Guerra híbrida: vítimas e vilões

Por Ruben Rosenthal

Os principais vilões da guerra híbrida citados nos relatórios elaborados pelos analistas dos think tanks do Ocidente são a Rússia, China, Irã, Coréia do Norte e Estado Islâmico, sendo omitidas as ações híbridas por parte dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos promoveram ações cibernéticas contra a rede elétrica russa em 2018. Usina térmica em Moscou \ Foto: Maxim Shemetov/Reuters

No artigo anterior, através de uma abordagem mais acadêmica, foram apresentadas táticas que fazem parte do arsenal de recursos da guerra híbrida. Basicamente, a estratégia se propõe a alcançar os objetivos pretendidos, em geral de natureza geopolítica, sem se chegar à uma confrontação militar direta entre dois Estados. Também foram apresentados outros termos utilizados para definir estratégias semelhantes, mas com diferentes ênfases nas táticas civis e militares.

Nos Estados Unidos, além de guerra híbrida são utilizadas as expressões conflitos na zona cinzenta, guerra assimétrica, guerra irregular, guerra não convencional e guerra política. Os chineses preferem adotar guerra irrestrita, enquanto os russos empregam guerra de nova geração, poder brando e guerra não linear.

Os principais vilões da guerra híbrida citados nos relatórios elaborados pelos especialistas dos think tanks1 do Ocidente são a Rússia, China, Irã, Coréia do Norte e Estado Islâmico, omitindo as ações híbridas por parte dos Estados Unidos. Uma notável exceção foi a linha adotada no relatório Modern Political Warfare, publicado em 2018 pelo RAND Arroyo Center, unidade de pesquisa da RAND Corporation, ao afirmar que “é igualmente importante reconhecer que os Estados Unidos vêm praticando esta forma de guerra desde a sua fundação”.

O referido relatório prefere resgatar o antigo termo “guerra política”, nas 355 páginas em que descreve as operações híbridas de Estados Unidos, Rússia, Irã e Estado Islâmico. A China, que para alguns analistas do Ocidente é a principal vilã da guerra híbrida, não foi incluída no estudo. O atual artigo abordará as alegações que pesam sobre Estados Unidos, Rússia e China em relatos de think tanks e de outras fontes.

A análise apresentada no relatório do RAND Arroyo Center separa em quatro grupos, as táticas de guerra política conduzidas pelos países estudados: informação/cibernética, economia (ajuda, coerção e subversão), diplomacia/política, militar. 

Estados Unidos e suas guerras híbridas.

Desde sua fundação como nação independente, os Estados Unidos se engajaram em intervenções fora de suas fronteiras. Várias destas se deram no campo da guerra convencional, como a conquista de parte do México no século 19, a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a Guerra da Coréia, do Vietnam, do Afeganistão e do Iraque. No entanto, outras intervenções foram de natureza puramente híbrida, ou mescladas com engajamento bélico formal. 

Informação/Cibernética. Mesmo antes da assinatura da Declaração de Independência das 13 colônias da coroa inglesa, o Congresso Continental dos Estados Unidos escreveu em outubro de 1775 uma conclamação ao povo de Quebec, província de língua francesa no Canadá. Na nota havia um chamamento para a população local se revoltar contra a coroa britânica. Tal iniciativa mostra o emprego de uma tática  de informação contra o adversário mais forte, e que atualmente faz parte do manual de guerra híbrida.

Na época da guerra fria contra a União Soviética e países da “cortina ferro”, os Estados Unidos recorreram às transmissões da Rádio Liberdade e da Rádio Europa Livre. A CIA promoveu exposições de arte abstrata expressionista como forma de contrapor ao realismo Soviético, bem como financiou escritores e dramaturgos norte-americanos. Dezenas de fundações de caridade também distribuíram dinheiro proveniente CIA.

O relatório cita também a campanha de desinformação contra alguns líderes, como foi no caso de Saddam Hussein (acusado falsamente de possuir armas de destruição em massa). Entretanto não é mencionada a longeva campanha de propaganda negativa vem sendo conduzida para desestabilizar o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela. Uma recente campanha de desinformação vem sendo conduzida contra o presidente russo Vladimir Putin, com acusações de uso do agente neurotóxico Novichok contra seus opositores ainda sem comprovação efetiva.

Um relatório da OPAQ, a Organização para a Prevenção de Armas Químicas, foi manipulado como parte de uma campanha de desinformação contra presidente sírio Bashar al-Hassad de uso de gases tóxicos contra a população. A campanha foi usada para justificar ataques militares pela OTAN.

Acusações contra a China de opressão da etnia Uigur em Xinjiang parecem também envolver manipulação de informações. Também recente é a campanha do governo Trump contra a China, ao chamar o Sars Cov-2 de “vírus chinês”, acusando a China de ocultação da gravidade da pandemia de Covid-19 e ameaçando os chineses com sanções econômicas.

Os Estados Unidos vêm realizando ataques cibernéticos através da CIA contra Irã e Rússia, após uma ordem secreta de Trump em 2018.  Artigo de julho deste ano na Forbes menciona que pelo menos 12 operações desta natureza já haviam sido realizadas até aquela data. Em junho de 2019 foi lançado um ataque contra o sistema de computadores que controla os lançadores de foguetes e mísseis iranianos. Anteriormente, em 2009, a CIA já havia conduzido uma ação cibernética conjunta com Israel para destruir centrífugas utilizadas no enriquecimento de urânio iraniano.

