Guerra híbrida: vítimas e vilões

Por Ruben Rosenthal

Os principais vilões da guerra híbrida citados nos relatórios elaborados pelos analistas dos think tanks do Ocidente são a Rússia, China, Irã, Coréia do Norte e Estado Islâmico, sendo omitidas as ações híbridas por parte dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos promoveram ações cibernéticas contra a rede elétrica russa em 2018. Usina térmica em Moscou \ Foto: Maxim Shemetov/Reuters

No artigo anterior, através de uma abordagem mais acadêmica, foram apresentadas táticas que fazem parte do arsenal de recursos da guerra híbrida. Basicamente, a estratégia se propõe a alcançar os objetivos pretendidos, em geral de natureza geopolítica, sem se chegar à uma confrontação militar direta entre dois Estados. Também foram apresentados outros termos utilizados para definir estratégias semelhantes, mas com diferentes ênfases nas táticas civis e militares.

Nos Estados Unidos, além de guerra híbrida são utilizadas as expressões conflitos na zona cinzenta, guerra assimétrica, guerra irregular, guerra não convencional e guerra política. Os chineses preferem adotar guerra irrestrita, enquanto os russos empregam guerra de nova geração, poder brando e guerra não linear.

Os principais vilões da guerra híbrida citados nos relatórios elaborados pelos especialistas dos think tanks1 do Ocidente são a Rússia, China, Irã, Coréia do Norte e Estado Islâmico, omitindo as ações híbridas por parte dos Estados Unidos. Uma notável exceção foi a linha adotada no relatório Modern Political Warfare, publicado em 2018 pelo RAND Arroyo Center, unidade de pesquisa da RAND Corporation, ao afirmar que “é igualmente importante reconhecer que os Estados Unidos vêm praticando esta forma de guerra desde a sua fundação”.

O referido relatório prefere resgatar o antigo termo “guerra política”, nas 355 páginas em que descreve as operações híbridas de Estados Unidos, Rússia, Irã e Estado Islâmico. A China, que para alguns analistas do Ocidente é a principal vilã da guerra híbrida, não foi incluída no estudo. O atual artigo abordará as alegações que pesam sobre Estados Unidos, Rússia e China em relatos de think tanks e de outras fontes.

A análise apresentada no relatório do RAND Arroyo Center separa em quatro grupos, as táticas de guerra política conduzidas pelos países estudados: informação/cibernética, economia (ajuda, coerção e subversão), diplomacia/política, militar. 

Estados Unidos e suas guerras híbridas.

Desde sua fundação como nação independente, os Estados Unidos se engajaram em intervenções fora de suas fronteiras. Várias destas se deram no campo da guerra convencional, como a conquista de parte do México no século 19, a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a Guerra da Coréia, do Vietnam, do Afeganistão e do Iraque. No entanto, outras intervenções foram de natureza puramente híbrida, ou mescladas com engajamento bélico formal. 

Informação/Cibernética. Mesmo antes da assinatura da Declaração de Independência das 13 colônias da coroa inglesa, o Congresso Continental dos Estados Unidos escreveu em outubro de 1775 uma conclamação ao povo de Quebec, província de língua francesa no Canadá. Na nota havia um chamamento para a população local se revoltar contra a coroa britânica. Tal iniciativa mostra o emprego de uma tática  de informação contra o adversário mais forte, e que atualmente faz parte do manual de guerra híbrida.

Na época da guerra fria contra a União Soviética e países da “cortina ferro”, os Estados Unidos recorreram às transmissões da Rádio Liberdade e da Rádio Europa Livre. A CIA promoveu exposições de arte abstrata expressionista como forma de contrapor ao realismo Soviético, bem como financiou escritores e dramaturgos norte-americanos. Dezenas de fundações de caridade também distribuíram dinheiro proveniente CIA.

O relatório cita também a campanha de desinformação contra alguns líderes, como foi no caso de Saddam Hussein (acusado falsamente de possuir armas de destruição em massa). Entretanto não é mencionada a longeva campanha de propaganda negativa vem sendo conduzida para desestabilizar o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela. Uma recente campanha de desinformação vem sendo conduzida contra o presidente russo Vladimir Putin, com acusações de uso do agente neurotóxico Novichok contra seus opositores ainda sem comprovação efetiva.

