Dr. Kouchner e o Sr. Hyde: o médico e o monstro? Parte 2 – As intervenções militares humanitárias

Por Ruben Rosenthal

Kouchner e Hillary
Dr. Kouchner e seu alter ego feminino, a sra. Clinton     /   Foto David Karp / AP

Foi com os bombardeios da ex-Iugoslávia pela OTAN em 1999, em violação ao direito internacional, que Bernard Kouchner pôde ver coroada sua ideologia, em que a soberania dos Estados não representasse obstáculo ao “direito de intervenção humanitária”. Uma nova forma de colonialismo passou a se impor?

A primeira parte do artigo focou na atuação de Kouchner ( “K) como médico humanitarista, no período até o final da década de 80. Inicialmente com Médicos Sem Fronteiras (MSF), e depois com Médicos do Mundo (MDM), ele e seus colegas prestaram atendimento às populações necessitadas, em regiões de conflito bélico ou de ocorrência de catástrofes naturais.

K e os outros médicos franceses fundadores de MSF eram altamente críticos da completa neutralidade das agências tradicionais de ajuda, como a Cruz Vermelha Internacional, por estas respeitarem as convenções internacionais, o que por vezes dificultava o atendimento em regiões de conflito. K defendia que os agentes de saúde deveriam quebrar regras e cruzar fronteiras de países, mesmo que ilegalmente, para prestar socorro às vítimas. Conforme sua declaração, “agentes de saúde que cruzam fronteiras não se comportam como colonialistas, porque chegam a pedido, ….para proteger os mais fracos e necessitados”. K soube fazer uso da mídia para chamar atenção para as causas que defendia, ao ponto de se incompatibilizar com MSF, e decidir deixar a organização que ajudara a fundar, para formar MDM, em 1980.

K aproveitou seu cargo, como Ministro da Saúde e Ação Humanitária no governo Mitterrand, para promover sua doutrina de “intervenção militar humanitária”, conseguindo fazer com que ela fosse introduzida em diversas resoluções da ONU, e colocada em prática por tropas do Ocidente no Curdistão iraquiano, na Somália e em Ruanda, no começo dos anos 90. No final da década, a doutrina serviu de pretexto para o bombardeio da Iugoslávia, e, já nos anos 2000, nas intervenções no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria. No entanto, falsos argumentos já foram várias vezes utilizados, para mobilizar a mídia e a opinião pública a favor das intervenções externas.

As bolas da vez agora, são a Venezuela e o Irã. E quem sabe, o Brasil, em um futuro não muito distante, caso os povos indígenas continuem a ser submetidos à políticas governamentais que efetivamente tem ameaçado suas vidas e seus meios de subsistência, e que podem muito bem ser consideradas como ações de extermínio ou de “limpeza étnica”. Ou mesmo, que questões de preservação ambiental, como na Amazônia, possam oferecer o pretexto para a intervenção.  

O direito à intervenção humanitária foi introduzido oficialmente, como novo “conceito estratégico da OTAN”, no aniversário de 50 anos da organização, em abril de 1999, em meio à guerra nos Bálcãs.  O bombardeio da Iugoslávia é até hoje saudado como um triunfo para “a justiça internacional” sobre o direito tradicional de soberania dos Estados. Entretanto, os ataques se deram em flagrante violação da lei internacional, pois os mesmos foram realizados sem autorização prévia do Conselho de Segurança da ONU. As decisões da OTAN passaram a não se subordinar a qualquer órgão internacional.

Esta nova “ideologia” representou, praticamente, um retorno às condições que prevaleceram com a Paz de Vestfália, de 1648, quando houve o reconhecimento formal do princípio de soberania territorial, contra as ingerências do Papado, segundo David Chandler, em artigo no New Left Review. O sistema Vestfaliano, no entanto, nunca consistiu em impedimento para o uso da força contra os Estados mais fracos. Mesmo séculos depois, com o advento da Carta da ONU de 1945, o pleno direito de soberania não foi alcançado na prática, pois, apesar da igualdade de voto dos Estados membros na Assembléia Geral, as decisões do Conselho de Segurança são mandatórias.

A seguir, vamos acompanhar a carreira política de K, através da qual ele pôde melhor contribuir para que sua ideologia intervencionista ganhasse reconhecimento, e se tornasse consenso no Ocidente.

Em 1988, K se tornou Secretário de Estado para Ação Humanitária, no governo socialista do presidente François Mitterrand. Em 1988, ele foi co-autor da resolução 43/131, aprovada na ONU, estabelecendo o direito de intervenção externa em um país, no caso de desastres naturais ou emergência. Em 1990, K conseguiu aprovar outra resolução, que estabelecia “corredores humanitários” de ajuda às vítimas, se sobrepondo à soberania dos Estados. 

Em 1991, K apoiou a primeira Guerra do Golfo, atacando os pacifistas na imprensa, apesar da impopularidade desta guerra na França. O fato dos bombardeios da coalizão ocidental no Iraque terem causado uma catástrofe humanitária, foi para ele irrelevante. Como, mesmo com a vitória da coalizão no golfo, o “novo Hitler” Sadam manteve-se no poder, K foi co-autor de uma resolução direcionada ao Conselho de Segurança da ONU, autorizando a continuidade das ações militares para ajudar os curdos. Foram também estabelecidas “zonas de restrição aérea” e regiões de “refúgio seguro”. Desta forma, os bombardeios anglo-americanos no Iraque prosseguiram durante os anos 90.

