Ucranianos morrem para os Democratas não perderem votos

Por Ruben Rosenthal

Biden parece estar mais interessado em não prejudicar eleitoralmente o Partido Democrata do que nas mortes e sofrimento do povo ucraniano com o prolongamento da guerra que financia.

Xadrez da geopolítica EUA-Rússia
A Ucrânia é peça importante no xadrez da geopolítica Rússia-Estados Unidos / Foto: Relatório Rand Corporation

A desinformação propagada pela mídia ocidental, difundindo uma suposta incompetência dos militares russos, não consegue ocultar que as forças de combate russas estão próximas de expulsar das repúblicas separatistas do Donbass as tropas do governo central de Kiev, compostas principalmente de milícias de extrema-direita e mercenários estrangeiros. Ao mesmo tempo, foi conquistado um amplo corredor terrestre conectando Crimeia e Rússia.

Faltam ainda a ser alcançados outros objetivos estabelecidos inicialmente por Putin, como a desmilitarização e desnazificação da Ucrânia, bem como o não ingresso na OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, e a garantia de neutralidade do país com o qual a Rússia faz fronteira por uma extensão de cerca de 2.700 quilômetros.

A questão que se colocará em breve é se Moscou se dará por satisfeita com a liberação do Donbass e com outras metas já alcançadas, ou se o conflito entrará em uma nova fase, com consequências imprevisíveis para a Europa e para o mundo. A Rússia parece não ter sido profundamente afetada pelas sanções econômicas por parte do Ocidente, mas estas vêm causando aumento dos preços de combustíveis e escassez de alimentos em vários países.

No discurso de 24 de fevereiro ao povo russo, Putin ressaltou que as operações que se fizerem necessárias para expulsar as tropas ucranianas do Donbass estão de acordo com o Artigo 51 (capítulo VII) da Carta da ONU, e atenderam ao acordo de amizade e de assistência mútua com as repúblicas populares de Luhansk e Donetsk, que constituem o Donbass, cuja população é majoritariamente de origem russa. A escala das operações militares até o momento se faz com a autorização concedida pela Duma, o parlamento russo.

A ampliação das operações de combate necessárias para serem alcançados os objetivos originalmente pretendidos poderá fazer com que o conflito se espalhe para países vizinhos pertencentes a OTAN, avalia o analista Scott Ritter, ex-oficial de inteligência do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos.

Para melhor compreensão do cenário atual e do que poderá vir futuramente é necessário se ter em conta quais foram os antecedentes que levaram à intervenção russa em solo ucraniano.

O pavio do conflito. Os analistas independentes não hesitam em associar a origem do atual conflito ao golpe de 2014, apoiado por Barack Obama, que afastou o presidente eleito Viktor Yanukovych através do que ficou conhecido como a revolução colorida de Maidan (ver artigo anterior do blog)

Seguiu-se o referendo na Crimeia, com 97% dos votantes optando pela incorporação da península à Rússia. Na sequência, as regiões Luhansk e Donetsk demandaram um referendo de autodeterminação (autonomia), de forma a poder preservar a cultura russa, que se via ameaçada pelo novo governo. Não se tratava naquela ocasião de um movimento separatista.

A reação de Kiev levou à repressão contra diversas regiões de língua russa, e a massacres em Odessa e Mariupol.  Os autonomistas tomaram em armas para se defender. Conforme assinala artigo do analista Jacques Baud, ex-membro da inteligência estratégica suíça, os rebeldes não obtiveram suas armas da Rússia, e sim, de unidades ucranianas de fala russa. Baud lembra ainda que os acordos de Minsk 1 (setembro de 2014) e Minsk 2 (fevereiro de 2015) não concediam independência às Repúblicas de Luhansk e Donetsk, mas, um certo grau de autonomia.

O acordo deveria também incluir uma ampla anistia a todos os envolvidos no conflito, bem como o desmantelamento das organizações paramilitares de extrema direita que participaram do Maidan, e que também se envolveram nos confrontos bélicos. Entretanto, a Ucrânia não implementou quaisquer das  medidas estipuladas. A OSCE passou a monitorar a linha de separação entre as partes beligerantes, mas não tinha capacidade militar para intervir.

O estopim do conflito. Em 24 de março de 2021, o presidente ucraniano Volodymir Zelensky emitiu um decreto que reafirmava a soberania sobre a Crimeia e passou a estacionar tropas no sul do país. As tensões entre Rússia e Ucrânia escalaram no decorrer do ano.

A intenção explicitada por Zelensky  de que seu país entrasse para a OTAN, contou com a concordância de Joe Biden. O Ministério das Relações Exteriores russo pediu garantias por escrito de que a Ucrânia jamais ingressaria na OTAN. Em 17 de dezembro de 2021, Putin cobrou também que a área de influência militar da OTAN retrocedesse aos limites existentes em 1997, conforme o que havia sido então acordado entre EUA e Rússia quando do final da União Soviética.

Expansão da OTAN para o Leste da Europa
Expansão da OTAN no Leste da Europa após 1997; a adesão da Alemanha Oriental se deu com a reunificação do país em 1990 / Fonte: BBC

Em 27 de janeiro de 2022, o Secretário de Estado Antony Blinken declarou que Washington não daria garantias à Rússia de que a Ucrânia não ingressaria no bloco militar. Os EUA continuaram a agitar o cenário político, criando um clima de pânico de que a invasão russa era iminente, o que fez com que Zelensky pedisse moderação ao Ocidente, para não prejudicar a economia ucraniana.