Um relatório da OPAQ, a Organização para a Prevenção de Armas Químicas, foi manipulado como parte de uma campanha de desinformação contra presidente sírio Bashar al-Hassad de uso de gases tóxicos contra a população. A campanha foi usada para justificar ataques militares pela OTAN.

Acusações contra a China de opressão da etnia Uigur em Xinjiang parecem também envolver manipulação de informações. Também recente é a campanha do governo Trump contra a China, ao chamar o Sars Cov-2 de “vírus chinês”, acusando a China de ocultação da gravidade da pandemia de Covid-19 e ameaçando os chineses com sanções econômicas.

Os Estados Unidos vêm realizando ataques cibernéticos através da CIA contra Irã e Rússia, após uma ordem secreta de Trump em 2018.  Artigo de julho deste ano na Forbes menciona que pelo menos 12 operações desta natureza já haviam sido realizadas até aquela data. Em junho de 2019 foi lançado um ataque contra o sistema de computadores que controla os lançadores de foguetes e mísseis iranianos. Anteriormente, em 2009, a CIA já havia conduzido uma ação cibernética conjunta com Israel para destruir centrífugas utilizadas no enriquecimento de urânio iraniano.

As operações cibernéticas contra a Rússia, segundo relato no The New York Times de junho de 2019, consistiram na colocação de malwares agressivos na rede elétrica. O ataque se deu em retaliação por supostas ações russas em desinformação e raqueamento nas eleições norte-americanas de meio termo, em 2018. A Rússia também era acusada de haver instalado  malwares que, em caso de um futuro conflito com os Estados Unidos, poderiam ser usados para sabotar plantas de energia, linhas de petróleo e gás, e suprimentos de água. No entanto, desde 2012 os Estados Unidos já haviam colocado sondas de reconhecimento no sistema da rede elétrica russa.

Economia (ajuda, coerção, subversão). Segundo o relatório do RAND Arroyo Center, um exemplo do uso de coerção econômica ainda na primeira metade do século 20, foi a pressão que os Estados Unidos exerceram em países na América Central através da United Fruit Company (vem desta época a origem do termo “repúblicas de bananas”).

Repúblicas de Bananas, um termo pejorativo usado para países da América Latina e Caribe.

Com o término da Segunda Guerra Mundial, a ajuda econômica a países da Europa Ocidental através do Plano Marshall evitou o aumento da influência do comunismo. Em paralelo, foi promovida sabotagem econômica (subversão) contra a União Soviética, ressalta o relatório.

Outra ação citada de coerção no campo da economia foi a aplicação de sanções econômicas contra o regime do Apartheid, então vigente na África do Sul. Também foram aplicadas sanções econômicas ao Iraque, Irã e Síria. Não foram incluídas no relatório as recentes sanções econômicas ou barreiras comerciais impostas à Rússia, China, Venezuela, Coréia do Norte. As ações de guerra híbrida contra Cuba já perduram por décadas.

Diplomacia e Política. Ainda segundo o relatório do RAND Arroyo Center, no começo do século 20 foi dado apoio ao nacionalismo étnico, como forma de minar a unidade nos impérios Otomano e Austro-Húngaro. Durante a Guerra Fria, partidos políticos em diversos países da Europa Ocidental foram apoiados, para evitar que os comunistas vencessem as eleições nacionais. A ajuda ao movimento Solidariedade na Polônia contribuiu para solapar a influência soviética na Europa Oriental, e através do apoio ao Dalai Lama, líder espiritual do budismo tibetano, vem sendo incentivado o separatismo da província Chinesa. No período pós-Guerra Fria os Estados Unidos deram suporte a diversos movimentos ditos “pró-democracia”.

Não consta do relatório, o financiamento norte-americano, através da National Endowment for Democracy, ao Congresso Nacional Uigur, organização que visa a independência da província chinesa de Xinjiang (vizinha ao Tibet) e a desestabilização da China. Os últimos governos norte-americanos também procuraram criar instabilidade política em Hong Kong, conforme se aproxima o final do prazo de 50 anos da garantia de um sistema capitalista da ilha, com o qual a China se comprometeu com o Reino Unido pelo acordo de devolução da região à soberania chinesa.