As operações cibernéticas contra a Rússia, segundo relato no The New York Times de junho de 2019, consistiram na colocação de malwares agressivos na rede elétrica. O ataque se deu em retaliação por supostas ações russas em desinformação e raqueamento nas eleições norte-americanas de meio termo, em 2018. A Rússia também era acusada de haver instalado  malwares que, em caso de um futuro conflito com os Estados Unidos, poderiam ser usados para sabotar plantas de energia, linhas de petróleo e gás, e suprimentos de água. No entanto, desde 2012 os Estados Unidos já haviam colocado sondas de reconhecimento no sistema da rede elétrica russa.

Economia (ajuda, coerção, subversão). Segundo o relatório do RAND Arroyo Center, um exemplo do uso de coerção econômica ainda na primeira metade do século 20, foi a pressão que os Estados Unidos exerceram em países na América Central através da United Fruit Company (vem desta época a origem do termo “repúblicas de bananas”).

Repúblicas de Bananas, um termo pejorativo usado para países da América Latina e Caribe.

Com o término da Segunda Guerra Mundial, a ajuda econômica a países da Europa Ocidental através do Plano Marshall evitou o aumento da influência do comunismo. Em paralelo, foi promovida sabotagem econômica (subversão) contra a União Soviética, ressalta o relatório.

Outra ação citada de coerção no campo da economia foi a aplicação de sanções econômicas contra o regime do Apartheid, então vigente na África do Sul. Também foram aplicadas sanções econômicas ao Iraque, Irã e Síria. Não foram incluídas no relatório as recentes sanções econômicas ou barreiras comerciais impostas à Rússia, China, Venezuela, Coréia do Norte. As ações de guerra híbrida contra Cuba já perduram por décadas.

Diplomacia e Política. Ainda segundo o relatório do RAND Arroyo Center, no começo do século 20 foi dado apoio ao nacionalismo étnico, como forma de minar a unidade nos impérios Otomano e Austro-Húngaro. Durante a Guerra Fria, partidos políticos em diversos países da Europa Ocidental foram apoiados, para evitar que os comunistas vencessem as eleições nacionais. A ajuda ao movimento Solidariedade na Polônia contribuiu para solapar a influência soviética na Europa Oriental, e através do apoio ao Dalai Lama, líder espiritual do budismo tibetano, vem sendo incentivado o separatismo da província Chinesa. No período pós-Guerra Fria os Estados Unidos deram suporte a diversos movimentos ditos “pró-democracia”.

Não consta do relatório, o financiamento norte-americano, através da National Endowment for Democracy, ao Congresso Nacional Uigur, organização que visa a independência da província chinesa de Xinjiang (vizinha ao Tibet) e a desestabilização da China. Os últimos governos norte-americanos também procuraram criar instabilidade política em Hong Kong, conforme se aproxima o final do prazo de 50 anos da garantia de um sistema capitalista da ilha, com o qual a China se comprometeu com o Reino Unido pelo acordo de devolução da região à soberania chinesa.

Recentemente o governo norte-americano vem concedendo apoio político a Juan Guaidó, na Venezuela, em operação de desestabilização do presidente Nicolás Maduro. Na Arábia Saudita, o príncipe Mohammad Bin Salman recebe apoio do governo Trump, mesmo com os fortes indícios de ter sido o mandante do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi pesando sobre ele. O apoio político e diplomático também já foi concedido a outros políticos, líderes e monarcas alinhados com os interesses norte-americanos e do Ocidente, mesmo que sejam ditadores em seus países.

Um exemplo emblemático do uso da diplomacia para fortalecer ditadores em nome de interesses geopolíticos (também não mencionado no relatório), foi o apoio concedido pelo governo norte-americano, com o conluio do então primeiro-ministro britânico Tony Blair, ao presidente Karimov do Uzbequistão, um ditador que eliminava seus oponentes com requintes de extrema crueldade. O objetivo do apoio diplomático era o de fortalecer alianças na “guerra ao terror”, após os atentados de 11 de setembro de 2001. O caso foi exposto pelo ex-embaixador do Reino Unido, Craig Murray, em seu livro Diplomacia Suja.

Militar. As ações híbridas dos Estados Unidos no campo militar citadas no relatório incluem o apoio à resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Na ocasião, grupos operacionais também foram enviados a Grécia, Itália e Iugoslávia. Na Ásia, para ajudar no combate ao Japão grupos foram enviados a Tailândia, Burma (atual Mianmar), Malásia, e China.

Outro exemplo citado, foi o apoio ao golpe de estado no Irã em 1953, com a deposição de Mossadegh, primeiro-ministro nacionalista, e ascensão ao poder de um representante dos interesses norte-americanos e britânicos, o Xá Reza Pahlevi. A crueldade do novo regime contribuiu para o advento da revolução islâmica. Nos anos 50 e 60, a CIA participou do treinamento militar de resistentes tibetanos contra a ocupação e anexação do Tibet pela China, que ocorrera em 1950-51.