Em 16 de fevereiro de 2022, a artilharia ucraniana iniciou um massivo bombardeio de regiões civis do Donbass sob controle dos rebeldes. Talvez isso explique porque Biden anunciou, em 17 de fevereiro, que a Rússia atacaria a Ucrânia nos próximos dias.

Os ataques devem ter partido provavelmente do batalhão Azov, que está vinculado à Guarda Nacional, que responde ao Ministério do Interior; já o Exército, está subordinado ao Ministério da Defesa.

Teria o batalhão Azov agido à revelia de Zelensky, incitado por Washington? Esta é uma hipótese bem plausível, considerando que aos EUA interessavam a deflagração de um conflito que desgastasse a economia russa. A estratégia está explicitada nas páginas 95 a 103 do manual de guerra híbrida da Rand Corporation, think tank financiado pelo exército norte-americano.

Vale lembrar que Zelensky fora eleito com uma proposta de selar a paz no Donbass. Mas segundo declaração do especialista em Rússia, Stephen Cohen (falecido recentemente), em entrevista ao jornalista Aaron Maté, Zelensky logo foi obrigado a recuar em face das ameaças de morte vindas da extrema-direita ucraniana, e por não ter recebido apoio de Washington. Mas, como todo ator que se preza, Zelensky assumiu e incorporou um novo personagem, que agora só usa como traje teatral, camisas T-shirt do exército ucraniano.

Em 19 de fevereiro de 2022, Zelensky fez um discurso na Conferência de Segurança de Munique, em que pede ao Ocidente que apoie a Ucrânia para impedir uma invasão russa. O presidente ucraniano ameaçou abandonar o Memorando de Budapeste de 1994, pelo qual a Ucrânia abrira mão de seu arsenal atômico com a garantia que teria preservada a integridade de suas fronteiras.  A declaração acirrou ainda mais as tensões com a Rússia.

Em 21 de fevereiro, Putin reconheceu a independência das Repúblicas de Luhansk e Donesk. Em 23 de fevereiro as duas repúblicas pediram ajuda militar à Rússia. No dia seguinte, Putin fez o discurso já mencionado, em que estabeleceu os objetivos da intervenção que se iniciava em solo ucraniano.   

A primeira fase da guerra. Nas primeiras semanas do conflito a capital ucraniana Kiev foi submetida a intenso bombardeio, ao mesmo tempo em que um longo comboio de blindados se dirigia para a capital. Para os analistas da mídia ocidental a estratégia russa era de tomar a capital ucraniana, afastando Zelensky da presidência.

Após um mês de luta as tropas russas se retiraram do norte da Ucrânia, e passaram a focar na conquista da região leste. Ritter cita em seu artigo a declaração feita em 25 de março pelo coronel-general Sergei Rudskoy, do Estado-Maior da Forças Armadas da Federação Russa: “Os objetivos principais da primeira fase de operações foram alcançados. A capacidade de combate das Forças Armadas da Ucrânia foi significativamente reduzida, o que nos permite de novo concentrar nossos esforços em alcançar o objetivo principal – a liberação do Donbass. Todas as 24 formações das forças terrestres (ucranianas)….sofreram perdas significativas.”

A segunda fase da guerra. Na batalha da informação, prevalecia o consenso estabelecido pela mídia do Ocidente, que demonizava Putin e procurava desmoralizar a eficácia das tropas russas, ecoando versões que a Ucrânia estava forçando os russos a recuarem, e que logo a Crimeia seria retomada.

De fato, a tarefa de derrotar as tropas ucranianas estacionadas no Donbass não seria fácil. Nos oito anos de guerra civil os militares do governo central de Kiev preparam um cinturão defensivo, consistindo de estruturas de concreto bem fortificadas, segundo declaração do general Rudskoy citada por Scott Ritter.

Ainda segundo Ritter, a vantagem russa na artilharia vem sendo um fator determinante do resultado vitorioso na fase 2 das operações, “pulverizando as defesas ucranianas e abrindo o caminho para a infantaria e blindados”. E acrescentou: “A vitória russa no leste da Ucrânia possibilita uma conexão por terra entre a Crimeia e o território da Federação Russa. A tomada de Kherson permite restabelecer o fornecimento de água à Crimeia, o que vinha sendo impedido pelo governo central desde o plebiscito de 2014.”

 A guerra entrará em uma terceira fase? Vários dos objetivos pretendidos por Putin não foram ainda alcançados, ressalta Scott Ritter. No campo político, a “operação especial militar” tinha como um dos principais objetivos, impedir o ingresso da Ucrânia na OTAN. No campo dos objetivos militares, faltava ainda desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia.

Desnazificação. A derrota do Batalhão Azov em Mariupol representou um sério revés para as milícias neonazistas. No entanto, milhares de combatentes neonazistas se encontram ainda em atividade no leste da Ucrânia.

Para Ritter, o objetivo só poderá ser alcançado com a  remoção de Zelensky da presidência, e sua substituição por uma liderança que esteja comprometida com a efetiva  erradicação da ideologia neonazista na Ucrânia.

Desmilitarização. Conforme relato de Jacques Baud, a desmilitarização seria alcançada através dos seguintes objetivos: destruição no solo da aviação, dos sistemas de defesa aérea e dos meios de reconhecimento; neutralização das estruturas de comando e inteligência, bem como das principais rotas logísticas no interior do território; cerco ao exército ucraniano concentrado no sudeste do país. 

