Solidariedade na luta une Gaza, Cisjordânia, Jerusalém e diáspora palestina

Por Ruben Rosenthal 

Gideon Levy: Quando se trata de questões básicas como continuar a ocupação, o apartheid e acreditar na superioridade judaica, existe uma concordância generalizada na sociedade israelense. Rescuers and people gather in front of the debris of Al-Sharouk tower that collapsed after being hit by an Israeli air strike, in Gaza City

Destroços da torre Al-Sharouk em Gaza; o prédio abrigava a Al Jazeera e Associated Press \ Foto: Mahmud Hams/AFP

Diversas famílias palestinas podem ser despejadas de suas residências em Sheikh Jarrah, Jerusalém Oriental, se o parecer da Suprema Corte for a favor de colonos judeus de direita. Remoções de palestinos já vem ocorrendo há vários anos, como parte de uma política que visa manter uma população majoritária de judeus em algumas regiões, reforçando assim as acusações de prática de limpeza étnica e de apartheid. Choques entre a polícia israelense e palestinos contrários aos despejos ocorreram na vizinhança de Sheikh Jarrah, a partir de 8 de maio.

Em 10 de maio percorreram o mundo as cenas do confronto da força policial com manifestantes no complexo da mesquita de Al-Aqsa, e que deixaram cerca de 300 feridos. O grupo militante Hamas disparou foguetes contra Israel, minutos após terminar o ultimato para que as forças israelenses se retirassem do complexo da mesquita, bem como da vizinhança de Sheikh Jarrah.

Seguiram-se 11 dias de conflito, até que Israel finalmente aprovasse um cessar fogo em 20 de maio. O saldo em vítimas fatais foi de 230 em Gaza – sendo dezenas de crianças, e 12 em Israel. Entre os mortos incluem-se membros da estrutura organizacional do Hamas. A destruição material na Faixa de Gaza foi incomensurável.

É reproduzida a seguir a entrevista concedida em 12 de maio pelo jornalista, escritor e analista político Gideon Levy, judeu israelense, à jornalista e escritora americana libanesa, Rania Khalek. Na ocasião, a escalada dos conflitos entre Israel e palestinos se encontrava em seu terceiro dia.  As legendas do vídeo da entrevista foram editadas pelo blog, bem como introduzidos subtítulos para facilitar a leitura, respeitando-se integralmente as opiniões expressas pelo entrevistado e entrevistadora.

Netanyahu orquestrou a crise com Gaza?

KHALEK: O que explica esta escalada de conflitos agora? Resulta da política interna israelense e da dinâmica de tentar formar um governo estável? Netanyahu fomentou a escalada?

LEVY: Nada era mais esperado que a atual situação, mesmo que não neste momento.  Mas 53 anos de uma brutal ocupação militar e 15 anos de cerco a Gaza – que é a maior prisão (aberta) do mundo, são motivos suficientes para que explosões ocorram de tempos em tempos. Não considero que será a última vez.

KHALEK: Netanyahu está enfrentando acusações de corrupção, e não conseguiu formar uma coalizão de governo. Você vê (os conflitos) como parte de um jogo político? Havia uma agenda política por detrás, pelo menos na fase inicial?

LEVY: Vou dar o benefício da dúvida a Netanyahu, porque tivemos escaladas antes dele, e as teremos depois, antes de seu julgamento e após seu julgamento. Acho que é um tanto limitado acreditar que Netanyahu impõe seu jogo quando quer. Politicamente (os confrontos) servem aos interesses dele, mas não acho que tenha  realmente planejado tudo. Teriam ocorrido de qualquer forma, pois por quanto tempo se pode manter dois milhões e meio de pessoas em uma prisão?

Conflitos internos com palestinos israelenses

KHALEK: Conflitos diversos estão ocorrendo. Além de Gaza, está acontecendo uma escalada dentro de Israel, onde cidadãos palestinos de Israel estão protestando. Netanyahu decretou estado de emergência, e desviou a polícia da fronteira da Cisjordânia para ajudar a reprimir protestos.

Você considera que o que ocorre dentro de Israel é diferente, mas ao mesmo tempo está relacionado com o que está ocorrendo Gaza?  Você está surpreso com tais ocorrências em um lugar como Lod, por exemplo? Por que cidadãos palestinos de Israel estão se rebelando agora?

LEVY: Em primeiro lugar, já ocorreu (um levante) no ano 2000, e não constitui surpresa que ocorra novamente, mesmo que ninguém esperasse que fosse agora. É preciso entender que Israel está fazendo todo o possível para fragmentar o povo palestino, e está sendo bem sucedido.

Israel promoveu a divisão entre os palestinos da Cisjordânia e os palestinos de Gaza; desconectou totalmente os palestinos da Cisjordânia e de Gaza, dos palestinos em Israel, e obviamente dos palestinos da diáspora. Também entre os palestinos de Jerusalém e os de Ramallah existe um muro. Mesmo com esta divisão, os palestinos começam a tentar nos lembrar que ainda existe alguma solidariedade.

As pessoas em Israel não podem permanecer indiferentes quando a polícia fronteiriça penetra violenta e brutalmente na mesquita de Al-Aqsa, em um dos dias mais sagrados do mundo muçulmano.

Judeus israelenses e os direitos dos palestinos

KHALEK: Qual reação você espera dos judeus israelenses ao verem cidadãos palestinos de Israel protestando de uma forma sem precedentes?

LEVY: Espero que esta seja uma onda curta, mas que obviamente deixará algumas marcas e cicatrizes. Acho que em sua maioria os judeus israelenses estão com raiva, decepcionados e, como normalmente, se fazendo de vítimas, pretendendo não haver motivos para o que está ocorrendo.

A maioria dos judeus israelenses está vivendo em total negação com relação aos direitos da comunidade palestina. Quando se vive em negação e então algo assim acontece, você diz – oh , como pode ser? Quando se faz tantas coisas erradas, um dia chega a conta.

