A etnia Uigur de Xinjiang e a Guerra Fria contra a China, por Ruben Rosenthal

Como parte da campanha para deter a ascensão econômica da China, os Estados Unidos recorrem à acusações de perseguição religiosa a muçulmanos em Xinjiang.

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Província chinesa de Xinjiang, foco do separatismo uigur Arte gráfica: VOA

Antes do surgimento da crise do coronavírus e das acusações de Trump sobre “o vírus chinês”, a mídia corporativa ocidental já estava em plena campanha contra a China, ao acusar o governo de Pequim de perseguição religiosa a muçulmanos da etnia Uigur na província de Xinjiang, noroeste do país. Campanhas contra a China tem sido constantes desde a revolução comunista de 1949, que contrariou interesses econômicos e geopolíticos do Ocidente. 

O recrudescimento desta campanha em diversas frentes de embate faz evocar o clima da chamada Guerra Fria entre Estados Unidos e a então União Soviética, que prevaleceu na segunda metade do século 20, e que deixava o mundo em constante sobressalto de um conflito bélico direto entre as duas superpotências, que pudesse evoluir para o confronto nuclear.

As denúncias de violação dos direitos humanos dos uigures vêm sendo difundidas desde 2017, sem que no entanto fosse verificada a veracidade das mesmas. O que também não foi revelado pela mídia, é que as fontes das acusações recebem financiamento de Washington.Segundo artigo de Ajit Singh e Max Blumenthal no blogue de notícias The Grayzone, toda a mídia corporativa, e mesmo veículos da imprensa independente, como Democracy Now!   e The Intercept  participaram da divulgação das acusações, sem qualquer investigação prévia séria.

Portanto, não constitui surpresa a adesão da mídia do Brasil a esta campanha contra a China, pois sistematicamente reproduz o noticiário das grandes agências noticiosas do Ocidente, sem a menor visão crítica.

Em fevereiro deste ano, o portal G1, associado ao Grupo Globo, repassou informações vindas da CNN de que o governo chinês promoveu perseguições a muçulmanos integrantes da etnia Uigur, “pela prática ilegal de orações, por uso impróprio da internet, a casais que tivessem mais filhos do que o permitido pela ‘ditadura chinesa’ (sic), a homens com barba longa, e a mulheres que cobrissem o rosto com véu”.

Anteriormente, em novembro de 2019, o portal G1  já relatara que “documentos vazados mostravam que a China mantinha em campos de detenção cerca de 1 milhão de muçulmanos”. Os documentos teriam sido encaminhados ao The New York Times  por uma “fonte anônima” oriunda do escalão político chinês.

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                                  Trecho do documento chinês vazado para o The New York Times

Perseguição religiosa a muçulmanos uigures?

A referida “fonte anônima” responsabilizou o presidente Xi Jinping, por este ter anteriormente defendido “uma cura ideológica para reprimir a agitação em Xinjiang, através de um programa de doutrinação nas prisões”. Conforme também reproduzido pelo G1, “meses após o discurso do presidente chinês, campos de doutrinação começaram a ser abertos, onde cidadãos da etnia Uigur eram pressionados a renegar sua devoção ao Islã, e demonstrar lealdade ao Partido Comunista da China”.

Ainda segundo o relato difundido pelo NYT, a situação teria se agravado em 2017, quando o novo governante local iniciou uma detenção em massa de muçulmanos uigures. O documento faz também referência de que o combate ao Islã iria se estender a outras regiões da China. O Congresso norte-americano, usando como justificativa a suposta detenção de mais de 1 milhão de muçulmanos em Xinjiang, aprovou legislação em 3 de dezembro de 2019, tratando da “Política de Direitos Humanos dos Uigures”, e demandou que Donald Trump impusesse sanções econômicas contra a China, conforme relatado no The Guardian.

Para criar o clima propício que levasse à aprovação das sanções, membros do Congresso norte-americano compararam a China à Alemanha nazista: “a internação em massa de milhões (de uigures) em campos de concentração tem uma dimensão não vista desde o Holocausto”, segundo publicado pela Al Jazeera.