No entanto, com a ajuda militar de dezenas de bilhões de dólares a Kiev pelos EUA e outros países da OTAN torna-se bem mais complicado para a Rússia conseguir completar os objetivos de desnazificar e desmilitarizar a Ucrânia.

Putin precisará avaliar muito bem se poderá continuar a perseguir estes objetivos, bem como a não filiação da Ucrânia à OTAN, fortalecida ainda mais com o ingresso esperado da Suécia e Finlândia, sendo que este último apresenta extensa fronteira comum com a Rússia. Para obter sucesso, a Rússia precisaria expandir as operações militares em regiões não ocupadas nas fases 1 e 2, avalia Ritter. Aos Estados Unidos interessam estender a duração do conflito, para desgastar ainda mais a economia russa.  

No entanto, importantes especialistas militares das Forças Armadas norte-americanas já consideram que, para a Ucrânia, é melhor negociar agora um acordo de paz com a Rússia, do que esperar mais tempo e entrar enfraquecida nas negociações. Em um painel organizado pelo think tank CFR, Council for Foreign Relations no final de maio, essa foi a opinião expressa pelo tenente-general Stephen Twitty, ex-comandante do Primeiro Exército dos EUA e ex-vice-comandante (2018-2020) do Comando Europeu dos EUA. Para Twitty, os ucranianos nunca conseguirão derrotar os russos: apesar da paridade numérica de ambas as tropas (nos cenários de operações), a Rússia tem um poder de combate bem maior que o dos ucranianos.

Ao participar de um seminário na Finlândia em 12 de junho, o secretário geral da OTAN, Jens Stoltemberg, também se mostrou realista sobre o encaminhamento da guerra, antecipando que a Ucrânia precisaria fazer concessões, ao declarar: “O apoio militar (a Kiev) é um caminho para fortalecer os ucranianos na mesa de negociações…(mas) a questão é: qual o preço a pagar pela paz? Quanto território? Quanta independência? Quanta soberania?”  

Para o presidente norte-americano Joe Biden, a capitulação da Ucrânia antes das eleições de novembro representaria um forte revés político, que seria explorado politicamente pelos republicanos. Biden parece estar mais interessado em não prejudicar as chances do Partido Democrata do que nas mortes e sofrimento do povo ucraniano com o prolongamento da guerra que financia.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

Rússia-Ucrânia: a geopolítica do novo mundo

Por Ruben Rosenthal

O processo-chave neste novo mundo será o chamado “confronto gerenciado” entre a Rússia e o Ocidente, impedindo a escalada espontânea em direção à guerra.

War in Ukraine
Guerra Rússia-Ucrânia: tensões no Leste da Europa. Foto montagem: Kirill Makarov

Tanto cutucaram o urso com vara curta que finalmente ele reagiu. A crise na Ucrânia, que culminou com a invasão russa de 24 de fevereiro, foi em verdade iniciada em 2014, com o golpe apoiado por Barack Obama e que afastou o presidente eleito Viktor Yanukovych através da revolução colorida de Maidan.

Seguiu-se o referendo na Criméia, com 97% dos votantes optando pela incorporação da península à Rússia. Na sequência  cresceu o movimento separatista no Donbass, onde parte significativa da população é de origem russa.

Nos meses recentes, as constantes violações do cessar-fogo entre os separatistas do Donbass e tropas do governo de ultranacionalista de Kiev contribuíram para a escalada das tensões entre Moscou e Kiev.

A intenção explicitada pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky,  de que seu país entrasse para a OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, bem como a concordância de Joe Biden, foram considerados por Vladimir Putin uma ameaça insustentável à segurança da Rússia.

A expansão da OTAN, seguindo-se ao fim da aliança militar do Pacto de Varsóvia (julho 1991) e da União Soviética (dezembro de 1992), já há muito alcançara a fronteira russa. Em dezembro de 2021, a imprensa do ocidente começou a gerar notícias de que uma invasão russa da Ucrânia era iminente.

NATO's eastern expansion
Mapa da expansão da OTAN para o leste da Europa. A Alemanha Oriental foi incluída com a reunificação do país em 1990. Fonte: OTAN

O desenrolar da crise da Ucrânia, desde seu início em 2014 até a escalada de tensões que antecedeu a invasão do território ucraniano, pode ser acompanhada em artigo anterior do blog. Aos Estados Unidos interessam forçar engajamentos militares da Rússia que sobrecarreguem a economia russa, da mesma forma que as sanções aplicadas pelo Ocidente. A receita está explicitada no manual de guerra híbrida da Rand Corporation, think tank financiado principalmente pelo exército norte-americano.

A invasão da Ucrânia tem o potencial de abalar a atual ordem geopolítica. Segundo o veículo informativo alemão Deutsche Welle (DW), analistas consideram que poderá ser revertido “o ordenamento pacífico” (grifo do blog) que muitos previam que iria prevalecer quando a OTAN e a União Europeia começaram a incorporar novos países-membros no Leste da Europa, com o colapso da União Soviética.

Para esses analistas, com a atual crise na Ucrânia os países europeus passariam a ser mais dependentes dos EUA para a defesa de seus territórios, assim como quando do período da Guerra Fria. Também aumentaria a militarização das regiões próximas à fronteira russa.

