Dr. Kouchner e o Sr. Hyde: o médico e o monstro? Parte 3 – A máfia do Kosovo, Por Ruben Rosenthal

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Manifestação em 2017 pelos desaparecidos na guerra do Kosovo  /  Foto AP

Durante a gestão de Bernard Kouchner na administração do Kosovo, o crime organizado assumiu o controle de posições-chave no controle político do enclave de maioria  da etnia albanesa, o que levou à situação atual de um Estado com governo e  exército comandados pela máfia.  

Este artigo, o terceiro e último da série “Dr. Kouchner e o sr. Hyde”, aborda o período em que Kouchner (“K”)  atuou como Chefe da Administração Interina do Kosovo. Foram levantadas contra ele, acusações de tolerância ou mesmo de conivência, com ações criminosas das milícias kosovares albanesas. Será também abordado a papel das lideranças do Ocidente na ascensão de lideranças kosovares associadas com a máfia albanesa.

Na sequência de seu período como Ministro da Saúde no governo francês, K atuou, de 1999 a 2001, como representante Especial das Nações Unidas e Chefe da Administração Interina da Missão da ONU (UNMIK) no Kosovo, com o afastamento da administração sérvia após os bombardeios da Iugoslávia pela OTAN. Segundo o jornalista Philip Hammond, K relembra este período como “o mais feliz de sua vida”.

No entanto, para a população kosovar que não pertencesse à etnia albanesa, estes foram anos de terror, pela ação do KLA, o Exército de Libertação do Kosovo, e depois, por seu substituto, a Corporação de Proteção do Kosovo, KPC (siglas em inglês).

Em setembro de 1999, a OTAN e o KLA alcançaram um acordo para transformar (a partir de janeiro de 2000) os rebeldes em um grupo de defesa civil, o KPC, após semanas de difíceis negociações. O KPC ficaria encarregado de prestar assistência humanitária e da remoção de minas terrestres. Na foto, após a assinatura do acordo, aparecem (a partir da esquerda) Hashim Thaçi, então líder do KLA, K, como representante da ONU, o tenente-general britânico Mike Jackson, Agim Ceku, chefe de gabinete do KLA, e o general Wesley Clark, comandante supremo da OTAN. 

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Assinatura do acordo  entre a OTAN e o KLA    /    Foto EPA

Restava, então, esperar para ver qual seria o comportamento do KPC, pois o KLA, além de ter sido uma organização terrorista que atacava indistintamente oficiais sérvios e a civis das outras etnias, que não a albanesa, estava também envolvido no tráfico de drogas, extorsão e outros crimes.

Em agosto de 2000, a seção belga de Médicos Sem Fronteira se retirou do protetorado, reclamando que os kosovares sérvios e outras minorias estavam sendo “aterrorizados por constantes atos de violência”, sem que a administração internacional impedisse. E, de forma irônica, MSF relembrou as palavras críticas que K, fundador da organização, anteriormente proferira contra a Cruz Vermelha Internacional, de que o “silêncio sobre atrocidades implicava em passividade cúmplice”.

Documento do Comitê Republicano do Senado norte-americano, datado de 24 de março de 1999, ou seja, de uma semana antes do início do bombardeio da Iugoslávia pelas tropas da OTAN, fez o questionamento: “a política de Clinton (então presidente do país) é apoiar um grupo com vinculação ao terror e às drogas? O KLA tem forte envolvimento com a rede criminosa da máfia albanesa, que se estende pela Europa e Estados Unidos, e de onde obtém a maior parte de seu financiamento”. 

Acrescenta que informações sobre vínculos do KLA com o cartel albanês foram objeto de relato da revista especializada Jane´s Intelligence Review, desde meados da década de 90. O documento do Comitê Republicano mencionava ainda, que a secretária de estado Madeleine Albright tratava com deferência a Hashim Thaci, o líder do KLA, então com 30 anos de idade. Futuramente, a secretária de estado Hillary Clinton também iria tratar com grande deferência, ao já grisalho Thaci.

O envolvimento do KLA com a máfia albanesa se tornou de amplo conhecimento no Ocidente, a partir das publicações que dominaram a mídia corporativa em março de 2000, poucas semanas após assinatura do acordo com a OTAN, chancelado por K.

No Sunday Times: “Apesar do KLA ser uma organização criminosa, recebia assistência militar da CIA, antes mesmo de começarem os bombardeios na Iugoslávia pela OTAN”. 

No Washington Post: “Relatório da ONU diz que os rebeldes do ex-KLA (atual KPC) ameaçavam, torturavam e matavam civis”. O artigo acrescenta que a ONU e OTAN falharam em supervisionar o KPC. 

No jornal inglês The Guardian, foi publicado o artigo intitulado “O reino de terror da unidade fundada pela ONU”. O relatório confidencial direcionado ao Secretário Kofi Annan, elaborado pelo próprio gabinete de Kouchner, salientou que o KPC, que já contava então com cerca de 5.000 membros, se comportava como estivesse acima da lei. Constava ainda no relatório divulgado pelo jornal inglês, que lojistas, empresários e empreiteiros sofriam extorsão para pagar por taxas de proteção. O KPC era então liderado pelo general Agim Ceku, que aparece na foto da cerimônia do acordo. 

Outro artigo no The Guardian foi publicado na mesma época com o título “Máfia de drogas no Kosovo fornece heroína para Europa”. Acrescenta que a “máfia do Kosovo é praticamente intocável, pois é estruturada com base na família ou em clãs fechados, tornando impossível plantar informantes”.

Portanto, K tinha pleno conhecimento do que se passava no Kosovo, enquanto ele usufruía “do período mais feliz de sua vida”. Dentre os outros crimes praticados então pelas milícias albanesas do Kosovo, deve-se ressaltar o macabro tráfico internacional de órgãos humanos, retirados de prisioneiros sérvios e de outras nacionalidades não-albanesas, após rapto e assassinato, ou mesmo, em alguns casos, de doadores (não espontâneos), que foram mantidos vivos. No entanto, estas informações só alcançaram a mídia 10 anos depois, mesmo que já fosse de conhecimento restrito.

O jornalista investigativo Michael Montgomery viajou com colegas ao Kosovo para investigar crimes cometidos por paramilitares sérvios durante a guerra (1998-1999). A partir daí, ele passou a investigar o desaparecimento de sérvios, que estranhamente estavam acontecendo, mesmo após o término da guerra no Kosovo. Ele relata a sua assustadora experiência em busca de explicações, através de uma animação gráfica.

