Tio Sam financia rappers na guerra híbrida contra Cuba

Por Ruben Rosenthal

Agentes financiados pelos EUA associados ao Movimento San Isidro defendiam a intervenção em Cuba meses antes das mídias sociais começarem a criticar o governo cubano de forma massiva.

Patria o CIA
Pátria ou CIA: Músicos do rap Patria Y Vida, Foto editada pelo The Grayzone \ Foto original: Yotuel Romero/Instagram

As cenas de um carro de polícia virado por manifestantes ocorridas no município de 10 de Outubro e coquetéis molotov atirados na polícia, ilustram bem o que foram as amplas manifestações de rua ocorridas em 11 de julho em Cuba (ver vídeo).

Segundo relato da BBC News Mundo, os protestos se iniciaram na cidade de San Antonio de los Baños, sudoeste de Havana, e de lá se espalharam por cerca de 20 vilarejos e cidades de todo o país. O artigo chama atenção para a questão do agravamento da situação econômica na ilha e do aumento das mortes por Covid-19.

Mas os veículos de mídia do Ocidente não mencionam o papel subversivo desempenhado pelos EUA, ao incentivar e financiar a dissidência política de artistas e rappers cubanos, reunidos principalmente no Movimento San Isidro. O rap anticomunista “Patria y Vida” se tornou o hino dos protestos, segundo a revista Rolling Stone.

O slogan do Movimento San Isidro é uma corruptela do lema “Patria o Muerte”, que Fidel Castro usou pela primeira vez no memorial aos trabalhadores das docas de Havana, mortos em 1960 em atentado da CIA.

Os EUA e a estratégia da guerra híbrida

Os EUA sabem tirar proveito dos sentimentos nacionalistas de minorias, e das situações de desavenças internas em países que atravessam uma crise econômica, para então lançarem mão de seu arsenal de táticas de guerra híbrida.

Foi assim, ao incentivarem os movimentos separatistas da etnia Uigur, na China, e dos Tártaros, na Rússia. Bem como ao fomentarem, com sucesso, o afastamento de Dilma Roussef e do PT do poder no Brasil, e das tentativas ainda não materializadas, de promoverem a mudança de regime na Bielorrússia, de Lukashenko, e em Cuba, que busca seu caminho ao socialismo.

É evidente que a estratégia norte-americana precisa encontrar um campo fértil para prosperar. No caso de Cuba, as condições econômicas e políticas estavam postas, até mesmo porque o Departamento de Estado norte-americano deu a sua contribuição para tanto.

Crise econômica

A historiadora brasileira Joana Salém mostra como a precária situação econômica atual, que fermentou a discórdia em Cuba, foi o resultado de três fatores principais: a pandemia da Covid-19, paralisando o turismo e reduzindo o PIB em 11%; o boicote norte-americano, agravado ainda mais com a suspensão por Trump do envio de divisas à ilha pelos familiares residentes nos EUA; e a reforma monetária e cambial promovida pelo governo cubano.

Conforme Salém relata, a reforma denominada de Tarea Ordenamiento eliminou o chamado dólar cubano, tornando o peso cubano a única moeda nacional; foi também criada uma moeda transitória na forma de um cartão, a Moneda Libremente Convertible, com valor de 25 pesos.

Ao mesmo tempo, foram eliminados subsídios a itens de consumo diário, aumentadas as tarifas, e os salários foram quintuplicados. No entanto, as medidas resultaram em descontrole financeiro que afetou negativamente o poder de compra dos cubanos de produtos básicos. A insatisfação da população foi inevitável.

Crise política

Em meio às sérias dificuldades econômicas por que vem passando, o povo cubano sente que suas demandas e insatisfações não são escutadas pelo governo, avalia Salém. Segundo a historiadora, “existe um engessamento ou quebra dos canais de poder popular nas estruturas políticas do socialismo cubano”. Assim, restou aos cubanos expressarem nas ruas sua raiva com o governo. Para os cubanos de esquerda, o governo precisa criar novos mecanismos de decisão e de poder popular, complementa ela.

Anti-government protesters gather at the Maximo Gomez monument in Havana, Cuba, Sunday, July 11, 2021. Hundreds of demonstrators took to the streets in several cities in Cuba to protest against ongoing food shortages and high prices of foodstuffs. © Eliana Aponte/AP
Manifestantes contra o governo cubano reunidos no monumento Maximo Gomez, em Havana, Cuba, 11 de julho de 2021 \ Foto: Eliana Aponte/AP

No entanto, os protestos de julho foram fomentados através de ações de entidades norte-americanas tradicionalmente envolvidas na desestabilização política de governos que não seguem a cartilha de Washington. O imperialismo norte-americano procurará canalizar ainda mais o sentimento que resultou na revolta que se espalhou pela ilha em 11 de julho, para acirrar a crise política visando a mudança de regime.

Os principais setores dos EUA que financiam e incentivam as ações de desestabilização em outros países são em geral os mesmos. A USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) e a NED (Fundação Nacional para Democracia). Um das entidades que recebe financiamento da NED é a Atlas Network, que atuou na desestabilização do governo Roussef no Brasil, através de sua cria, o MBL de Kim Kataguiri “et caterva“.

Contrarrevolução em Cuba: EUA financiam a dissidência cultural e artística

Conforme relatado pelo jornalista Max Blumenthal no The Grayzone (em espanhol, em inglês), na última década os EUA utilizaram milhões de dólares para seduzir rappers, músicos, artistas e jornalistas cubanos. O relato que se segue contém extratos do extenso e detalhado artigo de Blumenthal.

Em 2009, um artigo no Journal of Democracy, órgão noticioso da NED, esboçou um plano ambicioso para unir e mobilizar contra “o regime altamente repressivo” de Cuba, os despossuídos, os jovens desempregados, os que ficaram à margem do sistema, atraídos para as drogas, crime e prostituição.