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Fazendeiro transporta fardos de algodão em uma fábrica de Shihezi, Xinjiang 2007 \ Foto: China Photos / Getty Images

Na contramão do relato majoritário que prevaleceu nas mídias corporativas, o artigo no Grayzone considera que as acusações contra o governo chinês foram baseadas em dois estudos altamente dúbios, cuja veracidade não foi questionada.

O “primeiro estudo”  foi apresentado pela Rede Chinesa de Defensores de Direitos Humanos (NCHRD ou CHRD, na sigla em inglês), sediada em Washington, e apoiada financeiramente pela National Endowment for Democracy, o Fundo Nacional pela Democracia (NED, na sigla em inglês). Esta se trata de uma fundação privada, financiada principalmente pelo Congresso norte-americano, e cujo conselho diretor tem participação igualitária de republicanos e democratas.

O referido estudo foi baseado em entrevistas com apenas oito pessoas, e originou um relatório submetido ao Comitê na ONU para a Eliminação da Discriminação Racial. Neste relatório de 2018 foi apresentada a estimativa de que cerca de 1 milhão de pessoas da etnia Uigur haviam sido enviadas para campos de reeducação,  e que cerca de 2 milhões eram forçadas a frequentar programas de reeducação em Xinjiang, segundo a versão do CHRD.

Para se chegar às estimativas apresentadas no relatório encaminhado ao órgão da ONU, os dados obtidos a partir da pequena amostra de entrevistados em vilarejos de Kashgar foram extrapolados para uma população que totaliza 20 milhões de pessoas, analisa o Grayzone.

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Mulher uigur varrendo fora de sua casa em Kashgar \ Foto: Kevin Frayer/Getty Images

Campos de doutrinação ideológica ou de treinamento profissional?

A agência Reuters aproveitou para publicar em 10 de agosto de 2018, que a ONU diz possuir relatórios confiáveis de que a China mantém 1 milhão de uigures em campos secretos. No entanto, segundo o Grayzone esta notícia é falsa, pois a ONU não fez tal declaração. No documento emitido pelo Comitê da ONU para a Eliminação da Discriminação Racial consta de fato menção a campos de reeducação, mas feita apenas por Gay McDougall, representante norte-americana no Comitê.

O The New York Times e The Washington Post foram ávidos em denunciar a China, e pedir uma ação internacional. Mesmo o Intercept  embarcou nesta onda, com o artigo de Mehdi Hasan, “Um milhão de muçulmanos uigures foram detidos pela China, ONU afirma. Onde está a indignação mundial?”.

Com base nestes dados, o governo norte-americano acusou a China de “detenção arbitrária de 800 mil a possivelmente 2 milhões de uigures, cazaques e outros muçulmanos em campos de internação, para apagar suas identidades religiosas e étnicas”.

Ainda segundo o Grayzone, o governo chinês rejeitou as alegações dos Estados Unidos, embora reconheça que de fato estabeleceu “centros de educação e de treinamento vocacional”, para prevenir a difusão do terrorismo e do extremismo religioso. O propósito seria o de “capacitar profissionalmente um pequeno número de pessoas afetadas pela ideologia extremista, de forma que estas possam se reintegrar na sociedade”.

O “segundo estudo” que proclama que a China deteve milhões de uigures se baseou em relatos de autoria do alemão Adrian Zenz, um fundamentalista cristão de extrema direita. Zenz, que se apresenta como um pesquisador independente, é conhecido por suas posições contra o homossexualismo, igualdade de gêneros, e a favor de castigos corporais em crianças, tudo com base no cristianismo.

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Adrian Zenz, apresentado como pesquisador independente no noticiário do Democracy Now!

Este “especialista em Xinjiang”, adepto do “evangelismo do fim dos tempos”, se considera enviado de Deus em uma cruzada contra a China, como declarou em entrevista recente ao The Wall Street Journal.

Segundo o Grayzone, Zenz é um membro senior da Fundação Memorial para as Vítimas do Comunismo, organização estabelecida nos Estados Unidos em 1983, e com vinculações a pessoas e entidades simpatizantes de neonazistas, fascistas e extremistas antissemitas. A Fundação também atua contra o governo da Venezuela.

