Tio Sam financia rappers na guerra híbrida contra Cuba

Por Ruben Rosenthal

Agentes financiados pelos EUA associados ao Movimento San Isidro defendiam a intervenção em Cuba meses antes das mídias sociais começarem a criticar o governo cubano de forma massiva.

Patria o CIA
Pátria ou CIA: Músicos do rap Patria Y Vida, Foto editada pelo The Grayzone \ Foto original: Yotuel Romero/Instagram

As cenas de um carro de polícia virado por manifestantes ocorridas no município de 10 de Outubro e coquetéis molotov atirados na polícia, ilustram bem o que foram as amplas manifestações de rua ocorridas em 11 de julho em Cuba (ver vídeo).

Segundo relato da BBC News Mundo, os protestos se iniciaram na cidade de San Antonio de los Baños, sudoeste de Havana, e de lá se espalharam por cerca de 20 vilarejos e cidades de todo o país. O artigo chama atenção para a questão do agravamento da situação econômica na ilha e do aumento das mortes por Covid-19.

Mas os veículos de mídia do Ocidente não mencionam o papel subversivo desempenhado pelos EUA, ao incentivar e financiar a dissidência política de artistas e rappers cubanos, reunidos principalmente no Movimento San Isidro. O rap anticomunista “Patria y Vida” se tornou o hino dos protestos, segundo a revista Rolling Stone.

O slogan do Movimento San Isidro é uma corruptela do lema “Patria o Muerte”, que Fidel Castro usou pela primeira vez no memorial aos trabalhadores das docas de Havana, mortos em 1960 em atentado da CIA.

Os EUA e a estratégia da guerra híbrida

Os EUA sabem tirar proveito dos sentimentos nacionalistas de minorias, e das situações de desavenças internas em países que atravessam uma crise econômica, para então lançarem mão de seu arsenal de táticas de guerra híbrida.

Foi assim, ao incentivarem os movimentos separatistas da etnia Uigur, na China, e dos Tártaros, na Rússia. Bem como ao fomentarem, com sucesso, o afastamento de Dilma Roussef e do PT do poder no Brasil, e das tentativas ainda não materializadas, de promoverem a mudança de regime na Bielorrússia, de Lukashenko, e em Cuba, que busca seu caminho ao socialismo.

É evidente que a estratégia norte-americana precisa encontrar um campo fértil para prosperar. No caso de Cuba, as condições econômicas e políticas estavam postas, até mesmo porque o Departamento de Estado norte-americano deu a sua contribuição para tanto.

Crise econômica

A historiadora brasileira Helena Salém mostra como a precária situação econômica atual, que fermentou a discórdia em Cuba, foi o resultado de três fatores principais: a pandemia da Covid-19, paralisando o turismo e reduzindo o PIB em 11%; o boicote norte-americano, agravado ainda mais com a suspensão por Trump do envio de divisas à ilha pelos familiares residentes nos EUA; e a reforma monetária e cambial promovida pelo governo cubano.

Conforme Salém relata, a reforma denominada de Tarea Ordenamiento eliminou o chamado dólar cubano, tornando o peso cubano a única moeda nacional; foi também criada uma moeda transitória na forma de um cartão, a Moneda Libremente Convertible, com valor de 25 pesos.

Ao mesmo tempo, foram eliminados subsídios a itens de consumo diário, aumentadas as tarifas, e os salários foram quintuplicados. No entanto, as medidas resultaram em descontrole financeiro que afetou negativamente o poder de compra dos cubanos de produtos básicos. A insatisfação da população foi inevitável.

Crise política

Em meio às sérias dificuldades econômicas por que vem passando, o povo cubano sente que suas demandas e insatisfações não são escutadas pelo governo, avalia Salém. Segundo a historiadora, “existe um engessamento ou quebra dos canais de poder popular nas estruturas políticas do socialismo cubano”. Assim, restou aos cubanos expressarem nas ruas sua raiva com o governo. Para os cubanos de esquerda, o governo precisa criar novos mecanismos de decisão e de poder popular, complementa ela.

Anti-government protesters gather at the Maximo Gomez monument in Havana, Cuba, Sunday, July 11, 2021. Hundreds of demonstrators took to the streets in several cities in Cuba to protest against ongoing food shortages and high prices of foodstuffs. © Eliana Aponte/AP
Manifestantes contra o governo cubano reunidos no monumento Maximo Gomez, em Havana, Cuba, 11 de julho de 2021 \ Foto: Eliana Aponte/AP

No entanto, os protestos de julho foram fomentados através de ações de entidades norte-americanas tradicionalmente envolvidas na desestabilização política de governos que não seguem a cartilha de Washington. O imperialismo norte-americano procurará canalizar ainda mais o sentimento que resultou na revolta que se espalhou pela ilha em 11 de julho, para acirrar a crise política visando a mudança de regime.

