Liberdade de Assange une esquerda radical e extrema-direita

Por Ruben Rosenthal

Resta ver se será duradoura a conversão da extrema-direita em defensora da liberdade de expressão e contra a vigilância massiva do Estado sobre os cidadãos. 

Manifestação pró-Assange em frente a Westminster Magistrates Court
Manifestação contra extradição de Assange em frente à Corte de Westminster, Londres. Junho 2020. Foto: Frank Augstein/AP

Cresce a pressão sobre a juíza britânica Vanessa Baraitser e sobre o presidente Donald Trump pela liberdade de Assange, em uma insólita convergência de polos opostos do espectro político. Mas as motivações podem ser bem diferentes. Alguns setores da extrema-direita estariam incentivando os relatos de que o encarceramento de Assange interessa ao Deep State*, que também se opõe a Trump. A intenção seria reforçar a narrativa de que houve fraude eleitoral nas eleições presidenciais para favorecer Joe Biden. Por outro lado, se Assange for levado a julgamento nos Estados Unidos ficará estabelecido um precedente que representa uma ameaça mortal ao jornalismo investigativo, algo que mobiliza a esquerda radical.

O editor do Wikileaks se encontra encarcerado na prisão de segurança máxima de Belmarsh na Inglaterra, onde aguarda pelo veredito da juíza Baraitser em 4 de janeiro, que poderá resultar em sua extradição para os Estados Unidos. A acusação é de violação da Lei de Espionagem norte-americana, por encorajar Chelsea Manning a vazar documentos sigilosos. 

O julgamento de extradição. As audiências iniciais do julgamento foram realizadas em fevereiro de 2020, retomadas em setembro e concluídas no início de outubro. Nas palavras de Edward Snowden: “O julgamento show de Assange mais parece algo de Kafka. A juíza permite que as acusações sejam trocadas com tal frequência, que a própria defesa não sabe quais elas são. As demandas básicas são negadas e ninguém pode escutar o que o réu diz – uma farsa”. 

As condições em que Assange vem sendo mantido em Belmarsh já foram denunciadas como de tortura psicológica. Se for condenado nos Estados Unidos por acusações de conspiração e espionagem, Assange estará sujeito a uma sentença máxima de 175 anos de encarceramento. 

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O pesadelo Kafkiano do julgamento de Assange \ Arte gráfica: prisão de Belmarsh. Adaptado de Escher

Se a extradição for negada Assange ganhará a liberdade, pois não existem mais quaisquer outras acusações pendentes no Reino Unido ou na Suécia, onde falsas acusações de estupro haviam sido fabricadas contra ele. Mas o julgamento na Corte de Old Bailey se mostrou uma completa farsa jurídica, conforme os relatos no  blog de Craig Murray, ex-embaixador britânico e ativista de direitos humanos. Existe, portanto, o temor que a juíza Baraitser há muito já tenha se decidido pela extradição, no que parece ser um jogo de cartas marcadas que envergonha a justiça britânica. 

#FreeAssange. Conforme se aproxima o dia em que o veredito será proferido, prossegue a campanha contra a extradição. A organização Repórteres Sem Fronteiras, uma das muitas organizações que vêm coletando assinaturas em favor de Assange, teve seu site submetido a um ataque cibernético em 17 de setembro. Durante o ataque foram adicionados nomes falsos à petição, como forma de trazer descrédito para a organização. 

A campanha foi reforçada com a recente divulgação pelo Veritas Project de um áudio inédito de 75 minutos, em que Assange previne o Departamento de Estado norte-americano sobre vasto material confidencial que fora divulgado por um ex-funcionário do Wikileaks. Um pequeno trecho selecionado do áudio pode ser acessado aqui.

Na ocasião, o advogado do Departamento de Estado Cliff Johnson agradeceu a ligação, mas nada fez a respeito. Durante o julgamento de extradição a Acusação alegou que ao publicar telegramas secretos não-editados, Assange colocara vidas em risco. 

Mas a juíza Baraitser pode não ter autonomia suficiente para decidir a favor de Assange. Acredita-se que sua indicação para presidir a Corte tenha partido da magistrada Lady Emma Arbuthnot, cujo esposo tem fortes ligações com setores militares e de segurança hostis ao Wikileaks. Emma é a magistrada principal da Westminster Magistrates Court, onde proferiu sentenças que impediram que Assange deixasse o Reino Unido para se exilar no Equador.

Caso se concretize a extradição, restará a Assange unicamente o perdão presidencial por parte de Donald Trump.  Durante a eleição de 2016, Trump elogiara Assange pelos vazamentos do Wikileaks que revelaram as manobras de Hillary Clinton para ganhar a indicação como candidata presidencial pelo Partido Democrata. 

Perdão presidencial para Assange. Trump já teria oferecido anteriormente o perdão ao jornalista,  mas com a condição que Julian Assange dissesse que a Rússia não estivera  envolvida no vazamento de e-mails do comitê nacional do Partido Democrata. Esta declaração foi dada a magistrados da Corte Britânica por advogados de defesa de Assange, mas negada pela congressista Dana Rohrabacher, que supostamente teria feito a intermediação com Trump. 

A deputada Democrata pelo Havaí, Tulse Gabbard, fez campanha para que Trump conceda o perdão a Julian Assange no final de seu mandato, argumentando que o encarceramento do jornalista só agradaria ao Deep State.  Gabbard é considerada progressista. 

O jornalista James Risen, do The Intercept, alertou os defensores de direitos humanos para que não reforcem teorias conspiratórias envolvendo o Deep State quando fizerem campanha pelo perdão presidencial. Trump e seus seguidores propagam que o Deep State arquitetou um esquema de fraude eleitoral que levou à vitória de Biden. 

De fato, parte da extrema direita norte-americana que aderiu à campanha para Assange ser perdoado vem fazendo uso da argumentação que o Deep State tem interesse em encarcerar Assange. Nesta linha, o site de direita The American Conservative defende que Trump deva perdoar Assange para “mantê-lo fora das mãos do Deep State”. 

No entanto, segundo o site estas palavras constam do pedido formal de clemência que a própria noiva de Assange, Stella Morris, protocolou na Casa Branca. Morris repetiu tal declaração em entrevista ao âncora da Fox News, Tucker Carlson em 17 de dezembro, quando ela alertou ainda que caso Assange vá julgamento nos Estados Unidos “seria o fim da Primeira Emenda” da Constituição, que defende a liberdade de expressão e de imprensa. 

Na oportunidade, o  jornalista da conservadora Fox News também defendeu o editor do Wikileaks: “Pense o que quiser de Assange e do que ele fez, mas ele é efetivamente um jornalista….O Wikileaks expôs como os cidadãos do país estão sujeitos a vigilância em massa, e ninguém foi punido por estas violações (de direitos), apenas o cara que revelou tudo”. 

Sarah Palin, ex-governadora do Alasca e símbolo do movimento ultraconservador Tea Party também aderiu à campanha pelo perdão presidencial para Assange, ao publicar um vídeo no site de extrema-direita The Gateway Pundit. Palin, no entanto, não fez qualquer menção ao Deep State. Ao contrário, ela fez uma enfática defesa da liberdade de imprensa. 