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A polícia e representantes da ONU investigam a casa amarela    /      Extraído da animação gráfica / Vice News 

A investigação levou o grupo de jornalistas a uma “casa amarela” no interior da Albânia. Sentindo que sua vida estava em risco, Montgomery se fez passar por um engenheiro construtor de estradas, e, retornando à capital, Pristina, denunciou o caso aos representantes da ONU.

O jornalista pôde então, retornar em segurança à “casa amarela”, acompanhando a equipe da ONU e a polícia local. Na perícia realizada, foram recolhidas amostras de sangue, e coletadas seringas e outros ítens encontrados. As provas foram remetidas para o Tribunal Internacional Penal para a Ex-Iugoslávia, em Haia.

Em 2006, o capitão canadense Stu Kellock, chefe (de 2000-2001) da Unidade Regional da UNIMIK para Crimes Sérios de Pristina, afirmou que, desde janeiro de 2000, K ordenara à polícia que qualquer ação contra famílias importantes do Kosovo só poderia ser realizada se ele próprio desse a autorização.

Acrescentou ainda Kellock, que havia uma “relutância em processar ex-membros do KLA…. A OTAN e a UNMIK estavam no Kosovo para proteger os direitos humanos, principalmente dos albaneses. Portanto, submetê-los a processos judiciais por atos criminosos, não seria politicamente palatável”. Além disto, “temia-se que UNMIK e KFOR (a força militar da OTAN no Kosovo) pudessem sofrer retaliações, o que tornou estas instituições, reféns do KLA, e depois do KPC”.

Conforme relato da escritora Diana Johnstone no Global Research, a ex-procuradora do Tribunal Internacional Penal para a ex-Iugoslávia, em Haia, Carla del Ponte, revelou em suas memórias de 2008, que fora impedida de conduzir uma investigação plena sobre os relatos de extração e tráfico de órgãos de prisioneiros, conduzidos pelo KLA na vizinha Albânia. Acrescentou a procuradora, que tais denúncias foram então ignoradas pelas autoridades judiciais dos interventores externos, inicialmente a OTAN, e, em seguida, a ONU.

Inicialmente, K tentou negar que tivesse ocorrido seqüestro de pessoas, para alimentar tráfico de órgãos humanos, durante sua gestão no Kosovo. Quando no cargo de Ministro do Exterior do governo de direita de Nicolas Sarkozy, K foi questionado, em março de 2010, sobre o tráfico de órgãos no Kosovo. A reação imediata às perguntas feitas pelo jornalista Budimir Nicic, foi uma sonora gargalhada. O vídeo da resposta de K pode ser assistido em francês.

Segue-se a tradução da resposta dada por K ao jornalista, após a gargalhada: “mas você está doente não está? Você é insano, não fique dizendo absurdos como este. Não posso acreditar que alguém faça uma pergunta tão absurda como esta”. E continuando: “o que é a casa amarela? Por que amarela? Você deveria consultar (um médico psiquiatra). Não havia casa amarela, não havia comércio de órgãos. As pessoas que falam coisas assim são lixo ou assassinos”.

Seguindo-se à publicação das memórias de del Ponte em 2008, a Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa, PACE, solicitou ao representante suíço, senador Dick Marty, uma investigação sobre as denúncias de tráfico de órgãos no Kosovo, e a elaboração de um relatório oficial. Com a divulgação do Relatório Marty em dezembro de 2010, as chocantes revelações sobre tráfico de órgãos humanos passaram a ser amplamente conhecidas. Assim, ainda em dezembro, o periódico britânico Daily Mail pôde estampar a notícia: “Primeiro ministro do Kosovo era um chefe da máfia que roubava órgãos humanos de prisioneiros sérvios para lucrar com a venda”. 

As investigações conduzidas por Marty haviam sido dificultadas pelas ameaças à integridade de testemunhas e suas famílias, e pela não colaboração por parte da Albânia. Na ocasião da publicação do relatório, cerca de 2.000 pessoas de todas as nacionalidades continuavam desaparecidas no Kosovo, não apenas pela ação das milícias albanesas, mas também por paramilitares sérvios durante a guerra. A foto que é apresentada na abertura deste artigo se refere, em particular, a um protesto relacionado ao desaparecimento de kosovares albaneses praticado por sérvios.

O relatório elaborado por Marty, e aprovado pelo PACE em janeiro de 2011, mostrou que a investigação conseguira reunir amplas provas, de que o KLA havia de fato operado uma rede de casas seguras em território albanês, durante e após a guerra da OTAN. Estas casas foram usadas para interrogar, torturar e, por vezes, assassinar prisioneiros, cujos órgãos eram removidos para alimentar o tráfico. Consta no parágrafo 156 do Relatório: “os cativos que foram vítimas do crime organizado incluíam pessoas levadas para a Albânia Central, para serem mortos, imediatamente antes de terem seus rins removidos em uma clínica”.

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Locais na Albânia para detenção pelo KLA, durante e após a guerra, e a rota dos cativos kosovares para a clínica de extração de órgãos /  Relatório Marty

Em dezembro de 2010, Stu Kellock  declarou à rede de televisão RTS, de Belgrado: “não posso atestar que Kouchner soubesse do tráfico de órgãos, mas não existe qualquer possibilidade de que ele não tivesse informação sobre o crime organizado no Kosovo”. Kellock também relatou que durante seu período de atuação, “havia rumores de tráfico de órgãos, mas as prioridades eram muitas, e pouco pessoal para se poder conduzir uma investigação com base apenas em rumores”.

De acordo com documentos secretos da OTAN publicados pelo The Guardian em  janeiro de 2011, os EUA e países do Ocidente tinham pleno conhecimento das atividades criminosas praticadas pelo governo do Kosovo, e que Thaci era “o peixe grande” do crime organizado em seu país. 

O Conselho da Europa deliberou que as autoridades do Kosovo e da Albania deveriam investigar as alegações de tráfico de órgãos, bem como, que a missão da UE no Kosovo (Eulex) deveria se envolver com as investigações. Mas, em novembro de 2014, Eulex foi acusada de diversas vezes encerrar, indevidamente, investigações contra líderes kosovares, e de corrupção interna de seus próprios membros. 

Assim, apesar da ampla repercussão que o Relatório Marty alcançara na mídia, não foram tomadas medidas efetivas para punir as lideranças responsáveis pela rede criminosa, e expor seus apoiadores na elite política do Ocidente. E Thaçi, que fora conhecido como “a serpente”, quando no comando do KLA, pôde, então, chegar à presidência do Kosovo, em 2016.

Em março de 2016, o diário francês Le Figaro relatou que K poderia ser chamado para depor sobre os crimes cometidos pelo KLA/KPC. O periódico observou que K “sempre negou ter fechado os olhos para os crimes do KLA para assegurar impunidade para os líderes da guerrilha da etnia albanesa”. Le Figaro acrescentou ainda, que uma corte especial poderia indiciar o presidente Hashim Thaçi, para responder por sérias alegações de maus tratos a prisioneiros sérvios e ciganos.

