidas as pretensas imparcialidade e independência da BBC e da Reuters. As duas corporações são frequentemente fontes de matérias publicadas em veículos de imprensa em diversos países. Como confiar agora na autenticidade destas matérias? 

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Envenenamento de opositor de Putin faz parte da guerra híbrida contra a Rússia?

Por Craig Murray, tradução de Ruben Rosenthal

Em um texto repleto de uma fina ironia, o ex-embaixador do Reino Unido e ativista de direitos humanos faz a pergunta essencial sobre o suposto envenenamento do oposicionista russo: Cui Bono (a quem interessa)?

prisão de navalny the guardian
Detenção de Alexei Navalny no protesto de maio de 2018 em Moscou    Foto: TASS / Barcroft Images

O artigo publicado no blogue Chacoalhando é uma tradução comentada por Ruben Rosenthal, do texto de 3 de setembro de 2020 de autoria de Craig Murray1, intitulado  “Novichok,  Navalny, Nordstream, Nonsense”. As palavras colocadas entre parênteses ao longo do texto foram acrescentadas pelo tradutor.

Segundo o analista político Mark Sleboda, Alexei Navalvy é considerado no Ocidente como líder da oposição, mas isto talvez seja dar a ele um crédito que não possui em seu país, pois as pesquisas de opinião costumam indicar que sua aprovação é em torno de 2%. Ele tem uma posição “liberal pró-Ocidente, ultranacionalista de direita, racista, e islamofóbica”.

Navalny começou a a passar mal em um voo de Tomsk, na Sibéria, a Moscou. O avião foi redirecionado para Omsk, para um atendimento de emergência no hospital local. Seus apoiadores levantaram suspeitas que ele fora envenenado ainda no aeroporto em Tomsk, ao tomar uma xícara de chá. A Rússia foi pressionada para autorizar que Navalny fosse transferido para um hospital na Alemanha, o que veio a ocorrer em poucos dias.

Craig Murray: Se Putin quisesse matar Navalny, ele já estaria morto

Com a chegada de Navalny a Berlim, era apenas uma questão de tempo antes que saísse a declaração que extasiou os “russofóbicos” (do periódico britânico The Guardian), de como (o oposicionista russo) havia sido envenenado com o agente neurotóxico novichok. Isto naturalmente elimina qualquer vestígio de dúvida sobre o que aconteceu com os Skripals2, e prova que a Rússia deve ser isolada e submetida a sanções até sucumbir, e que nós (britânicos) devemos gastar bilhões em armas e serviços de segurança. Devemos também aumentar a vigilância interna e reprimir opiniões dissidentes na internet. Também fica assim provado que Donald Trump é um fantoche russo e que o Brexit é uma conspiração russa.

Eu irei provar com toda certeza que sou um troll (provocador) russo por fazer a pergunta: Cui Bono? (a quem interessa?), e (por este motivo fui) desmascarado de forma brilhante3 pela “Iniciativa Integridade”, de Ben Nimmo4, como uma evidência concreta da influência russa.

Devo declarar que não tenho qualquer dificuldade em aceitar que um oligarca poderoso ou algum órgão do Estado russo possa ter tentado assassinar Navalny. Ele causa (apenas uma) pequena irritação, sendo bem mais famoso aqui (no Reino Unido) do que na Rússia; mas não representar uma grande ameaça não protege ninguém contra assassinato político na Rússia.

Mas eu realmente tenho dificuldade com a noção de que Putin ou outros russos do alto escalão quisessem Navalny morto. Se assim fosse, o opositor russo não teria sobrevivido a um ataque quando estava na Sibéria, e não estaria hoje na Alemanha. Se Putin quisesse matar Navalny, ele já estaria morto.

Craig Murray: o agente neurotóxico novichok não parece ser indicado para assassinatos

Vamos primeiro tratar da arma usada no ataque. Algo que sei com certeza é que o agente neurotóxico novichok não parece ser indicado para assassinatos. A coitada da Dawn Sturgess5 se trata da única pessoa que foi alegadamente morta com novichok, mas de forma acidental segundo a narrativa oficial. Os Skripals, que seriam o verdadeiro alvo, não morreram. Se Putin quisesse ver Navalny morto, ele tentaria algo que funcionasse, como uma bala na cabeça ou um veneno letal.

