Pfizer: Verdades e mentiras da vacinação infantil contra a Covid-19  

Por Ruben Rosenthal

A principal verdade é que pais e mães precisam estar bem informados para melhor poderem decidir se querem ou não que seus filhos sejam vacinados contra a Covid-19.

Anistia Internacional lucro das farmacêuticas com a vacina da Covid-19 C
Denúncia dos lucros com as vacinas contra a Covid-19. Anistia Internacional.

 A politização da vacinação infantil contra a Covid-19 teve mais um capítulo, desta vez envolvendo membros do Ministério Público. O caso teve início quando 5 defensores públicos de Goiás encaminharam recomendação ao Ministério da Saúde para divulgar que a vacina da Pfizer ainda se encontra na fase experimental, e que pode causar miocardite e periocardite nas crianças.

De fato, a própria Pfizer, através da Wyeth, relata na bula direcionada a pacientes a ocorrência de “casos muito raros de miocardite e periocardite após a vacinação com a Comirnaty”. O documento menciona ainda que o paciente deve ficar alerta após a vacinação para “falta de ar, palpitações e dores no peito”, e que, em caso de manifestação destes sintomas, é necessário atendimento médico. São também apresentadas outras precauções a serem consideradas em relação à vacinação.

O posicionamento dos cinco defensores públicos foi rebatido em nota da Defensoria Nacional e 13 Defensorias Regionais de Direitos Humanos da Defensoria Pública da União. Diz a nota que a vacina da Pfizer já tem registro definitivo e que todas as recomendações necessárias já foram indicadas pela ANVISA.

A nota da DN e DRDH/DPU vai mais além, ao declarar que pelo Estatuto da Criança e do Adolescente “é obrigatória a vacinação de crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias”, e que, portanto, a imunização de crianças na faixa de 5 a 11 anos contra a Covid-19 deve ser compulsória.

O confronto de posições dentro do Ministério Público reflete a polarização mais ampla na sociedade entre negacionistas da vacina e mesmo da própria existência de uma pandemia mortal, e amplos setores que, em nome da ciência, defendem vacinação irrestrita da população. Mas a ciência não oferece uma única resposta sobre a vacinação infantil.

Consta no site do Colégio Real de Pediatria e Saúde da Criança (RCPCH, na sigla em inglês) do Reino Unido: “o Comitê Conjunto em Vacinação e Imunização recomenda que recebam a vacina da Pfizer apenas as crianças na faixa de 5 a 11 anos que tenham elevado risco clínico, ou que tenham contato em suas casas com familiares que sejam imunossuprimidos”.  A vacinação de crianças dessa faixa etária, que não estejam nos grupos acima mencionados, está ainda pendente de decisão futura.

No mesmo documento estão especificadas quais são as situações de alto risco clínico em crianças de 5 a 15 anos, que as tornam alvos prioritários da campanha de vacinação infantil contra a Covid-19 no Reino Unido: doenças respiratórias crônicas, problema renal crônico, problema no fígado ou no sistema digestivo, doença neurológica crônica, desordens endócrinas, imunossupressão por doença ou tratamento, asplenia ou disfunção do baço, anormalidades genéticas sérias que afetem outros sistemas, e gravidez.

A decisão do Comitê do Reino Unido está em linha com a visão do Centro Europeu para Prevenção e Controle de Doenças (ECDC, na sigla em inglês), que, em manifestação de 1 de dezembro de 2021, relatou que foram raros os casos severos de Covid-19 em crianças na faixa de 5 a 11 anos durante o período de prevalência da variante Delta: 0,61% dos casos  demandaram internação, sendo 0,06% em unidades de tratamento intensivo/apoio respiratório.

Segundo o ECDC, a maior parte (78%) das crianças que necessitaram de internações não se enquadravam, no entanto, em situação prévia de elevado risco clínico. No Brasil morreram de Covid, até momento, 324 crianças na faixa de idade de 5 a 11 anos, mas não está acessível a informação de quantas delas estavam em situação de comorbidade.

É possível que outros países estejam adotando procedimentos semelhantes aos do Reino Unido. Na Austrália, onde a vacinação de crianças na faixa de 5 a 11 é voluntária, os responsáveis pela criança devem assinar um termo de consentimento.

Neste termo consta um formulário com 7 perguntas a serem respondidas. Caso pelo menos uma das respostas for SIM, a criança ainda assim poderá receber a vacina, mas antes deverá ser atendida por um especialista em imunização ou cardiologista. Este determinará as precauções necessárias e o momento adequado para a vacinação.

formulário de consentimento AUS
Formulário de consentimento para vacinação contra a Covid-19 de crianças de 5-11 anos, autoridade sanitária da Austrália.

