Revisitando e Questionando o Genocídio de Srebrenica

Por Ruben Rosenthal

O consenso oficial que o Genocídio de Srebrenica em 1995 ocorreu por falha da ONU abriu o caminho para a intervenção da OTAN em 1999 contra a Iuguslávia, sob o pretexto humanitário da guerra no Kosovo. O precedente possibilitou outras intervenções pela OTAN sem autorização do Conselho de Segurança. Mas ocorreu mesmo um genocídio em Srebrenica?

A Bosnian Muslim woman, survivor of Sreb

Memorial em Serebrenica   /  Foto E. Barukcic

AFP/Getty Images

 

Este é o primeiro artigo no blogue Chacoalhando da série “Revisitando a Fragmentação da Iuguslávia”. Os conflitos que dominaram esta região dos Balcãs trouxeram consequências que extrapolaram a própria Europa. A mídia ocultou ou distorceu diversos fatos da tragédia, dos quais as novas gerações precisam estar conscientes e atentas, pois após os bombardeios de 1999 pela OTAN, a história se repetiu várias vezes como farsa, como já alertara Karl Marx. 

No dia 11 deste mês de julho, o massacre ocorrido em Srebrenica, na Bósnia, completa 24 anos, quando teriam sido mortos  8.374 muçulmanos bósnios, executados por militares sérvios naturais da própria Bósnia1. A cidade tinha o status, concedido pela ONU, de “área segura”, e portando deveria ser considerada como um santuário, protegida de conflitos. O massacre ficou conhecido o Genocídio de Srebrenica, o primeiro a ocorrer em solo europeu após o Holocausto, de acordo com o “consenso oficial” que prevaleceu, desde então, no Ocidente.

Este consenso, juntamente com os massacres em Ruanda, serviu como pedra angular da ideologia intervencionista do Ocidente, em que as tropas da OTAN passaram a se antecipar ou mesmo a prescindir de decisões da ONU, para bombardear e invadir outras nações, de acordo com interesses geopolíticos. Esta licença para arrasar outros países começou em 1999, com os terríveis bombardeios da Sérvia pela OTAN. Nesta ocasião estavam no poder, na Europa Ocidental, vários partidos de centro-esquerda, o PS de Jospin, na França, o Partido Trabalhista, de Tony Blair,  no Reino Unido, e a Social-Democracia, com Schroeder, na Alemanha. E nos Estados Unidos, os Democratas, com o liberal Clinton. É sempre bom se ter em mente, que em política externa, muitas vezes a centro-esquerda e os liberais são mais “falcões” que os conservadores de direita.  

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Mapa da Ex-República Socialista Federativa da Iuguslávia 

Um pouco de história ajuda a entender a origem dos conflitos que dominaram aquela região dos Balcãs durante a década de 90. Em 1918 foi criado o Reino de Sérvios, Croatas e Eslovenos, que mudou de nome para Reino da Iuguslávia em 1929. Com o término da segunda guerra mundial, em sucessão ao Reino da Iuguslávia, foi estabelecida a República Socialista Federativa da Iuguslávia, consistindo de seis repúblicas, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Montenegro, Macedonia, Slovênia e Sérvia, da qual faziam parte duas províncias autônomas, Kosovo e Vojvodina, criadas pela Constituição de 1974.

Até a morte do Marechal Tito, a federação se manteve unida. O status de herói da Segunda Guerra Mundial, o respeito internacional à neutralidade do país em relação ao Ocidente e à União Soviética, sua liderança no Movimento dos Países Não Alinhados, concediam a Tito um prestígio incontestável, apesar de ter governado de forma autocrática. Um sistema de rodízio entre as nacionalidades, para o cargo de primeiro-ministro do país, ajudava a manter a unidade.  Com a morte de Tito em 1980, o delicado equilíbrio ruiu.

