Trump: contagem regressiva para o golpe, prisão ou fuga do país?

Os grandes interesses econômicos não hesitariam em apoiar uma intervenção no Colégio Eleitoral. A outra opção para Trump é deixar o país, para não ser preso por ilicitudes fiscais.

A forma correta de investigar Trump quando ele deixar a presidência, será uma decisão que espera Joe Biden.
Trump poderá ser indiciado quando deixar a presidência \ Ilustração: POLITICO / Getty/iStock

Por Ruben Rosenthal

Durante o processo eleitoral, Donald Trump  fez constantes acusações de fraude por parte do Partido Democrata. Confirmada sua derrota nas urnas, o presidente continua inabalável.  Trump será despejado à força da Casa Branca, como ironiza parte da imprensa? Uma vez fora do poder ele deverá provavelmente ser indiciado por diversos crimes, podendo ser preso. Dentre as alternativas estão fugir do país ou atentar  contra a democracia, em uma última cartada. 

Os Estados Unidos se encontram em uma situação sem precedentes em sua história, em decorrência das ações de Donald Trump na presidência: perda de prestígio internacional, notadamente pela política de negação climática; distúrbios nas cidades, em protesto contra um sistema policial e judicial entranhado de racismo e um presidente simpatizante de supremacistas brancos e incentivador milícias armadas; com o país assolado pela pandemia de um vírus que já causou cerca de 250 mil mortes e abalou a economia, seu líder máximo se mostra um completo negacionista da ciência. Para completar o cenário de caos, Trump se recusa a reconhecer sua derrota nas eleições.

Durante a campanha o presidente já questionava as regras do processo eleitoral, ao declarar que o voto postal conduziria à fraude em favor do candidato Joe Biden. Trump estava consciente de que sua rejeição aumentara muito com o alastramento da pandemia de Covid-19 pelo país. Sua liderança na condução do combate à pandemia fora simplesmente inepta, e mesmo criminosa.

Do outro lado, Biden sofreu alguns arranhões durante a campanha, com as acusações de ter se beneficiado da corrupção praticada por seu filho Hunter. Estas acusações foram ignoradas pela maioria da mídia corporativa, favorável ao candidato democrata. Mesmo na mídia independente, poucos jornalistas optaram por colocar em primeiro lugar a objetividade profissional, para não prejudicar a vitória de Biden que se configurava. 

A negação da derrota. A demora na apuração dos votos permitiu que Trump intensificasse as acusações de que diversas irregularidades estavam ocorrendo na contagem, como a inclusão de votos que teriam chegado após o dia da eleição, e que ele considerou como “ilegais”. Argumentavam também os Republicanos que seus fiscais não conseguiram acompanhar a apuração na Pensilvânia, estado controlado pelo Partido Democrata.

Assim, quando Biden ultrapassou a marca dos 270 votos no Colégio Eleitoral com a vitória na Pensilvânia, Trump se recusou a aceitar a derrota. Para ele, sua vitória era incontestável, e as Cortes iriam confirmar que diversas fraudes foram cometidas na eleição. Uma pesquisa mostrou que 70% dos apoiadores do Partido Republicano consideram que as eleições não foram honestas, sendo que o principal motivo alegado (78%) foi o sistema de votos pelos Correios. Os resultados na Pensilvânia são contestados por 62% dos republicanos, ainda segundo a pesquisa. No entanto, mesmo com eventuais correções da contagem obtidas em alguns estados, estas não serão suficientes para alterar os resultados finais da eleição presidencial, de 306 votos eleitorais para Biden contra 232 para Trump. 

 

Pesquisa indicou que  70% dos Republicanos não acreditam que as eleições tenha sido livres e justas
Apoiadores de Trump protestam por mais transparência nas eleições, Fênix, Arizona \ Foto: Matt York/AP

As motivações de Trump. Para muitos analistas políticos, as ações de Trump resultariam da intenção de tentar preservar sua influência no partido Republicano, bem como enfraquecer o futuro governo Biden.  Mesmo derrotado também na contagem total de votos, Trump conseguiu ultrapassar a impressionante marca de 70 milhões de votos, a segunda maior votação na história das eleições do país. Um trunfo nada desprezível, que poderá ainda render dividendos políticos ao atual presidente. Passar para seus correligionários a mensagem de que ele só foi derrotado porque as eleições foram fraudadas pelo partido do outro candidato, ajudaria Trump a manter seu poder político no Partido Republicano, o Great Old Party (GOP).

