Bielorrússia no xadrez da geopolítica: aumenta o cerco contra a Rússia

A queda da Bielorrússia colocaria um regime simpático à OTAN a cerca de 450 km de Moscou.

Xadrez da geopolítica EUA-Rússia
Xadrez da geopolítica Rússia-Estados Unidos \ Foto: Relatório Rand Corporation

O presidente Aleksandr Lukashenko pertence ao pequeno clube de governantes, do qual Jair Bolsonaro faz parte, que atuaram como negacionistas da pandemia de Covid-19. O bielorrusso declarou em abril de 2020 que vodka e sauna previnem a Covid-19. Há 27 anos no poder, ele é chamado pela mídia corporativa do Ocidente de o “último ditador da Europa”. No entanto, ao contrário do brasileiro, Lukashenko vem procurando garantir a soberania do país e proporcionar condições de vida satisfatórias à população.

Sua vitória na eleição presidencial de agosto de 2020 para um sexto mandato levou a denúncias de fraude e ao estabelecimento de sanções econômicas contra o país. As críticas aumentaram em maio de 2021, quando um avião da empresa irlandesa Ryanair foi forçado a descer no aeroporto da capital Minsk para que fosse detido o jornalista Roman Protasevich.

Desde então, o regime de Lukashenko vem enfrentando o acirramento dos protestos de setores da população e o aumento das sanções externas. O que a mídia ocidental vem omitindo, é que Protasevich era mais que um jornalista apenas empenhado na defesa dos direitos humanos. Ele já atuara como combatente no Batalhão Azov, a milícia neonazista ucraniana, contra os separatistas pró-Rússia da região do Donbas. E atualmente Roman é um ativista político engajado na derrubada do regime.

Michelle Bachelet, Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, denunciou em 15 de julho a prisão de opositores do governo bielorrusso, bem como invasões de escritórios de ONGs, de associações de jornalistas e de movimentos de oposição.

Para a Rússia, a desestabilização do país vizinho traz problemas de segurança, e poderia exacerbar as já difíceis relações com o Ocidente, avalia Ivan Timofeev, analista do think tank russo, Valdai Club.

No xadrez da geopolítica da Europa Oriental, as peças representadas pela Ucrânia e pela Moldávia já foram perdidas pela Rússia através de ações de guerra híbrida orquestradas principalmente por Washington e Londres. A queda da Bielorrússia colocaria um regime simpático à OTAN a cerca de 450 km de Moscou.

Qual é a história que a mídia não divulga sobre os protestos que nos últimos 12 meses vêm desestabilizando o país, e que levaram às recentes ações repressivas contra opositores, condenadas veementemente por Bachelet? E como a Rússia irá reagir se o Ocidente impuser uma revolução colorida para depor Lukashenko?

A integração da Bielorrússia com a Rússia

A Bielorrúsia era uma das 15 repúblicas da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, extinta em 1991. No poder desde 1994, Lukashenko tinha um pacto não explicitado com a população, em que esta usufruía de um estado de bem-estar social, enquanto abria mão de uma democracia no estilo ocidental.

Desde 1999, portanto oito anos após o fim da URSS, o país está envolvido em difíceis negociações com a Rússia visando uma ampla integração dos dois países, formando a União de Estados. Na ocasião da assinatura do tratado de intenções, Lukashenko já estava na presidência, enquanto Putin era o primeiro-ministro russo, em vias de assumir a presidência, em substituição a Boris Iéltsin.

De acordo com o relato da agência Tass, a criação de uma União de Estados entre a Federação Russa e República da Bielorrússia implica no estabelecimento de estruturas supranacionais, incluindo o parlamento bicameral, uma Constituição, corte de justiça, câmara de arbitragem, além de moeda única, sistemas energéticos unificados, sistema único de impostos e compatibilidade das políticas de comércio e aduaneiras.

Lukashenko vem procurando preservar os interesses e a soberania da Bielorrússia nas duras negociações com a Rússia. No início de 2021, permaneciam ainda cerca de 6 ou 7 questões a resolver, segundo a Tass.

Dentre as demandas de Minsk ainda pendentes de aceitação por Moscou estão preços mais baixos para o gás russo, compensações por perdas e a remoção de restrições a produtos da Bielorrússia.

Em outro artigo, Timofeev avalia que as sanções impostas pelo Ocidente podem enfraquecer a posição da Bielorrússia, forçando-a a fazer concessões nas negociações atuais, em troca de um apoio emergencial de Putin. No entanto, até o momento, Lukashenko vem mantendo suas condições para ir adiante com a integração, pelo menos nas declarações públicas.

O início da guerra híbrida contra a Bielorrússia

Um relatório de 2019 da Corporação Rand, um think tank financiado em grande parte pelas forças armadas norte-americanas, analisa as vantagens geopolíticas e ideológicas de se tentar “promover a mudança de regime na Bielorrússia”, dando apoio à oposição. Entretanto, o relatório menciona também que a população estaria menos interessada em liberdade do que em melhores condições vida.

O relatório cita uma pesquisa independente conduzida em 2015, que revelou que 70% dos entrevistados não queriam uma revolução no estilo da que havia ocorrido na Ucrânia em 2014. E que 78% não querem que ocorra derramamento de sangue no país.

Para os analistas da Rand, mesmo que as tentativas de se mudar o regime falhassem, haveria ganhos políticos por forçar Moscou a se sobrecarregar ao “empregar recursos – inclusive militares – para preservar sua posição na Bielorrússia. Os EUA e seus aliados europeus responderiam, então, com o endurecimento das sanções”. No entanto, “haveria o risco de ocorrer a deterioração geral do ambiente de segurança na Europa, o que representaria um revés para a política dos EUA”, avalia o relatório.

Segundo relato no Covert Action Magazine, interferências do Ocidente em questões internas da Bielorrússia vem ocorrendo desde 2016.  Um dos recipientes dos financiamentos para desestabilizar o regime bielorrusso foi o canal de televisão Belsat, baseado na Polônia.

Tanto a Polônia como a Lituânia são favoráveis à presença de tanques dos EUA no leste Europeu, posição que não é compartilhada pela Bielorrússia. Segundo Andrey Sushentsov, analista do Valdai Club, a competição estratégica entre a OTAN e a OTSC, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva, levaria ao aumento – indesejável para Minsk – da presença militar russa na região, e à escalada de tensões.

Sushentov avalia que a crise econômica de 2014 e a queda do preço do petróleo afetaram fortemente a economia Bielorrússia, dependente do mercado russo. Neste contexto de taxas de crescimento baixas, ou mesmo negativas, diminuiu o apoio ao governo, com a queda no padrão de vida da população.

A oposição liberal aproveitou para contestar a estratégia de promover a integração com a Rússia, acusando ainda o governo de fazer concessões a Moscou em troca de apoio na crise econômica e política. Este era o clima interno do país em 2020, ano eleitoral

As eleições presidenciais de agosto de 2020

Durante a campanha, a liderança bielorrussa teria cometido um erro político, segundo sustenta Sushentsov em outro artigo, ao adotar a narrativa de que o país se encontrava sitiado pela Rússia.

Em um confuso incidente ocorrido poucas semanas antes das eleições, 33 russos – supostamente mercenários – foram detidos nas proximidades da capital Minsk. Dentre as muitas versões difundidas, incluía-se a de que o grupo pretendia fazer atos de provocação com o intuito de causar tumultos em massa.

Por alguns dias, o presidente fez uso de retórica anti-russa, para depois retomar o tradicional discurso da amizade entre os dois países. No entanto, Lukashenko pode ter contribuído para causar desorientação em seus eleitores, avalia Sushentsov. Os resultados das eleições de agosto, que indicaram a vitória de Lukashenko para um sexto mandato, foram contestados no Ocidente.

A candidata da oposição, Svetlana Tsikhanouskaya, buscou refúgio na Lituânia, na sequência da repressão aos manifestantes que protestaram contra o que alegam terem sido eleições fraudulentas. Tsikhanouskaya concorrera à presidência em substituição a seu marido, Sergei, que fora impedido de se candidatar e se encontra preso.

protests against Lukashenko after the presidential elections of August 2020
Protestos contra Lukashenko em Minsk, setembro de 2020 \ Foto: AFP

Em abril de 2021, os EUA aplicaram sanções a nove empresas estatais, enquanto Tikhanovskaya conclamou o congresso norte-americano a apoiar organizações da sociedade civil e veículos de mídia de oposição.

A pegadinha que expôs as ações subversivas de Washington

Duas pessoas brincalhonas enganaram altos funcionários da National Endowment for Democracy (NED), órgão do governo norte-americano ligado a CIA, que financia atividades visando mudança de regime em países-alvo.

A coordenadora sênior da NED para a Europa, Nina Ognianova, e o presidente da instituição, Carl Gershman, foram enganados e levados a pensar que estavam conversando ao telefone com a líder oposicionista Svetlana Tsikhanouskaya (acesse o vídeo com a gravação).

Nas conversas que ocorreram em 17 de maio deste ano, ambos falaram abertamente do envolvimento da NED no financiamento e treinamento da oposição bielorrussa. Mencionaram também os apoios dados a sindicatos independentes, jornalistas, e as relações estabelecidas com o setor privado. Mais detalhes da pegadinha são apresentados no artigo de Ben Norton, no The Grayzone.

O desvio do voo 4978 da Ryanair

Em 23 de maio, um avião da empresa irlandesa Ryanair, ao sobrevoar o espaço aéreo da Bielorrússia, foi desviado de sua rota e forçado a pousar em Minsk, quando então foram detidos o jornalista Roman Protasevich e sua namorada. A aeronave estava no trajeto de Atenas para Vilnius, na Lituânia, base do governo paralelo de Tikhanovskaya.

aircraft with Protasevich diverted to Minsk
Rota do avião com Protasevich desviado para Minsk \ Arte editada: BBC 

Embora a detenção de Protasevich tenha sido discricionária, por outro lado pode-se argumentar que não foram realmente violadas normas internacionais.

O desvio do curso do voo e a prisão de Protasevich receberam o repúdio unânime da mídia do Ocidente, cuja memória seletiva convenientemente se esqueceu de mencionar um precedente bem mais sério, que realmente violou normas internacionais.

Em 2013, o avião que conduzia o presidente boliviano Evo Moralez de Moscou a La Paz fora proibido de sobrevoar o espaço aéreo de vários países europeus, e teve que permanecer por horas no aeroporto de Viena. A intenção dos países da OTAN era a de capturar Edward Snowden, responsável pelo vazamento de informações secretas da NSA (a Agência Nacional de Segurança norte-americana). No entanto, Snowden não se encontrava a bordo.

Mas quem é realmente Roman Protasevich?

Ele é apresentado na mídia ocidental como um heróico defensor de direitos humanos, atuando contra a brutal ditadura de Lukashenko. Entretanto, no mesmo artigo do The Grayzone, Ben Norton apresenta uma faceta menos conhecida do jornalista.

Protasevich trabalhou na Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade fundada pela CIA, originalmente um veículo de propaganda contra a União Soviética, e agora atuando contra a Rússia.

Do exterior, Protasevich organizou protestos e operações de desestabilização do governo bielorrusso. Ele trabalhou com a Rádio Européia para a Bielorrússia, um veículo de direita financiado pelos governos dos EUA, Polônia, Holanda e Lituânia. Na Polônia, Protasevich operou o canal Nexta, do Telegram.

Envolvimentos anteriores de Protasevich, também expostos no artigo The Grayzone,  mostram que ele não se limitou apenas a atividades de mídia e de propaganda política. Ele participou de operações militares do Batalhão Azov, a notória milícia neonazista ucraniana. Esta participação parece não ter se limitado ao serviço de imprensa da milícia. Um líder do Azov reconheceu publicamente que Roman atuou também como combatente.