De 1992 a 1993, K atuou como Ministro da Saúde e Ação Humanitária, ainda sob a presidência de Miterrand. Em dezembro de 1992, quando a Somália atravessava um “genocídio pela fome”, K organizou uma campanha de coleta de arroz nas escolas da França, e, pouco depois, ele aparecia, de forma midiática, carregando sacos de arroz nas costas, em uma praia da Somália. Rony Brauman, então presidente do MSF, considerou a foto indecente. No mesmo dia do evento na praia, os marines norte-americanos desembarcavam para uma operação militar no país, gerando uma onda de saques e atos de vandalismo. Uma ampla descrição dos eventos ocorridos na Somália pode ser vista na publicação do MSF Somalia 1991-1993: Civil War, Famine Alert and a UN ‘Military-Humanitarian’  Intervention 1992-1993”.

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Kouchner e a campanha do arroz para a Somália  /   Foto Eric Feferberg / Getty Images

Alain Destexhe, secretário geral do MSF declarou: “para Kouchner e outros, a intervenção americana (na Somália) confirma o ‘direito de intervir’ com uma motivação humanitária. No MSF, concordamos todos, que não se tratava de uma intervenção humanitária, mas nossa posição não apareceu nas manchetes. Estávamos contra a maré”.

Em 1993, MDM, a organização fundada por K quando deixou MSF, realizou uma intensa campanha demonizando os sérvios e Slobodan Milosevic, então presidente da Iugoslávia, conforme já descrito detalhadamente em artigo anterior do blogue. As comparações de Milosevic a Hitler e os milhares de cartazes, comparando os campos dos prisioneiros bósnios muçulmanos (bosniaks) a campos nazistas de extermínio, serviram para predispor a opinião pública do Ocidente, inclusive vários setores da esquerda, para os futuros bombardeios pela OTAN, em 1995, contra alvos sérvios na Bósnia, e, em 1999, contra a Iugoslávia,  quando a situação no Kosovo se agravou.

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Campanha de Médicos do Mundo, 1993  /  Foto Georges Merillon/Gamma-Rapho

De 1994 a 1997, K atuou no parlamento europeu, onde, dentre outras atribuições, participou no sub-comitê de direitos humanos.

Em 1994, as posições de K quanto ao genocídio em Ruanda trouxeram a ele muitos desafetos na França. O veterano jornalista Pierre Péan, escreveu o livro “Le Monde Selon K” (O mundo segundo K), em que denuncia que as mortes em Ruanda não foram apenas cometidas por Hutus contra Tutsis, mas que o reverso também ocorreu de forma generalizada. Em particular, Péan cita o caso de uma vila, onde K afirmara que Tutsis haviam sido massacrados, e, na verdade, os Tutsis haviam sido os criminosos. K havia invertido vítima e criminoso.

Em outubro de 1995, a OTAN realizou ataques contra alvos sérvios na Bósnia, seguindo-se à já mencionada campanha de MDM na mídia. K sabia muito bem que as alegações de campos de “purificação étnica” eram falsas, porque ele mesmo visitara os campos de prisioneiros geridos pelos sérvios da Bósnia, em agosto de 1992. Só em 2004, K reconheceu que os campos de prisioneiros não eram de extermínio, em seu livro “Les guerriers de la paix” (Os guerreiros da paz).

De 1997 a 1999, K atuou pela segunda vez como Ministro da Saúde em um governo do PS. Em maio de 1999, sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, tropas da OTAN bombardearam Belgrado por 77 dias. A OTAN defendeu a destruição da televisão estatal em Belgrado, por ser um “alvo legítimo e um centro de mentiras”. Segundo a BBC News, a Corte Européia de Direitos Humanos chegou a deliberar se a OTAN deveria ir a julgamento pela ação que levou à morte de 16 pessoas. 

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Televisão estatal iugoslava bombardeada pela OTAN em 1999    / Foto BBC News

Em 1999, MSF ganhou o Prêmio Nobel da Paz, como uma forma de se homenagear K, o fundador da organização, e mentor intelectual do “direito à intervenção”, mesmo que MSF não mais compartilhasse dos mesmos ideais de K. Em julho de 1999, como recompensa por seus esforços ideológicos, K foi indicado pelo Secretário Geral da ONU, Kofi Annan,  para Representante Especial da ONU no Kosovo, e Chefe da Administração Interina da ONU no Kosovo (UNMIK), permanecendo até 2001, por um total de 18 meses. Este período de K no Kosovo será o assunto da terceira e última parte desta série. Em outubro do mesmo ano, K reiterou o direito à intervenção militar humanitária, em entrevista ao Los Angeles Times

K foi novamente Ministro da Saúde no governo do PS, entre 2001 a 2002. Em 2003, ocorreu a invasão do Iraque. Já fora do governo, K deu apoio moral à invasão do Iraque, alegando que “as vozes do povo iraquiano tinham que ser ouvidas”. Conforme expresso em seu livro Les guerriers de la paix, K interpretou a situação de forma diferente do governo francês e dos intelectuais europeus, enfatizando que o Iraque atendia a dois critérios que justificavam o direito de intervenção: o povo iraquiano queria ser resgatado e libertado, e Saddam era um líder indigno do respeito da comunidade internacional”, e que (supostamente) teria matado 500.000 pessoas de seu próprio povo, de acordo com Saïd K. Aburish, em seu livro “Le vrai Saddam Hussein” (O verdadeiro Saddam Hussein).