O fato do setor de vacinação e imunização do Reino Unido ter optado por vacinar contra a Covid-19 apenas as crianças de 5 a 11 anos que se enquadrarem nas condições especificadas acima, não significa que a ANVISA esteja equivocada em sua decisão de aprovar a vacinação irrestrita. A instituição brasileira possui um quadro técnico extremamente qualificado e não precisa ficar a reboque da decisão de outros países.

Mas o que não deveria acontecer é a desinformação ou omissão de informações com o intuito de se “fabricar o consenso”. Os documentos emitidos pela ANVISA e pela Pfizer não alcançam a maioria da população, já que a mídia não está cumprindo o seu papel. A principal verdade é que pais e mães precisam estar bem informados para melhor poderem decidir se querem ou não que seus filhos sejam vacinados contra a Covid-19.

A mídia também falha ao não mostrar como a ganância das grandes farmacêuticas (Big Pharma) atropela a Ciência.

Pfizer, quando o passado condena

Em 2016, a organização Médicos Sem Fronteiras denunciou que a Pfizer fez uma campanha publicitária enganosa em Londres, para tentar influenciar os parlamentares britânicos de que os investimentos necessários em pesquisa e desenvolvimento para se produzir um novo medicamento alcançavam a cifra de 1 bilhão de libras esterlinas (atualmente equivalente a 7,6 bilhões de reais). Segundo o MSF o objetivo real da campanha era o de justificar os elevados preços dos medicamentos.

Más práticas nos testes da vacina da Pfizer

Os testes para verificar a eficácia e a segurança da vacina contra a Covid-19 produzida pela Pfizer foram conduzidos por uma contratada que cometeu  várias irregularidades no decorrer da pesquisa, segundo artigo publicado no British Medical Journal, em 2 de novembro de 2021.

A empresa Ventavia Research Group, que fora contratada pela Pfizer para conduzir os testes da vacina contra a Covid-19, teria cometido diversas irregularidades nos procedimentos adotados, que podem ter comprometido a integridade dos dados obtidos. Dentre estas se incluem desvios do protocolo, armazenamento das vacinas em temperaturas impróprias e erros na rotulagem das amostras.

Segundo a ex-diretora regional da Ventavia, Brook Jackson, a empresa falsificou dados, expôs a identidade de pacientes em testes que requerem anonimato, e contratou  pessoal sem qualificação para aplicar as vacinas. A então diretora enviou um e.mail à FDA em 25 de setembro de 2020, para avisar das práticas indevidas cometidas pela Ventavia. Brook Jackson foi demitida no mesmo dia em que fez a denúncia.

Em 10 de dezembro de 2020, a Pfizer encaminhou a solicitação de uso emergencial de sua vacina (para adultos) ao comitê da FDA, sem mencionar as falhas da Ventavia.  A farmacêutica voltou a contratar a Ventavia para testar as vacinas da Covid-19 para crianças, jovens adultos e mulheres grávidas.

Facebook blinda Pfizer de críticas

Em novembro de 2021 os editores do British Medical Journal enviaram uma carta aberta a Mark Zuckerberg, do Facebook, protestando que o artigo contendo o artigo contendo a denúncia sobre a Ventavia estava sendo tratado como Fake News pela agência terceirizada Lead Stories, que presta serviços ao Facebook. Desta forma o compartilhamento do artigo foi dificultado, o que na prática protegeu a Pfizer de críticas.

Sars-CoV-2, um vírus que veio para ficar

Enquanto a variante ômicron se espalha pelo mundo, foi detectada no sul da França uma nova variante do coronavírus, que foi denominada de IHU. A provável origem teria sido no Camarões, na África Central. No continente africano apenas 6,6% da população havia sido vacinada até o final de novembro de 2021.

Segundo declarou a BBC News,  Ayoade Olatunbosun-Alakija, porta-voz da Aliança Africana para a Distribuição de Vacinas, o “surgimento da variante (ômicron) foi inevitável. Isso ocorreu devido à falta de vacinação e ao acúmulo de vacinas pelos países desenvolvidos”.

Assim, parece que estamos fadados a conviver com por um longo tempo com novas cepas da Covid-19. Mesmo sendo mais fracas em comparação com a Delta, elas poderão continuar a causar mortes, problemas de saúde e afastamento do trabalho, afetando assim a economia de diversos países.