Em 2018, Adrian Zenz estimou “em mais de um milhão, o número de internos nos campos de reeducação em Xinjiang”. O Grayzone revela que estes dados se basearam em um relato da TV Istiqlal, sediada na Turquia, e ligada a exilados uigures. A emissora promove a causa separatista da região de Xinjiang para formar o Turquistão Oriental.

Relata ainda o Grayzone que o Movimento Islâmico do Turquistão Oriental tem laços com a al-Qaeda, e foi declarado como sendo uma organização terrorista pelos Estados Unidos, União Européia, e Conselho de Segurança da ONU. Segundo a agência noticiosa Associated Press, desde 2013 milhares de uigures se juntaram ao Partido Islâmico do Turquistão, para lutar ao lado da al-Qaeda na Síria, e algumas centenas aderiram ao Estado Islâmico. 

Posteriormente, em 2019, Zenz inflou para 1,5 milhão o número de detidos em Xinjiang pertencentes a minorias étnicas muçulmanas. Ao Der Spiegel, ele declarou que a prática do islamismo foi efetivamente banida de Xinjiang pela China. Zenz passou a ser o especialista em Xinjiang a quem a mídia Ocidental recorre quando necessita de relatos acusatórios contra a China. Aí se incluem veículos de informação como o New York TimesWashington Post e CNN.

Outro artigo do The Grayzone revela que a entidade conhecida como Congresso Mundial Uigur (WUC, na sigla em inglês), que se proclama como uma organização engajada em “um movimento pacífico, não violento e democrático em prol dos direitos humanos”, está na verdade focada na desestabilização da China, e na queda do sistema comunista. Assim como a Rede Chinesa de Defensores de Direitos Humanos, o WUC também recebe financiamento norte-americano através da National Endowment for Democracy. O WUC está sediado em Munique, com presença em 18 países.

Movimento de direitos humanos ou separatista

O Congresso Mundial Uigur considera que os muçulmanos da etnia Uigur são membros de uma nação pan-turca, que se estende da Ásia Central à Turquia. O patriarca do movimento separatista de Xinjiang foi Isa Yusuf Alptekin, que se exilou em 1949 na Turquia, com a vitória dos comunistas na Revolução Chinesa. Alptekin defendeu a intervenção norte-americana no Vietname, e pedia ao então presidente norte-americano Richard Nixon que apoiasse os nacionalistas do Turquistão Oriental, como forma de apressar o desmembramento da China.

O velho Alptekin em 1966
Isa Alptekin (segurando um livro) lidera manifestação pelo separatismo de Xinjiang, 1966. Na faixa: “Comunismo é o inimigo do Islã”. Foto: Reprodução

Seu filho, Erkin Alptekin, fundou o WUC em 2004 e se manteve fiel ao objetivo do pai de “provocar a queda da China, da mesma forma como a União Soviética se desmantelara alguns anos antes”. Dolkun Isa, atual presidente do WUC, faz lobby constante em Washington pela aplicação de sanções econômicas contra a China.

O WUC tem vínculos próximos com o Dalai Lama, também financiado pelos Estados Unidos através da CIA, relata o Grayzone. Cabe notar que as províncias de Xinjiang e do Tibet são vizinhas.

O WUC também mantém ligações estreitas com movimentos de direita etno-nacionalistas.  A organização estabeleceu vínculos com o grupo turco Grey Wolves (Lobos Cinzentos), engajado em violência sectária na Síria e Leste da Ásia. O atentado sofrido pelo Papa João Paulo II, em 1981, foi perpetrado por um membro dos Lobos Cinzentos.

Militantes dos Lobos Cinzentos estiveram envolvidos no atentado a bomba em um local religioso na Tailândia, que resultou na morte de 20 pessoas. Segundo a polícia tailandesa militantes uigures também estiveram envolvidos no ataque, que foi uma retaliação à repatriação de um grupo vindo de Xinjiang, que fora impedido de se juntar a combatentes do Estado Islâmico e da al-Qaeda no Iraque e na Síria1.