Palin considera que “Julian fez a coisa certa….Ele merece o perdão. Ele merece que todos nós compreendamos melhor o que ele fez em nome do jornalismo verdadeiro….Deus o abençoe”. Anteriormente uma crítica severa de Assange, Palin passou a elogiá-lo quando o Wikileaks publicou os e-mails vazados de Democratas durante a campanha presidencial de 2016. 

O movimento em favor de Assange vem crescendo nos Estados Unidos. Nils Melzer, especialista do Conselho de Direitos Humanos da ONU, enviou em 22 de dezembro uma carta aberta a Trump pedindo que ele conceda o perdão presidencial ao jornalista. Melzer relata que esteve na prisão de Belmarsh acompanhado de dois médicos, quando pôde constatar as condições precárias de saúde em que Assange se encontrava. 

A campanha pró-Assange inclui assim um espectro político que vai da esquerda radical à extrema-direita. Resta ver se será duradoura a conversão da extrema-direita em defensora da liberdade de expressão e contra a vigilância massiva do Estado sobre os cidadãos. Segundo o New York Post, Trump está decidindo se concederá ou não o perdão a Assange. O presidente poderá deixar este legado positivo de seu mandato, repleto de controvérsias desabonadoras.  

No entanto, Trump já se decidiu pelo perdão a quatro ex-funcionários de uma  empresa de segurança contratada pelo governo norte-americano, responsáveis por um massacre de 17 civis no Iraque em 2007. A lista completa de todos os perdões concedidos por Trump durante seu governo, até o momento inclui  incendiários, traficantes de drogas, envolvidos em jogo ilegal, uma ampla variedade de fraudadores, além dos culpados por assassinatos já mencionados. 

É grande a campanha para que Trump também perdoe Edward Snowden, mas diversas outras pessoas estão detidas ou sendo processadas por envolvimento em vazamentos de informações sigilosas, sem que no entanto sejam lembradas pelos defensores de direitos humanos.

*Deep State é uma rede de poder paralelo nos Estados Unidos, operando por vezes à margem dos governos.

O autor é professor aposentado da UENF, e publica análises políticas no blogue Chacoalhando

Eleição presidencial dos EUA 2020: conspirações e conspiradores

Os aliados continuam a abandonar o campo trumpista, apesar das novas e sensacionais revelações de teorias conspiratórias sobre fraudes cometidas  pelos Democratas nas eleições presidenciais. 

O monstro mítico Kraken deu nome à teoria conspiratória que pretende afundar a nau do Democrata Joe Biden \ Arte: cortesia Getty Images

Por Ruben Rosenthal, atualizado em 4 de dezembro

Os Estados Unidos atravessam uma situação sem precedentes devido à recusa de Donald Trump em reconhecer sua derrota nas eleições presidenciais, acusando os democratas de fraudes eleitorais generalizadas. Teorias conspiratórias encontraram campo fértil para proliferar. Do lado trumpista partem surpreendentes teorias acusatórias contra o candidato Democrata, que envolvem conluio com o intangível e onipresente Deep State.

Em artigo anterior do blog foi discutida a possibilidade de que Trump e os Republicanos  conspirem para alterar a chapa de membros do Colégio Eleitoral em alguns estados. A definição das chapas se dará em 14 de dezembro, mas o resultado da composição final do Colégio Eleitoral só será conhecido em 6 de janeiro, quando se consumaria o suposto golpe que estaria sendo planejado por Trump.

Negando a derrota. O atraso na contagem dos votos permitiu que Trump intensificasse as acusações de que várias irregularidades estariam ocorrendo, como a inclusão de dezenas de milhares de “cédulas postais ilegais”. Os Republicanos também argumentaram que seus inspetores não conseguiram acompanhar a contagem na Pensilvânia.

Assim, quando Biden ultrapassou a marca de 270 votos eleitorais com a vitória na Pensilvânia em 7 de novembro, o Republicano se recusou a aceitar o resultado. Apesar de enfrentar uma derrota de 306 contra 232 no Colégio Eleitoral, para Trump sua vitória era inegável e os tribunais iriam confirmar que várias fraudes haviam sido cometidas de forma a favorecer Biden.

Uma pesquisa mostrou que 70% dos apoiadores do Partido Republicano acreditam que as eleições não foram justas, com o principal motivo (78%) sendo o sistema de votação por correio. Os resultados na Pensilvânia são contestados por 62% dos republicanos, de acordo com a mesma pesquisa.

Os juízes dos tribunais locais vêm rejeitando quase todas as reclamações apresentadas pelos republicanos. Mesmo que algumas das supostas “fraudes” denunciadas inicialmente fossem comprovadas, elas seriam insuficientes para alterar o resultado da eleição presidencial. A equipe jurídica de Trump também entrou com ações judiciais em tribunais federais na Pensilvânia, Michigan e Arizona para sustar a certificação dos resultados da contagem de votos nesses estados, sem no entanto obter sucesso.

No entanto, novas e impressionantes teorias conspiratórias apoiando a versão de que os democratas fraudaram as eleições presidenciais em uma escala massiva começaram a aparecer nas mídias sociais.  Mesmo com Biden já tendo iniciado a formação de seu secretariado, Trump está ainda longe de admitir a derrota.

A conspiração do sistema de votação eletrônica.  Houve alguma celeuma no final de 2019 sobre a origem das máquinas de votação e contagem de votos, por receio de que contivessem peças de fabricação chinesa. As empresas Election Systems & Software (ES&S) e suas concorrentes, Dominion Voting Systems e Hart Intercivic foram questionadas para revelar tais informações. O presidente-executivo da ES&S, Tom Burt, rejeitou as críticas, acrescentando que a montagem final de suas máquinas eletrônicas ocorre nos EUA.

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Máquinas de votação e contagem de votos com software da Dominion \ Foto: cortesia Getty Images

Em 12 de novembro, Trump citou um relatório da rede conservadora One American News (OAN) ao tuitar que o software dos equipamentos de votação da Dominion deletou 2,7 milhões de votos seus e que transferiu 435.000 votos dele para Joe Biden. No entanto, um comitê conjunto da Agência de Segurança Cibernética e Infraestrutura do Departamento de Segurança Interna (CISA) declarou que “não há evidências de que qualquer sistema de votação excluiu ou perdeu votos, alterou votos ou foi de alguma forma comprometido”. Poucos dias depois, o diretor da CISA Christopher Krebs foi demitido por Trump.

Em 17 de novembro a BBC publicou o artigo “EUA Eleições 2020: Trump está certo sobre as máquinas da Dominion?”, apresentando uma análise detalhada das acusações que abrangem desde a exclusão de votos, até a influência inadequada sobre a empresa Dominion por oponentes políticos de Trump. A BBC não encontrou evidências de que as alegações fossem verdadeiras.

