Ivermectina no tratamento da Covid-19: sem eficácia ou droga milagrosa?

Por Ruben Rosenthal 

Atualizado em 28 de janeiro

Se a ivermectina pode trazer resultados positivos para o tratamento da Covid-19, então é melhor que a comunidade científica esteja à frente do processo de implementação de protocolos adequados. 

Foto por microscópio eletrônico de varredura mostrando o tecido celular infectado pelo Sars-CoV-2
Partículas do vírus Sars-CoV-2 infectam tecido celular \ Foto de microscópio eletrônico colorizada\NIAID, Maryland /AP

Com o número de mortes por Covid-19 já superando o patamar de 400 mil pessoas nos Estados Unidos e a demora na vacinação, o uso da ivermectina voltou a ser cogitado como forma de combater a pandemia. Até o final de 2020 a orientação da agência norte-americana de pesquisa médica National Institutes of Health (NIH) era contrária à recomendação da ivermectina para o tratamento da Covid-19. Em 14 de janeiro deste ano o Painel para Diretrizes de Tratamento da NIH removeu esta restrição, abrindo o caminho para que a droga passe a ser prescrita pelos médicos.

Embora não se trate ainda de uma recomendação favorável ao uso da droga, as autoridades sanitárias de vários países precisarão estar preparadas para as repercussões desta decisão da NIH. Aumentarão as pressões para que o uso da ivermectina seja incorporado aos protocolos de tratamentos nos hospitais, bem como poderá ocorrer uma corrida às farmácias para automedicação. A utilização da droga sem o devido acompanhamento médico pode resultar em sérios distúrbios gastro-intestinais, pelo desequilíbrio da flora intestinal. 

A ivermectina é uma droga antiparasitária utilizada em países tropicais de forma segura. Nos Estados Unidos, ela está aprovada para esta finalidade pela Food and Drug Administration (FDA), que exerce função equivalente à da Anvisa no Brasil. Em testes in vitro a ivermectina se mostrou efetiva contra os vírus causadores da dengue, Zika, HIV, febre amarela e da própria Covid-19. 

A ivermectina nos Estados Unidos 

Em abril de 2020 a FDA emitiu um aviso que a ivermectina não deveria ser usada em humanos para o tratamento da Covid-19, ou mesmo de outras infecções virais. Em parecer de agosto, a NIH alertou que embora a ivermectina tivesse inibido a replicação do Sars-CoV-2 em cultura in vitro, estudos farmacocinéticos e farmacodinânicos sugeriam que para se obter a mesma eficácia antiviral em humanos, as doses administradas precisariam ser 100 vezes superiores. 

Para alterar em janeiro de 2021 o parecer anterior, o Painel da NIH considerou que vários estudos haviam sido publicados desde então em revistas especializadas. Entretanto, os resultados foram bem diversos. Em alguns dos casos clínicos não foram observados quaisquer benefícios, tendo ocorrido inclusive o agravamento da condição do paciente. 

Já outros estudos relataram resultados positivos, incluindo: menos tempo para desaparecimento dos sintomas da doença, grande redução dos marcadores inflamatórios, redução do tempo para eliminação do vírus e menor taxa de mortalidade em pacientes que receberam a ivermectina em comparação com outras drogas ou placebo. 

No entanto, o relatório do Painel da NIH advertiu que a maioria dos estudos continha informações incompletas e limitações metodológicas. Dentre as limitações dos ensaios clínicos foram citadas: pequena amostragem de casos; uso de dosagens variadas de ivermectina; pacientes que receberam conjuntamente com a ivermectina outros medicamentos como hidroxicloroquina, azitromicina, zinco, corticosteroides, doxiclina, azitromicina e outros antibióticos; descrição falha do grau de severidade da Covid-19 nos pacientes que participaram dos estudos. 

