Políticas de Netanyahu fomentam antissemitismo e jihadismo, levando ao êxodo de judeus para Israel

O aumento dos atentados da extrema-direita antissemita e do jihadismo na Europa e Estados Unidos pode resultar na migração em massa de judeus para Israel, o que ajuda Netanyahu a resolver a  “ameaça demográfica” representada pelos palestinos. 

suásticas em cemitétrio na França AP

Vandalismo no cemitério de Bordeaux, França – Foto AP

O medo que se difunde nas comunidades judaicas da Europa e dos Estados Unidos, seja derivado das ações de neonazistas ou de adeptos do jihadismo, as estão compelindo a abandonar seus países e buscar “segurança” em Israel. O artigo mostra como as políticas de Netanyahu, com apoio de Trump, ao aumentar as ações belicosas contra palestinos, aí incluindo o bloqueio físico e econômico a Gaza, trouxeram, em retaliação, protestos e atentados violentos contra os judeus. Por outro lado, o apoio dado por Israel a governos de extrema-direita da Europa, que se alinharam no passado à Alemanha Nazista, incentiva o aumento do antissemitismo e de ataques neonazistas.

Caso Netanyahu consiga formar maioria no parlamento com as próximas eleições, e garantir sua imunidade, poderá ir adiante com a intenção, já declarada, de anexar partes da Cisjordânia ou mesmo a totalidade. Entretanto, maior o território, maior a população necessária (de judeus) para ocupá-lo. Netanyahu já levantara a tese,  em 2003, quando ministro da justiça, que os israelenses de origem árabe, que atualmente constituem cerca de 21 por cento da população do atual Estado de Israel, representam “uma ameaça demográfica” para a maioria judaica.

Neste sentido, o aumento substancial da população de judeus, tanto em Israel como na Cisjordânia, garantiria o futuro do projeto sionista, por resolver a “ameaça demográfica”. De fato, a imigração em massa de judeus vindos da Europa e dos Estados Unidos inviabilizaria o direito a autodeterminação do povo palestino, sacramentando de vez o fim da solução de Dois Estados. Aos palestinos da Cisjordânia restaria viver confinados em bolsões esparsos, como os antigos bantustões criados pelo regime de Apartheid na África do Sul.

Caso fosse estabelecido um único Estado, com a completa anexação da Cisjordânia, mesmo se os palestinos lá residentes recebessem cidadania israelense, a representatividade política deles seria insuficiente para reverter a lei do Estado-Nação, se for alterada a demografia com chegada de um grande contingente de imigrantes judeus. Esta lei, aprovada em julho de 2018, institucionalizou a discriminação que já existia contra israelenses não-judeus. 

Tradicionalmente, o antissemitismo sempre esteve associado à teorias conspiratórias, como os Protocolos dos Sábios de Sião, a usura dos judeus e o poder dos banqueiros.

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Estereótipo do judeu: Fagin, personagem sinistro, em Oliver Twist, de Charles Dickens

Uma pesquisa recente da CNN revelou que os antigos estereótipos antissemitas estão novamente fortes na Europa. Mais de um quarto dos europeus consultados acredita que os judeus têm muita influência nos negócios e finanças, e em conflitos e guerras no mundo, enquanto que, para um em cinco europeus,  é muito grande a influência na mídia e na política.

É nestes preconceitos históricos que pode residir o risco maior do ovo da serpente já estar sendo chocado, e não na reação de muçulmanos radicais, mesmo que extremada, contra a violência excessiva cometida pelas tropas israelenses. 

A avaliação estatística dos casos reais de antissemitismo é, atualmente, dificultada pelo fato de vários países do Ocidente terem adotado, por pressão do lobby judaico, a definição de antissemitismo elaborada pela IHRA, a Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto. Por esta definição, críticas ao sionismo de Israel, pelo expansionismo e pelo tratamento opressivo dado aos palestinos, bem como as retaliações de toda contra judeus, são enquadradas como sendo atos de antissemitismo. Esta interpretação faz com que as estatísticas percam, infelizmente, muito de sua confiabilidade. 

Na sequência aos vários ataques terroristas de 2015 em Paris e Copenhagen, que envolveram também alguns alvos judaicos, o primeiro ministro israelense fez um chamamento aos judeus da Europa e dos Estados Unidos, para fazerem a aliyah* – a migração para IsraelSegundo o cineasta francês Claude Lanzmann, o conselho de Netaniyahu para os judeus deixarem a Europa equivale a conceder uma vitória póstuma a Hitler, ou seja, uma Europa livre de judeus. 

Na ocasião, o escritor e político Uri Avnery  (já falecido), fundador e ativista do grupo pacifista Gush Shalom, ressaltou ser “absurda” a idéia do crescimento do antissemitismo na Europa. Ele declarou que “os abusos foram cometidos por jovens muçulmanos, como parte de guerra entre israelenses e árabes”.