A estratégia recomendada pelos autores do artigo, Carl Gershman e Orlando Gutierrez-Boronat, era que estes grupos não cooperassem com as instituições cubanas. Gershman é fundador e diretor da NED, enquanto Boronat – cubano de nascimento – é secretário geral da USAID, e fervoroso defensor da invasão de Cuba pelos EUA. Boronat foi recebido por Jair Bolsonaro, poucos dias antes da posse deste na presidência do Brasil.

No mesmo ano em que o influente artigo de Gershman e Gutierrez foi publicado, Washington adotou uma audaciosa operação secreta baseada na estratégia sugerida. A USAID iniciou um programa para desencadear um movimento de jovens contra o governo de Cuba, cultivando e promovendo artistas locais de hip-hop.

Devido à sua longa história como uma frente da CIA, a USAID terceirizou a operação para a Creative Associates International, uma empresa com sede em Washington DC, com seu próprio histórico de ações secretas. A empresa enviou a Cuba o sérvio Rajko Bozic, que pertencera ao grupo Otpor! (resistência, em croata), apoiado pela CIA. O grupo ajudara a afastar do poder o líder nacionalista da Sérvia, Slobodan Milosevic.

Posando como um promotor musical, Bozic se aproximou de um grupo de rap cubano chamado Los Aldeanos, que era conhecido por seu hino anti-governo, “Rap is War” (Rap é Guerra). O agente sérvio não revelou que trabalhava para a CIA, alegando ser um profissional de marketing. A inteligência cubana descobriu contratos ligando Bozic à USAID, e expôs a operação.

Conforme publicado no insuspeito jornal britânico Daily Mail, em 2014, a USAID foi novamente exposta por um vazamento que revelou que a agência contratara a Creative Associates para organizar uma série de falsas oficinas de prevenção do HIV, que se tratavam, na verdade, de seminários de recrutamento político.

Na mesma época, o então presidente Barack Obama apresentou seu plano para normalizar as relações com o governo de Cuba, condicionado a que Cuba ampliasse o acesso à internet. Talvez um dia o ex-presidente revele se foi uma armadilha arquitetada para abrir as portas para a interferência norte-americana na ilha, o “cavalo de Tróia” digital.

Expansão da Internet abre as portas para infiltração dos EUA

A rede de internet 3G chegou a Cuba em 2018, permitindo que jovens cubanos acessassem mídias sociais como Facebook e YouTube em seus telefones celulares. A NED e a USAID exploraram a abertura para construir um potente aparato de mídia on-line anti-governo. Novos veículos de viés tóxico, como CubaNet, Cibercuba e ADN Cuba, propagaram acusações ao regime, bem como ofensas ao presidente cubano, Miguel Diaz-Canel.

Para Ted Henken, um acadêmico dos EUA e autor de “A Revolução Digital de Cuba”, os líderes cubanos calcularam mal, não percebendo que [o acesso expandido à internet] rapidamente se voltaria contra eles.

Ainda em 2018, a NED destinou cerca de US$ 500.000 para o recrutamento e treinamento de jornalistas antigoverno, e para estabelecer novos meios de comunicação. Outra subvenção da NED encaminhou fundos para “promover a inclusão de populações marginalizadas na sociedade cubana e fortalecer uma rede de parceiros na ilha”, implicando que seria direcionada aos afro-cubanos.

A NED deu muita ênfase à infiltração na cena hip-hop de Cuba. Também em 2018, a Cuban Soul Foundation recebeu US$ 80.000 para “capacitar artistas independentes a produzir, executar e expor seus trabalhos em eventos comunitários sem censura”. Uma ONG com sede na Colômbia, chamada Fundación Cartel Urbano, recebeu US$ 70.000 para “capacitar artistas cubanos de hip-hop como líderes na sociedade”.

A propaganda antigoverno e a infiltração dos EUA no cenário cultural de Cuba que acompanhou a expansão da internet, provocaram uma forte reação da liderança do país. O governo se deu conta, tardiamente, que nunca deveria ter confiado em Obama, avalia a jornalista cubana Cristina Escobar, conforme relato no The Grayzone.

Poucas horas depois de tomar posse, em abril de 2018, Diaz-Canel propôs o Decreto 349. A nova medida passou a exigir que todos os artistas, músicos e artistas obtenham aprovação prévia do Ministério da Cultura antes de divulgar seus trabalhos.

Rapidamente, um coletivo de artistas e músicos se mobilizou para protestar contra o decreto. O grupo adotou o nome de Movimento San Isidro, nome do bairro de Havana Velha onde vivem vários de seus membros. O novo movimento se apresentou diretamente aos influenciadores culturais do Norte Global como um coletivo diversificado de criadores visuais e rappers independentes, lutando por liberdade artística.

A NED e a USAID continuaram a aprofundar a influência norte-americana em Cuba. A ONG Instituto para Relatos de Guerra e Paz (IWPR, na sigla em inglês), recebeu US$ 145.230 da NED em 2020 para “fortalecer a colaboração entre jornalistas independentes cubanos”, e treiná-los nas mídias sociais.  Entre os beneficiários inclui-se El Estornudo, que também foi financiado pela Open Society, de George Soros, para criticar a resposta do governo cubano à Covid-19.

Outro veículo antigoverno que opera sob os auspícios da IWPR é Tremenda Nota, um site com temática LGBTQ que acusa rotineiramente o governo cubano de homofobia e transfobia, mesmo tendo a administração Diaz-Canel atuado no sentido de legalizar o casamento gay, aberto o exército para soldados gays e iniciado eventos oficiais do orgulho, relata o The Grayzone.

Em 6 de novembro de 2020, um policial apareceu na casa de Denis Solis, um rapper afiliado ao Movimento. Solis usou a câmera do celular para transmitir ao vivo para o Facebook, os insultos antigays que dirigiu ao policial. A sentença de 8 meses de prisão que Solis recebeu por “desacato” gerou a faísca para a greve de fome de novembro de 2020, que levou o San Isidro ao palco global.