KHALEK: Há setores da comunidade de judeus israelenses que apoiam os palestinos, ou que estão chocados e se opõem ao que está ocorrendo? Ou você é uma espécie de lobo solitário neste cenário?

LEVY: Ambos. Eu sou um lobo solitário, mas ao mesmo tempo não posso dizer que seja o único. Ainda há muitos judeus israelenses e muitos jovens que estão realmente solidários com o povo palestino, e que estão dispostos a se juntar à luta.

No entanto, são mais de 6 milhões de judeus israelenses, e poucos destes estão realmente tratando os palestinos como seres humanos iguais, e acreditando que eles merecem os mesmos direitos nacionais neste pedaço de terra.

O declínio da esquerda israelense

KHALEK: O que ocorreu com a antiga esquerda israelense? Porque já houve antes uma vigorosa esquerda israelense, e agora o país parece realmente estar cada vez mais consumido por ideologias de direita.

LEVY: É um que processo que começou por volta do ano de 2000, quando o então primeiro-ministro Ehud Barak (do Partido Trabalhista) voltou de Camp David (nos EUA), declarando que não havia um parceiro palestino (para negociar). E então veio a segunda Intifada, que foi muito violenta, e muitas pessoas perderam a esperança e a crença na paz. Não havia portanto solidez nas propostas de paz de Camp David.

A direita israelense defende o apartheid e a ocupação

KHALEK: Você pode descrever as várias facções da direita israelense? Quais são as facções mais religiosas e as mais seculares? Elas dominam o governo?

LEVY: Antes de mais nada, você precisa entender que a maioria da opinião pública israelense é de direita. Há diferenças, mas quando se trata de questões básicas, como continuar a ocupação, o apartheid e acreditar na superioridade judaica, então existe uma concordância generalizada na sociedade israelense.

Algumas pessoas vão dizer que não se trata de apartheid ou de superioridade judaica, e convivem em paz com o que está acontecendo. Nem todos na direita são extremistas, havendo aqueles que acreditam na democracia formal. Mas há os que acreditam em menos democracia, aí se incluindo os ortodoxos judeus. Como há também os que fazem uso de crenças erradas sobre segurança e falsos perigos, além daqueles que são “apenas” racistas.

Na direita, alguns estão dispostos a recorrer à violência; há os que sonham com um Estado sem palestinos, e os acreditam que podemos conviver com eles, mesmo que nunca venham a obter seus direitos. Então, é uma mistura de crenças, mas com muitas coisas em comum entre elas.

Gaza: a capacidade do Hamas surpreendeu Israel?

KHALEK: A guerra em Gaza está aumentando e parece que não vai acabar tão cedo. Foi relatada (até a data da entrevista) a ocorrência de pelo menos 53 mortes de palestinos em Gaza, 14 das quais crianças; em Israel também houve mortes. Como você vê esta situação evoluindo? Você acredita que vai ser uma longa guerra?

LEVY: Acho que não, a menos que ocorra alguma catástrofe, como uma bomba que cause a morte de dezenas de pessoas. Creio que deva durar mais alguns dias, e só. E então, haverá algum tipo de acordo, que não vai resolver nada, obviamente, e em uns dois anos nos encontraremos novamente (em confrontações bélicas), ou talvez até antes.

KHALEK: A reação militar do Hamas é diferente de antes?

LEVY: Sim, é inquestionável. Eles estão de fato melhorando o tempo todo, e tenho a sensação de que desta vez sua capacidade bélica surpreendeu até o exército israelense.

KHALEK: Eles foram capazes de disparar foguetes com maior frequência e alcance, como uma chuva de fogo vista em Tel Aviv. Qual o impacto nos cálculos do governo israelense sobre até onde está disposto a ir?

LEVY: Eu não tenho certeza, porque a capacidade bélica de Israel é 1.000 vezes maior que a do Hamas, não há comparação. O foguete Qasam é uma das armas mais primitivas da Terra. Acho que Israel será mais cuidadoso, porque está mais vulnerável. Para os israelenses, ficar uns poucos dias em abrigos é algo com que não são capazes de lidar, enquanto os palestinos em Gaza estão acostumados a isso, há muitos anos.

KHALEK: Você acha que a chuva de foguetes vindos de Gaza influiu na decisão (das autoridades israelenses) de tentar impedir as provocações dos manifestantes (judeus) nos bairros palestinos de Jerusalém, na marcha (do feriado anual de 12 de maio) do Dia de Jerusalém?

LEVY: Sim, mas a decisão (de coibir a marcha) poderia ter sido tomada 24 horas antes, evitando  muitas ações violentas.

Uma guerra sem vencedores

KHALEK: Você acha que a decisão de Netanyahu e dos militares israelenses de escalar o conflito saiu pela culatra? Pessoas correndo para abrigos antibombas, pessoas feridas, aulas interrompidas. Os árabes ao redor do Oriente Médio estão comemorando. Eles nunca veem mísseis choverem sobre cidades israelenses, o que fez Israel parecer fraco.

LEVY: Em primeiro lugar, ninguém vai ganhar esta guerra, como ninguém ganhou as guerras anteriores. Cada lado vai reivindicar a vitória, mas será uma falsa vitória, porque não se pode ganhar tal guerra. Os israelenses estão já por dois dias sob ataque, mas com poucas baixas. Vai durar apenas alguns dias, e será esquecida. Os palestinos estão pagando um preço muito mais pesado. É ridículo para ambos os lados se falar em vitória.

KHALEK: Como a mídia israelense justifica a visão da destruição de prédios de apartamentos? Não há questionamento sobre as crianças palestinas vitimadas?

LEVY: Muito pouco questionamento, e com certeza não na grande mídia. A maioria dos israelenses pode não estar feliz (com as mortes de crianças), mas certamente está muito orgulhosa (em ver os efeitos dos bombardeios). Eles querem se vingar; o ódio e a raiva são muito profundos, e há alguma sede de sangue em Israel para ver mais baixas do outro lado, não se pode negar.

Palestinos e judeus: uma convivência impossível?

KHALEK: você acompanhou as guerras que ocorreram nas últimas duas décadas. O desejo de vingança aumentou com o tempo? O que explica isto?