Novichok não é um produto químico específico. Trata-se de um tipo de arma química projetada para ser improvisada em campo, partindo de precursores6 domésticos ou industriais. Faz algum sentido usá-la em solo estrangeiro, já que não seria necessário transportar o agente de nervos já pronto, e é possível se adquirir localmente os ingredientes (necessários). Mas não faz qualquer sentido (usá-lo) na própria Rússia, onde agentes da FSB ou GRU (inteligência russa) poderiam circular a vontade com qualquer arma mortal que desejassem, ao invés de ficar preparando armas neurotóxicas caseiras na pia. Por alguém faria isto?

Além disto, (a mídia corporativa) espera que acreditemos que o Estado russo, tendo envenenado Navalny, então permitiria que o avião em que ele viajava em um voo doméstico fosse desviado para outro aeroporto, e fazer um pouso de emergência, de modo a permitir o atendimento de urgência no hospital. Se os serviços secretos tivessem envenenado Navalny ainda no aeroporto antes do embarque, conforme alegado, por que (as autoridades russas) não insistiriam que o avião permanecesse em sua rota original e deixar que Navalny morresse durante o voo? Era previsível o que ocorreria ao avião (a mudança de rota).

Em seguida, devemos acreditar que o Estado russo, tendo envenenado Navalny, não foi capaz armar sua morte na unidade de cuidado intensivo de um hospital estatal russo. E que o maligno Estado russo foi capaz de falsificar todos os testes de toxicologia e impedir que os médicos falassem a verdade sobre o envenenamento; mas que o mesmo Estado maligno não dispunha de poder para desligar o respirador por alguns minutos ou introduzir algo (mortal) no gotejamento do soro.

Devemos também acreditar que após envenenar Navalny com novichok, Putin permitiu que ele fosse para a Alemanha para ser salvo, o que possibilitaria a descoberta do uso do agente neurotóxico? E que Putin fez isto porque estava preocupado que Angela Merkel estivesse zangada, não compreendendo que ela ficaria ainda mais zangada quando descobrisse que ele, Putin, havia sido o responsável?

Existe esta série de pontos que são impossíveis de se acreditar, para que alguém possa aceitar como válida a narrativa apresentada no Ocidente. Pessoalmente não acredito em qualquer um destes pontos, mas então quem sabe eu seja um traidor pró-Rússia.

Crraig Murray: Os EUA querem impedir a conclusão do gasoduto Nord Stream 2

Os EUA querem impedir a conclusão do gasoduto Nord Stream 2, que irá fornecer gás russo para a Alemanha em uma escala massiva, suficiente para suprir 40% da geração de energia elétrica do país. Pessoalmente, eu sou contrário ao Nord Stream 2, por questões ambientais e estratégicas.

Eu preferiria bem mais que a Alemanha investisse sua formidável força em (energias) renováveis e auto-suficiência. Mas meus motivos são bem diferentes daqueles dos Estados Unidos, que estão mais preocupados em tomar o mercado europeu de gás liquefeito para a produção norte-americana e dos aliados do Golfo (Pérsico). Decisões-chave sobre a conclusão do Nord Stream 2 estão agora acontecendo na Alemanha.

E respondendo à pergunta “Cui Bono?” que fizera, Craig Murray acrescentou: “os Estados Unidos e a Arábia Saudita têm todos os motivos para instigar uma cisão entre Alemanha e Rússia neste momento. Navalny é certamente vítima da política internacional. Eu tendo a duvidar que ele seja uma vítima de Putin”.

Ao final do artigo, Murray fez um apelo por contribuições para arrecadar fundos para custear despesas legais, conforme se aproxima a data de seu julgamento pela acusação de desacato à Corte. Conforme relatado em artigo anterior do blogue, Murray será julgado por haver denunciado as armações feitas para incriminar o ex-primeiro-ministro da Escócia, Alex Salmond. O julgamento está marcado para outubro. Nas palavras de Murray, “o Reino Unido está tentando silenciar uma pequena bolha de dissidência, me encarcerando. Serei extremamente grato a quem puder contribuir para o fundo de defesa ou apoiar meu blog”.

Notas do Tradutor: 1

1. O escocês Craig Murray atuou como embaixador do Reino Unido em diversos países, até ser compulsoriamente afastado do Foreign Office, quando servia no Uzbequistão, por ter denunciado as torturas cometidas a mando do presidente Karimov. Murray atua como ativista de direitos humanos e é um vigoroso defensor da independência da Escócia.