A evolução das rivalidades com o crescimento dos nacionalismos regionais, culminando com a deflagração dos conflitos que envolveram diversas nacionalidades, será abordado a seguir de forma resumida. Já década de 80 surgiram tensões étnicas no Kosovo. Com a queda do muro de Berlin em 1989, o desmantelamento do Pacto de Varsóvia em 1991, e da própria União Soviética em dezembro do mesmo ano, as políticas centralizadores de Slobodan Milosevic, que ocupava a presidência da Sérvia (1989-1997), começaram a ser contestadas por líderes de outras repúblicas da federação.

Em junho de 1991, Eslovênia e Croácia tornaram-se as primeiras repúblicas a declararem sua independência, logo seguindo-se a Macedônia. A nova situação tinha o potencial de causar conflitos, porque a identidade sérvia estava bastante dividida geograficamente por várias repúblicas da federação, como a Bósnia, Croácia, Macedônia, Montenegro, além é claro, da própria Sérvia. 

República Srpska 2

Mapa da República  SRPSKA

 

Em outubro de 1991, a Assembléia da Bosnia e Herzegovina, com a oposição dos deputados de origem sérvia, aprovou um Memorando de Soberania, para abrir caminho para a proclamação da independência, que veio a ser efetivada em março de 1992. Em fevereiro de 1992 as seis regiões autônomas sérvias da Bósnia proclamaram a secessão, formando a República Srpska, que deveria também incluir as regiões em que os sérvios se tornaram minoria devido à perseguições durante a Segunda Guerra Mundial.

Estavam colocadas as condições para os conflitos bélicos, que se generalizaram no início da década de 90. Neste contexto se inseriu a luta por Srebrenica, que se tornara um enclave muçulmano em maio de 1992, com a fuga dos sérvios locais, seguindo-se a morte de um proeminente juiz sérvio1. No processo de assumirem o controle de Srebrenica, tropas sérvias naturais da República Srpska executaram, em 11 de julho de 1995, um grande número de prisioneiros muçulmanos bósnios, o que ficou registrado para a história como o Massacre ou Genocídio de Srebrenica.

No entanto, esta narrativa oficial da ocorrência de um genocídio encontra contestadores. Diana Johnstone1, 85, aceita e se orgulha de ser considerada uma “negacionista do genocídio” em Srebrenica, pecha que lhe é atribuída (e a outros) com intuito pejorativo, por defensores do consenso oficial2. Pensam como ela diversos intelectuais, acadêmicos, jornalistas e advogados de defesa internacionais3. A seguir são apresentados trechos de uma entrevista anteriormente concedida por Johnstone à Ann Garrison, jornalista independente, e publicada na revista CounterPunch.

A autora aceita que ocorreu de fato um massacre de prisioneiros, consistindo, portanto, em crime de guerra, cuja dimensão ela questiona, mas insiste que não se trata de genocídio. Ela revela ceticismo sobre as repetidas citações de que ocorreram mais de 8.000 mortos no massacre, assim como outros negacionistas4, e salienta que a questão relevante não é o número exato de corpos, mas como isto foi e ainda é explorado. Johnstone considera que, quando mulheres e crianças são poupadas, e as vítimas são todas do sexo masculino, com idade de servir ao exército, a definição de genocídio não se aplica.

Massacres de homens e jovens em idade militar acontecem nas guerras, acrescenta ela. E aconteceu dos dois lados. Havia uma guerra, e não foram apenas sérvios matando muçulmanos. Muçulmanos também mataram sérvios durante a guerra civil5. Salienta ainda que os sérvios eram, inclusive, aliados do popular líder muçulmano secular do oeste da Bósnia, Fikret Abdic (sugerindo, com isto, que não havia uma questão de supremacia étnica ou religiosa como motivação para o massacre).