Um dos maiores defensores nos EUA do uso da ivermectina é o médico Pierre Kory, presidente de uma associação denominada Front-Line Covid-19 Critical Care Alliance, FLCCC Alliance (Aliança de Frente para Tratamento Crítico da Covid-19), constituída por médicos de diversas especialidades. Junto com co-autores ele publicou um artigo em pré-impressão onde procura demonstrar a eficácia da ivermectina na profilaxia e tratamento da Covid-19.

Neste artigo é citado o caso das cidades brasileiras de Itajaí, Natal e Macapá onde as autoridades municipais distribuíram a ivermectina em larga escala. São apresentados os dados relativos aos meses de junho a agosto, com indicativos de redução de casos e de mortes em comparação com cidades e estados vizinhos. Mais adiante neste artigo será comentado o caso de Itajaí, SC, onde os relatos de casos da doença não são nada favoráveis.

Em 8 de dezembro de 2020 Kory apresentou testemunho perante o Comitê de Segurança Interna do Senado. Ele usou o termo “droga milagrosa” para se referir à ivermectina no uso contra a COVID-19. Para apoiar sua afirmativa ele fez um relato dos resultados de 21 estudos clínicos datados de novembro que teriam trazido resultados positivos, tanto em profilaxia como no tratamento de pacientes já apresentando sintomas da doença. Em seu testemunho, Kory mostrou também gráficos relativos ao Perú, México e Paraguai, onde teriam ocorrido benefícios consideráveis em todas as fases da doença com o uso da droga.

Ao final de seu relatório, Kory apresentou os protocolos recomendados pela Aliança para os casos de profilaxia e de pacientes em estágios iniciais da doença. Em ambos os casos os tratamentos incluem não apenas a ivermectina, mas também vitaminas, zinco, melatonina, quercetina e aspirina. Para casos avançados da doença o protocolo é apresentado no site da FLCCC. 

No começo de janeiro, Pierre Kory e outros membros da Aliança apresentaram seus dados perante o Painel do NIH. Poucos dias depois as diretrizes do NIH foram alteradas, com a remoção da recomendação contrária ao uso da ivermectina. No site da FLCCC aparece que “a ivermectina é agora uma opção de tratamento para os serviços de saúde”. É importante ressaltar que o Painel do NIH concluiu que os dados atuais disponíveis ainda são insuficientes para recomendar a favor do uso da  ivermectina, principalmente pela forma inadequada como a maioria das pesquisas foi conduzida. 

Covid-19 no Brasil: atraso na vacinação 

No Brasil, com o negacionismo da vacina promovido pelo governo Bolsonaro e os constantes desastres de logística – intencionais ou por incompetência do Ministério da Saúde, a imunidade coletiva levará um bom tempo para ser alcançada. Também a condução da política externa, causando atritos com países dos quais o Brasil depende para obter insumos para as vacinas, resultará em milhares de mortes a mais pela pandemia que poderiam ser evitadas. 

Neste contexto de imprevisibilidade de quando o calendário de vacinação será completado, o governo Bolsonaro volta a defender os “tratamentos precoces” com medicamentos de eficácia não comprovada e não autorizados pela Anvisa. A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e a Associação Médica Brasileira (AMB) emitiram um comunicado conjunto no dia 19 deste mês, para rechaçar o uso de medicamentos que não tenham comprovação científica contra para o coronavírus. 

Segundo o comunicado, “as melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no tratamento precoce da Covid-19 até o momento”. 

Esta declaração conjunta veio na sequência da ida do general Pazuello a Manaus, onde atuou com a logística de um bom caixeiro-viajante ao oferecer 120 mil doses de cloroquina para combater o agravamento da pandemia na capital amazonense. O aplicativo TrateCov do Ministério da Saúde receitava o “tratamento precoce” com cloroquina e outras drogas para as pessoas com sintomas de Covid. 

