Julian Assange é submetido a maus tratos para levá-lo à morte por suicídio, real ou forjado, por Craig Murray

Murray faz um alerta que autoridades britânicas estão propositadamente submetendo Julian Assange à condições de tortura que podem levá-lo ao suicídio, ou mesmo, pretendendo eliminá-lo.

Fila woolwich court
Fila inicial na entrada na Corte de Woolwich, para o julgamento de Assange na Corte de Belmarsh / Reprodução

O atual artigo é tradução do texto de autoria de Craig Murray1, “A Caixa de Vidro Blindado é um Instrumento de Tortura” (The Armoured Glass Box is an Instrument of Torture).

Na audiência em separado na quinta feira, para tratar da questão de Assange poder ficar sentado junto a seu grupo de advogados, ao invés de ser obrigado a ficar na caixa de vidro à prova de balas, pude testemunhar diretamente que a decisão de Baraitser contrária a Assange, foi preparada por ela antes do conselho de Defesa colocar seus argumentos, e levada à Corte sem sofrer qualquer modificação.

Vou começar, explicando a minha posição na galeria do público, em relação à juíza. Durante toda a semana sentei propositadamente em um assento à direita, na galeria. A galeria possui um vidro blindado frontal, e se situa a uma altura de 2 metros acima do recinto da corte. Ela dá para um lado da Corte, sendo que a parte mais a direita, fica acima da bancada do juiz, que se senta na perpendicular. É notável que dos assentos à direita da galeria pode-se ter uma visão ininterrupta do topo de toda a bancada do juiz, incluindo os papéis e a tela do computador.

O advogado de defesa, Mark Summers, ressaltou que no caso “Belousov vs Rússia”, a Corte Européia de Direitos Humanos decidiu contra a Rússia, porque durante o julgamento, Belousov ficou em uma cela de vidro, de construção praticamente idêntica à que Assange permaneceu. Isto prejudicou a participação de Julian durante o julgamento, e seu livre acesso aos advogados, além de privá-lo de dignidade humana, como réu.

Summers salientou que era prática habitual, certas categorias de prisioneiros não condenados, serem liberados do banco dos réus, para sentarem junto a seus advogados. A Corte tinha relatórios psiquiátricos da extrema depressão clínica de Assange, e o guia de melhores práticas do Departamento de Justiça do Reino Unido estabelece que pessoas vulneráveis devem se sentar junto a seus advogados. Não se estava solicitando tratamento especial para Assange, e sim que ele fosse tratado como qualquer outra pessoa vulnerável.

A Defesa foi impedida  de se comunicar confidencialmente com seu cliente durante os procedimentos. No próximo estágio do julgamento, quando as testemunhas serão ouvidas, é essencial a comunicação no momento correto.

Além disto, se os advogados só puderem falar com ele através da fenda no vidro, na presença de microfones, suas conversas poderão ser ouvidas pelos agentes da empresa privada de segurança  que estão vigiando Assange.  Foi esclarecido que os agentes são da Serco, e não do Grupo 4, como Baraitser havia dito no dia anterior.

A magistrada ficou de mal-humor, e falou com uma voz cortante, perguntando sarcasticamente à Summers: “Quem são aquelas pessoas sentadas atrás de você?”. Tratava-se de uma pergunta para a qual ela sabia perfeitamente a resposta. Summers respondeu que eles faziam parte do time legal da Defesa, a que Baraitser replicou que Assange poderia fazer contato com eles, caso precisasse repassar algum ponto.  

Summers respondeu que havia a mureta (abaixo do vidro blindado) e um corredor, separando a cela dos assentos e pessoal da Defesa. Tudo o que Assange podia ver de onde estava, era a parte de trás da cabeça de seus advogados. Baraitser disse então que Assange poderia chamar por eles. Summers replicou que não era confidencial nem satisfatório, gritar no recinto da Corte.

foto de assange no tribunal
Assange e agente de segurança na cela de vidro blindado / Le Grand Soir

A foto incluída (já mostrada em artigo anterior),  foi tirada ilegalmente – não por mim, e mostra Assange (em sua cela blindada) na Corte (demonstrando o ponto levantado por Summers).

Pode-se ver a mureta baixa de madeira e a (estreita) passagem entre ela e os assentos traseiros da equipe da Defesa (bem como as frestas no vidro). Pode-se também ver um dos oficiais da Serco dentro da caixa blindada, fazendo a vigilância de Assange.

Baraitser disse que Assange poderia passar notas, e que ela já o presenciou fazendo isto (pelas frestas).  Ela acrescentou que poderia levar o caso a Serco, pois era assunto para as autoridades prisionais.

Summers asseverou que, contrariamente ao que Baraitser declarou no dia anterior, ela realmente tem jurisdição na questão de liberar Assange do banco (cela) dos réus. Baraitser interveio para dizer que ela agora aceitava isto (grifo do tradutor).