Em entrevista de janeiro de 2019, Dick Marty foi perguntado se o judiciário podia ser confiável na elucidação das responsabilidades sobre os desaparecimentos no Kosovo, tendo em vista que Geoffrey Nice assumira como um dos principais defensores dos líderes de Kosovo. Nice anteriormente atuara como promotor no Tribunal Internacional Penal para a Iugoslávia, em Haia, e era suspeito de ter ocultado evidências sobre a “casa amarela” (coletadas quando da investigação do jornalista Montgomery). Sua atuação na acusação contra Slobodan Milosevic, em Haia, já foi amplamente descrita em artigo do blogue. Para o blogue, fazendo um trocadilho, o comportamento de Nice não foi nada “nice” (decente). 

Para Marty, é totalmente incompreensível que Nice, como sub-promotor chefe em Haia, assumisse como advogado de defesa dos suspeitos do Kosovo. “É no mínimo bizarro para mim. Sob o ponto de vista legal é possível, mas do ponto de vista ético, considero suspeito”, acrescenta ele. E prosseguindo: “sei que existiam evidências. O jornalista Anthony Montgomery (já mencionado neste artigo) estava presente quando investigadores do Tribunal de Haia estiveram na ‘casa amarela’ coletando evidências, por sinal de forma extremamente amadora. Não analisaram as amostras de sangue. Eles encontraram drogas, seringas e muito mais, e tudo isto foi trancafiado no tribunal”.

Marty declarou ainda ao entrevistador: “Você está naturalmente familiarizado com o caso de Ramush Haradinaj, ex-comandante do KLA, perante a Corte Internacional de Justiça. As testemunhas desapareciam todas as vezes. Ocorreram mortes misteriosas. Posso entender que elas tenham medo. Eu mesmo presenciei que as pessoas estão aterrorizadas. Temem por suas vidas e de seus familiares”.

Em julho de 2019, Ramush Haradinaj, já como primeiro-ministro do Kosovo, foi novamente convocado a depor perante a Corte Internacional, em Haia. A convocação está relacionada com crimes comuns cometidos pelo KLA/KPC. Será que desta vez haverá testemunhas contra ele?

O que se espera agora, se a busca da verdade for realmente primordial, é que o Relatório Marty seja plenamente resgatado, e que os indiciamentos levem ao julgamento e à condenação dos responsáveis pelos crimes cometidos, inclusive de autoridades e políticos do Ocidente que tenham sido coniventes com os crimes cometidos. Diana Johnstone acredita que K é dos que mais temem que o Relatório Marty volte a ficar em evidência.

Dentre os políticos do Ocidente que estiveram altamente comprometidos no apoio a Thaci e ao KLA, se incluem o ex-primeiro-ministro inglês Tony Blair, e as ex-secretárias de estado norte-americanas, Madeleine Albright (administração Clinton) e Hillary Clinton (administração Obama). Mas as autoridades norte-americanas já estão acostumadas a agir impunemente, e não devem estar minimamente preocupadas com a possibilidade de serem responsabilizadas.

Em artigo de agosto de 2019, o jornalista Grey Carter publicou que os assassinatos em massa de sérvios para a retirada de órgãos não teriam começado no Kosovo, e sim na Krajina, enclave sérvio na Croácia, após 1995, com a ocupação pela Croácia. Crimes desta natureza também teriam ocorrido na Bósnia e Herzegovina, após a separação da Federação Iugoslava.

Para o jornalista, K está totalmente comprometido com os crimes no Kosovo. Carter considera ainda, que a investigação conduzida por Eulex, a missão da UE no Kosovo, teria sido propositadamente deturpada, para levar a um julgamento que atendesse aos interesses dos EUA e UE, enganando assim a opinião pública, de que algo estava sendo feito para apurar do caso. No indiciamento, o crime mencionado foi de compra de rins de pessoas que precisavam desesperadamente de dinheiro, uma completa deturpação do Relatório Marty.

Finalizando, o Parlamento do Kosovo decidiu, recentemente, transformar a Força de Segurança em Exército Nacional, consistindo de 5.000 militares na ativa e 3.000 na reserva. A Alemanha esteve apoiando ativamente a criação do Exército do Kosovo e sua integração à OTAN. O Kosovo não foi ainda aceito na União Européia e na ONU. Caso seja, será o primeiro caso de um Estado da Máfia com reconhecimento internacional pleno. K, o grande médico humanitarista deu importante contribuição para isto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Kosovo 2019: a limpeza étnica consensual

Por Ruben Rosenthal

Dez anos após a conflituosa declaração de independência do Kosovo, os presidentes da Sérvia e do Kosovo tentam chegar a um acordo, que incluiria a troca de territórios, com a conseqüente migração de consideráveis contingentes populacionais. Os temores são de que, se concretizada, esta limpeza étnica consensual poderá abrir uma “caixa de Pandora”, com resultados desastrosos para os Bálcãs.

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Redesenhando fronteiras  nos Balcãs       Foto   DW/N Rujevic

Este é o quarto e último artigo da série Revisitando os Conflitos e a Fragmentação da ex-Iugoslávia. Os artigos anteriores abordaram os questionamentos ao consenso de genocídio em Srebrenica, a absolvição póstuma do ex-presidente Slobodan Milosevic de todos os crimes que o mantiveram encarcerado por cinco anos, e de como uma empresa de relações públicas conseguiu “vender” o conceito, prontamente encampado pela mídia, de que os campos de prisioneiros bósnios, controlados por sérvios, eram campos de extermínio.

O nacionalismo esteve presente na província autônoma do Kosovo, de maioria albanesa, desde os anos 80, se manifestando, por vezes, em ataques às minorias sérvias e montenegrinas. Em 1996 foi formado o Exército de Libertação do Kosovo (KLA), grupo paramilitar que começou uma campanha armada contra o governo central da Iugoslávia, que então consistia apenas das Repúblicas da Sérvia e de Montenegro. A intervenção de Belgrado na autonomia do Kosovo, com o intuito de impor reformas econômicas do FMI, foi o estopim para a escalada dos conflitos. Seguiu-se a declaração do estado de emergência em março de 1999.