Quando ainda na presidência dos EUA, Donald Trump chegou a mencionar a ingestão de água sanitária para matar o vírus. Mas ao final de seu governo e já com 400 mil mortes no país, ele não defendia mais com tanto entusiasmo o uso da hidroxicloroquina. Infelizmente para os brasileiros, Jair Bolsonaro que sempre procurou se espelhar em Trump quanto ao negacionismo da ciência, se mantém irredutível na defesa da cloroquina, hidroxicloroquina e outras drogas. 

Esta negação da ciência pelo governo foi em grande parte possível porque no comando do Ministério da Ciência e Tecnologia está o ministro-astronauta, que por sua vez foi garoto-propaganda do uso do vermífugo Anitta no tratamento da Covid-19.  

Ivermectina no Brasil 

Apesar da cloroquina ser a “menina dos olhos” de Bolsonaro, o uso da ivermectina também foi incentivado por seu governo. Apenas no mês de junho de 2020 as vendas da ivermectina no país foram superiores ao total de 2019, segundo relatado pela Folha de São Paulo

Alguns médicos, não necessariamente bolsonaristas ou terraplanistas, já vêm há algum tempo receitando a ivermectina, em geral associada a outros medicamentos, principalmente na profilaxia ou em pacientes ainda na fase inicial da doença. Em relação ao munícipio de Itajaí, citado pelo Dr. Pierre Kory como um exemplo bem sucedido do uso da ivermectina, um artigo de 15 de janeiro relata que Itajaí tem a maior letalidade por Covid-19 entre as grandes cidades de Santa Catarina. Este caso, bem como os resultados provenientes de Natal e Macapá, também citados por Kory, precisam ser melhor avaliados.

A recente decisão do NIH poderá ocasionar o aumento das pressões para que o uso da ivermectina seja incorporado aos protocolos de tratamento da Covid-19 nos hospitais no Brasil, mesmo ainda sem a garantia de eficácia. Mas possibilidade de um desempenho positivo não deveria ser desconsiderada nos meios científicos.  

O atraso na vacinação requer que a comunidade científica não descarte de antemão que a ivermectina possa salvar vidas, mesmo que não seja uma droga milagrosa. O cronograma de vacinação poderá se arrastar por meses a fio, enquanto faltam leitos disponíveis nas UTIs e disparam os índices de mortalidade. 

O NIH está agora voltado para examinar os resultados mais recentes dos estudos clínicos em andamento. Melhor seria se os cientistas da saúde no Brasil olhassem sem preconceito político para esta questão, sem levar em conta o fiasco que a cloroquina e hidroxicloroquina representaram, bem como o uso político que delas foi feito. 

Os bolsonaristas estão agora investindo em peso na defesa da ivermectina, e promoveram um tuitaço em 21 de janeiro. A ivermectina também vai ser politizada ao extremo. Mas se existe alguma possibilidade de que ela traga resultados clínicos positivos, então esta bandeira não deveria ficar com o governo Bolsonaro.  

Um grupo de trabalho de médicos e cientistas totalmente independente em relação ao governo deverá ser capaz de avaliar o grau de seriedade com que o FLCCC tirou suas conclusões dos ensaios clínicos. Precisará também ficar bem determinado que os médicos da entidade não tenham qualquer conflito de interesse em relação a Merck, que é a empresa fabricante da ivermectina.

Um contato direto do grupo de trabalho brasileiro com o NIH também seria mais que propício neste momento em que está em questão o próximo passo em relação a ivermectina. O Painel poderá decidir em breve se avança no processo de liberação ou se retrocede e volta a instituir a recomendação contrária ao uso. 

É interessante se examinar as diretrizes atuais do NIH em relação à cloroquina e hidroxicloroquina (p. 106-107) para tratamento da Covid-19 em pacientes internados ou não. A recomendação é explícita contra o uso de ambas as drogas, sejam ou não aplicadas em conjunto com a azitromicina. 

O Painel de Diretrizes do NIH alertou para a toxidez associada ao aumento da dosagem tanto da cloroquina como da hidroxicloroquina, e para os efeitos adversos como arritmia cardíaca, hepatite, alucinações, psicoses e reações alérgicas, dentre outros.  Por estes motivos a FDA norte-americana só abriu exceção para os testes clínicos em hospitais. 