A autora considera que o Tribunal Internacional de Crimes para a Ex-Iuguslávia foi estabelecido pelas potências ocidentais para culpar os sérvios por genocídio, e isto foi conseguido através de uma explicação sociológica esdrúxula. Como os muçulmanos bósnios possuem uma sociedade patriarcal, eliminar os homens equivaleria a uma espécie de genocídio para toda aquela cidade (ou comunidade).

Johnstone avalia, na entrevista, que os sérvios foram alvos da administração Clinton, por que esta tinha uma política de aliança com os muçulmanos ao redor do mundo, como parte de uma estratégia contra a Rússia, que retrocede ao apoio dado pela administração Carter aos Mujahadeen, no Afeganistão. A base da estratégia era (e talvez ainda seja nos tempos atuais) explorar a vulnerabilidade do “Império Russo”, por este ser constituído, em parte, por províncias de população muçulmana majoritária. Este era um trunfo a ser usado contra o núcleo russo, cristão ortodoxo (com o objetivo de desmembrar o país, como ocorrera com a extinta União Soviética). Como a Sérvia, também cristã ortodoxa, era vista como potencial aliada regional da Rússia, ela passou a ser alvo dos EUA.

A autora considera que não fazia parte da estratégia de Washington combater o radicalismo muçulmano pelo mundo, e sim, os muçulmanos seculares, não radicais. Na Bósnia, a aliança foi com Alija Izetbegovic, o mais radical dentre os islamitas de lá, e que defendia que nações com maiorias muçulmanas fossem governadas pela lei islâmica6. Os EUA também agiram assim contra Gaddafi, que era inimigo dos muçulmanos extremistas, e com Saddam Hussein, que governava uma sociedade secular, e era odiado pelos extremistas islâmicos. Desta forma, com a intervenção norte-americana, estes governantes foram derrubados, possibilitando o avanço dos extremistas sobre a Líbia e Iraque. O mesmo quase aconteceu (recentemente) com a Síria, de Assad.

Ainda segundo Johnstone, a aceitação como consenso oficial, de que ocorreu um genocídio em Srebrenica trouxe sérias conseqüências, juntamente com os massacres em Ruanda, que não se limitaram ao pretexto para justificar futuras intervenções militares pela OTAN. A ampla aceitação de que ocorrera um genocídio de milhares de muçulmanos deu margem a uma inesperada interpretação pelos radicais islâmicos: se o Ocidente foi complacente, em algum momento, com o genocídio de muçulmanos, então ele também é culpado das mortes ocorridas, e por isto deve ser combatido.

Esta justificativa tem sido atualmente usada para recrutar jovens no Oriente Médio para a luta dos extremistas islâmicos contra o Ocidente, abastecendo com militantes os grupos radicais, como o ISIS7. Assim, a estratégia do Ocidente de que teria os muçulmanos como aliados, por ter apoiado lideranças extremistas, teve o efeito inverso, acrescenta Johnstone, porque ficaram enfraquecidos os líderes seculares, e isto com a ajuda do grande aliado saudita, que é um estado muçulmano extremista.

Diana Johnstone comenta que uma história que circulou muito, fora da mídia oficial, foi que o massacre de Srebrenica fez parte de uma tática de Izetbegovic, para fazer os sérvios cometerem uma matança, que, por sua gravidade, fosse considerada inaceitável pelo Ocidente. O líder bósnio teria escutado diretamente de Bill Clinton que, caso ocorresse em um massacre, a morte de pelo menos 5.000 muçulmanos, os EUA e a Nato iriam intervir diretamente a favor dos muçulmanos.

Johnstone não acusa Clinton de deliberadamente ter induzido Izetbegovic a preparar uma armadilha para os sérvios. Ela acredita que o líder bósnio, cuja estratégia incluía retratar os bósnios como vítimas indefesas, provavelmente tenha dado sua interpretação pessoal à fala de Clinton. Ele então ordenou a retirada do comandante de Srebrenica, o que levou os soldados bósnios, mesmo em maioria, a bater em retirada frente aos atacantes sérvios. Em um contexto da ocorrência anterior de 1.000 a 3.000 mortes de sérvios nas vilas da região, incluindo mulheres e crianças, o cenário estava então colocado para uma vingança por parte dos sérvios. Com isto foi aberta a porta para a entrada em cena das tropas da OTAN, neste e em outros conflitos, mesmo fora da Europa.

