Indústria bélica influencia a política externa do governo Biden

Por Ruben Rosenthal

Os gastos com armamentos apenas fortalecem a continuidade de guerras e novas intervenções militares. Uma aliança profana une think tanks, complexo bélico e imprensa.  

Soldados norte-americanos em avião de transporte chegam a Mazar-i-Sharif, Afeganistão, abril 2010
Biden dará fim às guerras infindáveis? Chegada de tropas ao Afeganistão, 2010 \ Foto: Damon Winter/The New York Times

Nos Estados Unidos é recorrente o envolvimento promíscuo dos institutos de análise política, conhecidos como think tanks, com a indústria bélica, órgãos do governo, jornalistas e governos estrangeiros.

Vários indicados por Biden para posições relevantes na administração tiveram ligações estreitas com o think tank CNAS, Centro para uma Nova Segurança Americana, que tem um histórico de apoiar as políticas belicistas do Pentágono.

Embora Biden tivesse prometido em 2019 que se chegasse à Casa Branca daria fim às “guerras infindáveis”, as novas escolhas de integrantes para os cargos de política externa e de segurança parecem sugerir o contrário. A retirada das tropas do Afeganistão pode ter sido uma exceção, que talvez ele não pretenda repetir no Iraque e na Síria.

Ou então, ao invés do engajamento direto de tropas norte-americanas, talvez Biden venha a terceirizar as guerras dos Estados Unidos, empregando tropas de outros países ou de facções terroristas (proxy wars). O que não seria novidade.

A volta da bolha assassina

O filme de 1958 “The blob”, que recebeu no Brasil o título de “A bolha assassina”, foi estrelado por Steve McQueen, então com 28 anos. No filme, uma entidade alienígena amorfa e gelatinosa chegou ao planeta Terra presa em um meteorito.

The revenge of the blob
A volta da bolha assassina \ cartaz do filme The Blob, 1958, Paramount

O setor tradicionalista do establishment de relações exteriores foi apelidado de “blob” pelo assessor de Barack Obama, Ben Rhodes, em 2016. Para Rhodes, Hillary Clinton (então secretária de Estado), bem como outros belicistas de ambos os partidos que apoiavam a guerra no Iraque e no Afeganistão faziam parte da bolha.

Tanto Barack Obama como Donald Trump procuraram manter uma certa distância dos tradicionalistas, o que não impediu a forte influência de Hillary Clinton no governo Obama, e de John Bolton na administração Trump.

Quando o candidato vitorioso Joe Biden começou a formar, em dezembro de 2020, a equipe sênior que assumiria posições-chave na política externa e na segurança, ele privilegiou a elite linha-dura do establishment, os chamados falcões da política. Para o  site Vox, foi a “vingança da bolha”.

Para o cargo de conselheiro de segurança nacional, Biden chamou Jake Sullivan, que já fora seu conselheiro de segurança, quando vice-presidente na gestão de Obama. Sullivan atuou como membro (fellow) sênior junto ao Carnegie Endowment for International Peace.

Os doadores do Carnegie incluem as empresas bélicas Boeing e Northrop Grumman, a Marinha, a Força Aérea e a agência de inteligência da defesa, segundo relatório de outubro de 2020 do Centro para Política Internacional (CIP, na sigla em inglês).

Para o Departamento de Estado, o presidente convocou Antony Blinken, que o acompanha desde 2002. No segundo governo Obama, Blinken passara a ser o número 2 no Departamento de Estado.

Segundo o site Politico, em 2017 o atual secretário de estado formou com Michèle Flournoy, Avril Haines e outros membros da administração Obama, a empresa de consultoria WestExec Advisors.

Muitos dos funcionários da empresa são membros do Partido Democrata que ocuparam posições na segurança nacional e política externa.  A WestExec Advisors tem em seu portfólio de clientes corporações do setor bélico, como a Boeing e a firma israelense Windward, de tecnologia militar.

Think tanks e a indústria bélica

Com frequência, os think tanks não são transparentes sobre a origem dos fundos que recebem. Desta forma, relatórios favoráveis aos interesses dos doadores são produzidos pelos pesquisadores dos institutos, sem que seja mencionada a existência de possíveis conflitos de interesses nos pareceres.

O relatório produzido pelo CIP analisou o financiamento pelo governo norte-americano e por fornecedores da defesa aos 50 maiores think tanks dos EUA. Os principais recipientes destes financiamentos foram a Corporação RAND, CNAS, e New America. Os setores do governo que mais contribuíram foram a Secretaria de Defesa, a Força Aérea, o Exército, o Departamento de Segurança Interna, e o Departamento de Estado. As empresas fornecedoras da Defesa que fizeram as maiores doações foram a Northrop Grumman, Raytheon, Boeing, Lockheed Martin e Airbus.

Outros institutos também receberam seu quinhão. O Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) construiu sua sede de 1.400 metros quadrados em Washington com fundos recebidos de empresas do setor bélico, como a Lockheed, Boeing, Rayheon, de gigantes do setor farmacêutico, como a Procter & Gamble, de petrolíferas como a Chevron, e do Sultão de Omã.

Lockheed Martin’s latest Indago tethered variant is ready for intelligence at the battlefield
Drone Indago 3, para vigilância e inteligência \ cortesia Lockheed Martin

Conflitos de interesses na administração Biden

O relatório do “projeto porta-giratória” (revolving door project), do Centro para Pesquisa Econômica e Política (CEPR, na sigla em inglês), revelou que pelo menos 16 dos especialistas indicados por Biden para cargos relevantes nas áreas de segurança nacional e de relações exteriores, já exerceram funções na estrutura do think tank CNAS.

Para a Diretoria Nacional de Inteligência, a qual se subordinam 17 agências de inteligência, foi indicada Avril Haines. Haines já atuara como a número 2 da CIA na administração Obama, quando o programa de assassinatos por drones causou a morte de centenas de civis. Haines também teria acobertado os envolvidos no programa de torturas que decorreu do 11 de setembro.

Outra indicação de um integrante com vínculos ao CNAS foi a de Victoria Nuland para a sub-Secretaria de Assuntos Políticos, o terceiro cargo em importância do Departamento de Estado. Com seu forte posicionamento anti-Rússia, Nuland defendera anteriormente a presença de bases permanentes da OTAN próximas à fronteira oriental do Tratado.

Os setores progressistas conseguiram  evitar a indicação de Michèle Flournoy para o Departamento de Defesa, por seu apoio anterior à guerra do Afeganistão e à intervenção na Líbia. Flournoy foi co-fundadora do CNAS em 2007. Ao final, o cargo máximo da Defesa ficou para o general Lloyd Austin, que chegou a comandar as tropas norte-americanas no Iraque.

Outros indicados para posições relevantes na administração Biden, que tinham vínculos com o CNAS, foram David Cohen, que assumiu como vice-diretor da CIA, Colin Kahl, que ficou como sub-secretário de Defesa, e Susan Rice, como diretora do Conselho de Política Doméstica.

Doadores do CNAS

No site do CNAS estão indicadas as doações recebidas no período outubro 2019-setembro 2020. As maiores contribuições são provenientes do setor de defesa, aí se incluindo a Northrop Grumman Corporation, o Departamento de Estado e o de Defesa.

Elevadas contribuições foram também recebidas do Bank of America; de empresas do setor de informática, como a Google e Microsoft; e de instituições ligadas a governos de outros países, como Japão, Coréia, Taiwan e Canadá.

O relatório do “revolving door project apresentou o estudo de cinco casos em que o CNAS promoveu os interesses de seus doadores, sem a devida transparência: apoio a fornecedores de material bélico para as Forças Armadas;  apoio a estratégias no Afeganistão defendidas por oficiais das FAs com vínculos ao CNAS; apoio à embaixada dos Emirados Árabes Unidos, aliviando regras de exportação de drones de uso militar; recomendação de políticas para as relações EUA-China que beneficiassem doadores do think tank; defesa da compra de jatos de guerra da Northrop Grumman.

New B-21 stealth bomber aircraft, Northrop Grumman
Novo bombardeiro B-21 Raider, invisível ao radar / Arte gráfica: cortesia Northrop Grumman

Em relação ao quinto item, consta no relatório que, em 2018, o CNAS enalteceu o bombardeiro invisível B-21 Raider (dados técnicos) produzido pela  Northrop Grumman, defendendo a aquisição de 50 a 75 unidades, em adição as 100 que já haviam sido adquiridas. Coincidentemente, pouco tempo depois, a empresa bélica doou ao CNAS uma quantia de valor não inferior a 500 mil dólares (site do CNAS).

O relatório do revolving door project também ressaltou que diversos doadores –  indivíduos ou corporações – se encontram representados no quadro de conselheiros do CNAS, chegando a compor 70% dos assentos. Várias destes doadores têm vínculos diretos com empresas do setor de defesa. Embora o conselho não exerça governança, os conselheiros podem encontrar formas de defender seus interesses particulares junto à diretoria do think tank.

A promiscuidade entre think tanks e governos estrangeiros

Denúncias envolvendo ligações suspeitas entre think tanks e governos estrangeiros não constituem novidade. Em 2014, artigo no The New York Times já alertara que potências estrangeiras compravam influência através de think tanks. Segundo o artigo, mais de 12 institutos de análises políticas em Washington haviam recebido doações de governos estrangeiros.

Alguns acadêmicos destes institutos chegaram a relatar que sofreram pressões internas para produzirem relatórios que favorecessem os financiadores das pesquisas, de forma a induzir autoridades norte-americanas a adotar determinadas políticas sugeridas.

Para o CEPR é preciso não esquecer que os governos estrangeiros que financiam think tanks norte-americanos são aliados dos Estados Unidos. Portanto, muitas vezes os interesses desses países não são necessariamente considerados antagônicos aos dos EUA.

Mas não é sempre assim. Donald Trump vetou o acordo de livre comércio da Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês) no primeiro dia de seu governo. Conforme citado no artigo do NYT, durante a gestão de Barack Obama, o Japão concedera fundos ao CSIS para promover o TPP.

A promiscuidade entre think tanks e jornalistas

O jornalista Dan Cohen alerta em artigo no The Grayzone que jornalistas dos principais veículos da mídia norte-americana, que atuam em política externa e segurança nacional, têm ligações com o CNAS. Estes jornalistas provavelmente recebem benesses através dos financiamentos que abastecem o CNAS.

Cohen lembra que o envolvimento indevido entre jornalistas e o governo dos EUA é anterior à fundação do CNAS em 2007. As reportagens do jornalista David Sanger – atual correspondente-chefe em Washington do NYT – sobre a existência de armas de destruição de massa no Iraque ocorreram ainda no governo do presidente George W Bush.

Em 2008, Sanger fez parte do programa de residência do CNAS. O jornalista prosseguiu difundindo desinformação com seus artigos, em temas como o desenvolvimento de armas atômicas pelo Irã, ataques cibernéticos pela Rússia, como também sobre o vírus Sars-CoV-2 ter se originado no laboratório chinês de Wuhan.

No site do CNAS são citados como participantes programa de residência, quatro jornalistas do NYT, quatro do Washington Post, além de um jornalista do site Foreign Policy (Política Externa). Dan Cohen dá alguns exemplos da desinformação que estes jornalistas contribuíram para propagar.

Eric Schmitt, do NYT, difundiu estórias de hacking pela Rússia; Michael Gordon (ex-NYT e agora no Wall Street Journal) insistiu durante meses em propagar notícias sobre a origem do coronavírus no laboratório de Wuhan; Greg Jaffe, do Washington Post, escreveu sobre a retirada de tropas do Afeganistão; Thomas Ricks, também do Washington Post, comparou Putin a Bin Laden. Além das histórias de Sanger, é claro.

Concluindo. Os gastos com armamentos apenas fortalecem a continuidade de guerras e novas intervenções militares. Uma aliança profana une think tanks, complexo bélico e imprensa.  Enquanto isso,  a população norte-americana anseia por um sistema universal de saúde.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

 

Tretas dividem a “esquerda” norte-americana

Por Ruben Rosenthal

A esquerda fake não ataca as estruturas reais de poder por receio de sofrer represálias. Mas tomou para alvos de ataques os contestadores destas estruturas.

Cenk Uygur and Ana Kasparian accuse journalist Aaron Maté of being “paid by the Russians” and working for “disgusting dictators”, May 2021
Cenk Uygur e Ana Kasparian acusam o jornalista Aaron Maté de ser pago pelos russos e estar a serviço de ditadores \ Programa do TYT, 26 de maio, 2021

Uma série de contendas dentro do chamado campo progressista vem se proliferando nas mídias sociais dos Estados Unidos, envolvendo políticos, jornalistas e youtubers. Ao invés do debate ideias, recorre-se cada vez mais ao uso de táticas sujas.

Acusações de assédio sexual ou de conluio com países inimigos dos EUA são utilizadas, mesmo sem qualquer comprovação ou mínima existência de evidências.

Embora o campo assumidamente pró-corporações dentro do Partido Democrata (PD) possa estar se beneficiando do atrito entre os “progressistas”, as tretas estão servindo para melhor expor as verdadeiras posições políticas de ícones da esquerda.

Os movimentos de base precisarão avaliar em quem podem confiar no futuro. Existe o risco, no entanto, de fortalecimento do extremismo de direita, caso o PD não lide com o desamparo de grandes contingentes da população.

A esquerda no Partido Democrata. O ativismo de movimentos engajados na defesa de propostas progressistas possibilitou o avanço da esquerda no Partido Democrata. Em 2018, o comitê de ação política Justice Democrats (Democratas da Justiça) ajudou a eleger Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), Ayanna Pressley, Rashida Tlaib, Ilhan Omar, RO Khana, Raúl Grijalva e Pramila Jayapal.

AOC, Pressley, Omar e Tlaib constituíram o chamado Esquadrão Progressista, que foi acrescido por Jamaal Bowman e Cori Bush nas eleições de 2020. No entanto, uma vez consolidada a hegemonia política do PD no executivo e nas duas casas do legislativo, as ações dos parlamentares progressistas eleitos não vêm correspondendo às expectativas dos movimentos base.

O Esquadrão Progressista
O Esquadrão progressista. A partir da esquerda: Alexandria Ocasio-Cortez, Ayanna Presley, Ilhan Omar e Rachida Tlaib. Conferência de imprensa no Capitólio, julho 2019 \ Foto: Alex Wroblewski/Getty Images

Para os ativistas, chegara a hora do Esquadrão passar da retórica on-line nas mídias sociais, para avançar em causas como o Sistema Universal de Saúde (SUS), salário mínimo de 15 dólares/hora, tratamento humanitário para a questão dos imigrantes e política verde com enfoque social.

No entanto, começou a se evidenciar que alguns ícones da esquerda, tanto no Congresso como na mídia dita progressista, não estavam dispostos a questionar as lideranças do Partido. Aqueles que ousaram fazer questionamentos atraíram para si a ira dos defensores dos interesses pró-corporações.

Aí vieram as tretas, e algumas máscaras progressistas começaram a cair.

As tretas com a esquerda do Partido Democrata 

Em sintonia com os movimentos de base, o comediante e youtuber Jimmy Dore tem sido implacável nas críticas ao Esquadrão Progressista. “Se eles são nossos aliados deveriam estar lutando pelas propostas que dizem defender. Desde a posse em 3 de janeiro, eles são aliados do establishment, [dos financistas] de Wall Street, do complexo militar-industrial, e dos policiais”.

Mas defender a implantação do SUS norte-americano, o Medicare for All, exigiria bater de frente com o novo presidente e sua vice. Joe Biden e Pamela Harris haviam recebido vultosas doações de grandes corporações da área da saúde na campanha eleitoral.

Ainda em novembro de 2020, quando já se configurava a possibilidade do PD vir a dominar o cenário político, Jimmy Dore fez uma provocação bombástica.

Através da campanha #ForceTheVote (Force  a Votação), o comediante desafiou os parlamentares considerados progressistas a colocarem uma condição para apoiar o reencaminhamento da congressista democrata Nancy Pelosi à liderança da Câmara. Pelosi deveria levar à votação em plenário o projeto de lei do Medicare for All, de autoria da deputada Pramila Jayapal.

Mas, ao final, os progressistas nada fizeram para aproveitar a ocasião única que se colocara no início de 2021, “traindo a todos que acreditaram no Esquadrão”, declarou Jimmy. O youtuber tem sido bastante duro em suas críticas a congressistas e jornalistas que se autodenominam de esquerda, mas que não apoiaram colocar o projeto do SUS em votação.

