A longa marcha da China rumo à liderança econômica: O Império resiste

Por Ruben Rosenthal

No governo Biden, deverá continuar ou mesmo ser expandida a política de sanções e restrições a empresas e autoridades chinesas, com o pretexto de impor punições por competição desleal e violações de direitos humanos em Xinjiang e Hong Kong.

US-CHINA-DIPLOMACY-STABILITY
Abertura da reunião dos representantes diplomáticos da China e EUA em Anchorage, Alasca, 18 de março  \ Foto: Frederic J. Brown/AFP/Getty Images

Nestes meses iniciais da presidência de Joe Biden, os analistas políticos procuram identificar o que se pode esperar das relações entre Estados Unidos e China.  As ações da nova administração até o momento indicam que existe vontade política para tentar resolver as atuais pendências através de  negociações? Ou a probabilidade é de que ocorra agravamento do contencioso comercial, e de que alguma crise localizada, como a questão do Mar do Sul da China ou de Taiwan, possa evoluir para uma confrontação armada entre as duas maiores economias do planeta?

Este artigo é o terceiro de uma trilogia que procurou mostrar como a China evoluiu a partir de meados do século 20, de uma economia essencialmente agrária e de indústria pesada, para se tornar a segunda economia mundial, tendo alcançado inovações tecnológicas em setores de ponta.  Uma jornada em  que precisou e ainda precisa superar obstáculos, e que resgata a relevância histórica da China para o processo civilizatório.

O primeiro artigo da trilogia relata como, através do plano de modernização tecnológica Made in China 2025, o país espera se tornar uma superpotência industrial até 2049. O segundo artigo mostrou que através da Nova Rota da Seda (Iniciativa Cinturão e Rota) a China rompeu com a política diplomática que adotara a partir dos anos 80, de manter um perfil discreto em política externa, para passar a agir de forma mais assertiva na busca de parceiros comerciais e de regiões de influência.

No entanto, ao passar a interferir nos interesses econômicos norte-americanos e de seus aliados, a China se tornou alvo de uma incessante campanha em diversas frentes. O artigo sobre a Nova Rota da Seda também relata como evoluíram as relações entre a República Popular da China e os Estados Unidos a partir da tomada do poder pelos comunistas, com foco nas administrações de Obama e Trump, resumidas a seguir.

Relações China-EUA no governo Obama

Um novo fator pode ter levado a China a assumir uma posição ainda mais assertiva na Ásia. Em outubro de 2011, a então secretária de estado de Barack Obama, Hillary Clinton, defendeu um reposicionamento da política externa norte-americana, em função da retirada de tropas do Afeganistão. Segundo a secretária de estado, a região Ásia-Pacífico deveria se tornar “alvo prioritário das ações diplomáticas, estratégicas e de investimentos dos EUA”.

No centro da nova estratégia de Washington de um “pivô para a Ásia” estava a Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês), prevista para se tornar o maior acordo de livre comércio no mundo, cobrindo cerca de 40 por cento da economia global. A iniciativa da Nova Rota da Seda representou uma reação da China à mudança de foco da política externa dos Estados Unidos proposta por Clinton.

Em 2011, o déficit comercial dos EUA com a China alcançou 295,5 bilhões de dólares. Em 2012, EUA e Japão questionaram junto à OMC, a Organização Mundial do Comércio, as restrições chinesas à exportação de metais de terras raras. Era o início das tensões comerciais entre os dois países, que atingiriam um clímax na gestão Trump.

Relações China-EUA no governo Trump

Donald Trump se retirou da TTP já no seu primeiro dia no cargo, em 2 de janeiro de 2017, antes mesmo da ratificação da Parceria pelo Congresso. Em seu governo, o contencioso comercial evoluiu para uma guerra comercial, com a aplicação de barreiras e sobretaxas a produtos chineses.

Por outro lado, sanções econômicas foram aplicadas em função de acusações de violações de direitos humanos em Xinjiang, Hong Kong e Tibet. Foram também levantadas acusações contra os chineses de ataques cibernéticos e de roubo de tecnologia. A questão da internet 5G se tornou uma parte importante da disputa tecnológica entre os dois países.

A retórica anti-China dominou a administração Trump, aumentando ainda mais com as acusações de que o vírus da Covid-19 fora produzido em laboratório pelos chineses. E que uma indenização bilionária deveria ser imposta à China.

O documento interno “Estratégia dos EUA para o Indo-Pacífico”, de 2018, que teve sua divulgação liberada nos últimos dias da gestão de Trump, mostra como as ações do governo estavam claramente impregnadas de um viés ideológico.

Em um dos itens do documento consta: “A China busca dominar tecnologias de ponta, incluindo inteligência artificial e biogenética, para aproveitá-las a serviço do autoritarismo. O domínio pelos chineses de tais tecnologias traria profundos desafios para as sociedades livres”.

No documento da Casa Branca intitulado “Enfoque Estratégico dos Estados Unidos para a República Popular da China”, datado de maio de 2020, estão elencados os desafios que a RPC colocava para os Estados Unidos, na visão da administração Trump. O documento avalia que a China procurará obter “vantagens econômicas e militares indevidas, para impor o pensamento do Partido Comunista Chinês e censurar a livre expressão”.

Nestes meses iniciais da administração Biden, a política em relação à China que foi herdada do antecessor Donald Trump está sendo reavaliada. Resta ver se as futuras ações dos EUA irão favorecer a cooperação ou a confrontação entre os dois países.

Relações China-EUA no governo Biden

Ao analisar o enfoque da administração Biden no estabelecimento de sua política de competição estratégica com a China, o pesquisador An Gang, da Universidade de Tsinghua, Pequim, identifica duas fases distintas. Na primeira, que iria da posse em janeiro até a reunião em março de altas autoridades dos dois países em Anchorage, no Alasca, Gang percebe quatro ações principais.

Como primeira ação, a política hostil na relação comercial está sendo revista, mas permanece ainda indefinida. As táticas agressivas de guerras comerciais adotadas por Trump provavelmente não terão continuidade.

No entanto, no governo Biden deverá continuar ou mesmo ser expandida a política anterior de sanções e restrições a empresas e autoridades chinesas, com o pretexto de impor punições por competição desleal, e violações de direitos humanos em Xinjiang e Hong Kong.

A segunda ação está relacionada com a estratégia geopolítica norte-americana. Os EUA retiraram forças (convencionais) do Oriente Médio e do Afeganistão, e passaram a concentrar o foco na estratégia do Indo-Pacífico, como forma de contenção da China.

Vijay Prashad, historiador e jornalista indiano, chama a atenção para a reunião virtual ocorrida em 12 de março, de Joe Biden com os chefes de estado da Austrália, Índia, Japão. Tratava-se de uma reunião do Diálogo de Segurança Quadrilateral, conhecido como Quad.

Reunião do Quad
Reunião virtual do “Quad”, com participação dos chefes de estado da Índia, EUA, Austrália e Japão, 22 de março \ Foto: Twitter/Scott Morrison

O objetivo do Quad é de aprofundar a pressão econômica e militar sobre a China. O grupo foi criado em 2004, fez parte da política de Obama de um “pivô para a Ásia”, mas só decolou na administração Trump.

Embora não tivesse ocorrido menção direta à China durante a reunião, a decisão tomada então, de se formar um grupo de trabalho em tecnologias críticas emergentes e cadeias de fornecimento indicou a clara  intenção de bloquear o acesso da China a tecnologias e matérias primas que possam ter uso civil e militar, avalia Prashad.

A terceira ação visualizada por Gang foi que os EUA passaram a atuar de forma coordenada com os aliados. Por exemplo, a administração Biden conseguiu que a União Europeia suspendesse a ratificação de acordo de cooperação em investimentos com a China, a pretexto da situação em Xinjiang.

A quarta ação foi de priorizar na cooperação China-EUA, a questão das mudanças climáticas, com foco nas emissões de carbono. Os EUA esperam assumir a liderança global neste campo, após o negacionismo que vigorou durante o governo Trump.

Reunião em Anchorage, Alasca 

Representantes de alto nível dos dois países se reuniram em Anchorage, em 18 e 19 de março. A delegação norte-americana era liderada pelo secretário de estado Antony Blinken e por Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional. No comando da delegação chinesa estavam o ministro das relações exteriores, Wang Yi, e Yang Jiechi, conselheiro de estado e ex-embaixador da China nos Estados Unidos.

Conforme relato no britânico The Guardian, na véspera da reunião os EUA tomaram uma série de ações contra a China, incluindo intimações de diversas empresas chinesas de tecnologia por questões de segurança nacional, atualização de sanções relacionadas com a questão de Hong Kong, bem como iniciaram a revogação de licenças de telecomunicação.

Os anfitriões não foram nada sutis desde a intervenção inicial, como mostram as declarações de Blinken e Sullivan publicadas pelo The Guardian (ver vídeo).  Blinken disparou: “Nós vamos discutir nossas profundas preocupações com ações da China, incluindo em Xinjiang, Hong Kong, Taiwan, ataques cibernéticos contra os Estados Unidos e coerção econômica de nossos aliados. Cada uma dessas ações ameaça a ordem baseada em regras que mantém a estabilidade global.”

Jiechi replicou de forma contundente: “Os Estados Unidos fazem uso de força militar e da hegemonia financeira para ampliar sua jurisdição e reprimir outros países. Abusam dos conceitos de segurança nacional, para obstruir as trocas comerciais normais e incitar alguns países a atacar a China”. E prosseguindo: “Deixe-me dizer que, para os chineses, os Estados Unidos não têm qualificação para falar com a China a partir de uma posição de força”.

Em discurso de 15 minutos, Jiechi ressaltou ainda a hipocrisia dos EUA em relação aos direitos humanos, criticou as intervenções externas dos norte-americanos, e acusou as autoridades de adotarem uma mentalidade de “Guerra Fria”.

Já o ministro das relações exteriores, Wang Yi, teria adotado um tom mais conciliador, conforme relatado em Foreign Policy. Segundo a publicação, o ministro declarou que “Blinken e Sullivan são verdadeiros amigos do povo chinês”. Tal declaração está evidentemente carregada de ironia.

O Pós-Alasca

Para An Gang, as ações da administração Biden após Anchorage indicam uma nova fase, em que republicanos e democratas atuarão de forma conjunta no congresso norte-americano para introduzir leis agressivas em relação à China. Diversos projetos de lei versando sobre questões de competição estratégica aguardam votação no legislativo, e poderão afetar negativamente o futuro das relações entre os dois países.

Poucos dias após a reunião do Alaska, em 22 de março, foram aplicadas sanções em quatro autoridades chinesas pelos EUA, Canadá e Reino Unido. No entanto, os chineses não foram pegos de surpresa. Os ministros do exterior de China e Rússia se reuniram em Guilin, na China, em 22 e 23 março, quando concordaram em atuar conjuntamente contra as “sanções ilegítimas, sem base na lei internacional”,  conforme relato de Amber Wang, jornalista do South China Morning Post, de Hong Kong.

Sergey Lavrov e Wang Yi
Sergey Lavrov, ministro das relações exteriores russo, e seu homólogo chinês, Wang Yi; Guilin, China, 23 de março \ Foto: Reuters

O ministro do exterior russo, Sergey Lavrov, classificou as ações dos norte-americanos de “táticas destrutivas de Guerra Fria”. A Rússia também sofre sanções impostas pelo Ocidente após a anexação da Crimeia em 2014, aumentadas em março de 2021 a pretexto do suposto envenenamento do opositor de Putin, Alexei Navalny.

Anteriormente, Lavrov já propusera que os dois países se afastassem do dólar em suas relações comerciais, como forma de reduzir o efeito das sanções.  Yang Jin, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, considera que a China deve receber bem a proposta de se afastar do sistema de pagamentos SWIFT controlado pelos EUA, passando Rússia e China a usar o rublo e o yuan em seus acordos comerciais.  

Para Cheng Yijun, especialista em relações China-Rússia na Academia Chinesa de Ciências Sociais, não é viável se alcançar a independência completa em relação ao dólar nas relações comerciais entre os dois países. Yijun considera também que, “forjar uma aliança com a Rússia não é a melhor opção para a China”. E continua: “Não há dúvida que os dois países se aproximaram em face das pressões vindas dos EUA, mas existem mais diferenças que pontos em comum entre eles”. A ascensão da China representaria também uma ameaça à Rússia, segundo o especialista.

Para a administração Biden, a fonte com maior potencial de conflito com os chineses é a questão de Taiwan, avalia An Gang. Daniel Ellsberg, responsável pelo vazamento do Documentos do Pentágono em 1971, também compartilha desta opinião. Temendo que a questão de Taiwan leve a um conflito militar entre EUA e China, ele divulgou agora informações altamente secretas que guardara por 50 anos.