Recentemente o governo norte-americano vem concedendo apoio político a Juan Guaidó, na Venezuela, em operação de desestabilização do presidente Nicolás Maduro. Na Arábia Saudita, o príncipe Mohammad Bin Salman recebe apoio do governo Trump, mesmo com os fortes indícios de ter sido o mandante do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi pesando sobre ele. O apoio político e diplomático também já foi concedido a outros políticos, líderes e monarcas alinhados com os interesses norte-americanos e do Ocidente, mesmo que sejam ditadores em seus países.

Um exemplo emblemático do uso da diplomacia para fortalecer ditadores em nome de interesses geopolíticos (também não mencionado no relatório), foi o apoio concedido pelo governo norte-americano, com o conluio do então primeiro-ministro britânico Tony Blair, ao presidente Karimov do Uzbequistão, um ditador que eliminava seus oponentes com requintes de extrema crueldade. O objetivo do apoio diplomático era o de fortalecer alianças na “guerra ao terror”, após os atentados de 11 de setembro de 2001. O caso foi exposto pelo ex-embaixador do Reino Unido, Craig Murray, em seu livro Diplomacia Suja.

Militar. As ações híbridas dos Estados Unidos no campo militar citadas no relatório incluem o apoio à resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Na ocasião, grupos operacionais também foram enviados a Grécia, Itália e Iugoslávia. Na Ásia, para ajudar no combate ao Japão grupos foram enviados a Tailândia, Burma (atual Mianmar), Malásia, e China.

Outro exemplo citado, foi o apoio ao golpe de estado no Irã em 1953, com a deposição de Mossadegh, primeiro-ministro nacionalista, e ascensão ao poder de um representante dos interesses norte-americanos e britânicos, o Xá Reza Pahlevi. A crueldade do novo regime contribuiu para o advento da revolução islâmica. Nos anos 50 e 60, a CIA participou do treinamento militar de resistentes tibetanos contra a ocupação e anexação do Tibet pela China, que ocorrera em 1950-51.

Placa em homenagem aos combatentes tibetanos treinados pela CIA em Camp Hale, Estados Unidos \ Foto: Nolan Peterson/Coffee or Die

As ações subversivas dos Estados Unidos na Guatemala (1954) e Chile (1973) levaram à remoção de dois presidentes eleitos democraticamente, e ascensão de governos ditatoriais. Durante os governos de Jimmy Carter e Ronald Reagan, os Estados Unidos deram apoio militar encoberto aos Contras, grupos paramilitares que se opunham aos sandinistas que governavam a Nicarágua após a derrubada do ditador Somoza. Nas últimas décadas houve o apoio militar aos mujahedeen no Afeganistão na luta contra a presença soviética, aos Curdos no Iraque, e aos rebeldes na Líbia e na Síria. As operações trouxeram desestabilização a estes países, o que possibilitou o aumento da influência do Estado Islâmico.

Uma típica ação militar híbrida não incluída no relatório foi o apoio da CIA ao KLA, o Exército de Libertação do Kosovo, quando a província ainda estava vinculada à ex-Iugoslávia, o que foi reconhecido pela própria CIA, segundo relato recente no periódico britânico Sunday Times.

Brasil, vítima da guerra híbrida dos EUA

Não foram mencionadas no relatório do Arroyo Center, as operações de desestabilização dos governos de João Goulart e de Dilma Roussef. No caso do golpe de 64, que envolveu a participação da CIA, existe farta documentação sobre o apoio financeiro, material e político dos norte-americanos.

Uma das formas utilizadas pelos Estados Unidos para desestabilizar o governo de Dilma Roussef foi através da canalização de verbas da National Endowment for Democracy para a Atlas Network, instituição ultraliberal que gerou o MBL no Brasil. A ação da Atlas Network contra o governo Roussef foi reconhecida por Ron Paul, influente político norte-americano de direita. Atualmente o Brasil sofre coerção para que não faça opção pela tecnologia 5G da empresa Huawei.

Rússia, vítima ou vilã na guerra híbrida?

O relatório do RAND Arroyo Center apresenta uma análise de ações promovidas dentro do conceito russo de “nova geração da guerra”. Dentre as táticas a que a Rússia recorreria visando minar a segurança Europeia está a parceria com grupos armados, a guerra de propaganda e operações encobertas.