Finalizando. Se a ivermectina pode trazer resultados positivos para o tratamento da Covid-19, então é melhor que a comunidade científica esteja à frente do processo de implementação de protocolos adequados, e acompanhando de perto a evolução dos casos clínicos.  

A questão é muito importante para ficar a cargo do capitão do caos e sua trupe de alucinados. Os responsáveis pelas mortes desnecessárias de dezenas de milhares de brasileiros terão que responder por suas ações criminosas, cedo ou tarde. Quanto mais cedo, melhor para o país. 

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

COVID-19 e Cloroquina: Didier Raoult, quando o passado condena.

O médico chegou a ser afastado por um ano da Sociedade Americana de Microbiologia, pela acusação de ter adulterado resultados de pesquisa.

charge For Better Science
Charge por Leonid Schneider:  For Better Science

O título do artigo evoca algum filme moralista roliudiano antigo, mas é apropriado para se referir ao médico francês. No caso, um passado com acusações de adulteração de resultados de várias pesquisas, em busca do prestígio e de “l’argent” (dinheiro), que acompanha a fama. Raoult também foi acusado de acobertar agressões sexuais ocorridas em seu instituto de pesquisa.

Didier Raoult, 68, é diretor desde 2008, da Unidade de Pesquisa em Doenças Emergentes Infecciosas e Tropicais (URMITE, na sigla em francês), ligada à Faculdade de Medicina da Universidade de Aix-Marseille. Seu laboratório emprega mais de 200 pessoas, incluindo 86 pesquisadores, que publicam cerca de 300 trabalhos por ano, e já produziram mais de 50 patentes, segundo consta em seu perfil na Wikepedia. Este renomado médico está agora no centro da controvérsia sobre o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, no tratamento da COVID-19.

A cloroquina, obtida da casca da árvore da chinchona, e seu derivado, a hidroxicloroquina, em associação com o antibiótico azitromicina, podem ter efeito no combate ao Sars-CoV-2, o novo coronavírus. Esta atuação se dá através da inibição de um processo chamado glicolisação, que é uma transformação química de proteínas na camada mais externa do vírus, a qual participa do processo de infecção. Pesquisadores chineses fizeram cerca de meia dúzia de testes randômicos dos dois produtos, obtendo resultados supostamente1 promissores.

Tendo isto em mente, Didier Raoult  e co-autores, publicaram no início de março, uma pré-impressão2 no International Journal of Antimicrobial Agents, mostrando estudos in vitro (sem pacientes) com a cloroquina e hidroxicloroquina. Com base neste artigo, Raoult recomendou, não apenas pesquisas com humanos, mas, também, o início do uso clínico das drogas.

A história teve mais alguns desenvolvimentos, até se chegar à divulgação pela Fox News, ao tuíte de Trump, e ao desaparecimento da cloroquina das farmácias de todo o mundo. Mas diversas dúvidas foram levantadas sobre falhas na pesquisa realizada por Raoult e seu grupo, por não terem sido adotadas as metodologias necessárias nestes casos, para validação das pesquisas.

Também  foram feitas críticas, de que os autores omitiram resultados do 14o dia da pesquisa , bem como se recusaram a compartilhar dados de interesse adicional, como a efetividade  do tratamento no tempo até a ausência de febre, na normalização da taxa respiratória, na mortalidade e no tempo médio de permanência no hospital.

Didier Raoult defendeu sua pesquisa: “Eu nunca fiz estudos randomizados….O efeito dessa coisa randomizada talvez possa funcionar com pessoas que tenham infarto do miocárdio, mas não faz sentido para doenças infecciosas”. Em um artigo de opinião no Le Monde, ele escreveu que “um médico pode e deve pensar como médico, e não como alguém obcecado com a metodologia”.