Os principais setores dos EUA que financiam e incentivam as ações de desestabilização em outros países são em geral os mesmos. A USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) e a NED (Fundação Nacional para Democracia). Um das entidades que recebe financiamento da NED é a Atlas Network, que atuou na desestabilização do governo Roussef no Brasil, através de sua cria, o MBL de Kim Kataguiri “et caterva“.

Contrarrevolução em Cuba: EUA financiam a dissidência cultural e artística

Conforme relatado pelo jornalista Max Blumenthal no The Grayzone (em espanhol, em inglês), na última década os EUA utilizaram milhões de dólares para seduzir rappers, músicos, artistas e jornalistas cubanos. O relato que se segue contém extratos do extenso e detalhado artigo de Blumenthal.

Em 2009, um artigo no Journal of Democracy, órgão noticioso da NED, esboçou um plano ambicioso para unir e mobilizar contra “o regime altamente repressivo” de Cuba, os despossuídos, os jovens desempregados, os que ficaram à margem do sistema, atraídos para as drogas, crime e prostituição.

A estratégia recomendada pelos autores do artigo, Carl Gershman e Orlando Gutierrez-Boronat, era que estes grupos não cooperassem com as instituições cubanas. Gershman é fundador e diretor da NED, enquanto Boronat – cubano de nascimento – é secretário geral da USAID, e fervoroso defensor da invasão de Cuba pelos EUA. Boronat foi recebido por Jair Bolsonaro, poucos dias antes da posse deste na presidência do Brasil.

No mesmo ano em que o influente artigo de Gershman e Gutierrez foi publicado, Washington adotou uma audaciosa operação secreta baseada na estratégia sugerida. A USAID iniciou um programa para desencadear um movimento de jovens contra o governo de Cuba, cultivando e promovendo artistas locais de hip-hop.

Devido à sua longa história como uma frente da CIA, a USAID terceirizou a operação para a Creative Associates International, uma empresa com sede em Washington DC, com seu próprio histórico de ações secretas. A empresa enviou a Cuba o sérvio Rajko Bozic, que pertencera ao grupo Otpor! (resistência, em croata), apoiado pela CIA. O grupo ajudara a afastar do poder o líder nacionalista da Sérvia, Slobodan Milosevic.

Posando como um promotor musical, Bozic se aproximou de um grupo de rap cubano chamado Los Aldeanos, que era conhecido por seu hino anti-governo, “Rap is War” (Rap é Guerra). O agente sérvio não revelou que trabalhava para a CIA, alegando ser um profissional de marketing. A inteligência cubana descobriu contratos ligando Bozic à USAID, e expôs a operação.

Conforme publicado no insuspeito jornal britânico Daily Mail, em 2014, a USAID foi novamente exposta por um vazamento que revelou que a agência contratara a Creative Associates para organizar uma série de falsas oficinas de prevenção do HIV, que se tratavam, na verdade, de seminários de recrutamento político.

Na mesma época, o então presidente Barack Obama apresentou seu plano para normalizar as relações com o governo de Cuba, condicionado a que Cuba ampliasse o acesso à internet. Talvez um dia o ex-presidente revele se foi uma armadilha arquitetada para abrir as portas para a interferência norte-americana na ilha, o “cavalo de Tróia” digital.

Expansão da Internet abre as portas para infiltração dos EUA

A rede de internet 3G chegou a Cuba em 2018, permitindo que jovens cubanos acessassem mídias sociais como Facebook e YouTube em seus telefones celulares. A NED e a USAID exploraram a abertura para construir um potente aparato de mídia on-line anti-governo. Novos veículos de viés tóxico, como CubaNet, Cibercuba e ADN Cuba, propagaram acusações ao regime, bem como ofensas ao presidente cubano, Miguel Diaz-Canel.

Para Ted Henken, um acadêmico dos EUA e autor de “A Revolução Digital de Cuba”, os líderes cubanos calcularam mal, não percebendo que [o acesso expandido à internet] rapidamente se voltaria contra eles.

Ainda em 2018, a NED destinou cerca de US$ 500.000 para o recrutamento e treinamento de jornalistas antigoverno, e para estabelecer novos meios de comunicação. Outra subvenção da NED encaminhou fundos para “promover a inclusão de populações marginalizadas na sociedade cubana e fortalecer uma rede de parceiros na ilha”, implicando que seria direcionada aos afro-cubanos.

A NED deu muita ênfase à infiltração na cena hip-hop de Cuba. Também em 2018, a Cuban Soul Foundation recebeu US$ 80.000 para “capacitar artistas independentes a produzir, executar e expor seus trabalhos em eventos comunitários sem censura”. Uma ONG com sede na Colômbia, chamada Fundación Cartel Urbano, recebeu US$ 70.000 para “capacitar artistas cubanos de hip-hop como líderes na sociedade”.