Placa em homenagem aos combatentes tibetanos treinados pela CIA em Camp Hale, Estados Unidos \ Foto: Nolan Peterson/Coffee or Die

As ações subversivas dos Estados Unidos na Guatemala (1954) e Chile (1973) levaram à remoção de dois presidentes eleitos democraticamente, e ascensão de governos ditatoriais. Durante os governos de Jimmy Carter e Ronald Reagan, os Estados Unidos deram apoio militar encoberto aos Contras, grupos paramilitares que se opunham aos sandinistas que governavam a Nicarágua após a derrubada do ditador Somoza. Nas últimas décadas houve o apoio militar aos mujahedeen no Afeganistão na luta contra a presença soviética, aos Curdos no Iraque, e aos rebeldes na Líbia e na Síria. As operações trouxeram desestabilização a estes países, o que possibilitou o aumento da influência do Estado Islâmico.

Uma típica ação militar híbrida não incluída no relatório foi o apoio da CIA ao KLA, o Exército de Libertação do Kosovo, quando a província ainda estava vinculada à ex-Iugoslávia, o que foi reconhecido pela própria CIA, segundo relato recente no periódico britânico Sunday Times.

Brasil, vítima da guerra híbrida dos EUA

Não foram mencionadas no relatório do Arroyo Center, as operações de desestabilização dos governos de João Goulart e de Dilma Roussef. No caso do golpe de 64, que envolveu a participação da CIA, existe farta documentação sobre o apoio financeiro, material e político dos norte-americanos.

Uma das formas utilizadas pelos Estados Unidos para desestabilizar o governo de Dilma Roussef foi através da canalização de verbas da National Endowment for Democracy para a Atlas Network, instituição ultraliberal que gerou o MBL no Brasil. A ação da Atlas Network contra o governo Roussef foi reconhecida por Ron Paul, influente político norte-americano de direita. Atualmente o Brasil sofre coerção para que não faça opção pela tecnologia 5G da empresa Huawei.

Rússia, vítima ou vilã na guerra híbrida?

O relatório do RAND Arroyo Center apresenta uma análise de ações promovidas dentro do conceito russo de “nova geração da guerra”. Dentre as táticas a que a Rússia recorreria visando minar a segurança Europeia está a parceria com grupos armados, a guerra de propaganda e operações encobertas.

No relatório, a Estônia – ex-república da União Soviética – foi tomada como exemplo de um caso de guerra política fomentada pela Rússia. O foco do estudo foi a província de Ida-Viru, que tem uma maioria de 80% de cidadãos de língua russa, o que poderia torná-la suscetível a uma campanha separatista. Apesar do avançado sistema de bem estar social da Estônia, as taxas de desemprego e de pobreza são maiores nas áreas rurais de população russa.

A Rússia se opôs à política de integração da Estônia com a Europa Ocidental, e teria procurado minar o governo central. O relatório cita os incidentes da chamada “noite de bronze”, como um exemplo concreto de guerra política. Os eventos ocorreram a partir de abril de 2007, quando as autoridades estonianas resolveram remover uma estátua que comemorava a vitória soviética na Segunda Guerra Mundial. Ocorreram protestos da comunidade russa da Estônia, que logo se transformaram em distúrbios. Seguiu-se uma série de ataques cibernéticos, que foram atribuídos à Rússia.

Para Hal Brands, analista sênior do FPRI (Instituto de Pesquisa em Política Internacional), a Rússia recorreu a táticas na zona cinzenta em operações na Criméia que levaram à anexação da região em 2014, desmembrada da Ucrânia. Segundo relatado em artigo de Vladimir Batyuk, professor de relações internacionais em Moscou, o Pentágono ficou extremamente alarmado que a Criméia fora anexada “sem o disparo de um único tiro”. Os analistas norte-americanos ficaram preocupados com as “novas táticas das forças armadas russas, que incluiriam forças especiais, guerra cibernética, propaganda e operações encobertas”.

De acordo com o analista russo Ruslan Pukhov, diretor do Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias e editor do jornal Moscow Defense Brief, os militares russos conseguiram convencer oitenta por cento das forças ucranianas a desertar ou passar em massa para o lado russo; os outros 20 por cento decidiram continuar a servir nas forças armadas ucranianas, mas deixaram a Criméia, sem opor qualquer resistência. Isto só foi possível porque a maioria das forças ucranianas na Criméia consistia de pessoal originário da própria região. Pukhov relata que não ocorreram relatos do uso de operações cibernéticas na Criméia. Ele acrescenta ainda que descrever os eventos ocorridos na Ucrânia como guerra híbrida é uma tentativa, com motivações políticas, de exagerar os fatores externos no conflito, em detrimento dos internos.

O ex-oficial da marinha norte americana e especialista em guerra híbrida, Frank Hoffman, relatou que em 2008 a Rússia empregou táticas híbridas para que a Ossétia do Sul e a Abecássia se separassem da Geórgia (uma ex-república soviética), através da ação de milícias da Ossétia do Norte (província autônoma russa) e de mercenários da Chechênia (república da federação russa). Para o Carnegie Council, o livro The Tanks of August (Os tanques de agosto), publicado pelo Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias, da Rússia, é uma leitura fundamental para se entender a perspectiva da Rússia e as condições que levaram ao conflito armado de cinco dias. A Geórgia, que desde o ano 2000 vinha aumentando sua capacidade militar e investira oito por cento do PIB em armamentos em 2007/2008, tomou a iniciativa de um ataque surpresa em Tskhinvali, na Ossétia do Sul, deflagrando o conflito.