Activist Roman Protasevich wearing combat uniform of neo-nazi Azov Batallion
Protasevich em suas atividades extra-jornalismo: no Departamento de Estado, Washington, em abril 2018/usando uniforme com a insígnia neonazista do batalhão Azov/na capa de uma publicação do Azov/com um rifle de assalto \ Fotomontagem: The Grayzone

Diversas fotos mostram Roman em uniforme militar, inclusive portando um rifle. Ele também aparece usando camisas com a suástica neonazista.  Segundo relatado no The Grayzone, o próprio Protasevich admitiu que passou 1 ano lutando contra forças pró-russas na região separatista do Donbas, ao leste da Ucrânia.

As novas sanções contra a Bielorrússia

Em 25 de maio, os líderes dos países da União Européia aprovaram uma resolução demandando a aplicação de novas medidas contra a Bielorrússia. Estas iriam desde sanções contra indivíduos, a medidas capazes de afetar a economia do país.

Outro analista do Valdai Club, Ivan Timofeev, considera que o Ocidente deveria ter o cuidado de não tornar o governo de Minsk muito dependente de Moscou, mas não foi isto que ocorreu, pois duras sanções foram impostas. Talvez tenha prevalecido a visão apresentada no relatório da Rand Corporation, de que haveria ganhos para o Ocidente em forçar Moscou a se desgastar no empenho de apoiar Lukashenko.

Em 21 de junho, os ministros de relações exteriores dos países da União Européia aprovaram em Luxemburgo as novas sanções contra a Bielorrússia. Segundo relato no Deutsche Welle, serão afetados importantes setores da economia, como as exportações de fertilizantes, a indústria do tabaco, produtos petrolíferos e petroquímicos, além do setor financeiro.

Estados Unidos, Canadá e Reino Unido também aplicaram novas sanções. Os EUA congelaram os bens de dezenas de funcionários do governo bielorrusso. Tikhanovskaya aproveitou para pedir pela libertação de presos políticos, inclusive de seu marido Sergei.

As duras sanções irão estimular uma maior integração dos sistemas de pagamento nas transações entre Minsk e Moscou, avalia Timofeev em outro artigo. Mas será provavelmente inevitável a queda no nível de vida dos bielorrussos, com efeito imprevisível na estabilidade do país.

Em face das novas sanções impostas pelo Ocidente, Putin já determinou em 15 de julho que o governo russo ajude a Bielorrússia. Moscou parece disposta a não permitir que o Ocidente tome sua torre de defesa no tabuleiro de xadrez.

Concluindo

A Rússia deverá continuar a garantir a estabilidade da Bielorrússia. E a população do país precisará encontrar formas de resolver seus problemas, sem interferência externa.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

Presidente da Ucrânia aposta suas cartas em invasão russa?

Por Ruben Rosenthal

Se os russos intervierem, Zelensky tentará convencer o governo alemão a sustar o acordo do gasoduto Nord Stream 2. O novo gasoduto representará um baque devastador na economia da Ucrânia.

Ukrainian serviceman stands in position on the front line with separatists in Donetsk region on February 19, 2021.
Militar ucraniano na linha de frente em Donetsk,  fevereiro de 2021 \ Foto: Anatolii Stepanov / AFP via Getty Images

Relatos recentes sobre a crise na Ucrânia na mídia do Ocidente alertaram sobre o estacionamento de tropas russas na fronteira com a Ucrânia. BBC News: Acúmulo de tropas russas próximo à Ucrânia alarma a Otan. New York Times: Movimento de tropas russas e fala de intervenção causa apreensão na Ucrânia. Wall Street Journal: Imagens de satélite mostram expansão  da presença da Rússia na Ucrânia. 

A mídia do Ocidente especulou  sobre a motivação para as ações de Moscou. Testar a nova administração Biden? Desviar a atenção da prisão de Navalny? Forçar que a Ucrânia restabeleça o fornecimento de água a Criméia, cortado após a união com a Rússia? Ou seria uma retaliação pela perda de influência na Ucrânia? 

Repercutiu também na mídia ocidental a perturbadora previsão do “analista militar” russo, Pavel Felgenhauer, de que com a chegada das tropas russas à fronteira, a crise passou a ter potencial de escalar para uma guerra pan-européia ou mesmo para uma III Guerra Mundial.

Ainda no mês de abril, o cônsul ucraniano em São Petersburgo foi detido sob a acusação de receber informações secretas. As tensões aumentaram ainda mais com o anúncio da Rússia irá restringir por seis meses a navegação no Mar Negro para navios de guerra estrangeiros, com início em 24 de abril.

A atual crise mantém aceso o pavio do conflito iniciado com a revolução colorida de Maidan em fevereiro de 2014 – apoiada pela governo de Barack Obama, e que afastou Viktor Yanukovych, o presidente eleito da Ucrânia. Como reação, vieram na sequência o referendo pró-Rússia na Criméia e os movimentos separatistas na região do Donbass, no leste do país. Desde então já ocorreram cerca de 13.000 mortes nos confrontos de forças de Kiev com os separatistas.

Embora nos últimos dias Putin tenha anunciado a retirada de tropas da fronteira, não há sinais de que a crise tenha se esvaziado. O governo de Kiev vem se recusando sistematicamente a respeitar o Protocolo de Minsk, que deveria levar a um cessar-fogo permanente e à autonomia política do Donbass.

Quando não houver menção em contrário, as análises apresentadas  neste artigo foram extraídas da entrevista concedida pelo analista internacional Mark Sleboda, sediado em Moscou, para a jornalista Anya Parampil, do The Grayzone.

Região do conflito separatista do Donbass
O mapa mostra as regiões sob controle dos separatistas (região hachurada direita) e do governo central, em Luhansk e Donetsk

Ucrânia, um país com profundas divisões históricas

Os ucranianos do oeste do país têm um forte sentimento anti-russo; sua história passa pela Comunidade Polaco-Lituana e pelo Império Austro-Húngaro. Durante a II Guerra Mundial houve colaboração com os nazistas e com o holocausto. Já o leste da Ucrânia, juntamente com a Bielorússia, tem um forte vínculo histórico e cultural com a Rússia, incluindo o uso da mesma língua. Estas divisões históricas se refletiram no mapa dos resultados eleitorais das últimas duas décadas.

Em comum, tanto no leste como no oeste do país, é a forte a influência política dos oligarcas. Ao contrário do que aconteceu na Rússia, onde Putin restringiu a ação dos oligarcas ao campo econômico, afastando-os de interferência na política, na Ucrânia umas poucas famílias dominam a política, controlando os partidos políticos. E isto não mudou com o Maidan.

Maidan, revolução colorida ou golpe?

O presidente Viktor Yanukovych, eleito democraticamente em 2010, era corrupto como corruptos foram todos os seus antecessores. Ele era um líder oriundo da região de Donbass, leste da Ucrânia. Quando procurou um acordo econômico com a União Européia, a contrapartida exigida foi uma terapia de choque neoliberal, que incluía privatizações em massa e alto desemprego.

Ele então tentou obter uma compensação de pelo menos 15 bilhões de dólares para aliviar os efeitos da “terapia”, sem nada conseguir. Com a economia em má situação, Yanukovych procurou os russos, atraindo desta forma a ira dos Estados Unidos.  Seu governo foi então derrubado em fevereiro de 2014, a partir dos protestos iniciados na Praça Maidan, pelo chamado Movimento Euromaidan. 

Após a tomada do poder, as novas autoridades baniram o partido Comunista e todos os partidos de esquerda do país. A intenção era de reorientar a geopolítica da Ucrânia a favor do Ocidente. Para tanto, era necessário derrotar a representação política do leste da Ucrânia, pró-Rússia, através de uma aliança de liberais pró-Ocidente com os ultra-nacionalistas fascistas, que consistiam a vanguarda do Maidan. 

Na seqüência da deposição do presidente ocorreram dezenas de milhares de deserções de militares para o Donbass ou para a Criméia. De acordo com o analista russo Ruslan Pukhov, diretor do Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias e editor do jornal Moscow Defense Brief, os militares russos conseguiram convencer oitenta por cento das forças ucranianas na Criméia a desertar. 

Em março de 2014, a população da Criméia votou por avassaladora maioria (96,8%) pela união com a Rússia. Em abril, as regiões administrativas de Donetsk e Luhansk que constituem o Donbass, se proclamaram repúblicas independentes.

Ainda em abril, Kiev enviou tropas para o leste da Ucrânia, colocando o país a beira de uma guerra civil generalizada. Para tentar encerrar o conflito, em 2 de setembro de 2014 foi assinado um acordo entre o regime de Kiev e as autoridades políticas do Donbass.

O Protocolo de Minsk       

Esperava-se chegar à reconciliação política através de uma série de etapas que conduziriam a eleições livres, à  concessão de autonomia política ao Donbass, e ao controle por Kiev da fronteira com a Rússia. As negociações ocorreram na Biolorússia, monitoradas por observadores da OSCE (a Organização para a Segurança e Cooperação Européia), tendo como garantidores, França, Alemanha e Rússia.

O acordo deveria também incluir uma ampla anistia a todos os envolvidos no conflito, bem como o desmantelamento das organizações paramilitares de extrema direita que participaram do Maidan, e que também se envolveram nos confrontos no Donbass. 

Kiev não implementou quaisquer destas medidas, de forma que o conflito armado permanece. Para Mark Sleboda, a liderança de Kiev não tem a menor intenção de se encontrar com as autoridades políticas do Donbass, até porque sua própria legitimidade poderia ser colocada em questão. Entretanto, o protocolo de Minsk permanece como base para um acordo futuro.

Ukraine's President Volodymyr Zelenskiy visits positions of armed forces in Donbass region
Zelensky visita tropas na frente do Donbass, Ucrânia 9 de abril 2021. Serviço da Imprensa Presidencial / EPA

O governo Zelensky

Em 2019 foi eleito o comediante Volodymyr Zelensky para a presidência da Ucrânia, apoiado pelo oligarca Ihor Kolomoisky. Saiu derrotado por larga margem o então presidente e também oligarca, Petro Poroshenko.  Zelensky não conseguiu diminuir a corrupção no país, nem terminar a guerra no Donbass, como também fracassou no combate a pandemia do coronavírus. Ele está confrontando a corte constitucional do país para tentar impor as draconianas reformas requeridas pelo FMI.

Sua taxa de aprovação baixou de 75 para 30%, assim como a popularidade de seu partido, “Servidores do Povo”. Por outro lado, o partido mais popular do país atualmente é o que representa o leste da Ucrânia, “Plataforma de Oposição – Pela Vida”, também liderado por um oligarca – Viktor Medvedchuk.

Zelensky então fechou veículos de mídia, incluindo estações de TV, e está processando Medvedchuk por traição. Tudo para impedir o ressurgimento da oposição política no leste da Ucrânia.

Motivações dos EUA: geopolítica e o gasoduto Nord Stream 2

A administração Biden pode estar apoiando o acirramento da crise, mesmo ao custo de muitas vidas serem perdidas na Ucrânia, acredita Sleboda. Os EUA trouxeram recentemente para Odessa 350 toneladas de equipamentos militares, aumentando as tensões.

O aumento da influência política do leste da Ucrânia representa ao mesmo tempo o aumento da influência russa. Esta mudança geopolítica é algo que certamente a admistração Biden gostaria de evitar. Por outro lado, aos EUA interessaria controlar a segurança energética da Europa e, para tanto, a questão do gasoduto Nord Stream 2 é fator determinante.

Trata-se do segundo gasoduto ligando Rússia e Alemanha, e que possibilitará também a distribuição de energia a outras partes da Europa. Estando praticamente concluído, ele passa sob o Mar Báltico, dispensando as atuais linhas terrestres que atravessam a Ucrânia e Polônia, construídas ao tempo da União Soviética. Estas linhas possibilitaram que por anos Kiev exercesse pressão política sobre a Rússia.

Não apenas Kiev, mas também a Polônia e os Países Bálticos se aliaram aos EUA para impedir a implementação do Nord Stream 2. Os norte-americanos estão impondo sanções às empresas russas e alemãs envolvidas na construção do gasoduto. Empresas de energia européias que investiram na obra também sairiam prejudicadas.