Luis Manuel Otero, coordenador do Movimento San Isidro, em atos de desrespeito à bandeira de Cuba
Luis Manuel Otero, coordenador do Movimento San Isidro, em atos de desrespeito à bandeira de Cuba

A greve foi realizada em Havana Velha, na casa do coordenador do Movimento, Luis Manuel Otero Alcántara. Artista afro-cubano, Otero atraiu a ira do governo ao desrespeitar a bandeira cubana, inclusive enrolando-a em torno de seu torso nu, sentado no vaso sanitário. Em outra exibição provocativa, Otero reuniu crianças para correr pelo bairro, agitando uma bandeira americana gigante, o que desencadeou uma resposta policial imediata, e sua própria detenção por 4 dias.

A visita ao local da greve de fome pelo jornalista e reconhecido autor literário cubano, Carlos Manuel Álvarez, ajudou a galvanizar o interesse da mídia internacional. Vindo das fileiras da elite educada de Cuba, Álvarez logo encontrou espaço na seção de opinião do The New York Times, para comercializar San Isidro para um público liberal nos EUA.

greve de fome de membros do Movimento San Isidro
Jornalista Carlos Manuel Álvarez (centro) em solidariedade à greve de fome de Luis Miguel Otero (à direita) e do rapper Maykel Osorbo (à esquerda), novembro de 2020.

Em 27 de novembro de 2020, um grupo de artistas começou um sit-in do lado de fora do Ministério da Cultura. Boa parte deles não era de opositores do governo, e buscavam o diálogo com o ministro. Entretanto, os veículos da mídia ocidental entrevistaram apenas os membros do Movimento San Isidro.

A intensa cobertura alçou o San Isidro ao cenário internacional, ganhando a atenção de artistas e escritores famosos nos EUA e Europa. O Departamento de Estado norte-americano alcançara seu objetivo.

O Movimento aprofundou seus laços com a direita internacional através da fundação CADAL, com base na Argentina, que nomeou o San Isidro para o Prêmio Freemuse de Expressão Artística 2021. A CADAL está no centro de uma rede de organizações libertárias que alavancam o dinheiro corporativo para impulsionar o mercado livre em toda a América Latina. Entre os parceiros mais próximos da CADAL está a Atlas Network, o think tank que também é patrocinado pelo Departamento de Estado dos EUA, através da NED.

Em maio de 2021, depois que Otero foi novamente detido pela segurança cubana, uma carta aberta ao presidente Diaz-Canel, assinada por um elenco de figuras culturais negras e afro-latinas proeminentes, apareceu na New York Review of Books, exigindo sua libertação.

Patria y Vida, o rap favorito do Departamento de Estado dos EUA

Patria y Vida, a primeira canção diretamente associada à mobilização de cubanos para protestar contra o governo, foi gravada em Miami. A canção apresenta três artistas cubanos auto-exilados: Yotuel do grupo de hip-hop Orishas, o duo de reggaeton Gente de Zona e o cantor e compositor Descemer Bueno. Eles foram complementados por dois membros do Movimento San Isidro, os artistas de hip-hop, El Funky e Maykel “Osorbo” Castillo.

The opening image of the video of Patria y Vida
Imagem de abertura do vídeo Patria y Vida

Em 12 de março deste ano, Yotuel e Gente de Zona realizaram uma vídeo-chamada com funcionários do Departamento de Estado, informando-os sobre o sucesso da canção e das demandas do Movimento San Isidro. Ao Parlamento Europeu, Yotuel pediu a “condenação do governo cubano, para que a ilha tenha forças para se rebelar“.

Três meses depois, a USAID emitiu um edital no valor de US$ 2 milhões, para subvenção de organizações da “sociedade civil” que procurassem promover a mudança de regime em Cuba. O documento enfatizou a necessidade de programas que “apoiem populações marginalizadas e vulneráveis, incluindo, mas não se limitando a jovens, mulheres, LGBTQI+, líderes religiosos, artistas, músicos e indivíduos de ascendência afro-cubana”.

11 de julho. Otero emitiu um chamado no Twitter em nome do Movimento San Isidro, para que manifestantes se reunissem no Malecón, litoral da cidade de Havana. As ocorrências iniciais em San Antonio de los Baños podem também ter sido em resposta à convocação de Otero. Os protestos então se espalharam pela ilha.

Joe Biden prometeu adicionar novas e sanções esmagadoras às que haviam sido impostas por Trump. As indicações são de que a administração democrata não retornará ao processo de normalização iniciado por Obama.

O movimento Vidas Negras Importam se posicionou no Instagram com uma declaração de solidariedade com a revolução cubana, recebendo críticas de setores conservadores norte-americanos.

Para o jornalista Max Blumenthal, os protestos de julho em Cuba foram arquitetados na Flórida. Através da hashtag  #SOSCuba, agentes financiados pelos EUA associados ao Movimento San Isidro defendiam a intervenção em Cuba meses antes das mídias sociais começarem a criticar o governo cubano de forma massiva.

A nova liderança cubana, que se seguiu ao período dos irmãos Castro na presidência do país e na secretaria do Partido Comunista Cubano, tem um enorme desafio pela frente, para que a contrarrevolução não seja bem sucedida.

Como salientou a historiadora Joana Salém, o governo precisaria reativar os canais de poder popular nas estruturas políticas, através de novos mecanismos de decisão. Ou seja, aprofundar a revolução socialista, ampliando a democracia popular.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

BBC e Reuters na guerra híbrida contra a Rússia

Por Ruben Rosenthal

Cada vez mais, BBC e Reuters vêm desempenhando um papel agressivo na demonização de governos que não seguem a cartilha imposta por Washington e Londres

Reino Unido financiou BBC e Reuters em campanha de desinformação contra a Rússia
 Monumento em homenagem a dois príncipes que expulsaram invasores. Ao fundo, a Catedral de São Basílio, Moscou

Documentos vazados por hackers, publicados em artigo de Max Bluementhal no The Grayzone em fevereiro, mostram que BBC e Reuters participaram de programas secretos do Ministério das Relações Exteriores (FCO) do Reino Unido. Através de campanhas de desinformação, os programas pretenderam enfraquecer a influência regional da Rússia, bem como minar a autoridade e desestabilizar o governo Putin. O governo britânico faz assim pleno uso de táticas da guerra híbrida, que o Ocidente tanto acusa a Rússia de praticar.