Embora tenha expressado seu apoio à deposição de Saddam, K se opunha à estratégia da Administração Bush, conforme artigo no Le Monde, intitulado “Ni la guerre ni Sadam” (Nem a guerra nem Sadam). Ele culpou a Bush por ter ido à guerra sem antes ter forjado uma real aliança na ONU, como também por conduzir mal o pós-guerra.

Uma das consequências da identificação da causa humanitária com os interesses das potências ocidentais, foi trazer  risco aos agentes humanitários e da ONU, como evidenciado pelo bombardeio da Missão da ONU em Bagdá, em agosto de 2003, quando morreram 23 pessoas, inclusive o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, Representante Especial da ONU no Iraque. Em outubro do mesmo ano foi atacada a sede da Cruz Vermelha Internacional em Bagdá.

Em 2005, a Assembléia Geral da ONU endossou um novo conceito humanitário, a Responsabilidade de Proteger (R2P), consistindo de uma série de princípios, com base na ideia de que a soberania não é um privilégio, e sim, uma responsabilidade. Se um Estado não proteger seus cidadãos de atrocidades, a comunidade internacional tem a responsabilidade de agir, mesmo usando da força, se o Conselho de Segurança assim decidir. Respeitada a condição de ratificação prévia pelo Conselho da ONU, R2P não difere do “direito à intervenção humanitária”, defendido por K. 

Em 2005, K foi candidato ao Alto Comissariado da ONU para Refugiados, perdendo a indicação para Antonio Guterres, atual Secretário Geral da Organização. Em 2006, K foi candidato a diretor-geral da OMS, não se elegendo.

De 2007 a 2010, K atuou como Ministro das Relações Exteriores do Governo de direita de Nicolas Sarkozy, sendo, por este motivo, expulso do PS. Em sua atuação como ministro, em pronunciamento de setembro de 2007 sobre a questão nuclear no Irã, K declarou que “devemos nos preparar para o pior… a guerra com o Irã”, gerando uma reação enérgica do porta-voz iraniano. No intuito de reduzir as tensões, o próprio ministro francês, François Fillon se pronunciou, bem como Mohamed El Baradei, então diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica, segundo artigo no Deutsche Welle. Coube, então, ao escritor Philip Hammond, perguntar no título de seu artigo, se referindo a K: “é este o homem mais perigoso da Europa?”.

A resposta à indagação de Hammond ficou bastante evidente alguns anos depois. Em março de 2011, uma coalizão de países da OTAN iniciou uma intervenção militar na Líbia, para implementar a resolução 1973  do Conselho de Segurança, que fora aprovada por 10 votos a favor, nenhum contra, e 5 abstenções – da Alemanha, Brasil, China, Índia e Rússia. Mesmo autorizando o uso da força, a resolução sublinhava a necessidade de intensificarem-se esforços que levassem às reformas políticas necessárias, para uma solução pacífica e sustentável.

A intenção do voto fora a de obter “um imediato cessar fogo na Líbia”, mas a intervenção foi bem mais além, levando à morte de Kadhafi e à completa desestabilização do país, abrindo um vácuo de poder que possibilitou a entrada do ISIS. A Líbia, que tinha padrões de desenvolvimento relativamente avançados, regrediu dezenas de anos, com a destruição que se seguiu. Em artigo publicado no The Guardian, K defendeu a moralidade da intervenção: “poderíamos continuar a ver em nossas televisões as imagens das mortes das vítimas de Kadhafi?”

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Tropas do ISIS na Líbia    /   Foto El País

Entretanto, segundo artigo recente publicado no Global Research, mensagens por e.mail de Hillary Clinton, então Secretária de Estado de Obama, e que vieram à luz posteriormente, revelaram o real motivo da intervenção. O objetivo seria o de bloquear o plano de Kadhafi de usar o Fundo Soberano*, derivado dos recursos provenientes do petróleo, para criar órgãos financeiros autônomos pela União Africana, além de uma moeda africana, como alternativa ao dólar e ao franco francês. A sra. Clinton, alter ego feminino de K, convenceu Obama a autorizar operações clandestinas na Líbia, e a fornecer armas aos rebeldes.

Mesmo estando fora de cargos oficiais de governo desde 2010, K pôde contemplar que a sua doutrina,  já então plenamente estabelecida através da resolução RP2 da ONU, não mais dependia de suas ações diretas. Mesmo que o Conselho de Segurança não concedesse a autorização requerida para a intervenção, a OTAN já considerava  que esta era desnecessária, desde o seu aniversário de 50 anos em 1999.  