As acusações contra a Rússia, de ter usado o agente neurológico novichok contra o opositor de Putin, Alexei Navalny, foram utilizadas sem sucesso para convencer a Alemanha a cancelar o gasoduto.  

Motivações da Rússia: ofensivas ou defensivas?

Para a Rússia, é de máxima importância a segurança das centenas de milhares de cidadãos do Donbass que têm dupla nacionalidade, bem como a dos 2 a 3 milhões de refugiados do leste da Ucrânia que acolheu quando os conflitos irromperam. Atualmente, como não existe fronteira entre a Rússia e o Donbass, seria muito mais fácil para a Rússia enviar tropas e armas para o leste Ucrânia do que para os EUA armarem o regime de Kiev.

Na primeira quinzena de março, Kiev começou a mover contingentes militares para a fronteira do Donbass, incluindo tanques, sistemas de artilharia, mísseis balísticos, bem como milhares de recrutas. Toda esta movimentação não foi noticiada na mídia do Ocidente, mas não passou despercebida em Moscou. Como dissuasão, a Rússia enviou cerca de 4 mil militares como parte de manobras na fronteira com a Ucrânia, acrescentando ao efetivo de 25 a 30 mil russos lá posicionados desde 2014.

O Centro para a Nova Segurança Americana (CNAS, na sigla em inglês), think tank em Washington, promoveu um debate no podcast Brussels Sprouts (Couve de Bruxelas) sobre o tema das tropas russas na fronteira com a Ucrânia. Os especialistas Michael Kofman e Maxim Samorukov admitiram que os efetivos russos colocados na fronteira com a Ucrânia não tinham uma postura ofensiva.

Sobre as opiniões alarmantes expressas por Pavel Felgenhauer, Sleboda as considera exageradas: “Felgenhauer não é especialista em estudos militares ou de segurança, embora ele se proclame um analista militar. A mídia ocidental recorre a ele quando quer apresentar pontos negativos, em geral falsos, sobre a Rússia”.

Motivações de Kiev: autopreservação do regime

Segundo Sleboda, o motivo real para Zelensky querer ampliar o conflito armado no leste da Ucrânia é fazer com que a Rússia intervenha para proteger o Donbass. A morte de milhares de recrutas ucranianos levaria provavelmente a um rompimento duradouro entre os dois países, o que seria no interesse de Kiev.

Ukrainian soldiers in a trench on the front lines facing Russian-backed separatists near the town of Zolote april 2021
Soldados ucranianos na trincheira, próximo à cidade de Zolote, no leste do país / Foto: AFP/Getty Images

Se os russos intervierem, Zelensky tentará convencer o governo alemão a sustar o acordo do gasoduto Nord Stream 2. O novo gasoduto representará um baque devastador na economia da Ucrânia. Cerca de 18% do orçamento nacional de Kiev é oriundo de taxas recebidas da Rússia e da Alemanha, pela passagem terrestre do gás em território ucraniano por meio das antigas linhas, que perderiam relevância.

O presidente e seu partido passam por uma fase de baixa aprovação. O acirramento da crise com a Rússia poderia trazer mais apoio popular, com um apelo ao nacionalismo extremado. Ao mesmo tempo, ele poderia reprimir a representação política da oposição política do leste do país.

Zelensky deve saber que não conseguirá recuperar o Donbass pela via militar, e provavelmente nem tem interesse nisto. Incorporar novamente ao país cerca de quatro a oito milhões de eleitores significaria fazer o pêndulo do poder político pender a favor dos ucranianos do leste, em um momento de baixa popularidade do presidente e de seu partido. 

Finalizando

Pode ser tentador para Zelensky apelar para um conflito militar interno para resolver seus problemas políticos e econômicos, quando muitas mortes de ucranianos poderiam ocorrer. Mas, mesmo considerando de um lado, o apoio do Ocidente e da Otan ao regime de Kiev, e de outro, o apoio ao Donbass pela Rússia, é bem pouco provável que a Rússia entre em conflito direto com os Estados Unidos e a Otan. A exceção seria caso a Ucrânia fosse incorporada à Otan, o que é inaceitável para Moscou. Resta ver se as tensões de abril irão retroceder ou inflamar a região.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Hong Kong: Washington financia os protestos contra a China

A nova lei de segurança nacional de Hong Kong foi aprovada na sequência a protestos separatistas financiados pelos Estados Unidos e à escalada da violência alimentada por grupos de neonazistas ucranianos.

butijão de gás
Artefato explosivo caseiro encontrado junto à entrada da Universidade Politécnica de Hong Kong, novembro 2019 \ Foto: Aidan Marzo/CNN

As manifestações de rua que ocorreram em Hong Kong na última semana de maio se inserem no que a mídia denominou de protestos “pró-democracia”, e que vêm ocorrendo esporadicamente há praticamente duas décadas na ex-colônia britânica. No entanto, lideranças do movimento vêm atuando em defesa de interesses econômicos e geopolíticos dos Estados Unidos, que financiam uma rede anti-China. Neonazistas ucranianos se juntaram aos manifestantes, o que pode fazer antever a escalada da violência. Com o acirramento da crise, a autonomia dos honcongueses poderá ficar comprometida, antes mesmo do término do prazo de 50 anos que fora garantido pelo acordo entre China e Reino Unido. 

Colônia por 145 anos. Hong Kong se tornou uma colônia britânica em 1842, quando a China foi obrigada, pelo Tratado Nanjing, a ceder o território que fora ocupado durante a Primeira Guerra do Ópio. A guerra foi o resultado da tentativa do imperador chinês de impedir o comércio ilegal do ópio da Inglaterra para a China, que estava causando imenso vício na população do país. Nos anos seguintes, a Inglaterra promoveu ainda a anexação dos Novos Territórios e da península de Kowloon, de forma a garantir o abastecimento agrícola da colônia.

Mapa da Convenção de Hong Kong
Mapa da Convenção para a Extensão do Território de Hong Kong, 1898

O tratado final entre os dois países, a Convenção para a Extensão do Território de Hong Kong, foi assinado em 1898, concedendo o arrendamento dos Novos Territórios por 99 anos, expirando, portanto, em julho de 1997. A China sofrera imensa humilhação, mas soube esperar. Neste intervalo de tempo a China continental passou pela revolução comunista de 1949, enquanto que Hong Kong, já acrescida dos territórios incorporados em 1898 (ver mapa abaixo), tornou-se um moderno centro capitalista.

hongkong
Região anexada pelo Reino Unido, com a Ilha de Hong Kong mais ao sul do mapa

Mas se por um lado o sistema econômico implantado foi o liberalismo, na política o ordenamento não foi o de uma democracia liberal. O território era comandado por um governador indicado pelo Reino Unido.  Manifestações de trabalhadores nos anos 60, por melhores condições de trabalho em uma fábrica, evoluíram para amplos protestos contra o imperialismo britânico. Londres respondeu com a imposição de lei marcial e ferrenha repressão.  Segundo a China Global Television Network, o saldo após 18 meses de distúrbios foi de 5000 detenções e 36 honcongueses mortos. 

Retorno à soberania chinesa. Com a proximidade do término do arrendamento da região dos Novos Territórios (pelo qual a China nada recebeu), seria inviável economicamente para a Inglaterra manter apenas a Ilha de Hong Kong, ocupada antes do arrendamento. Pelo acordo entre Margareth Thatcher e Deng Xiaoping, que devolveu todos territórios ocupados à China, esta aceitou conceder um grau de semi-autonomia a Hong Kong. 

A Declaração Conjunta seria a garantia da política “um país, dois sistemas”, que deveria ser respeitada pela China pelo prazo de 50 anos. Em contrapartida, o artigo 23 da Lei Básica, a Constituição de facto de Hong Kong, estabeleceu que a Administração Regional deveria decretar leis que proibissem quaisquer atos de traição, secessão, sedição e subversão contra o governo central chinês, além de coibir organizações políticas locais de estabelecer vínculos com entidades políticas estrangeiras. A legislação pertinente não foi, no entanto, implementada na ocasião pela ex-colônia. 

O início dos protestos. Segundo relato no The Guardian, visando regulamentar o artigo 23, o governo local propôs em 2003 uma lei de segurança nacional, o que trouxe temores na oposição de que as liberdades civis ficariam em risco. Amplos protestos nas ruas fizeram com que o projeto fosse engavetado. The Guardian relatou ainda as principais crises ocorridas desde então.

Em 2012, o escritório de educação de Hong Kong propôs um currículo de educação moral e cívica que criticava o sistema de multipartidarismo. A oposição denunciou a mudança como uma tentativa de lavagem cerebral. Após protestos dos estudantes, o projeto não foi adiante. Do movimento estudantil surgiram lideranças atuais, como o ativista Joshua Wong.

Em 2014, ocorreram protestos em defesa do sufrágio universal, que levaram à ocupação do centro de Hong Kong por 74 dias. As manifestações foram chamadas de Umbrella movement, quando guarda-chuvas foram usados na proteção contra gás lacrimogêneo.

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Guarda-chuvas como proteção para gás lacrimogêneo, 2019 \  Foto: Anthony Kwan/Getty Images

Nova crise irrompeu em julho 2019, quando o governo local tentou aprovar emendas à Lei de Extradição, que possibilitariam o envio de criminosos para as autoridades no continente. Opositores da mudança na lei argumentaram que, com a aprovação, ficaria aberta a porta para a extradição de críticos do governo central chinês. As manifestações não foram todas pacíficas, ocorrendo vandalismo e violentos choques com a polícia, e entre diferentes grupos. O andamento do projeto foi suspenso.

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Gás lacrimogêneo contra manifestantes da Universidade Politécnica, novembro 2019  \  Foto: Dahlan Iskanq / AFP

A crise atual. Chegamos então a maio de 2020. No dia 28, o Congresso da China aprovou a nova Lei de Segurança Nacional para Hong Kong, com foco no artigo 23. Desde o dia 24, protestos em massa contra a lei de segurança já vinham ocorrendo nas ruas, reprimidos pelas forças policiais com uso de gás lacrimogêneo, esprei de pimenta e canhões de água, segundo amplamente relatado na mídia.

Na sequência da aprovação da lei de segurança, o secretário de estado norte-americano, Mike Pompeo, declarou que os Estados Unidos não mais considerariam Hong Kong como uma região autônoma, o que tornaria a região sujeita às mesmas tarifas comerciais que o restante da China. 

Está prevista para breve a votação de uma lei que penaliza insultos ao hino nacional chinês, com penalidades previstas de multas e prisão por até 3 anos, o que deve gerar mais atrito com setores da população críticos de Pequim. Vaias ao hino Marcha dos Voluntários, bem como mudanças desrespeitosas na letra ou na música têm ocorrido principalmente durante jogos de futebol.

Os fatos que a mídia omite. Com base em uma série de reportagens publicadas no The Grayzone, uma outra narrativa pode ser construída, que ajuda a entender melhor o papel desempenhado pelos Estados Unidos no acirramento da crise. 

Em 27 de novembro de 2019, o senado norte-americano já aprovara por unanimidade a Lei de Direitos Humanos e Democracia de Hong Kong, com a liderança do senador Mark Rubio. O documento reforça a importância que os honcongueses tenham autonomia para escolher, através do voto universal, o Chefe do Executivo  e a totalidade do Conselho Legislativo. O direito à livre expressão e outros direitos fundamentais são também defendidos no documento.

Entretanto, o jornalista Ajit Singh chama a atenção que um dos focos principais da nova legislação é de salvaguardar os negócios dos Estados Unidos no território. Hong Kong teria que agir em conformidade com a política externa norte-americana, incluindo adesão às sanções impostas a países listados como “ameaças à segurança nacional, política externa e economia dos Estados Unidos”. Ficou também explicitada a necessária adesão de Hong Kong à política comercial e aos controles de exportação estabelecidos por Washington, inclusive para com a própria China. A proposta de lei vinha sendo discutida em Washington desde 2016, com a constante presença de Joshua Wong, o jovem ativista que despontou nos protestos estudantis de 2012.