No entanto, ao contrário das denúncias anteriores de fraude, que foram recebidas com ceticismo generalizado no país e no exterior, a teoria da conspiração envolvendo a Dominion obteve um certo apoio na mídia independente. Alguns analistas políticos acreditam que poderia de fato ter ocorrido fraude a favor de Biden nas máquinas de votação da Dominion. No site Global Research foram publicados vários artigos sobre o assunto, com posicionamentos tanto favoráveis como contrários a ocorrência de envolvimento dos Democratas em fraude eleitoral massiva.

Entre aqueles que apoiam a visão de que ocorreu fraude eletrônica pró-Biden está o jornalista independente Brett Redmaine-Titley. Ele escreveu em 19 de novembro que é motivo de preocupação a integridade do sistema eletrônico de votação, já que seria improvável (embora não impossível) que os Democratas perdessem assentos na Câmara e nas legislaturas dos EUA e, ao mesmo tempo, Biden derrotar Trump nas eleições presidenciais. O autor considera que possivelmente “3% do total de votos tenham sido alterados nas cédulas de votação pré-eleitorais coletadas digitalmente”, principalmente nas máquinas fornecidas pela Dominion.

A teoria conspiratória sobre a Dominion adquiriu novos contornos, ainda mais surpreendentes, e que chegam a constituir uma nova teoria conspiratória. Agora a fraude relacionada com o sistema eletrônico de votação teria envolvido a participação da CIA e do Departamento de Defesa, com ocorrência de confrontação bélica na Alemanha. 

A conspiração Kraken. Kraken é o nome de um monstro marinho gigantesco do folclore escandinavo, que sobe do oceano para devorar seus inimigos. Em março de 2017, o Wikileaks revelou documentos vazados que eles batizaram de “Vault 7”, expondo as ferramentas de hacking da CIA, incluindo a infraestrutura usada para desenvolver o programa “Kraken”. No entanto, para se conseguir uma visão completa dos objetivos e do alcance total do software é necessária  a leitura de centenas de páginas dos documentos que vazaram. Mais detalhes continuarão a aparecer na mídia corporativa e nas mídias sociais. Resta saber quais serão as versões confiáveis

Em 2017, com base em 8.761 documentos expostos pelo Wikileaks, o informativo Deutsche Welle relatou que o consulado dos EUA em Frankfurt, Alemanha, era usado como base remota para a CIA começar ataques hackers na Europa, China e Oriente Médio.

De volta a 2020, em 13 de novembro, o site de direita The Gateway Pundit citou o deputado republicano texano Louie Gohmert, para difundir que “forças do exército norte-americano apreenderam servidores em um escritório de Frankfurt da empresa de software Scytl, com sede em Barcelona”. O artigo tenta vincular a empresa Scytl a Dominion, Soros e Bill Gates.

Os apoiadores de Trump  foram rápidos em propagar a nova teoria conspiratória, de que a CIA utilizou o  programa de hacking Kraken para fraudar as eleições presidenciais de 2020. Correlacionando informações obtidas dos vazamentos revelados pelo Wikileaks em 2017 com as recentes eleições nos EUA, o site trumpista escreveu: “Parece que a CIA estava usando o mesmo centro de dados estrangeiro para hackear as eleições nos Estados Unidos … e foi pega. Pode ser por isso que, como relata Gateway Pundit, a CIA foi mantida completamente fora da operação de ataque ao servidor, segundo rumores na Alemanha”. E complementando: “A ação do exército foi provavelmente direcionada contra o local dos servidores controlados pela própria CIA, de onde fora executada a operação remota de invasão hacker pela Dominion-Scytl na noite da eleição!”. A agência de notícias  Associated Press  negou a veracidade da informação, informando que o  exército refuta que a citada operação tenha existido, e que a empresa espanhola classificou as notícias como fake news, negando que tenha escritórios ou servidores em Frankfurt.

A palavra “Kraken” foi utilizada pela advogada Sidney Powell – que até recentemente fazia parte da equipe jurídica de Donald Trump e agora permanece não oficialmente na equipe. Ela descreveu a argumentação que estava montando para provar as fraudes cometidas pelos democratas como “um Kraken,  que quando liberado destruiria o caso do democrata Joe Biden ter conquistado a presidência dos Estados Unidos”. Grupos pró-Trump, incluindo adeptos da teoria conspiratória QAnon, ampliaram a ideia com a hashtag #ReleaseTheKraken. Em fins de novembro a BBC relatou que os documentos apresentados por Powell, constando de quase 200 páginas, consistiam predominantemente de teorias de conspiração e alegações infundadas que já foram rejeitadas.

Distribuição jurisdicional das máquinas de votação por fornecedor. A Dominion aparece em laranja. \ Fonte: The Business of Voting / Universidade da Pensilvânia, Penn Wharton

Para acrescentar mais um ingrediente ao caldeirão conspiratório fomentado nas mídias sociais trumpistas, o tenente-general aposentado da Força Aérea Thomas McInerney, em entrevista para a WVW-TV apresentou uma versão que soldados norte-americanos morreram no ataque às instalações da CIA em Frankfurt, quando as Forças de Operações Especiais teriam capturado servidores da Dominion. Mesmo com o desmentido do comando de Operações Especiais do Exército,  McInerney manteve sua versão. O vídeo completo da entrevista de McInerney para WVW-TV inclui também a entrevista do tenente-general reformado Michael Flynn, recém-perdoado por Trump. Flynn, que admitira ter mentido para o FBI sobre contatos com o embaixador da Rússia, agora pede que Trump suspenda a constituição e declare lei marcial para repetir a eleição.

McInerney declarou ainda que a missão havia sido desvendada pelo 305o Batalhão de Inteligência Militar, conhecido como Kraken. Para  o tenente-general “o batalhão Kraken trabalhava em conjunto com a advogada Sidney Powell e com Trump. O presidente empregou o 305o porque não confiava no Departamento de Justiça, no FBI ou na CIA, por eles estarem do lado do Deep State”.

Na terça-feira, 2 de dezembro, William Barr, procurador geral dos Estados Unidos e fiel aliado de Trump declarou que o Departamento de Justiça não verificou qualquer evidência de fraude eleitoral que pudesse mudar o resultado da corrida presidencial de 2020. Os aliados parecem abandonar o campo trumpista, apesar das novas e sensacionais revelações de teorias conspiratórias sobre fraudes cometidas pelos Democratas nas eleições presidenciais.

Enquanto prossegue a  contagem regressiva para a votação no Colégio Eleitoral em 14 de dezembro, poderão ainda ocorrer novas surpresas no cenário político dos Estados Unidos? Trump planeja de fato interferir na escolha dos membros do Colégio Eleitoral? É ainda imprevisível se o país estará pacificado a partir de 2021, ou se confrontos generalizados violentos poderão ocorrer.

O autor é professor aposentado da UENF, e publica análises políticas no blogue Chacoalhando.

Trump: contagem regressiva para o golpe, prisão ou fuga do país?

Os grandes interesses econômicos não hesitariam em apoiar uma intervenção no Colégio Eleitoral. A outra opção para Trump é deixar o país, para não ser preso por ilicitudes fiscais.