A atuação do governo britânico se deu através do Departamento de Contra Desinformação e de Desenvolvimento de Mídia (CDMD, na sigla em inglês), cujas atividades são consideradas de segurança nacional. O CDMD/FCO fez uma convocação aos veículos de comunicação interessados em atuar para “conter a narrativa do governo russo”, e “enfraquecer a influência da Rússia junto aos países vizinhos”.  

BBC e Reuters submeteram propostas ao CDMD de estabelecer redes de influência na Rússia e países vizinhos que promovessem narrativas favoráveis a OTAN. Porta-voz da Reuters confirmou a autenticidade dos documentos, argumentando, no entanto, que as atividades não seriam secretas, e que faziam parte de um “trabalho de décadas em prol da imprensa livre a nível global”.

A Reuters já fora secretamente financiada pelo governo britânico para colaborar em propaganda anti-soviética nas décadas de 60 e 70, em atuação com o serviço de inteligência M16. A informação consta de documentos oficiais que tiveram o acesso liberado em janeiro de 2020. A BBC atuou como intermediária nos pagamentos à Reuters.

Ambos os veículos de mídia declararam que o que acontecera anteriormente não mais se repetiria, pois seus princípios são fundamentados na independência e na verdade. Os novos vazamentos mostraram exatamente o contrário. Cada vez mais, BBC e Reuters vêm desempenhando um papel agressivo na demonização de governos que não seguem a cartilha imposta por Washington e Londres.

Um exemplo da cooptação da mídia, incluindo a Al Jazeera, foi revelado em outro vazamento pelo grupo de hackers Anonymous, relatado pelo Grayzone em setembro de 2020. O vazamento expôs a ação de propaganda do FCO do Reino Unido visando angariar apoio para remover Assad do poder na Síria. O mesmo grupo hacker estaria envolvido nos novos vazamentos.

A Reuters se infiltra na mídia russa

A Reuters é o setor de notícias e mídia da Thomson Reuters, a maior agência internacional de multimídia. A empresa privada está sediada em Nova Iorque, e resultou da aquisição da britânica Reuters pela canadense Thomson Corporation.

Em 2017, a Fundação Thomson Reuters submeteu uma proposta formal para participar de um contrato confidencial com o FCO, que envolvia a embaixada britânica em Moscou. Tratava-se de um projeto de capacitação da mídia russa, através de um “programa de visitas temáticas de jornalistas e influenciadores digitais russos” ao Reino Unido. A meta pretendida era de promover nos jornalistas “um impacto positivo na percepção do Reino Unido”.

Em 2019, a Reuters ingressou em programa semelhante, com o objetivo de “conter a narrativa do governo russo e sua dominação da mídia e dos meios de informação”.  O plano do governo britânico era de se infiltrar na mídia russa para propagar sua própria narrativa através dos jornalistas russos treinados no Reino Unido.

A Reuters organizou então mais visitas de jornalistas russos, para promover “os valores políticos e culturais do Reino Unido”.  A Reuters proclama ter influenciado cerca de 400 jornalistas russos através de seus programas de visitas, e de contar com 1.500 jornalistas em sua rede global de influência.

Como parte de suas atividades de desinformação, a Reuters manteve ligações com o canal de televisão Belsat, da Bielorússia. O canal tem base na Polônia e recebe fundos de governos da União Européia. Belsat teve um papel preponderante na promoção dos protestos de maio de 2020 pela saída do presidente Alexander Lukashenko. 

A BBC na campanha de desinformação contra a Rússia

A britânica BBC consiste na maior emissora pública internacional, e se apresenta como imparcial e independente. Através do setor BBC Media Action, a emissora estatal se propôs a participar de um programa secreto do CDMD/FCO britânico, de 2019 a 2022, voltado para conter a influência russa na região Báltica por meio de novos veículos de mídia pretensamente independentes, mas que promoveriam posicionamentos pró-OTAN.

A BBC se interessou em participar de outro programa de propaganda na mídia, com foco na Ucrânia, Moldávia e Geórgia. Seria formado um consórcio, que incluiria a Reuters e uma empresa de inteligência não mais existente, a Atkins Strategy.

A BBC Media Action também propôs desenvolver, junto com a Atkins, um trabalho pró-OTAN na guerra de informação em áreas de conflito, como na região de Donbas, leste da Ucrânia, onde ocorriam choques dos separatistas pró-Rússia com as forças militares do governo apoiado pelo Ocidente.

O Consórcio entre empresas de notícias e de inteligência

Dentre as empresas de inteligência que se inscreveram para participar do Consórcio custeado pelo CDMD/FCO britânico estavam a Albany Communication e a Zinc Network.

Segundo relato de Ben Norton no Grayzone, a Albany já atuara junto a setores de mídia para propagar as narrativas do Ocidente, enquanto OTAN e as monarquias do Golfo Pérsico procuravam forçar uma mudança de regime de na Síria.

A Zinc teve participação anterior em projetos clandestinos de mídia junto a comunidades mulçumanas, tanto no Reino Unido como na Austrália, como parte de estratégias de contraterrorismo. A Zinc buscou apoio para a Mediazone, um veículo de mídia anti-Putin fundado por duas participantes do grupo performático feminista de punk rock, Pussy Riot (assista a performance Reza Punk no vídeo). 