Summers disse, em reposta, que ele havia apresentado (os pareceres de) uma série de autoridades, para mostrar que Baraitser também estava errada em dizer que “custódia” poderia apenas significar “ficar no banco dos réus”. Pode-se ficar sob custódia em qualquer lugar dentro da Corte, ou mesmo fora, acrescentou o advogado.

Baraitser ficou muito chateada com esta observação, e declarou que ela apenas tinha dito que “entregar (um acusado) à custódia da Corte é igual a deixá-lo no banco dos réus”. Summers, agora muito aborrecido, replicou memoravelmente: “Bem, isto também está errado, e esteve errado nestes últimos oito anos” (Assange ficou asilado por sete anos na Embaixada do Equador).

Encerrando a fase de argumentação, Baraitser proferiu seu julgamento na questão. Um ponto interessante, do qual eu sou uma testemunha direta, (pela visão privilegiada da bancada da juíza). Ela trouxe consigo para a Corte, um pacote contendo várias páginas escritas, e fez a leitura, sem fazer  qualquer emenda (ao que estava escrito). A juíza já havia tomado sua decisão antes de sequer escutar a Summers (pela Defesa).

Os pontos principais que ela colocou foram que Assange podia se comunicar com seus advogados, se gritasse a partir da caixa. Que ela tinha presenciado a passagem de notas por ele. Que estava disposta a adiar a Corte, a qualquer momento, para Assange poder se reunir a seus advogados nas celas, podendo levar o tempo que fosse necessário, mesmo que isto representasse estender a audiência por 3 a 6 semanas, .

Baraitser declarou que nenhum dos relatórios psiquiátricos a que teve acesso, estabeleceu que era necessário que Assange deixasse a cela blindada. Como a nenhum dos psiquiatras foi perguntado isto – e muito provavelmente nenhum deles sabia algo do leiaute da Corte – mal me surpreende (o parecer dos psiquiatras, considerou Murray).

Eu estive refletindo sobre qual o motivo de ser tão essencial para o governo britânico manter Assange naquela caixa, sem capacidade para escutar os procedimentos ou instruir seus advogados, em resposta à evidências (apresentadas pela Acusação), mesmo quando a governo dos EUA já disse que não tem objeção a que Assange ocupe um assento no interior da Corte.  

A resposta está no laudo psiquiátrico de Assange, entregue a Corte pelo renomado Professor Michael Kopelman, conhecido por quem leu o meu livro, Murder in Samarkand.

Para Kopelman: “O Sr. Assange apresenta, virtualmente, todos os fatores de risco que pesquisadores de Oxford descreveram em prisioneiros que, ou se suicidam, ou fazem tentativas letais….Eu estou certo, como psiquiatra, que se a extradição  para os Estados Unidos se tornar iminente, o Sr. Assange pode encontrar uma forma de cometer suicídio.”

 O fato de Kopelman não ter especificamente declarado, que a caixa de vidro blindado é ruim para Assange, não representa nada além do fato que a ele, não foi feita esta pergunta. Qualquer ser humano, minimamente decente, seria capaz de fazer a associação.  

A colocação estreita de Baraitser, de que o psiquiatra não havia especificamente asseverado que Assange deveria ser liberado da caixa blindada, é tremendamente insensível, desonesta e desumana. É quase certo que psiquiatra algum iria conceber que a juíza se posicionasse a favor de impor tal tortura.

Por que Baraitser está fazendo isto? Eu acredito que um intelectual nerd em computação como Assange, ser confinado ao estilo de Hannibal Lector (o personagem canibal, magistralmente impersonado no cinema por Anthony Hopkins), sem qualquer base racional, se trata de uma ação deliberada para levar Assange ao suicídio. A Corte anti-terrorista de segurança máxima está fisicamente dentro do complexo fortificado, que abriga uma prisão de segurança máxima.

Julian é trazido algemado e sob forte escolta, de sua cela solitária para a cela blindada da Corte, através de um túnel, o mesmo se repetindo no retorno. Nestas circunstâncias, que necessidade poderia haver para ele ser desnudado, e ter suas cavidades continuamente revistadas? Por que a ele não é permitido ter seus papéis na Corte? O mais revelador para mim, foi é o fato de que ele não é autorizado a apertar às mãos, ou ter contato físico com seus advogados através das frestas na caixa blindada.  

Eles então, implacavelmente, impondo a negação sistemática de qualquer conforto humano básico, como o toque de dedos entre amigos, ou bloqueando o alívio que ele poderia ter por apenas estar ao lado de alguém amigável. Eles estão se assegurando da continuação dos extremos efeitos psicológicos do isolamento, decorrentes de um ano de virtual confinamento em solitária.