“Líderes do WUC‘a pacífica organização de direitos humanos’ apoiada por Washington, proclamaram que centenas de milhares de uigures de Xinjiang estariam dispostos a se alistar no exército turco para invadir o norte da Síria, se o presidente turco Recep Erdogan assim o determinasse”, revelou Grayzone.  

jihadistas chineses

Independentemente da questão dos uigures, a deterioração das relações sino-americanas cresceu no governo Trump. Artigo de dezembro de 2019 no New York Times, “A nova Guerra Fria? É com a China e já começou”ressalta que 2019 foi o ano que pode ficar na História como o início da Segunda Guerra Fria, e não 2014, quando a Rússia mandou tropas para a Ucrânia.

Além da situação em Xinjiang, o artigo levanta principalmente a questão da guerra tecnológica com a empresa Huawei, pela dominação global da tecnologia 5G nas telecomunicações, e a questão cambial, decorrente da desvalorização do Yuan frente ao dólar.

Surge então a crise do coronavírus em dezembro de 2019, que se tornou uma pandemia mundial em 2020. Em ano eleitoral, Trump procura culpar a China por suas próprias falhas em lidar com a pandemia, e ameaça com retaliações, inclusive cobrar uma  indenização bilionária dos chineses.

Nesta nova Guerra Fria, a China também tem trunfos a que poderá recorrer, como será visto em um próximo artigo. Agora é esperar por novos movimentos das peças, neste xadrez da geopolítica entre as duas principais potências econômicas.

Notas do autor:

1. Cerca de 5.000 uigures estiveram lutando na Síria, segundo o site SOFREP, formado por jornalistas norte-americanos, ex-veteranos de guerra. A estes jihadistas vinculados ao Partido Islâmico do Turquistão é atribuído o atentado com armas químicas em Lakatia, na Síria, uma tentativa de culpar o presidente Bashar al Assad, como noticiado anteriormente pelo blogue Chacolhando.

2. O atual artigo não deve ser interpretado como uma defesa incondicional do sistema político que vigora na China, e de sua política de direitos humanos. 

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Revisitando e Questionando o Genocídio de Srebrenica

Por Ruben Rosenthal

O consenso oficial que o Genocídio de Srebrenica em 1995 ocorreu por falha da ONU abriu o caminho para a intervenção da OTAN em 1999 contra a Iugoslávia, sob o pretexto humanitário da guerra no Kosovo. O precedente possibilitou outras intervenções pela OTAN sem autorização do Conselho de Segurança. Mas ocorreu mesmo um genocídio em Srebrenica?

A Bosnian Muslim woman, survivor of Sreb

Memorial em Serebrenica   /  Foto E. Barukcic

AFP/Getty Images

 

Este é o primeiro artigo no blogue Chacoalhando da série “Revisitando a Fragmentação da Iugoslávia”. Os conflitos que dominaram esta região dos Balcãs trouxeram consequências que extrapolaram a própria Europa. A mídia ocultou ou distorceu diversos fatos da tragédia, dos quais as novas gerações precisam estar conscientes e atentas, pois após os bombardeios de 1999 pela OTAN, a história se repetiu várias vezes como farsa, como já alertara Karl Marx. 

No dia 11 deste mês de julho, o massacre ocorrido em Srebrenica, na Bósnia, completa 24 anos, quando teriam sido mortos  8.374 muçulmanos bósnios, executados por militares sérvios naturais da própria Bósnia1. A cidade tinha o status, concedido pela ONU, de “área segura”, e portando deveria ser considerada como um santuário, protegida de conflitos. O massacre ficou conhecido o Genocídio de Srebrenica, o primeiro a ocorrer em solo europeu após o Holocausto, de acordo com o “consenso oficial” que prevaleceu, desde então, no Ocidente.

Este consenso, juntamente com os massacres em Ruanda, serviu como pedra angular da ideologia intervencionista do Ocidente, em que as tropas da OTAN passaram a se antecipar ou mesmo a prescindir de decisões da ONU, para bombardear e invadir outras nações, de acordo com interesses geopolíticos. Esta licença para arrasar outros países começou em 1999, com os terríveis bombardeios da Sérvia pela OTAN. Nesta ocasião estavam no poder, na Europa Ocidental, vários partidos de centro-esquerda, o PS de Jospin, na França, o Partido Trabalhista, de Tony Blair,  no Reino Unido, e a Social-Democracia, com Schroeder, na Alemanha. E nos Estados Unidos, os Democratas, com o liberal Clinton. É sempre bom se ter em mente, que em política externa, muitas vezes a centro-esquerda e os liberais são mais “falcões” que os conservadores de direita.  