Até o momento os juízes das Cortes locais estão considerando como improcedentes a quase totalidade das reclamações levantadas pelos Republicanos. Desta forma, até mesmo a Suprema Corte, onde os conservadores têm maioria, não conseguiria justificar uma reverter a vitória de Biden. Entretanto, Trump prossegue tumultuando o processo eleitoral, abalando a respeitabilidade internacional da democracia norte-americana.

Para Trump, permanecer na presidência pode ser muito mais do que uma simples questão de apego ao poder.  Para Jane Mayer1, do The New Yorker, quando Trump deixar a presidência ele perderá sua imunidade. Atualmente ele enfrenta  mais de 12 investigações criminais e processos civis, que poderão levá-lo à prisão. A maioria destas acusações diz respeito a vários tipos de ilícitos cometidos antes de seu mandato, como fraude bancária, fraude de seguros, evasão de impostos, dentre outros. 

Ainda segundo Mayer, Trump poderia fazer como Richard Nixon que obteve o perdão presidencial de Gerald Ford em 1974. Bastaria ele se afastar provisoriamente, para o vice Mike Pence assumir e perdoá-lo, já que o auto-perdão seria bastante controverso. Entretanto, acusações estaduais não são abrangidas pelo perdão presidencial, como no caso pendente na cidade de Nova York, que se tratava originalmente de um caso federal contra o advogado de Trump, Michael Cohen e  o co-conspirador Indivíduo-1, que seria o próprio Trump. 

A fuga do do país seria uma alternativa. Para o professor Timothy Snyder, de Yale, é bem provável que Trump viaje na surdina para algum país sem tratado de extradição com os Estados Unidos. A menos que você seja um idiota, já terá um plano de voo pronto, acrescentou o professor.

Luxuoso Boeing 757 de Trump: o plano de voo já está pronto? \ Foto: AP

 

Trump também está extremamente endividado. Nos próximos anos ele deverá pagar mais de 300 milhões de dólares, principalmente para o Deutsche BankNa presidência, ele teria melhores condições de renegociar suas dívidas. Fora dela, a situação se torna mais difícil, porque suas propriedades estão desvalorizadas em face da pandemia. Mas ele sempre pode pedir a ajuda de algum oligarca com que tenha feito negócios, acrescenta Mayer.

Perante o mundo, o presidente norte-americano passa a imagem de ditador de uma república de bananas, ao continuar a contestar o resultado das urnas para se manter no poder. Mas poderiam ser as ações de Trump apenas uma cortina de fumaça para encobrir sua verdadeira estratégia para continuar na presidência? 

Em entrevista a Amy Goodman, do Democracy Now, a escritora e jornalista Dhalia Lithwick, colaboradora da Newsweek e editora da Slate, considerou que o objetivo real de Trump seria tumultuar ao máximo o processo eleitoral, para então “sugerir a governadores que eles poderiam encaminhar para o Colégio Eleitoral algumas pessoas que não foram escolhidas na eleição popular”. Se concretizado, isto equivaleria a um golpe nas instituições do país.

Cumplicidade dos Republicanos? Nos últimos dias, vozes importantes no GOP vêm dando apoio político às alegações de Trump de ocorrência de fraudes. Em minoria na Câmara, apesar de terem conseguido diminuir a diferença anterior para os Democratas, o GOP corre ainda o risco de perder o controle do Senado. Seria esta a motivação do partido para incorporar uma narrativa que não está sendo confirmada nas Cortes? 

No dia 5 de janeiro ocorrerá a eleição para as duas vagas do Senado ainda não preenchidas na Geórgia, o que poderá transferir o controle para os Democratas. Se Democratas e Independentes conseguirem somar o mesmo número de assentos (50) que Republicanos, o voto de desempate caberá ao vice-presidente do país. Com Biden na presidência,  seria de Kamala Harris o voto decisivo.

Desta forma, o Partido Democrata assumiria o controle das decisões políticas a nível federal, e poderia encontrar formas de reverter o domínio conservador na Suprema Corte. Este domínio foi alcançado exatamente durante a administração Trump, quando foram indicados três juízes conservadores para vagas abertas na Corte. A controvertida indicação da Juíza Amy Coney Barrett foi aprovada pelo Senado controlado pelos Republicanos quando as eleições de 2020 já haviam se iniciado.