Um pouco que fosse de conforto humano, poderia fazer um enorme bem a seu estado mental e resiliência. Eles estão determinados a não permitir isto a qualquer custo. Eles estão tentando fazer com que Julian se mate, ou criar as condições para que uma morte por estrangulamento, possa ser explicada como suicídio (grifo do tradutor).

Esta é também a única explicação que posso pensar sobre porque eles estão se arriscando em criar tão óbvias condições indecentes. Mortos não podem apelar (à Suprema Corte).

Eu gostaria de lembrar que Julian está em prisão preventiva, tendo cumprido à uma longa sentença, sem precedente, por violação da fiança. Seu atual status é, supostamente, o de um homem inocente enfrentando acusações. Estas acusações são por nada além de publicar as revelações de Chelsea Manning (então Bradley Edward Manning) sobre crimes de guerra.

Para mim, parece certo que Baraitser está atuando sob instruções. No decorrer do julgamento, ela tem desesperadamente aproveitado qualquer oportunidade, para negar ter responsabilidade pelo que está acontecendo com Julian.

Ela tem declarado não ter jurisdição sobre o tratamento por ele recebido na prisão. Mesmo quando, tanto Defesa como Acusação, se juntaram para declarar que era prática normal de magistrados, transmitir instruções ou pedidos ao serviço prisional, ela se recusou a aceitar desta forma.

Baraitser está claramente tentando se distanciar, psicologicamente, de qualquer ação que está ocorrendo. Para este fim, ela fez uma série de negativas de responsabilidade de jurisdição ou de sua capacidade de influenciar os eventos.

Disse que não tinha jurisdição em interferir com as (frequentes) revistas íntimas, algemas, e remoção dos papéis de Assange, ou por ele ser mantido em confinamento na solitária. Disse também, que não tinha jurisdição para requerer que os advogados de Defesa pudessem ter maior acesso ao cliente na prisão, para o preparo da argumentação.

E disse ainda, não ter jurisdição sobre a local de Julian ficar no recinto da Corte. A magistrada sugeriu, várias vezes, que cabia ao Serco decidir se Julian poderia passar anotações a seus advogados, e ao Grupo 4, decidir se (o acusado) poderia ser liberado da caixa blindada.

Os momentos em que ela (visivelmente) demonstrou mais contentamento, foram ao escutar James Lewis, o advogado de acusação, argumentar que ela (Baraitser) não tem outra decisão a tomar, senão concordar com a extradição, porque está em bom formato (jurídico), e que o Artigo 4 do Tratado de Extradição Reino Unido/Estados Unidos não tem validade legal.

Um membro da família Assange me disse, ao final desta semana inicial (do julgamento), que Baraitser parece muito preguiçosa, e, por este motivo, bem satisfeita em aceitar qualquer argumento que reduza o que ela precise fazer. Eu penso de forma diferente.  

Acredito que deva existir um cantinho na mente desta filha de dissidentes do apartheid (da África do Sul), que rejeita seu próprio papel na tortura de Assange, e que está continuamente insistindo: “Eu não tive escolha, eu não tive atuação”. Aqueles que sucumbem ao mal, procuram (se enganar, com) qualquer conforto que puderem conseguir.

Notas do tradutor: 

1. Craig Murray, blogueiro, escritor e ativista pela independência da Escócia, foi diplomata e embaixador do Reino Unido, além de reitor da Universidade de Dundee.

2. Informações explicativas  pelo tradutor foram colocadas em parênteses.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

Dia 4 de um processo infame: uma descrição detalhada do julgamento para a extradição de Assange, por Craig Murray

O texto que se segue é uma tradução do artigo de Murray1, em que ele, relatando na primeira pessoa do singular, nos transporta para dentro do recinto da Corte. Com base em sua experiência como diplomata ele expõe as falácias da Promotoria.

manifestntes pro assange
Manifestação em Londres, com a presença do pai de Assange  /  Foto  P. Nicholls/Reuters

Dia 27, quinta-feira. A acusação continuou com sua argumentação de que a cláusula  do Tratado de Extradição de 2007 entre Reino Unido (RU) e os Estados Unidos (EUA), que barra a extradição por (crimes ou) ofensas políticas2, é letra morta, e que, de qualquer forma, os objetivos de Julian Assange não são políticos.

Pela Acusação, o advogado James Lewis falou por cerca de uma hora, e Edward Fitzgerald, pela Defesa, fez uso do mesmo tempo, em sua réplica. Durante a apresentação de Lewis, ele foi interrompido uma única vez pela juíza Baraitser, enquanto que, durante a apresentação de Fitzgerald, ela interferiu 17 vezes.

Na transcrição, estas interrupções até podem parecer razoáveis:
“Poderia esclarecer para mim, sr. Fitzgerald…”
“Então como você lida com o ponto que o sr. Lewis…”
“Mas certamente que é um argumento que dá voltas …”
“Mas não está incorporado, está?….”

