Guerra OTAN-Rússia na Ucrânia caminha para conflito nuclear?

Por Ruben Rosenthal

A escalada do confronto entre OTAN e Rússia parece ter entrado em modo automático e irreversível, com consequências impossíveis de serem previstas.  

Doomsday clock at 100 seconds to midnight
O Relógio do Juízo Final ou do Apocalipse marca 100 segundos para a meia-noite

Os recentes ganhos de território pelas tropas ucranianas usando armamento avançado da OTAN, e os atos de sabotagem contra os gasodutos Nord Stream e possivelmente contra a ponte que conecta Rússia e Crimeia podem requerer uma resposta enérgica de Vladimir Putin. Moscou sabe, no entanto, que do ponto de vista político, o uso de armas nucleares táticas seria contraprodutivo no momento, e deverá reservar o seu uso como último recurso para não perder a guerra contra os Estados Unidos e seus aliados da OTAN.

Como os EUA não estão minimamente interessados em que Rússia e Ucrânia cheguem a um acordo de paz que não seja humilhante para a Rússia, o conflito nuclear se coloca como mais que uma remota possibilidade, 60 anos após a crise dos mísseis em Cuba, que deixou o mundo à beira do Armagedon.

Em retrospecto, na sequência da entrada de tropas russas para a Ucrânia em fevereiro, o Ocidente ampliou o boicote à economia russa com foco na energia, ao mesmo tempo em que promoveu o envio maciço de armamento sofisticado da OTAN para ser usado pelos ucranianos na frente de batalha.

Da mesma forma que já haviam bloqueado há anos a implementação dos acordos de Minsk, que concederiam certo grau de autonomia para as províncias ucranianas de Donetsk e Luhansk, os EUA e seus aliados sabotaram as negociações de paz entre Rússia e Ucrânia, quando estas começavam a avançar. O presidente Zelensky foi instado pelo então primeiro-ministro britânico Boris Johnson a não prosseguir com as negociações, quando se reuniram em Kiev, em abril.

A política de Washington e de seus aliados é perfeitamente coerente com estratégia de sobrecarregar a economia da Rússia, preconizada há anos no relatório da Rand Corporation, think tank financiado pelas forças armadas norte-americanas. Uma das formas propostas seria exatamente forçando o engajamento de tropas russas no exterior. Outra forma é comprometendo as receitas que a Rússia obtém através da venda de hidrocarbonetos.

No campo da energia, os gasodutos Nord Stream 1 e 2, construídos para abastecer a Europa com gás russo, foram sabotados em 26 de setembro, data em que foram registradas poderosas explosões por sismógrafos na Dinamarca e Suécia. O Nord Stream 2 já estava concluído, mas ainda não entrara em operação, por retaliação da Alemanha pela invasão russa, enquanto que o outro gasoduto encontrava-se em manutenção. Seguiram-se trocas de acusações entre a Rússia e países da OTAN sobre a responsabilidade pelo atentado.

No cenário da guerra, embora a campanha de desinformação esteja sendo usada em larga escala nos meios de comunicação do Ocidente, as indicações são de que os ucranianos estão conseguindo sustar o avanço das tropas russas, e mesmo expulsá-las de algumas regiões que já haviam conquistado. A reação de Putin foi de convocar 300 mil reservistas e ameaçar o uso tático de armas nucleares.

A anexação formal pela Rússia, em 30 de setembro, das quatro províncias parcialmente ocupadas – Donetsk, Luhansk (que constituem o Donbass), Kherson e Zaporíjia – após um referendo confirmatório, abriria o caminho para o uso de armas nucleares em defesa da integridade dos territórios incorporados à pátria Rússia.

Para o economista norte-americano Jeffrey Sachs professor da Universidade de Columbia, o atual conflito na Ucrânia corresponde, em essência, a uma Segunda Guerra da Criméia. Desta vez, uma aliança militar liderada pelos EUA procura expandir a OTAN até a Ucrânia e Geórgia, ampliando a presença da Organização no estratégico Mar Negro.

A escalada do confronto entre OTAN e Rússia parece ter entrado em modo automático e irreversível, com consequências impossíveis de serem previstas.