A propaganda antigoverno e a infiltração dos EUA no cenário cultural de Cuba que acompanhou a expansão da internet, provocaram uma forte reação da liderança do país. O governo se deu conta, tardiamente, que nunca deveria ter confiado em Obama, avalia a jornalista cubana Cristina Escobar, conforme relato no The Grayzone.

Poucas horas depois de tomar posse, em abril de 2018, Diaz-Canel propôs o Decreto 349. A nova medida passou a exigir que todos os artistas, músicos e artistas obtenham aprovação prévia do Ministério da Cultura antes de divulgar seus trabalhos.

Rapidamente, um coletivo de artistas e músicos se mobilizou para protestar contra o decreto. O grupo adotou o nome de Movimento San Isidro, nome do bairro de Havana Velha onde vivem vários de seus membros. O novo movimento se apresentou diretamente aos influenciadores culturais do Norte Global como um coletivo diversificado de criadores visuais e rappers independentes, lutando por liberdade artística.

A NED e a USAID continuaram a aprofundar a influência norte-americana em Cuba. A ONG Instituto para Relatos de Guerra e Paz (IWPR, na sigla em inglês), recebeu US$ 145.230 da NED em 2020 para “fortalecer a colaboração entre jornalistas independentes cubanos”, e treiná-los nas mídias sociais.  Entre os beneficiários inclui-se El Estornudo, que também foi financiado pela Open Society, de George Soros, para criticar a resposta do governo cubano à Covid-19.

Outro veículo antigoverno que opera sob os auspícios da IWPR é Tremenda Nota, um site com temática LGBTQ que acusa rotineiramente o governo cubano de homofobia e transfobia, mesmo tendo a administração Diaz-Canel atuado no sentido de legalizar o casamento gay, aberto o exército para soldados gays e iniciado eventos oficiais do orgulho, relata o The Grayzone.

Em 6 de novembro de 2020, um policial apareceu na casa de Denis Solis, um rapper afiliado ao Movimento. Solis usou a câmera do celular para transmitir ao vivo para o Facebook, os insultos antigays que dirigiu ao policial. A sentença de 8 meses de prisão que Solis recebeu por “desacato” gerou a faísca para a greve de fome de novembro de 2020, que levou o San Isidro ao palco global.

Luis Manuel Otero, coordenador do Movimento San Isidro, em atos de desrespeito à bandeira de Cuba
Luis Manuel Otero, coordenador do Movimento San Isidro, em atos de desrespeito à bandeira de Cuba

A greve foi realizada em Havana Velha, na casa do coordenador do Movimento, Luis Manuel Otero Alcántara. Artista afro-cubano, Otero atraiu a ira do governo ao desrespeitar a bandeira cubana, inclusive enrolando-a em torno de seu torso nu, sentado no vaso sanitário. Em outra exibição provocativa, Otero reuniu crianças para correr pelo bairro, agitando uma bandeira americana gigante, o que desencadeou uma resposta policial imediata, e sua própria detenção por 4 dias.

A visita ao local da greve de fome pelo jornalista e reconhecido autor literário cubano, Carlos Manuel Álvarez, ajudou a galvanizar o interesse da mídia internacional. Vindo das fileiras da elite educada de Cuba, Álvarez logo encontrou espaço na seção de opinião do The New York Times, para comercializar San Isidro para um público liberal nos EUA.

greve de fome de membros do Movimento San Isidro
Jornalista Carlos Manuel Álvarez (centro) em solidariedade à greve de fome de Luis Miguel Otero (à direita) e do rapper Maykel Osorbo (à esquerda), novembro de 2020.

Em 7 de novembro de 2020, um grupo de artistas começou um sit-in do lado de fora do Ministério da Cultura. Boa parte deles não era de opositores do governo, e buscavam o diálogo com o ministro. Entretanto, os veículos da mídia ocidental entrevistaram apenas os membros do Movimento San Isidro.

A intensa cobertura alçou o San Isidro ao cenário internacional, ganhando a atenção de artistas e escritores famosos nos EUA e Europa. O Departamento de Estado norte-americano alcançara seu objetivo.

O Movimento aprofundou seus laços com a direita internacional através da fundação CADAL, com base na Argentina, que nomeou o San Isidro para o Prêmio Freemuse de Expressão Artística 2021. A CADAL está no centro de uma rede de organizações libertárias que alavancam o dinheiro corporativo para impulsionar o mercado livre em toda a América Latina. Entre os parceiros mais próximos da CADAL está a Atlas Network, o think tank que também é patrocinado pelo Departamento de Estado dos EUA, através da NED.