Estas, e outras dezenas de interrupções são planejadas para parecer que a juiza está tentando esclarecer o argumento da defesa com um espírito de teste intelectual. Mas não era nada disto. Se você apenas tivesse escutado o tom da voz de Baraitser, e visto sua linguagem corporal e expressões faciais (concordaria comigo).

A falsa imagem que a transcrição pode passar é exacerbada pela cortesia com que Fitzgerald continuamente replicava a cada óbvio assédio, com “obrigado madame, isto é muito útil”. Se você estivesse lá, veria que era exatamente o oposto.  

Mas uma transcrição (completa) poderá mostrar que foi parte da tática de Baraitser, fazer uso de sua tribuna belicosa para interromper Fitzgerald, de novo e de novo, menosprezando seus pontos. De forma deliberada, ela impedia que o advogado conseguisse fazer sua argumentação fluir. O contraste com o tratamento dado a Lewis não podia ser mais evidente.

Então, vamos agora às argumentações legais (do dia).

James Lewis, pela Promotoria, continuando seus argumentos do dia anterior, disse que o Parlamento não havia incluindo o impedimento da extradição por ofensas políticas, na Lei de 2003. Então, portanto, este impedimento não poderia ser reintroduzido na legislação, por meio de um tratado. “Introduzir este impedimento pela porta dos fundos, seria subverter a intenção do parlamento.”

Lewis também argumentou que as ofensas (cometidas por Assange) não eram políticas. A definição de uma ofensa política estava limitada, no Reino Unido, ao comportamento com a intenção “de derrubar ou mudar um governo, ou induzí-lo a mudar sua política”. Além disto, o objetivo deve ser “mudar por curto prazo o governo ou a política, não por tempo indeterminado”.

Lewis declarou que o termo “ofensa política” poderia apenas ser aplicado à ofensas cometidas dentro de território onde se tentava fazer a mudança. Então, Assange deveria ter cometido as ofensas (de que é acusado) dentro do território norte-americano, o que não foi o caso. (Então, as supostas ofensas por ele cometidas, não seriam de natureza política).

Se Baraitser decidisse que a barreira à extradição por ofensas políticas era aplicável, a Corte teria que determinar o significado de “ofensa política” no Tratado de Extradição UK/US, e estabelecer o significado das cláusulas 4.1 e 4.2. Estabelecer os termos de um tratado internacional está além dos poderes da Corte.

Lewis explanou que a conduta de Julian Assange não podia possivelmente ser classificada como uma ofensa política: “É impossível colocar Julian Assange na posição de um refugiado político. A atividade na qual Wikileaks estava engajado não era oposição política à administração dos EUA, ou uma tentativa de derrubar aquela administração. Portanto, a ofensa não era política.”

Pela defesa, Edward Fitzgerald replicou que a Lei de Extradição de 2003 era uma lei habilitante, sob a qual tratados podiam operar. “O Parlamento havia se preocupado em remover a possibilidade de que o impedimento à extradição por ofensa política, pudesse incluir atos terroristas de violência contra civis inocentes. Mas permaneceu uma clara proteção, aceita mundialmente, para a dissidência política pacífica. Isto ficou refletido no tratado de extradição, no qual a Corte estava se baseando.”

Baraitser interrompeu para dizer que o Tratado de Extradição UK/US não foi incorporado à lei inglesa. Fitzgerald replicou que a requisição de extradição está baseada no tratado. “Consistiria de abuso do processo pelas autoridades, contar com o tratado para requisição (da extradição), e então pretender que suas cláusulas não se aplicam.”

E continuando: “Em face disto, é um argumento muito bizarro que um tratado que dá origem à extradição, e na qual a extradição é fundamentada, possa ser desconsiderado em suas cláusulas. É um absurdo.” Fitzgerald acrescentou que as cortes inglesas interpretam tratados o tempo todo, e deu exemplos (não citados por Murray).

Fitzgerald colocou que a defesa não aceitava que traição, espionagem e rebelião não fossem consideradas ofensas políticas na Inglaterra. “Mas, mesmo que alguém aceitasse a definição estreita de Lewis para ofensa política, o comportamento de Assange ainda se enquadraria no teste”, ponderou ele.

E acrescentou: “O que mais na terra poderia ser o motivo para se publicar evidências de crimes de guerra de governos e de corrupção, que não mudar a política de um governo? Realmente, as evidências irão demonstrar que (a ação do) Wikileaks efetivamente mudou a política do governo dos EUA, particularmente sobre o Iraque.”

Baraitser (mais uma vez) interrompeu, para dizer que expor mal feitos de um governo, não era a mesma coisa que tentar mudar a política deste governo. Fitzgerald perguntou a ela, finalmente com alguma exasperação após tantas interrupções, que outro ponto poderia haver em expor mal feitos de um governo, senão (tentar) induzir a mudança de uma política governamental?