Para o New Statesman, as relações entre a Rússia e o Ocidente serão alteradas de tal forma que o cenário da geopolítica global poderá ser afetado. Os efeitos desestabilizadores do conflito chegariam a outras regiões na Europa Central, Bálcãs, Ásia Central e ao Pacífico. A questão China-Taiwan voltaria a ficar na ordem do dia, para o veículo de mídia britânico.

Os dois países beligerantes acertaram iniciar conversações na fronteira entre Ucrânia e Bielorússia (Belarus) em 28 e fevereiro. A Rússia certamente não aceitará menos do que a desmilitarização da Ucrânia e o compromisso de não filiação à OTAN.  Por outro lado, pode fazer parte das cartas de Putin que as regiões de Donetsk e Luhansk, no Donbass, voltem se integrar à Ucrânia, mas como repúblicas autônomas. O Protocolo de Minsk de 2014, que já previa a concessão de um certo grau de autonomia para estas regiões, foi então sabotado pela Ucrânia e pelos Estados Unidos.

No entanto, na visão do analista russo Andrey Sushentsov, decano da Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO), poderia estar nos planos de Putin que a Ucrânia venha a se tornar o terceiro membro de uma União de Estados entre Rússia e Bielorrússia. No entanto, considerando que as negociações para se criar a União de Estados entre Belarus e Rússia já se arrastam há mais de 20 anos, fica difícil imaginar como tal solução poderia ser implementada no caso da Ucrânia, senão através de uma adesão compulsória que não seria aceita por parte da população ucraniana.

O artigo de Sushentsov intitulado “Rússia-Ucrânia: Aonde Vais”, publicado em 26.02.2022 no Valdai Club, é apresentado a seguir em sua íntegra1, com tradução2 de Ruben Rosenthal. O autor prevê que o novo ordenamento geopolítico global que se anuncia buscará sua estabilidade através do “confronto gerenciado”.

Russia-Ukraine: Quo Vadis?, por Andrey Sushentsov

“Em 24 de fevereiro, terminou a era da busca da Rússia por seu lugar em um mundo centrado no Ocidente. Neste mundo, todas as iniciativas políticas vieram apenas do Ocidente. Os países ocidentais também determinaram as regras básicas e permitiram, a critério deles, que outros participantes compartilhassem os benefícios da ordem estabelecida.

Nas últimas três décadas, a Rússia procurou encontrar seu lugar neste mundo, de uma forma que estivesse de acordo com seus interesses. De início, com cautela e até timidamente, e depois de forma mais persistente, a Rússia sinalizou que ignorar seus interesses levaria a uma crise mundial.

Em resposta a isso, o Ocidente começou a considerar a Rússia o principal problema enfrentado pela segurança europeia. A questão principal foi estabelecer o grau de culpa da Rússia pelo que estava acontecendo na Europa Oriental – Moldávia, Bielorrússia, Donbass e Crimeia. Ao final de 2020, era rotineiro realizar provocações militares nas fronteiras da Rússia, testando a vontade política da liderança russa quase que diariamente.

A perigosa proximidade de navios militares, as manobras de frotas militares perto das fronteiras da Rússia, provocações no Donbass e na Crimeia, a pressão política constante, as sanções, os ataques cibernéticos, bem como a constante ameaça de escalada do conflito tornaram-se uma característica integral do chamado “diálogo” político com a Rússia.

Ao longo de todas essas décadas, o enfoque russo foi baseado na diplomacia. A resposta russa foi complexa, metódica, e apelou para o senso comum das principais elites do Ocidente. Em uma série de aparições públicas em grandes fóruns estrangeiros e através de uma lista de iniciativas para criar um novo regime de segurança na Europa – como o Tratado Europeu de Segurança – a Rússia buscou que uma sólida e indivisível arquitetura de segurança europeia fosse construída através de acordos e diplomacia.

Quando finalmente percebeu que essas tentativas não tinham sucesso, a Rússia adotou a lógica do Ocidente, segundo a qual a segurança europeia só tinha um problema (a própria Rússia, no entender do Ocidente). Moscou pensa agora também desta forma: o principal problema do sistema de segurança europeu está no ativismo militar dos EUA e da OTAN.

Depois de um tempo, diminuirão as emoções associadas à fase aguda atual da crise, e as negociações inevitavelmente serão retomadas. Mas de qualquer forma, será outro mundo. Neste mundo, a Rússia afastará a fronteira de segurança de suas fronteiras (físicas), para longe em direção ao Ocidente.

A Ucrânia terá um novo governo e será desmilitarizada, com certeza. É mais provável que a Ucrânia se torne o terceiro membro da União (de Estados) entre Rússia e Bielorrússia. Se a ameaça americana de criar um sistema de apoio para ações clandestinas ucranianas, com a implantação de campos no território dos estados da Europa Oriental começar a se materializar, a Rússia terá em mente uma resposta simétrica: forte pressão sobre países da Europa Oriental.

Com o tempo, este confronto híbrido deverá terminar, como terminou antes entre a Rússia e a Turquia, que usaram ferramentas semelhantes de influência uma contra a outra. No novo mundo, a Rússia não tolerará violações dos direitos das pessoas com identidade russa, onde quer que vivam: irá defendê-las com firmeza e persistência.

A troca de ataques cibernéticos se tornará comum em um mundo onde um conflito militar direto entre a Rússia e o Ocidente é impossível. Será relativamente rotineira, para demonstrar as intenções e o potencial militar. No caso do estacionamento de armas ofensivas em países da OTAN nas fronteiras russas, por exemplo, nos territórios dos Estados Bálticos ou da Polônia, a Rússia criará ameaças em lugares inesperados da Europa e do Hemisfério Ocidental.