Em maio de 2021, depois que Otero foi novamente detido pela segurança cubana, uma carta aberta ao presidente Diaz-Canel, assinada por um elenco de figuras culturais negras e afro-latinas proeminentes, apareceu na New York Review of Books, exigindo sua libertação.

Patria y Vida, o rap favorito do Departamento de Estado dos EUA

Patria y Vida, a primeira canção diretamente associada à mobilização de cubanos para protestar contra o governo, foi gravada em Miami. A canção apresenta três artistas cubanos auto-exilados: Yotuel do grupo de hip-hop Orishas, o duo de reggaeton Gente de Zona e o cantor e compositor Descemer Bueno. Eles foram complementados por dois membros do Movimento San Isidro, os artistas de hip-hop, El Funky e Maykel “Osorbo” Castillo.

The opening image of the video of Patria y Vida
Imagem de abertura do vídeo Patria y Vida

Em 12 de março deste ano, Yotuel e Gente de Zona realizaram uma vídeo-chamada com funcionários do Departamento de Estado, informando-os sobre o sucesso da canção e das demandas do Movimento San Isidro. Ao Parlamento Europeu, Yotuel pediu a “condenação do governo cubano, para que a ilha tenha forças para se rebelar“.

Três meses depois, a USAID emitiu um edital no valor de US$ 2 milhões, para subvenção de organizações da “sociedade civil” que procurassem promover a mudança de regime em Cuba. O documento enfatizou a necessidade de programas que “apoiem populações marginalizadas e vulneráveis, incluindo, mas não se limitando a jovens, mulheres, LGBTQI+, líderes religiosos, artistas, músicos e indivíduos de ascendência afro-cubana”.

11 de julho. Otero emitiu um chamado no Twitter em nome do Movimento San Isidro, para que manifestantes se reunissem no Malecón, litoral da cidade de Havana. As ocorrências iniciais em San Antonio de los Baños podem também ter sido em resposta à convocação de Otero. Os protestos então se espalharam pela ilha.

Joe Biden prometeu adicionar novas e sanções esmagadoras às que haviam sido impostas por Trump. As indicações são de que a administração democrata não retornará ao processo de normalização iniciado por Obama.

O movimento Vidas Negras Importam se posicionou no Instagram com uma declaração de solidariedade com a revolução cubana, recebendo críticas de setores conservadores norte-americanos.

Para o jornalista Max Blumenthal, os protestos de julho em Cuba foram arquitetados na Flórida. Através da hashtag  #SOSCuba, agentes financiados pelos EUA associados ao Movimento San Isidro defendiam a intervenção em Cuba meses antes das mídias sociais começarem a criticar o governo cubano de forma massiva.

A nova liderança cubana, que se seguiu ao período dos irmãos Castro na presidência do país e na secretaria do Partido Comunista Cubano, tem um enorme desafio pela frente, para que a contrarrevolução não seja bem sucedida.

Como salientou a historiadora Helena Salém, o governo precisaria reativar os canais de poder popular nas estruturas políticas, através de novos mecanismos de decisão. Ou seja, aprofundar a revolução socialista, ampliando a democracia popular.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Hong Kong: Washington financia os protestos contra a China

A nova lei de segurança nacional de Hong Kong foi aprovada na sequência a protestos separatistas financiados pelos Estados Unidos e à escalada da violência alimentada por grupos de neonazistas ucranianos.

butijão de gás
Artefato explosivo caseiro encontrado junto à entrada da Universidade Politécnica de Hong Kong, novembro 2019 \ Foto: Aidan Marzo/CNN

As manifestações de rua que ocorreram em Hong Kong na última semana de maio se inserem no que a mídia denominou de protestos “pró-democracia”, e que vêm ocorrendo esporadicamente há praticamente duas décadas na ex-colônia britânica. No entanto, lideranças do movimento vêm atuando em defesa de interesses econômicos e geopolíticos dos Estados Unidos, que financiam uma rede anti-China. Neonazistas ucranianos se juntaram aos manifestantes, o que pode fazer antever a escalada da violência. Com o acirramento da crise, a autonomia dos honcongueses poderá ficar comprometida, antes mesmo do término do prazo de 50 anos que fora garantido pelo acordo entre China e Reino Unido. 

Colônia por 145 anos. Hong Kong se tornou uma colônia britânica em 1842, quando a China foi obrigada, pelo Tratado Nanjing, a ceder o território que fora ocupado durante a Primeira Guerra do Ópio. A guerra foi o resultado da tentativa do imperador chinês de impedir o comércio ilegal do ópio da Inglaterra para a China, que estava causando imenso vício na população do país. Nos anos seguintes, a Inglaterra promoveu ainda a anexação dos Novos Territórios e da península de Kowloon, de forma a garantir o abastecimento agrícola da colônia.