A forma correta de investigar Trump quando ele deixar a presidência, será uma decisão que espera Joe Biden.
Trump poderá ser indiciado quando deixar a presidência \ Ilustração: POLITICO / Getty/iStock

Por Ruben Rosenthal

Durante o processo eleitoral, Donald Trump  fez constantes acusações de fraude por parte do Partido Democrata. Confirmada sua derrota nas urnas, o presidente continua inabalável.  Trump será despejado à força da Casa Branca, como ironiza parte da imprensa? Uma vez fora do poder ele deverá provavelmente ser indiciado por diversos crimes, podendo ser preso. Dentre as alternativas estão fugir do país ou atentar  contra a democracia, em uma última cartada. 

Os Estados Unidos se encontram em uma situação sem precedentes em sua história, em decorrência das ações de Donald Trump na presidência: perda de prestígio internacional, notadamente pela política de negação climática; distúrbios nas cidades, em protesto contra um sistema policial e judicial entranhado de racismo e um presidente simpatizante de supremacistas brancos e incentivador milícias armadas; com o país assolado pela pandemia de um vírus que já causou cerca de 250 mil mortes e abalou a economia, seu líder máximo se mostra um completo negacionista da ciência. Para completar o cenário de caos, Trump se recusa a reconhecer sua derrota nas eleições.

Durante a campanha o presidente já questionava as regras do processo eleitoral, ao declarar que o voto postal conduziria à fraude em favor do candidato Joe Biden. Trump estava consciente de que sua rejeição aumentara muito com o alastramento da pandemia de Covid-19 pelo país. Sua liderança na condução do combate à pandemia fora simplesmente inepta, e mesmo criminosa.

Do outro lado, Biden sofreu alguns arranhões durante a campanha, com as acusações de ter se beneficiado da corrupção praticada por seu filho Hunter. Estas acusações foram ignoradas pela maioria da mídia corporativa, favorável ao candidato democrata. Mesmo na mídia independente, poucos jornalistas optaram por colocar em primeiro lugar a objetividade profissional, para não prejudicar a vitória de Biden que se configurava. 

A negação da derrota. A demora na apuração dos votos permitiu que Trump intensificasse as acusações de que diversas irregularidades estavam ocorrendo na contagem, como a inclusão de votos que teriam chegado após o dia da eleição, e que ele considerou como “ilegais”. Argumentavam também os Republicanos que seus fiscais não conseguiram acompanhar a apuração na Pensilvânia, estado controlado pelo Partido Democrata.

Assim, quando Biden ultrapassou a marca dos 270 votos no Colégio Eleitoral com a vitória na Pensilvânia, Trump se recusou a aceitar a derrota. Para ele, sua vitória era incontestável, e as Cortes iriam confirmar que diversas fraudes foram cometidas na eleição. Uma pesquisa mostrou que 70% dos apoiadores do Partido Republicano consideram que as eleições não foram honestas, sendo que o principal motivo alegado (78%) foi o sistema de votos pelos Correios. Os resultados na Pensilvânia são contestados por 62% dos republicanos, ainda segundo a pesquisa. No entanto, mesmo com eventuais correções da contagem obtidas em alguns estados, estas não serão suficientes para alterar os resultados finais da eleição presidencial, de 306 votos eleitorais para Biden contra 232 para Trump. 

 

Pesquisa indicou que  70% dos Republicanos não acreditam que as eleições tenha sido livres e justas
Apoiadores de Trump protestam por mais transparência nas eleições, Fênix, Arizona \ Foto: Matt York/AP

As motivações de Trump. Para muitos analistas políticos, as ações de Trump resultariam da intenção de tentar preservar sua influência no partido Republicano, bem como enfraquecer o futuro governo Biden.  Mesmo derrotado também na contagem total de votos, Trump conseguiu ultrapassar a impressionante marca de 70 milhões de votos, a segunda maior votação na história das eleições do país. Um trunfo nada desprezível, que poderá ainda render dividendos políticos ao atual presidente. Passar para seus correligionários a mensagem de que ele só foi derrotado porque as eleições foram fraudadas pelo partido do outro candidato, ajudaria Trump a manter seu poder político no Partido Republicano, o Great Old Party (GOP).

Até o momento os juízes das Cortes locais estão considerando como improcedentes a quase totalidade das reclamações levantadas pelos Republicanos. Desta forma, até mesmo a Suprema Corte, onde os conservadores têm maioria, não conseguiria justificar uma reverter a vitória de Biden. Entretanto, Trump prossegue tumultuando o processo eleitoral, abalando a respeitabilidade internacional da democracia norte-americana.

Para Trump, permanecer na presidência pode ser muito mais do que uma simples questão de apego ao poder.  Para Jane Mayer1, do The New Yorker, quando Trump deixar a presidência ele perderá sua imunidade. Atualmente ele enfrenta  mais de 12 investigações criminais e processos civis, que poderão levá-lo à prisão. A maioria destas acusações diz respeito a vários tipos de ilícitos cometidos antes de seu mandato, como fraude bancária, fraude de seguros, evasão de impostos, dentre outros. 

Ainda segundo Mayer, Trump poderia fazer como Richard Nixon que obteve o perdão presidencial de Gerald Ford em 1974. Bastaria ele se afastar provisoriamente, para o vice Mike Pence assumir e perdoá-lo, já que o auto-perdão seria bastante controverso. Entretanto, acusações estaduais não são abrangidas pelo perdão presidencial, como no caso pendente na cidade de Nova York, que se tratava originalmente de um caso federal contra o advogado de Trump, Michael Cohen e  o co-conspirador Indivíduo-1, que seria o próprio Trump. 

A fuga do do país seria uma alternativa. Para o professor Timothy Snyder, de Yale, é bem provável que Trump viaje na surdina para algum país sem tratado de extradição com os Estados Unidos. A menos que você seja um idiota, já terá um plano de voo pronto, acrescentou o professor.

Luxuoso Boeing 757 de Trump: o plano de voo já está pronto? \ Foto: AP

 

Trump também está extremamente endividado. Nos próximos anos ele deverá pagar mais de 300 milhões de dólares, principalmente para o Deutsche BankNa presidência, ele teria melhores condições de renegociar suas dívidas. Fora dela, a situação se torna mais difícil, porque suas propriedades estão desvalorizadas em face da pandemia. Mas ele sempre pode pedir a ajuda de algum oligarca com que tenha feito negócios, acrescenta Mayer.

Perante o mundo, o presidente norte-americano passa a imagem de ditador de uma república de bananas, ao continuar a contestar o resultado das urnas para se manter no poder. Mas poderiam ser as ações de Trump apenas uma cortina de fumaça para encobrir sua verdadeira estratégia para continuar na presidência? 

Em entrevista a Amy Goodman, do Democracy Now, a escritora e jornalista Dhalia Lithwick, colaboradora da Newsweek e editora da Slate, considerou que o objetivo real de Trump seria tumultuar ao máximo o processo eleitoral, para então “sugerir a governadores que eles poderiam encaminhar para o Colégio Eleitoral algumas pessoas que não foram escolhidas na eleição popular”. Se concretizado, isto equivaleria a um golpe nas instituições do país.