Nos últimos anos, a Síria foi alvo de repetidos ataques aéreos por parte dos Estados Unidos e da OTAN. O argumento utilizado  tem sido, principalmente, o uso de armas químicas pelo governo de Bashar al Assad.  Em 2013, a acusação, pela oposição síria e seus aliados no mundo árabe e no Ocidente, foi do uso de gás sarin em civis em Goutha, o que foi rechaçado pelo governo Sírio, que argumentou que o ataque fora conduzido pelos rebeldes.

A intervenção militar externa só foi evitada com a concordância do governo, na destruição de todo o estoque de armas químicas, e em assinar a Convenção de Armas Químicas. Entretanto, novas suspeitas surgiram do uso de gás sarin e de cloro contra populações civis.  Em abril de 2017, já no governo Trump, a retaliação norte-americana foi através do lançamento de 59 mísseis Tomahawk. Em abril de 2018, Estados Unidos, França e Reino Unido conduziram uma série de ataques por mísseis contra vários alvos do governo sírio, em resposta ao suposto uso de agentes químicos em Douma. 

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Mísseis Cruise lançados de fragata francesa / Foto AFP / ECPAD

Nos dois casos citados, o governo Sírio alega que as acusações eram falsas, e que os ataques se deram  em violação à lei internacional, pois ocorreram sem aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Em artigo anterior deste blogue, foi denunciado que o relatório final da OPAQ, a Organização para Proibição de Armas Químicas, havia sido manipulado com o intuito de tentar comprovar o envolvimento do governo de Assad no uso de armas químicas em Douma. A manobra fora exposta com o vazamento recente de um relatório interno, elaborado pelo grupo técnico de engenheiros da OPAQ. Embora esta revelação não garanta um “atestado de boa conduta” ao governo sírio, neste e nos outros casos citados, é no entanto um forte indício que existe um grau de deturpação nas informações veiculadas na mídia.

Em reportagem de junho de 2019, o jornalista Max Blumenthal denuncia que o grupo “Rede Síria de Direitos Humanos”, baseado no Catar, e que monitora ações do governo de Hassad, é financiado por governos estrangeiros. A Rede tem feito lobby pela “imediata intervenção” militar na Síria de uma coalizão internacional, citando como exemplo, o bombardeio da Iugoslávia pela OTAN em 1999, que ocorrera sem aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Os principais jornais norte-americanos, as organizações internacionais de direitos humanos, e mesmo governos, têm repercutido os relatórios dúbios da Rede, sem nunca terem questionado qual a sua relação com a oposição armada na Síria e a origem dos recursos de financiamento, acrescentou Blumenthal. 

Atualmente, mesmo sem cargo no governo francês, K continua a insuflar o belicismo, desta vez contra o Irã, como em seu discurso na Albânia (vídeo em inglês), em julho de 2019, pela mudança do sistema político iraniano: “Os mulás (religiosos) são assassinos. Eles são a origem de todos os ataques terroristas, e estamos prontos para livrar este povo (iraniano) deste terrível sistema religioso”. Tratava-se de evento anual promovido pelo MEK, uma organização associada aos Mujahideen, que lutaram na revolução dos anos 70, contra o regime do Xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi, déspota  então apoiado pelos EUA.

A organização posteriormente rompeu com o regime dos Aiatolás, e se associou ao Iraque e aos norte-americanos, na guerra de 8 anos contra seu próprio país. MEK deixou de ser considerada uma organização terrorista e passou a aliada dos Estados Unidos, pela ação de Dick Cheney, o controverso vice-presidente de Bush, e é, atualmente, aliada de Trump contra o Irã, conforme análise no The Guardian.

K continua desempregado, mas permanece ativo na defesa do intervencionismo militar humanitário, para o bem e para o mal.

* Qualquer associação com o que aconteceu no Brasil, por ingerência norte-americana, em seguida à criação de um Fundo Soberano do petróleo pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, e à formação do banco dos BRICS, no governo de Dilma Rousseff, pode ser mais do que mera coincidência.

No próximo e último artigo da série, será abordado o período em que K atuou como como representante da ONU no Kosovo, de 1999 a 2001. Alguns fantasmas daquela época podem voltar agora para assombrar K, e  talvez ele venha a ser acusado de conivência com uma organização criminosa, envolvida inclusive com o tráfico de órgãos humanos. Aí poderemos ver se a Corte Internacional de Justiça, em Haia, será imparcial ao julgar uma (ou mais) das lideranças do Ocidente.

 

 

Crise no Golfo Pérsico: a confrontação bélica é inevitável ou o círculo vicioso pode ser rompido?

Tradução comentada do artigo “Pompeo’s falsified history of US-Iran provocations”,  do ex-diplomata italiano, Marco Carnelos, publicado no Middle East Eye, em 21 de Junho, por Ruben Rosenthal

Se os Estados Unidos e o Irã quiserem genuinamente poupar a região de um conflito catastrófico, então é essencial o reconhecimento sincero que erros foram cometidos de ambos os lados.

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 General brigadeiro Hajizadeh examina restos do drone derrubado pelo Irã     Foto AFT 

 

A recente derrubada de um drone norte-americano pelo Irã no Estreito de Hormuz, e a ameaça de Trump de um ataque retaliatório, (mesmo que) seguida da desistência ,  no último minuto, fez aumentar dramaticamente a ameaça de confrontação, na já tensa região do Golfo Pérsico. 