Conforme já detalhado em artigo anterior do blog, ao longo de duas décadas bilionários e grandes corporações utilizaram doações anônimas para promover a indicação e aprovação de juízes comprometidos com seus interesses. Se os Democratas, além de conquistarem a Presidência conseguirem também alcançar o controle do Senado, haverá um movimento crescente no campo progressista a favor de ampliar o número de juízes da Suprema Corte, de forma a possibilitar o reestabelecimento do equilíbrio entre liberais e conservadores. Alguns políticos democratas, como o Senador Sheldon Whitehouse, consideram no entanto que o mais indicado seria tomar medidas para aumentar a transparência do Judiciário, de forma a prevenir que doadores anônimos continuem a interferir nas decisões da Corte. 

Diante de um cenário em que estejam ameaçados de perder a influência sobre a Suprema Corte, os grandes interesses econômicos não hesitariam em apoiar uma intervenção no Colégio Eleitoral. A outra opção para Trump é deixar o país, para não ser preso por ilicitudes fiscais.

As regras do Colégio Eleitoral. No período maio-agosto de 2020 foram indicadas por comitês ou convenções em cada Partido, as chapas com candidatos ao posto de eleitores do Colégio Eleitoral, em número igual ao de votos eleitorais do estado. A escolha ocorreu no mesmo dia da eleição presidencial, 3 de Novembro. Cabe aos governadores emitirem Certificados de Averiguação, listando os eleitores escolhidos.

Não ocorrendo alteração no calendário, em 14 de dezembro as diversas delegações estaduais do Colégio Eleitoral irão votar para a presidência e vice-presidência do país, respeitando a decisão do voto popular de 3 de Novembro. Serão então emitidos os Certificados de Votos Eleitorais para serem computados na Sessão Conjunta do Congresso de 6 de janeiro. No entanto, a Constituição federal não exige fidelidade do eleitor ao voto popular. Já ocorreram anteriormente diversos casos de “eleitores infiéis” agirem em não conformidade com as indicações do voto popular.

Trinta e três estados e o Distrito de Colúmbia possuem leis ou regras partidárias que exigem esta fidelidade, mas apenas cerca da metade destas jurisdições dispõe de mecanismos de imposição. Alguns estados, além de anularem o voto dissidente, podem impor penalidades como multas e mesmo prisão. Em julho de 2020 a Suprema Corte decidiu que são constitucionais as leis estaduais que penalizam ou substituem eleitores infiéis.

Uma conspiração em andamento?  Lithwick e alguns analistas temem que Trump esteja investindo no acirramento de tensões com o intuito de gerar um ambiente confuso, propício para a tentativa de interferir na decisão de algumas delegações do Colégio Eleitoral. Assim, não seria surpresa se forem retomadas em breve as acusações de corrupção contra Joe Biden, agitando ainda mais o país, já abalado pela crescente disseminação da Covid-19.

A data crítica será em 14 de dezembro, quando os eleitores do Colégio Eleitoral se reunirão em seus respectivos estados e no Distrito de Colúmbia (onde fica Washington). Se a conspiração for adiante, o resultado da votação presidencial poderá não corresponder à decisão do voto da nação em 3 de novembro, seja pela ação de governadores do GOP substituindo eleitores das delegações, ou pela ação de “eleitores infiéis” agindo por conta própria.

Se esta primeira fase da conspiração for bem sucedida, a consumação do golpe se daria em 6 de janeiro, quando em sessão conjunta do Congresso presidida pelo vice-presidente por Mike Pence, serão contados os votos recebidos dos estados. Durante a leitura da votação de cada estado poderão ser levantadas objeções pelos membros do Congresso. Mas para haver contestação de qualquer resultado é necessária a concordância de ambas as Casas. Como a eleição na Geórgia está prevista para ocorrer apenas em 5 de janeiro, os Republicanos ainda terão a maioria no Senado. 

Se prevalecer esta ou alguma outra manobra golpista, pode se antever a ocorrência de protestos generalizados pelo país. Talvez já antecipando esta possibilidade, Trump afastou há poucos dias o secretário de defesa Mark Esper, uma decisão inesperada para um governo em final de mandato. Esper se opusera ao uso de tropas militares no combate aos distúrbios internos que agitaram o país no verão. Para seu lugar foi nomeado Christopher Miller, que até recentemente estava a frente do Centro Nacional de Contraterrorismo.