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Joshua Wong no congresso norte-americano, setembro 2019 \ Fonte: Ajit Singh/The Grayzone

Diversos líderes da oposição de Hong Kong foram recrutados para o conselho diretor de uma nova entidade anti-China, o Conselho pela Democracia em Hong Kong (HKDC, na sigla em inglês). Sediada em Washington, HKDC foi criada e financiada pela National Endowment for Democracy (NED), um dos braços intervencionistas de Washington. Dentre outros financiamentos aos movimentos anti-China, a NED forneceu mais de 2 milhões de dólares à organização Monitor de Direitos Humanos de Hong Kong, para financiar o movimento contra a lei de extradição, relata Singh.

Um dos principais influenciadores do atual protesto é Jimmy Lai, o magnata local da mídia, que vem financiando as manifestações com milhões de dólares, e incentivando um sentimento xenofóbico contra a China em seus veículos de comunicação, segundo Dan Cohen relata em seu artigo. Em julho de 2019, quando se iniciavam os protestos contra a proposta da Lei de Extradição, Lai viajou para Washington e se reuniu com o vice-presidente Mike Pence, o secretário de estado Mike Pompeo, e o então conselheiro de segurança nacional, John Bolton, além de alguns senadores republicanos.   

A oposição ao governo apoiado por Pequim se afastou da missão principal de garantir um certo grau de  autonomia para os honcongueses,  ao aderir à agenda geopolítica e aos interesses econômicos de Washington, atraindo desta forma a ira de Pequim. Fica um pouco mais fácil de se entender a motivação do governo chinês de impor a Hong Kong a recém aprovada Lei de Segurança, que penaliza atos que sejam considerados como de subversão e a favor do separatismo.

Os ucranianos nos protestos. Em 2019, grupos de extrema direita viajaram de diversas regiões do mundo, para se juntar aos protestos separatistas em Hong Kong, conforme relata Ben Norton, em artigo para o The Grayzone. Dentre estes, incluem-se extremistas ucranianos que se autodenominam “Gonor”. Este grupo participou da milícia neonazista chamada Batalhão Azov, que se notabilizou por atos brutais na luta contra os militantes ucranianos pró-Rússia. Uma revolta foi iniciada na Praça Maidan, Kiev, em 2013-14, que deu origem ao movimento Euromaidan, pró-Ocidente, que levou ao afastamento do presidente eleito Yanukovich.

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Neonazistas ucranianos em Hong Kong, dezembro 2019  \  Fonte: Ben Norton / The Grayzone

O Batalhão Azov é um grupo paramilitar que englobou diversos grupos da ultra direita como o Right Sector (Setor de Direita), responsável por incendiar o prédio de um sindicato laboral durante o golpe de 2014, o que resultou na morte de 42 pessoas.  O Azov foi incorporado à guarda nacional ucraniana, e vem recebendo armamentos e treinamento de Washington desde 2016, para manter a pressão contra Moscou. Segundo artigo de Max Blumenthal, seus membros também participaram do treinamento militar e na doutrinação de supremacistas brancos norte-americanos que estiveram envolvidos em violentas confrontações na Califórnia e na Virgínia.

Ainda segundo o artigo de Dan Cohen no The Intercept, um dos ucranianos que tiveram sua presença identificada em Hong Kong foi Serhii Sternenko, ex-líder do Right Sector. Os fascistas ucranianos estiveram presentes no campus da PolyU, a Universidade Politécnica de Hong Kong, local de violentos protestos. Suspeita-se que os extremistas ucranianos possam ter compartilhado táticas de insurgência com os ativistas de Hong Kong.

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Material de fabricação caseira para uso bélico, campus da PolyU, dezembro 2019 \  Foto: Sam Tsang

De acordo com o relato no South China Morning Post foram encontrados na PolyU cerca de 4.000 bombas incendiárias,  1.340 apetrechos explosivos, e 600 embalagens de líquido corrosivo. A CNN mostrou um artefato explosivo de fabricação caseira encontrado na universidade, com o poder devastador de uma bomba de fragmentação, apresentado na foto que abre este artigo. 

Finalizando, a ação de Washington de apoiar atos contra a China se insere no que atualmente recebe o rótulo de “guerra híbrida”, como parte da nova Guerra Fria. É mais uma tentativa de deter a ascensão econômica da China, em um mundo multipolar que desponta. Mas, ironicamente, manifestações muito mais amplas que  as ocorridas em Hong Kong se espalharam pelos Estados Unidos nos últimos dias, escancarando as contradições que permeiam a estrutura social da “grande nação das oportunidades iguais para todos”.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

 

A etnia Uigur de Xinjiang e a Guerra Fria contra a China, por Ruben Rosenthal

Como parte da campanha para deter a ascensão econômica da China, os Estados Unidos recorrem à acusações de perseguição religiosa a muçulmanos em Xinjiang.

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Província chinesa de Xinjiang, foco do separatismo uigur Arte gráfica: VOA

Antes do surgimento da crise do coronavírus e das acusações de Trump sobre “o vírus chinês”, a mídia corporativa ocidental já estava em plena campanha contra a China, ao acusar o governo de Pequim de perseguição religiosa a muçulmanos da etnia Uigur na província de Xinjiang, noroeste do país. Campanhas contra a China tem sido constantes desde a revolução comunista de 1949, que contrariou interesses econômicos e geopolíticos do Ocidente. 

O recrudescimento desta campanha em diversas frentes de embate faz evocar o clima da chamada Guerra Fria entre Estados Unidos e a então União Soviética, que prevaleceu na segunda metade do século 20, e que deixava o mundo em constante sobressalto de um conflito bélico direto entre as duas superpotências, que pudesse evoluir para o confronto nuclear.

As denúncias de violação dos direitos humanos dos uigures vêm sendo difundidas desde 2017, sem que no entanto fosse verificada a veracidade das mesmas. O que também não foi revelado pela mídia, é que as fontes das acusações recebem financiamento de Washington.Segundo artigo de Ajit Singh e Max Blumenthal no blogue de notícias The Grayzone, toda a mídia corporativa, e mesmo veículos da imprensa independente, como Democracy Now!   e The Intercept  participaram da divulgação das acusações, sem qualquer investigação prévia séria.

Portanto, não constitui surpresa a adesão da mídia do Brasil a esta campanha contra a China, pois sistematicamente reproduz o noticiário das grandes agências noticiosas do Ocidente, sem a menor visão crítica.

Em fevereiro deste ano, o portal G1, associado ao Grupo Globo, repassou informações vindas da CNN de que o governo chinês promoveu perseguições a muçulmanos integrantes da etnia Uigur, “pela prática ilegal de orações, por uso impróprio da internet, a casais que tivessem mais filhos do que o permitido pela ‘ditadura chinesa’ (sic), a homens com barba longa, e a mulheres que cobrissem o rosto com véu”.

Anteriormente, em novembro de 2019, o portal G1  já relatara que “documentos vazados mostravam que a China mantinha em campos de detenção cerca de 1 milhão de muçulmanos”. Os documentos teriam sido encaminhados ao The New York Times  por uma “fonte anônima” oriunda do escalão político chinês.

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                                  Trecho do documento chinês vazado para o The New York Times

Perseguição religiosa a muçulmanos uigures?

A referida “fonte anônima” responsabilizou o presidente Xi Jinping, por este ter anteriormente defendido “uma cura ideológica para reprimir a agitação em Xinjiang, através de um programa de doutrinação nas prisões”. Conforme também reproduzido pelo G1, “meses após o discurso do presidente chinês, campos de doutrinação começaram a ser abertos, onde cidadãos da etnia Uigur eram pressionados a renegar sua devoção ao Islã, e demonstrar lealdade ao Partido Comunista da China”.

Ainda segundo o relato difundido pelo NYT, a situação teria se agravado em 2017, quando o novo governante local iniciou uma detenção em massa de muçulmanos uigures. O documento faz também referência de que o combate ao Islã iria se estender a outras regiões da China. O Congresso norte-americano, usando como justificativa a suposta detenção de mais de 1 milhão de muçulmanos em Xinjiang, aprovou legislação em 3 de dezembro de 2019, tratando da “Política de Direitos Humanos dos Uigures”, e demandou que Donald Trump impusesse sanções econômicas contra a China, conforme relatado no The Guardian.

Para criar o clima propício que levasse à aprovação das sanções, membros do Congresso norte-americano compararam a China à Alemanha nazista: “a internação em massa de milhões (de uigures) em campos de concentração tem uma dimensão não vista desde o Holocausto”, segundo publicado pela Al Jazeera.

fardos de algodão
Fazendeiro transporta fardos de algodão em uma fábrica de Shihezi, Xinjiang 2007 \ Foto: China Photos / Getty Images

Na contramão do relato majoritário que prevaleceu nas mídias corporativas, o artigo no Grayzone considera que as acusações contra o governo chinês foram baseadas em dois estudos altamente dúbios, cuja veracidade não foi questionada.

O “primeiro estudo”  foi apresentado pela Rede Chinesa de Defensores de Direitos Humanos (NCHRD ou CHRD, na sigla em inglês), sediada em Washington, e apoiada financeiramente pela National Endowment for Democracy, o Fundo Nacional pela Democracia (NED, na sigla em inglês). Esta se trata de uma fundação privada, financiada principalmente pelo Congresso norte-americano, e cujo conselho diretor tem participação igualitária de republicanos e democratas.

O referido estudo foi baseado em entrevistas com apenas oito pessoas, e originou um relatório submetido ao Comitê na ONU para a Eliminação da Discriminação Racial. Neste relatório de 2018 foi apresentada a estimativa de que cerca de 1 milhão de pessoas da etnia Uigur haviam sido enviadas para campos de reeducação,  e que cerca de 2 milhões eram forçadas a frequentar programas de reeducação em Xinjiang, segundo a versão do CHRD.

Para se chegar às estimativas apresentadas no relatório encaminhado ao órgão da ONU, os dados obtidos a partir da pequena amostra de entrevistados em vilarejos de Kashgar foram extrapolados para uma população que totaliza 20 milhões de pessoas, analisa o Grayzone.

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Mulher uigur varrendo fora de sua casa em Kashgar \ Foto: Kevin Frayer/Getty Images

Campos de doutrinação ideológica ou de treinamento profissional?

A agência Reuters aproveitou para publicar em 10 de agosto de 2018, que a ONU diz possuir relatórios confiáveis de que a China mantém 1 milhão de uigures em campos secretos. No entanto, segundo o Grayzone esta notícia é falsa, pois a ONU não fez tal declaração. No documento emitido pelo Comitê da ONU para a Eliminação da Discriminação Racial consta de fato menção a campos de reeducação, mas feita apenas por Gay McDougall, representante norte-americana no Comitê.

O The New York Times e The Washington Post foram ávidos em denunciar a China, e pedir uma ação internacional. Mesmo o Intercept  embarcou nesta onda, com o artigo de Mehdi Hasan, “Um milhão de muçulmanos uigures foram detidos pela China, ONU afirma. Onde está a indignação mundial?”.

Com base nestes dados, o governo norte-americano acusou a China de “detenção arbitrária de 800 mil a possivelmente 2 milhões de uigures, cazaques e outros muçulmanos em campos de internação, para apagar suas identidades religiosas e étnicas”.

Ainda segundo o Grayzone, o governo chinês rejeitou as alegações dos Estados Unidos, embora reconheça que de fato estabeleceu “centros de educação e de treinamento vocacional”, para prevenir a difusão do terrorismo e do extremismo religioso. O propósito seria o de “capacitar profissionalmente um pequeno número de pessoas afetadas pela ideologia extremista, de forma que estas possam se reintegrar na sociedade”.

O “segundo estudo” que proclama que a China deteve milhões de uigures se baseou em relatos de autoria do alemão Adrian Zenz, um fundamentalista cristão de extrema direita. Zenz, que se apresenta como um pesquisador independente, é conhecido por suas posições contra o homossexualismo, igualdade de gêneros, e a favor de castigos corporais em crianças, tudo com base no cristianismo.