Comentários indexados ao texto:

1. Diana Johnstone, no livro de sua autoria “Fool’s Crusade: Yuguslavia, NATO, and Western Delusions”. A escritora norte-americana radicada em Paris, é autora ainda dos livros  “The Politics of Euromissiles: Europe’s Role in America’s World” e  “Queen of Chaos: The Misadventures of Hillary Clinton”.

2. Em artigo de julho de 2019 no Haaretz de Israel, o escritor, cineasta e jornalista de conflitos, Oz Katerji critica intelectuais de esquerda, acadêmicos, jornalistas e blogueiros, que, “com suas teorias conspiratórias anti-imperialistas, transitam na negação de genocídios, de Srebrenica a Síria”. Ele se refere nominalmente, dentre outros, ao jornalista Glenn Greenwald, do Intercept, e aos autores Edward Herman e David Peterson, pelo livro The Politics of Genocide, a Noam Chomski, pelo prefácio no livro, e ao documentarista australiano John Pilger, por ter endossado o livro. 

Katerji considera ainda, que com a condenação de Ratko Mladic, ex-comandante militar da República Srpska, à prisão perpétua por crimes de guerra, em novembro de 2017, com “provas conclusivas, os ‘negacionistas’ deveriam se redimir, mas estão agora empenhados em negar os crimes de guerra de Assad”.

3. Para análises mais abrangentes sobre o tema da guerra civil na antiga Iuguslávia, recomenda-se além do livro já citado de Diana Johnstone, também publicações de autoria Edward Herman. O livro The Politics of Genocide, por Edward Herman e David Peterson, mostra como o termo genocídio vem sendo aplicado com intenções políticas, de forma tendenciosa, em diversas situações internacionais. O livro está disponível, gratuitamente, através do linque indicado.

Um jornalista que não surfa na onda da mídia ocidental é o documentarista australiano John Pilger. Ele denunciou  a falta de cobertura pela mídia ocidental, de que o falecido presidente da Iuguslávia (de 1997 a 2000), Slobodan Milosevic, foi inocentado em 2016 pelo Tribunal Penal Internacional para a Ex-Iuguslávia, em Haia, de todas as acusações levantadas contra ele de envolvimento em crimes de guerra durante a guerra Bósnia (1992-1995), inclusive do massacre de Srebrenica. Ainda segundo Pilger, o veredicto do Tribunal demole a propaganda que justificou o violento e ilegal ataque pela OTAN na Sérvia, em 1999, durante a guerra do Kosovo.

4. Em entrevista publicada no Global Research, Edward Herman avalia que o número de mortos por execução no massacre de julho de 1995 seja inferior a 1.000, e que muitos dos 2.500 corpos encontrados em túmulos seriam relativos a soldados mortos em combate. Outros milhares que estavam desaparecidos, e constavam como mortos no massacre, já teriam sido localizados. Por outro lado, Herman ressalta uma estimativa que mais de 150 vilas de sérvios foram completamente riscadas do mapa, no período entre 1992 e julho de 1995, com registro de 2.383 civis mortos.

5. O General Philippe Morillon, comandante militar da ONU na Bósnia em 1992 e 1993, testemunhou perante o Tribunal Penal sua convicção de que o ataque a Srebrenica foi uma reação direta aos massacres de sérvios cometidos pelo comandante do exército da República da Bósnia e Herzegovina, em Srebrenica, Nasir Oric e de suas tropas. No entanto, o Tribunal não aceitou o depoimento de Morillon, e considerou  que não havia evidências de elevadas mortes de civis nos ataques a vilas sérvias no teatro de operações.