Com isto foram concluídos os argumentos de abertura pela Acusação e Defesa.

Comentários de Craig Murray. Vou colocar da forma mais neutra possível. Se você acha que o argumento de Lewis era bem mais lógico, racional e intuitivo que o de Fitzgerald, você pode aceitar que Lewis não precisava de interrupção (pela magistrada), enquanto Fitzgerald tinha de ser continuamente interrompido para “esclarecimentos”.  

Mas Lewis estava defendendo que cláusulas do próprio tratado, pelo qual a extradição é feita, não se aplicam, uma lógica que qualquer passageiro de ônibus pode achar que precisa de mais verificação que a asserção contrária de Fitzgerald.

O assédio comparativamente maior de Baraitzer em Fitzgerald, quando ele levava o advogado de acusação às cordas (do ringue), era como se saísse diretamente do manual de um julgamento-show estalinista.

A defesa não mencionou, e não sei se consta em seus argumentos escritos, mas achei que o ponto que Lewis levantou, de que as ofensas não podiam ser políticas, porque Assange não estava nos Estados Unidos quando as cometeu, foram desonestas de tirar o fôlego. Os Estados Unidos proclama jurisdição universal.

Assange está sendo acusado por crimes de publicar vazamentos que foram cometidos quando estava fora dos Estados Unidos. Os EUA clamam pelo direito de acusar qualquer um, de qualquer nacionalidade, em qualquer lugar do mundo, que fira seus interesses.  Além disso, eles também defendem que, como os materiais (vazados) podem ser vistos na internet, isto também é uma ofensa nos EUA.

Ao mesmo tempo, proclamar que isto não poderia ser uma ofensa, porque o crime foi cometido fora dos EUA é um “absurdo”, como Edward Fitzgerald diria. Curiosamente, Baraitser não deu atenção (a este ponto).

O argumento de Lewis que o tratado de extradição não tem nenhuma base na lei inglesa não é algo que ele tenha fabricado agora. Nigel Farage (considerado o reacionário mais perigoso da Grã-Bretanha) não se materializou de lugar algum. Existe, na verdade, uma longa tradição na lei inglesa, que, mesmo um tratado assinado e ratificado com algum “paiseco”, não pode se impor a Corte inglesa.

Lewis poderia despejar resmas e resmas de julgamentos de velhos juizes com cara de beterraba, discorrendo para dizer exatamente isto na Câmara dos Lordes, antes de sairem para atirar em pássaros. Lewis gostava especialmente do caso Tin Council3.

Existe, naturalmente, seguindo uma tradição contrária e mais iluminada, um certo número de julgamentos que dizem exatamente o oposto, principalmente mais recentemente. Foram muitos os argumentos repetitivos dos dois lados, empilhando mais e mais volumes de “autoridades” em favor de cada lado do caso.

A dificuldade para Lewis – e para Baraitser – é que este caso não é análogo a eu comprar uma barra de chocolate Mars, e então ir a uma Corte porque um tratado internacional diz a minha barra de Mars é muito pequena.

O Lei de Extradição de 2003 é antes uma Lei Habilitante, da qual tratados de extradição dependem. Não se pode extraditar pela Lei de 2003, sem o Tratado.  Assim, o Tratado de Extradição de 2007, em um sentido muito real, se torna um instrumento executivo legalmente exigido, para se poder autorizar uma extradição.

Para as autoridades quebrarem os termos do instrumento executivo necessário sob o qual elas atuam, simplesmente constitui um abuso de processo. Assim, o Tratado de Extradição, devido a seu tipo e sua necessidade para a ação legal, está de fato incorporado na Lei Inglesa, pela Lei de Extradição de 2003, da qual ele depende.

O Tratado de Extradição é uma necessária pré-condição para a extradição, enquanto que, o Tratado da Barra de Chocolate Mars não é necessariamente precondição para se comprar a Barra Mars. Esta é a forma mais clara que posso colocar, e espero que tenha sido compreensível.

É naturalmente difícil para Lewis (pela Acusação), que neste mesmo dia (do julgamento), a Corte de Apelações estava legislando contra a construção da Terceira Pista do Aeroporto Heathrow, em parte pela incompatibilidade com o Acordo de Paris de 2016, apesar deste Acordo não ter sido totalmente incorporado na legislação inglesa pela Lei de Mudança de Clima, de 2008.

Experiência Pessoal de Vida. É muito embaraçoso para o Ministério das Relações Exteriores (Foreign and Commonwealth Office, FCO), quando uma corte inglesa repudia a aplicação de um tratado que o Reino Unido ratificou, com um ou mais Estados. Por esta razão, no mundo moderno, procedimentos e precauções muito sérias foram colocadas em prática, para garantir que isto não possa acontecer.  

