Angela Davis: o internacionalismo negro com foco na Palestina, por Ruben Rosenthal

Sim, eu sabia que era o dinheiro que eu ganhava como poetisa que pagava  pelas bombas, e pelos  aviões e tanques que eles usavam para massacrar sua família. Mas eu não sou uma má pessoa……. /  (June Jordan)

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June Jordan, poetisa e ativista (1936-2002)   /  Foto: Sara Miles

O atual artigo é o terceiro da série com base na tradução1 da entrevista de Angela Davis “Theories of Freedom are Always Tentative” (As Teorias de Liberdade são Sempre Incertas), de 2017, publicada originalmente em Futures of Black Radicalism2Os artigos anteriores focaram na Tradição Radical Negra e no movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

Os entrevistadores, Thereza Johnson e Alex Lubin, indagaram Angela sobre seu trabalho acadêmico tratando da questão da Palestina, e da relação com o movimento negro pela liberdade. “Quando é que essa relação se tornou óbvia para você, e que circunstâncias, ou conjunturas, tornaram possível essa percepção?

AD: “Na verdade, as minhas mais recentes palestras e entrevistas refletem um entendimento, cada vez mais popular, da necessidade de uma estrutura internacionalista, na qual o trabalho em curso visando desmantelar as estruturas do racismo, do heteropatriarcado3, e a injustiça econômica nos Estados Unidos, pode tornar-se mais duradouro e significativo”.

Angela acrescentou que a Palestina sempre ocupou um lugar essencial em sua própria história política, precisamente por causa das semelhanças entre Israel e os Estados Unidos. Estiveram presentes, nos dois casos, “o colonialismo fundador e seus processos de limpeza étnica em relação aos povos indígenas, os sistemas de segregação, o uso dos sistemas legais para ordenar uma repressão sistemática, dentre outras”.

A entrevistada prossegue com sua análise: “costumo salientar que a minha consciência sobre a situação da Palestina remonta aos anos em que frequentava a Universidade de Brandeis (Massachusetts, EUA), que foi fundada4 no mesmo ano que o Estado de Israel. Além disso, durante o período em que estive encarcerada, recebi o apoio de prisioneiros políticos palestinos, bem como de advogados israelenses que defendiam palestinos”.

“Em 1973, quando participei no Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, em Berlim5, tive oportunidade de conhecer Yasser Arafat, que sempre reconheceu a proximidade da luta palestina e da luta pela liberdade negra nos Estados Unidos. Assim como Che e Fidel (em Cuba), Patrice Lumumba (no Congo) e Amílcar Cabral (Guiné-Bissau e Cabo Verde), Arafat era uma figura reverenciada dentro do movimento negro de libertação. Esse foi um tempo em que o internacionalismo comunista na África, Oriente Médio, Europa, Ásia, Austrália, América do Sul e Caribe era uma força poderosa”.

“Se eu falasse da minha própria história, ela teria quase certamente chegado a um desfecho diferente, não houvesse esse internacionalismo desempenhado um papel tão crucial. Os encontros entre as lutas de libertação negra nos Estados Unidos e os movimentos contra a ocupação israelense da Palestina têm uma longa história”.

“Em Geographies of Liberations: The Making of an Afro-Arab Political Imaginary’, de Alex Lubin6 (livro de 2014), tenta-se mapear aspectos importantes dessa história. Muitas vezes, no entanto, não é explicitamente no âmbito político que se descobrem os momentos de contato. Conforme enfatizava Cedric Robinson7, é no âmbito cultural que melhor se identificam estas interfaces”. 

“Robin Kelley8, em seu livro ‘Freedom Dreams: The Making of the Black Radical Imagination’, acentua o campo do surrealismo como uma zona de contato especialmente produtiva”.

“No final do século XX, foi a poetisa feminista June Jordan quem colocou a questão da ocupação da Palestina no centro do debate. Apesar dos ataques sionistas que sofreu, e da perda temporária de uma amizade muito importante com Adrienne Rich9 (que mais tarde também se tornou crítica da ocupação), June tornou-se uma poderosa testemunha para a (causa) Palestina. Na sua poesia, sentiu-se impelida a incorporar a conjuntura da libertação dos negros e da Palestina”.

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June Jordan escreveu: “I was born a Black woman / and now / I am become a Palestinian / against the relentless laughter of evil / there is less and less living room / and where are my loved ones? / It is time to make our way home”.

Em uma tradução livre: “Nasci mulher negra / e agora / Eu me tornei uma Palestina / contra o incessante riso do mal / existe menos e menos espaço de vida / e onde estão aqueles que amo? / É hora de irmos para casa”

AD: “Numa época em que as feministas de cor tentavam forjar estratégias daquilo a que hoje denominamos “interseccionalidade”10, June, que representa o melhor da Tradição Radical Negra, ensinou-nos a capacidade que têm as afinidades políticas, para além das fronteiras nacionais, culturais e supostamente raciais, de nos ajudar a imaginar futuros mais habitáveis. Sinto falta dela, e lamento muito que não tenha vivido o suficiente para conhecer os ativistas do Black Lives Matter empunhando bandeiras de resistência à ocupação da Palestina por todo este continente”.

Angela Davis continua seu relato: “como já fiz notar em diversas ocasiões, quando em 2011 me juntei a uma delegação de ativistas indígenas e feministas acadêmicas de cor, na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, fiquei com a impressão de que compreendi perfeitamente a ocupação. Embora todas nós já estivéssemos ligadas, de uma forma ou de outra, ao movimento de solidariedade, ficamos todas profundamente chocadas com o pouco que realmente sabíamos sobre a violência quotidiana da ocupação”.

“Ao final da nossa visita, decidimos coletivamente dedicar nossas energias a participar no BDS (movimento Boicote, Desinvestimento, Sanções), e ajudar a elevar os níveis de consciência dos nossos vários grupos de origem, sobre o papel dos EUA ao financiar com mais de 8 milhões de dólares a manutenção da ocupação militar (da Palestina por Israel). Portanto, continuo profundamente ligada, neste projeto, a Chandra Mohanty, Beverly Guy-Sheftall, Barbara Ransby, Gina Dent e outras integrantes da delegação”.

“Nos cinco anos que se seguiram à nossa viagem, muitas outras delegações de acadêmicos e ativistas visitaram a Palestina, e ajudaram a acelerar, ampliar e intensificar o movimento de solidariedade com a Palestina. Tal como os arquitetos do movimento BDS modelaram o seu trabalho na campanha anti apartheid contra a África do Sul11, os ativistas norte-americanos tentaram fazer notar que há lições profundas a se tirar das políticas de boicote anteriores”.

“Muitas organizações e movimentos dentro dos EUA consideraram como a incorporação de estratégias anti apartheid nas suas agendas, iria transformar radicalmente o seu próprio trabalho. A campanha não só ajudou a fortalecer esforços internacionais para derrubar o Estado do apartheid, como também fez reviver e enriquecer muitos movimentos internos contra o racismo, a misoginia e a injustiça econômica”.

“Do mesmo modo, a solidariedade com a Palestina tem o potencial de transformar e ampliar a consciência política dos nossos movimentos contemporâneos. Ativistas do BLM, e outras pessoas associadas a este importante momento histórico, de surgimento de uma consciência coletiva, que reclama o reconhecimento das arraigadas estruturas do racismo, podem desempenhar o importante papel de obrigar outras áreas do ativismo pela justiça social a assumir a causa da solidariedade com a Palestina, especificamente o movimento BDS”.  

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Manifestação na Palestina  de ativistas do Black Dream Defenders, grupo da Flórida  /  Foto: Christopher Hazou

“As alianças nos campus das Universidades, reunindo organizações estudantis negras, Estudantes pela Justiça na Palestina (Students for Justice in Palestine) e membros da Voz Judaica pela Paz (Jewish Voice for Peace), nos fazem lembrar da profunda urgência em unir os esforços anti racistas aos fortes desafios à islamofobia e ao antissemitismo, além da resistência global às políticas e práticas de apartheid pelo Estado de Israel”.

“Teórica e ideologicamente, a Palestina também nos ajudou a ampliar a nossa visão abolicionista, que caracterizamos nesta época como a ‘abolição do encarceramento prisional e do policiamento’. A experiência da Palestina nos leva a revisitar conceitos como ‘nação prisão’ ou ‘Estado carcerário’, para que possamos compreender seriamente os encarceramentos cotidianos da ocupação, e a presença constante do policiamento, não apenas pelas forças israelenses, mas também, pela Autoridade Palestina”.