2. No caso do envenenamento do ex-agente russo Sergei Skripal e de sua filha Julia com o uso do agente químico Novichok, o governo britânico acusou a Rússia de tentativa de assassinato, chegando a expulsar diplomatas. No entanto, foram levantadas suspeitas sobre o comportamento da BBC, cujo correspondente havia mantido reuniões secretas com Sergei Skripal poucos meses antes do incidente com o novichok. Questionada por Craig Murray, a BBC se recusou a dar explicações públicas.

3. Ben Nimmo e David Leask colaboraram em um texto de ataque pesado no Herald, identificando individualmente apoiadores do Partido Nacionalista Escocês como “bots/robôs russos”. Nimmo é o homem que declarou que quem faz uso da expressão “Cui bono” é um provável troll russo. Ele também acusou muitos apoiadores da independência da Escócia de serem trolls russos.

4. Ben Nimmo atua junto ao Digital Forensic Research Lab, do Atlantic Council. Ele é um analista de defesa e segurança internacional, especializado em desinformação e guerra híbrida. Em artigo anterior do blogue Chacolhando já foi abordado o papel nefasto que o Atlantic Coucil exerce em outros países, em defesa dos interesses econômicos dos Estados Unidos.

5. A inverossímil narrativa oficial do governo britânico para explicar a morte de Dawn Sturgess, foi de que os dois russos que envenenaram os Skripals fizeram uso do agente novichok em um frasco de perfume, que foi posteriormente selado com celofane, e colocado em uma cesta para caridade.

6. Em Química, precursor é todo composto que faz parte de uma reação química para formar novo composto.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Decifrando o enigma Putin

Por Ruben Rosenthal

É possível se abrir mão do poder para continuar no poder? A oposição russa e o Ocidente precisam resolver o enigma colocado por Putin, ou serem devorados, como no desafio da esfinge de Tebas.

esfinge grega
Decifra-me ou te devoro, o desafio da esfinge

(Atualizado em 09/05/2021 com adendo ao final do artigo) 

Durante a apresentação anual do “estado da Federação”, após tratar da necessidade de se implementar projetos de aumento da taxa de natalidade, o presidente Vladimir Putin propôs, de forma inesperada, mudanças significativas na Constituição do país, que precisariam ser ainda aprovadas em referendo nacional.

Poucas horas depois, o premiê Medvedev anunciou, ao lado de Putin, sua renúncia e do governo, em transmissão na televisão estatal. Medvedev foi substituído pelo chefe da Receita Federal russa, Mikhail Mishustin. O presidente convidou Medvedev para a chefia do Conselho de Segurança Nacional, um cargo até então ocupado pelo próprio Putin.

A mídia do Ocidente interpretou as propostas de mudança constitucional, como parte de um “plano para consolidar e ampliar a permanência do líder russo no poder”. Esta opinião é também corroborada por Sarah Rainsfor, correspondente da BBC em Moscou.

A jornalista considera que a redução dos poderes do presidente, uma das propostas encaminhadas por Putin, “poderia sinalizar sua intenção de se tornar primeiro-ministro novamente”. Sarah relatou em seu artigo que “o líder da oposição, Alexei Navalny, afirmou que qualquer mudança na Constituição caracterizaria fraude, e que a intenção de Putin com a proposta, seria apenas de se perpetuar eternamente no poder”.

Na contramão da mídia corporativa ocidental, Mark Sleboda1, analista de política internacional radicado em Moscou, defende sua visão em que Putin é apresentado como defensor de uma Rússia independente, mais democrática e socialmente mais justa. Esta interpretação foi apresentada por Sleboda em entrevista à jornalista Anya Parampil, no programa Red Lines, inserido na programação do The Grayzone no Youtube.

Sleboda listou as mudanças sugeridas por Putin, e que não deverão receber oposição da Duma, a câmara baixa do legislativo russo. No geral, elas demonstram a intenção do presidente de diminuir os poderes do cargo que ocupa, e criar um sistema de poder mais equilibrado. Os atuais superpoderes inerentes ao cargo presidencial foram concedidos pela Constituição de 1993, por ingerência de Boris Yelsin, então presidente da Rússia.