Mapa da Convenção de Hong Kong
Mapa da Convenção para a Extensão do Território de Hong Kong, 1898

O tratado final entre os dois países, a Convenção para a Extensão do Território de Hong Kong, foi assinado em 1898, concedendo o arrendamento dos Novos Territórios por 99 anos, expirando, portanto, em julho de 1997. A China sofrera imensa humilhação, mas soube esperar. Neste intervalo de tempo a China continental passou pela revolução comunista de 1949, enquanto que Hong Kong, já acrescida dos territórios incorporados em 1898 (ver mapa abaixo), tornou-se um moderno centro capitalista.

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Região anexada pelo Reino Unido, com a Ilha de Hong Kong mais ao sul do mapa

Mas se por um lado o sistema econômico implantado foi o liberalismo, na política o ordenamento não foi o de uma democracia liberal. O território era comandado por um governador indicado pelo Reino Unido.  Manifestações de trabalhadores nos anos 60, por melhores condições de trabalho em uma fábrica, evoluíram para amplos protestos contra o imperialismo britânico. Londres respondeu com a imposição de lei marcial e ferrenha repressão.  Segundo a China Global Television Network, o saldo após 18 meses de distúrbios foi de 5000 detenções e 36 honcongueses mortos. 

Retorno à soberania chinesa. Com a proximidade do término do arrendamento da região dos Novos Territórios (pelo qual a China nada recebeu), seria inviável economicamente para a Inglaterra manter apenas a Ilha de Hong Kong, ocupada antes do arrendamento. Pelo acordo entre Margareth Thatcher e Deng Xiaoping, que devolveu todos territórios ocupados à China, esta aceitou conceder um grau de semi-autonomia a Hong Kong. 

A Declaração Conjunta seria a garantia da política “um país, dois sistemas”, que deveria ser respeitada pela China pelo prazo de 50 anos. Em contrapartida, o artigo 23 da Lei Básica, a Constituição de facto de Hong Kong, estabeleceu que a Administração Regional deveria decretar leis que proibissem quaisquer atos de traição, secessão, sedição e subversão contra o governo central chinês, além de coibir organizações políticas locais de estabelecer vínculos com entidades políticas estrangeiras. A legislação pertinente não foi, no entanto, implementada na ocasião pela ex-colônia. 

O início dos protestos. Segundo relato no The Guardian, visando regulamentar o artigo 23, o governo local propôs em 2003 uma lei de segurança nacional, o que trouxe temores na oposição de que as liberdades civis ficariam em risco. Amplos protestos nas ruas fizeram com que o projeto fosse engavetado. The Guardian relatou ainda as principais crises ocorridas desde então.

Em 2012, o escritório de educação de Hong Kong propôs um currículo de educação moral e cívica que criticava o sistema de multipartidarismo. A oposição denunciou a mudança como uma tentativa de lavagem cerebral. Após protestos dos estudantes, o projeto não foi adiante. Do movimento estudantil surgiram lideranças atuais, como o ativista Joshua Wong.

Em 2014, ocorreram protestos em defesa do sufrágio universal, que levaram à ocupação do centro de Hong Kong por 74 dias. As manifestações foram chamadas de Umbrella movement, quando guarda-chuvas foram usados na proteção contra gás lacrimogêneo.

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Guarda-chuvas como proteção para gás lacrimogêneo, 2019 \  Foto: Anthony Kwan/Getty Images

Nova crise irrompeu em julho 2019, quando o governo local tentou aprovar emendas à Lei de Extradição, que possibilitariam o envio de criminosos para as autoridades no continente. Opositores da mudança na lei argumentaram que, com a aprovação, ficaria aberta a porta para a extradição de críticos do governo central chinês. As manifestações não foram todas pacíficas, ocorrendo vandalismo e violentos choques com a polícia, e entre diferentes grupos. O andamento do projeto foi suspenso.

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Gás lacrimogêneo contra manifestantes da Universidade Politécnica, novembro 2019  \  Foto: Dahlan Iskanq / AFP

A crise atual. Chegamos então a maio de 2020. No dia 28, o Congresso da China aprovou a nova Lei de Segurança Nacional para Hong Kong, com foco no artigo 23. Desde o dia 24, protestos em massa contra a lei de segurança já vinham ocorrendo nas ruas, reprimidos pelas forças policiais com uso de gás lacrimogêneo, esprei de pimenta e canhões de água, segundo amplamente relatado na mídia.

Na sequência da aprovação da lei de segurança, o secretário de estado norte-americano, Mike Pompeo, declarou que os Estados Unidos não mais considerariam Hong Kong como uma região autônoma, o que tornaria a região sujeita às mesmas tarifas comerciais que o restante da China. 