Em outubro de 2014, a Comissão Europeia fez um estudo do impacto que um corte de seis meses no fornecimento de gás natural teria em países da Europa, caso a Rússia fizesse uso desta tática híbrida. Finlândia, Estônia, Bulgária, e países do oeste dos Balcãs seriam os mais vulneráveis, podendo sofrer quedas de 80-100% no fornecimento, conforme relatado pelo RAND Arroyo Center.

Efeito do corte por 6 meses no fornecimento de gás natural russo. Comissão Europeia \ Fonte: RAND Arroyo Center

Os analistas do RAND Arroyo Center relatam que “a Rússia se considera como vítima da guerra política contemporânea”. Segundo a análise, “o país superestima o papel desempenhado pelos Estados Unidos em promover revoluções democráticas e liberais, como nos casos dos protestos Maidan (de 2014, na Ucrânia), revoluções coloridas, Primavera Árabe, e outros. O presidente Putin tende a ver estes eventos como resultantes de uma política agressiva do Ocidente”.

“A Rússia se vê como uma grande potência detentora de uma rica cultura, engajada em uma luta civilizacional com o Ocidente, que procura minar suas tradições e o próprio Estado russo, principalmente através da guerra de informação promovida pela mídia ocidental. Neste contexto, faz parte da responsabilidade do Estado (russo) defender o espaço de informação de seus cidadãos contra ideias e perspectivas oriundas de influência estrangeira”, acrescenta a análise.

A China é a grande vilã da guerra híbrida?

Dentro de um conceito ampliado de guerra híbrida, o analista Anthony Cordesman enumera em relatório do CSIS, Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais2, datado de julho de 2020, o que ele chama de “campanhas na zona cinzenta movidas pela China contra os Estados Unidos”, listadas a seguir:

Iniciativa Cinturão e Rota (Moderna Rota da Seda), por aumentar a conectividade entre Ásia, África e Europa; guerra comercial, por realizar operações econômicas na zona cinzenta; espionagem, com foco na aérea tecnológica, onde a Huawei compete com os Estados Unidos pela rede 5G; desinformação, pela manipulação nas mídias sociais; campanha marítima no Mar do Sul da China, com ilhas artificiais, zonas marítimas, e pretensões geopolíticas; alinhamento da China com a Rússia, de forma a competir com o Ocidente; expansão do mercado chinês na África, com prejuízo para os norte-americanos; ações no Ártico, onde através da Rota da Seda do Gelo a China coopera com países da região; campanha separatista, pela qual a China reage aos movimentos separatistas em Xinjiang, Hong Kong, Taiwan e Tibet.

Da leitura do relatório do CSIS, fica evidenciado que Cordesman apresenta uma visão que se restringe ao ponto de vista dos interesses norte-americanos, sem considerar a complexidade das relações Estados Unidos-China. Desta forma, o analista faz ele próprio uso da desinformação, por considerar como táticas híbridas algumas ações adotadas pelos chineses que deveriam fazer parte de um direito legítimo de buscar o desenvolvimento industrial e econômico.

Anthony Cordesman já havia abordado em relatório anterior de outubro de 2019, China e Estados Unidos: Cooperação, Competição e/ou Conflito, as difíceis relações entre os dois países, tendo como pano de fundo a emergência da China como uma potência industrial e econômica global, ameaçando a hegemonia da nação norte-americana. É dentro deste contexto de competição que se dão as acusações e retaliações contra a China, algumas já mencionadas no item sobre as ações híbridas pelos Estados Unidos.

Como parte da campanha de acusações que procuram alimentar a narrativa das intenções malignas do governo e ao Partido Comunista Chinês, cabe observar que as traduções publicadas nos Estados Unidos do livro Unrestricted Warfare3 (Guerra Irrestrita) – um manual de guerra híbrida de autoria de dois coronéis do exército chinês – receberam um adendo no título de capa, inexistente na versão original: “O Plano Mestre da China para Destruir a América”.

Campanha de desinformação no subtítulo na tradução norte-americana do manual chinês de guerra híbrida \ Foto: Handout (editada)

Notas do autor:

  1. O termo think tank é utilizado em relação a centros de reflexão e formulação de ideias, no caso relacionadas com estratégias políticas e militares. 
  2. Henry Kissinger, ex-secretário de estado norte-americano, é diretor do programa de segurança internacional do CSIS. Pesam sobre ele acusações do cometimento de crimes de guerra, detalhadas no livro e no documentário “O Julgamento de Kissinger”.
  3. O livro Guerra Irrestrita foi escrito em 1999, focando em como um oponente tecnologicamente superior poderia ser derrotado.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo blogue Chacoalhando

A longa marcha rumo à liderança econômica: o plano Made in China 2025, por Ruben Rosenthal

A impressionante ascensão industrial e econômica chinesa pode oferecer um modelo para países de sistema político diverso?  Quais experiências bem sucedidas podem ser replicadas no Brasil?