A Zinc se propôs também a reduzir a visibilidade nas buscas no Google, do site RT (ex-Russian Television), apoiado pelo governo russo. O recente vazamento também revelou que a Zinc propusera atuar no Consórcio, para ajudar influenciadores digitais a “desenvolverem estratégias editoriais no YouTube”. O objetivo era o de estabelecer uma rede de YouTubers na Rússia e na Ásia Central, que promovesse de forma camuflada a visão do Reino Unido e dos países da OTAN, enquanto pretendendo atuar na “promoção de valores democráticos e de integridade da mídia”.

Um nome que aparece relacionado aos documentos vazados é o de Vladimir Ashurkov, diretor executivo da Fundação Anti-Corrupção, FBK, capitaneada por Alexei Navalny. Navalny é opositor de Putin e o queridinho da mídia Ocidental, apesar de sua pouca representatividade política na Rússia; ele é também conhecido por seu discurso de ódio e por suas posições racistas e xenófobas (ver artigo no Chacoalhando).

Alexei Navalny é detido durante protesto em Moscou, 2018
Detenção de Alexei Navalny no protesto de maio de 2018 em Moscou \ Foto: TASS/Barcroft Images

Em 2013, Ashurkov foi filmado em encontro com um agente do M16  da inteligência britânica, em que o russo solicita de 10 a 20 milhões de dólares por ano, para modificar o cenário político.  Pouco tempo depois, Ashurkov buscou asilo no Reino Unido.

Em 2018, o nome de Ashurkov apareceu em documentos vazados divulgados pelo Grayzone, em conexão com a rede de influência Integrity Iniciative, ligada ao FCO britânico. O grupo de propaganda clandestina, composto por militares da inteligência, atuava através de influenciadores britânicos na mídia e na política. O objetivo era de estigmatizar ao máximo a Rússia por suas “intenções malignas”, e aumentar as tensões entre o Ocidente e a Rússia.

Outro parceiro da rede da Zinc no Consórcio exposto pelo vazamento de 2021 é o site Bellingcat. O site já havia interagido com Navalny para culpar a inteligência russa pelo envenenamento do opositor de Putin com o gás neurológico Novichok, conforme relatado pelo Grayzone.

Bellingcat esteve envolvido nas eleições na Macedônia do Norte, promovendo o candidato pró-OTAN, que saiu vencedor. A tática empregada incluiu acusar a Rússia de interferência nas eleições na Macedônia. Também participou da campanha de desinformação na Macedônia, o DFRlab, vinculado ao Atlantic Council, entidade que atua de forma obscura na promoção dos interesses norte-americanos. 

O artigo do Grayzone menciona que Bellingcat recebe fundos da NED, National Endowment for Democracy, entidade privada norte-americana, bancada em grande parte pelos partidos Republicano e Democrata. A NED atua na promoção de mudanças de regime político em diversos países, como fez no Brasil no governo Dilma, através da Atlas Network.

Com a veracidade dos documentos vazados plenamente comprovada, ficaram comprometidas as pretensas imparcialidade e independência da BBC e da Reuters. As duas corporações são frequentemente fontes de matérias publicadas em veículos de imprensa em diversos países. Como confiar agora na autenticidade destas matérias? 

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Guerra híbrida: vítimas e vilões

Por Ruben Rosenthal

Os principais vilões da guerra híbrida citados nos relatórios elaborados pelos analistas dos think tanks do Ocidente são a Rússia, China, Irã, Coréia do Norte e Estado Islâmico, sendo omitidas as ações híbridas por parte dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos promoveram ações cibernéticas contra a rede elétrica russa em 2018. Usina térmica em Moscou \ Foto: Maxim Shemetov/Reuters

No artigo anterior, através de uma abordagem mais acadêmica, foram apresentadas táticas que fazem parte do arsenal de recursos da guerra híbrida. Basicamente, a estratégia se propõe a alcançar os objetivos pretendidos, em geral de natureza geopolítica, sem se chegar à uma confrontação militar direta entre dois Estados. Também foram apresentados outros termos utilizados para definir estratégias semelhantes, mas com diferentes ênfases nas táticas civis e militares.

Nos Estados Unidos, além de guerra híbrida são utilizadas as expressões conflitos na zona cinzenta, guerra assimétrica, guerra irregular, guerra não convencional e guerra política. Os chineses preferem adotar guerra irrestrita, enquanto os russos empregam guerra de nova geração, poder brando e guerra não linear.

Os principais vilões da guerra híbrida citados nos relatórios elaborados pelos especialistas dos think tanks1 do Ocidente são a Rússia, China, Irã, Coréia do Norte e Estado Islâmico, omitindo as ações híbridas por parte dos Estados Unidos. Uma notável exceção foi a linha adotada no relatório Modern Political Warfare, publicado em 2018 pelo RAND Arroyo Center, unidade de pesquisa da RAND Corporation, ao afirmar que “é igualmente importante reconhecer que os Estados Unidos vêm praticando esta forma de guerra desde a sua fundação”.

O referido relatório prefere resgatar o antigo termo “guerra política”, nas 355 páginas em que descreve as operações híbridas de Estados Unidos, Rússia, Irã e Estado Islâmico. A China, que para alguns analistas do Ocidente é a principal vilã da guerra híbrida, não foi incluída no estudo. O atual artigo abordará as alegações que pesam sobre Estados Unidos, Rússia e China em relatos de think tanks e de outras fontes.

A análise apresentada no relatório do RAND Arroyo Center separa em quatro grupos, as táticas de guerra política conduzidas pelos países estudados: informação/cibernética, economia (ajuda, coerção e subversão), diplomacia/política, militar. 

Estados Unidos e suas guerras híbridas.

Desde sua fundação como nação independente, os Estados Unidos se engajaram em intervenções fora de suas fronteiras. Várias destas se deram no campo da guerra convencional, como a conquista de parte do México no século 19, a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a Guerra da Coréia, do Vietnam, do Afeganistão e do Iraque. No entanto, outras intervenções foram de natureza puramente híbrida, ou mescladas com engajamento bélico formal. 