Cai a máscara de Alexandria Ocasio-Cortez. A congressista já foi defensora do Medicare for All,  como mostra o vídeo de 2018 em que ela defende suas prioridades. Mas, após as eleições de 2020, AOC passou a considerar que o projeto de Pramila Jayapal “não teria a menor condição de ser aprovado na Câmara, e por este motivo não deveria ser posto em votação”. Assim, a congressista se posicionou contrariamente aos movimentos de base que a elegeram.

Cai a máscara de Pramila Jayapal. A congressista declarou que colocar em votação o seu próprio projeto de lei do Medicare for All iria “terminar o nosso movimento”. Para Jimmy Dore, “Pramila Jayapal mente, como uma política charlatã. Desta forma, ela consegue fundos e atrai votos daqueles que esperam que ela irá lutar pela aprovação do projeto que encaminhou”.

Cai a máscara de Bernie Sanders. Bernie Sanders é autor da proposta do SUS encaminhada ao Senado, em boa parte semelhante à da deputada Jayapal. Quando da escolha do candidato Democrata às eleições presidenciais de 2020, o Medicare for All foi uma das principais bandeiras de Sanders, a qual ele já defendera anteriormente, na eleição de 2016.

O jornalista da mídia liberal, Mehdi Hasan, questionou Sanders por que ele não fazia uso de sua influência política a favor da  expansão do sistema de saúde e do salário mínimo de 15 dólares/hora, propostas que foram tão defendidas pelos progressistas nas eleições de 2020. Pego de surpresa, Sanders procurou se esquivar o melhor que pode.

Jimmy comentou a entrevista em seu programa, classificando Sanders de mentiroso, e afirmando ainda que “o senador claramente se tornara um instrumento de Joe Biden e do establishment do Partido Democrata, fazendo o trabalho sujo por Biden”.

Chris Hedges, ganhador do Prêmio Pulitzer de jornalismo de 2002, já declarara em 2020 no Jimmy Dore Show que “Sanders não quer pagar o preço de ir contra Nancy Pelosi e Schumer (líder do PD no Senado), que controlam as verbas partidárias vindas das corporações e de Wall Street”. Os pontos relevantes da entrevista foram transcritos em artigo, no item On Voting: Not Biden or Bernie (Votação: Nem Biden Nem Bernie).

Chris Hedges on Jimmy Dore Show
Chris Hedges no Jimmy Dore Show, abril 2020

Deve ser frustrante para os admiradores de Sanders, que chegou a ser considerado como o maior ícone da esquerda no Congresso norte-americano, constatarem que, no ocaso de sua carreira política, o guerreiro perdeu a coragem de defender seus ideais.

As tretas entre jornalistas e youtubers

Os Jovens Turcos. O programa de notícias e comentários políticos no YouTube “The Young Turks” (TYT) tem mais de cinco milhões de inscritos. O perfil do programa é considerado anti-establishment e progressista/liberal. Cenk Uygur é um dos fundadores, sendo também apresentador; Ana Kasparian é produtora e também apresentadora do noticiário.

O nome escolhido para um programa que se considera progressista é no mínimo polêmico. “Os Jovens Turcos” foi um movimento revolucionário que se opôs ao regime absolutista no Império Otomano, mas que foi considerado responsável pela limpeza étnica e genocídio de centenas de milhares de armênios no começo do século 20. Uygur é natural de Istambul, Turquia, e na juventude era um negacionista do genocídio armênio; atualmente ele prefere não opinar mais sobre o assunto. 

A treta entre TYT e Aaron Maté. Jornalista premiado, o canadense Aaron Maté vem vem denunciando a farsa que fora montada por setores da OPAQ, a Organização para a Proibição de Armas Químicas – a mando dos EUA – para incriminar o governo Assad pelo uso de armas químicas na Síria (ver no blogue Chacoalhando). Maté foi inclusive convidado para testemunhar perante o Conselho de Segurança da ONU, em setembro de 2020.

Aaron Maté também contribuiu para expor a farsa do episódio que ficou conhecido como Russiagate. Quando das eleições presidenciais norte-americanas de 2016, a Rússia foi acusada de conluio com Donald Trump por veículos da mídia corporativa e mesmo independente.

A treta entre Maté e os jornalistas de Os Jovens Turcos ocorreu porque o canadense “tirou um sarro” de Cenk Uygur, por este ter afirmado no Twitter que o conflito entre Israel e os palestinos era essencialmente uma questão religiosa, ou da forma posta por Uygur, uma questão [de escolha] de “deuses no céu”.

Centenas ou milhares de críticas a Uygur ocorreram na ocasião, mas a dupla do TYT não perdoou o comentário jocoso do canadense em 25 de maio: “O meu Deus me diz que este é o pior tuíte de todos os tempos”. No dia seguinte, a dupla deu o troco, de forma vil.

Uygur e Ana disseram no programa do TYT de 26 de maio, que “Maté estava a serviço de ditadores desprezíveis”, uma provável alusão ao russo Vladimir Putin e ao presidente sírio Bashar al-Assad. A insinuação decorrera certamente devido às reportagens de Maté sobre os casos do Russiagate e da OPAQ, em que contrariou os interesses dos EUA e da OTAN. 

Ana se referiu a Maté como “aquele cara que nega que crianças sírias foram mortas com ataques químicos. Foda-se, Aaron Maté”, complementou ela de forma agressiva, fazendo um certo gesto com o dedo médio, como pode ser visto na foto que abriu este artigo.

A treta entre TYT e Jimmy Dore. Jimmy Dore chegou a trabalhar por cerca de 10 anos como comentarista convidado com Os Jovens Turcos, até se afastar completamente no começo de 2019, de forma bastante amigável. Nesta ocasião, Jimmy já estava bem estabelecido como youtuber, com seu próprio programa, o Jimmy Dore Show, atualmente com quase 900 mil inscritos.

O posicionamento de Jimmy a favor de se pressionar os congressistas progressistas do PD a defenderem o Medicare for All através da campanha #ForceTheVote gerou algumas arestas com os jornalistas do TYT. Em dezembro de 2020, Uygur chegou a defender que se colocasse pressão nos congressistas democratas para se conseguir aprovar o projeto do Medicare for AllMas poucos dias depois, Ana declarou que não acreditava na boa fé de Jimmy Dore. Para Jimmy, o TYT é uma fraude, pois recebe fundos do establishment e não pode se colocar contra as corporações.

Entretanto, ao se solidarizar com Aaron Maté, na sequência das acusações infames que o TYT fizera contra o canadense, Jimmy Dore atraiu ainda mais a ira de Uygur e Ana. Em entrevista ao canal The Hill, Uygur disparou a metralhadora giratória contra Jimmy, acusando-o de querer destruir o movimento progressista e de fazer o jogo da direita. Aaron Maté foi entrevistado no mesmo programa do The Hill, e comentou os ataques que recebera de Uygur e Ana.  

Em outro ataque vindo do TYT, Jimmy recebeu uma mensagem privada de Ana em que a jornalista fez referência a ter sofrido assédios sexuais da parte dele, quando ambos eram colegas de trabalho no TYT.

Jimmy percebeu vinha chumbo grosso pela frente e, se antecipando, revelou no Jimmy Dore Show, de 12 de julho sua versão do que se passara 7 anos antes. De fato, pouco tempo depois, Uygur e Ana dispararam acusações contra Jimmy no TYT.

Independentemente de quem esteja com a razão, não deixa de causar estranheza que Ana Kasparian tenha mantido um relacionamento aparentemente cordial com Jimmy por 7 anos, para então acusá-lo, logo após o comediante de solidarizar com Maté.

A treta entre TYT e Glenn Greenwald. Ganhador do prêmio Pulitzer de jornalismo de 2014, Glenn recebeu apoio do TYT quando foi acusado pelo governo Bolsonaro de pertencer a uma quadrilha, por ter divulgado mensagens obtidas por hackers, que expunham os delitos da Operação Lavajato.

Mesmo morando no Brasil, Glenn permanece um atento e arguto observador da política norte-americana. Conforme análise do jornalista em artigo de 7 de julho na plataforma Substack, o mais relevante nas polêmicas envolvendo o TYT é o fato de que elas revelam “o caráter tóxico de uma tática destrutiva que se tornou muito comum no discurso liberal, e que começou na campanha presidencial de 2016”.

Na ocasião, a narrativa de que os russos haviam se infiltrado nas instituições norte-americanas para influenciar a política do país foi encampada pelo Partido Democrata, e encontrou amplo eco na mídia corporativa. Durante a campanha presidencial de 2016, Hillary Clinton acusou a candidata dos Verdes, Jill Stein, de apoiar a Rússia. Clinton veio a fazer o mesmo com Tulsi Gabbard, na campanha de 2020.

Agora, também várias mídias ditas progressistas recorrem às mesmas “táticas de levantar insinuações ou acusações falsas de que alguém é um agente pago pelos russos ou que cometeu assédio sexual”, complementou Glenn, em uma clara alusão ao TYT. Em resposta, Uygur recorreu novamente a sua tática predileta, e insinuou que Glenn omite evidências de seu público, questionando o passado jornalístico do ganhador do prêmio Pulitzer.

A esquerda fake não ataca as estruturas reais de poder, por receio de sofrer represálias. Mas tomou para alvos de ataques os contestadores destas estruturas, como Jimmy Dore, Glenn Greenwald e Aaron Maté, dentre outros.

Futuro incerto. Em artigo no Chicago Reader de junho de 2021, o jornalista Leonard Goodman considera que “o colapso do Esquadrão mostra que a mudança não virá de dentro do Partido Democrata. Os dois partidos corporativos que controlam Washington, D.C., estão podres até a raiz. É uma missão tola pensar que podemos fazer os democratas lutarem pelos trabalhadores, enquanto os principais doadores do partido estão lhes ditando para manter o status quo. É hora dos progressistas se afastarem do Partido Democrata e apoiarem um terceiro partido que esteja livre de influência corporativa”.

Mas, por outro lado, o desalento de amplos setores da população com o Partido Democrata poderá alimentar o crescimento de uma direita protofascista, avalia Chris Hedges. Para o jornalista, “graças à inépcia de Trump, o país foi salvo de um golpe de estado, mas a administração Biden poderá abrir o caminho para um fascista competente, como Mike Pompeo (ex-secretário de estado) ou o (senador) Tom Cotton, ligados à direita cristã”.

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Tio Sam financia rappers na guerra híbrida contra Cuba

Por Ruben Rosenthal

Agentes financiados pelos EUA associados ao Movimento San Isidro defendiam a intervenção em Cuba meses antes das mídias sociais começarem a criticar o governo cubano de forma massiva.

Patria o CIA
Pátria ou CIA: Músicos do rap Patria Y Vida, Foto editada pelo The Grayzone \ Foto original: Yotuel Romero/Instagram

As cenas de um carro de polícia virado por manifestantes ocorridas no município de 10 de Outubro e coquetéis molotov atirados na polícia, ilustram bem o que foram as amplas manifestações de rua ocorridas em 11 de julho em Cuba (ver vídeo).

Segundo relato da BBC News Mundo, os protestos se iniciaram na cidade de San Antonio de los Baños, sudoeste de Havana, e de lá se espalharam por cerca de 20 vilarejos e cidades de todo o país. O artigo chama atenção para a questão do agravamento da situação econômica na ilha e do aumento das mortes por Covid-19.

Mas os veículos de mídia do Ocidente não mencionam o papel subversivo desempenhado pelos EUA, ao incentivar e financiar a dissidência política de artistas e rappers cubanos, reunidos principalmente no Movimento San Isidro. O rap anticomunista “Patria y Vida” se tornou o hino dos protestos, segundo a revista Rolling Stone.

O slogan do Movimento San Isidro é uma corruptela do lema “Patria o Muerte”, que Fidel Castro usou pela primeira vez no memorial aos trabalhadores das docas de Havana, mortos em 1960 em atentado da CIA.

Os EUA e a estratégia da guerra híbrida

Os EUA sabem tirar proveito dos sentimentos nacionalistas de minorias, e das situações de desavenças internas em países que atravessam uma crise econômica, para então lançarem mão de seu arsenal de táticas de guerra híbrida.

Foi assim, ao incentivarem os movimentos separatistas da etnia Uigur, na China, e dos Tártaros, na Rússia. Bem como ao fomentarem, com sucesso, o afastamento de Dilma Roussef e do PT do poder no Brasil, e das tentativas ainda não materializadas, de promoverem a mudança de regime na Bielorrússia, de Lukashenko, e em Cuba, que busca seu caminho ao socialismo.

É evidente que a estratégia norte-americana precisa encontrar um campo fértil para prosperar. No caso de Cuba, as condições econômicas e políticas estavam postas, até mesmo porque o Departamento de Estado norte-americano deu a sua contribuição para tanto.

Crise econômica

A historiadora brasileira Joana Salém mostra como a precária situação econômica atual, que fermentou a discórdia em Cuba, foi o resultado de três fatores principais: a pandemia da Covid-19, paralisando o turismo e reduzindo o PIB em 11%; o boicote norte-americano, agravado ainda mais com a suspensão por Trump do envio de divisas à ilha pelos familiares residentes nos EUA; e a reforma monetária e cambial promovida pelo governo cubano.

Conforme Salém relata, a reforma denominada de Tarea Ordenamiento eliminou o chamado dólar cubano, tornando o peso cubano a única moeda nacional; foi também criada uma moeda transitória na forma de um cartão, a Moneda Libremente Convertible, com valor de 25 pesos.

Ao mesmo tempo, foram eliminados subsídios a itens de consumo diário, aumentadas as tarifas, e os salários foram quintuplicados. No entanto, as medidas resultaram em descontrole financeiro que afetou negativamente o poder de compra dos cubanos de produtos básicos. A insatisfação da população foi inevitável.

Crise política

Em meio às sérias dificuldades econômicas por que vem passando, o povo cubano sente que suas demandas e insatisfações não são escutadas pelo governo, avalia Salém. Segundo a historiadora, “existe um engessamento ou quebra dos canais de poder popular nas estruturas políticas do socialismo cubano”. Assim, restou aos cubanos expressarem nas ruas sua raiva com o governo. Para os cubanos de esquerda, o governo precisa criar novos mecanismos de decisão e de poder popular, complementa ela.

Anti-government protesters gather at the Maximo Gomez monument in Havana, Cuba, Sunday, July 11, 2021. Hundreds of demonstrators took to the streets in several cities in Cuba to protest against ongoing food shortages and high prices of foodstuffs. © Eliana Aponte/AP
Manifestantes contra o governo cubano reunidos no monumento Maximo Gomez, em Havana, Cuba, 11 de julho de 2021 \ Foto: Eliana Aponte/AP

No entanto, os protestos de julho foram fomentados através de ações de entidades norte-americanas tradicionalmente envolvidas na desestabilização política de governos que não seguem a cartilha de Washington. O imperialismo norte-americano procurará canalizar ainda mais o sentimento que resultou na revolta que se espalhou pela ilha em 11 de julho, para acirrar a crise política visando a mudança de regime.

Os principais setores dos EUA que financiam e incentivam as ações de desestabilização em outros países são em geral os mesmos. A USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) e a NED (Fundação Nacional para Democracia). Um das entidades que recebe financiamento da NED é a Atlas Network, que atuou na desestabilização do governo Roussef no Brasil, através de sua cria, o MBL de Kim Kataguiri “et caterva“.

Contrarrevolução em Cuba: EUA financiam a dissidência cultural e artística

Conforme relatado pelo jornalista Max Blumenthal no The Grayzone (em espanhol, em inglês), na última década os EUA utilizaram milhões de dólares para seduzir rappers, músicos, artistas e jornalistas cubanos. O relato que se segue contém extratos do extenso e detalhado artigo de Blumenthal.

Em 2009, um artigo no Journal of Democracy, órgão noticioso da NED, esboçou um plano ambicioso para unir e mobilizar contra “o regime altamente repressivo” de Cuba, os despossuídos, os jovens desempregados, os que ficaram à margem do sistema, atraídos para as drogas, crime e prostituição.

A estratégia recomendada pelos autores do artigo, Carl Gershman e Orlando Gutierrez-Boronat, era que estes grupos não cooperassem com as instituições cubanas. Gershman é fundador e diretor da NED, enquanto Boronat – cubano de nascimento – é secretário geral da USAID, e fervoroso defensor da invasão de Cuba pelos EUA. Boronat foi recebido por Jair Bolsonaro, poucos dias antes da posse deste na presidência do Brasil.