LEVY: Desespero, e nenhuma esperança de uma solução, nenhuma esperança para qualquer tipo de convivência. Aí você começa a ficar com raiva do outro lado, e colocar a culpa no outro lado.

Os israelenses dificilmente assumem qualquer culpa; eles sempre culpam apenas o outro. Você nunca vai ouvir em Israel – ok, nós tivemos também a nossa responsabilidade. Para não falar sobre o fato de que não se pode sequer comparar – não há simetria – os crimes e responsabilidades de Israel e dos palestinos.

O papel dos Estados Unidos

KHALEK: O governo dos EUA poderia fazer mais para impedir o que está ocorrendo, se quisesse. Tenho certeza que há coisas acontecendo nos bastidores, mas eles não parecem estar dizendo aos israelenses para desescalar.  Figuras políticas da esfera progressista, como Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez, dentre outras, apoiam abertamente a campanha a favor do BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) dentro do Congresso, e todos elas têm usado palavras muito duras sobre o que Israel está fazendo. Este tipo de retórica tem algum impacto na tomada de decisões pelos israelenses?

LEVY: Muito menos do que parece. Em primeiro lugar, Israel encontrou um novo apoiador nos EUA, os evangélicos. Eles são dezenas de milhões, bastante poderosos e ricos. Em segundo lugar, Israel aprendeu ao longo dos anos que condenações, ameaças e palavras nada significam se não forem seguidas por ações reais.

Os Estados Unidos poderiam dar um fim à ocupação em meses, mas por que fariam isto? Não sei se serviria aos interesses norte-americanos, já que tudo se trata de interesses. Se alguém como Barack Obama, cujo coração estava no lugar certo, nada fez para deter Israel, então o que esperar de outro governante?

KHALEK: Não sei se você teve a chance de assistir o vídeo com o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, quando ele foi perguntado no briefing diário se iria condenar a morte de crianças palestinas. E ele não condenou. Os repórteres perguntaram ainda se os palestinos têm o direito à autodefesa, e ele se esquivou também. Por que você acha que os EUA evitam tanto ofender os israelenses?

LEVY: Não tenho certeza se alguém pode explicar completamente. E esta é uma das administrações mais hostis em relação a Israel.  Há obviamente o poder do lobby judaico, que ninguém pode negar; ele é realmente poderoso, mesmo que nem tanto hoje como já foi anteriormente.

Há também os interesses norte-americanos, aos quais Israel está servindo em muitos aspectos.  Israel e os Estados Unidos falam sobre valores compartilhados, os quais temo sejam a favor do colonialismo e imperialismo.

Os Estados Unidos estão pagando um preço pelo apoio cego a Israel, em termos de sua imagem, de suas relações com o terceiro mundo e com o mundo muçulmano. Mas nenhum dirigente teve a coragem de realmente fazer uma mudança, pelo menos condicionando o apoio a algumas exigências. Atualmente Israel pode fazer o que quiser, sabendo que o cheque chegará até o final do mês.

KHALEK: Você considera que se os EUA tivessem menos envolvimento na região seria melhor para Israel e Palestina, bem como para o resto da região?

LEVY. Correto. Creio que se os Estados Unidos apoiassem menos a Israel, estaríamos diante de uma realidade mais uniforme, com um Israel menos arrogante. Então as coisas poderiam ser muito melhores.

O mundo árabe

KHALEK: Os EUA continuam a financiar uma terrível guerra promovida pelos sauditas contra o Iêmen. A Arábia Saudita é provavelmente um país muito pior que Israel em muitos aspectos: esquartejou um jornalista poucos anos atrás. Os EUA não responderam com qualquer ação real, além de apenas crítica retórica. A Arábia Saudita desempenha uma espécie de papel semelhante a Israel, compartilhando os valores dos EUA e do imperialismo, impulsionando-os na região.

Ocorreram (recentemente) acordos de normalização entre Israel e os Emirados Árabes Unidos e Bahrein. Ficou mais fácil para Israel bombardear Gaza, tendo relações normalizadas com alguns dos Estados do Golfo, ou não importa tanto?

LEVY: Deveria ter dificultado, porque se esperaria que estes países prestassem algum tipo de solidariedade aos palestinos. Até o momento não ouvi deles sequer uma condenação. É um jogo muito corrompido, sem comprometimento efetivo com os palestinos, seja por parte do Ocidente, dos Estados Unidos ou do mundo árabe.

O Hezbollah

KHALEK: Israelenses e Hezbollah estão em um impasse nos últimos dois anos, com ações retaliatórias olho-por-olho, geralmente na Síria.  Mas existe sempre o risco potencial de uma escalada. Eu vivo no Líbano a maior parte do ano, e cotidianamente Israel aparece no noticiário: violação do espaço aéreo libanês com drones, ou se os israelenses irão  bombardear a Síria.

A minha pergunta é como se dá a discussão sobre o Hezbollah na sociedade israelense? Você prevê algum tipo de conflito em um futuro próximo?

LEVY: Há um certo medo do Hezbollah, e mesmo agora as pessoas estão discutindo isto, comparando com o poder potencial do Hamas. O Hamas conta com cerca de 20.000 guerreiros, que se encontram sitiados, sem fazer parte de um Estado. Mas atente para sua capacidade (bélica).

Agora, imagine o Hezbollah, que não está sob qualquer cerco, que tem um Estado apoiado pelo Irã,  e contando com reconhecida capacidade (militar).  Ele pode ser extremamente perigoso para Israel, e as pessoas têm muito medo.

Devo dizer que não tenho certeza se Israel irá ousar esticar muito a corda com eles. Mas é tudo imprevisível. Acredito que um dia teremos que enfrentar também esta frente. Israel já enfrentou antes e terá que fazê-lo novamente, porque todas as armas que o Hezbollah armazenou serão utilizadas um dia.