Informação/Cibernética. Mesmo antes da assinatura da Declaração de Independência das 13 colônias da coroa inglesa, o Congresso Continental dos Estados Unidos escreveu em outubro de 1775 uma conclamação ao povo de Quebec, província de língua francesa no Canadá. Na nota havia um chamamento para a população local se revoltar contra a coroa britânica. Tal iniciativa mostra o emprego de uma tática  de informação contra o adversário mais forte, e que atualmente faz parte do manual de guerra híbrida.

Na época da guerra fria contra a União Soviética e países da “cortina ferro”, os Estados Unidos recorreram às transmissões da Rádio Liberdade e da Rádio Europa Livre. A CIA promoveu exposições de arte abstrata expressionista como forma de contrapor ao realismo Soviético, bem como financiou escritores e dramaturgos norte-americanos. Dezenas de fundações de caridade também distribuíram dinheiro proveniente CIA.

O relatório cita também a campanha de desinformação contra alguns líderes, como foi no caso de Saddam Hussein (acusado falsamente de possuir armas de destruição em massa). Entretanto não é mencionada a longeva campanha de propaganda negativa vem sendo conduzida para desestabilizar o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela. Uma recente campanha de desinformação vem sendo conduzida contra o presidente russo Vladimir Putin, com acusações de uso do agente neurotóxico Novichok contra seus opositores ainda sem comprovação efetiva.

Um relatório da OPAQ, a Organização para a Prevenção de Armas Químicas, foi manipulado como parte de uma campanha de desinformação contra presidente sírio Bashar al-Hassad de uso de gases tóxicos contra a população. A campanha foi usada para justificar ataques militares pela OTAN.

Acusações contra a China de opressão da etnia Uigur em Xinjiang parecem também envolver manipulação de informações. Também recente é a campanha do governo Trump contra a China, ao chamar o Sars Cov-2 de “vírus chinês”, acusando a China de ocultação da gravidade da pandemia de Covid-19 e ameaçando os chineses com sanções econômicas.

Os Estados Unidos vêm realizando ataques cibernéticos através da CIA contra Irã e Rússia, após uma ordem secreta de Trump em 2018.  Artigo de julho deste ano na Forbes menciona que pelo menos 12 operações desta natureza já haviam sido realizadas até aquela data. Em junho de 2019 foi lançado um ataque contra o sistema de computadores que controla os lançadores de foguetes e mísseis iranianos. Anteriormente, em 2009, a CIA já havia conduzido uma ação cibernética conjunta com Israel para destruir centrífugas utilizadas no enriquecimento de urânio iraniano.

As operações cibernéticas contra a Rússia, segundo relato no The New York Times de junho de 2019, consistiram na colocação de malwares agressivos na rede elétrica. O ataque se deu em retaliação por supostas ações russas em desinformação e raqueamento nas eleições norte-americanas de meio termo, em 2018. A Rússia também era acusada de haver instalado  malwares que, em caso de um futuro conflito com os Estados Unidos, poderiam ser usados para sabotar plantas de energia, linhas de petróleo e gás, e suprimentos de água. No entanto, desde 2012 os Estados Unidos já haviam colocado sondas de reconhecimento no sistema da rede elétrica russa.

Economia (ajuda, coerção, subversão). Segundo o relatório do RAND Arroyo Center, um exemplo do uso de coerção econômica ainda na primeira metade do século 20, foi a pressão que os Estados Unidos exerceram em países na América Central através da United Fruit Company (vem desta época a origem do termo “repúblicas de bananas”).

Repúblicas de Bananas, um termo pejorativo usado para países da América Latina e Caribe.

Com o término da Segunda Guerra Mundial, a ajuda econômica a países da Europa Ocidental através do Plano Marshall evitou o aumento da influência do comunismo. Em paralelo, foi promovida sabotagem econômica (subversão) contra a União Soviética, ressalta o relatório.

Outra ação citada de coerção no campo da economia foi a aplicação de sanções econômicas contra o regime do Apartheid, então vigente na África do Sul. Também foram aplicadas sanções econômicas ao Iraque, Irã e Síria. Não foram incluídas no relatório as recentes sanções econômicas ou barreiras comerciais impostas à Rússia, China, Venezuela, Coréia do Norte. As ações de guerra híbrida contra Cuba já perduram por décadas.

Diplomacia e Política. Ainda segundo o relatório do RAND Arroyo Center, no começo do século 20 foi dado apoio ao nacionalismo étnico, como forma de minar a unidade nos impérios Otomano e Austro-Húngaro. Durante a Guerra Fria, partidos políticos em diversos países da Europa Ocidental foram apoiados, para evitar que os comunistas vencessem as eleições nacionais. A ajuda ao movimento Solidariedade na Polônia contribuiu para solapar a influência soviética na Europa Oriental, e através do apoio ao Dalai Lama, líder espiritual do budismo tibetano, vem sendo incentivado o separatismo da província Chinesa. No período pós-Guerra Fria os Estados Unidos deram suporte a diversos movimentos ditos “pró-democracia”.

Não consta do relatório, o financiamento norte-americano, através da National Endowment for Democracy, ao Congresso Nacional Uigur, organização que visa a independência da província chinesa de Xinjiang (vizinha ao Tibet) e a desestabilização da China. Os últimos governos norte-americanos também procuraram criar instabilidade política em Hong Kong, conforme se aproxima o final do prazo de 50 anos da garantia de um sistema capitalista da ilha, com o qual a China se comprometeu com o Reino Unido pelo acordo de devolução da região à soberania chinesa.

Recentemente o governo norte-americano vem concedendo apoio político a Juan Guaidó, na Venezuela, em operação de desestabilização do presidente Nicolás Maduro. Na Arábia Saudita, o príncipe Mohammad Bin Salman recebe apoio do governo Trump, mesmo com os fortes indícios de ter sido o mandante do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi pesando sobre ele. O apoio político e diplomático também já foi concedido a outros políticos, líderes e monarcas alinhados com os interesses norte-americanos e do Ocidente, mesmo que sejam ditadores em seus países.