Está prevista para breve a votação de uma lei que penaliza insultos ao hino nacional chinês, com penalidades previstas de multas e prisão por até 3 anos, o que deve gerar mais atrito com setores da população críticos de Pequim. Vaias ao hino Marcha dos Voluntários, bem como mudanças desrespeitosas na letra ou na música têm ocorrido principalmente durante jogos de futebol.

Os fatos que a mídia omite. Com base em uma série de reportagens publicadas no The Grayzone, uma outra narrativa pode ser construída, que ajuda a entender melhor o papel desempenhado pelos Estados Unidos no acirramento da crise. 

Em 27 de novembro de 2019, o senado norte-americano já aprovara por unanimidade a Lei de Direitos Humanos e Democracia de Hong Kong, com a liderança do senador Mark Rubio. O documento reforça a importância que os honcongueses tenham autonomia para escolher, através do voto universal, o Chefe do Executivo  e a totalidade do Conselho Legislativo. O direito à livre expressão e outros direitos fundamentais são também defendidos no documento.

Entretanto, o jornalista Ajit Singh chama a atenção que um dos focos principais da nova legislação é de salvaguardar os negócios dos Estados Unidos no território. Hong Kong teria que agir em conformidade com a política externa norte-americana, incluindo adesão às sanções impostas a países listados como “ameaças à segurança nacional, política externa e economia dos Estados Unidos”. Ficou também explicitada a necessária adesão de Hong Kong à política comercial e aos controles de exportação estabelecidos por Washington, inclusive para com a própria China. A proposta de lei vinha sendo discutida em Washington desde 2016, com a constante presença de Joshua Wong, o jovem ativista que despontou nos protestos estudantis de 2012.

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Joshua Wong no congresso norte-americano, setembro 2019 \ Fonte: Ajit Singh/The Grayzone

Diversos líderes da oposição de Hong Kong foram recrutados para o conselho diretor de uma nova entidade anti-China, o Conselho pela Democracia em Hong Kong (HKDC, na sigla em inglês). Sediada em Washington, HKDC foi criada e financiada pela National Endowment for Democracy (NED), um dos braços intervencionistas de Washington. Dentre outros financiamentos aos movimentos anti-China, a NED forneceu mais de 2 milhões de dólares à organização Monitor de Direitos Humanos de Hong Kong, para financiar o movimento contra a lei de extradição, relata Singh.

Um dos principais influenciadores do atual protesto é Jimmy Lai, o magnata local da mídia, que vem financiando as manifestações com milhões de dólares, e incentivando um sentimento xenofóbico contra a China em seus veículos de comunicação, segundo Dan Cohen relata em seu artigo. Em julho de 2019, quando se iniciavam os protestos contra a proposta da Lei de Extradição, Lai viajou para Washington e se reuniu com o vice-presidente Mike Pence, o secretário de estado Mike Pompeo, e o então conselheiro de segurança nacional, John Bolton, além de alguns senadores republicanos.   

A oposição ao governo apoiado por Pequim se afastou da missão principal de garantir um certo grau de  autonomia para os honcongueses,  ao aderir à agenda geopolítica e aos interesses econômicos de Washington, atraindo desta forma a ira de Pequim. Fica um pouco mais fácil de se entender a motivação do governo chinês de impor a Hong Kong a recém aprovada Lei de Segurança, que penaliza atos que sejam considerados como de subversão e a favor do separatismo.

Os ucranianos nos protestos. Em 2019, grupos de extrema direita viajaram de diversas regiões do mundo, para se juntar aos protestos separatistas em Hong Kong, conforme relata Ben Norton, em artigo para o The Grayzone. Dentre estes, incluem-se extremistas ucranianos que se autodenominam “Gonor”. Este grupo participou da milícia neonazista chamada Batalhão Azov, que se notabilizou por atos brutais na luta contra os militantes ucranianos pró-Rússia. Uma revolta foi iniciada na Praça Maidan, Kiev, em 2013-14, que deu origem ao movimento Euromaidan, pró-Ocidente, que levou ao afastamento do presidente eleito Yanukovich.

ucranianos em hong kong
Neonazistas ucranianos em Hong Kong, dezembro 2019  \  Fonte: Ben Norton / The Grayzone

O Batalhão Azov é um grupo paramilitar que englobou diversos grupos da ultra direita como o Right Sector (Setor de Direita), responsável por incendiar o prédio de um sindicato laboral durante o golpe de 2014, o que resultou na morte de 42 pessoas.  O Azov foi incorporado à guarda nacional ucraniana, e vem recebendo armamentos e treinamento de Washington desde 2016, para manter a pressão contra Moscou. Segundo artigo de Max Blumenthal, seus membros também participaram do treinamento militar e na doutrinação de supremacistas brancos norte-americanos que estiveram envolvidos em violentas confrontações na Califórnia e na Virgínia.