No relatório, a Estônia – ex-república da União Soviética – foi tomada como exemplo de um caso de guerra política fomentada pela Rússia. O foco do estudo foi a província de Ida-Viru, que tem uma maioria de 80% de cidadãos de língua russa, o que poderia torná-la suscetível a uma campanha separatista. Apesar do avançado sistema de bem estar social da Estônia, as taxas de desemprego e de pobreza são maiores nas áreas rurais de população russa.

A Rússia se opôs à política de integração da Estônia com a Europa Ocidental, e teria procurado minar o governo central. O relatório cita os incidentes da chamada “noite de bronze”, como um exemplo concreto de guerra política. Os eventos ocorreram a partir de abril de 2007, quando as autoridades estonianas resolveram remover uma estátua que comemorava a vitória soviética na Segunda Guerra Mundial. Ocorreram protestos da comunidade russa da Estônia, que logo se transformaram em distúrbios. Seguiu-se uma série de ataques cibernéticos, que foram atribuídos à Rússia.

Para Hal Brands, analista sênior do FPRI (Instituto de Pesquisa em Política Internacional), a Rússia recorreu a táticas na zona cinzenta em operações na Criméia que levaram à anexação da região em 2014, desmembrada da Ucrânia. Segundo relatado em artigo de Vladimir Batyuk, professor de relações internacionais em Moscou, o Pentágono ficou extremamente alarmado que a Criméia fora anexada “sem o disparo de um único tiro”. Os analistas norte-americanos ficaram preocupados com as “novas táticas das forças armadas russas, que incluiriam forças especiais, guerra cibernética, propaganda e operações encobertas”.

De acordo com o analista russo Ruslan Pukhov, diretor do Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias e editor do jornal Moscow Defense Brief, os militares russos conseguiram convencer oitenta por cento das forças ucranianas a desertar ou passar em massa para o lado russo; os outros 20 por cento decidiram continuar a servir nas forças armadas ucranianas, mas deixaram a Criméia, sem opor qualquer resistência. Isto só foi possível porque a maioria das forças ucranianas na Criméia consistia de pessoal originário da própria região. Pukhov relata que não ocorreram relatos do uso de operações cibernéticas na Criméia. Ele acrescenta ainda que descrever os eventos ocorridos na Ucrânia como guerra híbrida é uma tentativa, com motivações políticas, de exagerar os fatores externos no conflito, em detrimento dos internos.

O ex-oficial da marinha norte americana e especialista em guerra híbrida, Frank Hoffman, relatou que em 2008 a Rússia empregou táticas híbridas para que a Ossétia do Sul e a Abecássia se separassem da Geórgia (uma ex-república soviética), através da ação de milícias da Ossétia do Norte (província autônoma russa) e de mercenários da Chechênia (república da federação russa). Para o Carnegie Council, o livro The Tanks of August (Os tanques de agosto), publicado pelo Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias, da Rússia, é uma leitura fundamental para se entender a perspectiva da Rússia e as condições que levaram ao conflito armado de cinco dias. A Geórgia, que desde o ano 2000 vinha aumentando sua capacidade militar e investira oito por cento do PIB em armamentos em 2007/2008, tomou a iniciativa de um ataque surpresa em Tskhinvali, na Ossétia do Sul, deflagrando o conflito.

Em outubro de 2014, a Comissão Europeia fez um estudo do impacto que um corte de seis meses no fornecimento de gás natural teria em países da Europa, caso a Rússia fizesse uso desta tática híbrida. Finlândia, Estônia, Bulgária, e países do oeste dos Balcãs seriam os mais vulneráveis, podendo sofrer quedas de 80-100% no fornecimento, conforme relatado pelo RAND Arroyo Center.

Efeito do corte por 6 meses no fornecimento de gás natural russo. Comissão Europeia \ Fonte: RAND Arroyo Center

Os analistas do RAND Arroyo Center relatam que “a Rússia se considera como vítima da guerra política contemporânea”. Segundo a análise, “o país superestima o papel desempenhado pelos Estados Unidos em promover revoluções democráticas e liberais, como nos casos dos protestos Maidan (de 2014, na Ucrânia), revoluções coloridas, Primavera Árabe, e outros. O presidente Putin tende a ver estes eventos como resultantes de uma política agressiva do Ocidente”.