Durante a crise do estreito de Taiwan em 1958, os líderes militares dos Estados Unidos planejaram aproveitar o clima de tensão para realizar ataques nucleares contra alvos militares chineses localizados em áreas densamente habitadas. No entanto, o presidente Eisenhower se recusou a ir adiante com o plano do alto comando.

No documento da Inteligência Nacional dos EUA publicado em abril de 2021  consta que o Partido Comunista Chinês continuará seus esforços para difundir a influência da China em detrimento dos Estados Unidos, procurando afastar Washington de seus aliados e parceiros, e criando normas internacionais que favoreçam o sistema autoritário chinês. O documento sugere ainda que os EUA precisarão estar preparados para conflitos de guerra híbrida situados entre guerra e paz.

Um indício que as relações bilaterais entre os dois países poderão se deteriorar foi a decisão da  administração Biden de resgatar a polêmica sobre a origem do vírus da Covid-19. Diferentemente de Trump, Biden quer obter um “parecer científico” sobre a questão.  Entretanto, no prazo de poucas semanas nenhuma conclusão minimamente confiável pode ser alcançada.

Uma notícia de dezembro de 2020, que voltou a aparecer na mídia no começo de junho, é que o Pentágono deu 39 milhões de dólares para a entidade de caridade EcoHealth Alliance, que financiou pesquisa sobre coronavírus em Wuhan no laboratório chinês que vem sendo acusado de ser a origem do surto  do vírus Sars-CoV-2.

Cui Liru, do Taihe Institute, um importante  think tank chinês sediado em Pequim, considera que é necessário que as duas nações discutam como lidar com a competição estratégica em temas sensíveis e de alto risco. O desafio de longo prazo será “explorar conceitos e práticas que construam pontes que ajudem a superar as diferenças estruturais”.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Guerra híbrida: vítimas e vilões

Por Ruben Rosenthal

Os principais vilões da guerra híbrida citados nos relatórios elaborados pelos analistas dos think tanks do Ocidente são a Rússia, China, Irã, Coréia do Norte e Estado Islâmico, sendo omitidas as ações híbridas por parte dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos promoveram ações cibernéticas contra a rede elétrica russa em 2018. Usina térmica em Moscou \ Foto: Maxim Shemetov/Reuters

No artigo anterior, através de uma abordagem mais acadêmica, foram apresentadas táticas que fazem parte do arsenal de recursos da guerra híbrida. Basicamente, a estratégia se propõe a alcançar os objetivos pretendidos, em geral de natureza geopolítica, sem se chegar à uma confrontação militar direta entre dois Estados. Também foram apresentados outros termos utilizados para definir estratégias semelhantes, mas com diferentes ênfases nas táticas civis e militares.

Nos Estados Unidos, além de guerra híbrida são utilizadas as expressões conflitos na zona cinzenta, guerra assimétrica, guerra irregular, guerra não convencional e guerra política. Os chineses preferem adotar guerra irrestrita, enquanto os russos empregam guerra de nova geração, poder brando e guerra não linear.

Os principais vilões da guerra híbrida citados nos relatórios elaborados pelos especialistas dos think tanks1 do Ocidente são a Rússia, China, Irã, Coréia do Norte e Estado Islâmico, omitindo as ações híbridas por parte dos Estados Unidos. Uma notável exceção foi a linha adotada no relatório Modern Political Warfare, publicado em 2018 pelo RAND Arroyo Center, unidade de pesquisa da RAND Corporation, ao afirmar que “é igualmente importante reconhecer que os Estados Unidos vêm praticando esta forma de guerra desde a sua fundação”.

O referido relatório prefere resgatar o antigo termo “guerra política”, nas 355 páginas em que descreve as operações híbridas de Estados Unidos, Rússia, Irã e Estado Islâmico. A China, que para alguns analistas do Ocidente é a principal vilã da guerra híbrida, não foi incluída no estudo. O atual artigo abordará as alegações que pesam sobre Estados Unidos, Rússia e China em relatos de think tanks e de outras fontes.

A análise apresentada no relatório do RAND Arroyo Center separa em quatro grupos, as táticas de guerra política conduzidas pelos países estudados: informação/cibernética, economia (ajuda, coerção e subversão), diplomacia/política, militar. 

Estados Unidos e suas guerras híbridas.

Desde sua fundação como nação independente, os Estados Unidos se engajaram em intervenções fora de suas fronteiras. Várias destas se deram no campo da guerra convencional, como a conquista de parte do México no século 19, a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a Guerra da Coréia, do Vietnam, do Afeganistão e do Iraque. No entanto, outras intervenções foram de natureza puramente híbrida, ou mescladas com engajamento bélico formal. 

Informação/Cibernética. Mesmo antes da assinatura da Declaração de Independência das 13 colônias da coroa inglesa, o Congresso Continental dos Estados Unidos escreveu em outubro de 1775 uma conclamação ao povo de Quebec, província de língua francesa no Canadá. Na nota havia um chamamento para a população local se revoltar contra a coroa britânica. Tal iniciativa mostra o emprego de uma tática  de informação contra o adversário mais forte, e que atualmente faz parte do manual de guerra híbrida.

Na época da guerra fria contra a União Soviética e países da “cortina ferro”, os Estados Unidos recorreram às transmissões da Rádio Liberdade e da Rádio Europa Livre. A CIA promoveu exposições de arte abstrata expressionista como forma de contrapor ao realismo Soviético, bem como financiou escritores e dramaturgos norte-americanos. Dezenas de fundações de caridade também distribuíram dinheiro proveniente CIA.

O relatório cita também a campanha de desinformação contra alguns líderes, como foi no caso de Saddam Hussein (acusado falsamente de possuir armas de destruição em massa). Entretanto não é mencionada a longeva campanha de propaganda negativa vem sendo conduzida para desestabilizar o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela. Uma recente campanha de desinformação vem sendo conduzida contra o presidente russo Vladimir Putin, com acusações de uso do agente neurotóxico Novichok contra seus opositores ainda sem comprovação efetiva.

Um relatório da OPAQ, a Organização para a Prevenção de Armas Químicas, foi manipulado como parte de uma campanha de desinformação contra presidente sírio Bashar al-Hassad de uso de gases tóxicos contra a população. A campanha foi usada para justificar ataques militares pela OTAN.

Acusações contra a China de opressão da etnia Uigur em Xinjiang parecem também envolver manipulação de informações. Também recente é a campanha do governo Trump contra a China, ao chamar o Sars Cov-2 de “vírus chinês”, acusando a China de ocultação da gravidade da pandemia de Covid-19 e ameaçando os chineses com sanções econômicas.

Os Estados Unidos vêm realizando ataques cibernéticos através da CIA contra Irã e Rússia, após uma ordem secreta de Trump em 2018.  Artigo de julho deste ano na Forbes menciona que pelo menos 12 operações desta natureza já haviam sido realizadas até aquela data. Em junho de 2019 foi lançado um ataque contra o sistema de computadores que controla os lançadores de foguetes e mísseis iranianos. Anteriormente, em 2009, a CIA já havia conduzido uma ação cibernética conjunta com Israel para destruir centrífugas utilizadas no enriquecimento de urânio iraniano.

As operações cibernéticas contra a Rússia, segundo relato no The New York Times de junho de 2019, consistiram na colocação de malwares agressivos na rede elétrica. O ataque se deu em retaliação por supostas ações russas em desinformação e raqueamento nas eleições norte-americanas de meio termo, em 2018. A Rússia também era acusada de haver instalado  malwares que, em caso de um futuro conflito com os Estados Unidos, poderiam ser usados para sabotar plantas de energia, linhas de petróleo e gás, e suprimentos de água. No entanto, desde 2012 os Estados Unidos já haviam colocado sondas de reconhecimento no sistema da rede elétrica russa.

Economia (ajuda, coerção, subversão). Segundo o relatório do RAND Arroyo Center, um exemplo do uso de coerção econômica ainda na primeira metade do século 20, foi a pressão que os Estados Unidos exerceram em países na América Central através da United Fruit Company (vem desta época a origem do termo “repúblicas de bananas”).

Repúblicas de Bananas, um termo pejorativo usado para países da América Latina e Caribe.

Com o término da Segunda Guerra Mundial, a ajuda econômica a países da Europa Ocidental através do Plano Marshall evitou o aumento da influência do comunismo. Em paralelo, foi promovida sabotagem econômica (subversão) contra a União Soviética, ressalta o relatório.

Outra ação citada de coerção no campo da economia foi a aplicação de sanções econômicas contra o regime do Apartheid, então vigente na África do Sul. Também foram aplicadas sanções econômicas ao Iraque, Irã e Síria. Não foram incluídas no relatório as recentes sanções econômicas ou barreiras comerciais impostas à Rússia, China, Venezuela, Coréia do Norte. As ações de guerra híbrida contra Cuba já perduram por décadas.

Diplomacia e Política. Ainda segundo o relatório do RAND Arroyo Center, no começo do século 20 foi dado apoio ao nacionalismo étnico, como forma de minar a unidade nos impérios Otomano e Austro-Húngaro. Durante a Guerra Fria, partidos políticos em diversos países da Europa Ocidental foram apoiados, para evitar que os comunistas vencessem as eleições nacionais. A ajuda ao movimento Solidariedade na Polônia contribuiu para solapar a influência soviética na Europa Oriental, e através do apoio ao Dalai Lama, líder espiritual do budismo tibetano, vem sendo incentivado o separatismo da província Chinesa. No período pós-Guerra Fria os Estados Unidos deram suporte a diversos movimentos ditos “pró-democracia”.

Não consta do relatório, o financiamento norte-americano, através da National Endowment for Democracy, ao Congresso Nacional Uigur, organização que visa a independência da província chinesa de Xinjiang (vizinha ao Tibet) e a desestabilização da China. Os últimos governos norte-americanos também procuraram criar instabilidade política em Hong Kong, conforme se aproxima o final do prazo de 50 anos da garantia de um sistema capitalista da ilha, com o qual a China se comprometeu com o Reino Unido pelo acordo de devolução da região à soberania chinesa.

Recentemente o governo norte-americano vem concedendo apoio político a Juan Guaidó, na Venezuela, em operação de desestabilização do presidente Nicolás Maduro. Na Arábia Saudita, o príncipe Mohammad Bin Salman recebe apoio do governo Trump, mesmo com os fortes indícios de ter sido o mandante do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi pesando sobre ele. O apoio político e diplomático também já foi concedido a outros políticos, líderes e monarcas alinhados com os interesses norte-americanos e do Ocidente, mesmo que sejam ditadores em seus países.

Um exemplo emblemático do uso da diplomacia para fortalecer ditadores em nome de interesses geopolíticos (também não mencionado no relatório), foi o apoio concedido pelo governo norte-americano, com o conluio do então primeiro-ministro britânico Tony Blair, ao presidente Karimov do Uzbequistão, um ditador que eliminava seus oponentes com requintes de extrema crueldade. O objetivo do apoio diplomático era o de fortalecer alianças na “guerra ao terror”, após os atentados de 11 de setembro de 2001. O caso foi exposto pelo ex-embaixador do Reino Unido, Craig Murray, em seu livro Diplomacia Suja.

Militar. As ações híbridas dos Estados Unidos no campo militar citadas no relatório incluem o apoio à resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Na ocasião, grupos operacionais também foram enviados a Grécia, Itália e Iugoslávia. Na Ásia, para ajudar no combate ao Japão grupos foram enviados a Tailândia, Burma (atual Mianmar), Malásia, e China.

Outro exemplo citado, foi o apoio ao golpe de estado no Irã em 1953, com a deposição de Mossadegh, primeiro-ministro nacionalista, e ascensão ao poder de um representante dos interesses norte-americanos e britânicos, o Xá Reza Pahlevi. A crueldade do novo regime contribuiu para o advento da revolução islâmica. Nos anos 50 e 60, a CIA participou do treinamento militar de resistentes tibetanos contra a ocupação e anexação do Tibet pela China, que ocorrera em 1950-51.

Placa em homenagem aos combatentes tibetanos treinados pela CIA em Camp Hale, Estados Unidos \ Foto: Nolan Peterson/Coffee or Die

As ações subversivas dos Estados Unidos na Guatemala (1954) e Chile (1973) levaram à remoção de dois presidentes eleitos democraticamente, e ascensão de governos ditatoriais. Durante os governos de Jimmy Carter e Ronald Reagan, os Estados Unidos deram apoio militar encoberto aos Contras, grupos paramilitares que se opunham aos sandinistas que governavam a Nicarágua após a derrubada do ditador Somoza. Nas últimas décadas houve o apoio militar aos mujahedeen no Afeganistão na luta contra a presença soviética, aos Curdos no Iraque, e aos rebeldes na Líbia e na Síria. As operações trouxeram desestabilização a estes países, o que possibilitou o aumento da influência do Estado Islâmico.