6. Artigo no jornal português Público revela que Osama Bin Laden tinha um passaporte da Bósnia e Herzegovina, incluindo a cidadania, concedida por ordens de Izetbegovic. O jornal relata ainda que Bin Laden e seus combatentes cometeram crimes terríveis, como decapitações de prisioneiros sérvios, usando as cabeças como bolas de futebol.

7. Segundo um membro fundador da Al-Qaeda, que tornou-se espião para os serviços de inteligência britânicos, “a Bósnia deu ao movimento jihadista moderno a narrativa de que há uma guerra entre o Ocidente e o Islã”. 

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Batalhão Mujahadeen na Bósnia

 

Comentários adicionais:

1. O autor do artigo do Haaretz, Oz Katerji, cometeu uma omissão por não mencionar a absolvição tardia de Slobodan Milosevic de todos os crimes que haviam sido imputados a ele. Ainda na tentativa de fortalecer suas críticas aos “negacionistas de genocídios”, Katerji citou o caso das acusações de crimes de guerra (pelo uso de armas químicas) por Assad, na Síria. No entanto, o autor comete outra omissão, ao desconsiderar completamente o relatório da OPAQ vazado recentementeque revelou a farsa da manipulação de evidências com o intuito de incriminar Assad, em pelo menos um dos supostos casos de emprego de armas químicas na Síria.

2. Em seu livro Fool’s Crusade: Yuguslavia, NATO, and Western Delusions, Diana Johnstone considera que era uma fraude o conceito de “área segura”, que vigorava então para diversas regiões no palco de operações do conflito. As regiões deveriam estar livre de armamentos, mas não estavam, e isto “com a conivência da ONU”. Acrescenta ainda a autora, que estes santuários foram utilizados por tropas muçulmanas para lançar ataques contra vilas sérvias na bósnia nos três anos que antecederam o massacre de Srebrenica, causando bem mais que 1.000 mortes de civis.

3. As condenações à prisão perpétua pelo Tribunal Penal, do ex-comandante Mladic e do líder sérvio na Bósnia, Radovan Karadzic, foram fortemente baseadas nas “evidências” de ter ocorrido o Genocídio de Srebrenica, com mais de 8.000 execuções, como ressalta Johnstone em seu livro sobre o conflito.

O fato do número de execuções ter sido bem inferior ao que foi aceito pelo consenso, se aceita a versão dos “negacionistas”, e das mortes de prisioneiros terem se dado no contexto do clima tenso que se seguiu à matança de mais de mil civis sérvios nas vilas próximas, não isenta a ambos de responsabilidade pelas execuções. No entanto, estas considerações não foram levadas em conta pelo Tribunal, como possíveis atenuantes nas penalidades impostas, em face de ter prevalecido o “consenso oficial”. Entretanto, para boa parte dos sérvios, Mladic é considerado um herói.

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Homenagem ao ex-comandante Mladic 

 

4. Segundo Edward Hermanainda dentro do primeiro mês das mortes em Srebrenica, com as notícias do massacre/genocídio dominando na mídia ocidental, as autoridades da Croácia promoveram uma devastadora “limpeza étnica” de sérvios e muçulmanos no oeste da Bósnia, e a remoção de centenas de milhares de sérvios da região de Krajina, na Croácia, com aprovação e logística dos EUA. Estas operações, em que o número de mortos deve ter chegado a milhares, incluindo mulheres e crianças, não foram praticamente noticiadas na mídia.

5. A série “Revisitando os Conflitos e a Fragmentação da Iuguslávia” terá continuidade no blogue Chacoalhando ao longo do mês de julho. 