O boicote à exportação da energia russa

Em artigo de 22 de setembro no think tank russo Valdai Club, o acadêmico e especialista em energia Vitaly Yermakov analisou em detalhes, como as medidas dos EUA e da União Européia (UE) para boicotar as receitas da Rússia com a venda de combustíveis estavam fadadas ao fracasso.

A guerra na Ucrânia fez com que a UE procurasse apressar o até então gradual processo de independência em relação aos combustíveis fósseis exportados pela Rússia. O boicote começou com o carvão (desde 11 de agosto de 2022), e deverá incluir também o petróleo bruto (a vigorar em 5 de dezembro de 2022) e produtos refinados (a partir de 1º de fevereiro de 2023). A UE também anunciou planos de eliminar completamente suas importações de gás russo até 2027.

Até agora, a Rússia tem sido resiliente, e conseguiu introduzir contramedidas eficazes, como redirecionar suas exportações de carvão e petróleo para a Ásia. Além disso, passou a oferecer suas commodities de energia com descontos significativos, evitando assim a necessidade de reduzir drasticamente a produção. Com as tensões geopolíticas em 2022, os preços globais do petróleo aumentaram significativamente, reforçando as receitas de exportação da Rússia, mesmo após os descontos.

Com o conflito na Ucrânia ainda está se arrastando, e a proximidade do inverno europeu, a UE passou a enfrentar um dilema: colocar em prática o embargo petrolífero em dezembro, arriscando nova disparada nos preços do petróleo, o que poderia trazer insatisfação da população em seus países, ou então deixar de lado a implementação do embargo e perder credibilidade.

Como alternativa, foi então concebida a ideia de impor limites de preços sobre os combustíveis exportados pela Rússia, negando a este país receitas extras que até então vinham preservando a economia russa de ser afetada pelas amplas sanções econômicas. Para o plano funcionar seria criado um cartel de compradores, que determinaria o limite de preço para o petróleo russo.

Para induzir compradores e transportadores a cooperar com o plano, seria negado o seguro marítimo internacional – majoritariamente controlado pela empresa Lloyds de Londres – a qualquer carga russa que não estivesse cumprindo os limites de preços. Ideias semelhantes começaram surgir na UE sobre fixar os preços do gás russo.

No entanto, sem a anuência de países como China e índia, tal plano nasceu já fadado ao fracasso. O presidente Vladimir Putin, falando no Fórum Econômico Oriental em Vladivostok, em 7 de setembro, alertou que a Rússia cortaria todo o fornecimento de energia para países que tentassem impor limites de preços às exportações russas.

A sabotagem dos gasodutos Nord Stream

O relato das explosões que danificaram os gasodutos Nord Stream 1 e 2 no noticiário da mídia corporativa do Ocidente revela como ela está alinhada com o esforço de guerra da OTAN.  No britânico The Guardian: Rússia é suspeita de ter executado as explosões para colocar pressão no fornecimento de energia.  No The New York Times: A CIA havia alertado os governos europeus de um possível ataque aos gasodutos. Na CNN: oficiais europeus de segurança haviam observado navios e submarinos russos em locais não distantes de onde ocorreram os vazamentos.

Gas leakage from Nord Stream 2
Gás emanando do vazamento do gasoduto Nord Stream 2 \ Foto: Airbus DS2022/AFP via Getty Images

No entanto, a versão de que a Rússia teria sido responsável pelas explosões não se sustenta, pois o dano aos gasodutos também significa que ela perde um elemento de pressão que ainda tinha sobre a Europa. Por outro lado, não é difícil identificar os beneficiários da interrupção do fornecimento do gás russo. O secretário de estado norte-americano Antony Blinken celebrou o que chamou de “tremenda oportunidade de remover a dependência (da Europa) no gás russo” (ver vídeo).