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Adrian Zenz, apresentado como pesquisador independente no noticiário do Democracy Now!

Este “especialista em Xinjiang”, adepto do “evangelismo do fim dos tempos”, se considera enviado de Deus em uma cruzada contra a China, como declarou em entrevista recente ao The Wall Street Journal.

Segundo o Grayzone, Zenz é um membro senior da Fundação Memorial para as Vítimas do Comunismo, organização estabelecida nos Estados Unidos em 1983, e com vinculações a pessoas e entidades simpatizantes de neonazistas, fascistas e extremistas antissemitas. A Fundação também atua contra o governo da Venezuela.

Em 2018, Adrian Zenz estimou “em mais de um milhão, o número de internos nos campos de reeducação em Xinjiang”. O Grayzone revela que estes dados se basearam em um relato da TV Istiqlal, sediada na Turquia, e ligada a exilados uigures. A emissora promove a causa separatista da região de Xinjiang para formar o Turquistão Oriental.

Relata ainda o Grayzone que o Movimento Islâmico do Turquistão Oriental tem laços com a al-Qaeda, e foi declarado como sendo uma organização terrorista pelos Estados Unidos, União Européia, e Conselho de Segurança da ONU. Segundo a agência noticiosa Associated Press, desde 2013 milhares de uigures se juntaram ao Partido Islâmico do Turquistão, para lutar ao lado da al-Qaeda na Síria, e algumas centenas aderiram ao Estado Islâmico. 

Posteriormente, em 2019, Zenz inflou para 1,5 milhão o número de detidos em Xinjiang pertencentes a minorias étnicas muçulmanas. Ao Der Spiegel, ele declarou que a prática do islamismo foi efetivamente banida de Xinjiang pela China. Zenz passou a ser o especialista em Xinjiang a quem a mídia Ocidental recorre quando necessita de relatos acusatórios contra a China. Aí se incluem veículos de informação como o New York TimesWashington Post e CNN.

Outro artigo do The Grayzone revela que a entidade conhecida como Congresso Mundial Uigur (WUC, na sigla em inglês), que se proclama como uma organização engajada em “um movimento pacífico, não violento e democrático em prol dos direitos humanos”, está na verdade focada na desestabilização da China, e na queda do sistema comunista. Assim como a Rede Chinesa de Defensores de Direitos Humanos, o WUC também recebe financiamento norte-americano através da National Endowment for Democracy. O WUC está sediado em Munique, com presença em 18 países.

Movimento de direitos humanos ou separatista

O Congresso Mundial Uigur considera que os muçulmanos da etnia Uigur são membros de uma nação pan-turca, que se estende da Ásia Central à Turquia. O patriarca do movimento separatista de Xinjiang foi Isa Yusuf Alptekin, que se exilou em 1949 na Turquia, com a vitória dos comunistas na Revolução Chinesa. Alptekin defendeu a intervenção norte-americana no Vietname, e pedia ao então presidente norte-americano Richard Nixon que apoiasse os nacionalistas do Turquistão Oriental, como forma de apressar o desmembramento da China.

O velho Alptekin em 1966
Isa Alptekin (segurando um livro) lidera manifestação pelo separatismo de Xinjiang, 1966. Na faixa: “Comunismo é o inimigo do Islã”. Foto: Reprodução

Seu filho, Erkin Alptekin, fundou o WUC em 2004 e se manteve fiel ao objetivo do pai de “provocar a queda da China, da mesma forma como a União Soviética se desmantelara alguns anos antes”. Dolkun Isa, atual presidente do WUC, faz lobby constante em Washington pela aplicação de sanções econômicas contra a China.

O WUC tem vínculos próximos com o Dalai Lama, também financiado pelos Estados Unidos através da CIA, relata o Grayzone. Cabe notar que as províncias de Xinjiang e do Tibet são vizinhas.

O WUC também mantém ligações estreitas com movimentos de direita etno-nacionalistas.  A organização estabeleceu vínculos com o grupo turco Grey Wolves (Lobos Cinzentos), engajado em violência sectária na Síria e Leste da Ásia. O atentado sofrido pelo Papa João Paulo II, em 1981, foi perpetrado por um membro dos Lobos Cinzentos.

Militantes dos Lobos Cinzentos estiveram envolvidos no atentado a bomba em um local religioso na Tailândia, que resultou na morte de 20 pessoas. Segundo a polícia tailandesa militantes uigures também estiveram envolvidos no ataque, que foi uma retaliação à repatriação de um grupo vindo de Xinjiang, que fora impedido de se juntar a combatentes do Estado Islâmico e da al-Qaeda no Iraque e na Síria1.

“Líderes do WUC‘a pacífica organização de direitos humanos’ apoiada por Washington, proclamaram que centenas de milhares de uigures de Xinjiang estariam dispostos a se alistar no exército turco para invadir o norte da Síria, se o presidente turco Recep Erdogan assim o determinasse”, revelou Grayzone.  

jihadistas chineses

Independentemente da questão dos uigures, a deterioração das relações sino-americanas cresceu no governo Trump. Artigo de dezembro de 2019 no New York Times, “A nova Guerra Fria? É com a China e já começou”ressalta que 2019 foi o ano que pode ficar na História como o início da Segunda Guerra Fria, e não 2014, quando a Rússia mandou tropas para a Ucrânia.

Além da situação em Xinjiang, o artigo levanta principalmente a questão da guerra tecnológica com a empresa Huawei, pela dominação global da tecnologia 5G nas telecomunicações, e a questão cambial, decorrente da desvalorização do Yuan frente ao dólar.

Surge então a crise do coronavírus em dezembro de 2019, que se tornou uma pandemia mundial em 2020. Em ano eleitoral, Trump procura culpar a China por suas próprias falhas em lidar com a pandemia, e ameaça com retaliações, inclusive cobrar uma  indenização bilionária dos chineses.

Nesta nova Guerra Fria, a China também tem trunfos a que poderá recorrer, como será visto em um próximo artigo. Agora é esperar por novos movimentos das peças, neste xadrez da geopolítica entre as duas principais potências econômicas.

Notas do autor:

1. Cerca de 5.000 uigures estiveram lutando na Síria, segundo o site SOFREP, formado por jornalistas norte-americanos, ex-veteranos de guerra. A estes jihadistas vinculados ao Partido Islâmico do Turquistão é atribuído o atentado com armas químicas em Lakatia, na Síria, uma tentativa de culpar o presidente Bashar al Assad, como noticiado anteriormente pelo blogue Chacolhando.

2. O atual artigo não deve ser interpretado como uma defesa incondicional do sistema político que vigora na China, e de sua política de direitos humanos. 

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Decifrando o enigma Putin

Por Ruben Rosenthal

É possível se abrir mão do poder para continuar no poder? A oposição russa e o Ocidente precisam resolver o enigma colocado por Putin, ou serem devorados, como no desafio da esfinge de Tebas.

esfinge grega
Decifra-me ou te devoro, o desafio da esfinge

(Atualizado em 09/05/2021 com adendo ao final do artigo) 

Durante a apresentação anual do “estado da Federação”, após tratar da necessidade de se implementar projetos de aumento da taxa de natalidade, o presidente Vladimir Putin propôs, de forma inesperada, mudanças significativas na Constituição do país, que precisariam ser ainda aprovadas em referendo nacional.

Poucas horas depois, o premiê Medvedev anunciou, ao lado de Putin, sua renúncia e do governo, em transmissão na televisão estatal. Medvedev foi substituído pelo chefe da Receita Federal russa, Mikhail Mishustin. O presidente convidou Medvedev para a chefia do Conselho de Segurança Nacional, um cargo até então ocupado pelo próprio Putin.

A mídia do Ocidente interpretou as propostas de mudança constitucional, como parte de um “plano para consolidar e ampliar a permanência do líder russo no poder”. Esta opinião é também corroborada por Sarah Rainsfor, correspondente da BBC em Moscou.

A jornalista considera que a redução dos poderes do presidente, uma das propostas encaminhadas por Putin, “poderia sinalizar sua intenção de se tornar primeiro-ministro novamente”. Sarah relatou em seu artigo que “o líder da oposição, Alexei Navalny, afirmou que qualquer mudança na Constituição caracterizaria fraude, e que a intenção de Putin com a proposta, seria apenas de se perpetuar eternamente no poder”.

Na contramão da mídia corporativa ocidental, Mark Sleboda1, analista de política internacional radicado em Moscou, defende sua visão em que Putin é apresentado como defensor de uma Rússia independente, mais democrática e socialmente mais justa. Esta interpretação foi apresentada por Sleboda em entrevista à jornalista Anya Parampil, no programa Red Lines, inserido na programação do The Grayzone no Youtube.

Sleboda listou as mudanças sugeridas por Putin, e que não deverão receber oposição da Duma, a câmara baixa do legislativo russo. No geral, elas demonstram a intenção do presidente de diminuir os poderes do cargo que ocupa, e criar um sistema de poder mais equilibrado. Os atuais superpoderes inerentes ao cargo presidencial foram concedidos pela Constituição de 1993, por ingerência de Boris Yelsin, então presidente da Rússia.

A primeira medida proposta, transfere o poder de nomear o primeiro ministro para a Duma, que também passaria a nomear os ministros do gabinete e os secretários (deputy ministers) do primeiro-ministro. Desta forma, o executivo perderá grande parte de seus poderes para o legislativo.

Mudarão também os procedimentos para indicar os chefes das agências de segurança do país. Embora a indicação continue a ser feita pelo presidente, será necessária a consulta prévia com o Conselho da Federação, órgão legislativo equivalente ao senado.

Será alterada a cláusula constitucional que possibilita o exercício da presidência por dois termos consecutivos, reduzindo para um termo apenas. Putin havia se aproveitado de uma brecha na Constituição, para exercer dois períodos na presidência, em sequência ao período em que atuara como primeiro ministro.  Sleboda vê esta alteração, como a intenção de Putin em evitar que políticos ávidos pelo poder possam fazer uso deste tipo de brecha no futuro.

Outra proposta consiste em elevar, de 10 para 25 anos, a exigência do tempo de residência no país para alguém se tornar candidato a presidente. Putin também quer banir a cidadania estrangeira, a dupla cidadania e permissões de residência no exterior para os principais agentes do governo, como juízes, governadores, prefeitos de cidades importantes, legisladores federais e membros do gabinete. Assim não haveria a possibilidade de duplicidade na lealdade à nação russa.

Sleboda percebe que esta medida está recebendo algumas críticas, por impedir que muitas das personalidades com perfil liberal pró-Ocidente, e que residiram no exterior, possam vir a ocupar a presidência ou cargos de relevância no país.  Este seria o caso do oligarca Mikhail Khodoskhovsky, que recebeu uma condenação criminal, e que possui dupla cidadania. A medida também afetaria o oposicionista Alexei Navalny, que morou e estudou nos Estados Unidos.

Putin propôs também que o Conselho de Estado, uma espécie de órgão consultivo, passe a fazer parte do setor executivo, garantido pela Constituição. Sloboda avalia que este é provavelmente um dos caminhos que Putin está abrindo para si, para quando se afastar da presidência em 2024. Na chefia do Conselho, Putin atuaria como uma espécie de estadista, “pai da nação”, sem, no entanto, ocupar um cargo no executivo com poderes formais.

Outra alteração constitucional é conceder ao Conselho da Federação (Senado russo) o direito de remover juízes da Corte Constitucional e da Suprema Corte. Trata-se basicamente de lidar com procedimentos de impeachment. Por sua vez, a Corte Constitucional passaria a ter a atribuição de rever a constitucionalidade das leis da Federação. Desta forma, a Corte poderá decidir se leis a serem promulgadas por qualquer presidente em exercício são constitucionais ou não.

O “pacote” encaminhado por Putin também inclui indexar a Seguridade Social e o salário mínimo ao patamar de pobreza do país. Isto é visto como uma rede de segurança para os pobres. Assim, se o nível de pobreza aumentar, os pobres receberão benefícios adequados para protegê-los.