Portanto, deve ser impossível o argumento da Acusação, que cláusulas do Tratado de Extradição UK/US de 2007 não são passíveis de serem implementadas, devido a Lei de 2003.

Preciso explicar que eu mesmo, dentro do FCO, negociei e supervisionei a entrada em validade de tratados. O último que pessoalmente “amarrei”, e, literalmente, coloquei o selo de cera, foi o Tratado Anglo-Belga de 1991, mas estive envolvido na negociação de outros.  O sistema que agora vou descrever estava ainda vigorando, quando deixei o FCO, como embaixador, em 2005.

Vale relembrar que a Lei de Extradição é datada de 2003, e que o Tratado de Extradição UK/US foi ratificado em 2007. Então, pelo meu conhecimento, (este tratado) não está ultrapassado. Nomenclaturas departamentais mudam, de tempos em tempos, assim como a estrutura organizacional. Mas permanecem os escritórios e as funções que irei descrever, mesmo que os nomes sejam (agora) diferentes.

Todos os tratados internacionais tem um processo de dois estágios. Primeiramente eles são assinados, para mostrar que o governo concorda. Então, após um certo tempo, eles são ratificados. Este segundo estágio ocorre quando o governo já habilitou a legislação e as agências necessárias para a implementação do tratado. Esta é a resposta para a observação de Lewis, sobre o papel do executivo e do legislativo. O estágio da ratificação ocorre apenas após (adotada) qualquer ação legislativa requerida. E não é tudo.

Isto é o que ocorre no FCO: Oficiais negociam o tratado de extradição. Este é assinado pelo Reino Unido. O tratado assinado retorna para os conselheiros legais do FCO, Departamento de Tratados e Nacionalidade, Departamento Consular, Departamento Norte Americano (neste caso), e outros (que forem necessários), para então ser enviado aos advogados do Escritório do Gabinete/Tesouro (Treasury/Cabinet Office), ao Ministério do Interior (Home Office), Parlamento, e qualquer outro Departamento de Governo, cuja área seja impactada pelo tratado em questão.

O Tratado é minuciosamente examinado, para checar se pode ser implementado em todas as jurisdições do Reino Unido. Se não pode, então emendas a lei precisam ser feitas, para que ele possa então ser implementado. Estas emendas podem ser feitas por uma Lei do Parlamento, ou por legislação secundária, usando os poderes conferidos por lei ao Secretário de Estado.

Se já existe uma Lei do Parlamento, pela qual o tratado possa ser implementado, então nenhuma legislação habilitante precisa ser aprovada. Nem todos os Acordos Internacionais são individualmente incorporados às leis inglesas ou escocesas, por legislação nova específica.

Este é um cuidadoso procedimento, feito passo a passo, conduzido por advogados no FCO, Tesouro, Cabinet Office, Home Office, Parlamento e outros. Cada um irá examinar cada cláusula do tratado, e garantir que ela possa ser aplicada. Todas as mudanças que forem necessárias, precisarão ser feitas através de emendas à legislação, e das devidas etapas administrativas.  

Somente quando todos os obstáculos forem superados, com todos os setores mencionados acima certificando que o Tratado é capaz de ter efeito no país, então os Conselheiros Legais do FCO darão a autorização para a ratificação. O tratado não pode ser ratificado sem a liberação pelos Conselheiros Legais do FCO.

Este é o motivo pelo qual o Tratado de Extradição UK/US foi assinado em 2003, e ratificado apenas em 2007. Não ocorreu um atraso anormal. Trata-se de um processo sério.

Então, eu tenho certeza, que TODOS os departamentos legais relevantes do Governo Britânico, DEVEM ter concordado que o artigo 4.1 do Tratado era capaz de ter validade pela Lei de Extradição de 2003. Esta certificação precisa ter ocorrido, ou o Tratado não teria sido ratificado.

Decorre então, que agora, por necessidade, o Governo do Reino Unido está procurando argumentar que o Artigo 4.1 do Tratado é incompatível com a Lei de 2003, sabendo que está mentindo. Não poderia haver um abuso de processo mais grosseiro.  

Notas do tradutor: 

1. Craig Murray, blogueiro, escritor e ativista pela independência da Escócia, foi diplomata e embaixador do Reino Unido, além de reitor da Universidade de Dundee.

2. No artigo 4 do Tratado de Extradição, a cláusula 4.1 diz que a “extradição não será concedida, se a ofensa para qual a extradição é requerida é uma ofensa política”. A cláusula 4.2 especifica quais as ofensas não serão consideradas como políticas.

3. A organização “The International Tin Council” foi constituída por um tratado internacional, não incorporado à lei do Reino Unido, e foi agente contratante no país. Julgando uma questão que envolvia reclamação de débitos do Tin Council contra seus contratados, a Câmara do Lordes decidiu que, pela legislação doméstica, um tratado não incorporado não cria direitos ou obrigações.