Uma típica ação militar híbrida não incluída no relatório foi o apoio da CIA ao KLA, o Exército de Libertação do Kosovo, quando a província ainda estava vinculada à ex-Iugoslávia, o que foi reconhecido pela própria CIA, segundo relato recente no periódico britânico Sunday Times.

Brasil, vítima da guerra híbrida dos EUA

Não foram mencionadas no relatório do Arroyo Center, as operações de desestabilização dos governos de João Goulart e de Dilma Roussef. No caso do golpe de 64, que envolveu a participação da CIA, existe farta documentação sobre o apoio financeiro, material e político dos norte-americanos.

Uma das formas utilizadas pelos Estados Unidos para desestabilizar o governo de Dilma Roussef foi através da canalização de verbas da National Endowment for Democracy para a Atlas Network, instituição ultraliberal que gerou o MBL no Brasil. A ação da Atlas Network contra o governo Roussef foi reconhecida por Ron Paul, influente político norte-americano de direita. Atualmente o Brasil sofre coerção para que não faça opção pela tecnologia 5G da empresa Huawei.

Rússia, vítima ou vilã na guerra híbrida?

O relatório do RAND Arroyo Center apresenta uma análise de ações promovidas dentro do conceito russo de “nova geração da guerra”. Dentre as táticas a que a Rússia recorreria visando minar a segurança Europeia está a parceria com grupos armados, a guerra de propaganda e operações encobertas.

No relatório, a Estônia – ex-república da União Soviética – foi tomada como exemplo de um caso de guerra política fomentada pela Rússia. O foco do estudo foi a província de Ida-Viru, que tem uma maioria de 80% de cidadãos de língua russa, o que poderia torná-la suscetível a uma campanha separatista. Apesar do avançado sistema de bem estar social da Estônia, as taxas de desemprego e de pobreza são maiores nas áreas rurais de população russa.

A Rússia se opôs à política de integração da Estônia com a Europa Ocidental, e teria procurado minar o governo central. O relatório cita os incidentes da chamada “noite de bronze”, como um exemplo concreto de guerra política. Os eventos ocorreram a partir de abril de 2007, quando as autoridades estonianas resolveram remover uma estátua que comemorava a vitória soviética na Segunda Guerra Mundial. Ocorreram protestos da comunidade russa da Estônia, que logo se transformaram em distúrbios. Seguiu-se uma série de ataques cibernéticos, que foram atribuídos à Rússia.

Para Hal Brands, analista sênior do FPRI (Instituto de Pesquisa em Política Internacional), a Rússia recorreu a táticas na zona cinzenta em operações na Criméia que levaram à anexação da região em 2014, desmembrada da Ucrânia. Segundo relatado em artigo de Vladimir Batyuk, professor de relações internacionais em Moscou, o Pentágono ficou extremamente alarmado que a Criméia fora anexada “sem o disparo de um único tiro”. Os analistas norte-americanos ficaram preocupados com as “novas táticas das forças armadas russas, que incluiriam forças especiais, guerra cibernética, propaganda e operações encobertas”.

De acordo com o analista russo Ruslan Pukhov, diretor do Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias e editor do jornal Moscow Defense Brief, os militares russos conseguiram convencer oitenta por cento das forças ucranianas a desertar ou passar em massa para o lado russo; os outros 20 por cento decidiram continuar a servir nas forças armadas ucranianas, mas deixaram a Criméia, sem opor qualquer resistência. Isto só foi possível porque a maioria das forças ucranianas na Criméia consistia de pessoal originário da própria região. Pukhov relata que não ocorreram relatos do uso de operações cibernéticas na Criméia. Ele acrescenta ainda que descrever os eventos ocorridos na Ucrânia como guerra híbrida é uma tentativa, com motivações políticas, de exagerar os fatores externos no conflito, em detrimento dos internos.

O ex-oficial da marinha norte americana e especialista em guerra híbrida, Frank Hoffman, relatou que em 2008 a Rússia empregou táticas híbridas para que a Ossétia do Sul e a Abecássia se separassem da Geórgia (uma ex-república soviética), através da ação de milícias da Ossétia do Norte (província autônoma russa) e de mercenários da Chechênia (república da federação russa). Para o Carnegie Council, o livro The Tanks of August (Os tanques de agosto), publicado pelo Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias, da Rússia, é uma leitura fundamental para se entender a perspectiva da Rússia e as condições que levaram ao conflito armado de cinco dias. A Geórgia, que desde o ano 2000 vinha aumentando sua capacidade militar e investira oito por cento do PIB em armamentos em 2007/2008, tomou a iniciativa de um ataque surpresa em Tskhinvali, na Ossétia do Sul, deflagrando o conflito.

Em outubro de 2014, a Comissão Europeia fez um estudo do impacto que um corte de seis meses no fornecimento de gás natural teria em países da Europa, caso a Rússia fizesse uso desta tática híbrida. Finlândia, Estônia, Bulgária, e países do oeste dos Balcãs seriam os mais vulneráveis, podendo sofrer quedas de 80-100% no fornecimento, conforme relatado pelo RAND Arroyo Center.

Efeito do corte por 6 meses no fornecimento de gás natural russo. Comissão Europeia \ Fonte: RAND Arroyo Center

Os analistas do RAND Arroyo Center relatam que “a Rússia se considera como vítima da guerra política contemporânea”. Segundo a análise, “o país superestima o papel desempenhado pelos Estados Unidos em promover revoluções democráticas e liberais, como nos casos dos protestos Maidan (de 2014, na Ucrânia), revoluções coloridas, Primavera Árabe, e outros. O presidente Putin tende a ver estes eventos como resultantes de uma política agressiva do Ocidente”.

“A Rússia se vê como uma grande potência detentora de uma rica cultura, engajada em uma luta civilizacional com o Ocidente, que procura minar suas tradições e o próprio Estado russo, principalmente através da guerra de informação promovida pela mídia ocidental. Neste contexto, faz parte da responsabilidade do Estado (russo) defender o espaço de informação de seus cidadãos contra ideias e perspectivas oriundas de influência estrangeira”, acrescenta a análise.

A China é a grande vilã da guerra híbrida?

Dentro de um conceito ampliado de guerra híbrida, o analista Anthony Cordesman enumera em relatório do CSIS, Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais2, datado de julho de 2020, o que ele chama de “campanhas na zona cinzenta movidas pela China contra os Estados Unidos”, listadas a seguir:

Iniciativa Cinturão e Rota (Moderna Rota da Seda), por aumentar a conectividade entre Ásia, África e Europa; guerra comercial, por realizar operações econômicas na zona cinzenta; espionagem, com foco na aérea tecnológica, onde a Huawei compete com os Estados Unidos pela rede 5G; desinformação, pela manipulação nas mídias sociais; campanha marítima no Mar do Sul da China, com ilhas artificiais, zonas marítimas, e pretensões geopolíticas; alinhamento da China com a Rússia, de forma a competir com o Ocidente; expansão do mercado chinês na África, com prejuízo para os norte-americanos; ações no Ártico, onde através da Rota da Seda do Gelo a China coopera com países da região; campanha separatista, pela qual a China reage aos movimentos separatistas em Xinjiang, Hong Kong, Taiwan e Tibet.

Da leitura do relatório do CSIS, fica evidenciado que Cordesman apresenta uma visão que se restringe ao ponto de vista dos interesses norte-americanos, sem considerar a complexidade das relações Estados Unidos-China. Desta forma, o analista faz ele próprio uso da desinformação, por considerar como táticas híbridas algumas ações adotadas pelos chineses que deveriam fazer parte de um direito legítimo de buscar o desenvolvimento industrial e econômico.

Anthony Cordesman já havia abordado em relatório anterior de outubro de 2019, China e Estados Unidos: Cooperação, Competição e/ou Conflito, as difíceis relações entre os dois países, tendo como pano de fundo a emergência da China como uma potência industrial e econômica global, ameaçando a hegemonia da nação norte-americana. É dentro deste contexto de competição que se dão as acusações e retaliações contra a China, algumas já mencionadas no item sobre as ações híbridas pelos Estados Unidos.

Como parte da campanha de acusações que procuram alimentar a narrativa das intenções malignas do governo e ao Partido Comunista Chinês, cabe observar que as traduções publicadas nos Estados Unidos do livro Unrestricted Warfare3 (Guerra Irrestrita) – um manual de guerra híbrida de autoria de dois coronéis do exército chinês – receberam um adendo no título de capa, inexistente na versão original: “O Plano Mestre da China para Destruir a América”.

Campanha de desinformação no subtítulo na tradução norte-americana do manual chinês de guerra híbrida \ Foto: Handout (editada)

Notas do autor:

  1. O termo think tank é utilizado em relação a centros de reflexão e formulação de ideias, no caso relacionadas com estratégias políticas e militares. 
  2. Henry Kissinger, ex-secretário de estado norte-americano, é diretor do programa de segurança internacional do CSIS. Pesam sobre ele acusações do cometimento de crimes de guerra, detalhadas no livro e no documentário “O Julgamento de Kissinger”.
  3. O livro Guerra Irrestrita foi escrito em 1999, focando em como um oponente tecnologicamente superior poderia ser derrotado.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo blogue Chacoalhando

Guerra híbrida: subversão e ingerência externa 2.0

Por Ruben Rosenthal

Qualquer medida adotada por um país que seja vista pelos Estados Unidos como prejudicial aos seus interesses econômicos ou geopolíticos, poderá ser considerada como parte de uma estratégia de guerra híbrida, sujeitando este país à retaliação.

Guerra híbrida, um jogo apenas para mestres \ iStock/Getty Images Plus

Para o russo Ruslan Pukhov, Diretor do Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias (CAST), a guerra híbrida não é uma inovação. “Ações que recebem esta classificação estiveram presentes em conflitos armados de baixa intensidade nas décadas recentes e mesmo séculos. É difícil imaginar o uso de força militar sem o apoio de informações ou sanções econômicas, guerra clandestina, ou tentativas de desmoralizar o inimigo e explorar as divisões no campo adversário”. A novidade é o uso de tecnologias avançadas, como as que utilizam recursos cibernéticos.

Para a maior parte dos analistas políticos do Ocidente os principais vilões da chamada “guerra híbrida” são China, Rússia, Irã, Coréia de Norte e Estado Islâmico. A partir desta narrativa, foram criadas justificativas para que os Estados Unidos e seus aliados adotassem medidas punitivas, como sanções econômicas, ações de sabotagem e ataques cibernéticos. Entretanto, qualquer análise minimamente isenta poderá constatar que os Estados Unidos já incorporaram há décadas em suas ações de ingerência externa, muitas das táticas q

ue hoje constam dos manuais da guerra híbrida. 

Guerra política ou híbrida: Nome para uma estratégia 

Algumas décadas antes do surgimento da expressão “guerra híbrida”, o termo political warfare (guerra política) já era utilizado, atribuído ao diplomata norte-americano George Kennan. No memorando de 1948 The Inauguration of Organized Political Warfare, elaborado no início da chamada Guerra Fria entre as duas superpotências da época, Kennan considerou que a estratégia da guerra política seria um importante meio dos Estados Unidos vencerem a batalha ideológica contra o regime comunista da União Soviética.

Na definição de Kennan: “Guerra política é a aplicação lógica da doutrina de Clausevitz1 em tempos de paz. Em uma definição geral, é o emprego de todos os meios por parte de um país para alcançar seus objetivos nacionais, à exceção da guerra formal. Estes meios variam desde ações abertas, como alianças políticas, medidas econômicas e propaganda positiva, até ações ocultas, como apoio clandestino a grupos simpatizantes em outros países, guerra psicológica com informações falsas, e mesmo o encorajamento de resistência clandestina em países hostis”. 

Em 1964, o coronel francês Roger Trinquier usou o termo subversive warfare (guerra subversiva) quase no mesmo sentido com que Kennan empregou political warfare: “um sistema interligado de ações políticas, econômicas, psicológicas e militares que objetivam a derrubada da autoridade estabelecida de um país, e a substituição por outra”.

A expressão hybrid warfare (guerra híbrida) começou a ser utilizada durante a guerra do Iraque. No entanto, a definição que ainda hoje prevalece nos setores militares norte-americanos não enfatiza as táticas valorizadas pela “guerra política”, que são principalmente de natureza civil. Da forma que é comumente entendida, a guerra híbrida sugere uma combinação de meios militares convencionais com táticas militares irregulares (não convencionais) e não cinéticas (não envolvem ações militares). Já as ferramentas preponderantes na guerra política são essencialmente de natureza não cinética; a combinação com táticas militares concede o aspecto híbrido.