Ainda segundo o artigo de Dan Cohen no The Intercept, um dos ucranianos que tiveram sua presença identificada em Hong Kong foi Serhii Sternenko, ex-líder do Right Sector. Os fascistas ucranianos estiveram presentes no campus da PolyU, a Universidade Politécnica de Hong Kong, local de violentos protestos. Suspeita-se que os extremistas ucranianos possam ter compartilhado táticas de insurgência com os ativistas de Hong Kong.

hong kong liquidos corrosivos
Material de fabricação caseira para uso bélico, campus da PolyU, dezembro 2019 \  Foto: Sam Tsang

De acordo com o relato no South China Morning Post foram encontrados na PolyU cerca de 4.000 bombas incendiárias,  1.340 apetrechos explosivos, e 600 embalagens de líquido corrosivo. A CNN mostrou um artefato explosivo de fabricação caseira encontrado na universidade, com o poder devastador de uma bomba de fragmentação, apresentado na foto que abre este artigo. 

Finalizando, a ação de Washington de apoiar atos contra a China se insere no que atualmente recebe o rótulo de “guerra híbrida”, como parte da nova Guerra Fria. É mais uma tentativa de deter a ascensão econômica da China, em um mundo multipolar que desponta. Mas, ironicamente, manifestações muito mais amplas que  as ocorridas em Hong Kong se espalharam pelos Estados Unidos nos últimos dias, escancarando as contradições que permeiam a estrutura social da “grande nação das oportunidades iguais para todos”.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

 

Angela Davis: Vidas Negras Importam, por Ruben Rosenthal

Até que o povo negro seja livre, ninguém é completamente livre. O que afeta aos negros, afeta a todos. Todos! Você pode imaginar a América sem brutalidade policial, sem tiroteios em massa, sem violência armada? (Black Lives Matter).

black lives matter
No cartaz ao fundo: A escravidão nunca acabou. Ela apenas evoluiu  /  blacklivesmatter.com

O atual artigo é o segundo da série com base na tradução1 da entrevista de Angela Davis, publicada originalmente em Futures of Black Radicalism2. O artigo anterior tratou da parte da entrevista em que a ativista abordou a Tradição Radical Negra.

Os entrevistadores, Thereza Johnson e Alex Lubin, indagaram Angela sobre sua avaliação do movimento Black Lives Matter, BLM (Vidas Negras Importam), à luz da participação que ela teve no Partido Panteras Negras (PPN) durante os anos 70. Em particular, se ela identifica algumas semelhanças entre os dois movimentos.

AD considera que a separação de décadas e gerações, entre um movimento e o outro, parece criar uma certa incomensurabilidade, decorrente de todas as mudanças econômicas, políticas, culturais e tecnológicas, que tornam diferente o momento atual, em tantos aspectos importantes, daquele do final da década de 60. “Mas talvez devêssemos procurar as conexões entre os dois movimentos, que são reveladas, não tanto nas semelhanças, mas nas diferenças radicais”, propõe a entrevistada.

E continuando: “O PPN surgiu como uma resposta à ocupação policial de Oakland3, Califórnia, e de comunidades urbanas negras em todo o país. Foi uma jogada absolutamente brilhante da parte de Huey Newton e Bobby Seale4, a de ‘policiar a polícia’, ao patrulharem o bairro com armas e livros de direito”.

“Esta estratégia dos Panteras Negras foi reconhecidamente inspirada também no surgimento das lutas de guerrilha em Cuba, nos exércitos de libertação na África austral (África do Sul, Namibia, Zimbabwe), Oriente Médio, e na resistência bem-sucedida da Frente de Libertação Nacional do Vietnam”.

“Mas, ao mesmo tempo, refletiu o fracasso do PPN em reconhecer, como disse Audre Lorde5, que ‘as ferramentas do dono nunca irão desmantelar a casa do dono’. Em outras palavras, o uso de armas, mesmo sendo um símbolo de resistência, transmitiu a mensagem de que a polícia podia ser eficazmente contestada, confiando-se em estratégias de policiamento explícito”, complementou Angela.

AD salienta a diferença na atuação do movimento BLM. Na seqüência do assassinato de Trayvon Martin6, na Flórida (em 2012), e da decisão do júri de inocentar o culpado, a hashtag  #blacklivesmatter foi desenvolvida pelas ativistas Patrisse Cullors, Alicia Garza e Opal Tometi. 

justiça para trayvon
Campanha de assinaturas no Change.org, exigindo punição para os assassinos de Trayvon

Em julho de 2014 ocorreu outra morte chocante de um negro, esta não mencionada por Angela na entrevista: as imagens de Eric Garner, sendo sufocado até a morte por um policial em Nova Iorque, revoltaram o país e o mundo. No mês seguinte ocorreu a morte de Mike Brown7, por disparos da polícia, gerando uma onda de protestos em Ferguson, Missouri.