No entanto, Françoise Barré-Sinoussi, cientista ganhadora do Prêmio Nobel de 2008, por sua participação na descoberta do vírus da AIDS, declarou ao Le Monde  que é “uma questão de ética, não dar falsas esperanças”. Barré-Sinoussi faz parte de um comitê de doze pesquisadores e médicos que aconselham o governo francês, no que concerne aos tratamentos da COVID-19.  

 No Brasil, mais que um embate entre esquerda e (extrema) direita, a polêmica colocou de um lado, bolsonaristas e seus apoiadores nas mídias sociais, e de outro, “seus inimigos”, que atualmente englobam todos aqueles que defendem que as posições da OMS precisam ser seguidas à risca.

Um exemplo da mídia bolsonarista é o blogue Brasil sem Medo. Artigo do correspondente em Portugal, o “olavista” Brás Oscar, fez a defesa incondicional de Didier Raoult. O artigo relata que Raoult, na defesa do tratamento de coronavírus com a cloroquina, “teve que enfrentar o lobby político da comunidade médica parisiense e a ditadura da metodologia, para salvar a vida de seus pacientes”. 

Mesmo com todos os questionamentos à validade de sua pesquisa, Raoult foi alçado para a fama mundial. Mas, como toda celebridade, ele ficou mais exposto ao holofotes da mídia e ao escrutínio de sua carreira. A vida pregressa do médico foi examinada, e foram levantadas acusações sobre sua conduta anterior, tanto científica como moral.

A matéria que se segue foi em parte obtida do artigo de Leonid Schneider, publicado em seu site For Better Science, em 26 de março.  Schneider se apresenta como um jornalista científico e cartunista (ver charge no começo deste artigo), com formação em biologia celular e molecular.

O artigo de Schneider já havia sido publicado na íntegra, no original em inglês, pelo GGN, em artigo que questionava já no título se Raoult é “gênio ou um embusteiro”. O Chacolhando irá mostrar agora porque o passado pode condenar Raoult. 

A maioria dos leitores pode não estar afinada com o conhecimento científico específico em microbiologia e infectologia, mas certamente entende de tratamento digital de imagens, e saberá reconhecer quando uma imagem foi adulterada com Photoshop ou técnica similar.

O artigo de Leonid Schneider relata diversas fraudes que teriam sido cometidas ao longo dos anos, nos artigos científicos publicados por Raoult e co-autores. Indicações da provável ocorrência de fraudes,  só puderam ser recentemente expostas, através dos esforços de Elisabeth Bik, que examinou a fundo várias publicações anteriores de Raoult. 

Elisabeth Margaretha Bik, PhD, tem especialização em pesquisa de microbiomas, e atua como consultora independente em integridade científica. Em outras palavras, ela é uma “caçadora de cientistas picaretas”. Seu currículo inclui cargos anteriores em diversas instituições científicas, tendo sido por 15 anos “Associada em Pesquisa do Departamento de Microbiologia e Imunologia da Escola de Medicina, da Universidade de Stanford”. Apresentadas as credenciais de Bik, vamos ver os resultados do exame com lupa, a que ela submeteu alguns dos inúmeros trabalhos publicados por Didier Raoult.

Bik encontrou indicações de fraude em um trabalho de 2001, publicado no periódico científico, Infection and ImmunityAs setas delineiam áreas com tonalidade diferente no entorno de células, que sugerem que as mesmas foram copiadas e coladas digitalmente, ou seja, teria sido utilizado o conhecido recurso do Control C Control V, bem conhecido por alunos que não querem fazer direito os trabalhos escolares, e preferem plagiar. Mas, pelo visto, o recurso também é usado por alguns cientistas. 