Em artigo publicado em 2008 no “Army Magazine”, o então Chefe do Estado Maior do Exército dos Estados Unidos, General George Casey, apresentou uma definição de guerra híbrida como “combinações diversas e dinâmicas de capacidades convencionais, irregulares, terroristas e criminosas”. Em 2009, Frank Hoffman, oficial aposentado da marinha norte-americana, considerou que as operações híbridas não se limitam a atores não estatais: “para implementar novas táticas, os Estados podem adaptar suas unidades convencionais em formações irregulares”. 

Também em 2009, o Comando Conjunto das Forças dos Estados Unidos definiu a ameaça híbrida (página 18 do documento) como “qualquer adversário que para obter seus objetivos políticos, empregue de forma adaptável e simultânea uma mistura de (1) meios políticos, militares, econômicos, sociais e de informação, e (2) armas convencionais, táticas irregulares, terrorismo e comportamento criminoso no espaço de batalha. Este adversário pode se constituir de uma mescla de atores estatais e não estatais”.

Em artigo de fevereiro de 2013 publicado no Military Industrial Courier, o Chefe do Estado Maior russo, Valery Gerasimov, abordou a mudança da natureza da guerra: “No século 20 e 21, vemos uma tendência para tornar indefinidas as linhas de separação entre os estados de guerra e de paz. As guerras não são mais declaradas e, uma vez começadas, prosseguem de acordo com um modelo não familiar”.

“Cresceu o papel dos meios não militares para se alcançar objetivos políticos e estratégicos e, em muitos casos, eles excederam em efetividade o poder da força pelas armas. O foco dos métodos de conflito mudou na direção do uso amplo de medidas políticas, econômicas, de informação, humanitárias e outras não militares, aplicadas em coordenação com o potencial de protesto da população”.

“Tudo isto suplementado por meios militares de caráter oculto, incluindo ações de conflito de informações e de forças operacionais especiais. Só é necessário se recorrer ao uso ostensivo de forças (militares) em dado momento, sob o disfarce de manter a paz ou conduzir crises, principalmente para alcançar o sucesso final no conflito”, complementou Gerasimov.

Em artigo de 2014, Frank Hoffman avaliou que o termo guerra política proposto por Kennan é impreciso. Se for considerada a afirmação de Clausewitz de que “a guerra é a continuação da política por outros meios”, então todas as guerras, mesmo as convencionais, são políticas. Haveria então desacordo com o conceito estabelecido a partir de Kennan, que exclui da abrangência da guerra política, o confronto bélico convencional entre os atores principais.  

Neste artigo, Hoffman questiona ainda as qualificações de Kennan para propor uma teoria militar, e que o diplomata não teria compreensão de Clausevitz apesar de citá-lo. Indo mais além em suas críticas a Kennan, Hoffman discorda que os esforços de contenção das ameaças de guerra política (híbrida) deveriam estar centrados no Departamento de Estado, pois isto iria apenas resultar “em elaboração de memorandos”. As fortes críticas de Hoffman a Kennan parecem ser o reflexo de duas visões que se contrapõem nos governos norte-americanos, uma militar e outra diplomática/civil.

Guerra não convencional

Hoffman concede, no entanto, que “uma definição de conflitos híbridos focada em táticas associadas com violência e guerra excluiria as ações econômicas, financeiras, informações falsas e atos políticos subversivos, como criar e fazer uso de sindicatos e ONGs de fachada”. Mesmo preferindo o termo “guerra híbrida” do que “guerra política”, ele considera que seria mais apropriado o uso de um terceiro termo, “guerra não convencional”, proposto por David Maxwell, coronel aposentado das Forças Especiais do Exército. Hoffman questiona ainda se, ao invés de “guerra”, não seria melhor adotar “conflito não convencional” ou “operações não convencionais”, termos que expandiriam o conceito da estratégia além da estreita visão militar.

O Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos publicou o documento “Estratégia Militar Nacional dos Estados Unidos de 2015”, voltado para a “necessidade de contenção de Estados revisionistas que desafiam as normas internacionais, bem como de organizações extremistas violentas que estão solapando a segurança trans regional”.

Na avaliação do documento, “a probabilidade dos EUA se envolverem em uma guerra convencional com outro Estado é baixa, mas crescente. Este tipo de conflito pode incluir o uso de força militar em larga escala e de tecnologias militares sofisticadas em múltiplos domínios para derrotar o inimigo, inclusive armas de destruição em massa”.

Em contraste, “organizações extremistas violentas trazem um risco imediato à segurança trans regional, por associarem tecnologias atuais com ideologias extremistas. Estas organizações utilizam pequenas unidades e redes, dispositivos explosivos improvisados, pequenas armas, propaganda e terror. Em comparação com os conflitos entre Estados, a probabilidade de ocorrência destes conflitos é grande, mas as consequências são menores”.

“Existe uma área de conflitos onde os atores estatais e não estatais mesclam técnicas, capacidades e recursos para alcançar seus objetivos, como se observou no leste da Ucrânia. Tais conflitos ‘híbridos’ podem incluir tanto sistemas assimétricos2 como os militares tradicionais, e estão situados em uma escala intermediária de probabilidade de ocorrência e de gravidade das consequências, em relação aos dois casos anteriores”.

“Os conflitos híbridos servem para aumentar a ambiguidade, dificultar a tomada de decisões e retardar a coordenação de respostas efetivas. Devido a estas vantagens concedidas ao agressor, é provável que esta forma de conflito persista no futuro”, conclui o documento do Estado-Maior Conjunto.

O documento de 2018 da Estratégia Militar Nacional dos Estados Unidos não faz referência explícita à guerra híbrida, pelo menos na parte que não foi considerada como de distribuição restrita. Junto com a ênfase de investimentos em capacitação da supremacia militar em operacionalidade e letalidade, está a competição efetiva em um nível abaixo do conflito armado. “A Força Conjunta e seus líderes devem estar confortáveis em combater no espaço ou  no campo cibernético”, acrescenta.

Indo na contramão da adoção do termo guerra híbrida pelo Estado-Maior Conjunto norte-americano, o relatório Modern Political Warfare (Guerra Política Moderna) publicado em 2018 apresenta a pesquisa conduzida pelo RAND Arroyo Center, financiada pelo Comando G-9 de Operações Especiais do Exército dos Estados Unidos. O Centro faz parte da RAND Corporation, um think tank3 que oferece análises para as forças armadas.

Conflitos na zona cinzenta

Os especialistas do Arroyo Center preferiram resgatar no relatório de 355 páginas o uso da expressão guerra política, devido à sua raiz histórica. “A guerra política não é nem inteiramente composta de ações econômicas e diplomáticas regulares, nem no outro extremo, uma guerra convencional entre Estados; ela está situada em uma zona cinzenta indefinida (gray zone) entre estes dois limites. A escolha da terminologia correta tem importância acadêmica, mas de maior relevância é firmar o entendimento que as medidas de coercitivas devem ficar abaixo do patamar do conflito cinético, para não se incorrer no risco de envolvimento em operações militares em escala total”. 

A “moderna guerra política” incorpora e aprimora táticas que não existiam no século 20, surgidas principalmente pelo advento de novas tecnologias, como a internet e as mídias sociais. “A estratégia também precisa considerar que não se trata mais de lidar com um cenário de sociedades fechadas, como na Guerra Fria. Por outro lado, a existência de organizações como Wikileaks torna mais difícil para os Estados Unidos agirem encobertos, como durante a Guerra Fria”, analisa o relatório do RAND Arroyo Center.

Nos Estados Unidos, além da expressão guerra híbrida, os especialistas dos think tanks adotaram os termos gray zone conflicts (literalmente, conflitos na zona cinzenta), asymmetric warfare (guerra assimétrica), irregular warfare (guerra irregular) e unconventional warfare (guerra não convencional). Já os chineses preferem adotar a expressão unrestricted warfare (guerra irrestrita) na descrição de estratégia semelhante, enquanto que os oficiais russos empregam soft power (poder brando), new generation warfare (guerra de nova geração) e non-linear warfare (guerra não linear).

Em relatório de julho de 2020, Anthony Cordesman, analista do think tank norte-americano CSIS, Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, considera que a estratégia dos Estados Unidos deve estar baseada na presunção de que não existem regras fixas para definir as operações na zona cinzenta, mas “o nível de violência não deveria ultrapassar um baixo patamar, como o que ocorre nas operações de mercenários”.

Os think tanks norte-americanos são em geral mantidos por doações feitas por empresas, indivíduos, fundações, órgãos do governo, e mesmo por outras nações. Assim, estes centros de formulação de estratégias defendem visões que contribuem para reforçar a influência global dos Estados Unidos. Portanto, não constitui surpresa que os principais vilões da guerra híbrida citados nos relatórios elaborados pelos especialistas dos think tanks sejam Rússia, China, Irã, Coréia do Norte e Estado Islâmico, como já mencionado no início deste artigo.

Qualquer medida adotada por um país que seja vista pelos Estados Unidos como prejudicial aos seus interesses econômicos ou geopolíticos, poderá ser considerada como parte de uma estratégia de guerra híbrida, sujeitando este país à retaliação. 

A segunda parte do artigo aborda operações  híbridas atribuídas aos Estados Unidos, China e Rússia pelos relatos de think tanks e da mídia. Mas nem sempre vítima e agressor podem ser identificados com clareza, pois a desinformação é uma das principais táticas da guerra híbrida.

Notas do autor:

  1. O militar e estrategista prussiano Carl Von Clausewitz é autor do tratado “Da Guerra”, publicado em 1832.
  2. Nos sistemas assimétricos um adversário não precisa ter a mesma capacidade de combate que as forças opostas. Uma pequena equipe altamente especializada consegue neutralizar o sistema GPS de um porta-aviões.
  3. A expressão think tank é utilizada em referência a centros de reflexão e de formulação de estratégias, no caso políticas e militares. 

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo blogue Chacoalhando

A longa marcha da China rumo à liderança econômica: Nova Rota da Seda

Por Ruben Rosenthal

Investimentos chineses em infraestrutura abrangendo dezenas de países trouxeram acusações de que o mega projeto representaria um cavalo de Tróia visando a dominação política e expansão militar da China.

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A Nova Rota da Seda \ Arte: The Guardian

Seguindo-se ao artigo sobre o Made in China 2025, a série “A longa marcha da China rumo à liderança econômica” aborda o programa extremamente ambicioso, através do qual o país pretende estimular o crescimento econômico de diversas nações da Ásia e de outros continentes, além de incentivar o comércio regional. Isto seria alcançado através de projetos em infraestrutura, em grande parte voltados para aumentar a conectividade entre os países participantes. 

Como era de se esperar, os Estados Unidos e a mídia corporativa do Ocidente não pouparam críticas aos chineses. No entanto, mesmo em alguns dos países que se beneficiaram dos investimentos, a população local mostrou descontentamento com os termos dos acordos acertados com Pequim. Para superar as desconfianças e ser bem sucedido, o presidente Xi Jinping precisará aceitar as críticas que forem procedentes, e renegociar os acordos em outras bases com seus parceiros.

A Rota da Seda original

Durante a dinastia Han (206BCE-220CE), a expansão do comércio da China para além da fronteira ocidental se estendeu a países da Ásia Central, como Afeganistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão, bem como, mais ao sul, às regiões onde atualmente estão Índia e Paquistão e, fora do continente asiático, alcançando a Europa.

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A antiga Rota da Seda \ Arte: domínio público

A Rota da Seda trouxe a interação de diferentes culturas e religiões, e um intenso comércio. Os chineses tinham a oferecer seda, temperos, jade e outras mercadorias, e recebiam metais preciosos, marfim e produtos de vidro. O advento das Cruzadas e os avanços dos mongóis na Ásia prejudicaram a malha de comércio; com isto os países da Ásia Central estão até hoje isolados economicamente entre si.

O retorno da China ao protagonismo econômico na Ásia

Quando a economia da China começou a crescer rapidamente nos anos 80 e 90, os países da ASEAN, a Associação de Nações do Sudeste da Ásia, passaram a ver os chineses como competidores.  Segundo Christopher Johnson, analista do think tank1 Center for Strategic and International Studies (CSIS, na sigla em inglês), as desconfianças só se amainaram quando da crise financeira na Ásia em 1997.

Ao não desvalorizar de forma competitiva o yuan,  a China contribuiu para não agravar a crise e, ao mesmo tempo, passou a ser vista como um “poder econômico responsável e estabilizador”. Em 2002 foi assinado o acordo inicial de uma zona de livre comércio China-ASEAN. Durante a crise global de 2008-09, a China desempenhou novamente um papel estabilizador na região. Entretanto, este prestígio adquirido pelos chineses causou alarme em Washington.

Documento do Congresso norte-americano de janeiro de 2008 expressou preocupação com a extensão do “soft power” que a China passou a exercer no sudeste da Ásia, isto bem antes de Xi Jinping chegar ao poder e a China assumir a relevância atual. O documento mostrou realismo: “Ao trabalhar de forma colaborativa com países e organizações regionais em tópicos como disputas regionais e comércio, a China dissipou em grande parte os temores de uma ameaça militar ou econômica. O engajamento diplomático da China ganhou respeito na região, e contrasta com a percepção da pouca atenção concedida pelos Estados Unidos. Muitos analistas argumentam que a crescente influência da China poderá vir às custas do poder e influência dos EUA na região”.