Se as tropas não se recusarem a obedecer as ordens de atirar nos manifestantes, os eventos de 1989 na Praça da Paz Celestial (Tiananmen), na China, irão parecer brincadeiras de crianças em um playground. Para Trump, seria melhor deixar o país agora, para não precisar responder depois também por Crimes Contra  Humanidade.

Notas do autor:

1. Jane Mayer é autora do livro Dark Money, em que relata como grandes corporações e bilionários fazem uso de doações anônimas para interferir na indicação de juízes, e influir no resultado de processos judiciais.

O autor é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

A Atlas Network, o MBL e o golpe contra Dilma Roussef, por Ruben Rosenthal

A Atlas Network, sediada nos Estados Unidos, é talvez a principal arma na propagação do pensamento ultraliberal no Brasil e no mundo, e esteve envolvida na trama do golpe contra Dilma Roussef.

Atlas 3
Institutos filiados a Atlas Network  /  Fonte: Atlas Network

Nos tempos não tão longínquos da ditadura, o ouro de Moscou financiava a esquerda no Brasil. Pelo menos era isto que o governo militar divulgava através da imprensa amordaçada.  Se era falso ou verdadeiro, não vem ao caso agora. Nos novos tempos da pós-verdade, o ouro de Washington financia os think tanks que corroem a democracia em vários países do mundo, ao impor o pensamento “liberal” em oposição à ideias e políticas que tenham algum viés de esquerda.

A Atlas Network, nome fantasia para Atlas Economic Research Foundation, é um destes “tanques de ideias”, centros de formulação de políticas estratégicas voltadas não apenas para derrotar eleitoralmente as esquerdas, mas para fazer prevalecer o  liberalismo em sua versão mais perversa, o ultraliberalismo

Com sede em Washington, e atualmente presidida pelo Alejandro Chafuen, argentino-norte-americano, a Atlas está no centro de uma rede com mais de 500 entidades parceiras, alcançando 99 países. Pelo menos é isto que consta no site oficial da entidade. É possível, ou mesmo provável, que nem todas as parcerias ou financiamentos possam ser declarados, por questão de estratégia ou de infração à alguma legislação.

Seus simpatizantes se auto-denominam de libertaristas (ou libertarianistas), uma tradução do termo inglês, libertarians1, e têm a visão de que qualquer vestígio de um Estado de bem estar social deve ser eliminado. O acesso à saúde e educação caberia apenas aos que puderem pagar, segundo professam os adeptos deste darwinismo social.

O ultraliberalismo substitui o neoliberalismo

Diferentemente do liberalismo histórico, e seguindo-se ao neoliberalismo das décadas de 70, 80 e 90, a fase do ultraliberalismo se estabeleceu após a crise de 2008, em oposição aos programas sociais de  Obama, visando aperfeiçoar ainda mais o modelo de exploração e opressão da força de trabalho, além de montar uma espécie de “Internacional Conservadora”. 

Os Chicago Boys introduziram as políticas neoliberais no Chile de Pinochet, cujas nefastas consequências sociais são sentidas até hoje pela população do país. No Brasil de Bolsonaro, a direita ultraliberal representada por Paulo Guedes, não tem qualquer problema de convivência com a extrema-direita

Margaret Thatcher, primeira-ministra da Grã-Bretanha (1979-1990), foi também adepta das políticas neoliberais de redução drástica da participação do Estado na economia, cabendo ao mercado regular os preços. Em 1955, o britânico Anthony Fisher fundou em Londres, o Institute of Economic Affairs (IEA), que viria a influenciar Thatcher, em cujo governo  ocorreu considerável desmonte do Estado de bem-estar social. O IEA foi quem primeiro publicou (em 1970) “A contra-revolução na teoria monetária”, de Milton Friedman, outro ganhador do prêmio Nobel de economia. 

thatcher_and_fisher__largeMargareth Thatcher e Anthony Fisher, fundador da Atlas Network  /  Foto Atlas Network

Anthony Fisher, que era defensor das concepções do economista austríaco Friedrich Hayek, ganhador do prêmio Nobel de economia de 1974, formou em 1981 a Atlas Economic Research Foundation, que desde então atua na defesa e propagação do liberalismo radical.