“Isto, por sua vez, estimulou outras direções de pesquisa sobre os usos do encarceramento, e do seu papel, como por exemplo, em perpetrar noções de um binarismo permanente, no em relação ao gênero, e em naturalizar a segregação baseada em capacidades físicas, mentais ou intelectuais”.

 Notas do autor:

 Tradução de Andréa Peniche e Paula Sequeiros, Rede Anti Capitalista.

 2 Futures of Black Radicalism, 2017, Londres: Versobooks, ed. Thereza Johnson e Alex Lubin.

3 O heteropatriarcado é um sistema sociopolítico em que a  heterossexualidade cisgênera e o gênero masculino têm supremacia sobre os demais gêneros, e sobre as outras orientações sexuais.

4 A Universidade de Brandeis é uma instituição privada de ensino e pesquisa em Massachusetts, fundada em 1948 com financiamento da comunidade judaica. Trata-se da única universidade judaica secular na Diáspora 

5  Berlim Oriental, então pertencente à República Democrática Alemã, de regime comunista.

6 O autor, Alex Lubin, é professor da Universidade do Novo México, e um dos entrevistadores de Angela Davis.

7 Ver comentários sobre o escritor e professor Cedric Robinson no primeiro artigo da série atual, em que foi abordada a Tradição Radical Negra.

8 No prefácio do livro Freedom Dreams, de 2002, Angela Davis escreveu: “Um livro poderoso. Robin D. G. Kelley produz histórias de radicalismo negro e visões do futuro que desafiam o convencional e a expectativa”.

A influente e premiada poeta e ensaísta norte-americana Adrienne Rich explorou temas como o papel da mulher na sociedade, sua opressão, o racismo e a Guerra do Vietnam.

10  Carla Akotirene,  pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em seu livro O que é Interseccionalidade? , explica a ferramenta metodológica preparada pelas feministas negras. O termo foi cunhado pela jurista estadunidense, a professora de Teoria Crítica da Raça, Kimberlé Crenshaw, no âmbito das leis anti discriminação. A ferramenta analítica é usada para pensar a inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cis-heteropatriarcado, e as articulações decorrentes, que colocam as mulheres negras, mais expostas e vulneráveis aos trânsitos destas estruturas.

A Teoria Crítica da Raça (TCR) é um campo científico desenvolvido por juristas estadunidenses, a partir dos Movimentos pelos Direitos Civis, buscando a compreensão da relação entre raça e direito, para o melhor enfrentamento da realidade do racismo.

11 Embora a campanha contra o sistema segregacionista do apartheid tenha se iniciado no Reino Unido, nos anos 60, foi nos Estados Unidos, nos anos 80, que o movimento assumiu tal proporção, que levou o congresso norte-americano a aprovar legislação impondo severas sanções econômicas contra a África do Sul, resultando no desmoronamento do sistema de apartheid.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

Políticas de Netanyahu fomentam antissemitismo e jihadismo, levando ao êxodo de judeus para Israel

O aumento dos atentados da extrema-direita antissemita e do jihadismo na Europa e Estados Unidos pode resultar na migração em massa de judeus para Israel, o que ajuda Netanyahu a resolver a  “ameaça demográfica” representada pelos palestinos. 

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Vandalismo no cemitério de Bordeaux, França – Foto AP

O medo que se difunde nas comunidades judaicas da Europa e dos Estados Unidos, seja derivado das ações de neonazistas ou de adeptos do jihadismo, as estão compelindo a abandonar seus países e buscar “segurança” em Israel. O artigo mostra como as políticas de Netanyahu, com apoio de Trump, ao aumentar as ações belicosas contra palestinos, aí incluindo o bloqueio físico e econômico a Gaza, trouxeram, em retaliação, protestos e atentados violentos contra os judeus. Por outro lado, o apoio dado por Israel a governos de extrema-direita da Europa, que se alinharam no passado à Alemanha Nazista, incentiva o aumento do antissemitismo e de ataques neonazistas.

Caso Netanyahu consiga formar maioria no parlamento com as próximas eleições, e garantir sua imunidade, poderá ir adiante com a intenção, já declarada, de anexar partes da Cisjordânia ou mesmo a totalidade. Entretanto, maior o território, maior a população necessária (de judeus) para ocupá-lo. Netanyahu já levantara a tese,  em 2003, quando ministro da justiça, que os israelenses de origem árabe, que atualmente constituem cerca de 21 por cento da população do atual Estado de Israel, representam “uma ameaça demográfica” para a maioria judaica.

Neste sentido, o aumento substancial da população de judeus, tanto em Israel como na Cisjordânia, garantiria o futuro do projeto sionista, por resolver a “ameaça demográfica”. De fato, a imigração em massa de judeus vindos da Europa e dos Estados Unidos inviabilizaria o direito a autodeterminação do povo palestino, sacramentando de vez o fim da solução de Dois Estados. Aos palestinos da Cisjordânia restaria viver confinados em bolsões esparsos, como os antigos bantustões criados pelo regime de Apartheid na África do Sul.

Caso fosse estabelecido um único Estado, com a completa anexação da Cisjordânia, mesmo se os palestinos lá residentes recebessem cidadania israelense, a representatividade política deles seria insuficiente para reverter a lei do Estado-Nação, se for alterada a demografia com chegada de um grande contingente de imigrantes judeus. Esta lei, aprovada em julho de 2018, institucionalizou a discriminação que já existia contra israelenses não-judeus. 

Tradicionalmente, o antissemitismo sempre esteve associado à teorias conspiratórias, como os Protocolos dos Sábios de Sião, a usura dos judeus e o poder dos banqueiros.

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Estereótipo do judeu: Fagin, personagem sinistro, em Oliver Twist, de Charles Dickens

Uma pesquisa recente da CNN revelou que os antigos estereótipos antissemitas estão novamente fortes na Europa. Mais de um quarto dos europeus consultados acredita que os judeus têm muita influência nos negócios e finanças, e em conflitos e guerras no mundo, enquanto que, para um em cinco europeus,  é muito grande a influência na mídia e na política.

É nestes preconceitos históricos que pode residir o risco maior do ovo da serpente já estar sendo chocado, e não na reação de muçulmanos radicais, mesmo que extremada, contra a violência excessiva cometida pelas tropas israelenses. 

A avaliação estatística dos casos reais de antissemitismo é, atualmente, dificultada pelo fato de vários países do Ocidente terem adotado, por pressão do lobby judaico, a definição de antissemitismo elaborada pela IHRA, a Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto. Por esta definição, críticas ao sionismo de Israel, pelo expansionismo e pelo tratamento opressivo dado aos palestinos, bem como as retaliações de toda contra judeus, são enquadradas como sendo atos de antissemitismo. Esta interpretação faz com que as estatísticas percam, infelizmente, muito de sua confiabilidade. 

Na sequência aos vários ataques terroristas de 2015 em Paris e Copenhagen, que envolveram também alguns alvos judaicos, o primeiro ministro israelense fez um chamamento aos judeus da Europa e dos Estados Unidos, para fazerem a aliyah* – a migração para IsraelSegundo o cineasta francês Claude Lanzmann, o conselho de Netaniyahu para os judeus deixarem a Europa equivale a conceder uma vitória póstuma a Hitler, ou seja, uma Europa livre de judeus. 

Na ocasião, o escritor e político Uri Avnery  (já falecido), fundador e ativista do grupo pacifista Gush Shalom, ressaltou ser “absurda” a idéia do crescimento do antissemitismo na Europa. Ele declarou que “os abusos foram cometidos por jovens muçulmanos, como parte de guerra entre israelenses e árabes”.

Entretanto, desde então, o crescimento surpreendente da extrema direita na Europa e nos Estados Unidos, principalmente após a eleição de Trump, introduziu uma evidente mudança na origem dos atentados contra alvos judaicos.

Nos Estados Unidos, o medo de freqüentar suas instituições religiosas já se espalha pela comunidade judaica. Em outubro do ano passado, durante a celebração do Shabbat na sinagoga Árvore da Vida, em Pittsburgh, onze judeus foram mortos a tiros por um supremacista branco. Em abril deste ano, tiros na sinagoga de Poway, norte de San Diego, Califórnia, causaram uma morte e ferimentos três pessoas, inclusive no rabino. O atirador havia publicado elogios a Adolf Hitler e aos atiradores de Pittsburgh.  Em maio, ocorreu a tentativa de incendiar duas sinagogas, bem como atos de vandalismo em Chicago.