 

Netanyahu, Trump e Putin: uma História de Amor

Tradução informal e comentada, do artigo publicado em 8 de abril no Al Jazeera, de autoria do analista sênior, Marwan Bishara. Ruben Rosenthal

Com os resultados finais da eleição para o parlamento de Israel indicando que o partido do atual primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu conseguiu 36 dos 120 assentos, tudo indica que ele será o líder do governo de coalizão da direita. Será seu quinto mandato, caso os problemas de corrupção não o impeçam de assumir. Com ele no poder, pode-se prever que em breve virá a anexação de parte da Cisjordânia. Odiado por muitos, por sua responsabilidade no sofrimento e nas mortes de milhares de palestinos desde que assumiu o governo em 2009, Bibi é reconhecidamente um magistral enxadrista em geopolítica. Marwan Bishara nos explica como atua o polêmico político.

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Podem chamar Netanyahu de trapaceiro e belicista, mas que outro líder pode se gabar de ter conseguido se reunir com Trump e com Putin no prazo tão curto de duas semanas antecedendo eleições gerais. A motivação imediata desta diplomacia foi certamente o ganho eleitoral, mas as implicações estratégicas de sua vitória podem resultar na reconfiguração do Oriente Médio. Breve deverá vir a anexação de partes da Cisjordânia, prometida na campanha eleitoral. E novamente Trump deverá dar seu apoio, e Putin, emprestar seu silêncio. Como isto foi possível?

Netanyahu aproveitou sua ida, em setembro de 2016, à reunião de cúpula anual das Nações Unidas em Nova Iorque, para um primeiro encontro, na Trump Tower, com o então candidato presidencial republicano. Segundo Steve Bannon, então conselheiro de Trump, o novato na política recebeu uma aula do mestre de xadrez da geopolítica mundial, particularmente sobre a importância das relações entre os Estados Unidos e Israel, face às realidades do Oriente Médio.

Netanyahu contribuiu para que Trump pudesse colocar de forma racional seus instintos sobre segurança, imigração, terrorismo, Islã, e mesmo as vantagens de um muro na fronteira (idéia que Trump deve ter aproveitado como sua ‘solução’ para a imigração através da fronteira com o México, N.T.). Mas a grande jogada de Netanyahu foi fazer o foco da conversa convergir para uma fórmula simples: ‘o Irã, e não a Rússia, é o principal inimigo’ de ambos, e que o presidente russo tem uma posição privilegiada na ajuda contra os aiatolás e o Islã radical.  Isto soou como música aos ouvidos de Trump, pois ele já vinha cortejando Putin, para horror de seus detratores em casa e na Europa. Graças a Netanyahu, Trump pôde se municiar de uma doutrina estratégica que envolvia forjar novas alianças e parcerias com lideranças fortes.

A nível pessoal, foi uma aliança tranquila de se estabelecer. Benjamin, Donald e Vladimir realmente pareciam se gostar. Com passados e estilos distintos, eles, no entanto, tem um mesmo perfil. Homens brancos, já de certa idade, adotando estereótipos do macho, nacionalistas1 com um traço de malignidade, os três são personalidades que polarizam. São vistos como enganadores, com um ‘jeitinho’ para agir com impunidade. Não gostam da liberdade de imprensa e de um judiciário independente e ativo.

O principal inimigo em comum do trio é nenhum outro que o ex-presidente americano Barack Obama, e tudo o que ele representava, seja o multiculturalismo, os ideais liberais e uma política externa liberal. Assim que assumiu a presidência, Trump começou a destruir o que Obama construiu no país e no exterior, sem se importar em violar leis e acordos internacionais, saudado por seus dois camaradas e por um número crescente de fãs pelo mundo. Ele deixou o Acordo de Paris e o acordo nuclear com o Irã, além de dar seu apoio incondicional aos mais repressivos regimes no Oriente Médio, dentre outros.  

O trio atraiu e inspirou uma nova cepa de líderes agressivos hiper-nacionalistas1 que veneram o poder, como Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, Abdel Fattah el-Sisi, do Egito, Viktor Orbán2 , da Hungria e Jair Bolsonaro, do Brasil.  Trump e Putin podem ser os líderes do grupo, mas foi Netanyahu,  o entusiástico apoiador desta nova leva de governantes (Haaretz), mostrando sua afinidade com os mesmos, contrariamente ao que se esperaria do líder de uma nação fundada por vítimas de perseguição étnica. 