Artigos publicados por Marina Amaral, na Agência Pública, em 2015, e por Lee Fang, no The Intercept Brasil, em 2017, apresentaram relatos minuciosos de como foi formada a Atlas Network, e do crescimento de sua influência através da expansão da rede de filiados e apoiadores. Com base principalmente em informações publicadas nestes dois veículos, e nos sites da Atlas e de seus parceiros, o atual artigo irá apresentar dados relacionados a Atlas e a alguns de seus 14 parceiros declarados, que atuam no Brasil formando a chamada “Rede da Liberdade”. Conhecer melhor o adversário e suas táticas, é a melhor forma de combatê-lo.

Existem, no entanto, outros institutos liberais no Brasil que não fazem parte da rede da Atlas. Segundo publicado em Carta Maior, Hélio Beltrão, que preside atualmente o Instituto Ludwik von Mises, afirmou que 30 Institutos recebem apoio da Atlas no país, e  colaboram entre si. 

Atlas recebe financiamento de grandes corporações e do Congresso dos EUA

Grandes corporações como a Exxon Mobil, a Master Card e empresas do ramo tabagista já financiaram a Atlas. As Fundações dos bilionários irmãos Koch e do investidor John Templeton fazem vultosas contribuições. O governo norte-americano também tem participação no direcionamento de fundos para a Atlas, através da National Endowment for Democracy (Fundação Nacional para a Democracia).

 A NED  é uma instituição privada, “que não visa o lucro, dedicada ao crescimento e fortalecimento de instituições democráticas ao redor do mundo”, segundo consta em seu site.  Recebe fundos principalmente do Congresso Americano, e é governada por um conselho diretor, com participação igualitária de Republicanos e Democratas.

Com a vitória de Trump, foi indicada para a presidência da instituição, a economista Judy Shelton, senior fellow da Atlas desde 2010. Segundo o artigo no The Intercept, Chafuen teria declarado que “agora tem gente da Atlas na presidência da National Endowment for Democracy”.

Donald Trump também indicou Shelton para o Federal Reserve Bank em janeiro deste ano, o que foi considerado como uma intenção do presidente norte-americano de moldar o banco central mais poderoso do mundo aos seus desígnios. 

A Atlas disponibiliza verbas para instituições parceiras em outros países, inclusive para treinamento na matriz. Este é um dos caminhos que “ouro de Washington” encontra para subverter a democracia no Brasil e nos países em que está presente.

Institutos parceiros da Atlas Network no Brasil

Fazem parte da rede brasileira da Atlas: Instituto Atlantos (Porto Alegre), Instituto de Estudos Empresariais (Porto Alegre), Instituto de Formação de Líderes de Belo Horizonte, Instituto de Formação de Líderes de Santa Catarina, Instituto de Formação de Líderes de São Paulo, Instituto Liberal de São Paulo, Instituto Liberdade (Porto Alegre), Instituto Liberal (Rio de Janeiro), Instituto Líderes do Amanhã (Vitória), Instituto Ludwik von Mises (São Paulo), Instituto  Millenium (Rio de Janeiro), Livres (Rio de Janeiro), Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (São Paulo), Estudantes pela Liberdade (São Paulo). 

Segundo o The Intercept, o modelo da Atlas e de seus institutos parceiros se preocupa menos com a formulação de novas soluções inovadoras para os problemas dos países em que estão presentes, e mais com o estabelecimento de organizações políticas disfarçadas de instituições acadêmicas, como forma de melhor conquistar o público para a ideologia liberal.

A maioria dos Institutos parceiros da Atlas apresenta em seus sites os diretores e membros dos conselhos, bem como as fontes de financiamento e de apoio no meio empresarial. Na aparência, existe ampla transparência. Pelos estatutos não é permitido receber dinheiro público ou de partidos políticos, bem como assumir posições partidárias.  

Os objetivos que estão declarados nos sites dos Institutos são essencialmente os mesmos. Tomando como exemplo o Instituto de Formação de Líderes de Santa Catarina: “Somos uma entidade civil independente, apartidária e sem fins lucrativos, que visa à formação de lideranças comprometidas com a defesa das liberdades individuais, do Estado de Direito, da propriedade privada e da ética. Para tanto, engajamos nossos associados numa rotina de estudos e debates, a qual chamamos de Ciclo de Formação, que inclui palestras semanais, treinamentos, leituras de livros e júris simulados.”