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Mapa da Ex-República Socialista Federativa da Iuguslávia 

 

Um pouco de história ajuda a entender a origem dos conflitos que dominaram aquela região dos Balcãs durante a década de 90. Em 1918 foi criado o Reino de Sérvios, Croatas e Eslovenos, que mudou de nome para Reino da Iugoslávia em 1929. Com o término da segunda guerra mundial, em sucessão ao Reino da Iugoslávia, foi estabelecida a República Socialista Federativa da Iugoslávia, consistindo de seis repúblicas, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Montenegro, Macedonia, Slovênia e Sérvia, da qual faziam parte duas províncias autônomas, Kosovo e Vojvodina, criadas pela Constituição de 1974.

Até a morte do Marechal Tito, a federação se manteve unida. O status de herói da Segunda Guerra Mundial, o respeito internacional à neutralidade do país em relação ao Ocidente e à União Soviética, sua liderança no Movimento dos Países Não Alinhados, concediam a Tito um prestígio incontestável, apesar de ter governado de forma autocrática. Um sistema de rodízio entre as nacionalidades, para o cargo de primeiro-ministro do país, ajudava a manter a unidade.  Com a morte de Tito em 1980, o delicado equilíbrio ruiu.

A evolução das rivalidades com o crescimento dos nacionalismos regionais, culminando com a deflagração dos conflitos que envolveram diversas nacionalidades, será abordado a seguir de forma resumida. Já década de 80 surgiram tensões étnicas no Kosovo. Com a queda do muro de Berlin em 1989, o desmantelamento do Pacto de Varsóvia em 1991, e da própria União Soviética em dezembro do mesmo ano, as políticas centralizadores de Slobodan Milosevic, que ocupava a presidência da Sérvia (1989-1997), começaram a ser contestadas por líderes de outras repúblicas da federação.

Em junho de 1991, Eslovênia e Croácia tornaram-se as primeiras repúblicas a declararem sua independência, logo seguindo-se a Macedônia. A nova situação tinha o potencial de causar conflitos, porque a identidade sérvia estava bastante dividida geograficamente por várias repúblicas da federação, como a Bósnia, Croácia, Macedônia, Montenegro, além é claro, da própria Sérvia. 

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Mapa da República  SRPSKA

 

Em outubro de 1991, a Assembléia da Bosnia e Herzegovina, com a oposição dos deputados de origem sérvia, aprovou um Memorando de Soberania, para abrir caminho para a proclamação da independência, que veio a ser efetivada em março de 1992. Em fevereiro de 1992 as seis regiões autônomas sérvias da Bósnia proclamaram a secessão, formando a República Srpska, que deveria também incluir as regiões em que os sérvios se tornaram minoria devido à perseguições durante a Segunda Guerra Mundial.

Estavam colocadas as condições para os conflitos bélicos, que se generalizaram no início da década de 90. Neste contexto se inseriu a luta por Srebrenica, que se tornara um enclave muçulmano em maio de 1992, com a fuga dos sérvios locais, seguindo-se a morte de um proeminente juiz sérvio1. No processo de assumirem o controle de Srebrenica, tropas sérvias naturais da República Srpska executaram, em 11 de julho de 1995, um grande número de prisioneiros muçulmanos bósnios, o que ficou registrado para a história como o Massacre ou Genocídio de Srebrenica.

No entanto, esta narrativa oficial da ocorrência de um genocídio encontra contestadores. Diana Johnstone1, 85, aceita e se orgulha de ser considerada uma “negacionista do genocídio” em Srebrenica, pecha que lhe é atribuída (e a outros) com intuito pejorativo, por defensores do consenso oficial2. Pensam como ela diversos intelectuais, acadêmicos, jornalistas e advogados de defesa internacionais3. A seguir são apresentados trechos de uma entrevista anteriormente concedida por Johnstone à Ann Garrison, jornalista independente, e publicada na revista CounterPunch.