Os Estados Unidos e os países europeus da OTAN aproveitaram o aumento da violência no Kosovo, para promoverem uma campanha de 77 dias de bombardeios aéreos contra a Sérvia. Os relatos dominantes na mídia foram de que os bombardeios se deram principalmente para deter a limpeza étnica em curso no Kosovo. Entretanto, a migração de centenas de milhares de kosovares albaneses ocorreu apenas após o início dos bombardeios, conforme declaração do então secretário geral da OTAN, Lorde Carrington: “penso que o bombardeio da Sérvia pela OTAN precipitou o êxodo de albaneses do Kosovo para a Macedônia e Montenegro, sendo a causa da limpeza étnica”.  

Em uma informação sobre o número de vítimas nos conflitos do Kosovo, consta que morreram 11.000 albaneses, 2.000 sérvios e cerca de 500 ciganos. Pelos acordos que se seguiram à cessação das hostilidades, a resolução 1244 do Conselho de Segurança da ONU, de 10 de Junho de 1999, sublinha “o compromisso de todos os Estados membros para com a soberania e a integridade territorial da República Federal da Iugoslávia”, da qual a Sérvia é a sucessora legal. E à autoridade internacional, caberia “facilitar, esperando por uma resolução definitiva, a instauração de uma autonomia e de uma autodeterminação substanciais.” 

Diante do impasse, o secretário-geral da ONU encarregou um antigo Presidente finlandês, Martti Ahtisaari, de estudar uma solução. No relatório final, de 2007, ele propôs a independência do Kosovo sob supervisão internacional, como “única saída viável para garantir a estabilidade e segurança”, o que não foi aceito pelas partes.

Em fevereiro de 2008, com o apoio dos Estados Unidos e das principais potências da União Européia (UE), o parlamento do Kosovo, em sessão boicotada pelos parlamentares de origem sérvia, votou pela declaração de unilateral de independência. O Conselho de Segurança da ONU não chegou a um acordo sobre a questão da independência, e, com isto, a UE e a OTAN assumiram a responsabilidade pela segurança da região, substituindo o pessoal da ONU nas funções de polícia e justiça.

A Assembléia Geral solicitou o parecer da Corte Internacional de Justiça, sobre se “a declaração unilateral pelas Instituições Provisórias do Auto-Governo do Kosovo estavam em consonância com a lei internacional e com a decisão 1244, de junho de 1999, do Conselho de Segurança”. A Corte considerou que a proclamação não se deu em  violação das decisões da ONU, mas desde então permaneceu o impasse, quanto ao reconhecimento internacional do Kosovo independente.

Cerca de 100 países membros da ONU reconheceram a independência do Kosovo, em oposição a 80 países, onde se incluem Rússia, China, Israel, Irã, Espanha, Grécia, e, naturalmente, a Sérvia. Com isto, o acesso do Kosovo a UE e a ONU ficou impossibilitado.  

A UE conduziu, a partir de 2011, reuniões entre os dois países, que resultaram em vários acordos técnicos, visando a normalização das relações, e uma melhor integração da minoria sérvia do norte do Kosovo.  Em agosto de 2018, surgiu a possibilidade de Kosovo e Sérvia chegarem a um acordo sobre questões territoriais. Aleksandar Vucic, presidente da Sérvia, e o presidente do Kosovo, Hashim Thaçi, estariam próximos de chegar a um acordo, que ajudaria a estabilizar os Bálcãs, e que abriria o acesso de ambos os países à UE, e do Kosovo, à ONU. As negociações passaram a ocorrer com a mediação de Federica Mogherini, principal responsável pela política de relações exteriores da UE.

O acordo que está sendo discutido é chamado, algumas vezes, de “correções de fronteira”, e outras, de “troca de territórios”. Nenhum dos dois presidentes deu detalhes precisos do andamento das discussões, mas as indicações são de que a parte norte do Kosovo, de maioria sérvia, se integraria à Sérvia, enquanto que a região conhecida como Presevo Valley, ao sul da Sérvia, seria cedida ao Kosovo. Mas para que ambos os países se tornem mais “etnicamente puros”, precisará ocorrer, não apenas troca de territórios, mas, também, migração de pessoas, que seriam obrigadas a deixar suas casas, e os locais em que suas famílias viveram por gerações.

mapa do kosovo com regiões da troca
Possível mapa da troca de territórios: região em verde escuro, a ser cedida para a Sérvia, e em roxo escuro, a ser cedida para o Kosovo         Fonte Reuters 

Charles Kupchan, que fora conselheiro de Barack Obama, e é atualmente professor na Georgetown University, em artigo no New York Times, descreveu o plano como uma “limpeza étnica pacífica”. Apoiador da idéia de troca de territórios, ele acredita que “o pragmatismo precisa superar princípios”. O professor James Ker-Lindsay, da London School of Economics, especialista em Bálcãs, expressou também, para a BBC News, a opinião favorável que “mudanças na fronteira podem parecer desagradáveis, mas muitos consideram como uma solução prática”.

Entretanto, a “limpeza étnica” não é consensual. O acordo de troca de territórios, que é aceito  pelos Estados Unidos, está sob crítica de todos os lados, segundo artigo no The Guardian. A alteração das fronteiras encontra forte oposição de vários países da Europa, notadamente da Alemanha e do Reino Unido. No entanto, a França seria plenamente favorável.

Em um apelo enviado a Federica Mogherini, conforme relatado pelo Deutsche Welle, três ex-Altos Representantes (da Europa) na Bósnia alertaram para o risco de se abrir uma “caixa de Pandora”. Acrescentaram ainda que, “mexer com as fronteiras não irá resolver disputas, e sim, aprofundá-las. A paz sustentável poderá vir apenas quando possamos aprender a viver em comunidades multi-étnicas, ao invés de redesenhar fronteiras”. Alertaram ainda que políticos nacionalistas poderiam aproveitar o momento, para agitar pela divisão da Bósnia.

Um diplomata europeu disse que a troca é levada a sério por Belgrado, mas há falta de unidade em Pristina (capital do Kosovo): “até o momento, o presidente Thaçi está só nesta empreitada”. O primeiro ministro e ex-comandante do Exército de Libertação do Kosovo, Ramush Haradinaj, tem se oposto veementemente à possibilidade de troca de territórios, declarando que alterações nas fronteiras levariam à guerra. Mas sua recente renúncia, após ser convocado por uma Corte em Haia, por supostos crimes de guerra cometidos contra a população civil servo-kosovar, pode fortalecer as posições do presidente.  

Para as populações locais, a troca também levantou reações de insatisfação. Os nacionalistas, tanto na Sérvia como no Kosovo, estão relutantes em fazer um acordo que signifique ceder ao outro lado. Para os sérvios do Kosovo não existe unidade, pois aqueles que vivem ao sul do Rio Ibar estão receosos de que serão abandonados a própria sorte, caso a região ao norte se incorpore à Sérvia.

protesto contra Thaçi
Faixa contra a “barganha com terras do país”  em protesto contra Thaçi       Foto   Petrit Prenaj/EPA 

O presidente sérvio foi também criticado pelo clero Ortodoxo, e denunciado como traidor, caso contemple o reconhecimento da independência do Kosovo. Esta pressão do clero poderia ter origem em Moscou, que teria receio de perder a influência sobre a Sérvia, com a normalização das relações. 