O processo-chave neste novo mundo será o chamado “confronto gerenciado” (grifo do blog) entre a Rússia e o Ocidente, impedindo a escalada espontânea em direção à guerra. O objetivo da Rússia permanece inalterado – criar um sistema de segurança mais justo na Europa, que leve mais em conta os interesses russos. Este sistema deve basear-se nas regras de comportamento prudente e na recusa em criar ameaças militares mútuas.

A interdependência entre a Rússia e os países do Ocidente será menor, mas não cessará completamente. As entregas de recursos energéticos russos em troca de tecnologias ocidentais continuarão em demanda. Também não é possível excluir completamente a Rússia do sistema financeiro global. No entanto, as sanções impostas pelos EUA e pela UE acelerarão a retirada do dólar dos acordos internacionais.

Embora nas primeiras páginas da mídia mundial vejamos a percepção da crise atual através dos olhos do Ocidente, os atores importantes na situação atual são os estados do Oriente: a China escolheu uma linha cautelosa em relação ao que está acontecendo, e está enviando sinais de que é uma das partes interessadas em criar uma ordem mundial multipolar.

A posição de outros grupos de elite influentes também mostra que eles não estão solidários aos países do Ocidente, com o que está acontecendo. Irã, Azerbaijão, Turquia, Brasil e Paquistão demonstram que seus interesses nacionais são diferentes dos do Ocidente em relação à segurança europeia.

O caráter rotineiro da maior crise militar da Europa desde o ataque da OTAN a Belgrado mostra que as relações internacionais estão voltando ao seu padrão histórico: vários centros de iniciativa que competem entre si pela influência global. Há mais perigos neste mundo, mas também mais cautela.”

1 O blog não necessariamente compartilha de todos os pontos de vista expressos pelo analista russo.

2 Os termos entre parênteses foram acrescentados na tradução.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF e responsável pelo  blogue Chacoalhando.

Brasil participa de manobras navais contra a Rússia no Mar Negro

Por Ruben Rosenthal

Que interesses no Brasil serão favorecidos pelo alinhamento com a política belicista de Biden? A decisão do governo brasileiro não chega a surpreender, vinda de um presidente que bate continência para a bandeira dos EUA. E os militares estão satisfeitos com esta posição subalterna, acreditando que a Rússia ainda é um país comunista?

Logotipo Sea Breeze
Sea Breeze, manobras anuais promovidas pelos EUA e Ucrânia, no mar, terra e ar \ Crédito: C6F-Sexta Frota

A manobra aeronaval Sea Breeze (Brisa do Mar) iniciada em 28 de junho no Mar Negro, nas proximidades do território russo, é liderada pelos Estados Unidos e conta com a participação de 32 países, inclusive do Brasil. As ações vêm na sequência de incidentes ocorridos no Mar Negro, quando um barco patrulha russo fez disparos de aviso contra o destroier da marinha britânica HMS Defender, que entrara em águas territoriais da Criméia, segundo declaração do ministro da defesa russo em 23 de junho.

A manobra faz parte de uma parceria dos EUA com a Ucrânia, e ocorre apenas algumas semanas após a reunião dos presidentes Biden e Putin em Genebra. A participação do Brasil em exercícios militares hostis à Rússia pode levar ao engajamento do país em uma confrontação, que parece reacender o clima da Guerra Fria que prevaleceu por décadas, para benefício da indústria bélica.

O incidente com o destroier HMS Defender

A anexação da Criméia pela Rússia, seguindo-se ao referendo de 2014 em que 97% da população da península teria se manifestado favorável à separação da Ucrânia, nunca foi reconhecida pelo Ocidente. Poucos meses antes da consulta popular, uma revolução colorida orquestrada em Washington tirara do poder o presidente ucraniano eleito, possibilitando a ascensão ao poder da extrema direita ucraniana, ferozmente antirrussa. 

Estes eventos alienaram as populações de origem russa da Criméia e da parte ocidental da Ucrânia.  A região do Donbass tentou seguir o mesmo caminho da Criméia, mas encontrou forte resistência de Kiev, o que originou confrontos bélicos entre o governo central e os separatistas, e o aumento das tropas russas na fronteira, causando alarme na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Este é o clima que antecedeu os exercícios militares deste ano no mar Negro, iniciados pelos britânicos.

O HMS Defender se encontrava no Mar Negro, na rota do porto ucraniano de Odessa para a Geórgia, quando violou águas territoriais na região da Criméia. Segundo o Deutsche Welle, a Rússia declarou que o HMS Defender deixou as águas territoriais russas após os disparos de aviso. Assista o  vídeo liberado pelo FSB, o Serviço de Segurança da Rússia. Um bombardeiro russo SU-24 teria também despejado quatro bombas à frente do Defender, para convencê-lo a mudar o curso.

British navy cruiser HMS Defender is intercepted by russian plane
HMS Defender muda o curso após aviso russo e despejo de 4 bombas pelo avião SU-24 \ Fonte: Less Daily

O ministro da defesa do Reino Unido declarou que “o navio da marinha real estava exercendo passagem inocente através de águas territoriais ucranianas, em concordância com a legislação internacional. E que não ocorreram disparos de alerta”.