Na década seguinte, um novo fator pode ter levado a China a assumir uma posição ainda mais assertiva na Ásia. Em outubro de 2011, a então secretária de estado de Barack Obama, Hillary Clinton, defendeu um reposicionamento da política externa norte-americana, em função da retirada de tropas do Afeganistão. Segundo a secretária de estado, a região Ásia-Pacífico deveria se tornar “alvo prioritário das ações diplomáticas, estratégicas e de investimentos do país”.

No centro da nova estratégia de Washington de um “pivô para a Ásia” estava a Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês), prevista para se tornar o maior acordo de livre comércio no mundo, cobrindo cerca de 40 por cento da economia global. A iniciativa da Nova Rota da Seda representou uma reação da China à mudança de foco da política externa dos Estados Unidos proposta por Clinton.

No entantoTrump se retirou da TTP já no seu primeiro dia no cargo, em 2 de janeiro de 2017, antes mesmo da ratificação da Parceria pelo Congresso. Muitos no movimento sindical estadunidense também se opunham a TPP, com a alegação de que os acordos comerciais prejudicariam salários e condições de trabalho nos Estados Unidos. As restantes onze nações assinaram o acordo, que passou a vigorar em dezembro de 2018, com alterações em cláusulas que constavam para beneficiar principalmente aos Estados Unidos. O afastamento dos norte-americanos pode ter aberto a oportunidade para a China melhor implementar o seu projeto da Rota da Seda.

A Nova Rota da Seda ou Iniciativa Cinturão e Rota

Com a ascensão de Xi Jinping à presidência em 2013 iniciou-se a fase do “grande rejuvenescimento da nação chinesa”, com a modernização da indústria do país através do Made in China 2025, e de uma maior influência externa. Foi alterado o enfoque que prevalecia desde o governo de Deng Xiaoping na década de 70, do país manter um perfil discreto na diplomacia internacional.

Para Christopher Johnson, do CSIS, Xi Jinping está determinado a restaurar a posição histórica da China no centro da economia, política e cultura da Ásia. Xi quer aproveitar o que ele identificou como um “período de oportunidade estratégica”, na qual um ambiente benigno de segurança externa permitiria o foco no desenvolvimento interno e em uma política de resultados “mutuamente benéficos” nas parcerias econômicas. Esta janela de oportunidade iria até 2020 (coincidentemente o final do primeiro mandato de Donald Trump).

O nome oficial da iniciativa em chinês é yi dai yi lu, ou “Um Cinturão, Uma Rota”. BRI ou OBOR são as siglas em inglês para o Belt and Road Iniciative. O projeto é composto de duas vertentes, o Cinturão Econômico da Rota da Seda (parte terrestre) e a Rota da Seda Marítima do Século 21. Segundo relato no britânico The Guardian, o lançamento original foi em 2013, mas pouco aconteceu nos quatro primeiros anos.

Em maio de 2017, líderes de 28 países compareceram a Pequim para o relançamento da iniciativa que ajudaria a dar início a uma “nova era de globalização” puxada pela China, em um momento em que os Estados Unidos se encontravam afastados dos compromissos externos, seguindo o lema de Trump, “América Primeiro”.

Ainda segundo o periódico britânico, o plano deve criar novos mercados para os produtos chineses, e ajudar na exportação da capacidade excessiva da produção de aço e cimento. As economias de regiões chinesas da fronteira ocidental, menos desenvolvidas, deverão ser beneficiadas com o aumento dos laços comerciais com países vizinhos. A expectativa é que o desenvolvimento de regiões como a província de Xinjiang, de maioria muçulmana, contribua para relaxar as tensões étnicas locais.

Segundo o CFR1, Council on Foreign Relations, importante think tank norte-americano, a visão do presidente Xi Jinping é de criar uma vasta rede de ferrovias, dutos de combustíveis, rodovias e facilitação da movimentação nas fronteiras, com o objetivo de romper o “gargalo da conectividade”. A rede se estenderia tanto na direção oeste, através das montanhosas ex-repúblicas soviéticas, como também ao sul, chegando ao Paquistão e Índia, e ao sudeste asiático.

Tal rede iria expandir o uso internacional na moeda chinesa, o renminbi (yuan). A China planeja construir cinco zonas econômicas especiais, segundo os moldes da Zona de Shenzhen, lançada em 1980, como parte das reformas econômicas ocorridas durante a liderança de Deng Xiaoping.

Cerca de 71 países, contabilizando mais da metade da população mundial e um quarto do PIB, assinaram ou indicaram interesse em participar da Iniciativa. A China planeja investimentos anuais de  150 bilhões de dólares  no fomento aos projetos, podendo chegar a totalizar 1,3 trilhões até 2027, segundo estimativas do banco de investimentos Morgan Stanley. 

mapa adesões BRI
Mapa mostra em azul claro os países que aderiram à Iniciativa Cinturão e Rota \ Fonte: CSIS Burke Chair

Dentre os projetos incluem-se um porto no Sri Lanka, um trem de alta velocidade na Indonésia e um parque industrial do Cambodja. O maior projeto atual é o do Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC, na sigla em inglês), com custo estimado em mais de 60 bilhões de dólares. O CPEC inclui uma série de projetos conectando a China ao Porto de Gwadar. 

As críticas ao Cinturão e Rota

Em outro artigo no The Guardian é relatado que participantes dos projetos reclamam que os contratos para construção ficam principalmente para empresas chinesas, deixando de fora as locais. Além disto, os altos custos envolvidos nas obras levaram ao endividamento de vários países, que teriam dificuldades em repor os empréstimos. O artigo alerta que a diplomacia da “armadilha da dívida” poderia ser usada pelos chineses para obter concessões territoriais. É relatado que a China teria cancelado uma dívida do Tajiquistão em troca de 1.158 quilômetros quadrados de território em litígio.

Jonathan Hillman, outro analista do CSIS, avalia que a infraestrutura de portos e de transporte de carga poderia ser também utilizada para o transporte de tropas. Por outro lado, o analista considera que os Estados Unidos poderão se se beneficiar futuramente de infraestruturas bancadas pela China. Ainda segundo Hillman, através do Cinturão e Rota a China poderá ditar novas regras e estabelecer instituições que atendam aos interesses chineses.

No entanto, segundo o The Guardian, as autoridades chinesas anunciaram que as Cortes internacionais que irão resolver eventuais questões comerciais relacionadas com o Cinturão e Rota, deverão seguir os moldes das Cortes do Centro Financeiro Internacional de Dubai e da Corte Internacional de Comércio de Singapura. Isto deveria, em princípio,  amenizar parte das críticas levantadas por Hillman e alguns analistas.

Ao contrário da visão de seu colega Hillman, Christopher Johnson ressalta em seu relatório do CSIS que a China, até o momento, parece mais interessada em expandir e alavancar seus interesses econômicos, do que estabelecer vínculos e parcerias militares diretas. A China aumentou sua participação na força de paz da ONU, mas não demonstrou intenção de seguir os exemplos russo e norte-americano de ações militares fora da esfera de influência imediata, avalia ele.

Ainda segundo Johnson, Xi Jinping considera a China por já ser uma grande potência pode agir como tal, através de sua capacidade de persuasão e de influência internacional, mesmo que através de “soft diplomacy”. Ao contribuir para uma maior influência de Pequim, a Iniciativa Cinturão e Rota tem certamente uma conotação geopolítica, mas “o componente geoestratégico não deveria ser superdimensionado pelo Ocidente”, avalia ele.  Apesar de um posicionamento mais assertivo em relação ao Mar do Sul da China, a China não estava atuando de forma revisionista e disruptiva da estrutura regional e global, complementa Johnson.

Outro analista do CSIS, Anthony Cordesman, publicou relatório  de outubro de 2019, intitulado “China e Estados Unidos: Cooperação, Competição, e/ou Conflito”,  em que apresentou uma coletânea de documentos oficiais dos Estados Unidos e da China. O relatório procura demonstrar a crescente capacidade da China em alcançar paridade e competir com os EUA e outras potências, em termos civis e militares. Esta condição já teria sido atingida na Ásia, segundo o analista. Em julho de 2020 Cordesman publicou outro relatório, em que classifica a Iniciativa Cinturão e Rota como parte da guerra híbrida que a China promove contra os Estados Unidos, “por avançar os interesses chineses em detrimento dos norte-americanos”. 

A reação do governo Trump

A administração Trump tentou se opor ao avanço da influência chinesa através da criação da U.S. International Development  Finance Corporation (DFCem janeiro de 2020, substituindo a Overseas  Private Investment Corporation (OPIC), uma instituição que durante quase 50 anos esteve envolvida no apoio a projetos de infraestrutura em diversos países. A nova instituição federal teria mais autonomia, e trabalharia em coordenação com a USAID, a Agência para Desenvolvimento Internacional. O capital necessário para os investimentos em projetos no exterior viria principalmente do setor privado, que assumiria os riscos.

Por outro lado, os Estados Unidos, através de uma estratégia para a região do Indo-Pacífico, estão investindo também em acordos bilaterais que envolvem os setores de segurança e de logística militar de tropas norte-americanas e de segurança interna em países da Ásia. Aí se inclui a defesa contra “atividades cibernéticas maliciosas por parte da Coréia, China e Rússia”.

Um documento da Casa Branca datado de maio de 2020, intitulado “Enfoque Estratégico dos Estados Unidos para a República Popular da China” enumera desafios de diversas naturezas que a RPC coloca atualmente para os Estados Unidos. Incluído nos desafios econômicos encontra-se a Iniciativa Cinturão e Rota, através da qual a “China procura fortalecer a posição de suas empresas no mercado global, em detrimento de firmas não chinesas”.  O documento avalia que a China procurará obter “vantagens econômicas e militares indevidas, para impor o pensamento do Partido Comunista Chinês e censurar a livre expressão”. 

As reações de outros países

Alguns países que participam da Iniciativa Cinturão e Rota procuraram manter o equilíbrio entre os benefícios a obter e as despesas envolvidas.  Outros não souberam controlar o endividamento.

Paquistão. O país representa o carro-chefe do Cinturão e Rota. Através do Corredor Econômico China-Paquistão uma série de projetos de infraestrutura serão implementados, com ênfase na expansão das ferrovias e no setor energético. As indústrias do Paquistão serão encorajadas a mudar de um sistema de montagem de partes importadas para a produção local. 

Acrescenta o periódico paquistanês Express Tribune que a moeda chinesa terá status semelhante ao do dólar no comércio bilateral entre os dois países. A cooperação  deverá incluir os setores industriais de química, farmacêutica, aço, ferro, agro, materiais de construção e bens de engenharia, dentre outros. 

Artigo de julho de 2020 no Al Jazeera reconhece que o financiamento chinês ajudou o Paquistão a superar a deficiência em energia elétrica, que tanto prejudicava a produção industrial. Após um período de morosidade depois que o primeiro-ministro Imran Khan assumiu em 2018, a nova gerência do CPEC está conseguindo revitalizar o programa. 

container no primeiro navio chines partindo do CPEC porto em gwadar nov 2016 Caren Firouz Reuters
Primeiro navio de carga chinês partindo do Porto de Gwadar, Nov. 2016 \ Foto: Caren Firouz/Reuters

China e Paquistão assinaram em junho e julho deste ano, projetos no valor de 11 bilhões de dólares, incluindo a construção de duas represas hidrelétricas e investimentos na revitalização do sistema ferroviário. Os projetos das hidrelétricas serão desenvolvidos da parte da Caxemira administrada pelo Paquistão, uma região que foi palco de duas guerras com a Índia.  

Problemas sérios podem surgir, com o anúncio feito pelos grupos separatistas  paquistaneses Baloch e Sindhi, de que se uniram para atacar os interesses chineses no país. Segundo a declaração conjunta de 25 de julho, “através do Corredor Econômico paquistanês a China almeja subjugar Sindh e Baloquistão, e ocupar as costas e recursos de Badin a Gwadar”. O Paquistão acusa a Índia de apoiar os insurgentes. 

Os separatistas já haviam assumido a autoria do ataque a Bolsa de Valores do Paquistão em junho, e do Pearl Continental Hotel em Gwadar, em 2019. Analistas consideram que os insurgentes não têm capacidade para rivalizar com o governo paquistanês, mas os custos com a segurança dos projetos devem aumentar. É também provável que os projetos do CPEP passem a empregar mais mão de obra local, como forma de ganhar apoio nas comunidades, estima o artigo. 