Cumplicidade dos Republicanos? Nos últimos dias, vozes importantes no GOP vêm dando apoio político às alegações de Trump de ocorrência de fraudes. Em minoria na Câmara, apesar de terem conseguido diminuir a diferença anterior para os Democratas, o GOP corre ainda o risco de perder o controle do Senado. Seria esta a motivação do partido para incorporar uma narrativa que não está sendo confirmada nas Cortes? 

No dia 5 de janeiro ocorrerá a eleição para as duas vagas do Senado ainda não preenchidas na Geórgia, o que poderá transferir o controle para os Democratas. Se Democratas e Independentes conseguirem somar o mesmo número de assentos (50) que Republicanos, o voto de desempate caberá ao vice-presidente do país. Com Biden na presidência,  seria de Kamala Harris o voto decisivo.

Desta forma, o Partido Democrata assumiria o controle das decisões políticas a nível federal, e poderia encontrar formas de reverter o domínio conservador na Suprema Corte. Este domínio foi alcançado exatamente durante a administração Trump, quando foram indicados três juízes conservadores para vagas abertas na Corte. A controvertida indicação da Juíza Amy Coney Barrett foi aprovada pelo Senado controlado pelos Republicanos quando as eleições de 2020 já haviam se iniciado.

Conforme já detalhado em artigo anterior do blog, ao longo de duas décadas bilionários e grandes corporações utilizaram doações anônimas para promover a indicação e aprovação de juízes comprometidos com seus interesses. Se os Democratas, além de conquistarem a Presidência conseguirem também alcançar o controle do Senado, haverá um movimento crescente no campo progressista a favor de ampliar o número de juízes da Suprema Corte, de forma a possibilitar o reestabelecimento do equilíbrio entre liberais e conservadores. Alguns políticos democratas, como o Senador Sheldon Whitehouse, consideram no entanto que o mais indicado seria tomar medidas para aumentar a transparência do Judiciário, de forma a prevenir que doadores anônimos continuem a interferir nas decisões da Corte. 

Diante de um cenário em que estejam ameaçados de perder a influência sobre a Suprema Corte, os grandes interesses econômicos não hesitariam em apoiar uma intervenção no Colégio Eleitoral. A outra opção para Trump é deixar o país, para não ser preso por ilicitudes fiscais.

As regras do Colégio Eleitoral. No período maio-agosto de 2020 foram indicadas por comitês ou convenções em cada Partido, as chapas com candidatos ao posto de eleitores do Colégio Eleitoral, em número igual ao de votos eleitorais do estado. A escolha ocorreu no mesmo dia da eleição presidencial, 3 de Novembro. Cabe aos governadores emitirem Certificados de Averiguação, listando os eleitores escolhidos.

Não ocorrendo alteração no calendário, em 14 de dezembro as diversas delegações estaduais do Colégio Eleitoral irão votar para a presidência e vice-presidência do país, respeitando a decisão do voto popular de 3 de Novembro. Serão então emitidos os Certificados de Votos Eleitorais para serem computados na Sessão Conjunta do Congresso de 6 de janeiro. No entanto, a Constituição federal não exige fidelidade do eleitor ao voto popular. Já ocorreram anteriormente diversos casos de “eleitores infiéis” agirem em não conformidade com as indicações do voto popular.

Trinta e três estados e o Distrito de Colúmbia possuem leis ou regras partidárias que exigem esta fidelidade, mas apenas cerca da metade destas jurisdições dispõe de mecanismos de imposição. Alguns estados, além de anularem o voto dissidente, podem impor penalidades como multas e mesmo prisão. Em julho de 2020 a Suprema Corte decidiu que são constitucionais as leis estaduais que penalizam ou substituem eleitores infiéis.

Uma conspiração em andamento?  Lithwick e alguns analistas temem que Trump esteja investindo no acirramento de tensões com o intuito de gerar um ambiente confuso, propício para a tentativa de interferir na decisão de algumas delegações do Colégio Eleitoral. Assim, não seria surpresa se forem retomadas em breve as acusações de corrupção contra Joe Biden, agitando ainda mais o país, já abalado pela crescente disseminação da Covid-19.

A data crítica será em 14 de dezembro, quando os eleitores do Colégio Eleitoral se reunirão em seus respectivos estados e no Distrito de Colúmbia (onde fica Washington). Se a conspiração for adiante, o resultado da votação presidencial poderá não corresponder à decisão do voto da nação em 3 de novembro, seja pela ação de governadores do GOP substituindo eleitores das delegações, ou pela ação de “eleitores infiéis” agindo por conta própria.

Se esta primeira fase da conspiração for bem sucedida, a consumação do golpe se daria em 6 de janeiro, quando em sessão conjunta do Congresso presidida pelo vice-presidente por Mike Pence, serão contados os votos recebidos dos estados. Durante a leitura da votação de cada estado poderão ser levantadas objeções pelos membros do Congresso. Mas para haver contestação de qualquer resultado é necessária a concordância de ambas as Casas. Como a eleição na Geórgia está prevista para ocorrer apenas em 5 de janeiro, os Republicanos ainda terão a maioria no Senado. 

Se prevalecer esta ou alguma outra manobra golpista, pode se antever a ocorrência de protestos generalizados pelo país. Talvez já antecipando esta possibilidade, Trump afastou há poucos dias o secretário de defesa Mark Esper, uma decisão inesperada para um governo em final de mandato. Esper se opusera ao uso de tropas militares no combate aos distúrbios internos que agitaram o país no verão. Para seu lugar foi nomeado Christopher Miller, que até recentemente estava a frente do Centro Nacional de Contraterrorismo.

Se as tropas não se recusarem a obedecer as ordens de atirar nos manifestantes, os eventos de 1989 na Praça da Paz Celestial (Tiananmen), na China, irão parecer brincadeiras de crianças em um playground. Para Trump, seria melhor deixar o país agora, para não precisar responder depois também por Crimes Contra  Humanidade.

Notas do autor:

1. Jane Mayer é autora do livro Dark Money, em que relata como grandes corporações e bilionários fazem uso de doações anônimas para interferir na indicação de juízes, e influir no resultado de processos judiciais.

O autor é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Portland, USA: ensaio de um regime de exceção, por Ruben Rosenthal

Trump poderá fazer uso de poderes de emergência secretos, caso esteja ameaçado de perder as eleições de novembro. 

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Montagem na foto de Mussolini / Foto: ANSA

Imagens recentes da cidade de Portland, no Oregon, mostraram agentes federais usando uniformes de soldados do exército norte-americano, sem identificação pessoal, “sequestrando” e jogando manifestantes dentro de vans, estas também sem identificação. A explicação posterior foi de que a intervenção contra os protestos de rua apoiados pelo Black Lives Matter partiu de ordens explícitas de Donald Trump ao Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês). O pretexto alegado pelo presidente foi o de proteger monumentos nacionais e prédios federais. 