A Ucrânia sempre se opôs a entrada em operação do Nord Stream 2 , pois representaria a perda das vultosas receitas provenientes dos gasodutos russos subterrâneos que atravessam seu território, construídos durante o período da União Soviética. Não apenas Kiev, mas também a Polônia e os Países Bálticos haviam se aliado aos EUA para impedir a implementação do Nord Stream 2. Os norte-americanos chegaram a impor sanções às empresas russas e alemãs envolvidas na construção do gasoduto

O ex-ministro polonês das relações exteriores, Radosław Sikorski, atualmente no Parlamento Europeu, gerou forte controvérsia ao postar um tuíte que inclui uma foto do vazamento de gás no gasoduto danificado, acompanhada das palavras: “Obrigado, EUA”.  O agradecimento indica que Biden teria cumprido a promessa que fizera semanas antes da entrada das tropas russas na Ucrânia, caso a Rússia invadisse o país vizinho: “o gasoduto Nord Stream 2 deixará de existir; vamos acabar com ele”.

“Coincidentemente”, estava prevista para a primeira semana de outubro a entrada em operação do Baltic Pipe, o gasoduto construído pela Polônia com apoio da UE. O gasoduto irá levar gás natural da Noruega para a Europa Central através da costa da Polônia, podendo alcançar por terra outros países da região.

Em entrevista no canal de TV a cabo Bloomberg, o professor Jeffrey Sachs declarou “apostar que (a explosão) foi uma operação dos EUA, talvez EUA e Polônia”. Segundo ele, a motivação seria prejudicar ainda mais a economia russa. A entrevista foi rapidamente interrompida pelo apresentador do programa, após o professor emitir sua opinião.

Deve-se ainda levar em consideração que, com os dois gasodutos impossibilitados de operar não haveria como os governos da UE ceder aos protestos de suas populações, que já começam a ocorrer. No entanto, uma das quatro linhas do Nord Stream 2 não foi danificada, e poderia fornecer gás para a Europa. Resta ver se o governo alemão autorizaria a utilização no abastecimento do país, ou se vai continuar submetido à pressão dos EUA, prejudicando assim sua própria população.

A extrema-direita alemã já está capitalizando a insatisfação da população com o aumento do custo de vida resultante da escassez energética. Apoiadores do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) se reuniram em frente ao prédio do Reichstag em Berlim, em 8 de outubro, para protestar contra o aumento dos preços na Alemanha (ver vídeo). O co-líder do partido acusou o governo de travar uma guerra contra seu próprio povo, ao impor sanções à Rússia.

Um país que colocou em primeiro lugar seus próprios interesses foi a Arábia Saudita. Uma coalizão de nações produtoras de petróleo liderada pela Rússia e Arábia Saudita anunciou em 5 de outubro uma redução na produção de petróleo em 2 milhões de barris por dia, o que deverá levar ao aumento dos preços do gás em todo o mundo e reforçar a economia Rússia em seu esforço de guerra.

Referendo Fake de anexação?

Para o ex-embaixador britânico Craig Murray, defensor da independência da Escócia e forte crítico da expansão da OTAN, o referendo de anexação pela Rússia promovido nas regiões ocupadas pelas tropas russas foi irregular.

Além de questionar se foram seguidas as regras básicas para a realização de um referendo internacional, Murray considera que o resultado que foi divulgado, em que mais de 90% de votos nas quatro regiões ocupadas foram favoráveis à anexação, estaria longe de refletir a real proporção da população de origem russa nestas regiões.

Regions anexed by Russia after the 2022 referendum
O mapa mostra as regiões anexadas à Rússia após o referendo de 2022 \ Fonte: Instituto para o Estudo da Guerra/BBC

Murray apresenta os resultados do último censo realizado na Ucrânia, em 2001. Em Donetsk, os russos representavam 38,2% e os ucranianos, 56,9%. Em Luhansk: russos-39,0%, ucranianos-58,0. Em Kherson: russos-14,1, ucranianos-82,0. Em Zaporíjia- russos-24,7, ucranianos-70,8. Já na Criméia, os russos representavam de fato a maioria da população, com 58,3%, enquanto os ucranianos constituíam 24,3% e os tártaros 12,0%.