A primeira medida proposta, transfere o poder de nomear o primeiro ministro para a Duma, que também passaria a nomear os ministros do gabinete e os secretários (deputy ministers) do primeiro-ministro. Desta forma, o executivo perderá grande parte de seus poderes para o legislativo.

Mudarão também os procedimentos para indicar os chefes das agências de segurança do país. Embora a indicação continue a ser feita pelo presidente, será necessária a consulta prévia com o Conselho da Federação, órgão legislativo equivalente ao senado.

Será alterada a cláusula constitucional que possibilita o exercício da presidência por dois termos consecutivos, reduzindo para um termo apenas. Putin havia se aproveitado de uma brecha na Constituição, para exercer dois períodos na presidência, em sequência ao período em que atuara como primeiro ministro.  Sleboda vê esta alteração, como a intenção de Putin em evitar que políticos ávidos pelo poder possam fazer uso deste tipo de brecha no futuro.

Outra proposta consiste em elevar, de 10 para 25 anos, a exigência do tempo de residência no país para alguém se tornar candidato a presidente. Putin também quer banir a cidadania estrangeira, a dupla cidadania e permissões de residência no exterior para os principais agentes do governo, como juízes, governadores, prefeitos de cidades importantes, legisladores federais e membros do gabinete. Assim não haveria a possibilidade de duplicidade na lealdade à nação russa.

Sleboda percebe que esta medida está recebendo algumas críticas, por impedir que muitas das personalidades com perfil liberal pró-Ocidente, e que residiram no exterior, possam vir a ocupar a presidência ou cargos de relevância no país.  Este seria o caso do oligarca Mikhail Khodoskhovsky, que recebeu uma condenação criminal, e que possui dupla cidadania. A medida também afetaria o oposicionista Alexei Navalny, que morou e estudou nos Estados Unidos.

Putin propôs também que o Conselho de Estado, uma espécie de órgão consultivo, passe a fazer parte do setor executivo, garantido pela Constituição. Sloboda avalia que este é provavelmente um dos caminhos que Putin está abrindo para si, para quando se afastar da presidência em 2024. Na chefia do Conselho, Putin atuaria como uma espécie de estadista, “pai da nação”, sem, no entanto, ocupar um cargo no executivo com poderes formais.

Outra alteração constitucional é conceder ao Conselho da Federação (Senado russo) o direito de remover juízes da Corte Constitucional e da Suprema Corte. Trata-se basicamente de lidar com procedimentos de impeachment. Por sua vez, a Corte Constitucional passaria a ter a atribuição de rever a constitucionalidade das leis da Federação. Desta forma, a Corte poderá decidir se leis a serem promulgadas por qualquer presidente em exercício são constitucionais ou não.

O “pacote” encaminhado por Putin também inclui indexar a Seguridade Social e o salário mínimo ao patamar de pobreza do país. Isto é visto como uma rede de segurança para os pobres. Assim, se o nível de pobreza aumentar, os pobres receberão benefícios adequados para protegê-los.

Finalmente, uma última proposta de mudança é limitar a supremacia da lei internacional sobre a russa, de forma a prevalecer sempre a Constituição russa.  A Rússia não deseja ter restrições à sua liberdade de manobras no campo internacional, nem de estar sujeita a processos legais por órgãos internacionais, avalia Sleboda.

O analista considera que muitos não vêem com satisfação que a legislação russa possa prevalecer sobre a internacional. Mas lembra que também os Estados Unidos não reconhecem a aplicação da lei internacional acima de suas próprias leis ou sobre seus cidadãos, principalmente militares em serviço no exterior. O mesmo acontece com vários países da União Européia2.     

Quanto à troca de primeiro ministro, Sleboda revela que já existia o rumor de que Putin não estava satisfeito com a falha de Medvedev em incrementar a infraestrutura nacional e programas econômicos. No entanto, ninguém esperava que Mikhail Mishustin, alguém sem uma ampla base política, fosse chamado para assumir o cargo de primeiro ministro. Ele é visto como um competente tecnocrata pró-empresariado, que realizou um grande projeto de digitalização da economia. Mishustin é considerado como uma figura neutra, que não vai balançar o barco, avalia Sleboda.

Uma peça fundamental no gabinete demissionário é o ministro do exterior, Sergey Lavrov. Embora já fosse do conhecimento que, após quinze anos, ele estivesse cansado de exercer o cargo, dificilmente Putin poderá prescindir de Lavrov. Ele atuou em crises como as do Iraque, Ucrânia, Síria e Líbia, além de ter exercido uma participação ativa no Conselho de Segurança da ONU. 