“A Rússia se vê como uma grande potência detentora de uma rica cultura, engajada em uma luta civilizacional com o Ocidente, que procura minar suas tradições e o próprio Estado russo, principalmente através da guerra de informação promovida pela mídia ocidental. Neste contexto, faz parte da responsabilidade do Estado (russo) defender o espaço de informação de seus cidadãos contra ideias e perspectivas oriundas de influência estrangeira”, acrescenta a análise.

A China é a grande vilã da guerra híbrida?

Dentro de um conceito ampliado de guerra híbrida, o analista Anthony Cordesman enumera em relatório do CSIS, Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais2, datado de julho de 2020, o que ele chama de “campanhas na zona cinzenta movidas pela China contra os Estados Unidos”, listadas a seguir:

Iniciativa Cinturão e Rota (Moderna Rota da Seda), por aumentar a conectividade entre Ásia, África e Europa; guerra comercial, por realizar operações econômicas na zona cinzenta; espionagem, com foco na aérea tecnológica, onde a Huawei compete com os Estados Unidos pela rede 5G; desinformação, pela manipulação nas mídias sociais; campanha marítima no Mar do Sul da China, com ilhas artificiais, zonas marítimas, e pretensões geopolíticas; alinhamento da China com a Rússia, de forma a competir com o Ocidente; expansão do mercado chinês na África, com prejuízo para os norte-americanos; ações no Ártico, onde através da Rota da Seda do Gelo a China coopera com países da região; campanha separatista, pela qual a China reage aos movimentos separatistas em Xinjiang, Hong Kong, Taiwan e Tibet.

Da leitura do relatório do CSIS, fica evidenciado que Cordesman apresenta uma visão que se restringe ao ponto de vista dos interesses norte-americanos, sem considerar a complexidade das relações Estados Unidos-China. Desta forma, o analista faz ele próprio uso da desinformação, por considerar como táticas híbridas algumas ações adotadas pelos chineses que deveriam fazer parte de um direito legítimo de buscar o desenvolvimento industrial e econômico.

Anthony Cordesman já havia abordado em relatório anterior de outubro de 2019, China e Estados Unidos: Cooperação, Competição e/ou Conflito, as difíceis relações entre os dois países, tendo como pano de fundo a emergência da China como uma potência industrial e econômica global, ameaçando a hegemonia da nação norte-americana. É dentro deste contexto de competição que se dão as acusações e retaliações contra a China, algumas já mencionadas no item sobre as ações híbridas pelos Estados Unidos.

Como parte da campanha de acusações que procuram alimentar a narrativa das intenções malignas do governo e ao Partido Comunista Chinês, cabe observar que as traduções publicadas nos Estados Unidos do livro Unrestricted Warfare3 (Guerra Irrestrita) – um manual de guerra híbrida de autoria de dois coronéis do exército chinês – receberam um adendo no título de capa, inexistente na versão original: “O Plano Mestre da China para Destruir a América”.

Campanha de desinformação no subtítulo na tradução norte-americana do manual chinês de guerra híbrida \ Foto: Handout (editada)

Notas do autor:

  1. O termo think tank é utilizado em relação a centros de reflexão e formulação de ideias, no caso relacionadas com estratégias políticas e militares. 
  2. Henry Kissinger, ex-secretário de estado norte-americano, é diretor do programa de segurança internacional do CSIS. Pesam sobre ele acusações do cometimento de crimes de guerra, detalhadas no livro e no documentário “O Julgamento de Kissinger”.
  3. O livro Guerra Irrestrita foi escrito em 1999, focando em como um oponente tecnologicamente superior poderia ser derrotado.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo blogue Chacoalhando

Guerra híbrida: subversão e ingerência externa 2.0

Por Ruben Rosenthal

Qualquer medida adotada por um país que seja vista pelos Estados Unidos como prejudicial aos seus interesses econômicos ou geopolíticos, poderá ser considerada como parte de uma estratégia de guerra híbrida, sujeitando este país à retaliação.

Guerra híbrida, um jogo apenas para mestres \ iStock/Getty Images Plus

Para o russo Ruslan Pukhov, Diretor do Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias (CAST), a guerra híbrida não é uma inovação. “Ações que recebem esta classificação estiveram presentes em conflitos armados de baixa intensidade nas décadas recentes e mesmo séculos. É difícil imaginar o uso de força militar sem o apoio de informações ou sanções econômicas, guerra clandestina, ou tentativas de desmoralizar o inimigo e explorar as divisões no campo adversário”. A novidade é o uso de tecnologias avançadas, como as que utilizam recursos cibernéticos.