Para Trump e Netanyahu, atentados cometidos por supremacistas brancos vão de encontro à narrativa que eles procuram transmitir, que o terrorismo que os judeus devem temer provém apenas de organizações como a Jihad Islâmica. Parte da mídia norte-americana prefere denominar de “crimes de ódio”, os atentados provenientes da extrema-direita , reservando o termo “terrorista”, apenas para quando houver participação de islamitas.

No entanto, muitos norte-americanos não se esqueceram das controversas declarações de Trump, de que havia “pessoas muito boas de ambos os lados”, ao se referir aos violentos conflitos em Charlottesville, Virgínia, resultantes dos protestos de manifestantes contra as hordas de neonazistas, supremacistas brancos e  da KKK, que haviam afluído à cidade.

supremacistas brancos em Charlotville, 2017
Supremacistas brancos em Charlottsville – Reprodução

Após Pittsburgh, a imensa solidariedade que os judeus receberam de outras minorias que também se sentem ameaçadas pelos supremacistas, incluindo a comunidade muçulmana, foi um sintoma de que se amplia o racha dos judeus americanos, majoritariamente liberais, com o governo de Israel, bem como com o seu próprio governo. 

Na convenção do Partido Democrata na Califórnia, no final de maio deste ano, moções críticas a Israel foram propostas pela esquerda do partido, sugerindo que o governo de Israel é parcialmente responsável pelo clima que inspirou o massacre na sinagoga de Pittsburgh, pelo apoio recebido de grupos da ultra-direita nos Estados Unidos e no exterior, ignorando perigosamente o antissemitismo arraigado neles.

Na Europa, de acordo com Human Rights Watch, “é alarmante o crescimento do antissemitismo”. No Congresso Judaico Europeu realizado em Praga, em 2015, o diretor (do CJE) declarou que a Europa está diante de um novo êxodo de judeus, em face do crescente antissemitismo e extremismo. Ele acrescentou ainda: “jihadismo se assemelha muito ao nazismo. Pode-se dizer que são duas faces do mesmo mal”. Foi ainda declarado no evento, que boa parte dos cerca de 600.000 judeus franceses estaria pensando em deixar o país, como reação ao aumento dos ataques. 

Na Alemanha, onde partido de extrema direita AfD, Alternativa para a Alemanha, se tornou o maior partido de oposição,  os judeus religiosos foram aconselhados a não usar o solidéu (boina de caráter religioso) em público, após um número crescente de ataques. Noventa por cento dos 1.800 crimes antissemitas têm envolvimento de extremistas de direita, segundo o Deutsche Welle.  

Na Inglaterra, o periódico The Guardian, relatou o aumento do número de incidentes de (suposta) natureza antissemita nos meses de abril e maio de 2018, coincidindo com protestos junto à cerca de Gaza, quando muitos palestinos foram mortos e feridos. Anteriormente, o pico de incidentes desta natureza fora em agosto de 2014, também enquanto ocorria um sério conflito em Gaza entre o Hamas e Israel. Portanto, as evidências parecem indicar que a maioria dos casos relatados estão, na verdade, relacionados com protestos contra às políticas repressivas de Israel. 

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Protestos de palestinos junto a cerca entre Gaza e Israel – Reprodução

Uma pesquisa realizada em dezembro de 2018, sobre a percepção do antissemitismo, revelou que 89% dos judeus que vivem na Áustria, Bélgica, Dinamarca, Alemanha, França, Holanda, Hungria, Itália, Holanda, Polônia, Espanha, Suécia e Reino Unido, consideraram que o antissemitismo é um sério problema, a maioria tendo medo de receber insultos ou agressões na rua. Por outro lado, de acordo com uma consulta também recente do Pew Research Center, cerca de 90 por cento dos franceses, 82 por cento dos alemães e 72% dos espanhóis disseram ter uma atitude favorável aos judeus. O mesmo ocorreu na Inglaterra, com atitudes positivas iguais para com judeus e cristãos.

O resultado da pesquisa do Pew Center parece sugerir que a percepção de antissemitismo, sentida por um indivíduo ou por uma coletividade, tem forte um grau de subjetividade. A controversa e confusa definição oficial da IHRA incorpora esta subjetividade, ao estabelecer que o “antissemitismo é uma ‘percepção’ que  os judeus tem da hostilidade ou ódio contra si”. Assim, esta percepção pode ser fortemente influenciada por setores conservadores, incluindo as mídias tradicional e digital, grupos políticos e religiosos, dentre outros. 

A Europa Oriental e Central requerem uma análise a parte. Nestas regiões, onde a extrema-direita já chegou ao poder em diversos países, é preocupante que líderes de nações que colaboraram com a Alemanha nazista estejam adotando práticas revisionistas de negar este vínculo, ou de exaltar figuras de passado sinistro. É mais ainda temerário, que Netanyahu esteja estendendo o tapete vermelho para estes líderes, com o objetivo de obter apoio nos fóruns internacionais, onde a imagem de Israel está abalada pela política opressiva contra os palestinos.

Netanyahu recebeu em janeiro deste ano, com todas as honras, o Presidente Petro Poroshenko da Ucrânia, cujo parlamento acabara de estabelecer, como feriado nacional, a data de nascimento de Stepan Bandera, colaborador dos nazistas durante a segunda guerra mundial. Bandera esteve implicado na morte de milhares de judeus.

Enquanto Poroshenko visitava Israel, um memorial estava sendo erguido em Kiev para Symon Petliura, cujas tropas estiveram associadas aos pogroms**, que mataram cerca de 50.000 judeus logo após a primeira guerra mundial.

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Cartaz do concerto neonazista na Ucrânia

Poroshenko não se reelegeu, e  tanto o presidente como o primeiro-ministro atuais são de origem judaica. Isto não impede que sejam realizados grandes eventos pelos neonazistas, como o concerto esta semana, em Kiev, de diversas bandas européias e da banda norte-americana “blue eyed devils“. Fortress Europe é um festival “para aqueles que defendem os ideais das Nações Européias: Tradições, Herança, Irmandade”. Um encontro para “honrar a “Sagrada Irmandade”. O ovo da serpente está sendo chocado. 

A data do concerto, 22 de junho, coincide com o aniversário da invasão da (então) União Soviética pela Alemanha nazista.

Netanyahu estabeleceu forte aliança com o primeiro ministro húngaro, Viktor Orbán, que previamente fizera fartos elogios a Miklos Horthy, governante da Hungria durante a segunda guerra. Horthy foi responsável pela introdução de leis antissemíticas, além de ter colaborado com o nazismo. Netanyahu foi também complacente com os líderes da Polônia, que promulgaram lei visando criminalizar a quem atribuir culpa à nação polonesa, por crimes cometidos contra os judeus durante a guerra.

Apesar das ações de líderes da extrema-direita da Europa Central e Oriental de procurar passar uma borracha no envolvimento anterior de seus países com o nazismo, até o momento são poucos os relatos conhecidos de ataques violentos realizados contra as respectivas comunidades judaicas. Um destes atentados, e que recebeu ampla condenação, foi o vandalismo em túmulos de um cemitério judaico na Romênia, que chocou a pequena comunidade que restou no país após o nazismo.

A política de Netanyahu, de compactuar com estes líderes de extrema-direita, está contribuindo para tornar mais negras as nuvens no céu da Europa. Críticos consideram que foi um “pacto com o diabo” (feito por Netanyahu), “uma manobra que legitima o antissemitismo e beira a negação do Holocausto”. A visita de governantes de extrema-direita, aí se incluindo Jair Bolsonaro, ao Museu do Holocausto em Israel, talvez para servir como um ritual de purificação, conspurcou o museu com a essência do mal.

Uma violência maior nestes países da Europa Central e Oriental pode estar apenas incubada, e é capaz de explodir a qualquer momento em pogroms do século 21. A ameaça ronda também a Europa Ocidental.

Notas do Autor:

*A aliah, ou migração de judeus para Israel, é garantida pela Lei do Retorno, de 1950, que dá a judeus, de qualquer região do mundo, o direito de migrar para Israel e adquirir cidadania do país. Tenho minhas dúvidas se judeus que apoiem o BDS, o boicote internacional contra Israel, são também bem vindos.

**O termo pogrom, de origem russa, foi usado historicamente em referência a perseguições e violentos ataques, nos séculos 19 e 20, contra judeus no Império Russo.

Diretor do Museu Judaico de Berlim forçado a renunciar por apoiar boicote a Israel

Peter Schäfer, diretor do museu, foi pressionado a renunciar por ter apoiado pelo Twitter uma petição de intelectuais judeus, favorável ao movimento BDS, de boicote econômico e cultural a Israel.