Chang e 4 Jiang Hongjing Xinhua via AP
Lançamento da sonda Chang’e 4 para pouso na face oculta da lua \ Foto: Jiang Hongjing/Xinhua 

Antes da crise do novo coronavírus, a China já se tornara a segunda economia mundial, e estava empenhada em revitalizar sua indústria através do plano Made in China 2025. Em outra frente de atuação, através da Iniciativa Cinturão e Rota, buscava ampliar a conectividade com outras economias e dar maior sustentação ao crescimento econômico do país. No entanto, ao contrário da percepção muito difundida de que a supremacia econômica e industrial global é questão certa de ser alcançada pela China uma vez terminada a pandemia, os projetos chineses ainda têm imensos desafios a superar.

As dificuldades incluem não apenas questões relacionadas com infraestrutura e domínio de tecnologia, mas também com os diversos obstáculos que vêm sendo colocados por governos do Ocidente, em particular o norte-americano. O esforço desenvolvimentista dos chineses no período desde a revolução comunista é o tema desta série que constará de três artigos.

O período pós-1949.  A análise referente a este período, apresentada a seguir, foi baseada principalmente em documentação da Federal Research Division, da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.  

Seguindo-se à vitória da revolução comunista em 1949, sob a liderança de Mao Tsé-Tung a China adotou o modelo de economia planificada da antiga União Soviética. Para auxiliar no planejamento foi conduzido em 1953 o primeiro censo no país, que indicou uma população de 583 milhões de pessoas.

O primeiro plano quinquenal (1953-1957) foi voltado principalmente para o desenvolvimento industrial, com ênfase na indústria pesada e nas tecnologias de capital intensivo. Indústrias-chave como as de produção de aço e ferro, extração de carvão, produção de cimento, geração de eletricidade e fabricação de máquinas se expandiram adotando tecnologias modernas.

Durante este período, proprietários de indústrias foram convencidos a vender suas empresas ao governo ou se associarem a ele, tal que por volta de 1956 já não existiam na China empresas exclusivamente de natureza privada. A produção de bens de consumo não foi contemplada neste, nem nos planos quinquenais seguintes.

A coletivização da agricultura foi incentivada, levando ao aumento da eficiência da produção no campo. Em 1957, cerca de 93,5% de todas as fazendas já faziam parte de cooperativas de produtores. Apesar da falta de investimento do governo na agricultura, a produção agrícola aumentou substancialmente devido ao novo ordenamento. O primeiro plano quinquenal trouxe, portanto, resultados bastante positivos quanto ao crescimento econômico.

Mesmo assim, o abastecimento de grãos para as cidades não estava sendo considerado satisfatório, em parte pela produção insuficiente de grãos face ao aumento populacional, ou ainda pelas falhas de empresas estatais de comércio em efetuar a contento este abastecimento. O crescente desequilíbrio entre os crescimentos industrial e agrícola trouxe insatisfação para algumas lideranças do país, que consideravam que o modelo soviético que vinha sendo aplicado seria inapropriado para a China.

Foi abandonado o segundo plano quinquenal (1958/1962), que deveria dar sequência às políticas do primeiro plano, e introduzida uma série de mudanças sócio-econômicas e políticas no campo e em algumas cidades.  Em 1958 foi lançada a campanha do Grande Salto Adiante (Great Leap Forward), visando apressar o ritmo do desenvolvimento tecnológico e econômico do país.

Isto seria alcançado com a adoção de medidas como a transferência para nível das administrações locais, de boa parte das decisões econômicas, e com a formação de comunas populares no campo e em algumas cidades. O momento era de fervor ideológico e de movimentos de massa, que influíram nos assuntos de gerenciamento industrial.

Em 1958, a produção industrial teria dado um “salto” de 55%, e obtida uma boa colheita, mas os índices podem ter sido superestimados. Entretanto, condições adversas de clima e a má locação de recursos resultaram em forte declínio da produção agrícola nos anos seguintes. É relatada uma queda de 14% em 1959, 13% em 1960 e 2% em 1961. Sobreveio a escassez de alimentos, que teria resultado na morte por inanição de 14 milhões de pessoas. Existem relatos na imprensa ocidental de que teriam ocorrido várias dezenas de milhões de mortes na China em decorrência de fome generalizada no período de 1959-1961.

O Grande Salto Adiante foi considerado como um grande revés econômico, não apenas para a agricultura. Ocorreu também falta de matéria prima para a indústria, produção de bens de baixa qualidade e deterioração de plantas industriais pelo mau gerenciamento. É relatada a ocorrência de uma queda na produção industrial de 38% em 1961, e de 16% em 1962.

Mao Tsé-Tung, o “Grande Timoneiro”, se afastou na liderança do país e ficou apenas como líder do PCC, o Partido Comunista Chinês. Os anos que se seguiram a partir de 1966 foram extremamente tumultuados na política, com a luta ideológica afetando diretamente a economia. Estava em curso a chamada Revolução Cultural.

poster da revolução cultural guardian 11 maio 2016
Poster da Revolução Cultural: Mao e o livro vermelho, base doutrinária para a militância

Após a morte de Mao, as lutas políticas se acirraram, até que em 1978 Deng Xiaoping consolidou sua posição no poder. Foi iniciado um novo paradigma econômico, com a introdução de amplas reformas, incluindo a abertura ao investimento estrangeiro.  No campo, as fazendas coletivas foram divididas em pequenas unidades familiares, com incentivos financeiros à produção e a adoção de preços de mercado. 