O movimento BLM começou a transformar-se numa ampla rede, como resposta direta ao crescimento dos protestos “que manifestavam um desejo coletivo de exigir justiça para Brown, e para todas as vidas negras sacrificadas no altar do terror policial racista”, relembra Angela Davis.

“O BLM logo reconheceu que seria necessário se colocar a reivindicação da desmilitarização da polícia no centro dos esforços, para possibilitar o avanço para um modo de justiça mais crítico e coletivo, e resistir de forma radical à violência racista no coração das estruturas e estratégias policiais”, salientou AD.

Acrescenta ainda Angela: “em última análise, e associada a uma abordagem que demanda a abolição do policiamento como conhecemos e experimentamos, a desmilitarização também contesta a forma como as estratégias policiais foram transnacionalizadas, dentro dos circuitos que ligam os pequenos departamentos de polícia dos EUA a Israel, país que domina a arena do policiamento militarizado, associado à ocupação da Palestina”.

AD aprecia a análise mais abrangente que é adotada por muitos ativistas do BLM, por refletir precisamente uma mentalidade histórica, que é capaz de construir, abraçar e criticar radicalmente ativismos e teorias antirracistas do passado: “enquanto o PPN tentou, às vezes sem sucesso, abraçar os movimentos feministas emergentes, e o que então se chamou de movimento de libertação guei, a liderança e ativistas do BLM desenvolveram abordagens que adotaram, de forma mais produtiva, as teorias e práticas feministas e queer8”.

E conclui ela sobre o tema: “As teorias da liberdade são sempre provisórias. Aprendi com Cedric Robinson9, que qualquer teoria ou estratégia política que pretenda possuir uma teoria total da liberdade, ou que possa ser categoricamente compreendida, não consegue dar conta da multiplicidade de possibilidades, que podem, talvez, ser apenas evocativamente representadas na esfera da cultura”.

Notas do autor:                                                                                                               Tradução de Andréa Peniche e Paula Sequeiros, Rede Anti Capitalista.

Futures of Black Radicalism, 2017, Londres: Versobooks, ed. Thereza Johnson e Alex Lubin.

 3 O departamento de polícia de Oakland já tinha, na ocasião da morte de Trayvon Martin, um histórico muito controverso, com alegações de décadas de brutalidade policial contra negros.  

Em 1966, Newton e Seale fundaram o então chamado Partido Panteras Negras para Auto-Defesa.

Audre Lorde foi uma escritora e poetisa norte-americana, de descendência caribenha, feminista lésbica e ativista na luta pelos direitos civis.

Em fevereiro de 2012, Trayvon Martin, jovem de 17 anos, foi morto a tiros ao deixar uma loja onde comprara doces. O assassino, que fazia vigilância do bairro por conta própria, saiu livre do tribunal.

Em agosto de 2014, Michael Brown foi confrontado por um policial branco, em Ferguson, resultando em uma altercação entre ambos, que culminou com Brown, que estava desarmado, sendo abatido a tiros pelo policial. O corpo do jovem de 18 anos permaneceu por horas na rua, sob o sol forte do verão. Após uma noite de vigília, ocorreram protestos que resultaram em saques e vandalismo, que se repetiram por várias noites.

A teoria queer foi mencionada no artigo anterior do blogue, sobre a Tradição Radical Negra.

A influência do autor de Black Marxism – The Making of the Black Radical Tradition, o escritor e professor Cedric Robinson, no pensamento de Angela Davis também já foi apresentada no artigo anterior.

Finalizando:    As imagens do julgamento que inocentou o assassino de Trayvon Martin, as de Eric Garner, sendo sufocado pelo policial, do corpo de Mike Brown exposto por horas na rua, em Ferguson, e dos amplos protestos que se seguiram, podem ser vistas no vídeo do Black Lives Matter, que é apresentado pelos fundadores do movimento, com legendas em inglês.      

Em fevereiro de 2019, em um caso que traz fortes semelhanças com o de Eric Garner, um jovem negro de 19 anos foi morto durante a abordagem de um segurança, em uma unidade do supermercado Extra, na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro. Como pôde ser visto nos vídeos gravados por clientes, amplamente divulgados na mídia televisiva do país, Pedro Gonzaga foi imobilizado, e acabou sofrendo uma parada cardíaca enquanto era sufocado pelo segurança.

Você pode imaginar o Brasil sem brutalidade policial, sem assassinatos em massa, sem balas perdidas, sem violência armada?

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.