Índia. Os Estados Unidos veem a Índia como um contrapeso à China, mas os líderes dos dois países asiáticos vêm investindo em laços mais próximos. Mesmo não participando do Cinturão e Rota, a Índia não renega totalmente as vantagens que uma proximidade com a China pode trazer. O país foi membro fundador do Banco de Investimentos em Infraestrutura Asiática (AIIB, na sigla em inglês), fomentado pela China. 

Quando do lançamento da Iniciativa em 2017 a Índia expressou o seu apoio ao aumento da conectividade entre os países da região, mas ressaltou  que diversos requisitos precisariam ser atendidos, como transparência dos custos, proteção ambiental, transferência de tecnologia, respeito à integridade territorial e soberania, atendimento de normas de boa governança e controle financeiro, para não gerar dívidas insustentáveis. 

A Índia também levantou objeções ao CPEC, alegando que o projeto ignora sua soberania e integridade territorial. Para a ligação da China Ocidental ao Porto de Gwadar através das planícies do Paquistão, é necessário passar por regiões da Caxemira que pertenceram a Índia. 

Segundo o think tank CFR, a Índia procurou convencer outros países, que o Cinturão e Rota é um plano da China para dominar a Ásia, através da estratégia geoeconômica que alguns analistas denominaram de “armadilha da dívida”.  A suspeita levantada é de que débitos insustentáveis gerados pelos acordos seriam usados pela China para obter vantagens. 

Sri Lanka. O New York Times relata que o governo do Sri Lanka precisou ceder aos chineses o Porto de Hambantota por 99 anos, devido ao acúmulo de dívidas com a estatal chinesa, China Harbor Engineering Company.  O motivo teria sido um erro na previsão da utilização do porto, que ficou bem abaixo do esperado, mesmo estando situado próximo à rotas marítimas de grande movimento.

BRI porto no Sri lanka
Porto Hambantota, Sri Lanka \ Foto: New York Times

Casaquistão.  Ocorreram protestos em 2019 contra a construção de fábricas chinesas, devido aos custos elevados e também pela situação da etnia Uigur na província chinesa de Xinjiang. 

Rússia. Moscou se tornou um parceiro entusiástico do Cinturão e Rota, superando os receios iniciais de que a Iniciativa iria interferir com a tradicional esfera de influência russa e com a visão de Vladimir Putin, de uma União Econômica Eurasiana. Mas conforme as relações da Rússia com o Ocidente se deterioraram, Putin procura agora associar sua visão Eurasiana com o Cinturão e Rota. 

Europa. Vários países do Leste e Centro da Europa aceitaram financiamento da Iniciativa. Na Europa Ocidental, Itália, Portugal e Luxemburgo assinaram os acordos iniciais. A cooperação seria uma forma de atrair investimentos chineses para melhorar a capacidade de competição com firmas norte-americanas, e mesmo com outros países da Europa. 

O efeito da Covid-19 na Iniciativa Cinturão e Rota

A pandemia da Covid-19 trouxe solavancos no andamento da Nova Rota da Seda. O jornalista Pepe Escobar salienta que as interrupções ocorridas nas cadeias de fornecimento, e as restrições nas viagens e nas concessões de vistos concorreram para uma interrupção temporária da tão almejada “conectividade entre os países”, que está no cerne da Iniciativa. No entanto, o jornalista ressalta que o projeto não descarrilou. Obras importantes na ferrovia de alta velocidade ligando a China ao Laos não teriam sido suspensas, e outras foram retomadas após interrupção de poucos meses. 

ferrovia pakistão atrasada devido a covid reuters
Covid-19 atrasa obras da ferrovia Karachi-Peshawar, no Paquistão \ Foto:Reuters

Finalizando

Para o estabelecimento de uma nova ordem econômica no leste asiático centrada na China a liderança chinesa precisará superar desafios e desconfianças, principalmente desanuviando os receios dos parceiros de uma dominação pelo gigante asiático. Por outro lado, cabe aos parceiros procurar negociar melhores condições para os contratos, tal que que não tragam endividamento para seus países. No entanto, a perspectiva da China estar na marcha para se tornar a maior potência econômica mundial deixa alarmadas as lideranças do Ocidente. 

Pode se esperar o recrudescimento das campanhas anti-China, com todas as armas que a guerra híbrida oferece. Este vai ser o tema do terceiro e último artigo desta série.  

Notas do autor:

1. Os think tanks dependem de vultosas contribuições para manter a estrutura de dezenas ou centenas de analistas especializados, o que pode comprometer a independência que eles proclamam ter. O CSIS é possivelmente o think tank mais influente nos Estados Unidos. A relação das fontes de financiamento do CSIS por meio de doações individuais, de fundações, corporações e governos pode ser acessada aqui. A relação de doadores do CFR é apresentada em bases anuais, sendo que a de 2018/19 pode ser acessada aqui, e a relação de seus membros corporativos, aqui.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando (acesse o índice de artigos).

A longa marcha da China rumo à liderança econômica: o plano Made in China 2025, por Ruben Rosenthal

Por Ruben Rosenthal

A impressionante ascensão industrial e econômica chinesa pode oferecer um modelo para países de sistema político diverso?  Quais experiências bem sucedidas podem ser replicadas no Brasil?

Chang e 4 Jiang Hongjing Xinhua via AP
Lançamento da sonda Chang’e 4 para pouso na face oculta da lua \ Foto: Jiang Hongjing/Xinhua 

Antes da crise do novo coronavírus, a China já se tornara a segunda economia mundial, e estava empenhada em revitalizar sua indústria através do plano Made in China 2025. Em outra frente de atuação, através da Iniciativa Cinturão e Rota, buscava ampliar a conectividade com outras economias e dar maior sustentação ao crescimento econômico do país. No entanto, ao contrário da percepção muito difundida de que a supremacia econômica e industrial global é questão certa de ser alcançada pela China uma vez terminada a pandemia, os projetos chineses ainda têm imensos desafios a superar.

As dificuldades incluem não apenas questões relacionadas com infraestrutura e domínio de tecnologia, mas também com os diversos obstáculos que vêm sendo colocados por governos do Ocidente, em particular o norte-americano. O esforço desenvolvimentista dos chineses no período desde a revolução comunista é o tema desta série que constará de três artigos.

O período pós-Revolução Comunista de 1949  

A análise referente a este período, apresentada a seguir, foi baseada principalmente em documentação da Federal Research Division, da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.  

Seguindo-se à vitória da revolução comunista em 1949, sob a liderança de Mao Tsé-Tung a China adotou o modelo de economia planificada da antiga União Soviética. Para auxiliar no planejamento foi conduzido em 1953 o primeiro censo no país, que indicou uma população de 583 milhões de pessoas.

O primeiro plano quinquenal (1953-1957) foi voltado principalmente para o desenvolvimento industrial, com ênfase na indústria pesada e nas tecnologias de capital intensivo. Indústrias-chave como as de produção de aço e ferro, extração de carvão, produção de cimento, geração de eletricidade e fabricação de máquinas se expandiram adotando tecnologias modernas.

Durante este período, proprietários de indústrias foram convencidos a vender suas empresas ao governo ou se associarem a ele, tal que por volta de 1956 já não existiam na China empresas exclusivamente de natureza privada. A produção de bens de consumo não foi contemplada neste, nem nos planos quinquenais seguintes.

A coletivização da agricultura foi incentivada, levando ao aumento da eficiência da produção no campo. Em 1957, cerca de 93,5% de todas as fazendas já faziam parte de cooperativas de produtores. Apesar da falta de investimento do governo na agricultura, a produção agrícola aumentou substancialmente devido ao novo ordenamento. O primeiro plano quinquenal trouxe, portanto, resultados bastante positivos quanto ao crescimento econômico.

Mesmo assim, o abastecimento de grãos para as cidades não estava sendo considerado satisfatório, em parte pela produção insuficiente de grãos face ao aumento populacional, ou ainda pelas falhas de empresas estatais de comércio em efetuar a contento este abastecimento. O crescente desequilíbrio entre os crescimentos industrial e agrícola trouxe insatisfação para algumas lideranças do país, que consideravam que o modelo soviético que vinha sendo aplicado seria inapropriado para a China.

Foi abandonado o segundo plano quinquenal (1958/1962), que deveria dar sequência às políticas do primeiro plano, e introduzida uma série de mudanças sócio-econômicas e políticas no campo e em algumas cidades.  Em 1958 foi lançada a campanha do Grande Salto Adiante (Great Leap Forward), visando apressar o ritmo do desenvolvimento tecnológico e econômico do país.

Isto seria alcançado com a adoção de medidas como a transferência para nível das administrações locais, de boa parte das decisões econômicas, e com a formação de comunas populares no campo e em algumas cidades. O momento era de fervor ideológico e de movimentos de massa, que influíram nos assuntos de gerenciamento industrial.

Em 1958, a produção industrial teria dado um “salto” de 55%, e obtida uma boa colheita, mas os índices podem ter sido superestimados. Entretanto, condições adversas de clima e a má alocação de recursos resultaram em forte declínio da produção agrícola nos anos seguintes. É relatada uma queda de 14% em 1959, 13% em 1960 e 2% em 1961. Sobreveio a escassez de alimentos, que teria resultado na morte por inanição de 14 milhões de pessoas. Existem relatos na imprensa ocidental de que teriam ocorrido várias dezenas de milhões de mortes na China em decorrência de fome generalizada no período de 1959-1961.

O Grande Salto Adiante foi considerado como um grande revés econômico não apenas para a agricultura. Ocorreu também falta de matéria prima para a indústria, produção de bens de baixa qualidade e deterioração de plantas industriais pelo mau gerenciamento. É relatada a ocorrência de uma queda na produção industrial de 38% em 1961, e de 16% em 1962.

Mao Tsé-Tung, o “Grande Timoneiro”, se afastou na liderança do país e ficou apenas como líder do PCC, o Partido Comunista Chinês. Os anos que se seguiram a partir de 1966 foram extremamente tumultuados na política, com a luta ideológica afetando diretamente a economia. Estava em curso a chamada Revolução Cultural.

poster da revolução cultural guardian 11 maio 2016
Poster da Revolução Cultural: Mao e o livro vermelho, base doutrinária para a militância

Após a morte de Mao, as lutas políticas se acirraram, até que em 1978 Deng Xiaoping consolidou sua posição no poder. Foi iniciado um novo paradigma econômico, com a introdução de amplas reformas, incluindo a abertura ao investimento estrangeiro.  No campo, as fazendas coletivas foram divididas em pequenas unidades familiares, com incentivos financeiros à produção e a adoção de preços de mercado. 

Fim da Revolução Cultural: as reformas liberalizantes

Deng se empenhou em concretizar o programa das Quatro Modernizações, que incluía os seguintes setores: agricultura, indústria, ciência e tecnologia, defesa nacional. Ciência e tecnologia era o ponto crucial, do qual o sucesso de todo o programa dependia. No entanto, os anos da Revolução Cultural haviam deixado um legado de falta de pessoal qualificado na área científica, setor imprescindível para a modernização avançar.

Para se alcançar uma formação científica de alta qualidade, um grande número de estudantes chineses foi enviado para universidades no exterior. Se nos anos 60 e 70, um pequeno contingente de alunos foi estudar principalmente em universidades europeias, a partir de 1979 a prioridade foi o aperfeiçoamento dos estudantes nos Estados Unidos, com a normalização das relações entre as duas nações.

No entanto, em sua maioria estes não eram estudantes típicos em busca de cursos de graduação ou pós-graduação, mas cientistas em meio de carreira, em geral na faixa de 35 a 45 anos de idade, buscando treinamento especializado em seus campos de atuação científica.

Em 1986, o sistema educacional ainda estava longe de atender às necessidades dos programas de modernização. O Conselho de Estado promulgou, então, amplas reformas no campo da educação, que incluíram a concessão de maior autonomia às universidades na alocação dos fundos recebidos do Estado. Os colégios e universidades também podiam decidir o número de professores necessários para cada curso.

Após formados, os graduandos deveriam ensinar por um mínimo de cinco anos em escolas do ensino básico e médio. No geral, a boa formação e treinamento dos professores das escolas foram fundamentais na preparação dos alunos para a acirrada competição de ingresso nas universidades chinesas. O incentivo aos professores e a extrema motivação dos alunos complementa o retrato do ensino na China. A boa formação técnica e educacional dos chineses se tornou um atrativo para empresas estrangeiras que queriam se estabelecer no país.

O desenvolvimento industrial no período pós-1978

Huimin Ma e co-autores dividem em três períodos, o desenvolvimento que se seguiu à introdução das reformas liberalizantes por Deng Xiaoping. No primeiro, que se estendeu de 1978 ao final da década de 80, ocorreu a gradual revitalização das indústrias de manufaturas. A fabricação de produtos industriais leves por empresas estatais abasteceu o mercado local com eletrodomésticos e produtos eletrônicos, mesmo que ainda de forma insuficiente. Vestuário e alimentos ficaram mais diversificados.