Deng se empenhou em concretizar o programa das Quatro Modernizações, que incluía os seguintes setores: agricultura, indústria, ciência e tecnologia, defesa nacional. Ciência e tecnologia era o ponto crucial, do qual o sucesso de todo o programa dependia. No entanto, os anos da Revolução Cultural haviam deixado um legado de falta de pessoal qualificado na área científica, imprescindível para a modernização avançar.

Em 1986, o sistema educacional ainda estava longe de atender às necessidades dos programas de modernização. O Conselho de Estado promulgou, então, amplas reformas no campo da educação, que incluíram a concessão de maior autonomia às universidades na alocação dos fundos recebidos do Estado. Os colégios e universidades também podiam decidir o número de professores necessários para cada curso.

Após formados, os graduandos deveriam ensinar por um mínimo de cinco anos em escolas do ensino básico e médio. No geral, a boa formação e treinamento dos professores das escolas foram fundamentais na preparação dos alunos para a acirrada competição de ingresso nas universidades chinesas. O incentivo aos professores e a extrema motivação dos alunos complementa o retrato do ensino na China. A boa formação técnica e educacional dos chineses se tornou um atrativo para empresas estrangeiras que queriam se estabelecer no país.

Para se alcançar uma formação científica de alta qualidade um grande número de estudantes chineses foi enviado para universidades no exterior. Se nos anos 60 e 70, um pequeno contingente de alunos foi estudar principalmente em universidades europeias, a partir de 1979 a prioridade foi o aperfeiçoamento dos estudantes nos Estados Unidos, com a normalização das relações entre as duas nações.

No entanto, na sua maioria estes não eram estudantes típicos, em busca de cursos de graduação ou pós-graduação, mas de cientistas em meio de carreira, em geral na faixa de 35 a 45 anos de idade, buscando treinamento especializado em seus campos de atuação científica.

O desenvolvimento no período pós-1978. Huimin Ma e co-autores dividem em três períodos, o desenvolvimento que se seguiu à introdução das reformas liberalizantes por Deng Xiaoping. No primeiro, que se estendeu de 1978 ao final da década de 80, ocorreu a gradual revitalização das indústrias de manufaturas. A fabricação de produtos industriais leves por empresas estatais abasteceu o mercado local com eletrodomésticos e produtos eletrônicos, mesmo que ainda de forma insuficiente. Vestuário e alimentos ficaram mais diversificados.

O segundo período abrange a década de 90, com a emergência de empresas privadas e a entrada de capital estrangeiro na produção industrial. Foram estabelecidas zonas econômicas especiais e bolsa de valores, chancelando o surgimento de uma economia voltada para o mercado para resolver os problemas de escassez de bens de consumo. Muitos técnicos e administradores de empreendimentos estatais migraram para o setor privado, abrindo seus próprios negócios.

Neste período, o mercado chinês se tornou fortemente atrativo para investimentos estrangeiros, possibilitando o acesso do país a técnicas mais avançadas de fabricação de produtos industriais e de consumo, bem como a designs mais elaborados. No entanto, este desenvolvimento foi mais presente em áreas litorâneas, aprofundando as diferenças em relação ao interior.

O terceiro período se estende do começo do século 21 até os dias atuais, e se caracteriza pela firme entrada das manufaturas chinesas no mercado internacional. Em 2001 a China entrou para a OMC, a Organização Mundial do Comércio, possibilitando a integração do país ao mercado global. Os investimentos estrangeiros afluíram em massa para o setor produtivo, muitas vezes na forma de joint ventures. A “marca” Made in China passou a ganhar reconhecimento no mercado internacional.

A ação governamental priorizou o investimento em infraestrutura, principalmente no setor de comunicações, estradas de ferro e autoestradas de alta velocidade. O desenvolvimento em Tecnologia da Informação foi fundamental para a produção industrial e comércio eletrônico.

O Instituto para Política de Desenvolvimento e Segurança (ISDP, na sigla em inglês), sediado em Estocolmo, publicou em junho de 2018 uma análise do plano “Indústrias Emergentes Estratégicas” (SEI, na sigla em inglês), que antecedeu o Made in China 2015. Lançada em 2006, ano de início do 11o plano quinquenal, a iniciativa SEI foi centrada no aprimoramento de tecnologias avançadas, para assegurar a posição de indústrias emergentes estratégicas.

Iniciativas públicas e privadas em pesquisa e desenvolvimento permitiriam que empresas chinesas desenvolvessem tecnologia de ponta em setores-chave, levando à obtenção de patentes, e também acesso à propriedade intelectual de domínio de empresas estrangeiras, em troca do acesso ao mercado chinês por estas empresas. Em movimento reverso, no período de 2005 a 2016, empresas chinesas investiram 13,6 bilhões de dólares na Alemanha e 135 bilhões nos Estados Unidos, possibilitando joint ventures com empresas destes países que já haviam alcançado um elevado nível de automação e inovação.

Ainda segundo o relato do ISDP, a SEI elencou como prioritárias a tecnologia de informação de última geração, aí incluindo inteligência artificial, serviços de segurança cibernética, circuitos integrados e equipamentos e softwares de rede. Outros setores prioritários foram os de biotecnologia, fabricação de equipamentos de ponta, eficiência energética e tecnologias ambientais.