Um exemplo emblemático do uso da diplomacia para fortalecer ditadores em nome de interesses geopolíticos (também não mencionado no relatório), foi o apoio concedido pelo governo norte-americano, com o conluio do então primeiro-ministro britânico Tony Blair, ao presidente Karimov do Uzbequistão, um ditador que eliminava seus oponentes com requintes de extrema crueldade. O objetivo do apoio diplomático era o de fortalecer alianças na “guerra ao terror”, após os atentados de 11 de setembro de 2001. O caso foi exposto pelo ex-embaixador do Reino Unido, Craig Murray, em seu livro Diplomacia Suja.

Militar. As ações híbridas dos Estados Unidos no campo militar citadas no relatório incluem o apoio à resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Na ocasião, grupos operacionais também foram enviados a Grécia, Itália e Iugoslávia. Na Ásia, para ajudar no combate ao Japão grupos foram enviados a Tailândia, Burma (atual Mianmar), Malásia, e China.

Outro exemplo citado, foi o apoio ao golpe de estado no Irã em 1953, com a deposição de Mossadegh, primeiro-ministro nacionalista, e ascensão ao poder de um representante dos interesses norte-americanos e britânicos, o Xá Reza Pahlevi. A crueldade do novo regime contribuiu para o advento da revolução islâmica. Nos anos 50 e 60, a CIA participou do treinamento militar de resistentes tibetanos contra a ocupação e anexação do Tibet pela China, que ocorrera em 1950-51.

Placa em homenagem aos combatentes tibetanos treinados pela CIA em Camp Hale, Estados Unidos \ Foto: Nolan Peterson/Coffee or Die

As ações subversivas dos Estados Unidos na Guatemala (1954) e Chile (1973) levaram à remoção de dois presidentes eleitos democraticamente, e ascensão de governos ditatoriais. Durante os governos de Jimmy Carter e Ronald Reagan, os Estados Unidos deram apoio militar encoberto aos Contras, grupos paramilitares que se opunham aos sandinistas que governavam a Nicarágua após a derrubada do ditador Somoza. Nas últimas décadas houve o apoio militar aos mujahedeen no Afeganistão na luta contra a presença soviética, aos Curdos no Iraque, e aos rebeldes na Líbia e na Síria. As operações trouxeram desestabilização a estes países, o que possibilitou o aumento da influência do Estado Islâmico.

Uma típica ação militar híbrida não incluída no relatório foi o apoio da CIA ao KLA, o Exército de Libertação do Kosovo, quando a província ainda estava vinculada à ex-Iugoslávia, o que foi reconhecido pela própria CIA, segundo relato recente no periódico britânico Sunday Times.

Brasil, vítima da guerra híbrida dos EUA

Não foram mencionadas no relatório do Arroyo Center, as operações de desestabilização dos governos de João Goulart e de Dilma Roussef. No caso do golpe de 64, que envolveu a participação da CIA, existe farta documentação sobre o apoio financeiro, material e político dos norte-americanos.

Uma das formas utilizadas pelos Estados Unidos para desestabilizar o governo de Dilma Roussef foi através da canalização de verbas da National Endowment for Democracy para a Atlas Network, instituição ultraliberal que gerou o MBL no Brasil. A ação da Atlas Network contra o governo Roussef foi reconhecida por Ron Paul, influente político norte-americano de direita. Atualmente o Brasil sofre coerção para que não faça opção pela tecnologia 5G da empresa Huawei.

Rússia, vítima ou vilã na guerra híbrida?

O relatório do RAND Arroyo Center apresenta uma análise de ações promovidas dentro do conceito russo de “nova geração da guerra”. Dentre as táticas a que a Rússia recorreria visando minar a segurança Europeia está a parceria com grupos armados, a guerra de propaganda e operações encobertas.

No relatório, a Estônia – ex-república da União Soviética – foi tomada como exemplo de um caso de guerra política fomentada pela Rússia. O foco do estudo foi a província de Ida-Viru, que tem uma maioria de 80% de cidadãos de língua russa, o que poderia torná-la suscetível a uma campanha separatista. Apesar do avançado sistema de bem estar social da Estônia, as taxas de desemprego e de pobreza são maiores nas áreas rurais de população russa.

A Rússia se opôs à política de integração da Estônia com a Europa Ocidental, e teria procurado minar o governo central. O relatório cita os incidentes da chamada “noite de bronze”, como um exemplo concreto de guerra política. Os eventos ocorreram a partir de abril de 2007, quando as autoridades estonianas resolveram remover uma estátua que comemorava a vitória soviética na Segunda Guerra Mundial. Ocorreram protestos da comunidade russa da Estônia, que logo se transformaram em distúrbios. Seguiu-se uma série de ataques cibernéticos, que foram atribuídos à Rússia.

Para Hal Brands, analista sênior do FPRI (Instituto de Pesquisa em Política Internacional), a Rússia recorreu a táticas na zona cinzenta em operações na Criméia que levaram à anexação da região em 2014, desmembrada da Ucrânia. Segundo relatado em artigo de Vladimir Batyuk, professor de relações internacionais em Moscou, o Pentágono ficou extremamente alarmado que a Criméia fora anexada “sem o disparo de um único tiro”. Os analistas norte-americanos ficaram preocupados com as “novas táticas das forças armadas russas, que incluiriam forças especiais, guerra cibernética, propaganda e operações encobertas”.