A autora aceita que ocorreu de fato um massacre de prisioneiros, consistindo, portanto, em crime de guerra, cuja dimensão ela questiona, mas insiste que não se trata de genocídio. Ela revela ceticismo sobre as repetidas citações de que ocorreram mais de 8.000 mortos no massacre, assim como outros negacionistas4, e salienta que a questão relevante não é o número exato de corpos, mas como isto foi e ainda é explorado. Johnstone considera que, quando mulheres e crianças são poupadas, e as vítimas são todas do sexo masculino, com idade de servir ao exército, a definição de genocídio não se aplica.

Massacres de homens e jovens em idade militar acontecem nas guerras, acrescenta ela. E aconteceu dos dois lados. Havia uma guerra, e não foram apenas sérvios matando muçulmanos. Muçulmanos também mataram sérvios durante a guerra civil5. Salienta ainda que os sérvios eram, inclusive, aliados do popular líder muçulmano secular do oeste da Bósnia, Fikret Abdic (sugerindo, com isto, que não havia uma questão de supremacia étnica ou religiosa como motivação para o massacre).

A autora considera que o Tribunal Internacional de Crimes para a Ex-Iugoslávia foi estabelecido pelas potências ocidentais para culpar os sérvios por genocídio, e isto foi conseguido através de uma explicação sociológica esdrúxula. Como os muçulmanos bósnios possuem uma sociedade patriarcal, eliminar os homens equivaleria a uma espécie de genocídio para toda aquela cidade (ou comunidade).

Johnstone avalia, na entrevista, que os sérvios foram alvos da administração Clinton, por que esta tinha uma política de aliança com os muçulmanos ao redor do mundo, como parte de uma estratégia contra a Rússia, que retrocede ao apoio dado pela administração Carter aos Mujahadeen, no Afeganistão. A base da estratégia era (e talvez ainda seja nos tempos atuais) explorar a vulnerabilidade do “Império Russo”, por este ser constituído, em parte, por províncias de população muçulmana majoritária. Este era um trunfo a ser usado contra o núcleo russo, cristão ortodoxo (com o objetivo de desmembrar o país, como ocorrera com a extinta União Soviética). Como a Sérvia, também cristã ortodoxa, era vista como potencial aliada regional da Rússia, ela passou a ser alvo dos EUA.

A autora considera que não fazia parte da estratégia de Washington combater o radicalismo muçulmano pelo mundo, e sim, os muçulmanos seculares, não radicais. Na Bósnia, a aliança foi com Alija Izetbegovic, o mais radical dentre os islamitas de lá, e que defendia que nações com maiorias muçulmanas fossem governadas pela lei islâmica6. Os EUA também agiram assim contra Gaddafi, que era inimigo dos muçulmanos extremistas, e com Saddam Hussein, que governava uma sociedade secular, e era odiado pelos extremistas islâmicos. Desta forma, com a intervenção norte-americana, estes governantes foram derrubados, possibilitando o avanço dos extremistas sobre a Líbia e Iraque. O mesmo quase aconteceu (recentemente) com a Síria, de Assad.

Ainda segundo Johnstone, a aceitação como consenso oficial, de que ocorreu um genocídio em Srebrenica trouxe sérias conseqüências, juntamente com os massacres em Ruanda, que não se limitaram ao pretexto para justificar futuras intervenções militares pela OTAN. A ampla aceitação de que ocorrera um genocídio de milhares de muçulmanos deu margem a uma inesperada interpretação pelos radicais islâmicos: se o Ocidente foi complacente, em algum momento, com o genocídio de muçulmanos, então ele também é culpado das mortes ocorridas, e por isto deve ser combatido.

Esta justificativa tem sido atualmente usada para recrutar jovens no Oriente Médio para a luta dos extremistas islâmicos contra o Ocidente, abastecendo com militantes os grupos radicais, como o ISIS7. Assim, a estratégia do Ocidente de que teria os muçulmanos como aliados, por ter apoiado lideranças extremistas, teve o efeito inverso, acrescenta Johnstone, porque ficaram enfraquecidos os líderes seculares, e isto com a ajuda do grande aliado saudita, que é um estado muçulmano extremista.