Didier celulas copiadas
Imagens adulteradas indicadas pelas setas:  periódico Infection and Imunity

Bik também levantou suspeitas de alterações de imagens em um trabalho de 2005, publicado no Journal of Clinical Microbiology. A consultora comenta suas críticas no PubPeer, um site da Web que possibilita a discussão pela comunidade científica de artigos já publicados, chamando a atenção para a semelhança de algumas faixas verticais, e que apenas diferem em tonalidade. No caso, as faixas delimitadas por retângulos de mesma cor tiveram a tonalidade alterada, através de um tratamento de imagem.

didier clinical microbiology 2005
Imagens alteradas na tonalidade:  periódico Journal of Clinical Microbiology

Em outro caso, um artigo de 2013 sobre um estudo do efeito de salmonela em ratos, publicado em  PLOS Pathogens, uma faixa de gel foi copiada três vezes (ver retângulos vermelhos). As setas verdes indicam faixas com evidências de manipulações adicionais da imagem, percebidas pelo apurado exame de Elisabeth Bik, que apresentou um comentário crítico no Pubpeer. Um dos co-autores, Stéphane Méresse, se desculpou: “esta imagem jamais deveria ter sido publicada”, mas não explicou como foi possível que o erro  fosse cometido por acidente.

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Adulteração das imagens de faixas de gel: periódico PLOS Pathogens

Em outro artigo em que Raoult é co-autor, publicado em 2016 no American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, percebe-se claramente a alteração de resultados. Nas imagens obtidas por imunofluorescência, para detectar a bactéria borrelia crocidurae, é bem visível a intervenção nas imagens, conforme indicado pelas áreas delineadas com uma mesma cor, revelando uma montagem feita com repetição de imagens. A farsa é tão evidente, que não há como deixar de questionar se o artigo passou pelas mãos de um revisor ou de uma criança de cinco anos.

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Imagens adulteradas: periódico American Journal of Tropical Medicine and Hygiene

Mais recentemente, em artigo publicado no Comparative Immunology, Microbiology and Infectious Diseases, uma imagem obtida pela técnica de western blot 2D, foi levemente escurecida e reutilizada novamente para uma nova bactéria, conforme se observa na comparação das fotografias delimitadas em vermelho. 

Didier western blot
Diferentes bactérias representadas pela mesma imagem em B e E: periódico Comparative Immunology, Microbiology, and Infectious Diseases

Em março de 2012, a revista Science publicou a matéria Sound and Fury in the Microbiology Lab, abordando “as conquistas científicas de Raoult”, em que ele é enaltecido como sendo o microbiologista francês mais produtivo. Entretanto, embutidas neste artigo de celebração, estavam descrições de falta de integridade científica da parte dele. Um dos pesquisadores contactados pela Science revelou que, só sob anonimato, concordaria em falar sobre Raoult, por receio de retaliações, e “ter sua carreira prejudicada pela influência do diretor da URMITE”.

A Science relatou que o revisor de um trabalho sobre tifo, de 2006,  enviado por Raoult ao jornal Infection and Immunity, e publicado pela American Society for Microbiology (ASM), descobriu que “quatro das figuras em um manuscrito revisado eram idênticas à figuras no manuscrito original, embora devessem descrever um experimento diferente”. 

No mês seguinte, a Science publicou uma errata, em que reconhecia que cometera uma falha, e que a crítica se referia a “uma única figura do manuscrito revisado, e não a quatro”.  Raoult se defendeu perante a Science: “Eu não lidei com o artigo, nem mesmo chequei a versão final”. 

Ainda segundo o relato na Science, dois dos co-autores, Christian Capo e Jean-Louis Mège, em cartas a ASM disponibilizadas por Raoult, aceitaram “completa responsabilidade” pelo ocorrido, e alegaram que se tratara de um equívoco inocente. Após consultar sua comissão ética, a ASM baniu todos os cinco autores, incluindo Raoult, de publicarem em seus periódicos por um ano, por “se considerar não satisfeita com as explicações fornecidas: a representação errada de dados … é uma afronta à conduta ética da pesquisa científica”.