A história das relações Estados Unidos-Irã nas últimas quatro décadas tem sido marcada por uma série de agressões, sem que tenha ocorrido provocação prévia. A recente declaração do secretário de estado  Mike Pompeo, culpando o Irã pelos ataques a petroleiros no Golfo de Omã, se incorporou a este longo histórico, pela versão simplista e tendenciosa dos eventos.

Segundo a declaração, “este é apenas o último de uma série de ataques instigados pela República Islâmica do Irã e seus apoiadores, contra os interesses (norte)americanos e de seus aliados, e devem ser entendidos no contexto de 40 anos de agressões sem provocação (prévia) contra nações amantes da paz”.

No entanto, Pompeo ignorou a mãe de todas as provocações: o abandono do  acordo nuclear pelos Estados Unidos em maio de 2018, seguido do aumento das sanções contra o Irã, e de fortes pressões sobre os aliados e outros países, para se alinharem com esta política.

O resultado, até o momento, é o de uma guerra econômica em grande escala contra o Irã, sem justificativa. Apenas para constar, a Agência Internacional de Energia Atômica não denunciou qualquer violação por Teerã, do acordo nuclear de 2015.

Independente da responsabilidade, ainda incerta, do ataque aos petroleiros (não foram apresentadas até agora quaisquer conclusões independentes), existem aspectos da declaração do secretário Pompeo que parecem intrigantes. A primeira, foi a sua escolha de mencionar o período histórico de quatro décadas; outras duas, são as referências aos interesses dos Estados Unidos e seus aliados, e o alegado amor destes países pela liberdade; e, finalmente, quanto ao uso do termo “sem provocação”.

Por que Pompeo se referiu apenas aos últimos quarenta anos e não voltou um pouco antes? Se fizesse isto, ele se veria compelido a mencionar que o Irã, em 30 de novembro de 1971, invadiu três pequenas ilhas estrategicamente situadas na entrada do Estreito de Hormuz, que deveriam ficar sob a soberania dos Emiratos Árabes Unidos, então recentemente estabelecidos. O ponto em questão, é que este ataque foi ordenado pelo principal aliado de Washington na região, o Xá  Reza Pahlavi, monarca iraniano que assumiu o poder autocrático com a deposição golpista de Mohammad Mosaddegh, primeiro-ministro reformista, democraticamente eleito.

A lista de interesses dos EUA e aliados na região é bem longa: o inabalável apoio a Israel, a luta contra o terrorismo, a paz e estabilidade local, a liberdade de navegação, a proteção aos fornecimentos de energia vindos do Golfo Pérsico, e o apoio aos chamados países árabes moderados.

Surpreendentemente, o Irã até compartilha de alguns destes interesses. Apóia a liberdade de navegação, bem como a livre exportação de recursos energéticos do Golfo Pérsico, naturalmente com a condição de que esta liberdade se aplique a todos. O Irã também proclama que está engajado em combater o terrorismo, como no caso de sua recente campanha militar contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria.

Entretanto, o Irã também representa uma ameaça a alguns outros interesses nos norte-americanos e seus aliados, por sua ideologia revolucionária, que compele o país a apoiar (de acordo com seu entendimento) os povos oprimidos, e lutar contra injustiças.

De acordo com esta ideologia, os palestinos sob ocupação de Israel na Cisjordânia e sitiados em Gaza, e as minorias xiitas em algumas monarquias no Golfo e no Iemen, são vítimas de opressão e injustiça, e merecem ser apoiadas.

Na percepção dos Estados Unidos e aliados, este apoio é visto como uma interferência regional e tentativa de dominar a região, e apoio ao terrorismo.

Já na percepção do Irã, a Guerra com o Iraque em 1980, e as sanções as quais  (há décadas) é submetido, foram sempre consideradas como tentativas do Ocidente e dos países árabes, sem serem provocados, de esmagar a legítima revolução islâmica e mudar seu regime. 

Em sua declaração, Pompeo não especificou a quais nações amantes da liberdade ele se referia, mas é fácil de se imaginar quais sejam. A primeira é, sem dúvida, os Estados Unidos, seguido de Israel, a única democracia no Oriente Médio, de acordo com a orgulhosa retórica de Tel Aviv. “Não está ainda claro se este forte e inquestionável amor pela liberdade que caracteriza os EUA e Israel se estende aos cidadãos palestinos sob ocupação”, ironiza Carnelos. Acrescenta ainda o ex-embaixador: “aparentemente não, com tudo o que se sabe do ‘acordo do século’, que Trump quer impor aos palestinos”.

Por último, mas não menos importante, a circunstância correta para se usar o termo “não provocado” é problemática. Na perspectiva da nação norte-americana, a primeira agressão pelo Irã, sem que este fosse provocado, foi a captura do pessoal da embaixada dos EUA em Teerã, em 1979.