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Rostos enferrujados trazem sensação de dor ao visitante do museu

O Museu Judaico de Berlim já vinha sofrendo pressões da parte do primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, por ter realizado uma exposição sobre Jerusalém, que apresentava “um ponto de vista muçulmano-palestino”, segundo relato de Noa Landau, publicado no Haaretz.  Netanyahu já teria cobrado anteriormente de Angela Merkel o fim das subvenções ao museu, bem como ao Festival Internacional de Cinema de Berlim e a algumas organizações cristãs, por supostas  “atividades anti-Israel, como apoiar o terrorismo palestino, defender o boicote ao Estado de Israel, e acusar as forças de defesa israelenses de cometerem crimes de guerra”

O abaixo-assinado que resultou na renúncia de Schäfer, foi assinado por 240 intelectuais judeus, incluindo Avraham Burg, pacifista, ex-membro do parlamento de Israel, e Eva Illouz, socióloga conceituada e professora titular de sociologia da Universidade Hebraica de Jerusalém. A petição pede ao governo alemão que não implemente a moção aprovada no parlamento alemão que define o movimento BDS, de boicote econômico e cultural, como sendo antissemita. A moção foi aprovada com amplo apoio de vários partidos, e declara ainda que colocar adesivos de “Não Compre” em produtos israelenses evoca o slogan nazista “Não Compre de Judeus”.

A petição assinada pelos intelectuais judeus defende a liberdade de opinião, e que “boicotes são uma forma legítima de resistência”. O texto argumenta ainda em favor da continuação do apoio financeiro a organizações israelenses e palestinas que “contestam pacificamente a ocupação israelense, expondo graves violações das leis internacionais, e fortalecendo a sociedade civil”.

Cada vez mais, fica evidenciado que é crescente a resistência no meio judaico às políticas de Netanyahu, que vem impedindo o andamento de negociações que levem à obtenção de um acordo de paz no Oriente Médio, em que sejam reparadas as injustiças históricas cometidas contra o povo palestino pelo sionismo, desde a fundação do Estado de Israel. Resta ver o alcance da repercussão do afastamento de Peter Schäfer. 

foto de peter schaffer

Peter Schäfer é um renomado estudioso de assuntos judaicos, doutor honoris causa pela Universidade de Utrecht e de Tel Aviv. Ocupou o cargo de diretor do programa de estudos judaicos em Princeton, tendo recebido diversos prêmios e honrarias. Em 2006 recebeu o “Mellon Award”, o principal reconhecimento para estudiosos de humanidades nos Estados Unidos, por seu trabalho acadêmico e iniciativas de revitalizar a tradição dos estudos judaicos na Alemanha. Vários outros prêmios de prestígio foram obtidos na Alemanha.

O Museu Judaico de Berlim

O primeiro Museu Judaico data de 24 de janeiro de 1933, poucos dias antes do Partido Nazista chegar ao poder. O museu veio a ser fechado pela Gestapo em de 10 de novembro de 1938, durante o que ficou conhecido como a infame Noite dos Cristais, parte do pogrom (ataque ou perseguição, em russo), em que naqueles dias de novembro, os nazistas cometeram violentos atos de vandalismo contra sinagogas e propriedades da comunidade judaica, e que resultaram em dezenas de mortes. O prédio em estilo barroco veio a abrigar o Museu de Berlim, e foi apenas em 1979 que um Departamento Judaico foi estabelecido no museu. No entanto, a maior parte do acervo original havia desaparecido, e parte passara integrar o acervo de instituições judaicas fora da Alemanha. Em 1988 foi anunciada uma competição anônima para um projeto de um novo museu judaico, que funcionaria como uma extensão do prédio barroco.  

foto museu de berlim

O projeto de arquitetura da extensão do Museu Judaico de Berlim, de Daniel Libenskind, foi considerado o único no processo seletivo que “implementou um projeto formal e radical, como uma ferramenta conceitualmente expressiva, para representar o estilo de vida judaico antes, durante e após o Holocausto”. O projeto final, um edifício em forma de zigue-zague, nasceu de uma deformação da Estrela de David, expandida em torno do terreno, onde ao lado se situa o prédio barroco. A construção é formada por três eixos, com base na experiência dos judeus na Alemanha: o Eixo do Holocausto, o Eixo da emigração e o Eixo da continuidade com a história alemã. Embora a extensão de Libenskind aparente ser uma edificação independente, o acesso é feito, através de uma passagem subterrânea, pelo prédio de estilo barroco que abrigara o museu original e o Museu de Berlim, e que atualmente faz parte do complexo do Museu Judaico.

 

 

 

 

 

 

Netanyahu não consegue mais pacificar Gaza com dinheiro do Catar e promessas vazias.

Artigo de Muhammad Shehadapublicado no Haaretz em 5 de maio. Tradução comentada e introdução inicial, por Ruben Rosenthal, do Chacoalhando2. As fotografias do artigo original foram substituídas. 

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 Jovem palestino e o que restou de sua casa              agência Reuters

O bloqueio de Israel a Gaza já dura 12 anos e deixou a economia local devastada. Apenas no ano passado, cerca 35.000 palestinos emigraram, sendo a maior parte, jovens com boa educação, enquanto que médicos estão sendo impedidos de partir pelo Hamas.  As intenções e limitações dos principais atores de mais esta Catástrofe palestina são discutidas no artigo, em que o autor indica qual o único caminho que considera ainda viável para a superação do atual impasse, que transformou Gaza em uma gigantesca prisão a céu aberto.

 

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Bombardeio de Gaza por Israel          agência Reuters

 

As propinas de Israel (através de dinheiro do Catar) não estão mais funcionando, e o Hamas não está conseguindo evitar que a Jihad Islâmica imploda o status quo. O “plano de paz” Kushner/Trump (para a Palestina) é baseado também neste mesmo raciocínio falho, e pode trazer resultados ainda mais desastrosos.   Continue lendo “Netanyahu não consegue mais pacificar Gaza com dinheiro do Catar e promessas vazias.”

Netanyahu, Trump e Putin: uma História de Amor

Tradução informal e comentada, do artigo publicado em 8 de abril no Al Jazeera, de autoria do analista sênior, Marwan Bishara. Ruben Rosenthal

Com os resultados finais da eleição para o parlamento de Israel indicando que o partido do atual primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu conseguiu 36 dos 120 assentos, tudo indica que ele será o líder do governo de coalizão da direita. Será seu quinto mandato, caso os problemas de corrupção não o impeçam de assumir. Com ele no poder, pode-se prever que em breve virá a anexação de parte da Cisjordânia. Odiado por muitos, por sua responsabilidade no sofrimento e nas mortes de milhares de palestinos desde que assumiu o governo em 2009, Bibi é reconhecidamente um magistral enxadrista em geopolítica. Marwan Bishara nos explica como atua o polêmico político.

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Podem chamar Netanyahu de trapaceiro e belicista, mas que outro líder pode se gabar de ter conseguido se reunir com Trump e com Putin no prazo tão curto de duas semanas antecedendo eleições gerais. A motivação imediata desta diplomacia foi certamente o ganho eleitoral, mas as implicações estratégicas de sua vitória podem resultar na reconfiguração do Oriente Médio. Breve deverá vir a anexação de partes da Cisjordânia, prometida na campanha eleitoral. E novamente Trump deverá dar seu apoio, e Putin, emprestar seu silêncio. Como isto foi possível?

Netanyahu aproveitou sua ida, em setembro de 2016, à reunião de cúpula anual das Nações Unidas em Nova Iorque, para um primeiro encontro, na Trump Tower, com o então candidato presidencial republicano. Segundo Steve Bannon, então conselheiro de Trump, o novato na política recebeu uma aula do mestre de xadrez da geopolítica mundial, particularmente sobre a importância das relações entre os Estados Unidos e Israel, face às realidades do Oriente Médio.

Netanyahu contribuiu para que Trump pudesse colocar de forma racional seus instintos sobre segurança, imigração, terrorismo, Islã, e mesmo as vantagens de um muro na fronteira (idéia que Trump deve ter aproveitado como sua ‘solução’ para a imigração através da fronteira com o México, N.T.). Mas a grande jogada de Netanyahu foi fazer o foco da conversa convergir para uma fórmula simples: ‘o Irã, e não a Rússia, é o principal inimigo’ de ambos, e que o presidente russo tem uma posição privilegiada na ajuda contra os aiatolás e o Islã radical.  Isto soou como música aos ouvidos de Trump, pois ele já vinha cortejando Putin, para horror de seus detratores em casa e na Europa. Graças a Netanyahu, Trump pôde se municiar de uma doutrina estratégica que envolvia forjar novas alianças e parcerias com lideranças fortes.