Sleboda considera que nenhuma das propostas encaminhadas por Putin seja muito controversa na Rússia. Mesmo Alexei Navalny, o queridinho da imprensa ocidental, “liberal pró-Ocidente, ultranacionalista de direita, racista, e islamofóbico”, parece apoiar as mudanças3, principalmente no que diz respeito a Putin se afastar definitivamente do poder em 2024. 

prisão de navalny the guardian
Detenção de Alexei Navalny no protesto de maio de 2018 em Moscou    Foto: TASS / Barcroft Images

Chamar Navalny de líder da oposição, como faz a correspondente da BBC em Moscou e a mídia ocidental, é possivelmente dar a ele um crédito que não possui, pois sua percentagem de aprovação nas pesquisas de opinião ficou sempre em torno de 2%.  Este foi o mesmo resultado que obteve quando se candidatou anteriormente à presidência.

Putin certamente não deixará de dar as cartas até 2024, apoiado em sua popularidade de mais de 60%. Segundo Sleboda, ele poderá futuramente colocar como premiê alguém que queira ver como seu substituto na presidência. Isto aconteceu anteriormente com o próprio Putin, quando foi indicado para o cargo de primeiro ministro em 1999, ganhando experiência no exercício do cargo, até poder então pleitear e assumir a presidência no ano 2000.

Ao mesmo tempo, Putin procurará deixar algumas opções em aberto, mas ancorado na nova Constituição, no caso de ocorrerem mudanças imprevistas no quadro nacional ou internacional nos próximos quatro anos, avalia Sleboda. Decifrar o enigma Putin, pode ser uma questão de sobrevivência para a oposição russa pró-ocidente. E para o Ocidente, trata-se de não perder peças no xadrez da geopolítica.

Adendo: Em referendo ocorrido ainda em 2020 foi aprovado que o presidente russo não possa exercer mais dois mandatos. Em março deste ano, a Duma confirmou a mudança na Constituição e, em 5 de abril, Putin promulgou a lei. Entretanto, o texto sancionado não se aplica aos que ocupassem a presidência antes das mudanças constitucionais. Desta forma, Putin poderá permanecer como chefe de estado até 2036.

O enigma está agora decifrado. Sob ameaça constante do Ocidente a Rússia não irá abrir mão de seu líder.

Notas do autor:

1. Sobre Mark Sleboda: de nacionalidade norte-americana, ele serviu na marinha, no campo da engenharia nuclear. Ficou desiludido com as ações dos Estados Unidos contra o Iraque, ao testemunhar diretamente os bombardeios realizados por seu navio. Os bombardeios contra a Sérvia também contribuíram para a decisão de deixar o país. Casou-se com uma russa que cursava MBA em Harvard, e tendo ele mesmo ancestralidade eslava, migraram os dois para a Rússia. Sleboda optou pela nacionalidade russa, em detrimento da norte-americana. Ele declara concordar, de um modo geral, as posições da Rússia na política internacional.

Sleboda atrai também controvérsias. Artigo no The Guardian acusou o analista político de ser um apologista pró-Kremlin, por suas declarações à radio ABC da Austrália, sobre os protestos em Moscou, de maio de 2018, realizados pela oposição contra Putin. Na ocasião foi detido o líder oposicionista Alexei Navalny.  

O analista disse em entrevista à rádio que os protestos foram pequenos, e descartou a sugestão de que muitas pessoas não participaram por medo. A rádio ABC foi também criticada no artigo, por não revelar que Sleboda supostamente trabalhava como analista para RT, canal estatal de televisão em língua inglesa, anteriormente conhecido como Russian Today.

2. A Grã-Bretanha, vem desrespeitando a autoridade da Corte Internacional de Justiça, que por 13 votos a 1, deu parecer contrário à continuada ocupação colonial das Ilhas Chagos.

3. Evidentemente Navalny não deve estar satisfeito com restrições que possam impedir uma eventual candidatura sua à presidência, e à outras funções de governo. Cerca de 7% da população do país também seria afetada por estas novas restrições.

4. Na mitologia grega, a esfinge tinha cabeça de mulher, pernas e corpo de leão, e as asas de um pássaro.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.