Deve-se ressaltar que a Prefeitura de Portland não esteve omissa em face dos protestos que haviam tomado conta da cidade a partir de 25 de maio, na sequência do assassinato de George Floyd por policiais em Minneapolis. Em 30 de maio, o prefeito decretara estado de emergência na cidade, estabelecendo o toque de recolher noturno. 

Com a intervenção do DHS, Portland se tornou um laboratório da violência do Estado contra opositores das políticas do presidente, com consequências imprevisíveis para as liberdades civis no país. Trump já anunciou que poderá também enviar “tropas” federais a Chicago e outras cidades controladas pelo Partido Democrata. 

As ações de intimidação trazem ecos do período que antecedeu à chegada de Mussolini ao poder Itália, quando grupos paramilitares atacavam manifestantes de esquerda. A hashtag #PortlandKidnapping (sequestros em Portland) viralizou no Twitter, trazendo  comparações com os desaparecimentos de opositores durante a ditadura de Pinochet no Chile. 

A advogada Elisabeth Goitein tem sido uma das principais vozes a alertar contra os excessos antidemocráticos que vêm sendo cometidos na administração Trump. Goitein é co-diretora do Programa de Segurança Nacional e Liberdade do Brennan Center for Justice, associado a Faculdade de Direito da Universidade de Nova York.

Segundo Goitein relata em artigo de 24 de julho,  “O exército privado do presidente“, anteriormente Trump já convencera governadores de 11 Estados (10 destes comandados pelo partido do presidente) a enviarem unidades da Guarda Nacional a Washington para intervir em protestos, também resultantes da morte de George Floyd por sufocamento. As manifestações foram essencialmente pacíficas, com a ocorrência de incidentes isolados de vandalismo e saques. 

O envio da Guarda Nacional dos Estados foi uma forma de Trump contornar a legislação de 1878 conhecida como Posse Comitatus Act.  Este Ato visa impedir que tropas federais participem de ações de imposição da lei e da ordem, sem a expressa autorização do Congresso. A lei se aplicaria também à Guarda Nacional, caso Trump houvesse federalizado as ações conduzidas, mas ele evitou fazer isto, não emitindo ordens diretas aos agentes. 

Já no caso dos distúrbios em Portland, seria mais complicado para Trump tentar repetir o mesmo expediente adotado em Washington, pois os governadores são ciosos de suas autonomias, e não estariam dispostos a enviar tropas para outro Estado, considera a advogada. Então, em nova tentativa de burlar a legislação, Trump recorreu ao DHSDepartment of  Homeland Security

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Agentes do DHS em uniformes do exército atuam contra manifestantes em Portland \ Foto: Beth Nakamura / The Oregonian via AP

Contra a vontade do prefeito de Portland e do governador do Oregon, o DHS enviou dezenas de agentes para reprimir os protestos. A justificativa foi de proteger propriedades federais, o que dispensa o consentimento das autoridades locais. Como os agentes do DHS não são membros das forças armadas, Trump não cometeu violação do Posse Comitatus Act, pelo menos na letra da lei. 

No entanto, o uso de agentes do DHS como uma força paramilitar viola o princípio que fundamentou a legislação promulgada em 1878, ou seja, limitar os poderes de intervenção do governo federal contra seus opositores internos. Elisabeth Goitein teme que no dia das eleições presidenciais em novembro, Trump possa fazer uso de suas forças paramilitares como forma de inibir o comparecimento dos eleitores às urnas, particularmente em locais favoráveis ao partido Democrata.

Segundo o relato de Goitein, a Lei de Emergências Nacionais que entrou em vigor em 1976 controla a declaração do estado de emergência pelo presidente.  Na ocasião, o Congresso incluiu uma cláusula que garantia ao legislativo o poder para sustar a vigência da aplicação da emergência. No entanto, em 1983 a Suprema Corte determinou que Congresso não poderia reverter a decisão presidencial, exceto se conseguisse obter uma maioria de dois terços, a qual o presidente não poderia se contrapor com seu veto. 

O legislativo tentou se opor à decisão de Trump, quando o presidente declarou emergência nacional para conseguir fundos para construir um muro na fronteira com o México. Mas Trump pôde vetar a decisão, por não ter sido obtida a maioria qualificada no Congresso. Trump agora ameaça fazer uso da declaração de emergência, para exigir que empresas norte-americanas se retirem da China. 

Brennan Center identificou 123 poderes legais que são concedidos ao presidente quando ele declara uma emergência nacional, sendo que a maior parte requer apenas sua assinatura para entrar em vigor. Acrescentem-se a estes, outros 13 poderes que são disponibilizados quando a declaração provém do Congresso. A relação completa pode ser acessada na página do Brennan Center.

Os poderes de emergência cobrem os setores militar, de saúde pública, comércio, transporte, comunicações, lei criminal, transações financeiras e  pagamentos federais, dentre outros. Obama e Trump recorreram aos poderes emergenciais para bloquear aumentos salariais dos funcionários federais. Um dos estatutos permite que o presidente autorize a realização de testes de armas químicas ou biológicas em pessoas, sem o consentimento delas. Várias declarações de emergência vigoraram por mais de 10 anos. 

Não bastassem os poderes de emergência já conhecidos de que o executivo norte-americano dispõe, e as artimanhas a que Trump recorre para contornar a legislação existente, outras ameaças pairam sobre as liberdades civis nos Estados Unidos. O ex-senador Gary Hart, candidato presidencial Democrata (em 1988), alertou em artigo recente no New York Times que o presidente poderá recorrer a poderes de emergência secretos, desconhecidos até mesmo da maior parte dos congressistas.

Hart teme que Trump possa invocar estes poderes caso esteja na iminência de perder as próximas eleições. O ex-candidato presidencial salientou ainda, que o pouco que se sabe sobres estes poderes obscuros se deve ao trabalho do Brennan Center for Justice.

De fato, Elisabeth Goitein vem alertando sistematicamente nos últimos anos sobre os riscos que os poderes presidenciais secretos representam para as liberdades civis. Alguns destes poderes estariam mais de acordo com um sistema ditatorial, enfatiza a advogada. No entanto, ela aceita que em casos de reconhecida emergência nacional possa ser necessário que o presidente disponha de uma legislação flexível, que possibilite que ele lide adequadamente com uma situação crítica, mas sempre com a devida checagem pelo Congresso. 

Os poderes secretos do presidente dos Estados Unidos estão classificados como “documentos para ação presidencial de emergência”, conforme artigo de Goitein e Boyle no New York Times. Documentação emitida ainda na década de 70 admitia a suspensão do habeas corpus pelo presidente, contrariamente ao estabelecido na Constituição do país, que requer a concordância do Congresso. 

Constava também dos “documentos para ação presidencial de emergência” da época, a autorização para a realização de buscas e detenções sem mandato judicial, como também a declaração de lei marcial no país. Revisões periódicas são feitas nos documentos, que passam pelo crivo do Departamento de Justiça e necessitam da aprovação final do Conselho de Segurança Nacional. 