De acordo com a China Global Television Network (CGTN), desde a implementação do primeiro plano quinquenal, o caminho para a industrialização vinha focando na velocidade e no volume do crescimento econômico, ignorando os problemas de exaustão de recursos, poluição ambiental e danos ecológicos.

Em 2010, ao término do 11o plano quinquenal, a China já superara o Japão como segunda economia mundial, ao alcançar um PIB de cerca de 5,8 trilhões de dólares, comparado aos 5,47 trilhões obtidos pelo Japão. No entanto, a China ainda precisava reduzir a dependência da tecnologia internacional, melhorar sua capacidade industrial e investir na inovação, para aumentar a competitividade de seus produtos a nível global.

Após alcançar altas taxas de crescimento econômico durante anos, a economia chinesa vem decrescendo há mais de 10 anos, ingressando em uma fase de médio crescimento. De fato, após atingir o pico dos últimos 20 anos em 2007 (14,23%), o PIB caiu continuamente, chegando a 6,57 em 2018. Valores do PIB anual chinês para período 1960-2018, do PIB per capita e da taxa de variação anual do PIB para o mesmo período, podem ser acompanhados em gráficos interativos, com base em dados do Banco Mundial. Em 2019 ocorreu nova queda na taxa de aumento do PIB, ficando em 6,1%.

A queda contínua do PIB chinês foi devida principalmente ao aumento dos custos trabalhistas, à questão ambiental e ao aumento do protecionismo no comércio internacional. Os investimentos estrangeiros começaram a migrar da China para o sudeste asiático e outros locais com menores custos trabalhistas.

Também o crescimento industrial anual da China vem diminuindo continuamente, passando de cerca de 12% em 2010, para 5,7% em 2019, ao passo que o aumento da produção agrícola apresentou uma relativa estabilidade, apesar da leve queda neste aumento anual observada a partir de 2012. As variações destes dois índices para o período 1986-2019 podem ser acompanhadas no gráfico do National Bureau of Statistics da China, apresentado a seguir. No gráfico estão também indicadas as correspondências destas variações com os planos quinquenais, do sétimo ao décimo terceiro.

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A situação da indústria de transformação chinesa ficou mais difícil, exigindo uma ampla modernização do sistema produtivo, com aumento do nível de desenvolvimento e da eficiência na produção, de forma a prosseguir com o crescimento econômico sustentável do país e garantir competitividade internacional.

Em 2013, o presidente Xi Jinping anunciou planos para facilitar a conexão entre as economias de diversos países da Ásia, através de uma ampla malha terrestre e de rotas marítimas. Ampliado para incluir países da África e Europa, o plano foi relançado com toda a pompa em 2017 com o nome de “Iniciativa Cinturão e Rota” (BRI, na sigla em inglês), ficando conhecido também como “Nova Rota da Seda”. O BRI representa uma estratégia econômica de longo prazo para a China, dando mais sustentação para o seu desenvolvimento.

As maiores potências industriais também começaram a investir pesadamente na revitalização de suas indústrias, a partir do início da década. No Reino Unido, foi proposta em 2012 uma estratégia denominada de “High Value Manufacturing” (Fabricação de Alto Valor), que deveria ser apoiada em intensa pesquisa e desenvolvimento e alto crescimento sustentável. O programa “Nova França Industrial”, lançado em 2013, optou pela otimização do leiaute das indústrias de transformação. A Alemanha lançou em 2013 a iniciativa “Indústria 4.0”, para promover a introdução digital dos processos fabris no país.

Para aumentar a competitividade de suas empresas, o Japão focou na “Nova Estratégia em Robótica”, lançada 2018. Dentre vários outros programas, os Estados Unidos promoveram o “Plano Estratégico Nacional para Fabricação Avançada”, lançado em outubro de 2018. Já a Coréia do Sul resolveu investir a partir de 2018, na integração entre indústria de transformação e tecnologia de informação, através do projeto “Estratégia de Inovações Avançadas”, que deverá levar em conta não apenas inovações tecnológicas, mas também o impacto social positivo na vida das pessoas.

Em 2015, o último ano do 12o plano quinquenal, a China estabeleceu um novo plano estratégico, o Made in China 2025, se propondo a reduzir a dependência na importação de tecnologia estrangeira, e a investir pesadamente em suas próprias inovações. O plano teve influência do Indústria 4.0, da Alemanha.

Made in China 2025.   O plano lançado com duração prevista de 10 anos propõe uma estratégia de três estágios para transformar a China em uma superpotência industrial até 2049, no centenário de fundação da República Popular da China. O artigo de Huimin Ma, detalha estes estágios, as estratégias adotadas para alcançá-los, bem como as vantagens a favor da China e os enormes desafios a serem superados.

O primeiro estágio tem o objetivo de transformar a China, até 2025, de gigante industrial em uma potência industrial. O segundo estágio visa fazer com que a China alcance, até 2035, um nível equivalente ao de potências industriais mundiais médias. O terceiro estágio visa consolidar a posição da China como potência industrial, e trazê-la para uma posição de destaque no topo da lista das nações industrializadas.