Para o ex-embaixador britânico Craig Murray, crítico do belicismo da OTAN, não está em disputa que a Rússia exerce o controle de fato da Criméia, mesmo que a anexação não tenha sido conduzida de acordo com as normas internacionais. Um vaso de guerra navegar em águas territoriais da Criméia equivale a um regimento de tropas desembarcar na península, acrescentou Murray. 

A alegação de “passagem inocente” não procede, considera ele. Trataria-se na verdade de um ato de propaganda, pela presença de uma equipe da BBC a bordo do HMS Defender, como também de busca de informações sobre a defesa militar russa.

Mesmo que o governo de Sua Majestade apoie o pleito ucraniano de soberania, a posição legal seria a de considerar a Rússia como potência ocupante e não violar as águas territoriais da Criméia, avalia o ex-embaixador. Murray ressalta o contraste com que o Reino Unido trata outra potência ocupante, Israel. O próprio Reino Unido ocupa ilegalmente as Ilhas Chagos, em desobediência a diversas decisões de cortes internacionais, conforme denunciou anteriormente Murray.

Sea Breeze, as manobras elevam a tensão no Mar Negro

Os exercícios militares conjuntos entre Ucrânia e EUA no Mar Negro começaram em 1997, dois anos após Rússia e Ucrânia acertarem a divisão da frota, com o fim da União Soviética, conforme outro relato no Deutsche Welle. Com a secessão da Criméia, parte da frota ucraniana passou para a Rússia. 

Conforme relato no America’s Navy, as manobras de 2021 se estenderão de 28 de junho a 10 de julho, contando com a participação de 32 países de seis continentes, com 5.000 tropas, 32 embarcações, 40 aviões e 18 grupos de operações especiais.

Além dos países membros da OTAN e da Ucrânia, participam dentre outros, Israel, Egito, Marrocos, Emirados Árabes Unidos, Coréia do Sul, Japão, Austrália, Suécia, Moldávia, Geórgia e Brasil.

O incidente com  HMS Defender mostrou que a Rússia não está disposta a aceitar provocações sem reagir. Com menos de 6 meses na presidência, Joe Biden parece que fará as tensões entre EUA e Rússia escalarem, levando a uma nova Guerra Fria entre os dois países.  

Que interesses no Brasil serão favorecidos pelo alinhamento com a política belicista de Biden? A decisão do governo brasileiro não chega a surpreender, vinda de um presidente que bate continência para a bandeira dos EUA. E os militares estão satisfeitos com esta posição subalterna, acreditando que a Rússia ainda é um país comunista?

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacolhando.

Presidente da Ucrânia aposta suas cartas em invasão russa?

Por Ruben Rosenthal

Se os russos intervierem, Zelensky tentará convencer o governo alemão a sustar o acordo do gasoduto Nord Stream 2. O novo gasoduto representará um baque devastador na economia da Ucrânia.

Ukrainian serviceman stands in position on the front line with separatists in Donetsk region on February 19, 2021.
Militar ucraniano na linha de frente em Donetsk,  fevereiro de 2021 \ Foto: Anatolii Stepanov / AFP via Getty Images

Relatos recentes sobre a crise na Ucrânia na mídia do Ocidente alertaram sobre o estacionamento de tropas russas na fronteira com a Ucrânia. BBC News: Acúmulo de tropas russas próximo à Ucrânia alarma a Otan. New York Times: Movimento de tropas russas e fala de intervenção causa apreensão na Ucrânia. Wall Street Journal: Imagens de satélite mostram expansão  da presença da Rússia na Ucrânia. 

A mídia do Ocidente especulou  sobre a motivação para as ações de Moscou. Testar a nova administração Biden? Desviar a atenção da prisão de Navalny? Forçar que a Ucrânia restabeleça o fornecimento de água a Criméia, cortado após a união com a Rússia? Ou seria uma retaliação pela perda de influência na Ucrânia? 

Repercutiu também na mídia ocidental a perturbadora previsão do “analista militar” russo, Pavel Felgenhauer, de que com a chegada das tropas russas à fronteira, a crise passou a ter potencial de escalar para uma guerra pan-européia ou mesmo para uma III Guerra Mundial.

Ainda no mês de abril, o cônsul ucraniano em São Petersburgo foi detido sob a acusação de receber informações secretas. As tensões aumentaram ainda mais com o anúncio da Rússia irá restringir por seis meses a navegação no Mar Negro para navios de guerra estrangeiros, com início em 24 de abril.

A atual crise mantém aceso o pavio do conflito iniciado com a revolução colorida de Maidan em fevereiro de 2014 – apoiada pela governo de Barack Obama, e que afastou Viktor Yanukovych, o presidente eleito da Ucrânia. Como reação, vieram na sequência o referendo pró-Rússia na Criméia e os movimentos separatistas na região do Donbass, no leste do país. Desde então já ocorreram cerca de 13.000 mortes nos confrontos de forças de Kiev com os separatistas.

Embora nos últimos dias Putin tenha anunciado a retirada de tropas da fronteira, não há sinais de que a crise tenha se esvaziado. O governo de Kiev vem se recusando sistematicamente a respeitar o Protocolo de Minsk, que deveria levar a um cessar-fogo permanente e à autonomia política do Donbass.

Quando não houver menção em contrário, as análises apresentadas  neste artigo foram extraídas da entrevista concedida pelo analista internacional Mark Sleboda, sediado em Moscou, para a jornalista Anya Parampil, do The Grayzone.