No mesmo ano em que o influente artigo de Gershman e Gutierrez foi publicado, Washington adotou uma audaciosa operação secreta baseada na estratégia sugerida. A USAID iniciou um programa para desencadear um movimento de jovens contra o governo de Cuba, cultivando e promovendo artistas locais de hip-hop.

Devido à sua longa história como uma frente da CIA, a USAID terceirizou a operação para a Creative Associates International, uma empresa com sede em Washington DC, com seu próprio histórico de ações secretas. A empresa enviou a Cuba o sérvio Rajko Bozic, que pertencera ao grupo Otpor! (resistência, em croata), apoiado pela CIA. O grupo ajudara a afastar do poder o líder nacionalista da Sérvia, Slobodan Milosevic.

Posando como um promotor musical, Bozic se aproximou de um grupo de rap cubano chamado Los Aldeanos, que era conhecido por seu hino anti-governo, “Rap is War” (Rap é Guerra). O agente sérvio não revelou que trabalhava para a CIA, alegando ser um profissional de marketing. A inteligência cubana descobriu contratos ligando Bozic à USAID, e expôs a operação.

Conforme publicado no insuspeito jornal britânico Daily Mail, em 2014, a USAID foi novamente exposta por um vazamento que revelou que a agência contratara a Creative Associates para organizar uma série de falsas oficinas de prevenção do HIV, que se tratavam, na verdade, de seminários de recrutamento político.

Na mesma época, o então presidente Barack Obama apresentou seu plano para normalizar as relações com o governo de Cuba, condicionado a que Cuba ampliasse o acesso à internet. Talvez um dia o ex-presidente revele se foi uma armadilha arquitetada para abrir as portas para a interferência norte-americana na ilha, o “cavalo de Tróia” digital.

Expansão da Internet abre as portas para infiltração dos EUA

A rede de internet 3G chegou a Cuba em 2018, permitindo que jovens cubanos acessassem mídias sociais como Facebook e YouTube em seus telefones celulares. A NED e a USAID exploraram a abertura para construir um potente aparato de mídia on-line anti-governo. Novos veículos de viés tóxico, como CubaNet, Cibercuba e ADN Cuba, propagaram acusações ao regime, bem como ofensas ao presidente cubano, Miguel Diaz-Canel.

Para Ted Henken, um acadêmico dos EUA e autor de “A Revolução Digital de Cuba”, os líderes cubanos calcularam mal, não percebendo que [o acesso expandido à internet] rapidamente se voltaria contra eles.

Ainda em 2018, a NED destinou cerca de US$ 500.000 para o recrutamento e treinamento de jornalistas antigoverno, e para estabelecer novos meios de comunicação. Outra subvenção da NED encaminhou fundos para “promover a inclusão de populações marginalizadas na sociedade cubana e fortalecer uma rede de parceiros na ilha”, implicando que seria direcionada aos afro-cubanos.

A NED deu muita ênfase à infiltração na cena hip-hop de Cuba. Também em 2018, a Cuban Soul Foundation recebeu US$ 80.000 para “capacitar artistas independentes a produzir, executar e expor seus trabalhos em eventos comunitários sem censura”. Uma ONG com sede na Colômbia, chamada Fundación Cartel Urbano, recebeu US$ 70.000 para “capacitar artistas cubanos de hip-hop como líderes na sociedade”.

A propaganda antigoverno e a infiltração dos EUA no cenário cultural de Cuba que acompanhou a expansão da internet, provocaram uma forte reação da liderança do país. O governo se deu conta, tardiamente, que nunca deveria ter confiado em Obama, avalia a jornalista cubana Cristina Escobar, conforme relato no The Grayzone.

Poucas horas depois de tomar posse, em abril de 2018, Diaz-Canel propôs o Decreto 349. A nova medida passou a exigir que todos os artistas, músicos e artistas obtenham aprovação prévia do Ministério da Cultura antes de divulgar seus trabalhos.

Rapidamente, um coletivo de artistas e músicos se mobilizou para protestar contra o decreto. O grupo adotou o nome de Movimento San Isidro, nome do bairro de Havana Velha onde vivem vários de seus membros. O novo movimento se apresentou diretamente aos influenciadores culturais do Norte Global como um coletivo diversificado de criadores visuais e rappers independentes, lutando por liberdade artística.

A NED e a USAID continuaram a aprofundar a influência norte-americana em Cuba. A ONG Instituto para Relatos de Guerra e Paz (IWPR, na sigla em inglês), recebeu US$ 145.230 da NED em 2020 para “fortalecer a colaboração entre jornalistas independentes cubanos”, e treiná-los nas mídias sociais.  Entre os beneficiários inclui-se El Estornudo, que também foi financiado pela Open Society, de George Soros, para criticar a resposta do governo cubano à Covid-19.

Outro veículo antigoverno que opera sob os auspícios da IWPR é Tremenda Nota, um site com temática LGBTQ que acusa rotineiramente o governo cubano de homofobia e transfobia, mesmo tendo a administração Diaz-Canel atuado no sentido de legalizar o casamento gay, aberto o exército para soldados gays e iniciado eventos oficiais do orgulho, relata o The Grayzone.

Em 6 de novembro de 2020, um policial apareceu na casa de Denis Solis, um rapper afiliado ao Movimento. Solis usou a câmera do celular para transmitir ao vivo para o Facebook, os insultos antigays que dirigiu ao policial. A sentença de 8 meses de prisão que Solis recebeu por “desacato” gerou a faísca para a greve de fome de novembro de 2020, que levou o San Isidro ao palco global.

Luis Manuel Otero, coordenador do Movimento San Isidro, em atos de desrespeito à bandeira de Cuba
Luis Manuel Otero, coordenador do Movimento San Isidro, em atos de desrespeito à bandeira de Cuba

A greve foi realizada em Havana Velha, na casa do coordenador do Movimento, Luis Manuel Otero Alcántara. Artista afro-cubano, Otero atraiu a ira do governo ao desrespeitar a bandeira cubana, inclusive enrolando-a em torno de seu torso nu, sentado no vaso sanitário. Em outra exibição provocativa, Otero reuniu crianças para correr pelo bairro, agitando uma bandeira americana gigante, o que desencadeou uma resposta policial imediata, e sua própria detenção por 4 dias.

A visita ao local da greve de fome pelo jornalista e reconhecido autor literário cubano, Carlos Manuel Álvarez, ajudou a galvanizar o interesse da mídia internacional. Vindo das fileiras da elite educada de Cuba, Álvarez logo encontrou espaço na seção de opinião do The New York Times, para comercializar San Isidro para um público liberal nos EUA.

greve de fome de membros do Movimento San Isidro
Jornalista Carlos Manuel Álvarez (centro) em solidariedade à greve de fome de Luis Miguel Otero (à direita) e do rapper Maykel Osorbo (à esquerda), novembro de 2020.

Em 7 de novembro de 2020, um grupo de artistas começou um sit-in do lado de fora do Ministério da Cultura. Boa parte deles não era de opositores do governo, e buscavam o diálogo com o ministro. Entretanto, os veículos da mídia ocidental entrevistaram apenas os membros do Movimento San Isidro.

A intensa cobertura alçou o San Isidro ao cenário internacional, ganhando a atenção de artistas e escritores famosos nos EUA e Europa. O Departamento de Estado norte-americano alcançara seu objetivo.

O Movimento aprofundou seus laços com a direita internacional através da fundação CADAL, com base na Argentina, que nomeou o San Isidro para o Prêmio Freemuse de Expressão Artística 2021. A CADAL está no centro de uma rede de organizações libertárias que alavancam o dinheiro corporativo para impulsionar o mercado livre em toda a América Latina. Entre os parceiros mais próximos da CADAL está a Atlas Network, o think tank que também é patrocinado pelo Departamento de Estado dos EUA, através da NED.

Em maio de 2021, depois que Otero foi novamente detido pela segurança cubana, uma carta aberta ao presidente Diaz-Canel, assinada por um elenco de figuras culturais negras e afro-latinas proeminentes, apareceu na New York Review of Books, exigindo sua libertação.

Patria y Vida, o rap favorito do Departamento de Estado dos EUA

Patria y Vida, a primeira canção diretamente associada à mobilização de cubanos para protestar contra o governo, foi gravada em Miami. A canção apresenta três artistas cubanos auto-exilados: Yotuel do grupo de hip-hop Orishas, o duo de reggaeton Gente de Zona e o cantor e compositor Descemer Bueno. Eles foram complementados por dois membros do Movimento San Isidro, os artistas de hip-hop, El Funky e Maykel “Osorbo” Castillo.

The opening image of the video of Patria y Vida
Imagem de abertura do vídeo Patria y Vida

Em 12 de março deste ano, Yotuel e Gente de Zona realizaram uma vídeo-chamada com funcionários do Departamento de Estado, informando-os sobre o sucesso da canção e das demandas do Movimento San Isidro. Ao Parlamento Europeu, Yotuel pediu a “condenação do governo cubano, para que a ilha tenha forças para se rebelar“.

Três meses depois, a USAID emitiu um edital no valor de US$ 2 milhões, para subvenção de organizações da “sociedade civil” que procurassem promover a mudança de regime em Cuba. O documento enfatizou a necessidade de programas que “apoiem populações marginalizadas e vulneráveis, incluindo, mas não se limitando a jovens, mulheres, LGBTQI+, líderes religiosos, artistas, músicos e indivíduos de ascendência afro-cubana”.

11 de julho. Otero emitiu um chamado no Twitter em nome do Movimento San Isidro, para que manifestantes se reunissem no Malecón, litoral da cidade de Havana. As ocorrências iniciais em San Antonio de los Baños podem também ter sido em resposta à convocação de Otero. Os protestos então se espalharam pela ilha.

Joe Biden prometeu adicionar novas e sanções esmagadoras às que haviam sido impostas por Trump. As indicações são de que a administração democrata não retornará ao processo de normalização iniciado por Obama.

O movimento Vidas Negras Importam se posicionou no Instagram com uma declaração de solidariedade com a revolução cubana, recebendo críticas de setores conservadores norte-americanos.

Para o jornalista Max Blumenthal, os protestos de julho em Cuba foram arquitetados na Flórida. Através da hashtag  #SOSCuba, agentes financiados pelos EUA associados ao Movimento San Isidro defendiam a intervenção em Cuba meses antes das mídias sociais começarem a criticar o governo cubano de forma massiva.

A nova liderança cubana, que se seguiu ao período dos irmãos Castro na presidência do país e na secretaria do Partido Comunista Cubano, tem um enorme desafio pela frente, para que a contrarrevolução não seja bem sucedida.

Como salientou a historiadora Joana Salém, o governo precisaria reativar os canais de poder popular nas estruturas políticas, através de novos mecanismos de decisão. Ou seja, aprofundar a revolução socialista, ampliando a democracia popular.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

A longa marcha da China rumo à liderança econômica: O Império resiste

Por Ruben Rosenthal

No governo Biden, deverá continuar ou mesmo ser expandida a política de sanções e restrições a empresas e autoridades chinesas, com o pretexto de impor punições por competição desleal e violações de direitos humanos em Xinjiang e Hong Kong.

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Abertura da reunião dos representantes diplomáticos da China e EUA em Anchorage, Alasca, 18 de março  \ Foto: Frederic J. Brown/AFP/Getty Images

Nestes meses iniciais da presidência de Joe Biden, os analistas políticos procuram identificar o que se pode esperar das relações entre Estados Unidos e China.  As ações da nova administração até o momento indicam que existe vontade política para tentar resolver as atuais pendências através de  negociações? Ou a probabilidade é de que ocorra agravamento do contencioso comercial, e de que alguma crise localizada, como a questão do Mar do Sul da China ou de Taiwan, possa evoluir para uma confrontação armada entre as duas maiores economias do planeta?

Este artigo é o terceiro de uma trilogia que procurou mostrar como a China evoluiu a partir de meados do século 20, de uma economia essencialmente agrária e de indústria pesada, para se tornar a segunda economia mundial, tendo alcançado inovações tecnológicas em setores de ponta.  Uma jornada em  que precisou e ainda precisa superar obstáculos, e que resgata a relevância histórica da China para o processo civilizatório.

O primeiro artigo da trilogia relata como, através do plano de modernização tecnológica Made in China 2025, o país espera se tornar uma superpotência industrial até 2049. O segundo artigo mostrou que através da Nova Rota da Seda (Iniciativa Cinturão e Rota) a China rompeu com a política diplomática que adotara a partir dos anos 80, de manter um perfil discreto em política externa, para passar a agir de forma mais assertiva na busca de parceiros comerciais e de regiões de influência.

No entanto, ao passar a interferir nos interesses econômicos norte-americanos e de seus aliados, a China se tornou alvo de uma incessante campanha em diversas frentes. O artigo sobre a Nova Rota da Seda também relata como evoluíram as relações entre a República Popular da China e os Estados Unidos a partir da tomada do poder pelos comunistas, com foco nas administrações de Obama e Trump, resumidas a seguir.

Relações China-EUA no governo Obama

Um novo fator pode ter levado a China a assumir uma posição ainda mais assertiva na Ásia. Em outubro de 2011, a então secretária de estado de Barack Obama, Hillary Clinton, defendeu um reposicionamento da política externa norte-americana, em função da retirada de tropas do Afeganistão. Segundo a secretária de estado, a região Ásia-Pacífico deveria se tornar “alvo prioritário das ações diplomáticas, estratégicas e de investimentos dos EUA”.

No centro da nova estratégia de Washington de um “pivô para a Ásia” estava a Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês), prevista para se tornar o maior acordo de livre comércio no mundo, cobrindo cerca de 40 por cento da economia global. A iniciativa da Nova Rota da Seda representou uma reação da China à mudança de foco da política externa dos Estados Unidos proposta por Clinton.

Em 2011, o déficit comercial dos EUA com a China alcançou 295,5 bilhões de dólares. Em 2012, EUA e Japão questionaram junto à OMC, a Organização Mundial do Comércio, as restrições chinesas à exportação de metais de terras raras. Era o início das tensões comerciais entre os dois países, que atingiriam um clímax na gestão Trump.

Relações China-EUA no governo Trump

Donald Trump se retirou da TTP já no seu primeiro dia no cargo, em 2 de janeiro de 2017, antes mesmo da ratificação da Parceria pelo Congresso. Em seu governo, o contencioso comercial evoluiu para uma guerra comercial, com a aplicação de barreiras e sobretaxas a produtos chineses.

Por outro lado, sanções econômicas foram aplicadas em função de acusações de violações de direitos humanos em Xinjiang, Hong Kong e Tibet. Foram também levantadas acusações contra os chineses de ataques cibernéticos e de roubo de tecnologia. A questão da internet 5G se tornou uma parte importante da disputa tecnológica entre os dois países.

A retórica anti-China dominou a administração Trump, aumentando ainda mais com as acusações de que o vírus da Covid-19 fora produzido em laboratório pelos chineses. E que uma indenização bilionária deveria ser imposta à China.

O documento interno “Estratégia dos EUA para o Indo-Pacífico”, de 2018, que teve sua divulgação liberada nos últimos dias da gestão de Trump, mostra como as ações do governo estavam claramente impregnadas de um viés ideológico.

Em um dos itens do documento consta: “A China busca dominar tecnologias de ponta, incluindo inteligência artificial e biogenética, para aproveitá-las a serviço do autoritarismo. O domínio pelos chineses de tais tecnologias traria profundos desafios para as sociedades livres”.

No documento da Casa Branca intitulado “Enfoque Estratégico dos Estados Unidos para a República Popular da China”, datado de maio de 2020, estão elencados os desafios que a RPC colocava para os Estados Unidos, na visão da administração Trump. O documento avalia que a China procurará obter “vantagens econômicas e militares indevidas, para impor o pensamento do Partido Comunista Chinês e censurar a livre expressão”.

Nestes meses iniciais da administração Biden, a política em relação à China que foi herdada do antecessor Donald Trump está sendo reavaliada. Resta ver se as futuras ações dos EUA irão favorecer a cooperação ou a confrontação entre os dois países.

Relações China-EUA no governo Biden

Ao analisar o enfoque da administração Biden no estabelecimento de sua política de competição estratégica com a China, o pesquisador An Gang, da Universidade de Tsinghua, Pequim, identifica duas fases distintas. Na primeira, que iria da posse em janeiro até a reunião em março de altas autoridades dos dois países em Anchorage, no Alasca, Gang percebe quatro ações principais.

Como primeira ação, a política hostil na relação comercial está sendo revista, mas permanece ainda indefinida. As táticas agressivas de guerras comerciais adotadas por Trump provavelmente não terão continuidade.