Do ponto de vista da lei internacional, foi sem dúvida um ato ilegal, mas foi realmente um ato sem provocação prévia? Pela perspectiva iraniana, que é temporalmente mais longa, o golpe de 1953 orquestrado pelos EUA contra o primeiro-ministro Mosaddegh foi também ilegal, e contra as leis internacionais. Acrescente-se, ainda, que o golpe levou a uma ditadura brutal do Xá Reza Pahlavi, que durou 25 anos.

Outra agressão não provocada, foi o ataque ao Irã em 1980, pelo falecido presidente iraquiano Saddam Hussein, e o longo e sangrento conflito que se seguiu. O Iraque, que na ocasião não poderia ser chamado de nação amante da paz, foi apoiado durante o conflito pelos Estados Unidos e países árabes, sendo a Síria a única exceção.

Também, a derrubada de um avião civil iraniano em 1988 pela marinha dos EUA, poderia ser considerada, pelo Irã, uma agressão injustificada. Se, como os EUA declarou então, o ocorrido foi um trágico acidente, deveria então ter sido paga compensação, como geralmente ocorre nestes casos, quando estão envolvidas nações democráticas, civilizadas e amantes da paz, como os EUA.

No ano seguinte, o pronunciamento islâmico (fatwa) pelo aiotalá Khomeini, então o líder supremo do Irã, de declarar uma perseguição mortal a Salman Rushdie, escritor britânico de origem indiana pela publicação dos Versos Satânicos, foi considerado um ataque à liberdade de expressão, um dos pilares dos valores do Ocidente.

Infelizmente, nas últimas quatro décadas não cessou este círculo vicioso de ações sem provocação anterior. Uma narrativa histórica da região que seja mais reflexiva (menos reativa) e compartilhada, e o reconhecimento dos erros cometidos por ambos os lados, são requisitos essenciais para qualquer tentativa de melhorar o entendimento entre as partes. Este é único caminho a tomar, se ambos os lados desejam genuinamente poupar a região de um conflito catastrófico.

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Porta-aviões USS Abraham Lincoln no Mar Arábico, em 24 de maio                 Foto Reuters

Marco Carnelos é um ex-diplomata italiano. Recentemente atuou como enviado especial do governo italiano para a Síria, Coordenador do Processo de Paz no Oriente Médio, e embaixador da Itália no Iraque.

Notas do tradutor:

Neste artigo, Carnelos nos brinda em vários momentos com sua fina ironia. Como diplomata, ele permanece acreditando no poder do diálogo para se chegar ao entendimento e à convivência pacífica entre nações, por mais  intolerantes que sejam seus líderes, e  díspares, seus sistemas de governo.

No momento, as principais nações envolvidas na crise do golfo têm governos teocráticos ou sob forte influência de fundamentalistas religiosos ou extremistas. A teocracia em Teerã, o wahabismo extremista da Arábia Saudita, o extremismo (expan)sionista de Netanyahu em Israel, o fundamentalismo evangélico, que elegeu e sustenta Trump, associado à forte influência de John Bolton e Mike Pompeo no governo dos EUA. Apenas para lembrar, Bolton, atual conselheiro de segurança nacional de Trump, chegou a ameaçar de morte o  brasileiro Maurício Bustani (e seus filhos), quando este era diretor geral da APAQ, como forma de forçá-lo a renunciar ao cargo, de forma a facilitar os planos norte-americanos contra o Iraque de Sadam Hussein.

As declarações na manhã do dia 22 de junho, pelo Irã, que “a região será colocada em fogo, se os EUA ou aliados atacarem o Irã “, e a decisão anunciada por Trump, de aplicar sanções econômicas  ao líder supremo,  Ayatollah Ali Khamenei,  indicam que, no momento, é impossível se ter uma resposta para a questão colocada no título do artigo. 

 

Netanyahu, Trump e Putin: uma História de Amor

Tradução informal e comentada, do artigo publicado em 8 de abril no Al Jazeera, de autoria do analista sênior, Marwan Bishara. Ruben Rosenthal

Com os resultados finais da eleição para o parlamento de Israel indicando que o partido do atual primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu conseguiu 36 dos 120 assentos, tudo indica que ele será o líder do governo de coalizão da direita. Será seu quinto mandato, caso os problemas de corrupção não o impeçam de assumir. Com ele no poder, pode-se prever que em breve virá a anexação de parte da Cisjordânia. Odiado por muitos, por sua responsabilidade no sofrimento e nas mortes de milhares de palestinos desde que assumiu o governo em 2009, Bibi é reconhecidamente um magistral enxadrista em geopolítica. Marwan Bishara nos explica como atua o polêmico político.

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Podem chamar Netanyahu de trapaceiro e belicista, mas que outro líder pode se gabar de ter conseguido se reunir com Trump e com Putin no prazo tão curto de duas semanas antecedendo eleições gerais. A motivação imediata desta diplomacia foi certamente o ganho eleitoral, mas as implicações estratégicas de sua vitória podem resultar na reconfiguração do Oriente Médio. Breve deverá vir a anexação de partes da Cisjordânia, prometida na campanha eleitoral. E novamente Trump deverá dar seu apoio, e Putin, emprestar seu silêncio. Como isto foi possível?