Para a maior parte dos analistas políticos do Ocidente os principais vilões da chamada “guerra híbrida” são China, Rússia, Irã, Coréia de Norte e Estado Islâmico. A partir desta narrativa, foram criadas justificativas para que os Estados Unidos e seus aliados adotassem medidas punitivas, como sanções econômicas, ações de sabotagem e ataques cibernéticos. Entretanto, qualquer análise minimamente isenta poderá constatar que os Estados Unidos já incorporaram há décadas em suas ações de ingerência externa, muitas das táticas q

ue hoje constam dos manuais da guerra híbrida. 

Guerra política ou híbrida: Nome para uma estratégia 

Algumas décadas antes do surgimento da expressão “guerra híbrida”, o termo political warfare (guerra política) já era utilizado, atribuído ao diplomata norte-americano George Kennan. No memorando de 1948 The Inauguration of Organized Political Warfare, elaborado no início da chamada Guerra Fria entre as duas superpotências da época, Kennan considerou que a estratégia da guerra política seria um importante meio dos Estados Unidos vencerem a batalha ideológica contra o regime comunista da União Soviética.

Na definição de Kennan: “Guerra política é a aplicação lógica da doutrina de Clausevitz1 em tempos de paz. Em uma definição geral, é o emprego de todos os meios por parte de um país para alcançar seus objetivos nacionais, à exceção da guerra formal. Estes meios variam desde ações abertas, como alianças políticas, medidas econômicas e propaganda positiva, até ações ocultas, como apoio clandestino a grupos simpatizantes em outros países, guerra psicológica com informações falsas, e mesmo o encorajamento de resistência clandestina em países hostis”. 

Em 1964, o coronel francês Roger Trinquier usou o termo subversive warfare (guerra subversiva) quase no mesmo sentido com que Kennan empregou political warfare: “um sistema interligado de ações políticas, econômicas, psicológicas e militares que objetivam a derrubada da autoridade estabelecida de um país, e a substituição por outra”.

A expressão hybrid warfare (guerra híbrida) começou a ser utilizada durante a guerra do Iraque. No entanto, a definição que ainda hoje prevalece nos setores militares norte-americanos não enfatiza as táticas valorizadas pela “guerra política”, que são principalmente de natureza civil. Da forma que é comumente entendida, a guerra híbrida sugere uma combinação de meios militares convencionais com táticas militares irregulares (não convencionais) e não cinéticas (não envolvem ações militares). Já as ferramentas preponderantes na guerra política são essencialmente de natureza não cinética; a combinação com táticas militares concede o aspecto híbrido.

Em artigo publicado em 2008 no “Army Magazine”, o então Chefe do Estado Maior do Exército dos Estados Unidos, General George Casey, apresentou uma definição de guerra híbrida como “combinações diversas e dinâmicas de capacidades convencionais, irregulares, terroristas e criminosas”. Em 2009, Frank Hoffman, oficial aposentado da marinha norte-americana, considerou que as operações híbridas não se limitam a atores não estatais: “para implementar novas táticas, os Estados podem adaptar suas unidades convencionais em formações irregulares”. 

Também em 2009, o Comando Conjunto das Forças dos Estados Unidos definiu a ameaça híbrida (página 18 do documento) como “qualquer adversário que para obter seus objetivos políticos, empregue de forma adaptável e simultânea uma mistura de (1) meios políticos, militares, econômicos, sociais e de informação, e (2) armas convencionais, táticas irregulares, terrorismo e comportamento criminoso no espaço de batalha. Este adversário pode se constituir de uma mescla de atores estatais e não estatais”.

Em artigo de fevereiro de 2013 publicado no Military Industrial Courier, o Chefe do Estado Maior russo, Valery Gerasimov, abordou a mudança da natureza da guerra: “No século 20 e 21, vemos uma tendência para tornar indefinidas as linhas de separação entre os estados de guerra e de paz. As guerras não são mais declaradas e, uma vez começadas, prosseguem de acordo com um modelo não familiar”.