No entanto, no governo Biden deverá continuar ou mesmo ser expandida a política anterior de sanções e restrições a empresas e autoridades chinesas, com o pretexto de impor punições por competição desleal, e violações de direitos humanos em Xinjiang e Hong Kong.

A segunda ação está relacionada com a estratégia geopolítica norte-americana. Os EUA retiraram forças (convencionais) do Oriente Médio e do Afeganistão, e passaram a concentrar o foco na estratégia do Indo-Pacífico, como forma de contenção da China.

Vijay Prashad, historiador e jornalista indiano, chama a atenção para a reunião virtual ocorrida em 12 de março, de Joe Biden com os chefes de estado da Austrália, Índia, Japão. Tratava-se de uma reunião do Diálogo de Segurança Quadrilateral, conhecido como Quad.

Reunião do Quad
Reunião virtual do “Quad”, com participação dos chefes de estado da Índia, EUA, Austrália e Japão, 22 de março \ Foto: Twitter/Scott Morrison

O objetivo do Quad é de aprofundar a pressão econômica e militar sobre a China. O grupo foi criado em 2004, fez parte da política de Obama de um “pivô para a Ásia”, mas só decolou na administração Trump.

Embora não tivesse ocorrido menção direta à China durante a reunião, a decisão tomada então, de se formar um grupo de trabalho em tecnologias críticas emergentes e cadeias de fornecimento indicou a clara  intenção de bloquear o acesso da China a tecnologias e matérias primas que possam ter uso civil e militar, avalia Prashad.

A terceira ação visualizada por Gang foi que os EUA passaram a atuar de forma coordenada com os aliados. Por exemplo, a administração Biden conseguiu que a União Europeia suspendesse a ratificação de acordo de cooperação em investimentos com a China, a pretexto da situação em Xinjiang.

A quarta ação foi de priorizar na cooperação China-EUA, a questão das mudanças climáticas, com foco nas emissões de carbono. Os EUA esperam assumir a liderança global neste campo, após o negacionismo que vigorou durante o governo Trump.

Reunião em Anchorage, Alasca 

Representantes de alto nível dos dois países se reuniram em Anchorage, em 18 e 19 de março. A delegação norte-americana era liderada pelo secretário de estado Antony Blinken e por Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional. No comando da delegação chinesa estavam o ministro das relações exteriores, Wang Yi, e Yang Jiechi, conselheiro de estado e ex-embaixador da China nos Estados Unidos.

Conforme relato no britânico The Guardian, na véspera da reunião os EUA tomaram uma série de ações contra a China, incluindo intimações de diversas empresas chinesas de tecnologia por questões de segurança nacional, atualização de sanções relacionadas com a questão de Hong Kong, bem como iniciaram a revogação de licenças de telecomunicação.

Os anfitriões não foram nada sutis desde a intervenção inicial, como mostram as declarações de Blinken e Sullivan publicadas pelo The Guardian (ver vídeo).  Blinken disparou: “Nós vamos discutir nossas profundas preocupações com ações da China, incluindo em Xinjiang, Hong Kong, Taiwan, ataques cibernéticos contra os Estados Unidos e coerção econômica de nossos aliados. Cada uma dessas ações ameaça a ordem baseada em regras que mantém a estabilidade global.”

Jiechi replicou de forma contundente: “Os Estados Unidos fazem uso de força militar e da hegemonia financeira para ampliar sua jurisdição e reprimir outros países. Abusam dos conceitos de segurança nacional, para obstruir as trocas comerciais normais e incitar alguns países a atacar a China”. E prosseguindo: “Deixe-me dizer que, para os chineses, os Estados Unidos não têm qualificação para falar com a China a partir de uma posição de força”.

Em discurso de 15 minutos, Jiechi ressaltou ainda a hipocrisia dos EUA em relação aos direitos humanos, criticou as intervenções externas dos norte-americanos, e acusou as autoridades de adotarem uma mentalidade de “Guerra Fria”.

Já o ministro das relações exteriores, Wang Yi, teria adotado um tom mais conciliador, conforme relatado em Foreign Policy. Segundo a publicação, o ministro declarou que “Blinken e Sullivan são verdadeiros amigos do povo chinês”. Tal declaração está evidentemente carregada de ironia.

O Pós-Alasca

Para An Gang, as ações da administração Biden após Anchorage indicam uma nova fase, em que republicanos e democratas atuarão de forma conjunta no congresso norte-americano para introduzir leis agressivas em relação à China. Diversos projetos de lei versando sobre questões de competição estratégica aguardam votação no legislativo, e poderão afetar negativamente o futuro das relações entre os dois países.

Poucos dias após a reunião do Alaska, em 22 de março, foram aplicadas sanções em quatro autoridades chinesas pelos EUA, Canadá e Reino Unido. No entanto, os chineses não foram pegos de surpresa. Os ministros do exterior de China e Rússia se reuniram em Guilin, na China, em 22 e 23 março, quando concordaram em atuar conjuntamente contra as “sanções ilegítimas, sem base na lei internacional”,  conforme relato de Amber Wang, jornalista do South China Morning Post, de Hong Kong.

Sergey Lavrov e Wang Yi
Sergey Lavrov, ministro das relações exteriores russo, e seu homólogo chinês, Wang Yi; Guilin, China, 23 de março \ Foto: Reuters

O ministro do exterior russo, Sergey Lavrov, classificou as ações dos norte-americanos de “táticas destrutivas de Guerra Fria”. A Rússia também sofre sanções impostas pelo Ocidente após a anexação da Crimeia em 2014, aumentadas em março de 2021 a pretexto do suposto envenenamento do opositor de Putin, Alexei Navalny.

Anteriormente, Lavrov já propusera que os dois países se afastassem do dólar em suas relações comerciais, como forma de reduzir o efeito das sanções.  Yang Jin, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, considera que a China deve receber bem a proposta de se afastar do sistema de pagamentos SWIFT controlado pelos EUA, passando Rússia e China a usar o rublo e o yuan em seus acordos comerciais.  

Para Cheng Yijun, especialista em relações China-Rússia na Academia Chinesa de Ciências Sociais, não é viável se alcançar a independência completa em relação ao dólar nas relações comerciais entre os dois países. Yijun considera também que, “forjar uma aliança com a Rússia não é a melhor opção para a China”. E continua: “Não há dúvida que os dois países se aproximaram em face das pressões vindas dos EUA, mas existem mais diferenças que pontos em comum entre eles”. A ascensão da China representaria também uma ameaça à Rússia, segundo o especialista.

Para a administração Biden, a fonte com maior potencial de conflito com os chineses é a questão de Taiwan, avalia An Gang. Daniel Ellsberg, responsável pelo vazamento do Documentos do Pentágono em 1971, também compartilha desta opinião. Temendo que a questão de Taiwan leve a um conflito militar entre EUA e China, ele divulgou agora informações altamente secretas que guardara por 50 anos.

Durante a crise do estreito de Taiwan em 1958, os líderes militares dos Estados Unidos planejaram aproveitar o clima de tensão para realizar ataques nucleares contra alvos militares chineses localizados em áreas densamente habitadas. No entanto, o presidente Eisenhower se recusou a ir adiante com o plano do alto comando.

No documento da Inteligência Nacional dos EUA publicado em abril de 2021  consta que o Partido Comunista Chinês continuará seus esforços para difundir a influência da China em detrimento dos Estados Unidos, procurando afastar Washington de seus aliados e parceiros, e criando normas internacionais que favoreçam o sistema autoritário chinês. O documento sugere ainda que os EUA precisarão estar preparados para conflitos de guerra híbrida situados entre guerra e paz.

Um indício que as relações bilaterais entre os dois países poderão se deteriorar foi a decisão da  administração Biden de resgatar a polêmica sobre a origem do vírus da Covid-19. Diferentemente de Trump, Biden quer obter um “parecer científico” sobre a questão.  Entretanto, no prazo de poucas semanas nenhuma conclusão minimamente confiável pode ser alcançada.

Uma notícia de dezembro de 2020, que voltou a aparecer na mídia no começo de junho, é que o Pentágono deu 39 milhões de dólares para a entidade de caridade EcoHealth Alliance, que financiou pesquisa sobre coronavírus em Wuhan no laboratório chinês que vem sendo acusado de ser a origem do surto  do vírus Sars-CoV-2.

Cui Liru, do Taihe Institute, um importante  think tank chinês sediado em Pequim, considera que é necessário que as duas nações discutam como lidar com a competição estratégica em temas sensíveis e de alto risco. O desafio de longo prazo será “explorar conceitos e práticas que construam pontes que ajudem a superar as diferenças estruturais”.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Privatizando a guerra no Afeganistão: saem as tropas regulares, ficam os mercenários

Por Ruben Rosenthal

O temor do governo norte-americano é que a retirada de todas as tropas do solo afegão possa abrir caminho para o aumento da influência de russos e chineses.

Soldados norte-americanos da infantaria atendem colega ferido
Soldados norte americanos prestam assistência a colega ferido, setembro 2010, Kondoz, norte do Afeganistão \ Foto: Damon Winter/ NYT

Conforme determinação do presidente Joe Biden, em 1 de maio foi iniciada a retirada das tropas de combate norte-americanas da nação afegã. Até 11 de setembro está prevista a total remoção dos atuais efetivos – de 2.500 a 3.500 combatentes, e também do contingente da Otan, de 7.000 militares. Biden teria rejeitado as advertências em contrário de seus conselheiros militares e do Pentágono, que alertaram que a saída poderia resultar no “ressurgimento das ameaças terroristas e em guerra civil”, com o fortalecimento do Talibã. 

Na verdade, o acordo original que havia sido acertado com o Talibã na administração Trump, em 29 de fevereiro de 2020, previa a retirada completa das tropas estrangeiras no prazo de 14 meses após a assinatura do acordo, ou seja, até 1 de maio de 2021. Portanto, Biden não está cumprindo o acordo. Em resposta a esse descumprimento, o Talibã emitiu o seguinte comunicado: “A violação, em princípio, abriu caminho para o Emirado Islâmico do Afeganistão tomar todas as ações que considerar apropriadas contra as forças de ocupação”. 

No entanto, a violação do acordo é ainda mais grave que “apenas” um atraso no cronograma da retirada. Conforme publicado no New York Times, permanecerão no Afeganistão as Forças Especiais de Operação, que atuam de forma clandestina, agentes secretos de inteligência, e mercenários sob contrato do Pentágono.  

Em janeiro deste ano haviam mais de 18.000 mercenários em atuação no Afeganistão, segundo um relatório do Departamento de Defesa dos EUA. A informação que foi divulgada no CovertAction Magazine, um site voltado para expor ações clandestinas de governos norte-americanos, foi originalmente obtida no site Stars and Stripes (Estrelas e Listras, evocando a bandeira dos EUA), voltado para os interesses das forças armadas norte-americanas.  

A estratégia do governo norte-americano é de contratar mercenários através de corporações privadas, como forma de distanciar da população os impactos da guerra nas tropas. Uma das maiores empresas que intermediam na contratação de mercenários é a DynCorp International, de Falls Church, na Virgínia.  

A empresa recebeu mais de 7 bilhões de dólares em contratos com o governo norte-americano, conforme revelado no CovertAction Magazine. Esta vantagem da DynCorp na obtenção dos contratos para as guerras do Afeganistão e Iraque já havia sido relatada em artigo de 2009 da Forbes.   

Evolução da presença militar dos EUA no Afeganistão 

O engajamento militar norte-americano contra o Talibã começou em novembro de 2001, com a chegada de 1.300 combatentes, principalmente marines. No mês anterior, o então presidente George W. Bush bombardeara o Afeganistão em represália pela presença de terroristas da al-Qaida, responsável pelos  atentados de 11 de setembro às torres gêmeas em Nova York, e ao Pentágono. A evolução do engajamento militar norte-americano até o final do segundo governo Obama pode ser acompanhada no Military Times

Soldados norte-americanos em avião de transporte chegam a Mazar-i-Sharif, Afeganistão, abril 2010
Cena que talvez não mais se repita: Soldados norte-americanos chegam ao Afeganistão, abril 2010 \ Foto: Damon Winter/NYT

Em agosto de 2010, o contingente dos EUA em solo afegão alcançou a marca de 100.000. Com a morte de Bin Laden em 2011 no Paquistão, Obama anunciou a diminuição gradativa do efetivo. Em julho de 2016 ele quebra a promessa que fizera de retirar todas as tropas até o final de seu segundo mandato, declarando que manterá 8.400 combatentes, segundo relatou o Washington Post na ocasião.  

Trump também quebrou sua promessa inicial de remover todas as tropas. Em setembro de 2017 ele chegou, inclusive, a anunciar um aumento do efetivo. Ao final de seu governo, permaneceu um contingente de 2.500 a 3.500 norte-americanos nas tropas regulares, segundo relato no DW-Brasil. No entanto, ao assinar o  acordo com o Talibã, em que os EUA concordaram em retirar todas as tropas do país até 1 de maio de 2021, Donald Trump deixou este compromisso para seu sucessor, Joe Biden. Pertence apenas ao campo especulativo, se Trump teria ou não cumprido o que fora acordado, caso tivesse conseguido se reeleger.  

Mas o governo Biden parece não estar disposto a perder o controle sobre o território afegão. Biden procura ganhar tempo com a decisão de transferir o prazo para 11 de setembro, aniversário dos atentados da al-Qaida, mas está em violação do que ficara acordado.  

Embora os Estados Unidos disponham de inúmeras bases aéreas na região do Golfo Pérsico, recorrer ao lançamento de bombardeiros de longo alcance ou a drones armados pode não ser tão efetivo como a presença de tropas em território afegão, menciona o artigo do NYT, citando como fontes, “atuais e ex-funcionários norte-americanos”. A presença clandestina das Forças de Operação Especiais e de mercenários poderia suprir a necessidade de forças regulares presenciais.  

Provincia de Laghman controlada pelo Talibã: duas crianças passam por grupo de elite armado, março 2020
Civis passam por grupo de elite armado, Província de Laghman controlada pelo Talibã, março 2020 \ Foto: Jim Huylebroek / NYT

A importância geopolítica do Afeganistão 

Craig Murray, ex-embaixador do Reino Unido no Uzbequistão – país vizinho ao Afeganistão, compara as motivações dos EUA para dominar o Afeganistão, com os casos das ocupações pela Grã-Bretanha e, posteriormente, pela então União Soviética.  

A primeira ocupação britânica se deu em 1839, sob o pretexto de prevenir uma aliança com a Rússia e a Pérsia (atual Irã), visando a invasão da Índia, então uma possessão britânica. Duas outras intervenções pelos britânicos tiveram a mesma justificativa. 

A invasão soviética em 1979 foi com o intuito de proteger regiões da Ásia Central pertencentes à União Soviética, da difusão do radicalismo islâmico. A ocupação durou 10 anos, e trouxe imenso desgaste à então superpotência, contribuindo para o seu declínio. 

O pretexto dos norte-americanos em invadir e ocupar o Afeganistão foi o de deter ataques de extremistas islâmicos que se encontrariam abrigados no Afeganistão, embora os ataques terroristas de “11 de setembro” estivessem mais relacionados com a Arábia Saudita.   

Murray relata que com a ocupação pelos EUA, disparou a produção de ópio e heroína em solo afegão, com o apoio da CIA. Para manter a ocupação, os EUA precisavam do apoio dos “senhores da guerra” locais, que eram os produtores de heroína.  

Entretanto, segundo Murray, o motivo principal da ocupação original do Afeganistão foi o Gasoduto Trans Afegão, que levaria gás natural das reservas do Turcomenistão para o Paquistão, Índia, e então chegando ao Oceano Índico. Em 1997, foi formado um consórcio de seis empresas, juntamente com o governo do Turcomenistão, para construir o gasoduto de 1.271 quilômetros até o Paquistão. 

A maior participação no consórcio (54%) cabia à Corporação Unocal, sediada na Califórnia. Uma delegação do Talibã iria viajar ao Texas para tratar das negociações, que contariam com a benção do então governador do Texas, George W. Bush.  Com os ataques da al-Qaeda em 1998 contra alvos dos EUA na Tanzânia e no Quênia, o projeto foi engavetado, relata Murray. Na ocasião, Osama Bin Laden estava abrigado no Afeganistão.  Posteriormente, já na presidência do país, Bush invadiu o Afeganistão.  

Recentemente, uma delegação do Talibã fez uma visita ao Turcomenistão para conseguir apoio para a tão planejada e adiada linha de gás natural através do Afeganistão. O Turcomenistão possui a quarta maior reserva de gás natural no mundo, estimada em 19,5 trilhões de metros cúbicos.   