Assim, para o ex-embaixador, se constituiria em falácia a propalada versão de que as províncias de Donetsk e Luhansk, que constituem o Donbass, seriam constituídas majoritariamente de habitantes de origem russa, mesmo levando em conta o percentual de ucranianos que adotaram o russo como língua principal.

Por outro lado, Murray não leva em conta a possibilidade de que, nas regiões anexadas, parte da população de origem ucraniana – majoritariamente rural ­– pode ter abandonado suas casas desde o início dos conflitos em 2014, após o golpe que afastou o presidente eleito de origem russa, Victor Yanukovych. De qualquer forma, a discrepância é bem significativa, e levanta questionamentos sobre a lisura do processo de consulta.

O ex-embaixador considera ainda que Putin está caindo no jogo estratégico dos Estados Unidos de sangrar a Rússia, em uma guerra na qual a tecnologia militar do Ocidente é imensamente superior. Para Murray, os 300 mil reservistas que Putin enviará para a guerra serão abatidos à distância, sem nem mesmo ver o inimigo.

Para Scott Ritter, ex-oficial de inteligência do Corpo de Marines dos EUA, a decisão de Putin de simultaneamente mobilizar os reservistas russos, enquanto absorve o território do sul e leste da Ucrânia para a Federação Russa, coloca a OTAN em novo dilema: continuar a fornecer apoio material e financeiro maciço à Ucrânia, tornando-se parte direta do conflito, algo que ninguém no bloco quer, ou então recuar do apoio bélico à Ucrânia.

Explosão danifica a ponte Rússia-Crimeia

No sábado, 8 de outubro, foi parcialmente destruída a ponte que liga Rússia e Crimeia, que havia sido inaugurada por Putin em 2018. As suposições iniciais eram de ela poderia ter sido alvo de um míssil ucraniano ou da explosão de um caminhão-bomba, ocasionando ainda incêndios em vagões de trem contendo combustível. O presidente russo já acusou a Ucrânia pelo incidente. Um alto oficial do Segurança nacional ucraniana postou um vídeo do incêndio, acompanhado da canção “Feliz Aniversário, Sr. Presidente” (cantada por Marilyn Monroe), se referindo ao aniversário de Vladimir Putin na véspera.

A retaliação da Rússia veio na segunda-feira, 10 de outubro, através de bombardeios maciços em várias cidades. Segundo o Ministério da Defesa da Ucrânia, a Rússia disparou ao menos 83 mísseis contra Kiev, Lviv e Zaporíjia. A capital ucraniana não era bombardeada desde que o foco da guerra mudara para a conquista da região leste da Ucrânia após as primeiras semanas do início do conflito.

O Relógio do Juízo Final ainda permanece em 100 segundos para a meia-noite. Até quando?

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

 

Crise no Golfo Pérsico: a confrontação bélica é inevitável ou o círculo vicioso pode ser rompido?

Tradução comentada do artigo “Pompeo’s falsified history of US-Iran provocations”,  do ex-diplomata italiano, Marco Carnelos, publicado no Middle East Eye, em 21 de Junho, por Ruben Rosenthal

Se os Estados Unidos e o Irã quiserem genuinamente poupar a região de um conflito catastrófico, então é essencial o reconhecimento sincero que erros foram cometidos de ambos os lados.

drone derrubado AFP jpeg

 General brigadeiro Hajizadeh examina restos do drone derrubado pelo Irã     Foto AFT 

 

A recente derrubada de um drone norte-americano pelo Irã no Estreito de Hormuz, e a ameaça de Trump de um ataque retaliatório, (mesmo que) seguida da desistência ,  no último minuto, fez aumentar dramaticamente a ameaça de confrontação, na já tensa região do Golfo Pérsico. 

A história das relações Estados Unidos-Irã nas últimas quatro décadas tem sido marcada por uma série de agressões, sem que tenha ocorrido provocação prévia. A recente declaração do secretário de estado  Mike Pompeo, culpando o Irã pelos ataques a petroleiros no Golfo de Omã, se incorporou a este longo histórico, pela versão simplista e tendenciosa dos eventos.