Netanyahu aproveitou sua ida, em setembro de 2016, à reunião de cúpula anual das Nações Unidas em Nova Iorque, para um primeiro encontro, na Trump Tower, com o então candidato presidencial republicano. Segundo Steve Bannon, então conselheiro de Trump, o novato na política recebeu uma aula do mestre de xadrez da geopolítica mundial, particularmente sobre a importância das relações entre os Estados Unidos e Israel, face às realidades do Oriente Médio.

Netanyahu contribuiu para que Trump pudesse colocar de forma racional seus instintos sobre segurança, imigração, terrorismo, Islã, e mesmo as vantagens de um muro na fronteira (idéia que Trump deve ter aproveitado como sua ‘solução’ para a imigração através da fronteira com o México, N.T.). Mas a grande jogada de Netanyahu foi fazer o foco da conversa convergir para uma fórmula simples: ‘o Irã, e não a Rússia, é o principal inimigo’ de ambos, e que o presidente russo tem uma posição privilegiada na ajuda contra os aiatolás e o Islã radical.  Isto soou como música aos ouvidos de Trump, pois ele já vinha cortejando Putin, para horror de seus detratores em casa e na Europa. Graças a Netanyahu, Trump pôde se municiar de uma doutrina estratégica que envolvia forjar novas alianças e parcerias com lideranças fortes.

A nível pessoal, foi uma aliança tranquila de se estabelecer. Benjamin, Donald e Vladimir realmente pareciam se gostar. Com passados e estilos distintos, eles, no entanto, tem um mesmo perfil. Homens brancos, já de certa idade, adotando estereótipos do macho, nacionalistas1 com um traço de malignidade, os três são personalidades que polarizam. São vistos como enganadores, com um ‘jeitinho’ para agir com impunidade. Não gostam da liberdade de imprensa e de um judiciário independente e ativo.

O principal inimigo em comum do trio é nenhum outro que o ex-presidente americano Barack Obama, e tudo o que ele representava, seja o multiculturalismo, os ideais liberais e uma política externa liberal. Assim que assumiu a presidência, Trump começou a destruir o que Obama construiu no país e no exterior, sem se importar em violar leis e acordos internacionais, saudado por seus dois camaradas e por um número crescente de fãs pelo mundo. Ele deixou o Acordo de Paris e o acordo nuclear com o Irã, além de dar seu apoio incondicional aos mais repressivos regimes no Oriente Médio, dentre outros.  

O trio atraiu e inspirou uma nova cepa de líderes agressivos hiper-nacionalistas1 que veneram o poder, como Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, Abdel Fattah el-Sisi, do Egito, Viktor Orbán2 , da Hungria e Jair Bolsonaro, do Brasil.  Trump e Putin podem ser os líderes do grupo, mas foi Netanyahu,  o entusiástico apoiador desta nova leva de governantes (Haaretz), mostrando sua afinidade com os mesmos, contrariamente ao que se esperaria do líder de uma nação fundada por vítimas de perseguição étnica. 

Orban-Netanyahu-Israel-Hungary
Netanyahu e o húngaro Viktor Órban

Os três líderes procuraram substituir o pensamento progressista e o liberalismo pela plutocracia. Mas se o namoro3 dos três foi bem sucedido em gerar uma tendência mundial pelo populismo, por outro lado, não conseguiu produzir relações mais próximas e amigáveis entre os governos russo e norte-americano. Nem Trump nem Netanyahu conseguiram convencer o establishment da política externa americana a abraçar Putin, nem mesmo como forma de conter o Irã. Este país é visto como um ator de nível regional a ser combatido, mas Democratas e Republicanos consideram a Rússia como um perigoso inimigo global.  Isto porque a Rússia de Putin conseguiu retornar ao cenário da geopolítica internacional como um importante participante independente, em geral adversário dos Estados Unidos. Isto se tornou evidente com a intervenção na Ucrânia e na Síria, bem como no envio de tropas para a Venezuela, um desafio direto a Washington no Hemisfério Ocidental.

Esta é a tragédia da política do poder. Embora Trump e Putin pensem de forma semelhante, eles continuarão a competir em um mundo anárquico, mesmo com o risco de guerra. Seus países estão de lados opostos em quase tudo, incluindo guerra cibernética, proliferação nuclear, segurança regional na Europa e Oriente Médio, e, naturalmente, na questão da interferência russa nas eleições americanas. Mas eles concordam sobre Israel, ou pelo menos Putin e Trump concordam, e ambos simpatizam com Netanyahu.

Trump and Putin tiveram uma reunião de cúpula (em Helsinki, julho de 2018, N.T.), que terminou em relativo fracasso4 , além de quatro encontros curtos. Netanyahu teve cinco bem sucedidas reuniões com Trump em dois anos, e treze bem sucedidas reuniões com Putin em quatro anos. O primeiro-ministro persistiu em cultivar relações próximas com Putin, porque a Rússia é a única potência que tem diálogo aberto com cada um dos atores principais no Oriente médio, incluindo o Hamas e o Hezbollah, e mesmo com rivais regionais, como Irã e Arábia Saudita, além de Turquia e Egito.