Diana Johnstone comenta que uma história que circulou muito, fora da mídia oficial, foi que o massacre de Srebrenica fez parte de uma tática de Izetbegovic, para fazer os sérvios cometerem uma matança, que, por sua gravidade, fosse considerada inaceitável pelo Ocidente. O líder bósnio teria escutado diretamente de Bill Clinton que, caso ocorresse em um massacre, a morte de pelo menos 5.000 muçulmanos, os EUA e a Nato iriam intervir diretamente a favor dos muçulmanos.

Johnstone não acusa Clinton de deliberadamente ter induzido Izetbegovic a preparar uma armadilha para os sérvios. Ela acredita que o líder bósnio, cuja estratégia incluía retratar os bósnios como vítimas indefesas, provavelmente tenha dado sua interpretação pessoal à fala de Clinton. Ele então ordenou a retirada do comandante de Srebrenica, o que levou os soldados bósnios, mesmo em maioria, a bater em retirada frente aos atacantes sérvios. Em um contexto da ocorrência anterior de 1.000 a 3.000 mortes de sérvios nas vilas da região, incluindo mulheres e crianças, o cenário estava então colocado para uma vingança por parte dos sérvios. Com isto foi aberta a porta para a entrada em cena das tropas da OTAN, neste e em outros conflitos, mesmo fora da Europa.

Comentários indexados ao texto:

1. Diana Johnstone, no livro de sua autoria “Fool’s Crusade: Yugoslavia, NATO, and Western Delusions”. A escritora norte-americana radicada em Paris, é autora ainda dos livros  “The Politics of Euromissiles: Europe’s Role in America’s World” e  “Queen of Chaos: The Misadventures of Hillary Clinton”.

2. Em artigo de julho de 2019 no Haaretz de Israel, o escritor, cineasta e jornalista de conflitos, Oz Katerji critica intelectuais de esquerda, acadêmicos, jornalistas e blogueiros, que, “com suas teorias conspiratórias anti-imperialistas, transitam na negação de genocídios, de Srebrenica a Síria”. Ele se refere nominalmente, dentre outros, ao jornalista Glenn Greenwald, do Intercept, e aos autores Edward Herman e David Peterson, pelo livro The Politics of Genocide, a Noam Chomski, pelo prefácio no livro, e ao documentarista australiano John Pilger, por ter endossado o livro. 

Katerji considera ainda, que com a condenação de Ratko Mladic, ex-comandante militar da República Srpska, à prisão perpétua por crimes de guerra, em novembro de 2017, com “provas conclusivas, os ‘negacionistas’ deveriam se redimir, mas estão agora empenhados em negar os crimes de guerra de Assad”.

3. Para análises mais abrangentes sobre o tema da guerra civil na antiga Iuguslávia, recomenda-se além do livro já citado de Diana Johnstone, também publicações de autoria Edward Herman. O livro The Politics of Genocide, por Edward Herman e David Peterson, mostra como o termo genocídio vem sendo aplicado com intenções políticas, de forma tendenciosa, em diversas situações internacionais. O livro está disponível, gratuitamente, através do linque indicado.

Um jornalista que não surfa na onda da mídia ocidental é o documentarista australiano John Pilger. Ele denunciou  a falta de cobertura pela mídia ocidental, de que o falecido presidente da Iuguslávia (de 1997 a 2000), Slobodan Milosevic, foi inocentado em 2016 pelo Tribunal Penal Internacional para a Ex-Iugoslávia, em Haia, de todas as acusações levantadas contra ele de envolvimento em crimes de guerra durante a guerra Bósnia (1992-1995), inclusive do massacre de Srebrenica. Ainda segundo Pilger, o veredicto do Tribunal demole a propaganda que justificou o violento e ilegal ataque pela OTAN na Sérvia, em 1999, durante a guerra do Kosovo.

4. Em entrevista publicada no Global Research, Edward Herman avalia que o número de mortos por execução no massacre de julho de 1995 seja inferior a 1.000, e que muitos dos 2.500 corpos encontrados em túmulos seriam relativos a soldados mortos em combate. Outros milhares que estavam desaparecidos, e constavam como mortos no massacre, já teriam sido localizados. Por outro lado, Herman ressalta uma estimativa que mais de 150 vilas de sérvios foram completamente riscadas do mapa, no período entre 1992 e julho de 1995, com registro de 2.383 civis mortos.