A nível pessoal, foi uma aliança tranquila de se estabelecer. Benjamin, Donald e Vladimir realmente pareciam se gostar. Com passados e estilos distintos, eles, no entanto, tem um mesmo perfil. Homens brancos, já de certa idade, adotando estereótipos do macho, nacionalistas1 com um traço de malignidade, os três são personalidades que polarizam. São vistos como enganadores, com um ‘jeitinho’ para agir com impunidade. Não gostam da liberdade de imprensa e de um judiciário independente e ativo.

O principal inimigo em comum do trio é nenhum outro que o ex-presidente americano Barack Obama, e tudo o que ele representava, seja o multiculturalismo, os ideais liberais e uma política externa liberal. Assim que assumiu a presidência, Trump começou a destruir o que Obama construiu no país e no exterior, sem se importar em violar leis e acordos internacionais, saudado por seus dois camaradas e por um número crescente de fãs pelo mundo. Ele deixou o Acordo de Paris e o acordo nuclear com o Irã, além de dar seu apoio incondicional aos mais repressivos regimes no Oriente Médio, dentre outros.  

O trio atraiu e inspirou uma nova cepa de líderes agressivos hiper-nacionalistas1 que veneram o poder, como Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, Abdel Fattah el-Sisi, do Egito, Viktor Orbán2 , da Hungria e Jair Bolsonaro, do Brasil.  Trump e Putin podem ser os líderes do grupo, mas foi Netanyahu,  o entusiástico apoiador desta nova leva de governantes (Haaretz), mostrando sua afinidade com os mesmos, contrariamente ao que se esperaria do líder de uma nação fundada por vítimas de perseguição étnica. 

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Netanyahu e o húngaro Viktor Órban

Os três líderes procuraram substituir o pensamento progressista e o liberalismo pela plutocracia. Mas se o namoro3 dos três foi bem sucedido em gerar uma tendência mundial pelo populismo, por outro lado, não conseguiu produzir relações mais próximas e amigáveis entre os governos russo e norte-americano. Nem Trump nem Netanyahu conseguiram convencer o establishment da política externa americana a abraçar Putin, nem mesmo como forma de conter o Irã. Este país é visto como um ator de nível regional a ser combatido, mas Democratas e Republicanos consideram a Rússia como um perigoso inimigo global.  Isto porque a Rússia de Putin conseguiu retornar ao cenário da geopolítica internacional como um importante participante independente, em geral adversário dos Estados Unidos. Isto se tornou evidente com a intervenção na Ucrânia e na Síria, bem como no envio de tropas para a Venezuela, um desafio direto a Washington no Hemisfério Ocidental.

Esta é a tragédia da política do poder. Embora Trump e Putin pensem de forma semelhante, eles continuarão a competir em um mundo anárquico, mesmo com o risco de guerra. Seus países estão de lados opostos em quase tudo, incluindo guerra cibernética, proliferação nuclear, segurança regional na Europa e Oriente Médio, e, naturalmente, na questão da interferência russa nas eleições americanas. Mas eles concordam sobre Israel, ou pelo menos Putin e Trump concordam, e ambos simpatizam com Netanyahu.

Trump and Putin tiveram uma reunião de cúpula (em Helsinki, julho de 2018, N.T.), que terminou em relativo fracasso4 , além de quatro encontros curtos. Netanyahu teve cinco bem sucedidas reuniões com Trump em dois anos, e treze bem sucedidas reuniões com Putin em quatro anos. O primeiro-ministro persistiu em cultivar relações próximas com Putin, porque a Rússia é a única potência que tem diálogo aberto com cada um dos atores principais no Oriente médio, incluindo o Hamas e o Hezbollah, e mesmo com rivais regionais, como Irã e Arábia Saudita, além de Turquia e Egito.

Netanyahu soube explorar o interesse da Rússia de que Washington voltasse a reconhecer seu status de superpotência e suas áreas de influência, fazendo uso de sua relação especial com Trump, para com isto conseguir concessões de Putin, começando pela Síria. Parecendo rapidamente esquecer do papel de Israel no episódio da derrubada de um avião militar russo com morte de 15 oficiais, Putin concordou em estabelecer um grupo de trabalho com Israel visando a remoção de todas as forças estrangeiras da Síria. O presidente russo também aceitou as constantes violações do espaço aéreo da Síria por Israel e o bombardeamento de alvos iranianos lá.  O Kremlin ainda propôs a Netanyahu que ele mediasse um acordo entre Estados Unidos, Síria e Irã, para a retirada completa de tropas, mas como tal acordo levaria ao fim das sanções contra o Irã, Netanyahu se recusou.

Em algumas ocasiões, a atuação diplomática de Netanyahu se aproximou de um jogo de pôquer, mas que conseguiu obter de Trump o reconhecimento da anexação das Colinas de Golã por Israel, em desrespeito à legislação internacional e à política tradicional do país. Aparentemente, Putin não fez nada e deixou esta questão passar em branco quando se reuniu com Netanyahu.

Se para obter a adesão de Putin um flerte prévio foi necessário, Netanyahu não poderia ter sonhado em melhor parceiro na Casa Branca que Trump. Este abraçou completamente as posições de Israel no Irã, e a ocupação de Jerusalém5 e das Colinas de Golã. Em breve deverá vir a anexação de parte da Cisjordânia, conforme promessa de Netanyahu caso ganhasse as eleições. E novamente Trump deverá dar seu apoio e Putin emprestar seu silêncio. Desta forma o primeiro-ministro de Israel vem conseguindo redefinir as fronteiras e as alianças no Oriente Médio.

Notas do Tradutor

Pequenas modificações foram introduzidas no artigo, sejam explicativas (indicadas por N.T.), ou como forma de tentar agilizar à leitura de um texto longo, incluindo a supressão de algumas partes, sem com isto afetar as opiniões expressas pelo autor. O tradutor apresenta a seguir alguns comentários adicionais, observando-se a correspondência no texto com a numeração sobrescrita. 

  1.  O termo ‘nacionalismo’ pode ter conotações diferentes, dependendo do período e do país. As idéias nacionalistas já estiveram associadas  com teorias racistas no século XX, como na Alemanha (nacional-socialismo), na Itália (fascismo) e no Japão. No artigo, Marwan Bishara se refere a este nacionalismo que, ao exaltar de forma exacerbada os valores da pátria, se afasta do internacionalismo, entendido como uma política de cooperação entre as nações, podendo com isso levar ao xenofobismo.  Após a II Guerra Mundial, o nacionalismo que se manifesta em países do Terceiro Mundo está principalmente relacionado com a luta contra todas as formas neocolonialistas de exploração, embora a exaltação da pátria estava presente no Brasil do ‘ame-o ou deixe-o’, na época da ditadura militar, e reaparece no governo Bolsonaro, por exemplo, quando se exige dos alunos nas escolas públicas e privadas que cantem o hino nacional, ou se afastando da integração regional ao diminuir a prioridade do Mercosul. 
  2. O presidente da Hungria, Viktor Orbán, apoiado entusiasticamente por Netanyahu, é um político da extrema-direita, que defende e representa posições próximas às dos nazistas. Órban se omitiu quanto ao crescimento do antissemitismo no país, e até deu sua contribuição, com as críticas feitas a judeus proeminentes, além das declarações  xenófobas e racistas de seu partido  a refugiados.  
  3. Na tradução foi utilizado o termo ‘namoro’, para definir o relacionamento de Netanyahu com Putin e Trump, em substituição a ‘bromance’, expressão da língua inglesa que une as palavras brother e romance, para expressar  um relacionamento íntimo, não-sexual, entre dois (ou mais) homens.  
  4. Bishara não enumera que objetivos poderiam ter sido alcançados na cimeira de Helsinki para ela haver terminado em ‘relativo fracasso’.  Benjamim Netanyahu saudou as relações de Israel com a Rússia e Estados Unidos, após Trump e Putin declararem no encontro que a segurança do Estado Judaico fora discutida pelos dois presidentes. Do ponto de vista de Israel, as reuniões aparentemente trouxeram bons resultados. Vale lembrar ainda, que foi na cimeira de Helsinki que Trump criticou a comunidade de inteligência norte-americana (CNN), por esta afirmar que a Rússia havia intervindo nas eleição de 2016 que o conduzira à presidência. À esta declaração de Trump apoiando abertamente a Putin, líder de uma nação adversária, seguiu-se intenso bombardeio de críticas da mídia e do Partido Democrata, de Hillary Clinton. Ao final do encontro, ambos os líderes consideraram que a reunião fora ‘bem sucedida’, talvez por ter contribuído para cimentar as relações pessoais entre os dois.
  5. Na questão do expansionismo sionista, o relacionamento pessoal do presidente norte-americano com o líder israelense não deve ter sido decisivo no reconhecimento por Trump, da anexação de Jerusalém por Israel. Tal posicionamento decorreu principalmente das pressões dos evangélicos fundamentalistas (GGN), e do interesse de Trump  nos ganhos eleitorais que poderia obter com o apoio do  lobby evangélico.