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Netanyahu e o húngaro Viktor Órban

Os três líderes procuraram substituir o pensamento progressista e o liberalismo pela plutocracia. Mas se o namoro3 dos três foi bem sucedido em gerar uma tendência mundial pelo populismo, por outro lado, não conseguiu produzir relações mais próximas e amigáveis entre os governos russo e norte-americano. Nem Trump nem Netanyahu conseguiram convencer o establishment da política externa americana a abraçar Putin, nem mesmo como forma de conter o Irã. Este país é visto como um ator de nível regional a ser combatido, mas Democratas e Republicanos consideram a Rússia como um perigoso inimigo global.  Isto porque a Rússia de Putin conseguiu retornar ao cenário da geopolítica internacional como um importante participante independente, em geral adversário dos Estados Unidos. Isto se tornou evidente com a intervenção na Ucrânia e na Síria, bem como no envio de tropas para a Venezuela, um desafio direto a Washington no Hemisfério Ocidental.

Esta é a tragédia da política do poder. Embora Trump e Putin pensem de forma semelhante, eles continuarão a competir em um mundo anárquico, mesmo com o risco de guerra. Seus países estão de lados opostos em quase tudo, incluindo guerra cibernética, proliferação nuclear, segurança regional na Europa e Oriente Médio, e, naturalmente, na questão da interferência russa nas eleições americanas. Mas eles concordam sobre Israel, ou pelo menos Putin e Trump concordam, e ambos simpatizam com Netanyahu.

Trump and Putin tiveram uma reunião de cúpula (em Helsinki, julho de 2018, N.T.), que terminou em relativo fracasso4 , além de quatro encontros curtos. Netanyahu teve cinco bem sucedidas reuniões com Trump em dois anos, e treze bem sucedidas reuniões com Putin em quatro anos. O primeiro-ministro persistiu em cultivar relações próximas com Putin, porque a Rússia é a única potência que tem diálogo aberto com cada um dos atores principais no Oriente médio, incluindo o Hamas e o Hezbollah, e mesmo com rivais regionais, como Irã e Arábia Saudita, além de Turquia e Egito.

Netanyahu soube explorar o interesse da Rússia de que Washington voltasse a reconhecer seu status de superpotência e suas áreas de influência, fazendo uso de sua relação especial com Trump, para com isto conseguir concessões de Putin, começando pela Síria. Parecendo rapidamente esquecer do papel de Israel no episódio da derrubada de um avião militar russo com morte de 15 oficiais, Putin concordou em estabelecer um grupo de trabalho com Israel visando a remoção de todas as forças estrangeiras da Síria. O presidente russo também aceitou as constantes violações do espaço aéreo da Síria por Israel e o bombardeamento de alvos iranianos lá.  O Kremlin ainda propôs a Netanyahu que ele mediasse um acordo entre Estados Unidos, Síria e Irã, para a retirada completa de tropas, mas como tal acordo levaria ao fim das sanções contra o Irã, Netanyahu se recusou.

Em algumas ocasiões, a atuação diplomática de Netanyahu se aproximou de um jogo de pôquer, mas que conseguiu obter de Trump o reconhecimento da anexação das Colinas de Golã por Israel, em desrespeito à legislação internacional e à política tradicional do país. Aparentemente, Putin não fez nada e deixou esta questão passar em branco quando se reuniu com Netanyahu.