O segundo período abrange a década de 90, com a emergência de empresas privadas e a entrada de capital estrangeiro na produção industrial. Foram estabelecidas zonas econômicas especiais e bolsa de valores, chancelando o surgimento de uma economia voltada para o mercado para resolver os problemas de escassez de bens de consumo. Muitos técnicos e administradores de empreendimentos estatais migraram para o setor privado, abrindo seus próprios negócios.

Neste período, o mercado chinês se tornou fortemente atrativo para investimentos estrangeiros, possibilitando o acesso do país a técnicas mais avançadas de fabricação de produtos industriais e de consumo, bem como a designs mais elaborados. No entanto, este desenvolvimento foi mais presente em áreas litorâneas, aprofundando as diferenças em relação ao interior.

O terceiro período se estende do começo do século 21 até os dias atuais, e se caracteriza pela firme entrada das manufaturas chinesas no mercado internacional. Em 2001 a China entrou para a OMC, a Organização Mundial do Comércio, possibilitando a integração do país ao mercado global. Os investimentos estrangeiros afluíram em massa para o setor produtivo, muitas vezes na forma de joint ventures. A “marca” Made in China passou a ganhar reconhecimento no mercado internacional.

A ação governamental priorizou o investimento em infraestrutura, principalmente no setor de comunicações, estradas de ferro e autoestradas de alta velocidade. O desenvolvimento em Tecnologia da Informação foi fundamental para a produção industrial e comércio eletrônico.

O Instituto para Política de Desenvolvimento e Segurança (ISDP, na sigla em inglês), sediado em Estocolmo, publicou em junho de 2018 uma análise do plano “Indústrias Emergentes Estratégicas” (SEI, na sigla em inglês), que antecedeu o Made in China 2015. Lançada em 2006, ano de início do 11o plano quinquenal, a iniciativa SEI foi centrada no aprimoramento de tecnologias avançadas, para assegurar a posição de indústrias emergentes estratégicas.

Iniciativas públicas e privadas em pesquisa e desenvolvimento permitiriam que empresas chinesas desenvolvessem tecnologia de ponta em setores-chave, levando à obtenção de patentes, e também acesso à propriedade intelectual de domínio de empresas estrangeiras, em troca do acesso ao mercado chinês por estas empresas. Em movimento reverso, no período de 2005 a 2016, empresas chinesas investiram 13,6 bilhões de dólares na Alemanha e 135 bilhões nos Estados Unidos, possibilitando joint ventures com empresas destes países que já haviam alcançado um elevado nível de automação e inovação.

Ainda segundo o relato do ISDP, a SEI elencou como prioritárias a tecnologia de informação de última geração, aí incluindo inteligência artificial, serviços de segurança cibernética, circuitos integrados e equipamentos e softwares de rede. Outros setores prioritários foram os de biotecnologia, fabricação de equipamentos de ponta, eficiência energética e tecnologias ambientais.

De acordo com a China Global Television Network (CGTN), desde a implementação do primeiro plano quinquenal, o caminho para a industrialização vinha focando na velocidade e no volume do crescimento econômico, ignorando os problemas de exaustão de recursos, poluição ambiental e danos ecológicos.

Em 2010, ao término do 11o plano quinquenal, a China já superara o Japão como segunda economia mundial, ao alcançar um PIB de cerca de 5,8 trilhões de dólares, comparado aos 5,47 trilhões obtidos pelo Japão. No entanto, a China ainda precisava reduzir a dependência da tecnologia internacional, melhorar sua capacidade industrial e investir na inovação, para aumentar a competitividade de seus produtos a nível global.

Após alcançar altas taxas de crescimento econômico durante anos, a economia chinesa vem decrescendo há mais de 10 anos, ingressando em uma fase de médio crescimento. De fato, após atingir o pico dos últimos 20 anos em 2007 (14,23%), o PIB caiu continuamente, chegando a 6,57 em 2018. Valores do PIB anual chinês para período 1960-2018, do PIB per capita e da taxa de variação anual do PIB para o mesmo período, podem ser acompanhados em gráficos interativos, com base em dados do Banco Mundial. Em 2019 ocorreu nova queda na taxa de aumento do PIB, ficando em 6,1%.

A queda contínua do PIB chinês foi devida principalmente ao aumento dos custos trabalhistas, à questão ambiental e ao aumento do protecionismo no comércio internacional. Os investimentos estrangeiros começaram a migrar da China para o sudeste asiático e outros locais com menores custos trabalhistas.

Também o crescimento industrial anual da China vem diminuindo continuamente, passando de cerca de 12% em 2010, para 5,7% em 2019, ao passo que o aumento da produção agrícola apresentou uma relativa estabilidade, apesar da leve queda neste aumento anual observada a partir de 2012. As variações destes dois índices para o período 1986-2019 podem ser acompanhadas no gráfico do National Bureau of Statistics da China, apresentado a seguir. No gráfico estão também indicadas as correspondências destas variações com os planos quinquenais, do sétimo ao décimo terceiro.

industrial growth 2

A situação da indústria de transformação chinesa ficou mais difícil, passando a exigir uma ampla modernização do sistema produtivo, com aumento do nível de desenvolvimento e da eficiência na produção, de forma a prosseguir com o crescimento econômico sustentável do país e garantir competitividade internacional.

Em 2013, o presidente Xi Jinping anunciou planos para facilitar a conexão entre as economias de diversos países da Ásia, através de uma ampla malha terrestre e de rotas marítimas. Ampliado para incluir países da África e Europa, o plano foi relançado com toda a pompa em 2017 com o nome de “Iniciativa Cinturão e Rota” (BRI, na sigla em inglês), ficando conhecido também como “Nova Rota da Seda”. O BRI representa uma estratégia econômica de longo prazo para a China, dando mais sustentação para o seu desenvolvimento.

As maiores potências industriais também começaram a investir pesadamente na revitalização de suas indústrias, a partir do início da década. No Reino Unido, foi proposta em 2012 uma estratégia denominada de “High Value Manufacturing” (Fabricação de Alto Valor), que deveria ser apoiada em intensa pesquisa e desenvolvimento e alto crescimento sustentável. O programa “Nova França Industrial”, lançado em 2013, optou pela otimização do leiaute das indústrias de transformação. A Alemanha lançou em 2013 a iniciativa “Indústria 4.0”, para promover a introdução digital dos processos fabris no país.

Para aumentar a competitividade de suas empresas, o Japão focou na “Nova Estratégia em Robótica”, lançada 2018. Dentre vários outros programas, os Estados Unidos promoveram o “Plano Estratégico Nacional para Fabricação Avançada”, lançado em outubro de 2018. Já a Coréia do Sul resolveu investir a partir de 2018, na integração entre indústria de transformação e tecnologia de informação, através do projeto “Estratégia de Inovações Avançadas”, que deverá levar em conta não apenas inovações tecnológicas, mas também o impacto social positivo na vida das pessoas.

Em 2015, o último ano do 12o plano quinquenal, a China estabeleceu um novo plano estratégico, o Made in China 2025, se propondo a reduzir a dependência na importação de tecnologia estrangeira, e a investir pesadamente em suas próprias inovações. O plano teve influência do Indústria 4.0, da Alemanha.

Made in China 2025   

O plano foi lançado com duração prevista de 10 anos, e propõe uma estratégia de três estágios para transformar a China em uma superpotência industrial até 2049, no centenário de fundação da República Popular da China. O artigo de Huimin Ma, detalha estes estágios, as estratégias adotadas para alcançá-los, bem como as vantagens a favor da China e os enormes desafios a serem superados.

O primeiro estágio tem o objetivo de transformar a China, até 2025, de gigante industrial em uma potência industrial. O segundo estágio visa fazer com que a China alcance, até 2035, um nível equivalente ao de potências industriais mundiais médias. O terceiro estágio visa consolidar a posição da China como potência industrial, e trazê-la para uma posição de destaque no topo da lista das nações industrializadas.

O plano identifica nove tarefas prioritárias necessárias para alcançar os objetivos pretendidos: 1. Melhorar a inovação na produção; 2. Integrar informação tecnológica e indústria; 3. Fortalecimento da base industrial; 4. Promover marcas chinesas; 5. Impor a fabricação “verde”; 6. Promover um avanço decisivo em dez setores-chave; 7. Avançar na reestruturação do setor de manufatureiro; 8. Promover qualificação de pessoal para a indústria de manufaturas e serviços correlatos, além de incentivar a terceirização na produção (service oriented manufacturing, PSS); 9. Internacionalização das manufaturas chinesas.

São os seguintes, os dez setores-chave mencionados acima no item 6: novas tecnologias de informação, ferramentas de controle numérico e robótica, equipamentos para a indústria aeroespacial, equipamentos de engenharia oceânica e embarcações navais de alta tecnologia, equipamentos de transporte ferroviário, carros com economia de combustível e movidos a novas energias, equipamentos elétricos, equipamentos para agricultura, equipamentos para medicina e biomedicina, desenvolvimento de novos materiais.

Mas apesar de ocupar a posição de segunda economia mundial, a China tem ainda um longo caminho a percorrer no setor da indústria de transformação, para avançar no cumprimento das metas estabelecidas pelo Made in China 2025, como também as da Nova Rota da Seda. Neste caminho, o país conta com vantagens a seu favor, bem como com desafios a superar, segundo Huimin Ma.

Vantagens:

  • A China já possui um sistema industrial completo, o que possibilita que o país compita  em quase todos os campos que fornecem a base para implementar a modernização da indústria.   
  • A China se constitui no maior mercado consumidor do planeta. As vendas no varejo  constituem 20% do total global, sendo que o país está no topo das vendas pela internet. A demanda interna fornece condições de sustentação para modernização  da indústria de transformação.     
  • A China é a economia que possui o maior contingente laboral na indústria.
  • O país vem fazendo investimentos crescentes em Pesquisa e Desenvolvimento.  
  • As políticas de desenvolvimento para as diferentes regiões do país são integradas, de forma a garantir que elas se complementem (estas diferentes políticas estão  detalhadas no artigo citado).                                                                                                                                          

Os autores não incluíram na análise, os benefícios potenciais que a Iniciativa Cinturão e Rota pode trazer para o desenvolvimento das indústrias chinesas e da economia do país como um todo.

Desafios:

  • Apesar do impressionante crescimento da indústria de manufaturas da China, ele ainda é inferior ao de superpotências industriais como Estados Unidos e Alemanha, seja em termos absolutos ou per capita. O conteúdo tecnológico e o valor agregado aos produtos ainda é baixo.
  • Baixa inovação tecnológica e número não tão expressivo de patentes no setor industrial chinês. Isto decorre de muitas empresas não estarem ainda conscientes da importância da inovação tecnológica, ou mesmo pela incapacidade de assimilarem inovações internacionais. O país é produtor e exportador de componentes eletrônicos de baixo custo, principalmente para consumo nas residências.
  • A competitividade de empresas chinesas em setores de ponta é extremamente baixa. São exceções empresas como a Huawei, que conseguiu acumular conhecimento e inovações, como a internet 5G.
  • Consumo excessivo de energia e poluição: o país é o maior consumidor de energia no mundo, sendo que a eletricidade gerada provém em grande parte do carvão. Em 2011, a emissão de CO2 foi 2,42 vezes maior que a média mundial, e maior ainda quando comparada à de potências industriais como os Estados Unidos, Japão e Alemanha. O rápido crescimento econômico agrava ainda mais estes problemas.

Independentemente das dificuldades ainda por superar na competição com potências industriais na produção de manufaturas de alto conteúdo tecnológico, a China vem avançando em alguns setores de ponta com objetivos estratégicos. Um exemplo é o programa espacial, que tem o potencial de beneficiar a pesquisa básica e aplicada, bem como contribuir para aplicações na indústria.

Documento do Conselho de Estado da China de 2016 explicita os propósitos do programa espacial, bem como enumera os desenvolvimentos alcançados a partir de 2011 e as principais tarefas previstas até 2021. Em janeiro de 2019, um veículo espacial chinês não tripulado fez um pouso suave no lado escuro da lua, visando explorar o solo com a perspectiva de aproveitamento de minérios. Analistas nos Estados Unidos consideram que o desenvolvimento chinês na área espacial traz um risco estratégico para a região do indo-pacífico.

Observações finais. Desafios ao crescimento econômico da China surgem em função do protecionismo por parte dos Estados Unidos, que vem gerando um clima de guerra comercial já há vários anos, e que pode afetar as metas do Made in China 2025 e da Iniciativa Cinturão e Rota. Acusações são feitas por países do Ocidente de que a China recorre a procedimentos como espionagem industrial, o que vem acirrando a animosidade

Ainda é uma incógnita o efeito que a pandemia da Covid-19 terá nos resultados das políticas de modernização industrial implementadas na atual década pelos países mais industrializados, e na competitividade entre eles. A China vem desenvolvendo desde 1978 uma “economia socialista de mercado”, altamente planejada, a que o professor Elias Jabbour, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, denomina de Nova Economia do Projetamento. Este poderá ser um fator decisivo a favor da continuidade da ascensão da China à liderança econômica mundial nos próximos anos. 