O Instituto Atlantos relata que pretende alcançar seus objetivos “através da realização de palestras e eventos gratuitos e abertos ao público, nas áreas de economia, ciência política, direito, filosofia, sociologia, história e empreendedorismo, em pelo menos cinco das maiores faculdades da capital gaúcha (UFRGS, PUCRS, ESPM-Sul, Fadergs e FMP), onde coordena clubes estudantis e grupos de estudos específicos para cada faculdade/curso”. O conteúdo das palestras e cursos também é divulgado na página oficial no Facebook, que contaria com mais de 60 mil seguidores.

Os Institutos também em geral declaram suas fontes de financiamento. O Instituto de Estudos Empresariais, de Porto Alegre, tem como empresas investidoras a Ipiranga, do grupo Ultra, e a Celulose Rio Grandense, do grupo CMPC, além de várias empresas apoiadoras. Já o Instituto de Formação de Líderes de Belo Horizonte tem como principal investidor, a Suzano Celulose. O Instituto de Formação de Líderes de São Paulo tem como instituições mantenedoras, a Suzano Celulose e o Instituto Ludwig von Mises Brasil, presidido por Hélio Beltrão.

O Instituto Millenium nomeia 25 mantenedores em seu site. Apenas para citar 3 destes, incluímos aqui os nomes de João Roberto Marinho, Jorge Gerdau Johannpeter e Armínio Fraga. Na presidência de seu Conselho de Governança está  Ricardo Diniz, vice-presidente do Bank of America Merry Linch Brasil.  Um dos fundadores do Instituto Millenium foi Rodrigo Constantino, atualmente na presidência do Instituto Liberdade, do Rio de Janeiro. Constantino tem MBA de Finanças pelo IBEMEC e foi colunista na Veja, escrevendo atualmente para o Globo e Valor Econômico.

O Instituto Liberal foi criado em 1983 por Donald Stewart Jr, então dono da Construtora Ecisa. Stewart foi um dos grandes expoentes do liberalismo no Brasil, e manteve vínculos estreitos com entidades no exterior defensoras do liberalismo, como a Sociedade Mont Pèlerin, CATO Institute, Heritage Foundation, Atlas Foundation, Fraser Institute, Liberty Fund e Institute of Economic Affairs.

Atlas Network, o MBL e o golpe no Brasil

O grupo Estudantes pela Liberdade, com sede em São Paulo, corresponde à seção brasileira do Students for Liberty, e teve uma participação fundamental no golpe institucional que levou ao afastamento de Dilma Roussef. O diretor executivo do grupo, Juliano Torres, foi bem direto sobre a ligação existente entre o EPL e o Movimento Brasil Livre (MBL), onde despontou a estrela de Kim Kataguiri, conforme seu relato ao Agência Pública.

“Quando teve os protestos em 2013 pelo Passe Livre, vários membros do Estudantes pela Liberdade queriam participar, só que, como a gente recebe recursos de organizações como a Atlas e a Students for Liberty (internacional), por uma questão de imposto de renda lá, eles não podem desenvolver atividades políticas. Então a gente falou: Os membros do EPL podem participar como pessoas físicas, mas não como organização, para evitar problemas.”

Juliano prossegue em seu relato: “Aí a gente resolveu criar uma marca, não era uma organização, era só uma marca para a gente se vender nas manifestações como Movimento Brasil Livre. Então juntou eu, Fábio [Ostermann], juntou o Felipe França, que é de Recife e São Paulo, mais umas quatro, cinco pessoas, criamos o logo, a campanha de Facebook. E aí acabaram as manifestações, acabou o projeto.”

“A gente estava procurando alguém para assumir, já tinha mais de 10 mil likes na página, panfletos. E aí a gente encontrou o Kim [Kataguiri] e o Renan [Haas], que afinal deram uma guinada incrível no movimento, com as passeatas contra a Dilma e coisas do tipo. Inclusive, o Kim é membro da EPL, então ele foi treinado pela EPL também. E boa parte dos organizadores locais são membros do EPL. Eles atuam como integrantes do Movimento Brasil Livre, mas foram treinados pela gente, em cursos de liderança.”