Conforme o relato no CovertAction Magazine, o objetivo almejado pelos EUA atualmente não é mais apenas o controle das linhas de suprimento de combustíveis naquela região da Ásia Central. Em 2007, o Serviço Geológico dos Estados Unidos teria identificado a presença no Afeganistão de minerais no valor estimado de 1 trilhão de dólares, incluindo ferro, cobre, cobalto, ouro e o estratégico lítio, usado em baterias de computadores.   

O temor do governo norte-americano é que a retirada de todas as tropas do solo afegão possa abrir caminho para o aumento da influência de russos e chineses. A China aumentou seus investimentos no Afeganistão, país com o qual faz fronteira, mantendo ao mesmo tempo relações com os rebeldes talibãs. Por seu lado, a Rússia investiu em projetos de moradia e no fornecimento de rifles Kalashnikov ao governo afegão, sem, no entanto, deixar de cortejar o Talibã.  

Mapa do Afeganistão mostrando distritos sob controle do Talibã
Mapa mostra o controle por distrito, março 2021: vermelho escuro- Talibã; cinza- governo central ou indeterminado- cinza; vermelho claro- em contestação \ Fonte: Long War Journal

O Talibã já controla diversas regiões do país. Os Estados Unidos tentam manter no poder o atual presidente Ghani ou substituí-lo por alguém que possam controlar. Por outro lado, nas negociações com o Talibã, as únicas cartas que os norte-americanos podem oferecer em troca da mudança do prazo final da retirada total das tropas são o levantamento das sanções e a libertação de prisioneiros. Mas Cabul não deverá concordar com a libertação de prisioneiros talibãs.   

Finalizando 

Em meio às tragédias de uma guerra, os fotógrafos conseguem captar imagens que impressionam. São registros de importância histórica, retratando tragédias humanas e personagens, anônimos ou famosos, que participaram de formas diversas das ações de guerra e da busca da paz. Mas, por outro lado, conseguindo expressar a arte de onde menos se espera. A guerra do Afeganistão pode ser, em parte, acompanhada através das lentes dos fotógrafos do Washington Post e do The New York Times.

O autor é professor aposentado pela UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.  

Covid-19: a ética de inocular o vírus em cobaias humanas

Por Ruben Rosenthal

Mesmo com a aprovação do estudo do Imperial College pela Autoridade de Pesquisa em Saúde do Reino Unido, os testes com o vírus ativo da Covid-19 em voluntários estão gerando forte controvérsia.

Testes de inoculação em cobaias humanas com o vírus Sars-CoV2 ativo
Testes de desafio em humanos com vírus da Covid-19 \ Foto: Sigrid Gombert/Getty Images

O Imperial College de Londres está selecionando voluntários para se submeterem em breve a ensaios clínicos de “desafio em humanos” com o vírus Sars-CoV-2. Neste tipo de estudo clínico o corpo humano é desafiado pela inoculação do vírus ativo, não atenuado1.  

Os experimentos incluem aplicar em pacientes saudáveis uma vacina ainda sem eficácia comprovada, e então infectar deliberadamente os voluntários. No entanto, mesmo com a aprovação do estudo do Imperial College pela Autoridade de Pesquisa em Saúde, os testes com o vírus ativo da Covid-19 em voluntários estão gerando forte controvérsia. 

Os médicos utilizarão o vírus original que circula no Reino Unido desde março de 2020, por existirem menos informações disponíveis sobre as novas variantes. A pesquisa irá avaliar o desenvolvimento de anticorpos e a resistência à evolução da doença. Segundo o líder da pesquisa, o Dr. Chris Chiu do Departamento de Doenças Infecciosas do Imperial College, o objetivo final é testar rapidamente quais vacinas e tratamentos funcionam melhor no combate à Covid-19, acelerando seu desenvolvimento.  

Apoiada por um investimento do governo do Reino Unido de 33,6 milhões de libras esterlinas, a pesquisa será realizada por uma parceria entre Imperial College, Royal Free Hospital e a empresa clínica hVIVO. 

A investigação envolverá até 90 voluntários adultos saudáveis com idades entre 18 e 30 anos, por estes apresentarem “menor risco de complicações graves decorrentes do coronavírus”. A saúde dos participantes será monitorada em uma unidade de quarentena no Royal Free Hospital, em Londres. Os voluntários também serão acompanhados por um ano após a participação nos testes. 

A ética dos testes de desafio em cobaias humanas 

Estudos clínicos de desafio em humanos já foram realizados anteriormente para outros vírus, como o da cólera.  Existe a tendência de se considerar como éticos os estudos em que a adesão dos voluntários for espontânea, sem o cometimento de abusos ou de pressões sobre indivíduos ou outros países.  

No caso da pandemia da Covid-19, o professor e especialista em ética da Universidade de Oxford, Julian Savulescu, se declara a favor dos estudos de desafio, conforme relatado pela BBC-Brasil: “Em uma pandemia, tempo é vida. Até agora, mais de 1 milhão de pessoas morreram”.  

Por outro lado, o mesmo artigo da BBC-Brasil relata também que a professora de bioética da Escola de Medicina Albert Einstein de Nova Iorque, Ruth Macklin, considera que é eticamente injustificável “acelerar pesquisas envolvendo uma doença grave para a qual inexiste tratamento eficaz”. Esta posição é compartilhada por  Angela Rasmussen, virologista da Universidade de Columbia, que avalia que os estudos de desafio não trariam dados úteis para além do grupo participante do estudo.  

Para Christine Grady2, chefe do Departamento de Bioética do Centro Clínico no National Institutes of Health, “não está claro se os estudos clínicos de desafio irão mesmo apressar as pesquisas”, conforme artigo na Forbes.  

Willowbrook, a antítese da ética médica 

A história do desenvolvimento de vacinas no Ocidente, iniciada com a descoberta da vacina contra a varíola pelo britânico Edward Jenner em 1798, mostra que nem sempre foram atendidos os padrões éticos necessários. Uma das mais controversas pesquisas de desenvolvimento de vacinas com inoculação do vírus ativo ocorreu nos Estados Unidos, no período entre 1955 e 1970.  

Ainda segundo o mesmo artigo da Forbes, um experimento de inoculação do vírus da hepatite foi realizado em crianças com deficiências mentais da Escola Estadual de Willowbrook, Staten Island, Nova York. O estudo fora autorizado pelo Departamento de Higiene Mental do estado.  

Estudos de desafio em crianças com deficiência mental foram realizados na Escola Estadual Willowbrook, Nova Iorque
Crianças com deficiência mental serviram de cobaias em ensaios clínicos com vírus da hepatite \ Escola Estadual Willowbrook. Fotos: Bob Adelman

A busca pela vacina contra a hepatite assumira grande relevância para os Estados Unidos no começo da década de 50, com a constatação de que durante a Segunda Guerra Mundial cerca de 50.000 militares das tropas norte-americanas foram afetados pela doença causada pelos múltiplos vírus da hepatite. 

Segundo o relato da mãe de uma menina com grau severo de autismo, para conseguir uma vaga em Willowbrook, ela precisou consentir que a filha Nina se participasse dos testes de desenvolvimento da vacina contra a hepatite. A menina foi uma das 50 crianças submetidas aos estudos conduzidos pelo Dr. Saul Krugman, respeitado pediatra de Nova York. 

Os ensaios clínicos incluíram infectar as crianças, contaminando com vírus o leite achocolatado que era dado a elas. Os testes eram aplicados repetidas vezes em uma mesma criança, para avaliar o tempo para surgimento de sintomas após contágio e se a imunidade seria alcançada em caso de novas exposições ao vírus. Os resultados foram publicados no New England Journal of Medicine, na Lancet, e no Journal of the American Medical Association. 

Em 1966, o renomado médico Henry K. Beecher, especialista em ética médica, publicou um artigo em que citou Willowbrook como exemplo de experimento antiético, acrescentando “não ser correto prejudicar uma pessoa para benefício de outras”. Cinco anos depois, o comitê editorial da Lancet se desculpou “pela publicação de uma pesquisa que não traria benefício direto para as crianças infectadas”. 

O filho do Dr. Krugman, também um médico pediatra, defende o pai: “Ele certamente pensou que estava fazendo uma contribuição para a pesquisa de uma doença infecciosa”. De fato, a pesquisa realizada em Willowbrook acelerou a descoberta da vacina para a hepatite.   

No entanto, ao final da década de 60, o Dr. Baruch Blumberg descobriu de forma independente a vacina para a hepatite B, examinando amostras de sangue e testando as funções do fígado em crianças e adultos já infectados. A pesquisa rendeu a Blumberg o prêmio Nobel de Medicina.  

O experimento em Willowbrook representa apenas um dos vários estudos clínicos anti-éticos conduzidos em crianças, presidiários e grupos minoritários. Este foi o caso dos falsos tratamentos em Tuskedee para avaliar a evolução da sífilis, e que levaram à morte de centenas de negros portadores da doença, quando já existia a cura.  

Decorre então o questionamento se é realmente necessário ou correto arriscar a saúde de uns poucos para o benefício de muitos. Existe sempre o risco que motivações políticas possam relegar a um segundo plano a segurança dos voluntários envolvidos na pesquisa, na busca de resultados rápidos. Por outro lado, alguns médicos que se envolveram anteriormente nesta modalidade de ensaios clínicos com cobaias humanas cometeram abusos inaceitáveis.  

Para muitos, Saul Krugman fez a coisa certa com seus estudos em Willowbrook.  E ele recebeu a recompensa por seu trabalho, se tornando presidente da Sociedade Americana de Pediatria em 1972, mesmo após amplamente expostas  na mídia as denúncias sobre a pesquisa. 

Estudos clínicos de desafio humano deveriam requerer a aprovação e fiscalização por uma comissão de ética independente, para evitar eventuais ingerências políticas e desvios de conduta médica.  

Notas do autor 

  1. As vacinas fazem uso do vírus causador de uma doença, mas em sua forma atenuada ou inativada. 
  2. Christine Grady é esposa do Dr. Anthony Fauci, o renomado imunologista estadunidense. 

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

EUA: dilemas na luta pelo sistema universal de saúde 

Por Ruben Rosenthal

Para a deputada Democrata Pramila Jayapal é muito frustrante ver seu próprio Partido levantar os mesmos argumentos contrários ao Medicare for All que Republicanos e empresas privadas seguradoras de saúde.    

Medicare for All nurses 2019
Membros do Sindicato Nacional de Enfermagem protestam em apoio ao Medicare for All em frente à Representação das Indústrias Farmacêuticas, abril 2019 \ Foto: Win McNamee/Getty Images

A ala progressista do partido Democrata se encontra dividida sobre a melhor forma de levar adiante o movimento pelo sistema universal de saúde, o Medicare for All, originalmente proposto pelo Senador Bernie Sanders.  Para alguns, a Democrata Nancy Pelosi presidente da Câmara deveria ser pressionada a colocar o projeto de lei em votação no plenário, mesmo não havendo atualmente maioria suficiente para aprovação.

O contra-argumento dentro do próprio campo progressista é que como a derrota na votação é quase certa, o foco deveria ser em propostas tangíveis no momento, como o salário mínimo de 15 dólares/hora. Enquanto a discussão domina as mídias sociais de esquerda sem que se chegue a um consenso, os Democratas conservadores já assumiram o enfrentamento com os progressistas, ocupando posições-chave na Câmara.  

Atualmente, são quatro as formas típicas de seguros de saúde a que recorrem os norte-americanos que conseguem pagar pela cobertura de um plano. Um plano em grupo, apoiado por um empregador; um plano privado de seguro, comprado através do mercado de seguros de saúde, sem a participação do governo na administração (aí se incluem o Obamacare e alguns outros planos); Medicare, que é um programa de seguro de saúde custeado pelo governo federal, voltado para adultos com mais e 65 anos e pessoas mais jovens com certo tipo restrito de incapacidade e condição clínica; Medicaid, um programa de seguro de saúde governamental para pessoas com limitação de recursos financeiros.  

Medicare for All. Segundo artigo no The New York Times, o sistema de seguro de saúde governamental proposto pelo senador Bernie Sanders, além de ser extensivo a qualquer pessoa no país, possui mais benefícios que o Medicare. Os atuais planos de saúde seriam extintos, assim como deduções, prêmios e a modalidade de co-participação. O novo plano cobriria também tratamentos dentários, despesas com óculos, aparelhos  de audição, além de home-care para pessoas com incapacidades.  

Com o novo sistema de saúde implantado, os médicos e hospitais privados continuariam a fornecer serviços de atendimento a pacientes. Mas sendo o plano público a única forma de entrada de recursos financeiros, o governo conseguiria ter um controle muito maior sobre os gastos com o sistema privado.   

Da forma como foi proposto o Plano, o Urban Institute calcula que os gastos federais aumentariam em quase 34 trilhões de dólares em 10 anos, mas os gastos com saúde por indivíduos, empregadores e governos estaduais diminuiriam de 27 trilhões. Assim, o aumento efetivo no referido período seria de 7 trilhões de dólares. Todas as pessoas, independentemente de terem ou não cobertura de saúde hoje, ficariam cobertas pelo novo programa federal. Desta forma, o Medicare for All preveniria a morte desnecessária de cerca de 68.000 pessoas, segundo artigo publicado na revista Lancet.    

Em um documento produzido durante a campanha presidencial, o Senador Sanders procurou explicar como conseguiria cobrir as despesas geradas pelo novo sistema de saúde. Mas, segundo o New York Times a conta pode não fechar, o que poderia requerer aumento de impostos. Ou então, como propõe o Urban Institute, o equilíbrio poderia ser alcançado com algumas alterações no Medicare for All.

Mas se Bernie Sanders foi o pai da proposta no Senado,  a deputada Democrata por Seattle Pramila Jayapal, presidente da Frente Progressista no Congresso (Congressional Progressive Caucus), é autora do projeto de lei 1384 na Câmara, que conta com 119 co-patrocinadores na Câmara, também propondo a criação pelo governo de um sistema público universal de saúde (single-payer system).   

Congressista Jayapal Pramila
Representante Pramila Jayapal em entrevista com jornalistas no Capitólio, junho 2019 \ Foto: Bill Clark /CQ Roll Call via AP Images

O projeto de lei 1384 já foi debatido formalmente na Câmara, ao passar por audiências nos Comitês de Orçamento, Regras, e Formas e Meios (Ways and Means).  No entanto, para a deputada Democrata Pramila Jayapal é muito frustrante ver seu próprio Partido levantar os mesmos argumentos contrários ao Medicare for All que Republicanos e empresas privadas seguradoras de saúde.    

#ForceTheVote e os dilemas da esquerda Democrata. Não há consenso entre os progressistas norte-americanos sobre a melhor estratégia para se alcançar a aprovação de um sistema de saúde universal garantido pelo governo. Conforme relato em Current Affairs de Briahna J. Gray, ex-secretária de imprensa de Bernie Sanders,  a celeuma começou em 27 de novembro, quando o YouTuber e comediante Jimmy Dore  fez uma provocação: “Que 15 democratas ameacem não votar em Nancy Pelosi quando da tentativa de reeleição como presidente (speaker) da Câmara, caso ela não encaminhe o projeto de lei 1384 para votação no plenário”.  Atualmente a maioria Democrata na Câmara é garantida por uma diferença de 15 assentos. Como nenhum Republicano votaria em Pelosi, a candidatura da Democrata ficaria seriamente comprometida.

Jimmy Dore fez também um questionamento aos cerca de 100 Democratas, membros da Frente Progressista: “vocês são ativistas pelo povo ou apenas gostam de posar de progressistas no Twitter para ganhar as próximas eleições?”.  Com a campanha #ForceTheVote foi lançado o desafio à esquerda Democrata de levar ao plenário a votação no sistema universal de saúde.  

Briahna Gray relata ainda em seu artigo que Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), uma das principais faces femininas da Frente Progressista no Congresso, discordou do esquema proposto por Jimmy Dore. Para AOC, como o projeto de Pramila Jayapal não tem a menor condição de ser aprovado no momento, “os progressistas deveriam usar da capacidade de pressão que possuem para avançar em propostas factíveis que possam mudar vidas, como a aprovação do salário mínimo de 15 dólares/hora nos primeiros 100 dias do mandato de Joe Biden”. 

No entanto, este aumento do mínimo já consta da plataforma eleitoral da campanha vitoriosa de Biden, conforme tuitou o jornalista Aaron Maté, indicando com isto que a posição de AOC não traz avanços para propostas progressistas.   