KHALEK: Não se trata apenas de armas, mas também de treinamento. O Hezbollah operava na Síria ao lado dos russos. Imagino que a capacidade de fazer operações ofensivas em uma guerra de estilo mais convencional tenha concedido ao Hezbollah um enorme poder de dissuasão, comparativamente ao que tinham antes com apenas foguetes e guerrilha. Espero que não vejamos uma guerra com Israel, o que seria extremamente devastador para ambos os lados.

O acordo nuclear EUA-Irã

KHALEK: Também estou curiosa sobre o que é falado agora em Israel sobre o Irã. Com a nova administração Biden querendo reimplementar um acordo nuclear com o Irã, qual a repercussão na mídia israelense e na retórica oficial do governo israelense?

LEVY: O governo está fazendo todo o possível para sabotar os esforços diplomáticos e a possibilidade de sair um novo acordo. Mas acho que  isto ficou bem claro para a atual administração dos EUA, que está ordenando a Israel que pare com a sabotagem. Tenho certeza que haverá um acordo. Em Israel, o governo está gostando.

Assim como eu, outras pessoas também acham que a única forma de garantir nossa segurança é através de acordos, mesmo com o Hamas, mesmo com o Hezbollah, e mesmo com o Irã. Todas as outras formas serão temporárias e frágeis, e nunca garantirão uma segurança real.

Guerra civil em Lod?

KHALEK: Eu gostaria de retornar a alguns dos desenvolvimentos da última semana – os protestos de solidariedade ocorridos em 48 áreas palestinas. Não sei se é exagero, mas o prefeito de Lod teria dito que o que está ocorrendo lá é uma guerra civil. Ele disse que árabes e judeus estão atirando uns nos outros. As pessoas não têm prestado atenção, porque grande parte das histórias e manchetes têm sido sobre Gaza.

Você pode me corrigir se eu estiver errada. Lod é uma cidade mista, onde vivem judeus e árabes.   Na segunda-feira (10 de maio), durante protestos de solidariedade  com os palestinos de Jerusalém, um atirador judeu acertou um palestino.

No funeral deste palestino ocorreram mais protestos, e agora os dois lados, que realmente vivem juntos em uma comunidade,  estão colocando fogo na propriedade do outro, agredindo um ao outro. Você pode explicar o que está acontecendo lá? Há o risco de escalar?

A man passes by cars torched after a night of violence between palestinians and israelis in Arab-Jewish town of Lod, central Israel, May 11, 2021.
Carros incendiados após uma noite de violência na cidade de Lod, Israel, 11 de maio \ Foto: Heidi Levine/AP

LEVY: Muitos israelenses estão mais preocupados agora com esta situação do que com Gaza, e talvez com razão. Por ser uma história doméstica, ela é muito mais perigosa. Você fez uma boa descrição, mas faltou mencionar o passado de Lod.  Em 1948, quase toda a população de Lod foi expulsa à força. Houve até um massacre na mesquita. Só os mais fracos ficaram em Lod, e eles têm sido discriminados desde então.

Nos últimos anos, judeus ortodoxos vieram se instalar em Lod, apenas para provocar e oprimir os membros da comunidade palestina. Esta comunidade é muito pobre, e tem envolvimento com crime. O que ocorreu agora foi uma explosão de todas as frustrações sociais sobre o que está acontecendo diariamente em Lod. Obviamente, o que ocorreu na montanha do Templo (na mesquita Al-Aqsa) acirrou as emoções.

A limpeza étnica

KHALEK: O jornalista David Sheen (do periódico israelense Haaretz) me disse que, nos últimos anos, organizações de colonos tentam levar judeus ortodoxos para locais onde ainda há remanescentes de comunidades palestinas, como em Lod. Isto também estaria acontecendo Jaffa e em Haifa.

LEVY: Também em Akka (Acre, em hebraico). Trata-se de provocação, com o propósito de finalmente para expulsá-los, com certeza

KHALEK: Para onde?

LEVY: Para onde eles sonham em enviar todos os palestinos: para a Jordânia, para o Iraque, para a Arábia Saudita, para longe de Israel. Eles sabem que não vão conseguir, pelo menos não em breve, mas plantam as sementes.

Não são apenas forças políticas, mas também os poderes econômicos que estão atuando (no sentido de limpeza étnica). Jaffa, por exemplo, se tornou um lugar bastante burguês, atraindo judeus para viverem lá. Então eles compram mais e mais propriedades, afastando os palestinos. É um processo muito triste.

KHALEK: Existe apoio do governo israelense a este processo ou a iniciativa parte apenas de organizações individuais?

LEVY: Com certeza é apoiado pelo Estado, talvez não iniciado por ele. O Estado apoia qualquer atividade que fortaleça a presença e a superioridade judaica em todos os lugares de Israel.  Como nos assentamentos, que são totalmente apoiados pelo governo. Não culpe os colonos, culpe todos os governos de Israel que os apoiaram e financiaram.

KHALEK: Uma última pergunta, Gideon. A respeito da violência atual, há vozes em Israel pedindo a desescalada neste momento?

LEVY: Muito poucas. É sempre assim no início. Se durar mais tempo, você vai ouvir mais protestos contra os conflitos. Agora, nos primeiros dias, todos estão muito cautelosos, porque a população israelense está realmente vivendo sob ameaça. É muito difícil culpar apenas a Israel; então as pessoas são cautelosas. Mas tenho certeza que se continuarem os embates, em poucos dias começarão os protestos. Mas não espere muito da comunidade judaica.