*O autor é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando

Hong Kong: Washington financia os protestos contra a China

A nova lei de segurança nacional de Hong Kong foi aprovada na sequência a protestos separatistas financiados pelos Estados Unidos e à escalada da violência alimentada por grupos de neonazistas ucranianos.

butijão de gás
Artefato explosivo caseiro encontrado junto à entrada da Universidade Politécnica de Hong Kong, novembro 2019 \ Foto: Aidan Marzo/CNN

As manifestações de rua que ocorreram em Hong Kong na última semana de maio se inserem no que a mídia denominou de protestos “pró-democracia”, e que vêm ocorrendo esporadicamente há praticamente duas décadas na ex-colônia britânica. No entanto, lideranças do movimento vêm atuando em defesa de interesses econômicos e geopolíticos dos Estados Unidos, que financiam uma rede anti-China. Neonazistas ucranianos se juntaram aos manifestantes, o que pode fazer antever a escalada da violência. Com o acirramento da crise, a autonomia dos honcongueses poderá ficar comprometida, antes mesmo do término do prazo de 50 anos que fora garantido pelo acordo entre China e Reino Unido. 

Colônia por 145 anos. Hong Kong se tornou uma colônia britânica em 1842, quando a China foi obrigada, pelo Tratado Nanjing, a ceder o território que fora ocupado durante a Primeira Guerra do Ópio. A guerra foi o resultado da tentativa do imperador chinês de impedir o comércio ilegal do ópio da Inglaterra para a China, que estava causando imenso vício na população do país. Nos anos seguintes, a Inglaterra promoveu ainda a anexação dos Novos Territórios e da península de Kowloon, de forma a garantir o abastecimento agrícola da colônia.

Mapa da Convenção de Hong Kong
Mapa da Convenção para a Extensão do Território de Hong Kong, 1898

O tratado final entre os dois países, a Convenção para a Extensão do Território de Hong Kong, foi assinado em 1898, concedendo o arrendamento dos Novos Territórios por 99 anos, expirando, portanto, em julho de 1997. A China sofrera imensa humilhação, mas soube esperar. Neste intervalo de tempo a China continental passou pela revolução comunista de 1949, enquanto que Hong Kong, já acrescida dos territórios incorporados em 1898 (ver mapa abaixo), tornou-se um moderno centro capitalista.

hongkong
Região anexada pelo Reino Unido, com a Ilha de Hong Kong mais ao sul do mapa

Mas se por um lado o sistema econômico implantado foi o liberalismo, na política o ordenamento não foi o de uma democracia liberal. O território era comandado por um governador indicado pelo Reino Unido.  Manifestações de trabalhadores nos anos 60, por melhores condições de trabalho em uma fábrica, evoluíram para amplos protestos contra o imperialismo britânico. Londres respondeu com a imposição de lei marcial e ferrenha repressão.  Segundo a China Global Television Network, o saldo após 18 meses de distúrbios foi de 5000 detenções e 36 honcongueses mortos. 

Retorno à soberania chinesa. Com a proximidade do término do arrendamento da região dos Novos Territórios (pelo qual a China nada recebeu), seria inviável economicamente para a Inglaterra manter apenas a Ilha de Hong Kong, ocupada antes do arrendamento. Pelo acordo entre Margareth Thatcher e Deng Xiaoping, que devolveu todos territórios ocupados à China, esta aceitou conceder um grau de semi-autonomia a Hong Kong. 

A Declaração Conjunta seria a garantia da política “um país, dois sistemas”, que deveria ser respeitada pela China pelo prazo de 50 anos. Em contrapartida, o artigo 23 da Lei Básica, a Constituição de facto de Hong Kong, estabeleceu que a Administração Regional deveria decretar leis que proibissem quaisquer atos de traição, secessão, sedição e subversão contra o governo central chinês, além de coibir organizações políticas locais de estabelecer vínculos com entidades políticas estrangeiras. A legislação pertinente não foi, no entanto, implementada na ocasião pela ex-colônia. 

O início dos protestos. Segundo relato no The Guardian, visando regulamentar o artigo 23, o governo local propôs em 2003 uma lei de segurança nacional, o que trouxe temores na oposição de que as liberdades civis ficariam em risco. Amplos protestos nas ruas fizeram com que o projeto fosse engavetado. The Guardian relatou ainda as principais crises ocorridas desde então.

Em 2012, o escritório de educação de Hong Kong propôs um currículo de educação moral e cívica que criticava o sistema de multipartidarismo. A oposição denunciou a mudança como uma tentativa de lavagem cerebral. Após protestos dos estudantes, o projeto não foi adiante. Do movimento estudantil surgiram lideranças atuais, como o ativista Joshua Wong.

Em 2014, ocorreram protestos em defesa do sufrágio universal, que levaram à ocupação do centro de Hong Kong por 74 dias. As manifestações foram chamadas de Umbrella movement, quando guarda-chuvas foram usados na proteção contra gás lacrimogêneo.

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Guarda-chuvas como proteção para gás lacrimogêneo, 2019 \  Foto: Anthony Kwan/Getty Images

Nova crise irrompeu em julho 2019, quando o governo local tentou aprovar emendas à Lei de Extradição, que possibilitariam o envio de criminosos para as autoridades no continente. Opositores da mudança na lei argumentaram que, com a aprovação, ficaria aberta a porta para a extradição de críticos do governo central chinês. As manifestações não foram todas pacíficas, ocorrendo vandalismo e violentos choques com a polícia, e entre diferentes grupos. O andamento do projeto foi suspenso.

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Gás lacrimogêneo contra manifestantes da Universidade Politécnica, novembro 2019  \  Foto: Dahlan Iskanq / AFP

A crise atual. Chegamos então a maio de 2020. No dia 28, o Congresso da China aprovou a nova Lei de Segurança Nacional para Hong Kong, com foco no artigo 23. Desde o dia 24, protestos em massa contra a lei de segurança já vinham ocorrendo nas ruas, reprimidos pelas forças policiais com uso de gás lacrimogêneo, esprei de pimenta e canhões de água, segundo amplamente relatado na mídia.

Na sequência da aprovação da lei de segurança, o secretário de estado norte-americano, Mike Pompeo, declarou que os Estados Unidos não mais considerariam Hong Kong como uma região autônoma, o que tornaria a região sujeita às mesmas tarifas comerciais que o restante da China. 

Está prevista para breve a votação de uma lei que penaliza insultos ao hino nacional chinês, com penalidades previstas de multas e prisão por até 3 anos, o que deve gerar mais atrito com setores da população críticos de Pequim. Vaias ao hino Marcha dos Voluntários, bem como mudanças desrespeitosas na letra ou na música têm ocorrido principalmente durante jogos de futebol.

Os fatos que a mídia omite. Com base em uma série de reportagens publicadas no The Grayzone, uma outra narrativa pode ser construída, que ajuda a entender melhor o papel desempenhado pelos Estados Unidos no acirramento da crise. 

Em 27 de novembro de 2019, o senado norte-americano já aprovara por unanimidade a Lei de Direitos Humanos e Democracia de Hong Kong, com a liderança do senador Mark Rubio. O documento reforça a importância que os honcongueses tenham autonomia para escolher, através do voto universal, o Chefe do Executivo  e a totalidade do Conselho Legislativo. O direito à livre expressão e outros direitos fundamentais são também defendidos no documento.

Entretanto, o jornalista Ajit Singh chama a atenção que um dos focos principais da nova legislação é de salvaguardar os negócios dos Estados Unidos no território. Hong Kong teria que agir em conformidade com a política externa norte-americana, incluindo adesão às sanções impostas a países listados como “ameaças à segurança nacional, política externa e economia dos Estados Unidos”. Ficou também explicitada a necessária adesão de Hong Kong à política comercial e aos controles de exportação estabelecidos por Washington, inclusive para com a própria China. A proposta de lei vinha sendo discutida em Washington desde 2016, com a constante presença de Joshua Wong, o jovem ativista que despontou nos protestos estudantis de 2012.

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Joshua Wong no congresso norte-americano, setembro 2019 \ Fonte: Ajit Singh/The Grayzone

Diversos líderes da oposição de Hong Kong foram recrutados para o conselho diretor de uma nova entidade anti-China, o Conselho pela Democracia em Hong Kong (HKDC, na sigla em inglês). Sediada em Washington, HKDC foi criada e financiada pela National Endowment for Democracy (NED), um dos braços intervencionistas de Washington. Dentre outros financiamentos aos movimentos anti-China, a NED forneceu mais de 2 milhões de dólares à organização Monitor de Direitos Humanos de Hong Kong, para financiar o movimento contra a lei de extradição, relata Singh.

Um dos principais influenciadores do atual protesto é Jimmy Lai, o magnata local da mídia, que vem financiando as manifestações com milhões de dólares, e incentivando um sentimento xenofóbico contra a China em seus veículos de comunicação, segundo Dan Cohen relata em seu artigo. Em julho de 2019, quando se iniciavam os protestos contra a proposta da Lei de Extradição, Lai viajou para Washington e se reuniu com o vice-presidente Mike Pence, o secretário de estado Mike Pompeo, e o então conselheiro de segurança nacional, John Bolton, além de alguns senadores republicanos.   

A oposição ao governo apoiado por Pequim se afastou da missão principal de garantir um certo grau de  autonomia para os honcongueses,  ao aderir à agenda geopolítica e aos interesses econômicos de Washington, atraindo desta forma a ira de Pequim. Fica um pouco mais fácil de se entender a motivação do governo chinês de impor a Hong Kong a recém aprovada Lei de Segurança, que penaliza atos que sejam considerados como de subversão e a favor do separatismo.

Os ucranianos nos protestos. Em 2019, grupos de extrema direita viajaram de diversas regiões do mundo, para se juntar aos protestos separatistas em Hong Kong, conforme relata Ben Norton, em artigo para o The Grayzone. Dentre estes, incluem-se extremistas ucranianos que se autodenominam “Gonor”. Este grupo participou da milícia neonazista chamada Batalhão Azov, que se notabilizou por atos brutais na luta contra os militantes ucranianos pró-Rússia. Uma revolta foi iniciada na Praça Maidan, Kiev, em 2013-14, que deu origem ao movimento Euromaidan, pró-Ocidente, que levou ao afastamento do presidente eleito Yanukovich.

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Neonazistas ucranianos em Hong Kong, dezembro 2019  \  Fonte: Ben Norton / The Grayzone

O Batalhão Azov é um grupo paramilitar que englobou diversos grupos da ultra direita como o Right Sector (Setor de Direita), responsável por incendiar o prédio de um sindicato laboral durante o golpe de 2014, o que resultou na morte de 42 pessoas.  O Azov foi incorporado à guarda nacional ucraniana, e vem recebendo armamentos e treinamento de Washington desde 2016, para manter a pressão contra Moscou. Segundo artigo de Max Blumenthal, seus membros também participaram do treinamento militar e na doutrinação de supremacistas brancos norte-americanos que estiveram envolvidos em violentas confrontações na Califórnia e na Virgínia.

Ainda segundo o artigo de Dan Cohen no The Intercept, um dos ucranianos que tiveram sua presença identificada em Hong Kong foi Serhii Sternenko, ex-líder do Right Sector. Os fascistas ucranianos estiveram presentes no campus da PolyU, a Universidade Politécnica de Hong Kong, local de violentos protestos. Suspeita-se que os extremistas ucranianos possam ter compartilhado táticas de insurgência com os ativistas de Hong Kong.

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Material de fabricação caseira para uso bélico, campus da PolyU, dezembro 2019 \  Foto: Sam Tsang

De acordo com o relato no South China Morning Post foram encontrados na PolyU cerca de 4.000 bombas incendiárias,  1.340 apetrechos explosivos, e 600 embalagens de líquido corrosivo. A CNN mostrou um artefato explosivo de fabricação caseira encontrado na universidade, com o poder devastador de uma bomba de fragmentação, apresentado na foto que abre este artigo. 

Finalizando, a ação de Washington de apoiar atos contra a China se insere no que atualmente recebe o rótulo de “guerra híbrida”, como parte da nova Guerra Fria. É mais uma tentativa de deter a ascensão econômica da China, em um mundo multipolar que desponta. Mas, ironicamente, manifestações muito mais amplas que  as ocorridas em Hong Kong se espalharam pelos Estados Unidos nos últimos dias, escancarando as contradições que permeiam a estrutura social da “grande nação das oportunidades iguais para todos”.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.