Finalmente, uma última proposta de mudança é limitar a supremacia da lei internacional sobre a russa, de forma a prevalecer sempre a Constituição russa.  A Rússia não deseja ter restrições à sua liberdade de manobras no campo internacional, nem de estar sujeita a processos legais por órgãos internacionais, avalia Sleboda.

O analista considera que muitos não vêem com satisfação que a legislação russa possa prevalecer sobre a internacional. Mas lembra que também os Estados Unidos não reconhecem a aplicação da lei internacional acima de suas próprias leis ou sobre seus cidadãos, principalmente militares em serviço no exterior. O mesmo acontece com vários países da União Européia2.     

Quanto à troca de primeiro ministro, Sleboda revela que já existia o rumor de que Putin não estava satisfeito com a falha de Medvedev em incrementar a infraestrutura nacional e programas econômicos. No entanto, ninguém esperava que Mikhail Mishustin, alguém sem uma ampla base política, fosse chamado para assumir o cargo de primeiro ministro. Ele é visto como um competente tecnocrata pró-empresariado, que realizou um grande projeto de digitalização da economia. Mishustin é considerado como uma figura neutra, que não vai balançar o barco, avalia Sleboda.

Uma peça fundamental no gabinete demissionário é o ministro do exterior, Sergey Lavrov. Embora já fosse do conhecimento que, após quinze anos, ele estivesse cansado de exercer o cargo, dificilmente Putin poderá prescindir de Lavrov. Ele atuou em crises como as do Iraque, Ucrânia, Síria e Líbia, além de ter exercido uma participação ativa no Conselho de Segurança da ONU. 

Sleboda considera que nenhuma das propostas encaminhadas por Putin seja muito controversa na Rússia. Mesmo Alexei Navalny, o queridinho da imprensa ocidental, “liberal pró-Ocidente, ultranacionalista de direita, racista, e islamofóbico”, parece apoiar as mudanças3, principalmente no que diz respeito a Putin se afastar definitivamente do poder em 2024. 

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Detenção de Alexei Navalny no protesto de maio de 2018 em Moscou    Foto: TASS / Barcroft Images

Chamar Navalny de líder da oposição, como faz a correspondente da BBC em Moscou e a mídia ocidental, é possivelmente dar a ele um crédito que não possui, pois sua percentagem de aprovação nas pesquisas de opinião ficou sempre em torno de 2%.  Este foi o mesmo resultado que obteve quando se candidatou anteriormente à presidência.

Putin certamente não deixará de dar as cartas até 2024, apoiado em sua popularidade de mais de 60%. Segundo Sleboda, ele poderá futuramente colocar como premiê alguém que queira ver como seu substituto na presidência. Isto aconteceu anteriormente com o próprio Putin, quando foi indicado para o cargo de primeiro ministro em 1999, ganhando experiência no exercício do cargo, até poder então pleitear e assumir a presidência no ano 2000.

Ao mesmo tempo, Putin procurará deixar algumas opções em aberto, mas ancorado na nova Constituição, no caso de ocorrerem mudanças imprevistas no quadro nacional ou internacional nos próximos quatro anos, avalia Sleboda. Decifrar o enigma Putin, pode ser uma questão de sobrevivência para a oposição russa pró-ocidente. E para o Ocidente, trata-se de não perder peças no xadrez da geopolítica.

Adendo: Em referendo ocorrido ainda em 2020 foi aprovado que o presidente russo não possa exercer mais dois mandatos. Em março deste ano, a Duma confirmou a mudança na Constituição e, em 5 de abril, Putin promulgou a lei. Entretanto, o texto sancionado não se aplica aos que ocupassem a presidência antes das mudanças constitucionais. Desta forma, Putin poderá permanecer como chefe de estado até 2036.

O enigma está agora decifrado. Sob ameaça constante do Ocidente a Rússia não irá abrir mão de seu líder.

Notas do autor:

1. Sobre Mark Sleboda: de nacionalidade norte-americana, ele serviu na marinha, no campo da engenharia nuclear. Ficou desiludido com as ações dos Estados Unidos contra o Iraque, ao testemunhar diretamente os bombardeios realizados por seu navio. Os bombardeios contra a Sérvia também contribuíram para a decisão de deixar o país. Casou-se com uma russa que cursava MBA em Harvard, e tendo ele mesmo ancestralidade eslava, migraram os dois para a Rússia. Sleboda optou pela nacionalidade russa, em detrimento da norte-americana. Ele declara concordar, de um modo geral, as posições da Rússia na política internacional.

Sleboda atrai também controvérsias. Artigo no The Guardian acusou o analista político de ser um apologista pró-Kremlin, por suas declarações à radio ABC da Austrália, sobre os protestos em Moscou, de maio de 2018, realizados pela oposição contra Putin. Na ocasião foi detido o líder oposicionista Alexei Navalny.  

O analista disse em entrevista à rádio que os protestos foram pequenos, e descartou a sugestão de que muitas pessoas não participaram por medo. A rádio ABC foi também criticada no artigo, por não revelar que Sleboda supostamente trabalhava como analista para RT, canal estatal de televisão em língua inglesa, anteriormente conhecido como Russian Today.

2. A Grã-Bretanha, vem desrespeitando a autoridade da Corte Internacional de Justiça, que por 13 votos a 1, deu parecer contrário à continuada ocupação colonial das Ilhas Chagos.

3. Evidentemente Navalny não deve estar satisfeito com restrições que possam impedir uma eventual candidatura sua à presidência, e à outras funções de governo. Cerca de 7% da população do país também seria afetada por estas novas restrições.

4. Na mitologia grega, a esfinge tinha cabeça de mulher, pernas e corpo de leão, e as asas de um pássaro.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Revisitando e Questionando o Genocídio de Srebrenica

Por Ruben Rosenthal

O consenso oficial que o Genocídio de Srebrenica em 1995 ocorreu por falha da ONU abriu o caminho para a intervenção da OTAN em 1999 contra a Iugoslávia, sob o pretexto humanitário da guerra no Kosovo. O precedente possibilitou outras intervenções pela OTAN sem autorização do Conselho de Segurança. Mas ocorreu mesmo um genocídio em Srebrenica?

A Bosnian Muslim woman, survivor of Sreb

Memorial em Serebrenica   /  Foto E. Barukcic

AFP/Getty Images

 

Este é o primeiro artigo no blogue Chacoalhando da série “Revisitando a Fragmentação da Iugoslávia”. Os conflitos que dominaram esta região dos Balcãs trouxeram consequências que extrapolaram a própria Europa. A mídia ocultou ou distorceu diversos fatos da tragédia, dos quais as novas gerações precisam estar conscientes e atentas, pois após os bombardeios de 1999 pela OTAN, a história se repetiu várias vezes como farsa, como já alertara Karl Marx. 

No dia 11 deste mês de julho, o massacre ocorrido em Srebrenica, na Bósnia, completa 24 anos, quando teriam sido mortos  8.374 muçulmanos bósnios, executados por militares sérvios naturais da própria Bósnia1. A cidade tinha o status, concedido pela ONU, de “área segura”, e portando deveria ser considerada como um santuário, protegida de conflitos. O massacre ficou conhecido o Genocídio de Srebrenica, o primeiro a ocorrer em solo europeu após o Holocausto, de acordo com o “consenso oficial” que prevaleceu, desde então, no Ocidente.

Este consenso, juntamente com os massacres em Ruanda, serviu como pedra angular da ideologia intervencionista do Ocidente, em que as tropas da OTAN passaram a se antecipar ou mesmo a prescindir de decisões da ONU, para bombardear e invadir outras nações, de acordo com interesses geopolíticos. Esta licença para arrasar outros países começou em 1999, com os terríveis bombardeios da Sérvia pela OTAN. Nesta ocasião estavam no poder, na Europa Ocidental, vários partidos de centro-esquerda, o PS de Jospin, na França, o Partido Trabalhista, de Tony Blair,  no Reino Unido, e a Social-Democracia, com Schroeder, na Alemanha. E nos Estados Unidos, os Democratas, com o liberal Clinton. É sempre bom se ter em mente, que em política externa, muitas vezes a centro-esquerda e os liberais são mais “falcões” que os conservadores de direita.  

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Mapa da Ex-República Socialista Federativa da Iuguslávia 

 

Um pouco de história ajuda a entender a origem dos conflitos que dominaram aquela região dos Balcãs durante a década de 90. Em 1918 foi criado o Reino de Sérvios, Croatas e Eslovenos, que mudou de nome para Reino da Iugoslávia em 1929. Com o término da segunda guerra mundial, em sucessão ao Reino da Iugoslávia, foi estabelecida a República Socialista Federativa da Iugoslávia, consistindo de seis repúblicas, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Montenegro, Macedonia, Slovênia e Sérvia, da qual faziam parte duas províncias autônomas, Kosovo e Vojvodina, criadas pela Constituição de 1974.

Até a morte do Marechal Tito, a federação se manteve unida. O status de herói da Segunda Guerra Mundial, o respeito internacional à neutralidade do país em relação ao Ocidente e à União Soviética, sua liderança no Movimento dos Países Não Alinhados, concediam a Tito um prestígio incontestável, apesar de ter governado de forma autocrática. Um sistema de rodízio entre as nacionalidades, para o cargo de primeiro-ministro do país, ajudava a manter a unidade.  Com a morte de Tito em 1980, o delicado equilíbrio ruiu.

A evolução das rivalidades com o crescimento dos nacionalismos regionais, culminando com a deflagração dos conflitos que envolveram diversas nacionalidades, será abordado a seguir de forma resumida. Já década de 80 surgiram tensões étnicas no Kosovo. Com a queda do muro de Berlin em 1989, o desmantelamento do Pacto de Varsóvia em 1991, e da própria União Soviética em dezembro do mesmo ano, as políticas centralizadores de Slobodan Milosevic, que ocupava a presidência da Sérvia (1989-1997), começaram a ser contestadas por líderes de outras repúblicas da federação.

Em junho de 1991, Eslovênia e Croácia tornaram-se as primeiras repúblicas a declararem sua independência, logo seguindo-se a Macedônia. A nova situação tinha o potencial de causar conflitos, porque a identidade sérvia estava bastante dividida geograficamente por várias repúblicas da federação, como a Bósnia, Croácia, Macedônia, Montenegro, além é claro, da própria Sérvia. 

República Srpska 2

Mapa da República  SRPSKA

 

Em outubro de 1991, a Assembléia da Bosnia e Herzegovina, com a oposição dos deputados de origem sérvia, aprovou um Memorando de Soberania, para abrir caminho para a proclamação da independência, que veio a ser efetivada em março de 1992. Em fevereiro de 1992 as seis regiões autônomas sérvias da Bósnia proclamaram a secessão, formando a República Srpska, que deveria também incluir as regiões em que os sérvios se tornaram minoria devido à perseguições durante a Segunda Guerra Mundial.

Estavam colocadas as condições para os conflitos bélicos, que se generalizaram no início da década de 90. Neste contexto se inseriu a luta por Srebrenica, que se tornara um enclave muçulmano em maio de 1992, com a fuga dos sérvios locais, seguindo-se a morte de um proeminente juiz sérvio1. No processo de assumirem o controle de Srebrenica, tropas sérvias naturais da República Srpska executaram, em 11 de julho de 1995, um grande número de prisioneiros muçulmanos bósnios, o que ficou registrado para a história como o Massacre ou Genocídio de Srebrenica.

No entanto, esta narrativa oficial da ocorrência de um genocídio encontra contestadores. Diana Johnstone1, 85, aceita e se orgulha de ser considerada uma “negacionista do genocídio” em Srebrenica, pecha que lhe é atribuída (e a outros) com intuito pejorativo, por defensores do consenso oficial2. Pensam como ela diversos intelectuais, acadêmicos, jornalistas e advogados de defesa internacionais3. A seguir são apresentados trechos de uma entrevista anteriormente concedida por Johnstone à Ann Garrison, jornalista independente, e publicada na revista CounterPunch.