Agron Bajrami, editor-chefe do principal jornal do Kosovo, declarou ao The Guardian, que a troca poderia vir a se tornar um pesadelo. Ele considera que o plano iria causar imensa instabilidade por toda a região dos Bálcãs, pois muitas comunidades não gostam do Estado em que vivem. E exemplifica: os sérvios e croatas, na Bósnia, os muçulmanos, na Sérvia, e os albaneses, na Macedônia, bem como os húngaros, na Eslováquia. “A limpeza étnica é um crime, seja pacífica ou não”, acresentou.

O ministro do exterior da Macedônia (agora Macedônia do Norte), ex-república da ex-Iugoslávia, declarou que “a única visão sustentável para a estabilidade dos Bálcãs, é uma em que as fronteiras não importem – uma região de países amigáveis, que sejam membros da UE”.  É interessante observar que a troca do nome do país foi realizada para que a Grécia não se opusesse à entrada da Macedônia na OTAN. A Grécia temia possíveis ambições territoriais da República da Macedônia sobre a histórica região da Macedônia, província grega.

Nos meses que se seguiram aos contatos iniciais entre os dois presidentes, a tensão cresceu entre a Sérvia e o Kosovo, levando a Sérvia a suspender as conversações sobre a troca de territórios. A evolução da escalada de tensões pode ser acompanhada, conforme o relato cronológico, a seguir.  

18.10.2018  – As autoridades do Kosovo decidiram transformar a Força de Segurança do Kosovo em Exército Nacional, ainda em 2018, consistindo de 5.000 militares na ativa e 3.000 na reserva. A OTAN criticou o “momento impróprio” da decisão, mas não o seu mérito.

05.11.2018 – O Ocidente insta a Sérvia a cessar as atividades diplomáticas focadas em reduzir o número de nações que reconhecem a independência do Kosovo.

21.11.2018 –  O presidente Vucic, da Sérvia, informou que a decisão das autoridades do Kosovo, de impor taxação de 100% nas importações vindas da Sérvia, poderá levar à escalada do conflito na região. 

06.12.2018 – O primeiro ministro kosovar, Haradinaj, declarou que o futuro exército irá servir no Afeganistão e Iraque, mas não representa ameaça aos sérvios do norte do Kosovo.

 07.12.2018 – O ministro de exterior russo, Sergei Lavrov, expressou a preocupação que o aumento da presença da OTAN e da UE nos Bálcãs leve à desestabilização da Europa.

14.12.2018 – O presidente Thaçi declarou que o Exército do Kosovo será um parceiro ativo e um aliado da OTAN.  

14.12.2018 – O Secretário Geral da ONU, Antônio Guterres, expressou preocupação com a decisão de Kosovo de formar um exército, instando moderação às partes envolvidas.

18.12.2018 – Os Estados Unidos instou as partes a criarem condições para o diálogo.

18.12.2018 – O representante russo na ONU declarou que a formação de um exército nacional por Pristina, viola a resolução 1244 do Conselho de Segurança, e a própria Constituição do Kosovo. E que a implementação das tarifas de 100% nos bens importados da Sérvia e da Bósnia-Herzegovina, constitui uma violação do Acordo de Livre Comércio da Europa Central (CEFTA).

30.12.2018 – De acordo denúncia do vice-líder do partido alemão Die Link, a Alemanha está apoiando ativamente o Kosovo quanto à criação de seu exército, e de integrá-lo à OTAN.

15.04.2019 – Thaçi expressou que um acordo com a Sérvia é ainda possível em 2019, apesar dos sérios revezes dos últimos meses.

29.05.2019 – As tensões entre o Kosovo e a Sérvia cresceram ainda mais, após a polícia no Kosovo confrontar e prender dezenas de sérvios, como parte de uma operação contra o contrabando, na região norte do país. A Sérvia ficou em estado de prontidão para o combate, e avisou que não ficará imóvel se sérvios no Kosovo forem atacados.

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Operação contra contrabando ao norte do Kosovo     Foto   EPA / Shutterstock

Resta ver como o recente afastamento de Haradinaj afetará a política do Kosovo em seu relacionamento com a Sérvia. O presidente Thaçi, que foi líder político do KLA, poderá ser também julgado por crimes cometidos anteriormente pela organização contra sérvios, ciganos e oponentes políticos. Por trás da procura de um acordo com a Sérvia e inserção na UE, Thaçi pode estar tentando evitar ser submetido a julgamento, embora ele tenha declarado que está disposto a responder à Corte em Haia, se convocado. 

Concluindo,

O blogue Chacoalhando agradece ao GGN pela republicação dos artigos desta série. Procurou-se mostrar como os Estados Unidos e o Ocidente, manobraram os nacionalismos locais para conseguir a desintegração da República Socialista Federativa da Iugoslávia, isto ao custo da destruição de cidades e de dezenas de milhares de mortes.  E de como a ideologia da “intervenção humanitária” surgiu como estratégia para alcançar objetivos geopolíticos pelo Ocidente, tendo a mídia como copartícipe desta estratégia.

Cabe ressaltar que nem todos os temas relevantes puderam ser incluídos nos quatro artigos da série. Ficam as desculpas também por alguns erros de grafia, particularmente na escrita de “Iugoslávia” (forma correta),  nos dois artigos iniciais.

 

O ex-Presidente foi vilipendiado pela mídia e encarcerado por uma justiça corrompida, e pela pressão dos Estados Unidos, sem ter culpa comprovada

Por Ruben Rosenthal

Parece familiar ao leitor? Isto foi exatamente o que ocorreu com Slobodan Milosevic, ex-presidente da Iugoslávia, que veio a falecer na prisão em 2006, com indícios de ter sido assassinado por ingestão de medicamento indevido. Sua inocência de todos os crimes imputados só foi declarada em 2016, dez anos após a sua morte.

Milosevic no tribunal

Milosevic  rejeitava a autoridade do  Tribunal  /  Foto Deutsche Welle

Este artigo do blogue Chacoalhando é o segundo da série “Revisitando os Conflitos e a Fragmentação da Iugoslávia, iniciada neste mês de julho, quando completou 24 anos do massacre em Srebrenica, na Bósnia. O primeiro artigo tratou das circunstâncias que levaram ao fuzilamento em massa de centenas ou milhares de muçulmanos bósnios por sérvios bósnios, e de questionamentos ao “consenso oficial” de que teria ocorrido um genocídio.