Segundo a declaração, “este é apenas o último de uma série de ataques instigados pela República Islâmica do Irã e seus apoiadores, contra os interesses (norte)americanos e de seus aliados, e devem ser entendidos no contexto de 40 anos de agressões sem provocação (prévia) contra nações amantes da paz”.

No entanto, Pompeo ignorou a mãe de todas as provocações: o abandono do  acordo nuclear pelos Estados Unidos em maio de 2018, seguido do aumento das sanções contra o Irã, e de fortes pressões sobre os aliados e outros países, para se alinharem com esta política.

O resultado, até o momento, é o de uma guerra econômica em grande escala contra o Irã, sem justificativa. Apenas para constar, a Agência Internacional de Energia Atômica não denunciou qualquer violação por Teerã, do acordo nuclear de 2015.

Independente da responsabilidade, ainda incerta, do ataque aos petroleiros (não foram apresentadas até agora quaisquer conclusões independentes), existem aspectos da declaração do secretário Pompeo que parecem intrigantes. A primeira, foi a sua escolha de mencionar o período histórico de quatro décadas; outras duas, são as referências aos interesses dos Estados Unidos e seus aliados, e o alegado amor destes países pela liberdade; e, finalmente, quanto ao uso do termo “sem provocação”.

Por que Pompeo se referiu apenas aos últimos quarenta anos e não voltou um pouco antes? Se fizesse isto, ele se veria compelido a mencionar que o Irã, em 30 de novembro de 1971, invadiu três pequenas ilhas estrategicamente situadas na entrada do Estreito de Hormuz, que deveriam ficar sob a soberania dos Emiratos Árabes Unidos, então recentemente estabelecidos. O ponto em questão, é que este ataque foi ordenado pelo principal aliado de Washington na região, o Xá  Reza Pahlavi, monarca iraniano que assumiu o poder autocrático com a deposição golpista de Mohammad Mosaddegh, primeiro-ministro reformista, democraticamente eleito.

A lista de interesses dos EUA e aliados na região é bem longa: o inabalável apoio a Israel, a luta contra o terrorismo, a paz e estabilidade local, a liberdade de navegação, a proteção aos fornecimentos de energia vindos do Golfo Pérsico, e o apoio aos chamados países árabes moderados.

Surpreendentemente, o Irã até compartilha de alguns destes interesses. Apóia a liberdade de navegação, bem como a livre exportação de recursos energéticos do Golfo Pérsico, naturalmente com a condição de que esta liberdade se aplique a todos. O Irã também proclama que está engajado em combater o terrorismo, como no caso de sua recente campanha militar contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria.

Entretanto, o Irã também representa uma ameaça a alguns outros interesses nos norte-americanos e seus aliados, por sua ideologia revolucionária, que compele o país a apoiar (de acordo com seu entendimento) os povos oprimidos, e lutar contra injustiças.

De acordo com esta ideologia, os palestinos sob ocupação de Israel na Cisjordânia e sitiados em Gaza, e as minorias xiitas em algumas monarquias no Golfo e no Iemen, são vítimas de opressão e injustiça, e merecem ser apoiadas.

Na percepção dos Estados Unidos e aliados, este apoio é visto como uma interferência regional e tentativa de dominar a região, e apoio ao terrorismo.

Já na percepção do Irã, a Guerra com o Iraque em 1980, e as sanções as quais  (há décadas) é submetido, foram sempre consideradas como tentativas do Ocidente e dos países árabes, sem serem provocados, de esmagar a legítima revolução islâmica e mudar seu regime. 

Em sua declaração, Pompeo não especificou a quais nações amantes da liberdade ele se referia, mas é fácil de se imaginar quais sejam. A primeira é, sem dúvida, os Estados Unidos, seguido de Israel, a única democracia no Oriente Médio, de acordo com a orgulhosa retórica de Tel Aviv. “Não está ainda claro se este forte e inquestionável amor pela liberdade que caracteriza os EUA e Israel se estende aos cidadãos palestinos sob ocupação”, ironiza Carnelos. Acrescenta ainda o ex-embaixador: “aparentemente não, com tudo o que se sabe do ‘acordo do século’, que Trump quer impor aos palestinos”.