 

 

Os Riscos do Lobby Pró-Israel

Poderá ser muito alta para o país, a conta a pagar pelo reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel em troca do apoio de evangélicos conservadores à eleição de Bolsonaro

 

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Muro das Lamentações e Domo da Mesquita de Omar

 

A atuação do movimento sionista levou à partilha decidida pela ONU em 1947 do território conhecido então como Palestina, e ao estabelecimento do Estado de Israel em 1948, sem que no entanto fosse efetivada a criação do Estado Palestino. Centenas de milhares de judeus acorreram para lá, incluindo muitos sobreviventes do Holocausto (estima-se que foram cerca de 600.000 nos três primeiros anos). Paralelamente, milhares de árabes palestinos fogem ou são desalojados e expulsos. Os países árabes não aceitaram a cessão de terras para a formação de Israel, invadindo a país recém formado. Um amplo conflito foi deflagrado, do qual Israel sai vitorioso, tomando cerca de 60% das terras previstas para o estado árabe-palestino. Como resultado da guerra, Israel ocupou o setor ocidental da cidade de Jerusalém, permanecendo a parte oriental, bem como a Cisjordânia, sob controle do reino Hachemita da Jordânia. Pela partilha, Jerusalém deveria ser internacionalizada, pelo caráter  sagrado para as três principais religiões monoteístas. As décadas seguintes foram de guerras, violentos conflitos e animosidade na região.

Com o fracasso do acordo de paz de Oslo de 1993 entre a OLP e Israel seguindo-se ao assassinato do líder israelense Yitzhak Rabin por um extremista judeu em 1995, a ascensão dos governos de direita de Ariel Sharon (2001-2006) e de Benjamin Netanyahu (a partir de 2009) só fez agravar a situação de beligerância na região. A questão do status de Jerusalém e a política de expansão dos assentamentos judaicos em terras da Cisjordânia solaparam a possibilidade de se chegar à solução de ‘Dois Estados’ preconizada pelo acordo de Oslo.

Os mapas da figura mostram a evolução temporal das terras ocupadas por judeus, partindo de umas poucas colônias ainda durante o mandato britânico, o mapa da partilha de 1947 pela ONU (Jerusalém em branco), o da independência do Estado de Israel, já com as terras conquistadas na guerra de 1948, e o mapa em 2000 , que mostra as terras que restavam aos palestinos, como resultado da expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia ocupada. A veracidade deste último mapa não pôde ser confirmada por este blogue, mas a expansão dos assentamentos prossegue até os dias atuais.  O termo ‘bantustão’ é por vezes utilizado pelos mais críticos  de Israel, ao fazer a comparação com o antigo sistema do Apartheid na África do Sul, que, por segurança, confinava a população negra majoritária em regiões dispersas.

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Mais recentemente, o bloqueio asfixiante a Gaza e o ‘abate’ de manifestantes próximos às cercas da fronteira da Faixa geraram imagens que percorreram e chocaram o mundo.  A aprovação da Lei do Estado-Nação em 2018 reforçou as críticas, vindas até mesmo da parte judeus, de Israel ter se tornado um regime de Apartheid, por discriminar contra seus cidadãos não-judeus, principalmente os palestinos (Haaretz).

Os grupos de pressão pró-Israel têm atuado intensamente a nível mundial, buscando atenuar as críticas nos Fóruns Internacionais. Não se trata mais apenas de defender a existência de um ‘lar nacional’ onde os judeus estejam protegidos das perseguições que sofreram por séculos na Europa, da ameaça de vizinhos árabes hostis de empurrar judeus para o mar, e de movimentos extremistas. O poder militar e de dissuasão de Israel garante, atualmente, a sua existência pela força, mas não a paz duradoura. Trata-se, agora, de tentar se contrapor ao crescente movimento internacional pelos direitos do Povo Palestino, e que contribuiu para fortalecer o BDS, o boicote cultural e de bens e serviços, que vem prejudicando a economia e isolando culturalmente o país.

Os  antissionistas, críticos das políticas do expansionistas e dos excessos cometidos por Israel na repressão aos palestinos, passaram a ser indistintamente rotulados de ‘antissemitas’. É  o que vem ocorrendo intensamente na Inglaterra, com acusações  contra parlamentares do Partido Trabalhista (Chacoalhando). A pressão também aumenta contra parlamentares dos Democratas nos Estados Unidos, conforme este partido começa a se alinhar mais com teses simpáticas aos palestinos. Trump aproveitou para acusar os Democratas de serem um partido contra os judeus (Haaretz).

Da mesma forma que nos Estados Unidos, o principal grupo de pressão religioso pró-Israel no Brasil era tradicionalmente constituído por membros proeminentes e entidades da comunidade judaica, pela influência exercida na mídia e nos políticos. A narrativa do Holocausto sempre angariou no passado apoio a Israel na maior parte da mídia do então chamado Ocidente (países da OTAN, essencialmente), apoio este garantido também na época da ‘guerra fria’, por Israel ser considerado como um enclave da civilização ocidental no Oriente Médio, onde a então União Soviética buscava ampliar sua influência sobre os países árabes. E para que pudesse se defender e atuar como ponta de lança dos interesses do Ocidente, Israel recebia, e continua a receber modernos armamentos, além da ajuda econômica das entidades sionistas destes países. O Brasil, tradicionalmente alinhado com os Estados Unidos, não foi exceção.

No período dos governos do PT as políticas expansionistas de Israel não encontraram respaldo, chegando a surgir fortes atritos diplomáticos entre os dois países durante o governo de Dilma Rouseff.  A atuação do lobby judaico no país não era forte o suficiente para alterar o posicionamento dos governos petistas em favor da solução de Dois Estados e de resoluções da ONU contra o reconhecimento da ocupação de territórios obtidos por Israel pela força.

Era de se esperar, portanto, que instituições judaicas conservadores viessem a fazer oposição a qualquer futuro candidato presidencial do PT. Desta forma, apoiaram abertamente a candidatura de Jair Bolsonaro, apesar das amplas manifestações de judeus progressistas, alertando dos riscos que o candidato de extrema-direita representava para a democracia no país. A comunidade judaica ficou dividida, assim como o resto da nação.

menorah bolsonaro

O fortalecimento gradual da influência política dos evangélicos nos últimos anos no Brasil introduziu um novo fator na correlação de forças políticas. Eles passaram a se constituir, recentemente, no principal grupo de pressão pró-Israel no país, seguindo a mesma tendência que já se verificara nos Estados Unidos. Disto se aproveitou Bolsonaro, da mesma forma que Trump já vinha fazendo, para obter apoio político e dividendos eleitorais. Independente do jogo sujo na campanha eleitoral de 2018, pela ampla disseminação de notícias falsas (fake news), a questão do status de Jerusalém teve papel fundamental no apoio dos evangélicos a Bolsonaro, apoio este surpreendentemente fundamentado em uma profecia bíblica milenar.

Conforme cita a Dra. Diana Butler Bass, Ph.D. em estudos religiosos, (CNN), a Bíblia relata que sempre que o reino de Israel estendia suas fronteiras ou seu território de influência política pelas guerras, era pela vontade de Deus. Jerusalém passou a ser o coração espiritual de Israel no tempo do Rei Davi. Para muitos evangélicos conservadores a questão de Jerusalém não é política ou sobre planos de paz com Palestinos. Segundo a Dra. Bass, muitos evangélicos fundamentalistas seguem o chamado ‘pré-milenialismo dispensionalista’. Por esta doutrina, a ‘era da igreja cristã’, iniciada (por Deus) quando os judeus rejeitaram Jesus, terminará em breve. Os judeus serão então redimidos graças ao amor de Deus por eles, passando então por um grande renascimento religioso, quando será reconstruído o templo de Jerusalém.