O plano identifica nove tarefas prioritárias necessárias para alcançar os objetivos pretendidos: 1. Melhorar a inovação na produção; 2. Integrar informação tecnológica e indústria; 3. Fortalecimento da base industrial; 4. Promover marcas chinesas; 5. Impor a fabricação “verde”; 6. Promover um avanço decisivo em dez setores-chave; 7. Avançar na reestruturação do setor de manufatureiro; 8. Promover qualificação de pessoal para a indústria de manufaturas e serviços correlatos, além de incentivar a terceirização na produção (service oriented manufacturing, PSS); 9. Internacionalização das manufaturas chinesas.

São os seguintes os dez setores-chave mencionados acima, no item 6: novas tecnologias de informação, ferramentas de controle numérico e robótica, equipamentos para a indústria aeroespacial, equipamentos de engenharia oceânica e embarcações navais de alta tecnologia, equipamentos de transporte ferroviário, carros com economia de combustível e movidos a novas energias, equipamentos elétricos, equipamentos para agricultura, equipamentos para medicina e biomedicina, desenvolvimento de novos materiais.

Mas apesar de ocupar a posição de segunda economia mundial, a China tem ainda um longo caminho a percorrer no setor da indústria de transformação, para avançar no cumprimento das metas estabelecidas pelo Made in China 2025, como também as da Nova Rota da Seda. Neste caminho, o país conta com vantagens a seu favor, bem como com desafios a superar, segundo Huimin Ma.

Vantagens:

  • A China já possui um sistema industrial completo, que possibilita que o país compita  em quase todos os campos que fornecem a base para   implementar a modernização da indústria.   
  • A China se constitui no maior mercado consumidor do planeta. As vendas no varejo  constituem 20% do total global, sendo que o país está no topo das vendas pela  internet. A demanda interna fornece condições de sustentação para modernização  da indústria de transformação.     
  • A China é a economia que possui o maior contingente laboral na indústria.
  • O país vem fazendo investimentos crescentes em Pesquisa e Desenvolvimento.  
  • As políticas de desenvolvimento para as diferentes regiões do país são integradas,  de forma a garantir que elas se complementem (estas diferentes políticas estão  detalhadas no artigo citado).                                                                                                                                            

Os autores não incluíram na análise, os benefícios potenciais que a Iniciativa Cinturão e Rota pode trazer para o desenvolvimento das indústrias chinesas e da economia do país como um todo.

Desafios:

  • Apesar do impressionante crescimento da indústria de manufaturas da China, ele ainda é inferior ao de superpotências industriais como Estados Unidos e Alemanha, seja em termos absolutos ou per capita. O conteúdo tecnológico e o valor agregado aos produtos ainda é baixo.
  • Baixa inovação tecnológica e número não tão expressivo de patentes no setor industrial chinês. Isto decorre de muitas empresas não estarem ainda conscientes da importância da inovação tecnológica, ou mesmo pela incapacidade de assimilarem inovações internacionais. O país é produtor e exportador de componentes eletrônicos de baixo custo, principalmente para consumo nas residências.
  • A competitividade de empresas chinesas em setores de ponta é extremamente baixa. São exceções empresas como a Huawei, que conseguiu acumular conhecimento e inovações, como a internet 5G.
  • Consumo excessivo de energia e poluição: o país é o maior consumidor de energia no mundo, sendo que a eletricidade gerada provém em grande parte do carvão. Em 2011, a emissão de CO2 foi 2,42 vezes maior que a média mundial, e maior ainda quando comparada à de potências industriais como os Estados Unidos, Japão e Alemanha. O rápido crescimento econômico agrava ainda mais estes problemas.

Algumas observações finais. Desafios ao crescimento econômico da China surgem em função do protecionismo por parte dos Estados Unidos, que vem gerando um clima de guerra comercial já há vários anos, e que pode afetar as metas do Made in China 2025 e da Iniciativa Cinturão e Rota. Acusações são feitas por países do Ocidente de que a China recorre a procedimentos como espionagem industrial, o que vem acirrando a animosidade.

Independentemente das dificuldades ainda por superar na competição com potências industriais na produção de manufaturas de alto conteúdo tecnológico, a China vem avançando em alguns setores de ponta com objetivos estratégicos. Um exemplo é o programa espacial, que tem o potencial de beneficiar a pesquisa básica e aplicada, bem como contribuir para aplicações na indústria.

Documento do Conselho de Estado da China de 2016 explicita os propósitos do programa espacial, bem como enumera os desenvolvimentos alcançados a partir de 2011 e as principais tarefas previstas até 2021. Em janeiro de 2019, um veículo espacial chinês não tripulado fez um pouso suave no lado escuro da lua, visando explorar o solo com a perspectiva de aproveitamento de minérios. Analistas nos Estados Unidos consideram que o desenvolvimento chinês na área espacial traz um risco estratégico para a região do indo-pacífico.

Finalizando, ainda é uma incógnita o efeito que a pandemia da COVID-19 terá nos resultados das políticas de modernização industrial implementadas na atual década pelos países mais industrializados, e na competitividade entre eles. A China vem desenvolvendo desde 1978 uma “economia socialista de mercado”, altamente planejada, a que o professor Elias Jabbour, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, denomina de Nova Economia do Projetamento. Este poderá ser um fator decisivo a favor da continuidade da ascensão da China à liderança econômica mundial nos próximos anos. 

*O autor é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando (acesse o índice de artigos).