É provável que os documentos revisados, que estabelecem as ações de emergência a que o presidente pode recorrer atualmente, continuem a incluir não apenas estas medidas citadas, mas também outras que devem provavelmente afetar de forma negativa as liberdades civis no país. Apenas quando Trump ou algum outro presidente recorrer a estas ações, é que a população e mesmo os congressistas tomarão conhecimento  de que elas existem.

Neste mesmo artigo de abril de 2020, anterior portanto à intervenção em Portland, Goitein e Boyle já expressavam o temor de que Trump possa vir a se aproveitar da pandemia da Covid-19, para fazer uso pela primeira vez no país do poder concedido pelos documentos secretos.

Por este motivo o Brennan Center defende que, antes das eleições presidenciais de novembro, o Congresso deveria ter acesso à integra da documentação de exceção, e checar se ela está de acordo com a Constituição federal. Gary Hart compartilha deste temor, e também defende que o Congresso organize um comitê especial, para investigar e revelar quais são os poderes secretos de que o presidente dos Estados Unidos dispõe. Antes que seja tarde demais.

O autor é professor aposentado da Universidade Federal do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando (acesse o índice de artigos).

COVID-19: Quem tem medo de tomar a vacina?, por Ruben Rosenthal

Enquanto o mundo anseia por uma vacina que ponha fim à pandemia, libertários de direita e conspiracionistas fazem campanha contra a imunização em massa nos Estados Unidos.

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Acredite em Deus, não nas vacinas: hashtag diga não a bill gates  \  Foto: Mario Tama/Getty Images

Nas últimas semanas, setores opostos do espectro político norte-americano vêm se opondo à vacina de proteção contra a COVID-19. Em comum, estão as críticas a Bill Gates, embora por motivos diferentes. Estes vão desde a defesa do direito do indivíduo em recusar a obrigatoriedade da vacinação, a uma teoria conspiratória de que, através da vacina, seria implantado um microchip, como parte do projeto de identificação digital ID2020, do qual a Fundação Bill e Mellinda Gates é um dos principais idealizadores.

Gates, co-fundador da Microsoft, é o segundo maior contribuinte da Organização Mundial da Saúde (OMS), através da Bill & Melinda Gates Foundation. Se os Estados Unidos deixarem de contribuir, conforme anunciado por Donald Trump, então a Fundação passaria a ser o maior doador, à frente do Reino Unido.

Contrariamente às especulações de que a China, outra grande doadora da OMS, foi o principal responsável pela eleição de Tedros Adhanom para o cargo de diretor-geral da Organização, é provável que tenha sido Gates quem exerceu o papel preponderante na escolha do microbiologista etíope.

Mas para Trump, a China é um alvo mais fácil para disparar sua artilharia, e justificar as falhas de seu próprio governo, onde críticos sensatos são afastados e aduladores são prestigiados. E as falhas não foram poucas.

Segundo artigo no Wall Street Journal de 22 de abril, o Secretário de Serviços Humanos e de Saúde norte-americano, Alex Azar, foi alertado desde 3 de janeiro pelo CDC, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças, sobre os riscos do coronavírus. Em 28 de janeiro o Secretário declarou que o vírus não traria impacto no dia-a-dia dos norte-americanos, e mesmo em 25 de fevereiro, quando o CDC alertou que já estava se preparando para uma pandemia, Azar informou à imprensa que o vírus estava “contido”.

O negacionista-mór da pandemia, Donald Trump, há poucos dias afastou o Dr. Rick Bright de seu cargo como chefe da Autoridade de Desenvolvimento e Pesquisa Biomédica Avançada, a agência governamental que está no centro dos esforços governamentais para obter um tratamento e uma vacina para o coronavírus. O cientista acredita que foi removido de sua função por ter insistido em impor limites ao uso da hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19, contrariando a Trump.

O afastamento do Dr. Rick Bright pode enfraquecer o papel da agência governamental que ele chefiava, em um momento crucial da busca por uma vacina para a prevenção da COVID-19. Neste contexto, cresce a relevância de entidades privadas como a Fundação Bill & Melinda Gates, o que deverá acirrar os ataques contra Gates, vindos de negacionistas da pandemia e da vacina, bem como dos adeptos de teorias conspiratórias.

Um dos principais projetos em que a Fundação está envolvida, já há alguns anos, é o da Aliança Global pelas Vacinas e Imunização, GAVI, na sigla em inglês.  O objetivo declarado da Aliança é o de “ajudar a vacinar a metade das crianças do mundo contra doenças infecciosas debilitantes e mortais”. Nas palavras de Bill Gates, “todas as vidas tem igual valor, …. não importa se ricas ou pobres”.

Vacina Gavi
Parceiros na Aliança Global pelas Vacinas e Imunização, GAVI

Os principais parceiros desta aliança incluem, além da Fundação Bill & Melinda Gates, a OMS, UNICEF, Banco Mundial. GAVI tem como doadores, diversos países e fundações privadas. Colaboram também, ONGs, fabricantes de vacinas, e institutos de pesquisa. Dentro do programa, a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) já produziu vacinas de baixo custo, através de parceria com a Fundação Bill & Mellinda Gates.

Para que se possa entender melhor a demonização de Bill Gates, falta abordar o “projeto ID2020”, também de iniciativa de sua Fundação. Em 2018, a “Aliança de Parceiros pelo ID2020”, em associação com o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR), lançou o Manifesto da Aliança ID2020, que argumenta em favor de uma identidade digital.

“Para enormes contingentes de refugiados, apátridas e outros grupos marginalizados, não é possível se recorrer a sistemas de identificação nacionais. Alguma forma alternativa necessita ser fornecida a estes indivíduos, para que possam acessar de forma segura e confiável os sistemas dos Estados. E que isto possa ser feito através de uma forma confiável, que possa ser verificada de forma física e online.”

Em setembro de 2019, a Aliança ID2020 realizou sua reunião de cúpula anual em Nova York. Na ocasião foi anunciado o lançamento de um programa de identidade digital entre o Governo de Bangladesh e GAVI, a Aliança pela Vacina.

“Reconhecendo a oportunidade que a imunização oferece para servir como plataforma para a identidade digital, o programa alavanca as operações de vacinação e de registro de nascimento, para oferecer aos recém-nascidos, uma identidade digital com associação biométrica, duradoura e portável.”

Em relação à biometria de crianças, o UNICEF, em associação com o Banco Mundial, já emitira dois documentos com diretrizes para uso biometria em crianças, alertando para certos riscos envolvidos. O UNICEF argumenta que a tecnologia biométrica, como no caso do reconhecimento facial, foi inicialmente projetada para uso em adultos, tornando-se mais sujeita a erros de reconhecimento quando usada em crianças, podendo ainda trazer “impactos negativos em comunidades vulneráveis”.  

A biometria se aplicaria a medidas faciais, impressões digitais, íris, impressões dos pés e das mãos. Ainda segundo o UNICEF, o uso destas tecnologias em crianças com menos de 5 anos de idade ainda requer mais pesquisas.

A associação da campanha de vacinação da GAVI com o programa de identificação digital contribuiu para alimentar teorias conspiratórias, e que podem interferir na questão do controle da pandemia e prevenção da COVID-19.