Netanyahu soube explorar o interesse da Rússia de que Washington voltasse a reconhecer seu status de superpotência e suas áreas de influência, fazendo uso de sua relação especial com Trump, para com isto conseguir concessões de Putin, começando pela Síria. Parecendo rapidamente esquecer do papel de Israel no episódio da derrubada de um avião militar russo com morte de 15 oficiais, Putin concordou em estabelecer um grupo de trabalho com Israel visando a remoção de todas as forças estrangeiras da Síria. O presidente russo também aceitou as constantes violações do espaço aéreo da Síria por Israel e o bombardeamento de alvos iranianos lá.  O Kremlin ainda propôs a Netanyahu que ele mediasse um acordo entre Estados Unidos, Síria e Irã, para a retirada completa de tropas, mas como tal acordo levaria ao fim das sanções contra o Irã, Netanyahu se recusou.

Em algumas ocasiões, a atuação diplomática de Netanyahu se aproximou de um jogo de pôquer, mas que conseguiu obter de Trump o reconhecimento da anexação das Colinas de Golã por Israel, em desrespeito à legislação internacional e à política tradicional do país. Aparentemente, Putin não fez nada e deixou esta questão passar em branco quando se reuniu com Netanyahu.

Se para obter a adesão de Putin um flerte prévio foi necessário, Netanyahu não poderia ter sonhado em melhor parceiro na Casa Branca que Trump. Este abraçou completamente as posições de Israel no Irã, e a ocupação de Jerusalém5 e das Colinas de Golã. Em breve deverá vir a anexação de parte da Cisjordânia, conforme promessa de Netanyahu caso ganhasse as eleições. E novamente Trump deverá dar seu apoio e Putin emprestar seu silêncio. Desta forma o primeiro-ministro de Israel vem conseguindo redefinir as fronteiras e as alianças no Oriente Médio.

Notas do Tradutor

Pequenas modificações foram introduzidas no artigo, sejam explicativas (indicadas por N.T.), ou como forma de tentar agilizar à leitura de um texto longo, incluindo a supressão de algumas partes, sem com isto afetar as opiniões expressas pelo autor. O tradutor apresenta a seguir alguns comentários adicionais, observando-se a correspondência no texto com a numeração sobrescrita. 

  1.  O termo ‘nacionalismo’ pode ter conotações diferentes, dependendo do período e do país. As idéias nacionalistas já estiveram associadas  com teorias racistas no século XX, como na Alemanha (nacional-socialismo), na Itália (fascismo) e no Japão. No artigo, Marwan Bishara se refere a este nacionalismo que, ao exaltar de forma exacerbada os valores da pátria, se afasta do internacionalismo, entendido como uma política de cooperação entre as nações, podendo com isso levar ao xenofobismo.  Após a II Guerra Mundial, o nacionalismo que se manifesta em países do Terceiro Mundo está principalmente relacionado com a luta contra todas as formas neocolonialistas de exploração, embora a exaltação da pátria estava presente no Brasil do ‘ame-o ou deixe-o’, na época da ditadura militar, e reaparece no governo Bolsonaro, por exemplo, quando se exige dos alunos nas escolas públicas e privadas que cantem o hino nacional, ou se afastando da integração regional ao diminuir a prioridade do Mercosul. 
  2. O presidente da Hungria, Viktor Orbán, apoiado entusiasticamente por Netanyahu, é um político da extrema-direita, que defende e representa posições próximas às dos nazistas. Órban se omitiu quanto ao crescimento do antissemitismo no país, e até deu sua contribuição, com as críticas feitas a judeus proeminentes, além das declarações  xenófobas e racistas de seu partido  a refugiados.  
  3. Na tradução foi utilizado o termo ‘namoro’, para definir o relacionamento de Netanyahu com Putin e Trump, em substituição a ‘bromance’, expressão da língua inglesa que une as palavras brother e romance, para expressar  um relacionamento íntimo, não-sexual, entre dois (ou mais) homens.  
  4. Bishara não enumera que objetivos poderiam ter sido alcançados na cimeira de Helsinki para ela haver terminado em ‘relativo fracasso’.  Benjamim Netanyahu saudou as relações de Israel com a Rússia e Estados Unidos, após Trump e Putin declararem no encontro que a segurança do Estado Judaico fora discutida pelos dois presidentes. Do ponto de vista de Israel, as reuniões aparentemente trouxeram bons resultados. Vale lembrar ainda, que foi na cimeira de Helsinki que Trump criticou a comunidade de inteligência norte-americana (CNN), por esta afirmar que a Rússia havia intervindo nas eleição de 2016 que o conduzira à presidência. À esta declaração de Trump apoiando abertamente a Putin, líder de uma nação adversária, seguiu-se intenso bombardeio de críticas da mídia e do Partido Democrata, de Hillary Clinton. Ao final do encontro, ambos os líderes consideraram que a reunião fora ‘bem sucedida’, talvez por ter contribuído para cimentar as relações pessoais entre os dois.
  5. Na questão do expansionismo sionista, o relacionamento pessoal do presidente norte-americano com o líder israelense não deve ter sido decisivo no reconhecimento por Trump, da anexação de Jerusalém por Israel. Tal posicionamento decorreu principalmente das pressões dos evangélicos fundamentalistas (GGN), e do interesse de Trump  nos ganhos eleitorais que poderia obter com o apoio do  lobby evangélico.