Por último, mas não menos importante, a circunstância correta para se usar o termo “não provocado” é problemática. Na perspectiva da nação norte-americana, a primeira agressão pelo Irã, sem que este fosse provocado, foi a captura do pessoal da embaixada dos EUA em Teerã, em 1979.

Do ponto de vista da lei internacional, foi sem dúvida um ato ilegal, mas foi realmente um ato sem provocação prévia? Pela perspectiva iraniana, que é temporalmente mais longa, o golpe de 1953 orquestrado pelos EUA contra o primeiro-ministro Mosaddegh foi também ilegal, e contra as leis internacionais. Acrescente-se, ainda, que o golpe levou a uma ditadura brutal do Xá Reza Pahlavi, que durou 25 anos.

Outra agressão não provocada, foi o ataque ao Irã em 1980, pelo falecido presidente iraquiano Saddam Hussein, e o longo e sangrento conflito que se seguiu. O Iraque, que na ocasião não poderia ser chamado de nação amante da paz, foi apoiado durante o conflito pelos Estados Unidos e países árabes, sendo a Síria a única exceção.

Também, a derrubada de um avião civil iraniano em 1988 pela marinha dos EUA, poderia ser considerada, pelo Irã, uma agressão injustificada. Se, como os EUA declarou então, o ocorrido foi um trágico acidente, deveria então ter sido paga compensação, como geralmente ocorre nestes casos, quando estão envolvidas nações democráticas, civilizadas e amantes da paz, como os EUA.

No ano seguinte, o pronunciamento islâmico (fatwa) pelo aiotalá Khomeini, então o líder supremo do Irã, de declarar uma perseguição mortal a Salman Rushdie, escritor britânico de origem indiana pela publicação dos Versos Satânicos, foi considerado um ataque à liberdade de expressão, um dos pilares dos valores do Ocidente.

Infelizmente, nas últimas quatro décadas não cessou este círculo vicioso de ações sem provocação anterior. Uma narrativa histórica da região que seja mais reflexiva (menos reativa) e compartilhada, e o reconhecimento dos erros cometidos por ambos os lados, são requisitos essenciais para qualquer tentativa de melhorar o entendimento entre as partes. Este é único caminho a tomar, se ambos os lados desejam genuinamente poupar a região de um conflito catastrófico.

porta avião Abraham Lincoln Mar arábico reuters

Porta-aviões USS Abraham Lincoln no Mar Arábico, em 24 de maio                 Foto Reuters

Marco Carnelos é um ex-diplomata italiano. Recentemente atuou como enviado especial do governo italiano para a Síria, Coordenador do Processo de Paz no Oriente Médio, e embaixador da Itália no Iraque.

Notas do tradutor:

Neste artigo, Carnelos nos brinda em vários momentos com sua fina ironia. Como diplomata, ele permanece acreditando no poder do diálogo para se chegar ao entendimento e à convivência pacífica entre nações, por mais  intolerantes que sejam seus líderes, e  díspares, seus sistemas de governo.

No momento, as principais nações envolvidas na crise do golfo têm governos teocráticos ou sob forte influência de fundamentalistas religiosos ou extremistas. A teocracia em Teerã, o wahabismo extremista da Arábia Saudita, o extremismo (expan)sionista de Netanyahu em Israel, o fundamentalismo evangélico, que elegeu e sustenta Trump, associado à forte influência de John Bolton e Mike Pompeo no governo dos EUA. Apenas para lembrar, Bolton, atual conselheiro de segurança nacional de Trump, chegou a ameaçar de morte o  brasileiro Maurício Bustani (e seus filhos), quando este era diretor geral da APAQ, como forma de forçá-lo a renunciar ao cargo, de forma a facilitar os planos norte-americanos contra o Iraque de Sadam Hussein.

As declarações na manhã do dia 22 de junho, pelo Irã, que “a região será colocada em fogo, se os EUA ou aliados atacarem o Irã “, e a decisão anunciada por Trump, de aplicar sanções econômicas  ao líder supremo,  Ayatollah Ali Khamenei,  indicam que, no momento, é impossível se ter uma resposta para a questão colocada no título do artigo.