Enquanto isso, BIG Pharma continuará a auferir lucros com as vacinas e medicamentos contra a Covid-19. A empresa Pfizer lucrou 36 bilhões de dólares em 2021, apenas com sua vacina para a Covid-19. E poderá vir a superar este valor em 2022.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

BBC e Reuters na guerra híbrida contra a Rússia

Por Ruben Rosenthal

Cada vez mais, BBC e Reuters vêm desempenhando um papel agressivo na demonização de governos que não seguem a cartilha imposta por Washington e Londres

Reino Unido financiou BBC e Reuters em campanha de desinformação contra a Rússia
 Monumento em homenagem a dois príncipes que expulsaram invasores. Ao fundo, a Catedral de São Basílio, Moscou

Documentos vazados por hackers, publicados em artigo de Max Bluementhal no The Grayzone em fevereiro, mostram que BBC e Reuters participaram de programas secretos do Ministério das Relações Exteriores (FCO) do Reino Unido. Através de campanhas de desinformação, os programas pretenderam enfraquecer a influência regional da Rússia, bem como minar a autoridade e desestabilizar o governo Putin. O governo britânico faz assim pleno uso de táticas da guerra híbrida, que o Ocidente tanto acusa a Rússia de praticar.

A atuação do governo britânico se deu através do Departamento de Contra Desinformação e de Desenvolvimento de Mídia (CDMD, na sigla em inglês), cujas atividades são consideradas de segurança nacional. O CDMD/FCO fez uma convocação aos veículos de comunicação interessados em atuar para “conter a narrativa do governo russo”, e “enfraquecer a influência da Rússia junto aos países vizinhos”.  

BBC e Reuters submeteram propostas ao CDMD de estabelecer redes de influência na Rússia e países vizinhos que promovessem narrativas favoráveis a OTAN. Porta-voz da Reuters confirmou a autenticidade dos documentos, argumentando, no entanto, que as atividades não seriam secretas, e que faziam parte de um “trabalho de décadas em prol da imprensa livre a nível global”.

A Reuters já fora secretamente financiada pelo governo britânico para colaborar em propaganda anti-soviética nas décadas de 60 e 70, em atuação com o serviço de inteligência M16. A informação consta de documentos oficiais que tiveram o acesso liberado em janeiro de 2020. A BBC atuou como intermediária nos pagamentos à Reuters.

Ambos os veículos de mídia declararam que o que acontecera anteriormente não mais se repetiria, pois seus princípios são fundamentados na independência e na verdade. Os novos vazamentos mostraram exatamente o contrário. Cada vez mais, BBC e Reuters vêm desempenhando um papel agressivo na demonização de governos que não seguem a cartilha imposta por Washington e Londres.

Um exemplo da cooptação da mídia, incluindo a Al Jazeera, foi revelado em outro vazamento pelo grupo de hackers Anonymous, relatado pelo Grayzone em setembro de 2020. O vazamento expôs a ação de propaganda do FCO do Reino Unido visando angariar apoio para remover Assad do poder na Síria. O mesmo grupo hacker estaria envolvido nos novos vazamentos.

A Reuters se infiltra na mídia russa

A Reuters é o setor de notícias e mídia da Thomson Reuters, a maior agência internacional de multimídia. A empresa privada está sediada em Nova Iorque, e resultou da aquisição da britânica Reuters pela canadense Thomson Corporation.

Em 2017, a Fundação Thomson Reuters submeteu uma proposta formal para participar de um contrato confidencial com o FCO, que envolvia a embaixada britânica em Moscou. Tratava-se de um projeto de capacitação da mídia russa, através de um “programa de visitas temáticas de jornalistas e influenciadores digitais russos” ao Reino Unido. A meta pretendida era de promover nos jornalistas “um impacto positivo na percepção do Reino Unido”.

Em 2019, a Reuters ingressou em programa semelhante, com o objetivo de “conter a narrativa do governo russo e sua dominação da mídia e dos meios de informação”.  O plano do governo britânico era de se infiltrar na mídia russa para propagar sua própria narrativa através dos jornalistas russos treinados no Reino Unido.

A Reuters organizou então mais visitas de jornalistas russos, para promover “os valores políticos e culturais do Reino Unido”.  A Reuters proclama ter influenciado cerca de 400 jornalistas russos através de seus programas de visitas, e de contar com 1.500 jornalistas em sua rede global de influência.

Como parte de suas atividades de desinformação, a Reuters manteve ligações com o canal de televisão Belsat, da Bielorússia. O canal tem base na Polônia e recebe fundos de governos da União Européia. Belsat teve um papel preponderante na promoção dos protestos de maio de 2020 pela saída do presidente Alexander Lukashenko. 

A BBC na campanha de desinformação contra a Rússia

A britânica BBC consiste na maior emissora pública internacional, e se apresenta como imparcial e independente. Através do setor BBC Media Action, a emissora estatal se propôs a participar de um programa secreto do CDMD/FCO britânico, de 2019 a 2022, voltado para conter a influência russa na região Báltica por meio de novos veículos de mídia pretensamente independentes, mas que promoveriam posicionamentos pró-OTAN.