Para os apoiadores de se colocar agora o projeto de lei em votação no plenário, esta seria uma forma de expor os Democratas que se posicionarem contra o Medicare for All, defende Briahna Gray. Como um sistema público universal de saúde tem aprovação de 88% dos eleitores Democratas, os congressistas do Partido que se posicionarem de forma contrária teriam que prestar contas quando forem se submeter ao processo de re-seleção em seus respectivos distritos eleitorais. Desta forma, o movimento progressista poderia avançar dentro do partido, removendo candidaturas de Democratas com posições conservadoras. 

No entanto, o jornalista David Sirota, do Daily Poster, considera que a remoção de oponentes do Medicare for All que estejam no comando de comissões relevantes poderia trazer mais benefícios que uma votação em plenário agora. O primeiro da lista seria o congressista Richard Neal, atual presidente do Comitê de Formas e Meios, que trata das questões de receita do Medicare e do sistema de Seguridade Social. Para Sirota, desafiar Pelosi para forçar uma votação em plenário “seria uma ação típica de um movimento progressista que valoriza mais o espetáculo que o poder”.    

Os progressistas sabem que tanto Joe Biden como Kamela Harris não apoiam o Medicare for All. Harris chegou a ser co-patrocinadora da proposta no Senado, mas reverteu sua posição durante a campanha presidencial. Biden declarou que vetaria o plano mesmo se este passasse pela Câmara e Senado. Um dos motivos alegados foi que para se cobrir o custo de implementação seria necessário o aumento de impostos da classe média.  

Documentos de lobistas vazados para The Intercept em 2018 revelaram que a indústria farmacêutica, hospitais privados e seguradores de planos se associaram para influenciar o Partido Democrata a não incluir o Medicare for All em sua plataforma eleitoral para as eleições de 2020, ou mesmo expandir o atual Medicare. Uma investigação do In these Times revelou que, dentre os Democratas,  foi Biden quem recebeu as maiores doações da indústria da saúde, seguido por Buttigieg e Pamela Harris.    

O Esquadrão Progressista

O Esquadrão progressista. A partir da esquerda: Alexandria Ocasio-Cortez, Ayanna Presley, Ilhan Omar e Rachida Tlaib. Conferência de imprensa no Capitólio, julho 2019 \ Foto: Alex Wroblewski/Getty Images

Os apoiadores do Medicare for All entendem que durante a crise de saúde resultante da pandemia de Covid-19 seria maior a pressão popular sobre os congressistas, em apoio a uma cobertura médica mais abrangente.  Para Briahna Gray, o Esquadrão (The Squad) composto de quatro mulheres (não-brancas) eleitas em 2018 para o Congresso — AOC, Ilhan Omar, Ayanna Pressley, e Rachida Tlaib, tem “uma habilidade única em conseguir atrair a atenção da mídia”, o que ajudaria na mobilização popular para a votação do projeto de lei 1384.  

AOC recebeu a “gratidão” de Nancy Pelosi por não ter desafiado sua liderança na Casa: Pelosi preteriu a indicação de AOC para o poderoso Comitê de Energia e Comércio em favor de Kathleen Rice, deputada pró-corporações. Dentre as atribuições do Comitê estão a defesa do consumidor, segurança de alimentos e medicamentos, saúde pública, política de atendimento de saúde e clima.  

Ao que tudo indica, Pelosi pode ter feito uma retaliação à declaração de AOC ao The Intercept em 16 de dezembro, que “já era hora de Nancy Pelosi e do líder Democrata no Senado, Chuck Schumer, deixarem suas posições de liderança, mas que se isto acontecesse agora a esquerda não teria como preencher este vazio”. Fazendo uso do ditado popular, parece que AOC deu uma no cravo e outra na ferradura, e colheu o resultado. 

Sem uma liderança de esquerda aguerrida e unida, o acesso ao sistema universal de cobertura de saúde nos Estados Unidos ficará cada vez mais distante. Os movimentos de base precisarão pressionar os representantes que se dizem favoráveis ao Medicare for All a assumirem posições que levem ao efetivo enfrentamento dos defensores da medicina privada. Aí ficará claro quais são os reais progressistas e quais os performáticos.

O autor é professor aposentado da UENF, e publica análises políticas no blogue Chacoalhando

 

Eleição presidencial dos EUA 2020: conspirações e conspiradores

Os aliados continuam a abandonar o campo trumpista, apesar das novas e sensacionais revelações de teorias conspiratórias sobre fraudes cometidas  pelos Democratas nas eleições presidenciais. 

O monstro mítico Kraken deu nome à teoria conspiratória que pretende afundar a nau do Democrata Joe Biden \ Arte: cortesia Getty Images

Por Ruben Rosenthal, atualizado em 4 de dezembro

Os Estados Unidos atravessam uma situação sem precedentes devido à recusa de Donald Trump em reconhecer sua derrota nas eleições presidenciais, acusando os democratas de fraudes eleitorais generalizadas. Teorias conspiratórias encontraram campo fértil para proliferar. Do lado trumpista partem surpreendentes teorias acusatórias contra o candidato Democrata, que envolvem conluio com o intangível e onipresente Deep State.

Em artigo anterior do blog foi discutida a possibilidade de que Trump e os Republicanos  conspirem para alterar a chapa de membros do Colégio Eleitoral em alguns estados. A definição das chapas se dará em 14 de dezembro, mas o resultado da composição final do Colégio Eleitoral só será conhecido em 6 de janeiro, quando se consumaria o suposto golpe que estaria sendo planejado por Trump.

Negando a derrota. O atraso na contagem dos votos permitiu que Trump intensificasse as acusações de que várias irregularidades estariam ocorrendo, como a inclusão de dezenas de milhares de “cédulas postais ilegais”. Os Republicanos também argumentaram que seus inspetores não conseguiram acompanhar a contagem na Pensilvânia.

Assim, quando Biden ultrapassou a marca de 270 votos eleitorais com a vitória na Pensilvânia em 7 de novembro, o Republicano se recusou a aceitar o resultado. Apesar de enfrentar uma derrota de 306 contra 232 no Colégio Eleitoral, para Trump sua vitória era inegável e os tribunais iriam confirmar que várias fraudes haviam sido cometidas de forma a favorecer Biden.

Uma pesquisa mostrou que 70% dos apoiadores do Partido Republicano acreditam que as eleições não foram justas, com o principal motivo (78%) sendo o sistema de votação por correio. Os resultados na Pensilvânia são contestados por 62% dos republicanos, de acordo com a mesma pesquisa.

Os juízes dos tribunais locais vêm rejeitando quase todas as reclamações apresentadas pelos republicanos. Mesmo que algumas das supostas “fraudes” denunciadas inicialmente fossem comprovadas, elas seriam insuficientes para alterar o resultado da eleição presidencial. A equipe jurídica de Trump também entrou com ações judiciais em tribunais federais na Pensilvânia, Michigan e Arizona para sustar a certificação dos resultados da contagem de votos nesses estados, sem no entanto obter sucesso.

No entanto, novas e impressionantes teorias conspiratórias apoiando a versão de que os democratas fraudaram as eleições presidenciais em uma escala massiva começaram a aparecer nas mídias sociais.  Mesmo com Biden já tendo iniciado a formação de seu secretariado, Trump está ainda longe de admitir a derrota.

A conspiração do sistema de votação eletrônica.  Houve alguma celeuma no final de 2019 sobre a origem das máquinas de votação e contagem de votos, por receio de que contivessem peças de fabricação chinesa. As empresas Election Systems & Software (ES&S) e suas concorrentes, Dominion Voting Systems e Hart Intercivic foram questionadas para revelar tais informações. O presidente-executivo da ES&S, Tom Burt, rejeitou as críticas, acrescentando que a montagem final de suas máquinas eletrônicas ocorre nos EUA.

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Máquinas de votação e contagem de votos com software da Dominion \ Foto: cortesia Getty Images

Em 12 de novembro, Trump citou um relatório da rede conservadora One American News (OAN) ao tuitar que o software dos equipamentos de votação da Dominion deletou 2,7 milhões de votos seus e que transferiu 435.000 votos dele para Joe Biden. No entanto, um comitê conjunto da Agência de Segurança Cibernética e Infraestrutura do Departamento de Segurança Interna (CISA) declarou que “não há evidências de que qualquer sistema de votação excluiu ou perdeu votos, alterou votos ou foi de alguma forma comprometido”. Poucos dias depois, o diretor da CISA Christopher Krebs foi demitido por Trump.

Em 17 de novembro a BBC publicou o artigo “EUA Eleições 2020: Trump está certo sobre as máquinas da Dominion?”, apresentando uma análise detalhada das acusações que abrangem desde a exclusão de votos, até a influência inadequada sobre a empresa Dominion por oponentes políticos de Trump. A BBC não encontrou evidências de que as alegações fossem verdadeiras.

No entanto, ao contrário das denúncias anteriores de fraude, que foram recebidas com ceticismo generalizado no país e no exterior, a teoria da conspiração envolvendo a Dominion obteve um certo apoio na mídia independente. Alguns analistas políticos acreditam que poderia de fato ter ocorrido fraude a favor de Biden nas máquinas de votação da Dominion. No site Global Research foram publicados vários artigos sobre o assunto, com posicionamentos tanto favoráveis como contrários a ocorrência de envolvimento dos Democratas em fraude eleitoral massiva.

Entre aqueles que apoiam a visão de que ocorreu fraude eletrônica pró-Biden está o jornalista independente Brett Redmaine-Titley. Ele escreveu em 19 de novembro que é motivo de preocupação a integridade do sistema eletrônico de votação, já que seria improvável (embora não impossível) que os Democratas perdessem assentos na Câmara e nas legislaturas dos EUA e, ao mesmo tempo, Biden derrotar Trump nas eleições presidenciais. O autor considera que possivelmente “3% do total de votos tenham sido alterados nas cédulas de votação pré-eleitorais coletadas digitalmente”, principalmente nas máquinas fornecidas pela Dominion.

A teoria conspiratória sobre a Dominion adquiriu novos contornos, ainda mais surpreendentes, e que chegam a constituir uma nova teoria conspiratória. Agora a fraude relacionada com o sistema eletrônico de votação teria envolvido a participação da CIA e do Departamento de Defesa, com ocorrência de confrontação bélica na Alemanha. 

A conspiração Kraken. Kraken é o nome de um monstro marinho gigantesco do folclore escandinavo, que sobe do oceano para devorar seus inimigos. Em março de 2017, o Wikileaks revelou documentos vazados que eles batizaram de “Vault 7”, expondo as ferramentas de hacking da CIA, incluindo a infraestrutura usada para desenvolver o programa “Kraken”. No entanto, para se conseguir uma visão completa dos objetivos e do alcance total do software é necessária  a leitura de centenas de páginas dos documentos que vazaram. Mais detalhes continuarão a aparecer na mídia corporativa e nas mídias sociais. Resta saber quais serão as versões confiáveis

Em 2017, com base em 8.761 documentos expostos pelo Wikileaks, o informativo Deutsche Welle relatou que o consulado dos EUA em Frankfurt, Alemanha, era usado como base remota para a CIA começar ataques hackers na Europa, China e Oriente Médio.

De volta a 2020, em 13 de novembro, o site de direita The Gateway Pundit citou o deputado republicano texano Louie Gohmert, para difundir que “forças do exército norte-americano apreenderam servidores em um escritório de Frankfurt da empresa de software Scytl, com sede em Barcelona”. O artigo tenta vincular a empresa Scytl a Dominion, Soros e Bill Gates.

Os apoiadores de Trump  foram rápidos em propagar a nova teoria conspiratória, de que a CIA utilizou o  programa de hacking Kraken para fraudar as eleições presidenciais de 2020. Correlacionando informações obtidas dos vazamentos revelados pelo Wikileaks em 2017 com as recentes eleições nos EUA, o site trumpista escreveu: “Parece que a CIA estava usando o mesmo centro de dados estrangeiro para hackear as eleições nos Estados Unidos … e foi pega. Pode ser por isso que, como relata Gateway Pundit, a CIA foi mantida completamente fora da operação de ataque ao servidor, segundo rumores na Alemanha”. E complementando: “A ação do exército foi provavelmente direcionada contra o local dos servidores controlados pela própria CIA, de onde fora executada a operação remota de invasão hacker pela Dominion-Scytl na noite da eleição!”. A agência de notícias  Associated Press  negou a veracidade da informação, informando que o  exército refuta que a citada operação tenha existido, e que a empresa espanhola classificou as notícias como fake news, negando que tenha escritórios ou servidores em Frankfurt.

A palavra “Kraken” foi utilizada pela advogada Sidney Powell – que até recentemente fazia parte da equipe jurídica de Donald Trump e agora permanece não oficialmente na equipe. Ela descreveu a argumentação que estava montando para provar as fraudes cometidas pelos democratas como “um Kraken,  que quando liberado destruiria o caso do democrata Joe Biden ter conquistado a presidência dos Estados Unidos”. Grupos pró-Trump, incluindo adeptos da teoria conspiratória QAnon, ampliaram a ideia com a hashtag #ReleaseTheKraken. Em fins de novembro a BBC relatou que os documentos apresentados por Powell, constando de quase 200 páginas, consistiam predominantemente de teorias de conspiração e alegações infundadas que já foram rejeitadas.

Distribuição jurisdicional das máquinas de votação por fornecedor. A Dominion aparece em laranja. \ Fonte: The Business of Voting / Universidade da Pensilvânia, Penn Wharton

Para acrescentar mais um ingrediente ao caldeirão conspiratório fomentado nas mídias sociais trumpistas, o tenente-general aposentado da Força Aérea Thomas McInerney, em entrevista para a WVW-TV apresentou uma versão que soldados norte-americanos morreram no ataque às instalações da CIA em Frankfurt, quando as Forças de Operações Especiais teriam capturado servidores da Dominion. Mesmo com o desmentido do comando de Operações Especiais do Exército,  McInerney manteve sua versão. O vídeo completo da entrevista de McInerney para WVW-TV inclui também a entrevista do tenente-general reformado Michael Flynn, recém-perdoado por Trump. Flynn, que admitira ter mentido para o FBI sobre contatos com o embaixador da Rússia, agora pede que Trump suspenda a constituição e declare lei marcial para repetir a eleição.

McInerney declarou ainda que a missão havia sido desvendada pelo 305o Batalhão de Inteligência Militar, conhecido como Kraken. Para  o tenente-general “o batalhão Kraken trabalhava em conjunto com a advogada Sidney Powell e com Trump. O presidente empregou o 305o porque não confiava no Departamento de Justiça, no FBI ou na CIA, por eles estarem do lado do Deep State”.

Na terça-feira, 2 de dezembro, William Barr, procurador geral dos Estados Unidos e fiel aliado de Trump declarou que o Departamento de Justiça não verificou qualquer evidência de fraude eleitoral que pudesse mudar o resultado da corrida presidencial de 2020. Os aliados parecem abandonar o campo trumpista, apesar das novas e sensacionais revelações de teorias conspiratórias sobre fraudes cometidas pelos Democratas nas eleições presidenciais.

Enquanto prossegue a  contagem regressiva para a votação no Colégio Eleitoral em 14 de dezembro, poderão ainda ocorrer novas surpresas no cenário político dos Estados Unidos? Trump planeja de fato interferir na escolha dos membros do Colégio Eleitoral? É ainda imprevisível se o país estará pacificado a partir de 2021, ou se confrontos generalizados violentos poderão ocorrer.

O autor é professor aposentado da UENF, e publica análises políticas no blogue Chacoalhando.

Estados Unidos: bilionários e grandes corporações capturaram a Suprema Corte, por Ruben Rosenthal

As ações de doadores anônimos infestaram as Cortes com um cheiro de podre que pode trazer danos duradouros ao Judiciário como instituição.

O peso do dinheiro \ Arte: kanvag/stock photo

Através de uma articulação cuidadosamente planejada e que já vinha sendo conduzida há duas décadas, os juízes conservadores poderão exercer total controle da Suprema Corte norte-americana pelas próximas décadas. Com a recente indicação e aprovação da juíza Amy Coney Barrett a maioria conservadora foi ampliada para 6 a 3. Um dos pilares que deveria garantir o equilíbrio dos três poderes em um Estado Democrático de Direito está agora com totalmente comprometido.  