Região do conflito separatista do Donbass
O mapa mostra as regiões sob controle dos separatistas (região hachurada direita) e do governo central, em Luhansk e Donetsk

Ucrânia, um país com profundas divisões históricas

Os ucranianos do oeste do país têm um forte sentimento anti-russo; sua história passa pela Comunidade Polaco-Lituana e pelo Império Austro-Húngaro. Durante a II Guerra Mundial houve colaboração com os nazistas e com o holocausto. Já o leste da Ucrânia, juntamente com a Bielorússia, tem um forte vínculo histórico e cultural com a Rússia, incluindo o uso da mesma língua. Estas divisões históricas se refletiram no mapa dos resultados eleitorais das últimas duas décadas.

Em comum, tanto no leste como no oeste do país, é a forte a influência política dos oligarcas. Ao contrário do que aconteceu na Rússia, onde Putin restringiu a ação dos oligarcas ao campo econômico, afastando-os de interferência na política, na Ucrânia umas poucas famílias dominam a política, controlando os partidos políticos. E isto não mudou com o Maidan.

Maidan, revolução colorida ou golpe?

O presidente Viktor Yanukovych, eleito democraticamente em 2010, era corrupto como corruptos foram todos os seus antecessores. Ele era um líder oriundo da região de Donbass, leste da Ucrânia. Quando procurou um acordo econômico com a União Européia, a contrapartida exigida foi uma terapia de choque neoliberal, que incluía privatizações em massa e alto desemprego, segundo Mark Sleboda.

Ele então tentou obter uma compensação de pelo menos 15 bilhões de dólares para aliviar os efeitos da “terapia”, sem nada conseguir. Com a economia em má situação, Yanukovych procurou os russos, atraindo desta forma a ira dos Estados Unidos, ainda segundo Sleboda,  Seu governo foi então derrubado em fevereiro de 2014, a partir dos protestos iniciados na Praça Maidan, pelo chamado Movimento Euromaidan. 

Após a tomada do poder, as novas autoridades baniram o partido Comunista e todos os partidos de esquerda do país. A intenção era de reorientar a geopolítica da Ucrânia a favor do Ocidente. Para tanto, era necessário derrotar a representação política do leste da Ucrânia, pró-Rússia, através de uma aliança de liberais pró-Ocidente com os ultra-nacionalistas fascistas, que consistiam a vanguarda do Maidan. 

Na sequência da deposição do presidente ocorreram dezenas de milhares de deserções de militares para o Donbass ou para a Criméia. De acordo com o analista russo Ruslan Pukhov, diretor do Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias e editor do jornal Moscow Defense Brief, os militares russos conseguiram convencer oitenta por cento das forças ucranianas na Criméia a desertar. 

Em março de 2014, a população da Criméia votou por avassaladora maioria (96,8%) pela união com a Rússia. Em abril, as regiões administrativas de Donetsk e Luhansk que constituem o Donbass, se proclamaram repúblicas independentes.

Ainda em abril, Kiev enviou tropas para o leste da Ucrânia, colocando o país a beira de uma guerra civil generalizada. Para tentar encerrar o conflito, em 2 de setembro de 2014 foi assinado um acordo entre o regime de Kiev e as autoridades políticas do Donbass.

O Protocolo de Minsk       

Esperava-se chegar à reconciliação política através de uma série de etapas que conduziriam a eleições livres, à  concessão de autonomia política ao Donbass, e ao controle por Kiev da fronteira com a Rússia. As negociações ocorreram na Biolorússia, monitoradas por observadores da OSCE (a Organização para a Segurança e Cooperação Européia), tendo como garantidores, França, Alemanha e Rússia.

O acordo deveria também incluir uma ampla anistia a todos os envolvidos no conflito, bem como o desmantelamento das organizações paramilitares de extrema direita que participaram do Maidan, e que também se envolveram nos confrontos no Donbass. 

Kiev não implementou quaisquer destas medidas, de forma que o conflito armado permanece. Para Mark Sleboda, a liderança de Kiev não tem a menor intenção de se encontrar com as autoridades políticas do Donbass, até porque sua própria legitimidade poderia ser colocada em questão. Entretanto, o protocolo de Minsk permanece como base para um acordo futuro.

Ukraine's President Volodymyr Zelenskiy visits positions of armed forces in Donbass region
Zelensky visita tropas na frente do Donbass, Ucrânia 9 de abril 2021. Serviço da Imprensa Presidencial / EPA

O governo Zelensky

Em 2019 foi eleito o comediante Volodymyr Zelensky para a presidência da Ucrânia, apoiado pelo oligarca Ihor Kolomoisky. Saiu derrotado por larga margem o então presidente e também oligarca, Petro Poroshenko.  Zelensky não conseguiu diminuir a corrupção no país, nem terminar a guerra no Donbass, como também fracassou no combate a pandemia do coronavírus. Ele está confrontando a corte constitucional do país para tentar impor as draconianas reformas requeridas pelo FMI.

Sua taxa de aprovação baixou de 75 para 30%, assim como a popularidade de seu partido, “Servidores do Povo”. Por outro lado, o partido mais popular do país atualmente é o que representa o leste da Ucrânia, “Plataforma de Oposição – Pela Vida”, também liderado por um oligarca – Viktor Medvedchuk.

Zelensky então fechou veículos de mídia, incluindo estações de TV, e está processando Medvedchuk por traição. Tudo para impedir o ressurgimento da oposição política no leste da Ucrânia.