Este é, basicamente, o pano de fundo a partir do qual se alimentam as campanhas contra a vacinação em massa contra o coronavírus. Vamos ver como, nos Estados Unidos, os negacionistas da alta mortalidade do SARS-CoV-2, e adeptos de teorias conspiratórias,  fizeram de Bill Gates e seu projeto de desenvolver uma vacina para combater a pandemia, um alvo preferencial de suas críticas.

O negacionismo da pandemia e da vacinação. Um dos principais opositores da vacinação compulsória é o médico e ex-congressista Ron Paul, que através do Instituto que leva seu nome, dá voz a negacionistas, que comparam o número de vítimas fatais da atual pandemia à media de vítimas das gripes comuns no país.

Ron Paul faz parte dos libertários de direita nos Estados Unidos. Há menos de cinco anos ele estava bem alinhado com as teses do think tank Atlas Network1, um dos epicentros do ultraliberalismo no país, tendo se apresentado em 2015 como palestrante na Oitava Conferência do International Students for Liberty, entidade à qual o MBL estava ligado.

No entanto, em 2017, Ron Paul já renegara seu envolvimento anterior com a Atlas Network, reconhecendo o envolvimento da entidade na deposição de Dilma Roussef, ao afirmar que o MBL, de Kim Kataguiri, atuou segundo as instruções de Alexander Chafuen, o CEO da Atlas.  Paul denunciou também o envolvimento da Atlas com o lobby do tabaco2.

Mesmo se tornando crítico do principal think tank do ultraliberalismo norte- americano, Ron Paul continua a adotar uma política  de “libertarianismo de direita”, por vezes se alinhando com as posições de Trump. Ele é condescendente com o presidente em relação a algumas políticas, com a justificativa que os presidentes do país não conseguem suportar as pressões do “Deep State”.

Através de artigo na página de seu Instituto, Ron Paul questiona se as medidas adotadas em busca da cura não estão trazendo mais malefícios que a própria doença, por prejudicarem os negócios e trazerem desemprego. Ele defende ainda que os governos não têm o direito ou autoridade para definir que atividade é “essencial”.

Em alinhamento com a política disruptiva de Trump de solapar a quarentena, Paul dá força para as manifestações de protesto que se espalham pelo país, contra o que ele denomina de “prisão domiliciar”.

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Manifestantes contra a quarentena com rifles de assalto, capital do Arizona \  Foto: Ross D. Franklin/AP

Agora Ron Paul investe contra a vacina para combater o coronavírus, alertando que as pessoas deveriam ficar “cautelosas” sobre a futura vacina. Ele alega que táticas de amedrontamento” estão sendo usadas para colocar pressão sobre as pessoas, para convencê-las de que deveriam se vacinar”. Em entrevista em áudio, Ron Paul declarou que Bill Gates  quer dominar o mundo através da vacinação compulsória3.

A dominação do mundo por Bill Gates é o elo de ligação entre negacionistas da pandemia e da vacinação compulsória da população, com os adeptos de teorias conspiratórias, de que um microchip ou cápsula será introduzido na vacina, e que supostamente possibilitaria formas de controle sobre as pessoas.

As teorias conspiratórias. Segundo a Agência Reuters, a teoria conspiratória surgiu a partir da deturpação de uma entrevista de Gates à rede de comunidades Reddit, e se espalhou em milhares de postagens pelo Facebook e TwitterNa entrevista ao Reddit, do tipo perguntas e respostas, Gates fez menção de que pode prever o uso de “certificados digitais associado à fichas clínicas”.   

Os boatos de implantação de chips surgiram a partir de 19 de março, com uma publicação no site Biohackinfo intitulada “Bill Gates irá usar implantes de microchips para combater o coronavírus”. O artigo acrescenta que, atualmente, a forma mais eficaz de implementar a identidade digital seria através de implantes de microchips, com identificação por radio-frequência. Entretanto, em nenhum momento da entrevista ao Reddit, Gates mencionou o uso de microchips implantados, seja no projeto do ID2020 ou na vacinação contra a COVID-19.

O artigo no Biohackinfo menciona um fato verídico, que é a tecnologia do “quantum dot dye” (corante ou tatuagem de ponto quântico), desenvolvida no prestigioso MITMassachusetts Institute of Technology.  O texto associa esta tecnologia aos certificados digitais a que Gates se referiu no projeto ID2020, para possibilitar que populações marginalizadas possuam documentos de identidade confiáveis. 

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Vacinação com microagulhas e implantação dos pontos quânticos \ Créditos: Second Bay Studios

Kevin McHugh, da Rice University, Texas, e especialista em bioengenharia, participou como co-líder na pesquisa do “quantum dot dye”, quando estava do MIT. Ele explicou em boletim técnico da Universidade de Rice, que pontos quânticos fluorescentes feitos de cobre são aplicados no corpo humano através de microagulhas de açúcar, contendo a vacina. As agulhas se dissolvem sob a pele, deixando os pontos quânticos encapsulados. O padrão dos pontos pode ser lido, para identificar qual vacina foi aplicada.

McHugh acrescenta que foi, de fato, procurado pela Fundação Bill & Mellinda Gates, que buscava formas de tornar mais efetivo o controle do histórico de vacinação de crianças. Não seria tão surpreendente, portanto, se a “tatuagem de pontos quânticos” estiver sendo considerada nos planos de Gates para o projeto de identificação digital ID2020, mas o aspecto ético deveria passar por ampla discussão prévia.

Segundo o Biohackinfo, alguns setores religiosos fundamentalistas se opõem à certos procedimentos  invasivos do corpo, mesmo se for para prevenir uma terrível pandemia. No caso de alguns grupos cristãos, esta rejeição se dá por acreditarem que estas novas tecnologias de identificação estariam associadas à chamada “marca de satã”, mencionada na Bíblia.

Enquanto isto, em uma aldeia no interior de Bangladesh, crianças estão sendo vacinadas no projeto da GAVI, e recebendo “certificados digitais” do ID2020. Serão elas precursoras de um “Admirável Mundo Novo”. Será utópica esta sociedade futura, ou distópica como no livro de Aldous Huxley?

Cidadãos norte-americanos estão sendo colocados diante de um dilema shakespeariano: “Tomar ou não tomar a vacina contra o coronavírus, eis a questão”. Mas a verdadeira decisão pode ser colocada de forma objetiva: “O valor da vida é maior que princípios (abstratos ou não) de liberdade, e que seus medos (infundados ou não) de ser constantemente controlado por alguma organização ou governo?” 

Notas do autor:

1. O ativismo da Atlas Network em prol do ultraliberalismo foi assunto de matéria anterior no blogue. 

2. O lobby internacional do tabaco foi abordado em artigo anterior. 

3. As acusações de dominação do mundo através de vacinas, feitas por Ron Paul a Bill Gates, foram também extensivas ao imunologista Anthony Fauci, que faz parte da força tarefa da Casa Branca de combate ao coronavírus, e uma das poucas mentes lúcidas na administração Trump.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo Blogue Chacoalhando.