“Cresceu o papel dos meios não militares para se alcançar objetivos políticos e estratégicos e, em muitos casos, eles excederam em efetividade o poder da força pelas armas. O foco dos métodos de conflito mudou na direção do uso amplo de medidas políticas, econômicas, de informação, humanitárias e outras não militares, aplicadas em coordenação com o potencial de protesto da população”.

“Tudo isto suplementado por meios militares de caráter oculto, incluindo ações de conflito de informações e de forças operacionais especiais. Só é necessário se recorrer ao uso ostensivo de forças (militares) em dado momento, sob o disfarce de manter a paz ou conduzir crises, principalmente para alcançar o sucesso final no conflito”, complementou Gerasimov.

Em artigo de 2014, Frank Hoffman avaliou que o termo guerra política proposto por Kennan é impreciso. Se for considerada a afirmação de Clausewitz de que “a guerra é a continuação da política por outros meios”, então todas as guerras, mesmo as convencionais, são políticas. Haveria então desacordo com o conceito estabelecido a partir de Kennan, que exclui da abrangência da guerra política, o confronto bélico convencional entre os atores principais.  

Neste artigo, Hoffman questiona ainda as qualificações de Kennan para propor uma teoria militar, e que o diplomata não teria compreensão de Clausevitz apesar de citá-lo. Indo mais além em suas críticas a Kennan, Hoffman discorda que os esforços de contenção das ameaças de guerra política (híbrida) deveriam estar centrados no Departamento de Estado, pois isto iria apenas resultar “em elaboração de memorandos”. As fortes críticas de Hoffman a Kennan parecem ser o reflexo de duas visões que se contrapõem nos governos norte-americanos, uma militar e outra diplomática/civil.

Guerra não convencional

Hoffman concede, no entanto, que “uma definição de conflitos híbridos focada em táticas associadas com violência e guerra excluiria as ações econômicas, financeiras, informações falsas e atos políticos subversivos, como criar e fazer uso de sindicatos e ONGs de fachada”. Mesmo preferindo o termo “guerra híbrida” do que “guerra política”, ele considera que seria mais apropriado o uso de um terceiro termo, “guerra não convencional”, proposto por David Maxwell, coronel aposentado das Forças Especiais do Exército. Hoffman questiona ainda se, ao invés de “guerra”, não seria melhor adotar “conflito não convencional” ou “operações não convencionais”, termos que expandiriam o conceito da estratégia além da estreita visão militar.

O Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos publicou o documento “Estratégia Militar Nacional dos Estados Unidos de 2015”, voltado para a “necessidade de contenção de Estados revisionistas que desafiam as normas internacionais, bem como de organizações extremistas violentas que estão solapando a segurança trans regional”.

Na avaliação do documento, “a probabilidade dos EUA se envolverem em uma guerra convencional com outro Estado é baixa, mas crescente. Este tipo de conflito pode incluir o uso de força militar em larga escala e de tecnologias militares sofisticadas em múltiplos domínios para derrotar o inimigo, inclusive armas de destruição em massa”.

Em contraste, “organizações extremistas violentas trazem um risco imediato à segurança trans regional, por associarem tecnologias atuais com ideologias extremistas. Estas organizações utilizam pequenas unidades e redes, dispositivos explosivos improvisados, pequenas armas, propaganda e terror. Em comparação com os conflitos entre Estados, a probabilidade de ocorrência destes conflitos é grande, mas as consequências são menores”.

“Existe uma área de conflitos onde os atores estatais e não estatais mesclam técnicas, capacidades e recursos para alcançar seus objetivos, como se observou no leste da Ucrânia. Tais conflitos ‘híbridos’ podem incluir tanto sistemas assimétricos2 como os militares tradicionais, e estão situados em uma escala intermediária de probabilidade de ocorrência e de gravidade das consequências, em relação aos dois casos anteriores”.

“Os conflitos híbridos servem para aumentar a ambiguidade, dificultar a tomada de decisões e retardar a coordenação de respostas efetivas. Devido a estas vantagens concedidas ao agressor, é provável que esta forma de conflito persista no futuro”, conclui o documento do Estado-Maior Conjunto.

O documento de 2018 da Estratégia Militar Nacional dos Estados Unidos não faz referência explícita à guerra híbrida, pelo menos na parte que não foi considerada como de distribuição restrita. Junto com a ênfase de investimentos em capacitação da supremacia militar em operacionalidade e letalidade, está a competição efetiva em um nível abaixo do conflito armado. “A Força Conjunta e seus líderes devem estar confortáveis em combater no espaço ou  no campo cibernético”, acrescenta.