Por trás deste “golpe político” que se consolidou lentamente estão bilionários e grandes corporações. A predominância dos conservadores trará consequências ainda imprevisíveis, mas que certamente afetarão causas trabalhistas e relacionadas com os direitos civis e humanos, colocando também em risco a atual legalidade do aborto e conquistas do movimento LGBT. No histórico de Barrett consta que ela atuou por três anos no conselho de administração de uma escola privada cristã que discriminava professores gays e lésbicas, e que não aceitava alunos com pais do mesmo sexo.

Nos últimos dias foram constantes as imagens da juíza Barrett sendo sabatinada em audiências no senado norte-americano, como parte do procedimento para ocupar a vaga aberta na Suprema Corte. Tendo sua aprovação previamente assegurada pela maioria Republicana, a juíza pôde se dar ao luxo de ser totalmente evasiva na maioria das respostas, mesmo quando questionada sobre eventuais violações da Constituição do país por parte de Donald Trump.

No meio de tanta desfaçatez por parte de Barrett e da hipocrisia de senadores Republicanos, que aceitaram fazer parte de uma completa farsa que apenas expõe ao mundo as falhas da democracia norte-americana, há que se destacar a sabatina conduzida por Sheldon Whitehouse, senador Democrata e ex-procurador geral pelo Estado de Rhode Island.

Whitehouse aproveitou a audiência para reforçar denúncias que dinheiro de origem anônima (dark money) vem sendo utilizado para solapar o sistema democrático nos Estados Unidos. Não é novidade que os lobistas das grandes corporações já possuíam enorme influência no Congresso norte-americano. Entretanto a integridade da Suprema Corte ainda permanecia inquestionável até poucos anos atrás. Agora não mais.

Em discurso de setembro de 2016 no senado (ver transcrição), Whitehouse já citara informações contidas no livro Dark Money, de Jane Mayer, para denunciar bilionários de direita como os irmãos Charles e David Koch (David faleceu em 2019) que estavam interferindo de forma oculta nas discussões sobre mudança climática que ocorriam então no Congresso. Entidades como Donors TrustDonors Capital Fund e Bradley Foundation foram peças centrais na cadeia promíscua de repasse de fundos para think tanks, grupos de interesse, associações de comércio, fundações e acadêmicos, com o objetivo de contestar evidências científicas que mostravam a relação dos combustíveis fósseis com mudanças climáticas.

Segundo Fact Check, um dos grupos de interesse conservadores mais influentes é Americans for Prosperity (AFP), fundado por David Koch. AFP foi uma força principal de apoio ao movimento ultraconservador Tea Party, na defesa de menores impostos, limitação de gastos do governo e da desregulamentação.

Senador Whitehouse sabatina a juíza Amy Barrett sobre a rede de doações anônimas que corrompeu o Judiciário \ Foto: Greg Nash/Pool via CnP/CNP via ZUMA Wire

Também partiram do grupo, fortes ataques ao Affordable Care Act, o programa de saúde mais acessível à população implantado por Obama em 2010. Mais de 407 milhões de dólares foram investidos nas eleições de 2012 pela rede de doadores apoiada por Koch, sendo o Obamacare um dos alvos da campanha. Conforme publicado no New York Times em 2013, cerca de 20 milhões de dólares seriam usados em ataques ao Obamacare visando as eleições de 2014. No livro de Jane Meyer é citado que Americans for Prosperity anunciara que iria investir 750 milhões na campanha eleitoral norte-americana de 2016.

Na estrutura da rede de influência dos irmãos Koch, o grupo Freedom Partners (atual Stand Together) faz o papel de banco secreto, encaminhando doações anônimas para promoção de causas conservadoras. Americans for Prosperity foi apenas um dos grupos de intermediação financiados pelo banco secreto dos Kochs. A NRANational Rifle Association, entidade lobista pró-armas, e a Câmara de Comércio dos Estados Unidos também se beneficiaram.

Em fevereiro de 2020 o senador Whitehouse publicou um extenso artigo no Harvard Law Journal on Legislation (HLJL), que tratou em profundidade como as doações anônimas foram usadas para corromper diversos setores da estrutura do Estado norte-americano.

Para o senador, as corporações manipulam o poder de comando na democracia norte-americana. “Este poder é frequentemente direcionado para que forças corporativas possam subverter o livre mercado em vantagem própria, proteger sua própria capacidade de influência e se esquivar da responsabilidade por danos causados ao público”.

Um exemplo citado no artigo é o da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, que gastou 1,5 bilhão de dólares em atividades lobistas nas últimas duas décadas, atuando principalmente na negação climática, de políticas salariais igualitárias, e flexibilizando restrições ao comércio de tabaco. A entidade recebe financiamento do referido banco secreto dos Kochs.

Whitehouse relata ainda que após o “infame” caso Citizens  United v. FEC, em que o grupo conservador Citizens United, representando interesses corporativos, acionou na justiça a Comissão Eleitoral (Federal Election Commission, FEC), que impunha limites aos gastos nas campanhas eleitorais. Pela decisão de 2010, a Suprema Corte removeu as restrições de gastos por corporações, sindicatos e organizações sem fins lucrativos nas campanhas de mídia e de propaganda política, abrindo também o caminho para a ocultação da origem dos financiamentos.

Whitehouse denunciou que as corporações “capturaram” as agências reguladoras. Na administração Trump, a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) passou a ser controlada por pessoal ligado diretamente à indústrias poluidoras. A Secretaria do Departamento Interior, responsável pela administração das terras federais, foi entregue a um lobista da área de petróleo e gás. O resultado não poderia ter sido outro que a concessão de imensas áreas à prospecção de fontes de energia não renovável e poluidoras do meio ambiente, além do atraso na aprovação de projetos de geração de energia eólica.

O senador relata no artigo do HLJL que ao longo de vários anos foi sendo também coordenada a nomeação de juízes pró-desregulamentação, favoráveis às corporações. Este aparelhamento das Cortes (court packing) foi obtido através da ação de grupos de fachada financiados secretamente por uma rede de doadores de direita. Como os juízes federais ocupam cargos vitalícios, “o efeito nefasto será sentido por várias décadas, principalmente porque os juízes, sob um manto de neutralidade, assumem o ônus de adotar decisões impopulares que muitos políticos não teriam coragem de assumir” perante os eleitores.

Judicial Crisis Network (JCN) é uma das organizações envolvidas no encaminhamento de doações anônimas para influenciar o Judiciário, citadas no artigo do HLJL.  A interferência pode se dar através de campanhas a favor ou contra os indicados.

No governo Obama, um “doador desconhecido” contribuiu com 17 milhões de dólares para barrar a indicação de Merrick Garland para a Suprema Corte, e apoiar posteriormente a indicação de Neil Gorsuck para a mesma vaga, já na administração Trump. Em 2018, JCN recebeu possivelmente do mesmo doador outros 17 milhões para a intermediação do apoio à indicação de Brett Kavanaugh, que precisou superar acusações de que cometera abusos sexuais na juventude.

Segundo Whitehouse, por trás destas campanhas estava o advogado Leonard Leo, 59, o principal articulador do plano para garantir a indicação de juízes conservadores para as Cortes federais, como também para influenciar no desfecho das causas. Detalhes da estratégia adotada foram relatados pelo jornal The Washington Post em artigo de maio de 2019.

Leo é vice-presidente executivo da Federalist Society, uma influente organização de advogados conservadores e libertários (ultraliberais), com ligações próximas com juízes da Suprema Corte. Ele atua também para solapar candidaturas que não atendam aos interesses defendidos pela Federalist Society.

Leo revelou na entrevista ao Post que conseguira prejudicar a indicação de Robert Bork para a Suprema Corte em 1987.  Em 2005 e 2006, liderou as campanhas para apoiar as indicações de John G. Roberts Jr., atual presidente da Corte, e de Samuel A. Alito, este indicado em substituição à candidatura de Harriet Miers, que fora contestada pelo próprio campo conservador. Foram gastos nas duas campanhas cerca de 15 milhões de dólares provenientes de doações anônimas.

Mesmo durante o período Obama, a influência e as conexões políticas de Leo continuaram a crescer. Entre 2014 e 2017 os grupos ligados a Leo arrecadaram mais de 250 milhões de dólares para investir nas campanhas de apoio à políticas conservadoras.

Ainda segundo o artigo do Post, em março de 2016 Leo se reuniu com Trump, quando este estava tentando ser indicado como candidato Republicano à presidência. Foi quando Leo conseguiu apoio de Trump para o objetivo de consolidar o domínio conservador nas Cortes federais. Durante a campanha presidencial, Leo se tornou presidente de três grupos­ que não têm funcionários nem dispõem de websitesBH Fund, Freedom and Opportunity Fund e  America Engaged. Todos os três grupos contrataram a empresa CRC Public Relations, que realizou uma campanha sofisticada de mídia.

Com a eleição de Trump, Leo levantou financiamento para as campanhas de Neil Gorsuch e Brett Kavanaugh, com a participação dos três fundos presididos por ele. America Engaged doou 1 milhão de dólares para a campanha pró-armas da National Rifle Association. A NRA, por sua vez, repassou no mesmo ano 1 milhão de dólares em apoio à campanha de Gorsuch para a Suprema Corte. Estes exemplos mostram o modus operandi da rede de organizações que vem aparelhando as Cortes federais dos Estados Unidos.

Com a indicação e aprovação de Barret para ocupar a vaga aberta com o falecimento da juíza progressista Ruth Bader Ginsburg, as causas conservadoras ficaram reforçadas. Entretanto, o apoio aos valores “morais e éticos” abraçados pelo conservadorismo constituem apenas a ponta visível do iceberg.  Pode-se esperar também que os interesses das grandes fortunas sejam favorecidos em detrimento do cidadão comum nos julgamentos nas Cortes. 

Falando em aparelhamento da Corte \ Arte: Signe Wilkinson/Philadelphia Inquirer

O artigo de Sheldon Whitehouse no HLJL detalha como os interesses corporativos atuam para vencer as causas nas Cortes. Após a posse do juiz favorecido pela campanha da rede de influência conservadora, casos estratégicos serão direcionados para este juiz. Durante o julgamento, amici curiae (amigos da Corte) bancados pelos mesmos doadores anônimos irão se manifestar, ecoando estes interesses.

Whitehouse cita um caso em que 13 amici curiae foram financiados por entidades que também estavam financiando a Federalist Society.  Em outro caso, 16 fundações de direita doaram cerca de 69 milhões de dólares para grupos pressionarem a Suprema Corte a abolir o Centro de Proteção Financeira ao Consumidor.  

O juiz da Suprema Corte, John G. Roberts é mencionado no artigo de Whitehouse por atuar a serviço dos interesses do partido Republicano. Durante a gestão de Roberts à frente da Corte (iniciada em 2005), cerca de 80 decisões polêmicas foram tomadas pelo placar de 5 a 4, em que os votos se deram em bases estritamente partidárias (assistir Whitehouse em vídeo). O voto de minerva coube a Roberts, indicado para a Corte pelos Republicanos.

Estas decisões beneficiaram diretamente grandes corporações e interesses de doadores republicanos, incluindo autorizar gastos ilimitados em eleições, impedir normas de poluição, coibir direitos de votos das minorias, prejudicar o direito de organização sindical e o de trabalhadores acionarem os empregadores na justiça.

As ações de doadores anônimos infestaram as Cortes com um “cheiro de podre”, que pode trazer danos duradouros ao Judiciário como instituição. Cabe ao Congresso adotar passos para deter a erosão da confiança e trazer a Corte de volta ao seu papel constitucional”, acrescentou Whitehouse.

O senador não acredita que seja o caso de limitar o tempo de mandato ou de acrescentar mais assentos à Corte, como sugerido por alguns críticos da atual situação. Para ele, o primeiro passo lógico seria tomar medidas para tornar o Judiciário mais transparente. Whitehouse propõe então cinco ações principais para abrir a caixa preta do Judiciário.

-Introdução de legislação para revelar os grandes doadores que financiam os “amigos da Corte”, de forma a deter a influência dos interesses das corporações.

-Proibição de juízes receberem presentes ou terem despesas de passagem e hospedagem pagas como cortesia: “quando o juiz Scalia morreu em 2016, ele se encontrava hospedado em um alojamento de caça, com suas diárias de 700 dólares sendo bancadas por um empresário que fora favorecido em uma reclamação trabalhista na Suprema Corte”. 

-Transparência das agendas de reuniões de juízes com partes litigantes e amici curiae.

-Preservação dos arquivos pessoais dos juízes. Para o senador é de interesse público que tais arquivos sejam transferidos para o Arquivo Nacional após a morte do juiz.

-Regulamentação das doações relacionadas com as indicações de juízes. As despesas com as campanhas devem ser relatadas à Comissão Eleitoral Federal.

Mesmo que Trump perca as próximas eleições, já estão assegurados os interesses da minoria dos 10% mais ricos que detém 77% da riqueza do país. O Congresso norte-americano precisaria aprovar medidas que possam assegurar que as decisões do Judiciário não contribuam para ampliar ainda mais esta discrepância, e que idealmente consigam reduzir as disparidades. 

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Guerra híbrida: vítimas e vilões

Por Ruben Rosenthal

Os principais vilões da guerra híbrida citados nos relatórios elaborados pelos analistas dos think tanks do Ocidente são a Rússia, China, Irã, Coréia do Norte e Estado Islâmico, sendo omitidas as ações híbridas por parte dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos promoveram ações cibernéticas contra a rede elétrica russa em 2018. Usina térmica em Moscou \ Foto: Maxim Shemetov/Reuters

No artigo anterior, através de uma abordagem mais acadêmica, foram apresentadas táticas que fazem parte do arsenal de recursos da guerra híbrida. Basicamente, a estratégia se propõe a alcançar os objetivos pretendidos, em geral de natureza geopolítica, sem se chegar à uma confrontação militar direta entre dois Estados. Também foram apresentados outros termos utilizados para definir estratégias semelhantes, mas com diferentes ênfases nas táticas civis e militares.

Nos Estados Unidos, além de guerra híbrida são utilizadas as expressões conflitos na zona cinzenta, guerra assimétrica, guerra irregular, guerra não convencional e guerra política. Os chineses preferem adotar guerra irrestrita, enquanto os russos empregam guerra de nova geração, poder brando e guerra não linear.

Os principais vilões da guerra híbrida citados nos relatórios elaborados pelos especialistas dos think tanks1 do Ocidente são a Rússia, China, Irã, Coréia do Norte e Estado Islâmico, omitindo as ações híbridas por parte dos Estados Unidos. Uma notável exceção foi a linha adotada no relatório Modern Political Warfare, publicado em 2018 pelo RAND Arroyo Center, unidade de pesquisa da RAND Corporation, ao afirmar que “é igualmente importante reconhecer que os Estados Unidos vêm praticando esta forma de guerra desde a sua fundação”.

O referido relatório prefere resgatar o antigo termo “guerra política”, nas 355 páginas em que descreve as operações híbridas de Estados Unidos, Rússia, Irã e Estado Islâmico. A China, que para alguns analistas do Ocidente é a principal vilã da guerra híbrida, não foi incluída no estudo. O atual artigo abordará as alegações que pesam sobre Estados Unidos, Rússia e China em relatos de think tanks e de outras fontes.

A análise apresentada no relatório do RAND Arroyo Center separa em quatro grupos, as táticas de guerra política conduzidas pelos países estudados: informação/cibernética, economia (ajuda, coerção e subversão), diplomacia/política, militar. 

Estados Unidos e suas guerras híbridas.

Desde sua fundação como nação independente, os Estados Unidos se engajaram em intervenções fora de suas fronteiras. Várias destas se deram no campo da guerra convencional, como a conquista de parte do México no século 19, a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a Guerra da Coréia, do Vietnam, do Afeganistão e do Iraque. No entanto, outras intervenções foram de natureza puramente híbrida, ou mescladas com engajamento bélico formal. 

Informação/Cibernética. Mesmo antes da assinatura da Declaração de Independência das 13 colônias da coroa inglesa, o Congresso Continental dos Estados Unidos escreveu em outubro de 1775 uma conclamação ao povo de Quebec, província de língua francesa no Canadá. Na nota havia um chamamento para a população local se revoltar contra a coroa britânica. Tal iniciativa mostra o emprego de uma tática  de informação contra o adversário mais forte, e que atualmente faz parte do manual de guerra híbrida.

Na época da guerra fria contra a União Soviética e países da “cortina ferro”, os Estados Unidos recorreram às transmissões da Rádio Liberdade e da Rádio Europa Livre. A CIA promoveu exposições de arte abstrata expressionista como forma de contrapor ao realismo Soviético, bem como financiou escritores e dramaturgos norte-americanos. Dezenas de fundações de caridade também distribuíram dinheiro proveniente CIA.