Nota do tradutor:

1. Não existe consenso entre os defensores da causa palestina se ainda é viável a solução de Dois Estados. Para alguns, seria melhor canalizar os esforços para viabilizar a formação de um Estado democrático, com igualdade de direitos para todas as nacionalidades e religiões. Tal Estado incluiria toda a região englobada no Plano da Partilha pela ONU, de 1947. Ambas as soluções precisariam, no entanto, superar imensas dificuldades, aparentemente intransponíveis. Nunca alguém como Nelson Mandela foi tão necessário.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Netanyahu, Trump e Putin: uma História de Amor

Tradução informal e comentada, do artigo publicado em 8 de abril no Al Jazeera, de autoria do analista sênior, Marwan Bishara. Ruben Rosenthal

Com os resultados finais da eleição para o parlamento de Israel indicando que o partido do atual primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu conseguiu 36 dos 120 assentos, tudo indica que ele será o líder do governo de coalizão da direita. Será seu quinto mandato, caso os problemas de corrupção não o impeçam de assumir. Com ele no poder, pode-se prever que em breve virá a anexação de parte da Cisjordânia. Odiado por muitos, por sua responsabilidade no sofrimento e nas mortes de milhares de palestinos desde que assumiu o governo em 2009, Bibi é reconhecidamente um magistral enxadrista em geopolítica. Marwan Bishara nos explica como atua o polêmico político.

Netanyahu-Puppets 2a

Podem chamar Netanyahu de trapaceiro e belicista, mas que outro líder pode se gabar de ter conseguido se reunir com Trump e com Putin no prazo tão curto de duas semanas antecedendo eleições gerais. A motivação imediata desta diplomacia foi certamente o ganho eleitoral, mas as implicações estratégicas de sua vitória podem resultar na reconfiguração do Oriente Médio. Breve deverá vir a anexação de partes da Cisjordânia, prometida na campanha eleitoral. E novamente Trump deverá dar seu apoio, e Putin, emprestar seu silêncio. Como isto foi possível?

Netanyahu aproveitou sua ida, em setembro de 2016, à reunião de cúpula anual das Nações Unidas em Nova Iorque, para um primeiro encontro, na Trump Tower, com o então candidato presidencial republicano. Segundo Steve Bannon, então conselheiro de Trump, o novato na política recebeu uma aula do mestre de xadrez da geopolítica mundial, particularmente sobre a importância das relações entre os Estados Unidos e Israel, face às realidades do Oriente Médio.

Netanyahu contribuiu para que Trump pudesse colocar de forma racional seus instintos sobre segurança, imigração, terrorismo, Islã, e mesmo as vantagens de um muro na fronteira (idéia que Trump deve ter aproveitado como sua ‘solução’ para a imigração através da fronteira com o México, N.T.). Mas a grande jogada de Netanyahu foi fazer o foco da conversa convergir para uma fórmula simples: ‘o Irã, e não a Rússia, é o principal inimigo’ de ambos, e que o presidente russo tem uma posição privilegiada na ajuda contra os aiatolás e o Islã radical.  Isto soou como música aos ouvidos de Trump, pois ele já vinha cortejando Putin, para horror de seus detratores em casa e na Europa. Graças a Netanyahu, Trump pôde se municiar de uma doutrina estratégica que envolvia forjar novas alianças e parcerias com lideranças fortes.

A nível pessoal, foi uma aliança tranquila de se estabelecer. Benjamin, Donald e Vladimir realmente pareciam se gostar. Com passados e estilos distintos, eles, no entanto, tem um mesmo perfil. Homens brancos, já de certa idade, adotando estereótipos do macho, nacionalistas1 com um traço de malignidade, os três são personalidades que polarizam. São vistos como enganadores, com um ‘jeitinho’ para agir com impunidade. Não gostam da liberdade de imprensa e de um judiciário independente e ativo.

O principal inimigo em comum do trio é nenhum outro que o ex-presidente americano Barack Obama, e tudo o que ele representava, seja o multiculturalismo, os ideais liberais e uma política externa liberal. Assim que assumiu a presidência, Trump começou a destruir o que Obama construiu no país e no exterior, sem se importar em violar leis e acordos internacionais, saudado por seus dois camaradas e por um número crescente de fãs pelo mundo. Ele deixou o Acordo de Paris e o acordo nuclear com o Irã, além de dar seu apoio incondicional aos mais repressivos regimes no Oriente Médio, dentre outros.  

O trio atraiu e inspirou uma nova cepa de líderes agressivos hiper-nacionalistas1 que veneram o poder, como Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, Abdel Fattah el-Sisi, do Egito, Viktor Orbán2 , da Hungria e Jair Bolsonaro, do Brasil.  Trump e Putin podem ser os líderes do grupo, mas foi Netanyahu,  o entusiástico apoiador desta nova leva de governantes (Haaretz), mostrando sua afinidade com os mesmos, contrariamente ao que se esperaria do líder de uma nação fundada por vítimas de perseguição étnica. 

Orban-Netanyahu-Israel-Hungary
Netanyahu e o húngaro Viktor Órban

Os três líderes procuraram substituir o pensamento progressista e o liberalismo pela plutocracia. Mas se o namoro3 dos três foi bem sucedido em gerar uma tendência mundial pelo populismo, por outro lado, não conseguiu produzir relações mais próximas e amigáveis entre os governos russo e norte-americano. Nem Trump nem Netanyahu conseguiram convencer o establishment da política externa americana a abraçar Putin, nem mesmo como forma de conter o Irã. Este país é visto como um ator de nível regional a ser combatido, mas Democratas e Republicanos consideram a Rússia como um perigoso inimigo global.  Isto porque a Rússia de Putin conseguiu retornar ao cenário da geopolítica internacional como um importante participante independente, em geral adversário dos Estados Unidos. Isto se tornou evidente com a intervenção na Ucrânia e na Síria, bem como no envio de tropas para a Venezuela, um desafio direto a Washington no Hemisfério Ocidental.

Esta é a tragédia da política do poder. Embora Trump e Putin pensem de forma semelhante, eles continuarão a competir em um mundo anárquico, mesmo com o risco de guerra. Seus países estão de lados opostos em quase tudo, incluindo guerra cibernética, proliferação nuclear, segurança regional na Europa e Oriente Médio, e, naturalmente, na questão da interferência russa nas eleições americanas. Mas eles concordam sobre Israel, ou pelo menos Putin e Trump concordam, e ambos simpatizam com Netanyahu.