4. Informações explicativas  pelo tradutor foram colocadas em parênteses.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense e responsável pelo Blogue Chacoalhando.

Dia 3 de um processo infame: uma descrição detalhada do julgamento para a extradição de Assange, por Craig Murray

O texto que se segue é uma tradução do artigo de Murray1, em que ele, relatando na primeira pessoa do singular, nos transporta para dentro do recinto da Corte

conoravirus assange
Proteja a liberdade e evite o coronavírus   /  Foto Hannah Mckay / Reuters

Dia 26, quarta-feira. Nos procedimentos na Corte, a acusação adotou argumentos tão rígidos, e aparentemente nada razoáveis, que fiquei aflito em como escrever a respeito, de forma que não parecesse caricatural ou um exagero de minha parte.  

O que vem acontecendo nesta Corte, já há muito ultrapassou a caricatura. Tudo o que posso fazer é apresentar a minha garantia pessoal, que o relato que apresento corresponde a verdade do que ocorreu. Como usual, irei lidar primeiro com assuntos processuais e do tratamento de Julian, antes de entrar em uma clara narrativa dos argumentos legais feitos.

Vanessa Baraitser está sob clara instrução de fingir preocupação, perguntando perto do final de cada sessão, poucos antes de interromper, se Julian está se sentindo bem e se ele gostaria de uma interrupção. Ela, então, rotineiramente ignora a resposta dele.

Julian vinha alegando que não podia ouvir bem de dentro de sua caixa de vidro, e que não podia se comunicar com seus advogados. Em certo momento, os guardas da corte passaram a evitar que ele passasse bilhetes para seu advogado, o que motivou, segundo soube, que seu aperto de mão de despedida com Garzon, fosse impedido de forma agressiva. A foto a seguir de Julian Assange em sua cela, foi tirada secretamente, e publicada no Le Grand Soir.

foto de assange no tribunal

Baraitser insistiu que Assange só pode ser ouvido através de seus advogados. Chega a ser irônico, considerando que Julian foi impedido de instruí-los. Tivemos um intervalo de dez minutos, enquanto ele e seu advogado puderam conversar nas celas, presumivelmente onde podiam ser mais convenientemente espionados, de novo.

Na volta, Edward Fitzgerald fez uma solicitação formal para que fosse permitido a Julian sentar ao lado de seus

advogados na Corte. Julian era “um intelectual e um homem gentil”, não um terrorista. Baraitser replicou que transferir  Assange (da caixa de vidro) para a Corte em si, equivaleria a removê-lo da custódia. Para se chegar a isto, precisaria haver uma solicitação de fiança.

Uma vez mais, o advogado pela Acusação, James Lewis, interveio ao lado da Defesa, para tentar tornar menos radical o tratamento recebido por Assange. De forma tímida, ele disse que não estava certo se era necessário solicitar fiança para Julian poder ficar na própria Corte, ou (mesmo) se ficasse na Corte, acompanhado de oficiais de segurança, significaria que o prisioneiro não estaria mais em custódia.

E continuou: “Prisioneiros, mesmo os mais perigosos terroristas, prestaram evidência se colocando próximo a advogados e ao magistrado. Na Alta Corte, os prisioneiros frequentemente se sentam com seus advogados nas audiências de extradição, sendo que nos casos extremos de criminosos violentos, estes ficam algemados a um oficial da segurança.”

A magistrada replicou que Assange pode representar um risco para o público. Era uma questão de saúde e segurança. Teria que caber ao Grupo 4 decidir se isto era possível. Sim, ela realmente disse isto: “O Grupo 4 teria que decidir”. Será que Fitzgerald and Lewis chegaram a pensar (por breve um momento) se Baraitser teria a habilidade de conduzir a necessária avaliação de risco?

Baraitser começou a usar jargões como um “Dalek” (mutantes extraterrestres, na série de ficção científica britânica Doctor Who) girando fora de controle1. “Avaliação de risco”, “saúde e segurança”, “sem jurisdição”, “cabe ao grupo 4”? Ela começou a parecer algo pior que um Dalek: um oficial de governo local de baixíssimo escalão, e particularmente estúpido.

Se recuperando um pouco, ela declarou com firmeza, que colocar em custódia pode significar unicamente colocar no banco dos réus (no caso, em uma cela envidraçada), em nenhum outro local. Se a defesa queria que Assange (fosse integrado) ao recinto da Corte, onde pudesse escutar melhor os procedimentos, deveria entrar com pedido fiança e de sua retirada da custódia. Ela então lançou um olhar aos dois advogados, na esperança que eles sentassem, mas ambos permaneciam ainda de pé.