Raoult escreveu para a ASM e alegou ter sido “uma vítima colateral de uma sanção coletiva”. Ele apelou do banimento, mas perdeu. “Furioso”, proibiu que membros de seu laboratório submetessem trabalhos para publicação pela ASM, onde ele já publicara 230 artigos. Além disto, cancelou a filiação na American Academy of Microbiology. Mas sua carreira não pareceu ter sido muito abalada pelo ocorrido, segundo o artigo da Science

Mas as críticas a Didier Raoult não se limitam ao campo científico. Em março de 2017, doze membros técnicos da unidade de pesquisa da URMITE, chefiada por Raoult, denunciaram condições de trabalho inaceitáveis, ​​e pediram por mudanças radicais que pusessem fim a uma situação “insuportável e degradante”. O comunicado foi feito pela FERC, a Seção Sindical de Educação, Pesquisa e Cultura da Confederação Geral do Trabalho. Também foi mencionado que denúncias de assédio sexual estavam sob investigação.

As denúncias de assédio e agressão sexual foram expostas, ainda em 2017, em artigo publicado no Marsactu, um jornal investigativo de Masseille, de propriedade de seus sete jornalistas. Foi revelado que uma das vítimas relatou que sofrera assédio sexual ao longo de sete anos, que consistiu de “observações com conotações sexuais, piadas de natureza sexual e observações sexistas”.

Outras quatro mulheres, que alegaram ter sido vítimas de atos de assédio sexual, também relataram “assédio moral, na forma de repetidas críticas a sua atividade, insultos e pressões, inclusive diante de colegas”, relatou o Marsactu. Como resultado das denúncias, um diretor de pesquisa foi demitido do serviço público, pelo comitê disciplinar do CNRS, o Centro Nacional de Pesquisa Científica. 

A CGT declarou que o diretor da URMITE não comunicou a seus superiores, por dois anos, os atos de assédio, e que ele pretendia demitir uma das vítimas. Uma estudante de pós-graduação teria sido ameaçada de não completar sua tese, caso fizesse denúncias, ainda segundo o Marsactu.

O médico negou as acusações contra si, bem como qualquer responsabilidade nos casos de assédio, alegando que a vítima tinha o “dever” de ter comunicado de imediato os casos de assédio. Ainda segundo Raoult, os fatos descritos não ocorreram dentro seu Instituto, mas “em uma ala distante da faculdade de medicina”. 

As acusações contra Didier Raoult são muito graves, e comprometem fortemente sua imagem, não apenas como um pesquisador íntegro, mas também em questões morais. Durante anos, pequenas fraudes que teriam sido cometidas nos artigos científicos puderam passar razoavelmente despercebidas. Então, quando ele se colocou sob o holofote da mídia, Elisabeth Bik entrou no jogo, revelando os truques de Raoult com as cartas.

Isto não quer dizer que a cloroquina, e seu derivado hidroxicloroquina, não possam vir a ter a efetividade comprovada no combate à COVID-19 em casos específicos, e sob estrito acompanhamento médico, devido aos efeitos colaterais. As pesquisas em andamento em vários laboratórios, adotando as metodologias requeridas, irão trazer a resposta em alguns dias.

Se tudo não tiver passado de um blefe, a aposta alta poderá significar o fim da carreira de Didier Raoult. Mas se os testes recomendarem o uso destes produtos, todos os pecados anteriores serão perdoados.  

Notas do autor:

1. Trabalho publicado por pesquisadores de três universidades do Reino Unido, na plataforma Zenodo, contestou as afirmações contidas no trabalho original de Raoult e co-atores, publicado no International Journal of Antimicrobial Agents, de que ocorreram resultados positivos na experiência clínica inicial, conduzida com pacientes chineses acometidos pela COVID-19, que foram tratados com a cloroquina.

2. A pré-impressão digitalizada de um trabalho científico dispensa a aprovação prévia formal por um grupo especializado de revisores, possibilitando a rápida troca de informações entre os cientistas, necessária em casos de epidemias.

O autor é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo Blogue Chacoalhando.