Em seguida, ainda segundo a profecia, ocorrerá uma série de eventos cataclísmicos, culminando na Batalha de Armagedom, a última guerra da humanidade, com as tropas de Deus sendo lideradas pelo arcanjo Miguel (foto abaixo). Os judeus finalmente aceitarão Jesus como o Messias, seguindo-se o retorno de Jesus em glória e um reino de Deus com mil anos de paz. Todos estes eventos só poderão vir a ocorrer com Jerusalém pertencendo a Israel, daí a motivação dos evangélicos seguidores desta escatologia em ‘dar uma ajudinha’ para apressar o Armagedom.

miguel arcanjo

Originada nos Estados Unidos por volta de 1840 a partir de um pequeno movimento , o ‘dispensionalismo’ se popularizou através de livros best-sellers, se propagando também por meio de seminários teológicos, escolas, filmes, vídeos. Embora a maioria dos cristãos não compartilhe destas idéias, versões desta visão fundamentalista se disseminaram, influenciando por tabela a setores evangélicos no Brasil.

Importantes líderes evangélicos conservadores no país resolveram apoiar a campanha de Jair Bolsonaro à presidência da República, na condição do reconhecimento da mudança da capital de Israel para Jerusalém. Este reconhecimento, mais do que representar apenas outra faceta do atrelamento ideológico de Bolsonaro ao governo Trump, se tratou de uma estratégia do capitão para ganhar apoio eleitoral na significativa comunidade evangélica, e, naturalmente, também na judaica.

Eleito, Bolsonaro precisou logo fazer um recuo no reconhecimento de Jerusalém, pelas ameaças de retaliação econômica de países árabes, deixando insatisfeitas algumas lideranças evangélicas. O pastor Silas Malafaia, da Assembléia de Deus, foi taxativo ao declarar que Bolsonaro terá que cumprir o compromisso de campanha, ou a situação ‘ficará ruim’ para ele (Oglobo). Esta ameaça, mais do que velada, tem respaldo nas bancadas evangélica e da bala, pois a agronegócio (o terceiro B, da bancada BBB) não está nada satisfeito com a perspectiva do boicote  pelo mundo mulçumano. Provavelmente por não ser capaz de cumprir agora a promessa, o governo Bolsonaro rompeu com uma tradição da diplomacia brasileira, ao se posicionar no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas contrariamente à condenação de Israel ‘pelo uso de força ilegal e excessiva contra manifestantes palestinos’, se abstendo ainda em outra resolução contra a expansão das colônias israelenses nos territórios ocupados.

Na visita a Israel que acaba de concluir neste início de abril, Bolsonaro anunciou a abertura de um escritório comercial em Jerusalém, como forma de apaziguar parcialmente a bancada evangélica e, ao mesmo tempo, dando apoio à candidatura de Netanyahu nas eleições gerais de abril. Acompanhado de Netanyahu, Bolsonaro visitou o Muro das Lamentações, na Jerusalém Oriental, setor em que os palestinos pretendiam implantar a capital de seu futuro Estado. O Hamas, que governa a Faixa de Gaza, emitiu de imediato um comunicado, condenando tanto os planos de abertura do escritório como a visita à Jerusalém. Essa política não ajuda a estabilidade e a segurança da região, e ameaça os laços do Brasil com países árabes e muçulmanos’, salientou o comunicado do Hamas.

Continuando a se comportar como um ‘galinho de briga’, o senador Flávio Bolsonaro, ainda colocou mais lenha na fogueira ao mandar mensagem para o Hamas: ‘quero que se explodam’ (Valor). A continuar a política irresponsável nas relações exteriores, o Brasil poderá em breve sofrer retaliações comerciais de nações árabes e islâmicas em geral, bem como aumentará o risco do país se tornar alvo de atentados terroristas perpetrados por extremistas islâmicos. Chegamos a esta situação de risco graças a escatologia adotada pelos evangélicos.

Tudo indica que os setores evangélicos conservadores continuarão a apoiar a expansão territorial de Israel, como a recente anexação das colinas de Golã. Esperemos apenas que não esteja nos planos futuros de Israel alcançar a grandeza dos tempos dos reis Davi e Salomão, quando Damasco foi conquistada e pagava tributo ao reino.

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No mapa dos tempos bíblicos, a área em vermelho representa o território de Israel antes do reinado de Davi. Em laranja, as terras conquistadas por ele, que incluíram Damasco, na Síria, e herdadas por seu filho Salomão. Em amarelo, as regiões com forte influência econômica de Salomão, chegando até o Rio Eufrates.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ser ou não Ser Antissionista, o Dilema Shakespeariano do Partido Trabalhista do Reino Unido

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“Ser ou não ser, eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias
E, combatendo-o, dar-lhe fim?
(tradução de Millôr Fernandes)

Com a liderança de Jeremy Corbyn, esquerdista convicto e simpatizante da causa de um Estado Palestino, o Partido Trabalhista almeja voltar ao poder nas próximas eleições gerais no Reino Unido. Daí se explica a tentativa desesperada da mídia britânica de denegrir a imagem de Corbyn e do próprio partido, com acusações de antissemitismo.

Os ataques partiram dos movimentos judaicos de direita e da ala “blairista” do partido, com amplo respaldo da mídia, incluindo a rede pública BBC. Cabe lembrar que o Partido Trabalhista vinha sendo dominado internamente há anos pelos “blairistas”, termo usado em referência aos seguidores do ex-primeiro-ministro Tony Blair.  Para alguns, ele  deveria estar preso por crimes contra a humanidade, devido ao seu apoio ativo na invasão do Iraque e pela conivência com atos de tortura extremamente cruéis durante a chamada “guerra contra o terror”, conforme denúncias do ex-embaixador britânico Craig Murray (acesse aqui).

Internamente, o governo Blair representou a garantia da permanência do status quo de privilégios e desigualdades sociais herdados do sistema monárquico.

O ataque contra Corbyn começou de forma sistemática a partir do editorial conjunto intitulado Unidos Resistimos (United we Stand), publicado em 25 de julho na primeira página dos três mais importantes jornais judaicos do Reino Unido, Jewish Chronicle, Jewish News e Jewish Telegraph,  acusando o Partido de mostrar “desconsideração pelos Judeus e por Israel”, e alertando que um governo com a liderança de Corbyn representaria “uma ameaça existencial à vida dos judeus” (The Guardian, acesse aqui). O editorial foi especialmente crítico da decisão do Partido Trabalhista de adotar uma “versão diluída” da definição (e exemplos práticos) de anti-semitismo elaborada originalmente pela IHRA, a Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto. A definição, que data de 2016, estabelece: “Antissemitismo é uma certa percepção dos judeus, que pode ser expressa na forma de ódio a eles. Manifestações físicas ou retóricas de anti-semitismo são direcionadas contra indivíduos, judeus ou não, e/ou suas propriedades, contra instituições comunitárias e locais religiosos”. Embora a Executiva Nacional do Partido Trabalhista aceite a definição, não concordava com quatro dos onze exemplos de comportamento antissemita definidos pela Aliança. 

Em particular, dois destes exemplos estão relacionados à críticas a Israel e são bastante controversos. “É potencialmente antissemita aplicar dois pesos e duas medidas ao requerer de Israel um comportamento que não seja cobrado de outra nação democrática”. Este exemplo tem sido usado para atacar o movimento BDS, de Boicote, Desinvestimento e Sanções, alegando que, se todas as nações que violarem direitos humanos não forem submetidas à sanções, então haveria motivação (de natureza) antissemita para punir apenas a Israel com o BDS. Cabe recordar que o BDS foi calcado no boicote à África do Sul, e ajudou a acabar com o regime de Apartheid. O outro exemplo polêmico, é que “constitui uma forma de antissemitismo declarar que Israel é uma empreendimento (instituição) racista (“racist endeavour”). Este segundo exemplo será abordado mais de uma vez neste artigo.

Alguns membros do próprio trabalhismo juntaram-se às críticas de que Corbyn não se mostrou firme em combater os casos de antissemitismo existentes no partido, chegando mesmo a acusar Corbyn de racista e de antissemita. Muitos jovens judeus que apoiam o Partido Trabalhista em questões sociais se sentem desconcertados com a crise entre o partido e as lideranças judaicas do país. Por outro lado, não se sentiriam confortáveis migrando para o Partido Conservador, que vem sendo acusado de Islamofobia (The Guardian, acesse aqui).