O presente artigo trata principalmente das acusações e do julgamento do ex-presidente da Sérvia e da Iugoslávia, Slobodan Milosevic. Em fevereiro de 2002 começou o maior julgamento de crimes de guerra desde Nuremberg, que julgou os crimes cometidos pelo nazismo na Segunda Guerra Mundial. O Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia havia indiciado, em 24 de maio de 1999, a Slobodan Milosevic e a quatro membros do alto escalão do país, por “Crimes Contra a Humanidade” e por “Violações das Leis de Guerra”. No total, foram sessenta e seis acusações. O texto completo do indiciamento pela promotoria pode ser acessado (The Guardian).

O Tribunal fora estabelecido em maio de 1993, pelo Conselho de Segurança da ONU, e funcionou em Haia, Holanda, não tendo relação com a Corte de Haia, principal órgão judiciário da Organização das Nações Unidas.  O estabelecimento do Tribunal seguiu-se à crise na Bósnia, onde prevaleceu o consenso de que tropas sérvias, com o conhecimento de Milosevic, estavam cometendo o genocídio de muçulmanos bósnios. Posteriormente, em 1999,  o consenso era que os sérvios estavam massacrando os albaneses no Kosovo, o que viria a servir de pretexto para os bombardeios da Sérvia pela OTAN, e o indiciamento e prisão de Milosevic. 

Milosevic passara a ser execrado na mídia Ocidental. É interessante recordar que, também alguns setores de esquerda encamparam, na ocasião, as fortes críticas a Milosevic,  inclusive comparando-o a Hitler. Isto ficou evidenciado na declaração do político britânico Ken Livingstone, em entrevista ao The Independent, em abril de 1999, poucos dias antes do indiciamento de Milosevic. 

Livingstone, que recebera anteriormente da mídia britânica o apelido de “Ken vermelho”, por sua ligação com a esquerda radical, acusou Milosevic pelo “pior genocídio na Europa em cinquenta anos, quando bandidos a seu comando cometeram carnificinas contra as populações muçulmanas e croatas da Bósnia”. Livingstone se elegeu prefeito de Londres no ano seguinte. Talvez a feroz crítica feita a Milosevic tenha sido parte do preço pago por “red Ken” para angariar simpatia na mídia, navegando a favor da correnteza política.

O indiciamento de Milosevic se deu no contexto do agravamento da crise no Kosovo. Durante os anos 80, a Iugoslávia recorreu ao FMI, ficando presa na mesma armadilha que os países endividados da América Latina, sendo forçada a introduzir reformas liberais. As províncias autônomas sérvias de Kosovo e Vojvodina, que tinham poder de veto garantido pela constituição de 1974, teriam que endossar as reformas, mas os líderes albaneses do Kosovo se recusavam, conforme relata Diana Johnstone em seu livro “Fool’s Crusade: Yugoslavia, NATO, and Western Delusions”, publicado em 2002. A província atravessava uma séria crise econômica, com cinquenta por cento de desemprego. A solução encontrada por Milosevic, para atender aos bancos do Ocidente, foi revogar a autonomia de Kosovo, o que resultou em violentos protestos pelos kosovares, e na declaração do estado de emergência em março de 1999. Os conflitos aumentaram, com relatos na mídia, de muitas mortes de kosovares de origem albanesa.

Seguiu-se uma conferência de paz na França, ainda em março de 1999, na qual Madeleine Albright, secretária de estado no governo Clinton, ofereceu em troca de não bombardear a Sérvia, que a mesma fosse ocupada militarmente por tropas da OTAN. As exigências, consideradas inaceitáveis por Milosevic, incluíam ainda que as tropas ocupantes ficassem livres de quaisquer processos legais, e que fosse adotada uma economia de livre mercado pela Sérvia. Com a recusa de Milosevic, os bombardeios da Sérvia pela OTAN tiveram início já em maio de 1999, e o então presidente, foi indiciado por crimes de guerra, ainda no mesmo mês. Os crimes não se referiam apenas ao Kosovo, mas também aos eventos do começo dos anos 90 na Bósnia, principalmente em Srebrenica.

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OTAN  bombardeia a Sérvia em 1999  /  Fotograma de vídeo no Youtube

Como a Rússia tivesse ameaçado usar seu poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, a votação não chegou a  ocorrer, mas isto não impediu os bombardeios da Sérvia cometidos pela OTAN. Em junho, o Conselho de Segurança da ONU votou por unanimidade  a resolução 1244, que reconhecia a nova situação que fora imposta pela OTAN. Os conflitos na Iugoslávia se deram em um período em que a Rússia, seguindo-se ao colapso da União Soviética em 1991, se encontrava sob a presidência de Bóris Iéltsin, que governou até dezembro de 1999. Seu governo, pró-Ocidente, foi extremamente dependente da ajuda financeira do presidente Clinton, para superar o caos econômico que se instalara com o processo radical de mudança para uma economia de mercado. Neste contexto, pode-se entender como foi possível que ocorressem os excessos  e ilegalidades cometidos pelo Ocidente e pela OTAN.

Posteriormente, com as eleições de 2000, Milosevic não conseguiu se manter na presidência da Iuguslávia, se re-elegendo apenas para direção do Partido Socialista. Em abril de 2001, a promotora chefe do Tribunal para a Iugoslávia, Carla del Ponte emitiu um mandado de prisão para Milosevic, e em junho, o ex-Presidente foi enviado para a jurisdição do Tribunal, em Haia.  

Algumas vozes lúcidas se pronunciaram, na ocasião, contra o absurdo de submeter Milosevic à jurisdição do Tribunal Penal. No Reino Unido, Tony Benn, uma liderança histórica da esquerda autêntica do Partido Trabalhista, não se intimidou em ir contra a correnteza, ao considerar ilegal o julgamento de Milosevic. Em entrevista de fevereiro de 2002, ele apresentou um posicionamento em que avaliou, de forma abrangente, o contexto em que ocorreram os eventos na Iugoslávia, com a ação concertada dos EUA, Alemanha e Reino Unido no desmembramento do país.

Benn lembrou que, em janeiro de 1999, o então ministro das relações exteriores britânico, Robin Cook, declarara que mais sérvios haviam até então sido mortos por albaneses no Kosovo que o oposto.  E que o antigo secretário-geral da OTAN, Lorde Carrington, declarara que as perseguições e o êxodo dos albaneses kosovares  só começaram quando os norte-americanos iniciaram os bombardeios da Sérvia. 