Trump and Putin tiveram uma reunião de cúpula (em Helsinki, julho de 2018, N.T.), que terminou em relativo fracasso4 , além de quatro encontros curtos. Netanyahu teve cinco bem sucedidas reuniões com Trump em dois anos, e treze bem sucedidas reuniões com Putin em quatro anos. O primeiro-ministro persistiu em cultivar relações próximas com Putin, porque a Rússia é a única potência que tem diálogo aberto com cada um dos atores principais no Oriente médio, incluindo o Hamas e o Hezbollah, e mesmo com rivais regionais, como Irã e Arábia Saudita, além de Turquia e Egito.

Netanyahu soube explorar o interesse da Rússia de que Washington voltasse a reconhecer seu status de superpotência e suas áreas de influência, fazendo uso de sua relação especial com Trump, para com isto conseguir concessões de Putin, começando pela Síria. Parecendo rapidamente esquecer do papel de Israel no episódio da derrubada de um avião militar russo com morte de 15 oficiais, Putin concordou em estabelecer um grupo de trabalho com Israel visando a remoção de todas as forças estrangeiras da Síria. O presidente russo também aceitou as constantes violações do espaço aéreo da Síria por Israel e o bombardeamento de alvos iranianos lá.  O Kremlin ainda propôs a Netanyahu que ele mediasse um acordo entre Estados Unidos, Síria e Irã, para a retirada completa de tropas, mas como tal acordo levaria ao fim das sanções contra o Irã, Netanyahu se recusou.

Em algumas ocasiões, a atuação diplomática de Netanyahu se aproximou de um jogo de pôquer, mas que conseguiu obter de Trump o reconhecimento da anexação das Colinas de Golã por Israel, em desrespeito à legislação internacional e à política tradicional do país. Aparentemente, Putin não fez nada e deixou esta questão passar em branco quando se reuniu com Netanyahu.

Se para obter a adesão de Putin um flerte prévio foi necessário, Netanyahu não poderia ter sonhado em melhor parceiro na Casa Branca que Trump. Este abraçou completamente as posições de Israel no Irã, e a ocupação de Jerusalém5 e das Colinas de Golã. Em breve deverá vir a anexação de parte da Cisjordânia, conforme promessa de Netanyahu caso ganhasse as eleições. E novamente Trump deverá dar seu apoio e Putin emprestar seu silêncio. Desta forma o primeiro-ministro de Israel vem conseguindo redefinir as fronteiras e as alianças no Oriente Médio.

Notas do Tradutor

Pequenas modificações foram introduzidas no artigo, sejam explicativas (indicadas por N.T.), ou como forma de tentar agilizar à leitura de um texto longo, incluindo a supressão de algumas partes, sem com isto afetar as opiniões expressas pelo autor. O tradutor apresenta a seguir alguns comentários adicionais, observando-se a correspondência no texto com a numeração sobrescrita. 

  1.  O termo ‘nacionalismo’ pode ter conotações diferentes, dependendo do período e do país. As idéias nacionalistas já estiveram associadas  com teorias racistas no século XX, como na Alemanha (nacional-socialismo), na Itália (fascismo) e no Japão. No artigo, Marwan Bishara se refere a este nacionalismo que, ao exaltar de forma exacerbada os valores da pátria, se afasta do internacionalismo, entendido como uma política de cooperação entre as nações, podendo com isso levar ao xenofobismo.  Após a II Guerra Mundial, o nacionalismo que se manifesta em países do Terceiro Mundo está principalmente relacionado com a luta contra todas as formas neocolonialistas de exploração, embora a exaltação da pátria estava presente no Brasil do ‘ame-o ou deixe-o’, na época da ditadura militar, e reaparece no governo Bolsonaro, por exemplo, quando se exige dos alunos nas escolas públicas e privadas que cantem o hino nacional, ou se afastando da integração regional ao diminuir a prioridade do Mercosul. 
  2. O presidente da Hungria, Viktor Orbán, apoiado entusiasticamente por Netanyahu, é um político da extrema-direita, que defende e representa posições próximas às dos nazistas. Órban se omitiu quanto ao crescimento do antissemitismo no país, e até deu sua contribuição, com as críticas feitas a judeus proeminentes, além das declarações  xenófobas e racistas de seu partido  a refugiados.  
  3. Na tradução foi utilizado o termo ‘namoro’, para definir o relacionamento de Netanyahu com Putin e Trump, em substituição a ‘bromance’, expressão da língua inglesa que une as palavras brother e romance, para expressar  um relacionamento íntimo, não-sexual, entre dois (ou mais) homens.  
  4. Bishara não enumera que objetivos poderiam ter sido alcançados na cimeira de Helsinki para ela haver terminado em ‘relativo fracasso’.  Benjamim Netanyahu saudou as relações de Israel com a Rússia e Estados Unidos, após Trump e Putin declararem no encontro que a segurança do Estado Judaico fora discutida pelos dois presidentes. Do ponto de vista de Israel, as reuniões aparentemente trouxeram bons resultados. Vale lembrar ainda, que foi na cimeira de Helsinki que Trump criticou a comunidade de inteligência norte-americana (CNN), por esta afirmar que a Rússia havia intervindo nas eleição de 2016 que o conduzira à presidência. À esta declaração de Trump apoiando abertamente a Putin, líder de uma nação adversária, seguiu-se intenso bombardeio de críticas da mídia e do Partido Democrata, de Hillary Clinton. Ao final do encontro, ambos os líderes consideraram que a reunião fora ‘bem sucedida’, talvez por ter contribuído para cimentar as relações pessoais entre os dois.
  5. Na questão do expansionismo sionista, o relacionamento pessoal do presidente norte-americano com o líder israelense não deve ter sido decisivo no reconhecimento por Trump, da anexação de Jerusalém por Israel. Tal posicionamento decorreu principalmente das pressões dos evangélicos fundamentalistas (GGN), e do interesse de Trump  nos ganhos eleitorais que poderia obter com o apoio do  lobby evangélico.