Motivações dos EUA: geopolítica e o gasoduto Nord Stream 2

A administração Biden pode estar apoiando o acirramento da crise, mesmo ao custo de muitas vidas serem perdidas na Ucrânia, acredita Sleboda. Os EUA trouxeram recentemente para Odessa 350 toneladas de equipamentos militares, aumentando as tensões.

O aumento da influência política do leste da Ucrânia representa ao mesmo tempo o aumento da influência russa. Esta mudança geopolítica é algo que certamente a admistração Biden gostaria de evitar. Por outro lado, aos EUA interessaria controlar a segurança energética da Europa e, para tanto, a questão do gasoduto Nord Stream 2 é fator determinante.

Trata-se do segundo gasoduto ligando Rússia e Alemanha, e que possibilitará também a distribuição de energia a outras partes da Europa. Estando praticamente concluído, ele passa sob o Mar Báltico, dispensando as atuais linhas terrestres que atravessam a Ucrânia e Polônia, construídas ao tempo da União Soviética. Estas linhas possibilitaram que por anos Kiev exercesse pressão política sobre a Rússia.

Não apenas Kiev, mas também a Polônia e os Países Bálticos se aliaram aos EUA para impedir a implementação do Nord Stream 2. Os norte-americanos estão impondo sanções às empresas russas e alemãs envolvidas na construção do gasoduto. Empresas de energia européias que investiram na obra também sairiam prejudicadas.

As acusações contra a Rússia, de ter usado o agente neurológico novichok contra o opositor de Putin, Alexei Navalny, foram utilizadas sem sucesso para convencer a Alemanha a cancelar o gasoduto.  

Motivações da Rússia: ofensivas ou defensivas?

Para a Rússia, é de máxima importância a segurança das centenas de milhares de cidadãos do Donbass que têm dupla nacionalidade, bem como a dos 2 a 3 milhões de refugiados do leste da Ucrânia que acolheu quando os conflitos irromperam. Atualmente, como não existe fronteira entre a Rússia e o Donbass, seria muito mais fácil para a Rússia enviar tropas e armas para o leste Ucrânia do que para os EUA armarem o regime de Kiev.

Na primeira quinzena de março, Kiev começou a mover contingentes militares para a fronteira do Donbass, incluindo tanques, sistemas de artilharia, mísseis balísticos, bem como milhares de recrutas. Toda esta movimentação não foi noticiada na mídia do Ocidente, mas não passou despercebida em Moscou. Como dissuasão, a Rússia enviou cerca de 4 mil militares como parte de manobras na fronteira com a Ucrânia, acrescentando ao efetivo de 25 a 30 mil russos lá posicionados desde 2014.

O Centro para a Nova Segurança Americana (CNAS, na sigla em inglês), think tank em Washington, promoveu um debate no podcast Brussels Sprouts (Couve de Bruxelas) sobre o tema das tropas russas na fronteira com a Ucrânia. Os especialistas Michael Kofman e Maxim Samorukov admitiram que os efetivos russos colocados na fronteira com a Ucrânia não tinham uma postura ofensiva.

Sobre as opiniões alarmantes expressas por Pavel Felgenhauer, Sleboda as considera exageradas: “Felgenhauer não é especialista em estudos militares ou de segurança, embora ele se proclame um analista militar. A mídia ocidental recorre a ele quando quer apresentar pontos negativos, em geral falsos, sobre a Rússia”.

Motivações de Kiev: autopreservação do regime

Segundo Sleboda, o motivo real para Zelensky querer ampliar o conflito armado no leste da Ucrânia é fazer com que a Rússia intervenha para proteger o Donbass. A morte de milhares de recrutas ucranianos levaria provavelmente a um rompimento duradouro entre os dois países, o que seria no interesse de Kiev.

Ukrainian soldiers in a trench on the front lines facing Russian-backed separatists near the town of Zolote april 2021
Soldados ucranianos na trincheira, próximo à cidade de Zolote, no leste do país / Foto: AFP/Getty Images

Se os russos intervierem, Zelensky tentará convencer o governo alemão a sustar o acordo do gasoduto Nord Stream 2. O novo gasoduto representará um baque devastador na economia da Ucrânia. Cerca de 18% do orçamento nacional de Kiev é oriundo de taxas recebidas da Rússia e da Alemanha, pela passagem terrestre do gás em território ucraniano por meio das antigas linhas, que perderiam relevância.

O presidente e seu partido passam por uma fase de baixa aprovação. O acirramento da crise com a Rússia poderia trazer mais apoio popular, com um apelo ao nacionalismo extremado. Ao mesmo tempo, ele poderia reprimir a representação política da oposição política do leste do país.

Zelensky deve saber que não conseguirá recuperar o Donbass pela via militar, e provavelmente nem tem interesse nisto. Incorporar novamente ao país cerca de quatro a oito milhões de eleitores significaria fazer o pêndulo do poder político pender a favor dos ucranianos do leste, em um momento de baixa popularidade do presidente e de seu partido. 

Finalizando

Pode ser tentador para Zelensky apelar para um conflito militar interno para resolver seus problemas políticos e econômicos, quando muitas mortes de ucranianos poderiam ocorrer. Mas, mesmo considerando de um lado, o apoio do Ocidente e da Otan ao regime de Kiev, e de outro, o apoio ao Donbass pela Rússia, é bem pouco provável que a Rússia entre em conflito direto com os Estados Unidos e a Otan. A exceção seria caso a Ucrânia fosse incorporada à Otan, o que é inaceitável para Moscou. Resta ver se as tensões de abril irão retroceder ou inflamar a região.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.