Poucos dias após a publicação da entrevista de Tony Benn, o real papel desempenhado pelos Estados Unidos na crise na Bósnia foi completamente exposto,  com a revelação do relatório de um professor holandês, da Universidade de Amsterdam, que tinha acesso irrestrito aos arquivos confidenciais de seu país. Este acesso possibilitou que fosse conhecida a aliança secreta entre o Pentágono e grupos islâmicos, para fornecer armamento aos muçulmanos da Bósnia.

Os Estados Unidos estavam em dívida com grupos islâmicos e seus apoiadores no Oriente Médio (Arábia Saudita e Iran), pelo apoio recebido nos conflitos no Afeganistão e na Guerra do Golfo contra Saddam Hussein.  Em 1993, estes grupos estavam ansiosos por ajudar aos muçulmanos em luta na antiga Iugoslávia, e cobraram dos Estados Unidos a dívida pendente. A retribuição incluiu o fornecimento de armas, indo de encontro ao boicote estabelecido pela ONU, que visava impedir a chegada de armamento às partes em conflito. Como o fluxo de armas passava pela Croácia, esta se aproveitou para ficar com parte do arsenal, e usar nos conflitos regionais, em que também estava envolvida. Alguns destes mesmos grupos islâmicos são agora combatidos pelo Ocidente e pela Rússia.  

Milosevic não reconheceu a autoridade do tribunal e passou a conduzir sua própria defesa, a partir de agosto de 2004, apoiado por consultores jurídicos. Ele declarou que seu julgamento por crimes de guerra era “uma distorção da História”, e culpou o Ocidente por fomentar o colapso da Iuguslávia. Sua estratégia não era se defender, e sim, atacar, nas palavras de seu advogado Zdenko Tomanovic.

Em 11 de março de 2006, após cinco anos de encarceramento em uma cela de 16 metros quadrados, durante os quais não podia receber visitas de seus familiares, e restando apenas quarenta horas de audiências para a conclusão do julgamento, Milosevic foi encontrado morto em sua cela em Haia, vítima de um ataque cardíaco. O julgamento foi, então, encerrado, sem que um veredicto fosse alcançado.

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Funeral de Slobodan Milosevic /  Fotograma do filme Milosevic on Trial

 

 

Os detalhes de sua condição cardíaca vinham sendo mantidos em segredo pelos oficiais norte-americanos, conforme posteriormente revelado pelo WikiLeaks. Os documentos vazados, datados de novembro de 2003, tinham a classificação “Secret NOFORN”, o que significa que não poderiam ser acessados por pessoas de outras nacionalidades.

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Os documentos indicavam que autoridades norte-americanas tinham pleno conhecimento de dados clínicos confidenciais de Milosevic, repassados pelo tribunal: “a condição do coração de Milosevic, embora tratável no dia a dia, é séria e não prontamente controlada por medicação”.

Em outro vazamento, foi revelado que recomendações clínicas de médicos holandeses, inclusive de um cardiologista, de que o número de sessões no tribunal fosse reduzido,  foram rejeitadas pela Corte, “até que a elevada pressão sanguínea Milosevic, que tem um histórico de hipertensão, não possa ser controlada com medicação padrão”. Posteriormente o número de sessões semanais precisou ser reduzido para três, devido ao agravamento do quadro clínico de Milosevic. 

Em 24 de fevereiro de 2006, o Tribunal não permitiu que o prisioneiro recebesse tratamento na Rússia de natureza cirúrgica, que poderia ter-lhe salvado a vida. Duas semanas depois, Milosevic estava morto.

Pode não ter se tratado “apenas” de uma omissão no tratamento médico necessário, cometida pelas autoridades americanas e pelo próprio Tribunal Penal, que tenha levado à morte o ex-Presidente. Conforme publicado no The Guardian, Tomanovic, advogado de Milosevic, revelou uma carta de seis páginas, datada da véspera de sua morte,  e dirigida ao governo russo, em que o ex-Presidente alegava que estavam sendo propositadamente administradas drogas erradas para o tratamento de sua doença. Por outro lado, Carla Del Ponte, procuradora chefe do Tribunal, declarou que “Milosevic pode ter se matado, para escapar de um provável veredicto de prisão perpétua”.

Para aumentar a controvérsia, foi divulgado, ainda em março de 2006, que uma análise de sangue, realizada antes da morte de Milosevic, pelo toxicólogo holandês Donald Uges, detectara a presença do medicamento rifamicina, não prescrito pelos médicos. A rifamicina tem o efeito de neutralizar o medicamento que era usado por Milosevic para pressão alta, agravando então o seu problema cardíaco.

Segundo Uges, o ex-presidente iugoslavo teria tomado o remédio para conseguir “uma passagem só de ida para Moscou”, sugerindo com isto, que o próprio Milosevic estaria fazendo sua saúde piorar para justificar ser tratado em Moscou (onde sua esposa se encontrava exilada). A autópsia oficial foi de que a morte se dera por causas naturais, mas a controvérsia permaneceu.

O documentário Milosevic on Trial (Milosevic em Julgamento), do diretor dinamarquês Michael Christoffersen, lançado em 2007, foi baseado em 2.000 horas de filmagens obtidas no decorrer das audiências na Corte, e em 250 horas de entrevistas. 

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Poster do filme Milosevic on Trial

Com a morte de Milosevic, e na ausência de um veredicto, o diretor precisava encontrar um final para o seu filme. Em entrevista ao Instituto Dinamarquês de Cinema, Christoffersen comentou que “precisou interpretar o material”, e que tudo ficou mais claro quando concluiu que o próprio Milosevic teria sido o único responsável por sua própria derrocada (na Corte), se tivesse sido condenado, no caso de prosseguimento do julgamento”.  

E continuando: “Milosevic atuando em sua própria defesa, e apoiado por um time de advogados, tentava caracterizar o julgamento como um processo político, enquanto que, para a acusação, o caso era criminal, um julgamento pela morte de pessoas. Decidimos apontar para a responsabilidade de Milosevic”.

Acrescentou ainda o diretor: “a acusação não consegue uma evidência, e é somente quando Milosevic assume sua própria defesa, que ele ‘comete um deslize’, deixando escapar para o promotor uma importante informação”. “O criminoso expôs a si mesmo”, complementa o produtor Heide. E com um veredicto concebido, de acordo com a decisão da produção, o documentário percorreu importantes festivais de cinema, ganhando diversos prêmios.

Para entender melhor o clima do julgamento, conferir as declarações das testemunhas, e verificar qual teria sido o tal “deslize” cometido por Milosevic, que fez com que o diretor direcionasse o seu filme, na edição, no sentido de atribuir intento criminoso ao ex-presidente, o blogue Chacoalhando resolveu conferir Milosevic on Trial.