Chafuem e osterman
Alejandro Chafuen, da Atlas, com Fábio Ostermann, do MBL, na manifestação em Porto Alegre. Foto: Reprodução/Facebook

Alejandro Chafuen, o presidente da Atlas, esteve presente nos protestos de abril de 2015 em Porto Alegre pelo impeachment de Dilma Roussef, quando confraternizou com membros do MBL, como mostrado na foto de seu Facebook, em que aparece com Fábio Ostermann, da coordenação do MBL.

Os Institutos vinculados a Atlas organizam anualmente, nas capitais onde atuam, o evento “Fórum da Liberdade”, para discutir a conjuntura política e econômica. Atualmente, Paulo Guedes é figurinha fácil de ser encontrada nestas ocasiões. A Atlas vai realizar seu próprio Liberty Forum anual em novembro, em Nova York. Os convidados deverão respeitar várias regras para não serem expulsos do evento e processados criminalmente, principalmente não tirar fotos ou fazer gravações não autorizadas. Libertà , ma non troppo!

A direita não está brincando em serviço, na luta pelos corações e mentes dos brasileiros. No entanto, governos tidos como “democráticos” e que adotam medidas antipopulares, terão dificuldade de permanecer no poder, principalmente se ocorrerem conflitos generalizados de rua e o uso do poder repressivo do Estado. Isto ocorreu com Macri, na Argentina, que não conseguiu se reeleger, apesar da forte presença das teias da Atlas no país. O mesmo poderá acontecer com Piñera, no Chile. Mas cada país tem sua própria dinâmica política, e o Brasil poderá continuar a afundar, sem conseguir reagir.

Ultradireita adota pautas identitárias da esquerda

Em clara contradição com os evangélicos, a nova direita libertarista não recrimina a liberdade sexual, os movimentos LGBT e o uso de drogas, por serem expressões do indivíduo. Portanto, estas bandeiras já não pertencem exclusivamente à esquerda. Já as políticas sociais bancadas pelo Estado representam anátema para os grupos de liberais radicais, assim como a defesa do meio ambiente e das comunidades indígenas e quilombolas. Estas  deveriam ser as principais batalhas a serem travadas pela esquerda, sem no entanto abandonar as pautas identitárias.

Mas os novos tempos requerem a adoção de novas estratégias. Se não quiser ficar alijada do poder por um longo período, e presenciar a continuação do retrocesso civilizatório em curso no Brasil, a esquerda precisará estudar melhor como a atuação da direita está conseguindo difundir o pensamento ultraliberal pelo país, e conquistando os jovens.

Na última campanha presidencial, ficou claramente evidenciada a predominância de cabelos grisalhos nas manifestações do PT, sugerindo uma perda de representatividade do partido entre os jovens. Este pode ser também um problema que afete ao PSOL e PCdoB, partidos identificados com teses de esquerda.

Medidas se fazem necessárias para atrair novamente os jovens para as causas da esquerda, talvez usando as mesmas táticas dos liberalistas. Uma presença ativa nas escolas e universidades, e o uso intensivo das mídias sociais é um dos caminhos que podem ser seguidos na reconquista dos corações e mentes dos jovens. 

Notas do autor:

1.  O pensamento dos seguidores libertaristas da Atlas está em oposição à tradição centenária dos libertários de esquerda, que são adeptos do anarquismo, como forma de organização social e econômica. O Instituto Mises Brasil, através de um texto de Murray N. Rothbard (1926-1995), fundador do moderno libertarismo (de direita), procura orientar seus filiados sobre como argumentar em defesa das teses de um estado mínimo. 

Rothbard, que esteve vinculado ao Ludwig von Mises Institute e ao Center for Libertarian Studies,  confessava no entanto não ter uma resposta para a seguinte pergunta, que poderia ser feita por um defensor da presença estatal na economia: “Se você concorda que é legítimo as pessoas permitirem que o Estado force o pagamento de impostos para cobrir por um certo serviço, como ‘defesa’ (do país, da propriedade privada e do indivíduo), então por que não é igualmente moral e legítimo que as pessoas  tenham o direito de delegar ao Estado o direito ao fornecimento de outros serviços, tais como ‘correios, assistencialismo, siderurgia, eletricidade’ e outros?”

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.