Entretanto, desde então, o crescimento surpreendente da extrema direita na Europa e nos Estados Unidos, principalmente após a eleição de Trump, introduziu uma evidente mudança na origem dos atentados contra alvos judaicos.

Nos Estados Unidos, o medo de freqüentar suas instituições religiosas já se espalha pela comunidade judaica. Em outubro do ano passado, durante a celebração do Shabbat na sinagoga Árvore da Vida, em Pittsburgh, onze judeus foram mortos a tiros por um supremacista branco. Em abril deste ano, tiros na sinagoga de Poway, norte de San Diego, Califórnia, causaram uma morte e ferimentos três pessoas, inclusive no rabino. O atirador havia publicado elogios a Adolf Hitler e aos atiradores de Pittsburgh.  Em maio, ocorreu a tentativa de incendiar duas sinagogas, bem como atos de vandalismo em Chicago.

Para Trump e Netanyahu, atentados cometidos por supremacistas brancos vão de encontro à narrativa que eles procuram transmitir, que o terrorismo que os judeus devem temer provém apenas de organizações como a Jihad Islâmica. Parte da mídia norte-americana prefere denominar de “crimes de ódio”, os atentados provenientes da extrema-direita , reservando o termo “terrorista”, apenas para quando houver participação de islamitas.

No entanto, muitos norte-americanos não se esqueceram das controversas declarações de Trump, de que havia “pessoas muito boas de ambos os lados”, ao se referir aos violentos conflitos em Charlottesville, Virgínia, resultantes dos protestos de manifestantes contra as hordas de neonazistas, supremacistas brancos e  da KKK, que haviam afluído à cidade.

supremacistas brancos em Charlotville, 2017
Supremacistas brancos em Charlottsville – Reprodução

Após Pittsburgh, a imensa solidariedade que os judeus receberam de outras minorias que também se sentem ameaçadas pelos supremacistas, incluindo a comunidade muçulmana, foi um sintoma de que se amplia o racha dos judeus americanos, majoritariamente liberais, com o governo de Israel, bem como com o seu próprio governo. 

Na convenção do Partido Democrata na Califórnia, no final de maio deste ano, moções críticas a Israel foram propostas pela esquerda do partido, sugerindo que o governo de Israel é parcialmente responsável pelo clima que inspirou o massacre na sinagoga de Pittsburgh, pelo apoio recebido de grupos da ultra-direita nos Estados Unidos e no exterior, ignorando perigosamente o antissemitismo arraigado neles.

Na Europa, de acordo com Human Rights Watch, “é alarmante o crescimento do antissemitismo”. No Congresso Judaico Europeu realizado em Praga, em 2015, o diretor (do CJE) declarou que a Europa está diante de um novo êxodo de judeus, em face do crescente antissemitismo e extremismo. Ele acrescentou ainda: “jihadismo se assemelha muito ao nazismo. Pode-se dizer que são duas faces do mesmo mal”. Foi ainda declarado no evento, que boa parte dos cerca de 600.000 judeus franceses estaria pensando em deixar o país, como reação ao aumento dos ataques. 

Na Alemanha, onde partido de extrema direita AfD, Alternativa para a Alemanha, se tornou o maior partido de oposição,  os judeus religiosos foram aconselhados a não usar o solidéu (boina de caráter religioso) em público, após um número crescente de ataques. Noventa por cento dos 1.800 crimes antissemitas têm envolvimento de extremistas de direita, segundo o Deutsche Welle.  

Na Inglaterra, o periódico The Guardian, relatou o aumento do número de incidentes de (suposta) natureza antissemita nos meses de abril e maio de 2018, coincidindo com protestos junto à cerca de Gaza, quando muitos palestinos foram mortos e feridos. Anteriormente, o pico de incidentes desta natureza fora em agosto de 2014, também enquanto ocorria um sério conflito em Gaza entre o Hamas e Israel. Portanto, as evidências parecem indicar que a maioria dos casos relatados estão, na verdade, relacionados com protestos contra às políticas repressivas de Israel. 

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Protestos de palestinos junto a cerca entre Gaza e Israel – Reprodução

Uma pesquisa realizada em dezembro de 2018, sobre a percepção do antissemitismo, revelou que 89% dos judeus que vivem na Áustria, Bélgica, Dinamarca, Alemanha, França, Holanda, Hungria, Itália, Holanda, Polônia, Espanha, Suécia e Reino Unido, consideraram que o antissemitismo é um sério problema, a maioria tendo medo de receber insultos ou agressões na rua. Por outro lado, de acordo com uma consulta também recente do Pew Research Center, cerca de 90 por cento dos franceses, 82 por cento dos alemães e 72% dos espanhóis disseram ter uma atitude favorável aos judeus. O mesmo ocorreu na Inglaterra, com atitudes positivas iguais para com judeus e cristãos.