 

 

Os Riscos do Lobby Pró-Israel

Poderá ser muito alta para o país, a conta a pagar pelo reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel em troca do apoio de evangélicos conservadores à eleição de Bolsonaro

 

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Muro das Lamentações e Domo da Mesquita de Omar

 

A atuação do movimento sionista levou à partilha decidida pela ONU em 1947 do território conhecido então como Palestina, e ao estabelecimento do Estado de Israel em 1948, sem que no entanto fosse efetivada a criação do Estado Palestino. Centenas de milhares de judeus acorreram para lá, incluindo muitos sobreviventes do Holocausto (estima-se que foram cerca de 600.000 nos três primeiros anos). Paralelamente, milhares de árabes palestinos fogem ou são desalojados e expulsos. Os países árabes não aceitaram a cessão de terras para a formação de Israel, invadindo a país recém formado. Um amplo conflito foi deflagrado, do qual Israel sai vitorioso, tomando cerca de 60% das terras previstas para o estado árabe-palestino. Como resultado da guerra, Israel ocupou o setor ocidental da cidade de Jerusalém, permanecendo a parte oriental, bem como a Cisjordânia, sob controle do reino Hachemita da Jordânia. Pela partilha, Jerusalém deveria ser internacionalizada, pelo caráter  sagrado para as três principais religiões monoteístas. As décadas seguintes foram de guerras, violentos conflitos e animosidade na região.

Com o fracasso do acordo de paz de Oslo de 1993 entre a OLP e Israel seguindo-se ao assassinato do líder israelense Yitzhak Rabin por um extremista judeu em 1995, a ascensão dos governos de direita de Ariel Sharon (2001-2006) e de Benjamin Netanyahu (a partir de 2009) só fez agravar a situação de beligerância na região. A questão do status de Jerusalém e a política de expansão dos assentamentos judaicos em terras da Cisjordânia solaparam a possibilidade de se chegar à solução de ‘Dois Estados’ preconizada pelo acordo de Oslo.

Os mapas da figura mostram a evolução temporal das terras ocupadas por judeus, partindo de umas poucas colônias ainda durante o mandato britânico, o mapa da partilha de 1947 pela ONU (Jerusalém em branco), o da independência do Estado de Israel, já com as terras conquistadas na guerra de 1948, e o mapa em 2000 , que mostra as terras que restavam aos palestinos, como resultado da expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia ocupada. A veracidade deste último mapa não pôde ser confirmada por este blogue, mas a expansão dos assentamentos prossegue até os dias atuais.  O termo ‘bantustão’ é por vezes utilizado pelos mais críticos  de Israel, ao fazer a comparação com o antigo sistema do Apartheid na África do Sul, que, por segurança, confinava a população negra majoritária em regiões dispersas.

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Mais recentemente, o bloqueio asfixiante a Gaza e o ‘abate’ de manifestantes próximos às cercas da fronteira da Faixa geraram imagens que percorreram e chocaram o mundo.  A aprovação da Lei do Estado-Nação em 2018 reforçou as críticas, vindas até mesmo da parte judeus, de Israel ter se tornado um regime de Apartheid, por discriminar contra seus cidadãos não-judeus, principalmente os palestinos (Haaretz).

Os grupos de pressão pró-Israel têm atuado intensamente a nível mundial, buscando atenuar as críticas nos Fóruns Internacionais. Não se trata mais apenas de defender a existência de um ‘lar nacional’ onde os judeus estejam protegidos das perseguições que sofreram por séculos na Europa, da ameaça de vizinhos árabes hostis de empurrar judeus para o mar, e de movimentos extremistas. O poder militar e de dissuasão de Israel garante, atualmente, a sua existência pela força, mas não a paz duradoura. Trata-se, agora, de tentar se contrapor ao crescente movimento internacional pelos direitos do Povo Palestino, e que contribuiu para fortalecer o BDS, o boicote cultural e de bens e serviços, que vem prejudicando a economia e isolando culturalmente o país.

Os  antissionistas, críticos das políticas do expansionistas e dos excessos cometidos por Israel na repressão aos palestinos, passaram a ser indistintamente rotulados de ‘antissemitas’. É  o que vem ocorrendo intensamente na Inglaterra, com acusações  contra parlamentares do Partido Trabalhista (Chacoalhando). A pressão também aumenta contra parlamentares dos Democratas nos Estados Unidos, conforme este partido começa a se alinhar mais com teses simpáticas aos palestinos. Trump aproveitou para acusar os Democratas de serem um partido contra os judeus (Haaretz).

Da mesma forma que nos Estados Unidos, o principal grupo de pressão religioso pró-Israel no Brasil era tradicionalmente constituído por membros proeminentes e entidades da comunidade judaica, pela influência exercida na mídia e nos políticos. A narrativa do Holocausto sempre angariou no passado apoio a Israel na maior parte da mídia do então chamado Ocidente (países da OTAN, essencialmente), apoio este garantido também na época da ‘guerra fria’, por Israel ser considerado como um enclave da civilização ocidental no Oriente Médio, onde a então União Soviética buscava ampliar sua influência sobre os países árabes. E para que pudesse se defender e atuar como ponta de lança dos interesses do Ocidente, Israel recebia, e continua a receber modernos armamentos, além da ajuda econômica das entidades sionistas destes países. O Brasil, tradicionalmente alinhado com os Estados Unidos, não foi exceção.

No período dos governos do PT as políticas expansionistas de Israel não encontraram respaldo, chegando a surgir fortes atritos diplomáticos entre os dois países durante o governo de Dilma Rouseff.  A atuação do lobby judaico no país não era forte o suficiente para alterar o posicionamento dos governos petistas em favor da solução de Dois Estados e de resoluções da ONU contra o reconhecimento da ocupação de territórios obtidos por Israel pela força.