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Protesto de judeus contra Corbyn  

A questão do “antissemitismo no Partido Trabalhista” passou a dominar a mídia do Reino Unido e também de Israel. Mesmo no jornal de esquerda de Israel, Haaretz, foram publicadas críticas à Corbyn (acesse aqui). O jornalista britânico Anshel Pfeffer, que contribui regularmente no Haaretz, escreveu o artigo “Por que o Corbynismo é uma Ameaça aos Judeus do Ocidente”, publicado em 3 de agosto, ressaltando que Corbyn estaria se  recusando a intervir na prejudicial crise interna para tratar do antissemitismo no Partido, contra a opinião de seus próprios aliados. O autor avalia ainda que “por ser Corbyn o único líder de esquerda  radical e verdadeiramente socialista do Ocidente”, existe o risco inerente que “a chegada (do Partido Trabalhista) ao poder nas próximas eleições gerais fará com que sua ideologia (antissemita?) se torne altamente influente por toda a Europa e América”. 

Para os apoiadores das alterações feitas nas normas da IHRA, a preocupação é que alguns dos exemplos estipulados de antissemitismo possam servir para negar aos Palestinos o direito de denunciar a discriminação e as injustiças sofridas. Desde que as diretrizes da IHRA foram adotadas no Reino Unido em dezembro de 2016, mesmo sem ter efeito legal, elas já teriam sido aplicadas para atingir organizações que apoiam os direitos dos Palestinos.

Em artigo publicado no The Guardian em 3 de agosto (acesse aqui), Corbyn se defende, ressaltando “a importância da sociedade britânica multicultural, e da imensa contribuição feita por judeus, homens e mulheres, em todos os aspectos da vida do país, da arte à ciência, indústria e política, na paz e na guerra…….e no movimento trabalhista ao longo da nossa história”. Ele declara: “Em nenhum momento aceito que um governo trabalhista represente ameaça, muito menos existencial à vida dos judeus no país, como três jornais judaicos recentemente publicaram….Mas reconheço que existe um problema real (de antissemitismo), que o partido está procurando resolver”. Corbyn ainda acrescentou: “nos anos 70, alguns na esquerda equivocadamente argumentavam que ‘Sionismo é racismo’. Aquilo estava errado. Mas afirmar agora que ‘Antissionismo é racismo’ também está errado”.

Com a recente aprovação no parlamento Israelense da Lei Básica do Estado-Nação, que torna constitucional a discriminação contra a população não Judaica de Israel, caso a definição e exemplos de práticas antissemitas, conforme definidos pela IHRA, sejam estritamente seguidos, críticas na Inglaterra à esta polêmica legislação podem ser rotuladas de práticas antissemitas. Entretanto, antissemitismo é uma acusação que não pode ser aplicada no caso da Dama inglesa Vivien Duffield, possivelmente a maior benemérita de Israel, que em entrevista ao Haaretz (acesse aqui) declarou “Meu Israel está morto. (Agora) É Apartheid!  Para os ingleses que se recordam da África do Sul, isto (a Lei do Estado-Nação) é a África do Sul. Uma regra para um grupo (étnico) e uma outra para o outro”. Acrescente-se que Dama Duffield está muito distante de poder ser considerada como simpatizante de Corbyn. 

Não são apenas críticas que Corbyn vem recebendo. Em carta publicada no britânico The Guardian, com o título “Parem o julgamento de Corbyn na mídia por antissemitismo”, quarenta acadêmicos seniores condenaram o que consideram ser uma cobertura tendenciosa da questão do antissemitismo (acesse aqui). Os signatários criticaram a omissão da mídia na cobertura das manifestações de judeus em prol de Corbyn, por seu reconhecido histórico anti-racista, salientando que a mídia deveria estar mais preocupada com o crescimento do antissemitismo em países da Europa, como a Hungria. O texto da carta faz uma associação das críticas a Corbyn com o fato dele estar bem posicionado para se tornar o próximo primeiro-ministro do país. Os signatários ressaltam que as fontes de informação a que a mídia britânica recorre consistem de conhecidos opositores de Corbyn.

Outro importante apoio a Corbyn foi a declaração conjunta de quarenta grupos judaicos de 15 países diferentes, condenando as tentativas de abafar críticas às políticas de ocupação (de terras) por Israel com falsas acusações de antissemitismo (The Independent, acesse aqui).

Segundo a declaração, a própria definição de antissemitismo da IHRA, cada vez mais adotada pelos governos do Ocidente, foi elaborada de forma intencional, com o intuito de suprimir a luta pelos direitos dos Palestinos, servindo também para blindar Israel de prestar contas perante as leis internacionais de (violações de) direitos humanos. Nos Estados Unidos a Lei de Conscientização do Antissemitismo teria o mesmo objetivo. Os signatários da declaração consideram ainda que, não apenas a luta por justiça para os Palestinos fica prejudicada ao se rotular de antissemitismo críticas às políticas discriminatórias de Israel, mas também a própria luta contra o (real) antissemitismo.

Em artigo de Ian Almond, escritor britânico especialista em culturas Orientais, publicado na Al Jazeera, é analisado exatamente o perigo de se considerar como  antissemitismo críticas feitas ao Sionismo (acesse aqui).   Ele pondera que o desvio proposital no uso do termo antissemitismo traria o risco de descaracterizar seu significado (ficando com isto agradecidos os reais  antissemitas). O jornalista vê ainda como perturbadores vários aspectos da cobertura pela mídia, pela quase completa ausência de um debate crítico, bem como o posicionamento quase geral dos comentaristas e entrevistados na televisão, de que o antissemitismo é um problema exclusivo do Partido Trabalhista, quando na verdade ele estaria presente em todo o espectro partidário.

A campanha de Israel contra os opositores de sua política para com os Palestinos não poupa nem aos judeus dissidentes. Foi o caso da detenção para interrogatório no aeroporto Ben Gurion, do jornalista americano Peter Beinert, que anteriormente expressara publicamente seu apoio ao boicote de produtos oriundos dos assentamentos judaicos na Cisjordânia ocupada (Haaretz, acesse aqui). O boicote direcionado apenas aos produtos e serviços associados aos assentamentos de colonos judeus considerados ilegais pela ONU, portanto uma ação menos radical que o BDS, também era a proposta do jornalista e ativista israelense Uri Avnery, falecido recentemente aos 94 anos, mas o histórico de décadas de lutas a favor de um Estado Palestino independente e estatura moral de Avnery o colocavam imune a retaliações de Benjamin Netanyahu, o radical primeiro-ministro de direita de Israel. Avnery defendia que o BDS tinha efeito prejudicial à causa palestina exatamente por fortalecer a direita israelense.

A formidável pressão da mídia sobre o Partido Trabalhista resultou,  em 4 de setembro, na aceitação pela Executiva Nacional de todos os exemplos de comportamento antissemita, conforme estipulados pela IHRA. Foi recusado um adendo proposto por Corbyn às definições da IHRA, de que “não deveria ser considerado antissemitismo descrever como racistas a Israel, suas políticas ou as circunstâncias de sua fundação pelo impacto discriminatório que tiveram, ou ainda apoiar um acordo diferente para a solução do conflito Israel-Palestina”.  Foi, no entanto, aprovada a inclusão de uma cláusula assegurando o direito de livre expressão sobre os direitos dos Palestinos.

O professor Colin Shindler, professor da London University, em artigo publicado no jornal Haaretz (acesse aqui), analisou as consequências do adendo proposto por Corbyn, se aprovado. Shindler avalia que, na visão de Corbyn, “Israel nasceu de um ‘empreendimento racista’ que visou expulsar Árabes Palestinos”. Ainda segundo o autor, a implicação é que devido a este ‘pecado original’ na criação, Corbyn consideraria que Israel não tem direito a sua auto-determinação, e que isto teria que ser levado em consideração em um futuro acordo de resolução do conflito.

Como evidência que a crise interna está longe de ser amenizada, a cláusula de liberdade de expressão passou a ser alvo de ataque de alguns grupos trabalhistas ligados a Israel, ainda com respaldo da mídia, por considerarem que ela daria cobertura a manifestações racistas contra os judeus.

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Cartaz espalhado em Londres  acusando Israel de racismo 

Por outro lado, organizações de apoio aos Palestinos criticaram o que consideraram ser um recuo do Partido Trabalhista, aceitar os ditames da IHRA e, em protesto, espalharam por Londres cartazes com os dizeres “Israel é uma Instituição Racista”.  O Labour Party está descobrindo que o preço a pagar poderá ser muito alto para a chegada ao poder. Corbyn precisará resolver seu dilema Shakespeariano: “ceder e sofrer na alma, ou pegar em armas contra o mar de angústias e, combatendo-o, dar-lhe fim”.