A autora aceita que ocorreu de fato um massacre de prisioneiros, consistindo, portanto, em crime de guerra, cuja dimensão ela questiona, mas insiste que não se trata de genocídio. Ela revela ceticismo sobre as repetidas citações de que ocorreram mais de 8.000 mortos no massacre, assim como outros negacionistas4, e salienta que a questão relevante não é o número exato de corpos, mas como isto foi e ainda é explorado. Johnstone considera que, quando mulheres e crianças são poupadas, e as vítimas são todas do sexo masculino, com idade de servir ao exército, a definição de genocídio não se aplica.

Massacres de homens e jovens em idade militar acontecem nas guerras, acrescenta ela. E aconteceu dos dois lados. Havia uma guerra, e não foram apenas sérvios matando muçulmanos. Muçulmanos também mataram sérvios durante a guerra civil5. Salienta ainda que os sérvios eram, inclusive, aliados do popular líder muçulmano secular do oeste da Bósnia, Fikret Abdic (sugerindo, com isto, que não havia uma questão de supremacia étnica ou religiosa como motivação para o massacre).

A autora considera que o Tribunal Internacional de Crimes para a Ex-Iugoslávia foi estabelecido pelas potências ocidentais para culpar os sérvios por genocídio, e isto foi conseguido através de uma explicação sociológica esdrúxula. Como os muçulmanos bósnios possuem uma sociedade patriarcal, eliminar os homens equivaleria a uma espécie de genocídio para toda aquela cidade (ou comunidade).

Johnstone avalia, na entrevista, que os sérvios foram alvos da administração Clinton, por que esta tinha uma política de aliança com os muçulmanos ao redor do mundo, como parte de uma estratégia contra a Rússia, que retrocede ao apoio dado pela administração Carter aos Mujahadeen, no Afeganistão. A base da estratégia era (e talvez ainda seja nos tempos atuais) explorar a vulnerabilidade do “Império Russo”, por este ser constituído, em parte, por províncias de população muçulmana majoritária. Este era um trunfo a ser usado contra o núcleo russo, cristão ortodoxo (com o objetivo de desmembrar o país, como ocorrera com a extinta União Soviética). Como a Sérvia, também cristã ortodoxa, era vista como potencial aliada regional da Rússia, ela passou a ser alvo dos EUA.

A autora considera que não fazia parte da estratégia de Washington combater o radicalismo muçulmano pelo mundo, e sim, os muçulmanos seculares, não radicais. Na Bósnia, a aliança foi com Alija Izetbegovic, o mais radical dentre os islamitas de lá, e que defendia que nações com maiorias muçulmanas fossem governadas pela lei islâmica6. Os EUA também agiram assim contra Gaddafi, que era inimigo dos muçulmanos extremistas, e com Saddam Hussein, que governava uma sociedade secular, e era odiado pelos extremistas islâmicos. Desta forma, com a intervenção norte-americana, estes governantes foram derrubados, possibilitando o avanço dos extremistas sobre a Líbia e Iraque. O mesmo quase aconteceu (recentemente) com a Síria, de Assad.

Ainda segundo Johnstone, a aceitação como consenso oficial, de que ocorreu um genocídio em Srebrenica trouxe sérias conseqüências, juntamente com os massacres em Ruanda, que não se limitaram ao pretexto para justificar futuras intervenções militares pela OTAN. A ampla aceitação de que ocorrera um genocídio de milhares de muçulmanos deu margem a uma inesperada interpretação pelos radicais islâmicos: se o Ocidente foi complacente, em algum momento, com o genocídio de muçulmanos, então ele também é culpado das mortes ocorridas, e por isto deve ser combatido.

Esta justificativa tem sido atualmente usada para recrutar jovens no Oriente Médio para a luta dos extremistas islâmicos contra o Ocidente, abastecendo com militantes os grupos radicais, como o ISIS7. Assim, a estratégia do Ocidente de que teria os muçulmanos como aliados, por ter apoiado lideranças extremistas, teve o efeito inverso, acrescenta Johnstone, porque ficaram enfraquecidos os líderes seculares, e isto com a ajuda do grande aliado saudita, que é um estado muçulmano extremista.

Diana Johnstone comenta que uma história que circulou muito, fora da mídia oficial, foi que o massacre de Srebrenica fez parte de uma tática de Izetbegovic, para fazer os sérvios cometerem uma matança, que, por sua gravidade, fosse considerada inaceitável pelo Ocidente. O líder bósnio teria escutado diretamente de Bill Clinton que, caso ocorresse em um massacre, a morte de pelo menos 5.000 muçulmanos, os EUA e a Nato iriam intervir diretamente a favor dos muçulmanos.

Johnstone não acusa Clinton de deliberadamente ter induzido Izetbegovic a preparar uma armadilha para os sérvios. Ela acredita que o líder bósnio, cuja estratégia incluía retratar os bósnios como vítimas indefesas, provavelmente tenha dado sua interpretação pessoal à fala de Clinton. Ele então ordenou a retirada do comandante de Srebrenica, o que levou os soldados bósnios, mesmo em maioria, a bater em retirada frente aos atacantes sérvios. Em um contexto da ocorrência anterior de 1.000 a 3.000 mortes de sérvios nas vilas da região, incluindo mulheres e crianças, o cenário estava então colocado para uma vingança por parte dos sérvios. Com isto foi aberta a porta para a entrada em cena das tropas da OTAN, neste e em outros conflitos, mesmo fora da Europa.

Comentários indexados ao texto:

1. Diana Johnstone, no livro de sua autoria “Fool’s Crusade: Yugoslavia, NATO, and Western Delusions”. A escritora norte-americana radicada em Paris, é autora ainda dos livros  “The Politics of Euromissiles: Europe’s Role in America’s World” e  “Queen of Chaos: The Misadventures of Hillary Clinton”.

2. Em artigo de julho de 2019 no Haaretz de Israel, o escritor, cineasta e jornalista de conflitos, Oz Katerji critica intelectuais de esquerda, acadêmicos, jornalistas e blogueiros, que, “com suas teorias conspiratórias anti-imperialistas, transitam na negação de genocídios, de Srebrenica a Síria”. Ele se refere nominalmente, dentre outros, ao jornalista Glenn Greenwald, do Intercept, e aos autores Edward Herman e David Peterson, pelo livro The Politics of Genocide, a Noam Chomski, pelo prefácio no livro, e ao documentarista australiano John Pilger, por ter endossado o livro. 

Katerji considera ainda, que com a condenação de Ratko Mladic, ex-comandante militar da República Srpska, à prisão perpétua por crimes de guerra, em novembro de 2017, com “provas conclusivas, os ‘negacionistas’ deveriam se redimir, mas estão agora empenhados em negar os crimes de guerra de Assad”.

3. Para análises mais abrangentes sobre o tema da guerra civil na antiga Iuguslávia, recomenda-se além do livro já citado de Diana Johnstone, também publicações de autoria Edward Herman. O livro The Politics of Genocide, por Edward Herman e David Peterson, mostra como o termo genocídio vem sendo aplicado com intenções políticas, de forma tendenciosa, em diversas situações internacionais. O livro está disponível, gratuitamente, através do linque indicado.

Um jornalista que não surfa na onda da mídia ocidental é o documentarista australiano John Pilger. Ele denunciou  a falta de cobertura pela mídia ocidental, de que o falecido presidente da Iuguslávia (de 1997 a 2000), Slobodan Milosevic, foi inocentado em 2016 pelo Tribunal Penal Internacional para a Ex-Iugoslávia, em Haia, de todas as acusações levantadas contra ele de envolvimento em crimes de guerra durante a guerra Bósnia (1992-1995), inclusive do massacre de Srebrenica. Ainda segundo Pilger, o veredicto do Tribunal demole a propaganda que justificou o violento e ilegal ataque pela OTAN na Sérvia, em 1999, durante a guerra do Kosovo.

4. Em entrevista publicada no Global Research, Edward Herman avalia que o número de mortos por execução no massacre de julho de 1995 seja inferior a 1.000, e que muitos dos 2.500 corpos encontrados em túmulos seriam relativos a soldados mortos em combate. Outros milhares que estavam desaparecidos, e constavam como mortos no massacre, já teriam sido localizados. Por outro lado, Herman ressalta uma estimativa que mais de 150 vilas de sérvios foram completamente riscadas do mapa, no período entre 1992 e julho de 1995, com registro de 2.383 civis mortos.

5. O General Philippe Morillon, comandante militar da ONU na Bósnia em 1992 e 1993, testemunhou perante o Tribunal Penal sua convicção de que o ataque a Srebrenica foi uma reação direta aos massacres de sérvios cometidos pelo comandante do exército da República da Bósnia e Herzegovina, em Srebrenica, Nasir Oric e de suas tropas. No entanto, o Tribunal não aceitou o depoimento de Morillon, e considerou  que não havia evidências de elevadas mortes de civis nos ataques a vilas sérvias no teatro de operações.

6. Artigo no jornal português Público revela que Osama Bin Laden tinha um passaporte da Bósnia e Herzegovina, incluindo a cidadania, concedida por ordens de Izetbegovic. O jornal relata ainda que Bin Laden e seus combatentes cometeram crimes terríveis, como decapitações de prisioneiros sérvios, usando as cabeças como bolas de futebol.

7. Segundo um membro fundador da Al-Qaeda, que tornou-se espião para os serviços de inteligência britânicos, “a Bósnia deu ao movimento jihadista moderno a narrativa de que há uma guerra entre o Ocidente e o Islã”. 

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Batalhão Mujahadeen na Bósnia

 

Comentários adicionais:

1. O autor do artigo do Haaretz, Oz Katerji, cometeu uma omissão por não mencionar a absolvição tardia de Slobodan Milosevic de todos os crimes que haviam sido imputados a ele. Ainda na tentativa de fortalecer suas críticas aos “negacionistas de genocídios”, Katerji citou o caso das acusações de crimes de guerra (pelo uso de armas químicas) por Assad, na Síria. No entanto, o autor comete outra omissão, ao desconsiderar completamente o relatório da OPAQ vazado recentementeque revelou a farsa da manipulação de evidências com o intuito de incriminar Assad, em pelo menos um dos supostos casos de emprego de armas químicas na Síria.

2. Em seu livro Fool’s Crusade: Yugoslavia, NATO, and Western Delusions, Diana Johnstone considera que era uma fraude o conceito de “área segura”, que vigorava então para diversas regiões no palco de operações do conflito. As regiões deveriam estar livre de armamentos, mas não estavam, e isto “com a conivência da ONU”. Acrescenta ainda a autora, que estes santuários foram utilizados por tropas muçulmanas para lançar ataques contra vilas sérvias na bósnia nos três anos que antecederam o massacre de Srebrenica, causando bem mais que 1.000 mortes de civis.

3. As condenações à prisão perpétua pelo Tribunal Penal, do ex-comandante Mladic e do líder sérvio na Bósnia, Radovan Karadzic, foram fortemente baseadas nas “evidências” de ter ocorrido o Genocídio de Srebrenica, com mais de 8.000 execuções, como ressalta Johnstone em seu livro sobre o conflito.

O fato do número de execuções ter sido bem inferior ao que foi aceito pelo consenso, se aceita a versão dos “negacionistas”, e das mortes de prisioneiros terem se dado no contexto do clima tenso que se seguiu à matança de mais de mil civis sérvios nas vilas próximas, não isenta a ambos de responsabilidade pelas execuções. No entanto, estas considerações não foram levadas em conta pelo Tribunal, como possíveis atenuantes nas penalidades impostas, em face de ter prevalecido o “consenso oficial”. Entretanto, para boa parte dos sérvios, Mladic é considerado um herói.

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Homenagem ao ex-comandante Mladic 

 

4. Segundo Edward Hermanainda dentro do primeiro mês das mortes em Srebrenica, com as notícias do massacre/genocídio dominando na mídia ocidental, as autoridades da Croácia promoveram uma devastadora “limpeza étnica” de sérvios e muçulmanos no oeste da Bósnia, e a remoção de centenas de milhares de sérvios da região de Krajina, na Croácia, com aprovação e logística dos EUA. Estas operações, em que o número de mortos deve ter chegado a milhares, incluindo mulheres e crianças, não foram praticamente noticiadas na mídia.