Indo na contramão da adoção do termo guerra híbrida pelo Estado-Maior Conjunto norte-americano, o relatório Modern Political Warfare (Guerra Política Moderna) publicado em 2018 apresenta a pesquisa conduzida pelo RAND Arroyo Center, financiada pelo Comando G-9 de Operações Especiais do Exército dos Estados Unidos. O Centro faz parte da RAND Corporation, um think tank3 que oferece análises para as forças armadas.

Conflitos na zona cinzenta

Os especialistas do Arroyo Center preferiram resgatar no relatório de 355 páginas o uso da expressão guerra política, devido à sua raiz histórica. “A guerra política não é nem inteiramente composta de ações econômicas e diplomáticas regulares, nem no outro extremo, uma guerra convencional entre Estados; ela está situada em uma zona cinzenta indefinida (gray zone) entre estes dois limites. A escolha da terminologia correta tem importância acadêmica, mas de maior relevância é firmar o entendimento que as medidas de coercitivas devem ficar abaixo do patamar do conflito cinético, para não se incorrer no risco de envolvimento em operações militares em escala total”. 

A “moderna guerra política” incorpora e aprimora táticas que não existiam no século 20, surgidas principalmente pelo advento de novas tecnologias, como a internet e as mídias sociais. “A estratégia também precisa considerar que não se trata mais de lidar com um cenário de sociedades fechadas, como na Guerra Fria. Por outro lado, a existência de organizações como Wikileaks torna mais difícil para os Estados Unidos agirem encobertos, como durante a Guerra Fria”, analisa o relatório do RAND Arroyo Center.

Nos Estados Unidos, além da expressão guerra híbrida, os especialistas dos think tanks adotaram os termos gray zone conflicts (literalmente, conflitos na zona cinzenta), asymmetric warfare (guerra assimétrica), irregular warfare (guerra irregular) e unconventional warfare (guerra não convencional). Já os chineses preferem adotar a expressão unrestricted warfare (guerra irrestrita) na descrição de estratégia semelhante, enquanto que os oficiais russos empregam soft power (poder brando), new generation warfare (guerra de nova geração) e non-linear warfare (guerra não linear).

Em relatório de julho de 2020, Anthony Cordesman, analista do think tank norte-americano CSIS, Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, considera que a estratégia dos Estados Unidos deve estar baseada na presunção de que não existem regras fixas para definir as operações na zona cinzenta, mas “o nível de violência não deveria ultrapassar um baixo patamar, como o que ocorre nas operações de mercenários”.

Os think tanks norte-americanos são em geral mantidos por doações feitas por empresas, indivíduos, fundações, órgãos do governo, e mesmo por outras nações. Assim, estes centros de formulação de estratégias defendem visões que contribuem para reforçar a influência global dos Estados Unidos. Portanto, não constitui surpresa que os principais vilões da guerra híbrida citados nos relatórios elaborados pelos especialistas dos think tanks sejam Rússia, China, Irã, Coréia do Norte e Estado Islâmico, como já mencionado no início deste artigo.

Qualquer medida adotada por um país que seja vista pelos Estados Unidos como prejudicial aos seus interesses econômicos ou geopolíticos, poderá ser considerada como parte de uma estratégia de guerra híbrida, sujeitando este país à retaliação. 

A segunda parte do artigo aborda operações  híbridas atribuídas aos Estados Unidos, China e Rússia pelos relatos de think tanks e da mídia. Mas nem sempre vítima e agressor podem ser identificados com clareza, pois a desinformação é uma das principais táticas da guerra híbrida.

Notas do autor:

  1. O militar e estrategista prussiano Carl Von Clausewitz é autor do tratado “Da Guerra”, publicado em 1832.
  2. Nos sistemas assimétricos um adversário não precisa ter a mesma capacidade de combate que as forças opostas. Uma pequena equipe altamente especializada consegue neutralizar o sistema GPS de um porta-aviões.
  3. A expressão think tank é utilizada em referência a centros de reflexão e de formulação de estratégias, no caso políticas e militares. 

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo blogue Chacoalhando