Se para obter a adesão de Putin um flerte prévio foi necessário, Netanyahu não poderia ter sonhado em melhor parceiro na Casa Branca que Trump. Este abraçou completamente as posições de Israel no Irã, e a ocupação de Jerusalém5 e das Colinas de Golã. Em breve deverá vir a anexação de parte da Cisjordânia, conforme promessa de Netanyahu caso ganhasse as eleições. E novamente Trump deverá dar seu apoio e Putin emprestar seu silêncio. Desta forma o primeiro-ministro de Israel vem conseguindo redefinir as fronteiras e as alianças no Oriente Médio.

Notas do Tradutor

Pequenas modificações foram introduzidas no artigo, sejam explicativas (indicadas por N.T.), ou como forma de tentar agilizar à leitura de um texto longo, incluindo a supressão de algumas partes, sem com isto afetar as opiniões expressas pelo autor. O tradutor apresenta a seguir alguns comentários adicionais, observando-se a correspondência no texto com a numeração sobrescrita. 

  1.  O termo ‘nacionalismo’ pode ter conotações diferentes, dependendo do período e do país. As idéias nacionalistas já estiveram associadas  com teorias racistas no século XX, como na Alemanha (nacional-socialismo), na Itália (fascismo) e no Japão. No artigo, Marwan Bishara se refere a este nacionalismo que, ao exaltar de forma exacerbada os valores da pátria, se afasta do internacionalismo, entendido como uma política de cooperação entre as nações, podendo com isso levar ao xenofobismo.  Após a II Guerra Mundial, o nacionalismo que se manifesta em países do Terceiro Mundo está principalmente relacionado com a luta contra todas as formas neocolonialistas de exploração, embora a exaltação da pátria estava presente no Brasil do ‘ame-o ou deixe-o’, na época da ditadura militar, e reaparece no governo Bolsonaro, por exemplo, quando se exige dos alunos nas escolas públicas e privadas que cantem o hino nacional, ou se afastando da integração regional ao diminuir a prioridade do Mercosul. 
  2. O presidente da Hungria, Viktor Orbán, apoiado entusiasticamente por Netanyahu, é um político da extrema-direita, que defende e representa posições próximas às dos nazistas. Órban se omitiu quanto ao crescimento do antissemitismo no país, e até deu sua contribuição, com as críticas feitas a judeus proeminentes, além das declarações  xenófobas e racistas de seu partido  a refugiados.  
  3. Na tradução foi utilizado o termo ‘namoro’, para definir o relacionamento de Netanyahu com Putin e Trump, em substituição a ‘bromance’, expressão da língua inglesa que une as palavras brother e romance, para expressar  um relacionamento íntimo, não-sexual, entre dois (ou mais) homens.  
  4. Bishara não enumera que objetivos poderiam ter sido alcançados na cimeira de Helsinki para ela haver terminado em ‘relativo fracasso’.  Benjamim Netanyahu saudou as relações de Israel com a Rússia e Estados Unidos, após Trump e Putin declararem no encontro que a segurança do Estado Judaico fora discutida pelos dois presidentes. Do ponto de vista de Israel, as reuniões aparentemente trouxeram bons resultados. Vale lembrar ainda, que foi na cimeira de Helsinki que Trump criticou a comunidade de inteligência norte-americana (CNN), por esta afirmar que a Rússia havia intervindo nas eleição de 2016 que o conduzira à presidência. À esta declaração de Trump apoiando abertamente a Putin, líder de uma nação adversária, seguiu-se intenso bombardeio de críticas da mídia e do Partido Democrata, de Hillary Clinton. Ao final do encontro, ambos os líderes consideraram que a reunião fora ‘bem sucedida’, talvez por ter contribuído para cimentar as relações pessoais entre os dois.
  5. Na questão do expansionismo sionista, o relacionamento pessoal do presidente norte-americano com o líder israelense não deve ter sido decisivo no reconhecimento por Trump, da anexação de Jerusalém por Israel. Tal posicionamento decorreu principalmente das pressões dos evangélicos fundamentalistas (GGN), e do interesse de Trump  nos ganhos eleitorais que poderia obter com o apoio do  lobby evangélico.