O relatório cita também a campanha de desinformação contra alguns líderes, como foi no caso de Saddam Hussein (acusado falsamente de possuir armas de destruição em massa). Entretanto não é mencionada a longeva campanha de propaganda negativa vem sendo conduzida para desestabilizar o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela. Uma recente campanha de desinformação vem sendo conduzida contra o presidente russo Vladimir Putin, com acusações de uso do agente neurotóxico Novichok contra seus opositores ainda sem comprovação efetiva.

Um relatório da OPAQ, a Organização para a Prevenção de Armas Químicas, foi manipulado como parte de uma campanha de desinformação contra presidente sírio Bashar al-Hassad de uso de gases tóxicos contra a população. A campanha foi usada para justificar ataques militares pela OTAN.

Acusações contra a China de opressão da etnia Uigur em Xinjiang parecem também envolver manipulação de informações. Também recente é a campanha do governo Trump contra a China, ao chamar o Sars Cov-2 de “vírus chinês”, acusando a China de ocultação da gravidade da pandemia de Covid-19 e ameaçando os chineses com sanções econômicas.

Os Estados Unidos vêm realizando ataques cibernéticos através da CIA contra Irã e Rússia, após uma ordem secreta de Trump em 2018.  Artigo de julho deste ano na Forbes menciona que pelo menos 12 operações desta natureza já haviam sido realizadas até aquela data. Em junho de 2019 foi lançado um ataque contra o sistema de computadores que controla os lançadores de foguetes e mísseis iranianos. Anteriormente, em 2009, a CIA já havia conduzido uma ação cibernética conjunta com Israel para destruir centrífugas utilizadas no enriquecimento de urânio iraniano.

As operações cibernéticas contra a Rússia, segundo relato no The New York Times de junho de 2019, consistiram na colocação de malwares agressivos na rede elétrica. O ataque se deu em retaliação por supostas ações russas em desinformação e raqueamento nas eleições norte-americanas de meio termo, em 2018. A Rússia também era acusada de haver instalado  malwares que, em caso de um futuro conflito com os Estados Unidos, poderiam ser usados para sabotar plantas de energia, linhas de petróleo e gás, e suprimentos de água. No entanto, desde 2012 os Estados Unidos já haviam colocado sondas de reconhecimento no sistema da rede elétrica russa.

Economia (ajuda, coerção, subversão). Segundo o relatório do RAND Arroyo Center, um exemplo do uso de coerção econômica ainda na primeira metade do século 20, foi a pressão que os Estados Unidos exerceram em países na América Central através da United Fruit Company (vem desta época a origem do termo “repúblicas de bananas”).

Repúblicas de Bananas, um termo pejorativo usado para países da América Latina e Caribe.

Com o término da Segunda Guerra Mundial, a ajuda econômica a países da Europa Ocidental através do Plano Marshall evitou o aumento da influência do comunismo. Em paralelo, foi promovida sabotagem econômica (subversão) contra a União Soviética, ressalta o relatório.

Outra ação citada de coerção no campo da economia foi a aplicação de sanções econômicas contra o regime do Apartheid, então vigente na África do Sul. Também foram aplicadas sanções econômicas ao Iraque, Irã e Síria. Não foram incluídas no relatório as recentes sanções econômicas ou barreiras comerciais impostas à Rússia, China, Venezuela, Coréia do Norte. As ações de guerra híbrida contra Cuba já perduram por décadas.

Diplomacia e Política. Ainda segundo o relatório do RAND Arroyo Center, no começo do século 20 foi dado apoio ao nacionalismo étnico, como forma de minar a unidade nos impérios Otomano e Austro-Húngaro. Durante a Guerra Fria, partidos políticos em diversos países da Europa Ocidental foram apoiados, para evitar que os comunistas vencessem as eleições nacionais. A ajuda ao movimento Solidariedade na Polônia contribuiu para solapar a influência soviética na Europa Oriental, e através do apoio ao Dalai Lama, líder espiritual do budismo tibetano, vem sendo incentivado o separatismo da província Chinesa. No período pós-Guerra Fria os Estados Unidos deram suporte a diversos movimentos ditos “pró-democracia”.

Não consta do relatório, o financiamento norte-americano, através da National Endowment for Democracy, ao Congresso Nacional Uigur, organização que visa a independência da província chinesa de Xinjiang (vizinha ao Tibet) e a desestabilização da China. Os últimos governos norte-americanos também procuraram criar instabilidade política em Hong Kong, conforme se aproxima o final do prazo de 50 anos da garantia de um sistema capitalista da ilha, com o qual a China se comprometeu com o Reino Unido pelo acordo de devolução da região à soberania chinesa.

Recentemente o governo norte-americano vem concedendo apoio político a Juan Guaidó, na Venezuela, em operação de desestabilização do presidente Nicolás Maduro. Na Arábia Saudita, o príncipe Mohammad Bin Salman recebe apoio do governo Trump, mesmo com os fortes indícios de ter sido o mandante do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi pesando sobre ele. O apoio político e diplomático também já foi concedido a outros políticos, líderes e monarcas alinhados com os interesses norte-americanos e do Ocidente, mesmo que sejam ditadores em seus países.

Um exemplo emblemático do uso da diplomacia para fortalecer ditadores em nome de interesses geopolíticos (também não mencionado no relatório), foi o apoio concedido pelo governo norte-americano, com o conluio do então primeiro-ministro britânico Tony Blair, ao presidente Karimov do Uzbequistão, um ditador que eliminava seus oponentes com requintes de extrema crueldade. O objetivo do apoio diplomático era o de fortalecer alianças na “guerra ao terror”, após os atentados de 11 de setembro de 2001. O caso foi exposto pelo ex-embaixador do Reino Unido, Craig Murray, em seu livro Diplomacia Suja.

Militar. As ações híbridas dos Estados Unidos no campo militar citadas no relatório incluem o apoio à resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Na ocasião, grupos operacionais também foram enviados a Grécia, Itália e Iugoslávia. Na Ásia, para ajudar no combate ao Japão grupos foram enviados a Tailândia, Burma (atual Mianmar), Malásia, e China.

Outro exemplo citado, foi o apoio ao golpe de estado no Irã em 1953, com a deposição de Mossadegh, primeiro-ministro nacionalista, e ascensão ao poder de um representante dos interesses norte-americanos e britânicos, o Xá Reza Pahlevi. A crueldade do novo regime contribuiu para o advento da revolução islâmica. Nos anos 50 e 60, a CIA participou do treinamento militar de resistentes tibetanos contra a ocupação e anexação do Tibet pela China, que ocorrera em 1950-51.

Placa em homenagem aos combatentes tibetanos treinados pela CIA em Camp Hale, Estados Unidos \ Foto: Nolan Peterson/Coffee or Die

As ações subversivas dos Estados Unidos na Guatemala (1954) e Chile (1973) levaram à remoção de dois presidentes eleitos democraticamente, e ascensão de governos ditatoriais. Durante os governos de Jimmy Carter e Ronald Reagan, os Estados Unidos deram apoio militar encoberto aos Contras, grupos paramilitares que se opunham aos sandinistas que governavam a Nicarágua após a derrubada do ditador Somoza. Nas últimas décadas houve o apoio militar aos mujahedeen no Afeganistão na luta contra a presença soviética, aos Curdos no Iraque, e aos rebeldes na Líbia e na Síria. As operações trouxeram desestabilização a estes países, o que possibilitou o aumento da influência do Estado Islâmico.

Uma típica ação militar híbrida não incluída no relatório foi o apoio da CIA ao KLA, o Exército de Libertação do Kosovo, quando a província ainda estava vinculada à ex-Iugoslávia, o que foi reconhecido pela própria CIA, segundo relato recente no periódico britânico Sunday Times.

Brasil, vítima da guerra híbrida dos EUA

Não foram mencionadas no relatório do Arroyo Center, as operações de desestabilização dos governos de João Goulart e de Dilma Roussef. No caso do golpe de 64, que envolveu a participação da CIA, existe farta documentação sobre o apoio financeiro, material e político dos norte-americanos.

Uma das formas utilizadas pelos Estados Unidos para desestabilizar o governo de Dilma Roussef foi através da canalização de verbas da National Endowment for Democracy para a Atlas Network, instituição ultraliberal que gerou o MBL no Brasil. A ação da Atlas Network contra o governo Roussef foi reconhecida por Ron Paul, influente político norte-americano de direita. Atualmente o Brasil sofre coerção para que não faça opção pela tecnologia 5G da empresa Huawei.

Rússia, vítima ou vilã na guerra híbrida?

O relatório do RAND Arroyo Center apresenta uma análise de ações promovidas dentro do conceito russo de “nova geração da guerra”. Dentre as táticas a que a Rússia recorreria visando minar a segurança Europeia está a parceria com grupos armados, a guerra de propaganda e operações encobertas.

No relatório, a Estônia – ex-república da União Soviética – foi tomada como exemplo de um caso de guerra política fomentada pela Rússia. O foco do estudo foi a província de Ida-Viru, que tem uma maioria de 80% de cidadãos de língua russa, o que poderia torná-la suscetível a uma campanha separatista. Apesar do avançado sistema de bem estar social da Estônia, as taxas de desemprego e de pobreza são maiores nas áreas rurais de população russa.

A Rússia se opôs à política de integração da Estônia com a Europa Ocidental, e teria procurado minar o governo central. O relatório cita os incidentes da chamada “noite de bronze”, como um exemplo concreto de guerra política. Os eventos ocorreram a partir de abril de 2007, quando as autoridades estonianas resolveram remover uma estátua que comemorava a vitória soviética na Segunda Guerra Mundial. Ocorreram protestos da comunidade russa da Estônia, que logo se transformaram em distúrbios. Seguiu-se uma série de ataques cibernéticos, que foram atribuídos à Rússia.

Para Hal Brands, analista sênior do FPRI (Instituto de Pesquisa em Política Internacional), a Rússia recorreu a táticas na zona cinzenta em operações na Criméia que levaram à anexação da região em 2014, desmembrada da Ucrânia. Segundo relatado em artigo de Vladimir Batyuk, professor de relações internacionais em Moscou, o Pentágono ficou extremamente alarmado que a Criméia fora anexada “sem o disparo de um único tiro”. Os analistas norte-americanos ficaram preocupados com as “novas táticas das forças armadas russas, que incluiriam forças especiais, guerra cibernética, propaganda e operações encobertas”.

De acordo com o analista russo Ruslan Pukhov, diretor do Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias e editor do jornal Moscow Defense Brief, os militares russos conseguiram convencer oitenta por cento das forças ucranianas a desertar ou passar em massa para o lado russo; os outros 20 por cento decidiram continuar a servir nas forças armadas ucranianas, mas deixaram a Criméia, sem opor qualquer resistência. Isto só foi possível porque a maioria das forças ucranianas na Criméia consistia de pessoal originário da própria região. Pukhov relata que não ocorreram relatos do uso de operações cibernéticas na Criméia. Ele acrescenta ainda que descrever os eventos ocorridos na Ucrânia como guerra híbrida é uma tentativa, com motivações políticas, de exagerar os fatores externos no conflito, em detrimento dos internos.

O ex-oficial da marinha norte americana e especialista em guerra híbrida, Frank Hoffman, relatou que em 2008 a Rússia empregou táticas híbridas para que a Ossétia do Sul e a Abecássia se separassem da Geórgia (uma ex-república soviética), através da ação de milícias da Ossétia do Norte (província autônoma russa) e de mercenários da Chechênia (república da federação russa). Para o Carnegie Council, o livro The Tanks of August (Os tanques de agosto), publicado pelo Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias, da Rússia, é uma leitura fundamental para se entender a perspectiva da Rússia e as condições que levaram ao conflito armado de cinco dias. A Geórgia, que desde o ano 2000 vinha aumentando sua capacidade militar e investira oito por cento do PIB em armamentos em 2007/2008, tomou a iniciativa de um ataque surpresa em Tskhinvali, na Ossétia do Sul, deflagrando o conflito.

Em outubro de 2014, a Comissão Europeia fez um estudo do impacto que um corte de seis meses no fornecimento de gás natural teria em países da Europa, caso a Rússia fizesse uso desta tática híbrida. Finlândia, Estônia, Bulgária, e países do oeste dos Balcãs seriam os mais vulneráveis, podendo sofrer quedas de 80-100% no fornecimento, conforme relatado pelo RAND Arroyo Center.

Efeito do corte por 6 meses no fornecimento de gás natural russo. Comissão Europeia \ Fonte: RAND Arroyo Center

Os analistas do RAND Arroyo Center relatam que “a Rússia se considera como vítima da guerra política contemporânea”. Segundo a análise, “o país superestima o papel desempenhado pelos Estados Unidos em promover revoluções democráticas e liberais, como nos casos dos protestos Maidan (de 2014, na Ucrânia), revoluções coloridas, Primavera Árabe, e outros. O presidente Putin tende a ver estes eventos como resultantes de uma política agressiva do Ocidente”.

“A Rússia se vê como uma grande potência detentora de uma rica cultura, engajada em uma luta civilizacional com o Ocidente, que procura minar suas tradições e o próprio Estado russo, principalmente através da guerra de informação promovida pela mídia ocidental. Neste contexto, faz parte da responsabilidade do Estado (russo) defender o espaço de informação de seus cidadãos contra ideias e perspectivas oriundas de influência estrangeira”, acrescenta a análise.

A China é a grande vilã da guerra híbrida?

Dentro de um conceito ampliado de guerra híbrida, o analista Anthony Cordesman enumera em relatório do CSIS, Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais2, datado de julho de 2020, o que ele chama de “campanhas na zona cinzenta movidas pela China contra os Estados Unidos”, listadas a seguir:

Iniciativa Cinturão e Rota (Moderna Rota da Seda), por aumentar a conectividade entre Ásia, África e Europa; guerra comercial, por realizar operações econômicas na zona cinzenta; espionagem, com foco na aérea tecnológica, onde a Huawei compete com os Estados Unidos pela rede 5G; desinformação, pela manipulação nas mídias sociais; campanha marítima no Mar do Sul da China, com ilhas artificiais, zonas marítimas, e pretensões geopolíticas; alinhamento da China com a Rússia, de forma a competir com o Ocidente; expansão do mercado chinês na África, com prejuízo para os norte-americanos; ações no Ártico, onde através da Rota da Seda do Gelo a China coopera com países da região; campanha separatista, pela qual a China reage aos movimentos separatistas em Xinjiang, Hong Kong, Taiwan e Tibet.

Da leitura do relatório do CSIS, fica evidenciado que Cordesman apresenta uma visão que se restringe ao ponto de vista dos interesses norte-americanos, sem considerar a complexidade das relações Estados Unidos-China. Desta forma, o analista faz ele próprio uso da desinformação, por considerar como táticas híbridas algumas ações adotadas pelos chineses que deveriam fazer parte de um direito legítimo de buscar o desenvolvimento industrial e econômico.

Anthony Cordesman já havia abordado em relatório anterior de outubro de 2019, China e Estados Unidos: Cooperação, Competição e/ou Conflito, as difíceis relações entre os dois países, tendo como pano de fundo a emergência da China como uma potência industrial e econômica global, ameaçando a hegemonia da nação norte-americana. É dentro deste contexto de competição que se dão as acusações e retaliações contra a China, algumas já mencionadas no item sobre as ações híbridas pelos Estados Unidos.

Como parte da campanha de acusações que procuram alimentar a narrativa das intenções malignas do governo e ao Partido Comunista Chinês, cabe observar que as traduções publicadas nos Estados Unidos do livro Unrestricted Warfare3 (Guerra Irrestrita) – um manual de guerra híbrida de autoria de dois coronéis do exército chinês – receberam um adendo no título de capa, inexistente na versão original: “O Plano Mestre da China para Destruir a América”.

Campanha de desinformação no subtítulo na tradução norte-americana do manual chinês de guerra híbrida \ Foto: Handout (editada)

Notas do autor:

  1. O termo think tank é utilizado em relação a centros de reflexão e formulação de ideias, no caso relacionadas com estratégias políticas e militares. 
  2. Henry Kissinger, ex-secretário de estado norte-americano, é diretor do programa de segurança internacional do CSIS. Pesam sobre ele acusações do cometimento de crimes de guerra, detalhadas no livro e no documentário “O Julgamento de Kissinger”.
  3. O livro Guerra Irrestrita foi escrito em 1999, focando em como um oponente tecnologicamente superior poderia ser derrotado.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo blogue Chacoalhando