O resultado da pesquisa do Pew Center parece sugerir que a percepção de antissemitismo, sentida por um indivíduo ou por uma coletividade, tem forte um grau de subjetividade. A controversa e confusa definição oficial da IHRA incorpora esta subjetividade, ao estabelecer que o “antissemitismo é uma ‘percepção’ que  os judeus tem da hostilidade ou ódio contra si”. Assim, esta percepção pode ser fortemente influenciada por setores conservadores, incluindo as mídias tradicional e digital, grupos políticos e religiosos, dentre outros. 

A Europa Oriental e Central requerem uma análise a parte. Nestas regiões, onde a extrema-direita já chegou ao poder em diversos países, é preocupante que líderes de nações que colaboraram com a Alemanha nazista estejam adotando práticas revisionistas de negar este vínculo, ou de exaltar figuras de passado sinistro. É mais ainda temerário, que Netanyahu esteja estendendo o tapete vermelho para estes líderes, com o objetivo de obter apoio nos fóruns internacionais, onde a imagem de Israel está abalada pela política opressiva contra os palestinos.

Netanyahu recebeu em janeiro deste ano, com todas as honras, o Presidente Petro Poroshenko da Ucrânia, cujo parlamento acabara de estabelecer, como feriado nacional, a data de nascimento de Stepan Bandera, colaborador dos nazistas durante a segunda guerra mundial. Bandera esteve implicado na morte de milhares de judeus.

Enquanto Poroshenko visitava Israel, um memorial estava sendo erguido em Kiev para Symon Petliura, cujas tropas estiveram associadas aos pogroms**, que mataram cerca de 50.000 judeus logo após a primeira guerra mundial.

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Cartaz do concerto neonazista na Ucrânia

Poroshenko não se reelegeu, e  tanto o presidente como o primeiro-ministro atuais são de origem judaica. Isto não impede que sejam realizados grandes eventos pelos neonazistas, como o concerto esta semana, em Kiev, de diversas bandas européias e da banda norte-americana “blue eyed devils“. Fortress Europe é um festival “para aqueles que defendem os ideais das Nações Européias: Tradições, Herança, Irmandade”. Um encontro para “honrar a “Sagrada Irmandade”. O ovo da serpente está sendo chocado. 

A data do concerto, 22 de junho, coincide com o aniversário da invasão da (então) União Soviética pela Alemanha nazista.

Netanyahu estabeleceu forte aliança com o primeiro ministro húngaro, Viktor Orbán, que previamente fizera fartos elogios a Miklos Horthy, governante da Hungria durante a segunda guerra. Horthy foi responsável pela introdução de leis antissemíticas, além de ter colaborado com o nazismo. Netanyahu foi também complacente com os líderes da Polônia, que promulgaram lei visando criminalizar a quem atribuir culpa à nação polonesa, por crimes cometidos contra os judeus durante a guerra.

Apesar das ações de líderes da extrema-direita da Europa Central e Oriental de procurar passar uma borracha no envolvimento anterior de seus países com o nazismo, até o momento são poucos os relatos conhecidos de ataques violentos realizados contra as respectivas comunidades judaicas. Um destes atentados, e que recebeu ampla condenação, foi o vandalismo em túmulos de um cemitério judaico na Romênia, que chocou a pequena comunidade que restou no país após o nazismo.

A política de Netanyahu, de compactuar com estes líderes de extrema-direita, está contribuindo para tornar mais negras as nuvens no céu da Europa. Críticos consideram que foi um “pacto com o diabo” (feito por Netanyahu), “uma manobra que legitima o antissemitismo e beira a negação do Holocausto”. A visita de governantes de extrema-direita, aí se incluindo Jair Bolsonaro, ao Museu do Holocausto em Israel, talvez para servir como um ritual de purificação, conspurcou o museu com a essência do mal.

Uma violência maior nestes países da Europa Central e Oriental pode estar apenas incubada, e é capaz de explodir a qualquer momento em pogroms do século 21. A ameaça ronda também a Europa Ocidental.

Notas do Autor:

*A aliah, ou migração de judeus para Israel, é garantida pela Lei do Retorno, de 1950, que dá a judeus, de qualquer região do mundo, o direito de migrar para Israel e adquirir cidadania do país. Tenho minhas dúvidas se judeus que apoiem o BDS, o boicote internacional contra Israel, são também bem vindos.

**O termo pogrom, de origem russa, foi usado historicamente em referência a perseguições e violentos ataques, nos séculos 19 e 20, contra judeus no Império Russo.