A BBC se interessou em participar de outro programa de propaganda na mídia, com foco na Ucrânia, Moldávia e Geórgia. Seria formado um consórcio, que incluiria a Reuters e uma empresa de inteligência não mais existente, a Atkins Strategy.

A BBC Media Action também propôs desenvolver, junto com a Atkins, um trabalho pró-OTAN na guerra de informação em áreas de conflito, como na região de Donbas, leste da Ucrânia, onde ocorriam choques dos separatistas pró-Rússia com as forças militares do governo apoiado pelo Ocidente.

O Consórcio entre empresas de notícias e de inteligência

Dentre as empresas de inteligência que se inscreveram para participar do Consórcio custeado pelo CDMD/FCO britânico estavam a Albany Communication e a Zinc Network.

Segundo relato de Ben Norton no Grayzone, a Albany já atuara junto a setores de mídia para propagar as narrativas do Ocidente, enquanto OTAN e as monarquias do Golfo Pérsico procuravam forçar uma mudança de regime de na Síria.

A Zinc teve participação anterior em projetos clandestinos de mídia junto a comunidades mulçumanas, tanto no Reino Unido como na Austrália, como parte de estratégias de contraterrorismo. A Zinc buscou apoio para a Mediazone, um veículo de mídia anti-Putin fundado por duas participantes do grupo performático feminista de punk rock, Pussy Riot (assista a performance Reza Punk no vídeo). 

A Zinc se propôs também a reduzir a visibilidade nas buscas no Google, do site RT (ex-Russian Television), apoiado pelo governo russo. O recente vazamento também revelou que a Zinc propusera atuar no Consórcio, para ajudar influenciadores digitais a “desenvolverem estratégias editoriais no YouTube”. O objetivo era o de estabelecer uma rede de YouTubers na Rússia e na Ásia Central, que promovesse de forma camuflada a visão do Reino Unido e dos países da OTAN, enquanto pretendendo atuar na “promoção de valores democráticos e de integridade da mídia”.

Um nome que aparece relacionado aos documentos vazados é o de Vladimir Ashurkov, diretor executivo da Fundação Anti-Corrupção, FBK, capitaneada por Alexei Navalny. Navalny é opositor de Putin e o queridinho da mídia Ocidental, apesar de sua pouca representatividade política na Rússia; ele é também conhecido por seu discurso de ódio e por suas posições racistas e xenófobas (ver artigo no Chacoalhando).

Alexei Navalny é detido durante protesto em Moscou, 2018
Detenção de Alexei Navalny no protesto de maio de 2018 em Moscou \ Foto: TASS/Barcroft Images

Em 2013, Ashurkov foi filmado em encontro com um agente do M16  da inteligência britânica, em que o russo solicita de 10 a 20 milhões de dólares por ano, para modificar o cenário político.  Pouco tempo depois, Ashurkov buscou asilo no Reino Unido.

Em 2018, o nome de Ashurkov apareceu em documentos vazados divulgados pelo Grayzone, em conexão com a rede de influência Integrity Iniciative, ligada ao FCO britânico. O grupo de propaganda clandestina, composto por militares da inteligência, atuava através de influenciadores britânicos na mídia e na política. O objetivo era de estigmatizar ao máximo a Rússia por suas “intenções malignas”, e aumentar as tensões entre o Ocidente e a Rússia.

Outro parceiro da rede da Zinc no Consórcio exposto pelo vazamento de 2021 é o site Bellingcat. O site já havia interagido com Navalny para culpar a inteligência russa pelo envenenamento do opositor de Putin com o gás neurológico Novichok, conforme relatado pelo Grayzone.

Bellingcat esteve envolvido nas eleições na Macedônia do Norte, promovendo o candidato pró-OTAN, que saiu vencedor. A tática empregada incluiu acusar a Rússia de interferência nas eleições na Macedônia. Também participou da campanha de desinformação na Macedônia, o DFRlab, vinculado ao Atlantic Council, entidade que atua de forma obscura na promoção dos interesses norte-americanos. 

O artigo do Grayzone menciona que Bellingcat recebe fundos da NED, National Endowment for Democracy, entidade privada norte-americana, bancada em grande parte pelos partidos Republicano e Democrata. A NED atua na promoção de mudanças de regime político em diversos países, como fez no Brasil no governo Dilma, através da Atlas Network.

Com a veracidade dos documentos vazados plenamente comprovada, ficaram comprometidas as pretensas imparcialidade e independência da BBC e da Reuters. As duas corporações são frequentemente fontes de matérias publicadas em veículos de imprensa em diversos países. Como confiar agora na autenticidade destas matérias? 

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.