De acordo com o analista russo Ruslan Pukhov, diretor do Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias e editor do jornal Moscow Defense Brief, os militares russos conseguiram convencer oitenta por cento das forças ucranianas a desertar ou passar em massa para o lado russo; os outros 20 por cento decidiram continuar a servir nas forças armadas ucranianas, mas deixaram a Criméia, sem opor qualquer resistência. Isto só foi possível porque a maioria das forças ucranianas na Criméia consistia de pessoal originário da própria região. Pukhov relata que não ocorreram relatos do uso de operações cibernéticas na Criméia. Ele acrescenta ainda que descrever os eventos ocorridos na Ucrânia como guerra híbrida é uma tentativa, com motivações políticas, de exagerar os fatores externos no conflito, em detrimento dos internos.

O ex-oficial da marinha norte americana e especialista em guerra híbrida, Frank Hoffman, relatou que em 2008 a Rússia empregou táticas híbridas para que a Ossétia do Sul e a Abecássia se separassem da Geórgia (uma ex-república soviética), através da ação de milícias da Ossétia do Norte (província autônoma russa) e de mercenários da Chechênia (república da federação russa). Para o Carnegie Council, o livro The Tanks of August (Os tanques de agosto), publicado pelo Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias, da Rússia, é uma leitura fundamental para se entender a perspectiva da Rússia e as condições que levaram ao conflito armado de cinco dias. A Geórgia, que desde o ano 2000 vinha aumentando sua capacidade militar e investira oito por cento do PIB em armamentos em 2007/2008, tomou a iniciativa de um ataque surpresa em Tskhinvali, na Ossétia do Sul, deflagrando o conflito.

Em outubro de 2014, a Comissão Europeia fez um estudo do impacto que um corte de seis meses no fornecimento de gás natural teria em países da Europa, caso a Rússia fizesse uso desta tática híbrida. Finlândia, Estônia, Bulgária, e países do oeste dos Balcãs seriam os mais vulneráveis, podendo sofrer quedas de 80-100% no fornecimento, conforme relatado pelo RAND Arroyo Center.

Efeito do corte por 6 meses no fornecimento de gás natural russo. Comissão Europeia \ Fonte: RAND Arroyo Center

Os analistas do RAND Arroyo Center relatam que “a Rússia se considera como vítima da guerra política contemporânea”. Segundo a análise, “o país superestima o papel desempenhado pelos Estados Unidos em promover revoluções democráticas e liberais, como nos casos dos protestos Maidan (de 2014, na Ucrânia), revoluções coloridas, Primavera Árabe, e outros. O presidente Putin tende a ver estes eventos como resultantes de uma política agressiva do Ocidente”.

“A Rússia se vê como uma grande potência detentora de uma rica cultura, engajada em uma luta civilizacional com o Ocidente, que procura minar suas tradições e o próprio Estado russo, principalmente através da guerra de informação promovida pela mídia ocidental. Neste contexto, faz parte da responsabilidade do Estado (russo) defender o espaço de informação de seus cidadãos contra ideias e perspectivas oriundas de influência estrangeira”, acrescenta a análise.

A China é a grande vilã da guerra híbrida?

Dentro de um conceito ampliado de guerra híbrida, o analista Anthony Cordesman enumera em relatório do CSIS, Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais2, datado de julho de 2020, o que ele chama de “campanhas na zona cinzenta movidas pela China contra os Estados Unidos”, listadas a seguir:

Iniciativa Cinturão e Rota (Moderna Rota da Seda), por aumentar a conectividade entre Ásia, África e Europa; guerra comercial, por realizar operações econômicas na zona cinzenta; espionagem, com foco na aérea tecnológica, onde a Huawei compete com os Estados Unidos pela rede 5G; desinformação, pela manipulação nas mídias sociais; campanha marítima no Mar do Sul da China, com ilhas artificiais, zonas marítimas, e pretensões geopolíticas; alinhamento da China com a Rússia, de forma a competir com o Ocidente; expansão do mercado chinês na África, com prejuízo para os norte-americanos; ações no Ártico, onde através da Rota da Seda do Gelo a China coopera com países da região; campanha separatista, pela qual a China reage aos movimentos separatistas em Xinjiang, Hong Kong, Taiwan e Tibet.

Da leitura do relatório do CSIS, fica evidenciado que Cordesman apresenta uma visão que se restringe ao ponto de vista dos interesses norte-americanos, sem considerar a complexidade das relações Estados Unidos-China. Desta forma, o analista faz ele próprio uso da desinformação, por considerar como táticas híbridas algumas ações adotadas pelos chineses que deveriam fazer parte de um direito legítimo de buscar o desenvolvimento industrial e econômico.

Anthony Cordesman já havia abordado em relatório anterior de outubro de 2019, China e Estados Unidos: Cooperação, Competição e/ou Conflito, as difíceis relações entre os dois países, tendo como pano de fundo a emergência da China como uma potência industrial e econômica global, ameaçando a hegemonia da nação norte-americana. É dentro deste contexto de competição que se dão as acusações e retaliações contra a China, algumas já mencionadas no item sobre as ações híbridas pelos Estados Unidos.

Como parte da campanha de acusações que procuram alimentar a narrativa das intenções malignas do governo e ao Partido Comunista Chinês, cabe observar que as traduções publicadas nos Estados Unidos do livro Unrestricted Warfare3 (Guerra Irrestrita) – um manual de guerra híbrida de autoria de dois coronéis do exército chinês – receberam um adendo no título de capa, inexistente na versão original: “O Plano Mestre da China para Destruir a América”.

Campanha de desinformação no subtítulo na tradução norte-americana do manual chinês de guerra híbrida \ Foto: Handout (editada)

Notas do autor:

  1. O termo think tank é utilizado em relação a centros de reflexão e formulação de ideias, no caso relacionadas com estratégias políticas e militares. 
  2. Henry Kissinger, ex-secretário de estado norte-americano, é diretor do programa de segurança internacional do CSIS. Pesam sobre ele acusações do cometimento de crimes de guerra, detalhadas no livro e no documentário “O Julgamento de Kissinger”.
  3. O livro Guerra Irrestrita foi escrito em 1999, focando em como um oponente tecnologicamente superior poderia ser derrotado.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo blogue Chacoalhando