5. O General Philippe Morillon, comandante militar da ONU na Bósnia em 1992 e 1993, testemunhou perante o Tribunal Penal sua convicção de que o ataque a Srebrenica foi uma reação direta aos massacres de sérvios cometidos pelo comandante do exército da República da Bósnia e Herzegovina, em Srebrenica, Nasir Oric e de suas tropas. No entanto, o Tribunal não aceitou o depoimento de Morillon, e considerou  que não havia evidências de elevadas mortes de civis nos ataques a vilas sérvias no teatro de operações.

6. Artigo no jornal português Público revela que Osama Bin Laden tinha um passaporte da Bósnia e Herzegovina, incluindo a cidadania, concedida por ordens de Izetbegovic. O jornal relata ainda que Bin Laden e seus combatentes cometeram crimes terríveis, como decapitações de prisioneiros sérvios, usando as cabeças como bolas de futebol.

7. Segundo um membro fundador da Al-Qaeda, que tornou-se espião para os serviços de inteligência britânicos, “a Bósnia deu ao movimento jihadista moderno a narrativa de que há uma guerra entre o Ocidente e o Islã”. 

Zenica-1995-El-Mujahedin-Brigade

Batalhão Mujahadeen na Bósnia

 

Comentários adicionais:

1. O autor do artigo do Haaretz, Oz Katerji, cometeu uma omissão por não mencionar a absolvição tardia de Slobodan Milosevic de todos os crimes que haviam sido imputados a ele. Ainda na tentativa de fortalecer suas críticas aos “negacionistas de genocídios”, Katerji citou o caso das acusações de crimes de guerra (pelo uso de armas químicas) por Assad, na Síria. No entanto, o autor comete outra omissão, ao desconsiderar completamente o relatório da OPAQ vazado recentementeque revelou a farsa da manipulação de evidências com o intuito de incriminar Assad, em pelo menos um dos supostos casos de emprego de armas químicas na Síria.

2. Em seu livro Fool’s Crusade: Yugoslavia, NATO, and Western Delusions, Diana Johnstone considera que era uma fraude o conceito de “área segura”, que vigorava então para diversas regiões no palco de operações do conflito. As regiões deveriam estar livre de armamentos, mas não estavam, e isto “com a conivência da ONU”. Acrescenta ainda a autora, que estes santuários foram utilizados por tropas muçulmanas para lançar ataques contra vilas sérvias na bósnia nos três anos que antecederam o massacre de Srebrenica, causando bem mais que 1.000 mortes de civis.

3. As condenações à prisão perpétua pelo Tribunal Penal, do ex-comandante Mladic e do líder sérvio na Bósnia, Radovan Karadzic, foram fortemente baseadas nas “evidências” de ter ocorrido o Genocídio de Srebrenica, com mais de 8.000 execuções, como ressalta Johnstone em seu livro sobre o conflito.

O fato do número de execuções ter sido bem inferior ao que foi aceito pelo consenso, se aceita a versão dos “negacionistas”, e das mortes de prisioneiros terem se dado no contexto do clima tenso que se seguiu à matança de mais de mil civis sérvios nas vilas próximas, não isenta a ambos de responsabilidade pelas execuções. No entanto, estas considerações não foram levadas em conta pelo Tribunal, como possíveis atenuantes nas penalidades impostas, em face de ter prevalecido o “consenso oficial”. Entretanto, para boa parte dos sérvios, Mladic é considerado um herói.

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Homenagem ao ex-comandante Mladic 

 

4. Segundo Edward Hermanainda dentro do primeiro mês das mortes em Srebrenica, com as notícias do massacre/genocídio dominando na mídia ocidental, as autoridades da Croácia promoveram uma devastadora “limpeza étnica” de sérvios e muçulmanos no oeste da Bósnia, e a remoção de centenas de milhares de sérvios da região de Krajina, na Croácia, com aprovação e logística dos EUA. Estas operações, em que o número de mortos deve ter chegado a milhares, incluindo mulheres e crianças, não foram praticamente noticiadas na mídia.

5. A série “Revisitando os Conflitos e a Fragmentação da Iugoslávia” terá continuidade no blogue Chacoalhando ao longo do mês de julho.