No filme, fica bem evidenciado que, durante o decorrer do julgamento, Milosevic assumiu uma postura altiva e desafiadora. Por vezes seu comportamento foi rude e  debochado. Em outros momentos, demonstrou cansaço ou desânimo, em grande parte decorrente de sua condição clínica. O ex-Presidente chegou a ser admoestado com severidade pelo juiz em mais de uma ocasião, que negou algumas das demandas do acusado, quando este estava atuando em sua própria defesa. Não ficou bem evidenciado no filme, qual teria sido o deslize específico cometido por Milosevic, que possa ter feito com que o produtor Mette Heide, declarasse “que o criminoso expôs a si mesmo”.

A questão mais polêmica talvez tenha sido a escolha, como testemunha de defesa, do general Obrad Stevanovic, chefe das Unidades da Polícia Especial, ligadas ao serviço de segurança, subordinado ao Ministério do Interior. Stevanic cedeu seu diário ao Tribunal, e foi duramente questionado pelo advogado de acusação, o britânico Geoffrey Nice, pela expressão  que lá constava, “sem corpos, sem crime” em associação ao termo “limpeza (cleaning up)”. A explicação de Stevanovic foi que corpos mortos de terroristas foram colocadas em valas comuns, pelas próprias autoridades bósnias, para depois culpar aos sérvios pelas mortes. Nice rebateu, citando o caso de uma testemunha, mostrado no filme, em que os corpos de seus quatro filhos foram levados por paramilitares sérvios, para depois serem localizados em um veículo frigorífico, abandonado em um depósito pertencente ao Ministério do Interior.

Stevanonic foi também questionado sobre um vídeo chocante, em que a unidade paramilitar Scorpions executava diversos prisioneiros, atirando os corpos em uma vala. O advogado de acusação aponta que a unidade estaria sob o comando da polícia, e em última análise, Milosevic era responsável pela autorização. Stevanovic negou que tivesse controle sobre o grupo Scorpions. Como ele não foi indiciado pelo cometimento de crimes de guerra, é possível a afirmação de Nice carecesse de fundamento ou de comprovação.

Ao final do filme, o advogado de acusação, Geoffrey Nice, aparece fazendo uma declaração, nada “nice”, de que foi melhor que tudo tivesse acabado daquela forma, com a morte de Milosevic (“a quite satisfactory conclusion”). Desta forma não haveria “questionamentos futuros e apelações”. O filme termina com uma voz declarando em off, que Milosevic, em sua ambição política, passou de “tomar decisões ruins, mas legais, para decisões ruins, ilegais e mesmo criminosas, tendo que assumir responsabilidade por estas decisões”. Também ao final do filme, aparece em uma legenda, que Milosevic foi condenado em 2006 na Corte Suprema da Sérvia, pelo assassinato do ex-presidente da Sérvia, Ivan Stambolic, crime que já havia sido anteriormente atribuído à esposa de Milosevic, Mirjana Markovic, que se exilara na Rússia.

Mas, assumir a culpabilidade de Milosevic em seu documentário, provou ser, anos depois, uma decisão tendenciosa e equivocada da parte de Christoffersen e Heide. Isto porque o julgamento foi retomado, e a inocência do réu foi declarada em 2016.

Em 2008, foi capturado Radovan Karadzic, primeiro presidente (1992-1996) da República Srpska, formada pelos enclaves sérvios na Bósnia-Herzegovina. Enviado para o Tribunal, seu veredicto foi declarado em 24 de março de 2016, com condenação a quarenta anos de detenção, ampliada para prisão perpétua, quando ele apelou da condenação inicial. É provável que, durante as audiências deste julgamento, tenham surgido declarações que isentaram a Milosevic de todas as acusações que haviam sido imputadas a ele.

Entretanto, o veredicto não foi divulgado pelo Tribunal, e ficou “camuflado” dentro no processo contra Radovan Karadzic. Foi graças à pesquisa do jornalista Andy Wilcoxson, que a inocência de Milosevic pôde ser descoberta e revelada, em julho de 2016.

O Tribunal havia estabelecido por unanimidade, o veredicto que “não estava convencido que o caso contivesse suficiente evidência de que Slobodan Milosevic estivera de acordo com um plano de limpeza étnica, em território sérvio, de muçulmanos e croatas”. Para chegar a esta conclusão, o Tribunal levou em conta que, nas reuniões entre representantes da Sérvia e sérvios da Bósnia, “Slobodan declarou que ‘todos os membros de outras nacionalidades e grupos étnicos devem ser protegidos’ e que, “no interesse nacional dos sérvios, não deve constar a discriminação”. E ainda que “crimes devem ser decididamente combatidos”. Nestas reuniões, “Milosevic tentou ponderar com os representantes de sérvios da Bósnia que entendia as preocupações deles, mas que o mais importante era acabar com a guerra”.

No entanto, a mesma imprensa que execrara a Milosevic durante o “julgamento do século”, chamando-o, entre outros adjetivos que o insultavam, de o carniceiro dos Balcãs, manteve completo silêncio sobre a decisão do Tribunal. 

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É até compreensível que a mídia Ocidental procurasse colocar um manto escuro sobre o veredicto, pois ela própria ficaria completamente desmoralizada por sua escancarada cumplicidade, durante anos, na demonização de Milosevic. 

No Brasil, a mídia tradicional também boicotou o assunto. Mas, mesmo na imprensa alternativa, foram poucos os relatos sobre o resultado final do julgamento. Uma das exceções foi o artigo de  Jakobskind, publicado na extinta Caros Amigos, “A inocência tardia de Milosevic”, em que são inclusive mencionadas as suspeitas de que a morte de Milosevic se dera em circunstâncias duvidosas.

Em maio de 2011, foi preso Ratko Mladic,  que fora o comandante militar sérvio da República Srpska (formada pelas províncias sérvias na Bósnia e Herzegovina) durante os conflitos regionais. Extraditado para Haia, foi julgado e considerado culpado em 2017, com sentença de prisão perpétua. Com este julgamento , o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia considerou encerrado todos os trabalhos.

As acusações contra Milosevic, relativas aos conflitos no Kosovo, forneceram o pretexto para os terríveis bombardeios da Sérvia pela OTAN em 1999, e foram decisivas no estabelecimento da nova ideologia intervencionista do Ocidente, com base em questões humanitárias. As tropas da OTAN passaram a se antecipar ou mesmo a prescindir de decisões da ONU, para bombardear e invadir outras nações, de acordo com interesses geopolíticos, segundo ressalta o icônico jornalista John Pilger. Este foi o caso com as subsequentes invasões do Afeganistão, Iraque, Líbia e, furtivamente, da Síria.