Era de se esperar, portanto, que instituições judaicas conservadores viessem a fazer oposição a qualquer futuro candidato presidencial do PT. Desta forma, apoiaram abertamente a candidatura de Jair Bolsonaro, apesar das amplas manifestações de judeus progressistas, alertando dos riscos que o candidato de extrema-direita representava para a democracia no país. A comunidade judaica ficou dividida, assim como o resto da nação.

menorah bolsonaro

O fortalecimento gradual da influência política dos evangélicos nos últimos anos no Brasil introduziu um novo fator na correlação de forças políticas. Eles passaram a se constituir, recentemente, no principal grupo de pressão pró-Israel no país, seguindo a mesma tendência que já se verificara nos Estados Unidos. Disto se aproveitou Bolsonaro, da mesma forma que Trump já vinha fazendo, para obter apoio político e dividendos eleitorais. Independente do jogo sujo na campanha eleitoral de 2018, pela ampla disseminação de notícias falsas (fake news), a questão do status de Jerusalém teve papel fundamental no apoio dos evangélicos a Bolsonaro, apoio este surpreendentemente fundamentado em uma profecia bíblica milenar.

Conforme cita a Dra. Diana Butler Bass, Ph.D. em estudos religiosos, (CNN), a Bíblia relata que sempre que o reino de Israel estendia suas fronteiras ou seu território de influência política pelas guerras, era pela vontade de Deus. Jerusalém passou a ser o coração espiritual de Israel no tempo do Rei Davi. Para muitos evangélicos conservadores a questão de Jerusalém não é política ou sobre planos de paz com Palestinos. Segundo a Dra. Bass, muitos evangélicos fundamentalistas seguem o chamado ‘pré-milenialismo dispensionalista’. Por esta doutrina, a ‘era da igreja cristã’, iniciada (por Deus) quando os judeus rejeitaram Jesus, terminará em breve. Os judeus serão então redimidos graças ao amor de Deus por eles, passando então por um grande renascimento religioso, quando será reconstruído o templo de Jerusalém.

Em seguida, ainda segundo a profecia, ocorrerá uma série de eventos cataclísmicos, culminando na Batalha de Armagedom, a última guerra da humanidade, com as tropas de Deus sendo lideradas pelo arcanjo Miguel (foto abaixo). Os judeus finalmente aceitarão Jesus como o Messias, seguindo-se o retorno de Jesus em glória e um reino de Deus com mil anos de paz. Todos estes eventos só poderão vir a ocorrer com Jerusalém pertencendo a Israel, daí a motivação dos evangélicos seguidores desta escatologia em ‘dar uma ajudinha’ para apressar o Armagedom.

miguel arcanjo

Originada nos Estados Unidos por volta de 1840 a partir de um pequeno movimento , o ‘dispensionalismo’ se popularizou através de livros best-sellers, se propagando também por meio de seminários teológicos, escolas, filmes, vídeos. Embora a maioria dos cristãos não compartilhe destas idéias, versões desta visão fundamentalista se disseminaram, influenciando por tabela a setores evangélicos no Brasil.

Importantes líderes evangélicos conservadores no país resolveram apoiar a campanha de Jair Bolsonaro à presidência da República, na condição do reconhecimento da mudança da capital de Israel para Jerusalém. Este reconhecimento, mais do que representar apenas outra faceta do atrelamento ideológico de Bolsonaro ao governo Trump, se tratou de uma estratégia do capitão para ganhar apoio eleitoral na significativa comunidade evangélica, e, naturalmente, também na judaica.

Eleito, Bolsonaro precisou logo fazer um recuo no reconhecimento de Jerusalém, pelas ameaças de retaliação econômica de países árabes, deixando insatisfeitas algumas lideranças evangélicas. O pastor Silas Malafaia, da Assembléia de Deus, foi taxativo ao declarar que Bolsonaro terá que cumprir o compromisso de campanha, ou a situação ‘ficará ruim’ para ele (Oglobo). Esta ameaça, mais do que velada, tem respaldo nas bancadas evangélica e da bala, pois a agronegócio (o terceiro B, da bancada BBB) não está nada satisfeito com a perspectiva do boicote  pelo mundo mulçumano. Provavelmente por não ser capaz de cumprir agora a promessa, o governo Bolsonaro rompeu com uma tradição da diplomacia brasileira, ao se posicionar no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas contrariamente à condenação de Israel ‘pelo uso de força ilegal e excessiva contra manifestantes palestinos’, se abstendo ainda em outra resolução contra a expansão das colônias israelenses nos territórios ocupados.

Na visita a Israel que acaba de concluir neste início de abril, Bolsonaro anunciou a abertura de um escritório comercial em Jerusalém, como forma de apaziguar parcialmente a bancada evangélica e, ao mesmo tempo, dando apoio à candidatura de Netanyahu nas eleições gerais de abril. Acompanhado de Netanyahu, Bolsonaro visitou o Muro das Lamentações, na Jerusalém Oriental, setor em que os palestinos pretendiam implantar a capital de seu futuro Estado. O Hamas, que governa a Faixa de Gaza, emitiu de imediato um comunicado, condenando tanto os planos de abertura do escritório como a visita à Jerusalém. Essa política não ajuda a estabilidade e a segurança da região, e ameaça os laços do Brasil com países árabes e muçulmanos’, salientou o comunicado do Hamas.

Continuando a se comportar como um ‘galinho de briga’, o senador Flávio Bolsonaro, ainda colocou mais lenha na fogueira ao mandar mensagem para o Hamas: ‘quero que se explodam’ (Valor). A continuar a política irresponsável nas relações exteriores, o Brasil poderá em breve sofrer retaliações comerciais de nações árabes e islâmicas em geral, bem como aumentará o risco do país se tornar alvo de atentados terroristas perpetrados por extremistas islâmicos. Chegamos a esta situação de risco graças a escatologia adotada pelos evangélicos.

Tudo indica que os setores evangélicos conservadores continuarão a apoiar a expansão territorial de Israel, como a recente anexação das colinas de Golã. Esperemos apenas que não esteja nos planos futuros de Israel alcançar a grandeza dos tempos dos reis Davi e Salomão, quando Damasco foi conquistada e pagava tributo ao reino.

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No mapa dos tempos bíblicos, a área em vermelho representa o território de Israel antes do reinado de Davi. Em laranja, as terras conquistadas por ele, que incluíram Damasco, na Síria, e herdadas por seu filho Salomão. Em amarelo, as regiões com forte influência econômica de Salomão, chegando até o Rio Eufrates.