5. A série “Revisitando os Conflitos e a Fragmentação da Iugoslávia” terá continuidade no blogue Chacoalhando ao longo do mês de julho. 

 

Netanyahu, Trump e Putin: uma História de Amor

Tradução informal e comentada, do artigo publicado em 8 de abril no Al Jazeera, de autoria do analista sênior, Marwan Bishara. Ruben Rosenthal

Com os resultados finais da eleição para o parlamento de Israel indicando que o partido do atual primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu conseguiu 36 dos 120 assentos, tudo indica que ele será o líder do governo de coalizão da direita. Será seu quinto mandato, caso os problemas de corrupção não o impeçam de assumir. Com ele no poder, pode-se prever que em breve virá a anexação de parte da Cisjordânia. Odiado por muitos, por sua responsabilidade no sofrimento e nas mortes de milhares de palestinos desde que assumiu o governo em 2009, Bibi é reconhecidamente um magistral enxadrista em geopolítica. Marwan Bishara nos explica como atua o polêmico político.

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Podem chamar Netanyahu de trapaceiro e belicista, mas que outro líder pode se gabar de ter conseguido se reunir com Trump e com Putin no prazo tão curto de duas semanas antecedendo eleições gerais. A motivação imediata desta diplomacia foi certamente o ganho eleitoral, mas as implicações estratégicas de sua vitória podem resultar na reconfiguração do Oriente Médio. Breve deverá vir a anexação de partes da Cisjordânia, prometida na campanha eleitoral. E novamente Trump deverá dar seu apoio, e Putin, emprestar seu silêncio. Como isto foi possível?

Netanyahu aproveitou sua ida, em setembro de 2016, à reunião de cúpula anual das Nações Unidas em Nova Iorque, para um primeiro encontro, na Trump Tower, com o então candidato presidencial republicano. Segundo Steve Bannon, então conselheiro de Trump, o novato na política recebeu uma aula do mestre de xadrez da geopolítica mundial, particularmente sobre a importância das relações entre os Estados Unidos e Israel, face às realidades do Oriente Médio.

Netanyahu contribuiu para que Trump pudesse colocar de forma racional seus instintos sobre segurança, imigração, terrorismo, Islã, e mesmo as vantagens de um muro na fronteira (idéia que Trump deve ter aproveitado como sua ‘solução’ para a imigração através da fronteira com o México, N.T.). Mas a grande jogada de Netanyahu foi fazer o foco da conversa convergir para uma fórmula simples: ‘o Irã, e não a Rússia, é o principal inimigo’ de ambos, e que o presidente russo tem uma posição privilegiada na ajuda contra os aiatolás e o Islã radical.  Isto soou como música aos ouvidos de Trump, pois ele já vinha cortejando Putin, para horror de seus detratores em casa e na Europa. Graças a Netanyahu, Trump pôde se municiar de uma doutrina estratégica que envolvia forjar novas alianças e parcerias com lideranças fortes.

A nível pessoal, foi uma aliança tranquila de se estabelecer. Benjamin, Donald e Vladimir realmente pareciam se gostar. Com passados e estilos distintos, eles, no entanto, tem um mesmo perfil. Homens brancos, já de certa idade, adotando estereótipos do macho, nacionalistas1 com um traço de malignidade, os três são personalidades que polarizam. São vistos como enganadores, com um ‘jeitinho’ para agir com impunidade. Não gostam da liberdade de imprensa e de um judiciário independente e ativo.

O principal inimigo em comum do trio é nenhum outro que o ex-presidente americano Barack Obama, e tudo o que ele representava, seja o multiculturalismo, os ideais liberais e uma política externa liberal. Assim que assumiu a presidência, Trump começou a destruir o que Obama construiu no país e no exterior, sem se importar em violar leis e acordos internacionais, saudado por seus dois camaradas e por um número crescente de fãs pelo mundo. Ele deixou o Acordo de Paris e o acordo nuclear com o Irã, além de dar seu apoio incondicional aos mais repressivos regimes no Oriente Médio, dentre outros.  

O trio atraiu e inspirou uma nova cepa de líderes agressivos hiper-nacionalistas1 que veneram o poder, como Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, Abdel Fattah el-Sisi, do Egito, Viktor Orbán2 , da Hungria e Jair Bolsonaro, do Brasil.  Trump e Putin podem ser os líderes do grupo, mas foi Netanyahu,  o entusiástico apoiador desta nova leva de governantes (Haaretz), mostrando sua afinidade com os mesmos, contrariamente ao que se esperaria do líder de uma nação fundada por vítimas de perseguição étnica. 

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Netanyahu e o húngaro Viktor Órban

Os três líderes procuraram substituir o pensamento progressista e o liberalismo pela plutocracia. Mas se o namoro3 dos três foi bem sucedido em gerar uma tendência mundial pelo populismo, por outro lado, não conseguiu produzir relações mais próximas e amigáveis entre os governos russo e norte-americano. Nem Trump nem Netanyahu conseguiram convencer o establishment da política externa americana a abraçar Putin, nem mesmo como forma de conter o Irã. Este país é visto como um ator de nível regional a ser combatido, mas Democratas e Republicanos consideram a Rússia como um perigoso inimigo global.  Isto porque a Rússia de Putin conseguiu retornar ao cenário da geopolítica internacional como um importante participante independente, em geral adversário dos Estados Unidos. Isto se tornou evidente com a intervenção na Ucrânia e na Síria, bem como no envio de tropas para a Venezuela, um desafio direto a Washington no Hemisfério Ocidental.

Esta é a tragédia da política do poder. Embora Trump e Putin pensem de forma semelhante, eles continuarão a competir em um mundo anárquico, mesmo com o risco de guerra. Seus países estão de lados opostos em quase tudo, incluindo guerra cibernética, proliferação nuclear, segurança regional na Europa e Oriente Médio, e, naturalmente, na questão da interferência russa nas eleições americanas. Mas eles concordam sobre Israel, ou pelo menos Putin e Trump concordam, e ambos simpatizam com Netanyahu.

Trump and Putin tiveram uma reunião de cúpula (em Helsinki, julho de 2018, N.T.), que terminou em relativo fracasso4 , além de quatro encontros curtos. Netanyahu teve cinco bem sucedidas reuniões com Trump em dois anos, e treze bem sucedidas reuniões com Putin em quatro anos. O primeiro-ministro persistiu em cultivar relações próximas com Putin, porque a Rússia é a única potência que tem diálogo aberto com cada um dos atores principais no Oriente médio, incluindo o Hamas e o Hezbollah, e mesmo com rivais regionais, como Irã e Arábia Saudita, além de Turquia e Egito.

Netanyahu soube explorar o interesse da Rússia de que Washington voltasse a reconhecer seu status de superpotência e suas áreas de influência, fazendo uso de sua relação especial com Trump, para com isto conseguir concessões de Putin, começando pela Síria. Parecendo rapidamente esquecer do papel de Israel no episódio da derrubada de um avião militar russo com morte de 15 oficiais, Putin concordou em estabelecer um grupo de trabalho com Israel visando a remoção de todas as forças estrangeiras da Síria. O presidente russo também aceitou as constantes violações do espaço aéreo da Síria por Israel e o bombardeamento de alvos iranianos lá.  O Kremlin ainda propôs a Netanyahu que ele mediasse um acordo entre Estados Unidos, Síria e Irã, para a retirada completa de tropas, mas como tal acordo levaria ao fim das sanções contra o Irã, Netanyahu se recusou.

Em algumas ocasiões, a atuação diplomática de Netanyahu se aproximou de um jogo de pôquer, mas que conseguiu obter de Trump o reconhecimento da anexação das Colinas de Golã por Israel, em desrespeito à legislação internacional e à política tradicional do país. Aparentemente, Putin não fez nada e deixou esta questão passar em branco quando se reuniu com Netanyahu.

Se para obter a adesão de Putin um flerte prévio foi necessário, Netanyahu não poderia ter sonhado em melhor parceiro na Casa Branca que Trump. Este abraçou completamente as posições de Israel no Irã, e a ocupação de Jerusalém5 e das Colinas de Golã. Em breve deverá vir a anexação de parte da Cisjordânia, conforme promessa de Netanyahu caso ganhasse as eleições. E novamente Trump deverá dar seu apoio e Putin emprestar seu silêncio. Desta forma o primeiro-ministro de Israel vem conseguindo redefinir as fronteiras e as alianças no Oriente Médio.

Notas do Tradutor

Pequenas modificações foram introduzidas no artigo, sejam explicativas (indicadas por N.T.), ou como forma de tentar agilizar à leitura de um texto longo, incluindo a supressão de algumas partes, sem com isto afetar as opiniões expressas pelo autor. O tradutor apresenta a seguir alguns comentários adicionais, observando-se a correspondência no texto com a numeração sobrescrita. 

  1.  O termo ‘nacionalismo’ pode ter conotações diferentes, dependendo do período e do país. As idéias nacionalistas já estiveram associadas  com teorias racistas no século XX, como na Alemanha (nacional-socialismo), na Itália (fascismo) e no Japão. No artigo, Marwan Bishara se refere a este nacionalismo que, ao exaltar de forma exacerbada os valores da pátria, se afasta do internacionalismo, entendido como uma política de cooperação entre as nações, podendo com isso levar ao xenofobismo.  Após a II Guerra Mundial, o nacionalismo que se manifesta em países do Terceiro Mundo está principalmente relacionado com a luta contra todas as formas neocolonialistas de exploração, embora a exaltação da pátria estava presente no Brasil do ‘ame-o ou deixe-o’, na época da ditadura militar, e reaparece no governo Bolsonaro, por exemplo, quando se exige dos alunos nas escolas públicas e privadas que cantem o hino nacional, ou se afastando da integração regional ao diminuir a prioridade do Mercosul. 
  2. O presidente da Hungria, Viktor Orbán, apoiado entusiasticamente por Netanyahu, é um político da extrema-direita, que defende e representa posições próximas às dos nazistas. Órban se omitiu quanto ao crescimento do antissemitismo no país, e até deu sua contribuição, com as críticas feitas a judeus proeminentes, além das declarações  xenófobas e racistas de seu partido  a refugiados.  
  3. Na tradução foi utilizado o termo ‘namoro’, para definir o relacionamento de Netanyahu com Putin e Trump, em substituição a ‘bromance’, expressão da língua inglesa que une as palavras brother e romance, para expressar  um relacionamento íntimo, não-sexual, entre dois (ou mais) homens.  
  4. Bishara não enumera que objetivos poderiam ter sido alcançados na cimeira de Helsinki para ela haver terminado em ‘relativo fracasso’.  Benjamim Netanyahu saudou as relações de Israel com a Rússia e Estados Unidos, após Trump e Putin declararem no encontro que a segurança do Estado Judaico fora discutida pelos dois presidentes. Do ponto de vista de Israel, as reuniões aparentemente trouxeram bons resultados. Vale lembrar ainda, que foi na cimeira de Helsinki que Trump criticou a comunidade de inteligência norte-americana (CNN), por esta afirmar que a Rússia havia intervindo nas eleição de 2016 que o conduzira à presidência. À esta declaração de Trump apoiando abertamente a Putin, líder de uma nação adversária, seguiu-se intenso bombardeio de críticas da mídia e do Partido Democrata, de Hillary Clinton. Ao final do encontro, ambos os líderes consideraram que a reunião fora ‘bem sucedida’, talvez por ter contribuído para cimentar as relações pessoais entre os dois.
  5. Na questão do expansionismo sionista, o relacionamento pessoal do presidente norte-americano com o líder israelense não deve ter sido decisivo no reconhecimento por Trump, da anexação de Jerusalém por Israel. Tal posicionamento decorreu principalmente das pressões dos evangélicos fundamentalistas (GGN), e do interesse de Trump  nos ganhos eleitorais que poderia obter com o apoio do  lobby evangélico.