Em seu modo tímido, Lewis disse que “a acusação está neutra sobre esta solicitação, naturalmente, mas eu realmente não penso que esteja correta (a ação da magistrada)”. Ele olhou para ela, como um tio gentil, cuja sobrinha favorita começou a beber tequila da garrafa em uma festa de família.

Baraitser concluiu o assunto, declarando que a Defesa deveria submeter argumentos por escrito sobre este assunto, até às 10 da manhã do dia seguinte, e ela então conduziria uma audiência separada, para tratar da questão da posição de Julian na Corte.

O dia começou com uma magistrada Baraitser se dirigindo ao público da galeria, de forma muito irritada. Ela disse que no dia anterior, uma foto havia sido tirada no interior da Corte. E que era uma ofensa criminal, bater ou tentar bater fotos dentro da Corte. Vanessa Baraitser pareceu muito a fim de querer trancafiar alguém.

Ela também pareceu, em sua raiva, fazer a infundada presunção que a pessoa que da galeria tirou a foto na terça-feira, estava também presente na quarta. Eu suspeito que não. Ficar zangada com o público em geral deve ser muito estressante para ela. Eu suponho que ela grite muito nos trens.

Baraitser não especificou se era uma ofensa criminal publicar ou tentar publicar uma foto tirada em um tribunal.  De qualquer forma, o periódico (francês) Le Grand Soir, publicou uma tradução de meu relatório de ontem, acompanhando o artigo com uma foto de Julian em sua cela anti-terrorista. Me apresso em acrescentar, que a foto não foi tirada por mim.  

Baraitser não gosta de fotografia. Ela parece ser a única figura pública na Europa Ocidental que não tem nenhuma foto na internet, o que não representa um crime. Mas suspeito que deletar (todas as fotos) exija esforço considerável. Alguém me sugeriu que ela possa ser um holograma, mas não creio, pois mesmo hologramas têm mais simpatia.

Vamos agora as considerações dos argumentos legais, relativas ao pedido de extradição, deste terceiro dia de audiência. Felizmente eles são basicamente simples de resumir, porque embora tivéssemos cinco horas de dissertações legais, estas consistiram, em grande parte, de ambos os lados competindo em citar números de “autoridades”, melhor, juízes mortos, para endossarem seus pontos de vista.  E então repetir os mesmos pontos continuamente, pouco se obtendo da explicação das inúmeras citações.

Conforme já indicado de véspera pela magistrada, a Acusação está argumentando que o artigo 4 (que trata de ofensas políticas e militares) do Tratado de Extradição entre o Reino Unido e os Estados Unidos não tem a força de lei. Os governos destes dois países dizem que a Corte faz valer a lei doméstica, não a internacional, e, portanto, o Tratado não tem supremacia.

Este argumento foi feito à Corte na forma escrita, a qual eu não tive acesso. Mas, pela discussão, ficou claro que a Acusação argumenta que a Lei de Extradição de 2003, no qual a Corte se apóia, não fez exceção para ofensas políticas. “Todas as leis de extradição anteriores excluíam a extradição por ofensas políticas. Assim, deve ser a intenção do parlamento soberano que infratores políticos possam agora ser extraditados.”

Iniciando sua argumentação pela Defesa, Edward Fitzgerald argumentou que a Lei de Extradição de 2003 não é suficiente para que uma extradição seja autorizada. A extradição requer duas condições satisfeitas: A lei de extradição geral, e o tratado de extradição com o país ou países envolvidos. “Sem tratado, Sem Extradição”, era uma regra que não podia ser quebrada. “O tratado era a própria base da solicitação.”

E acrescentou: “Assim, dizer que a extradição não é governada pelos termos do próprio tratado no qual a solicitação se apóia, é criar um absurdo legal, e, portanto, um abuso do processo.” O advogado de defesa citou exemplos de julgamentos feitos pela Câmara dos Lordes e Conselho Privado (Privy Council), onde os direitos dos tratados foram considerados impositivos, a despeito da falta de incorporação na legislação doméstica, particularmente a fim de evitar que pessoas fossem extraditadas e encarar uma possível execução em colônias britânicas.

Fitzgerald apontou que embora a Lei de Extradição de 2003 não contenha um impedimento de extradições por ofensas políticas, ela não determinava que não poderia haver tal impedimento em tratados de extradição. E o tratado de 2007 foi ratificado após a Lei de Extradição.

Neste momento, Baraitser interrompeu para dizer que foi clara a intenção do Parlamento, de que poderia haver a extradição por motivo de crime político. De outra forma, eles não teriam removido o impedimento que constava na legislação prévia. Fitzgerald declinou de concordar, dizendo que a Lei não diz que a extradição por ofensas políticas não possa ser banida por tratado.

Fitzgerald então prosseguiu, para dizer que a jurisprudência internacional aceitou, por um século ou mais, que não se extradita por crimes políticos. Nenhuma extradição política estava na Convenção Européia de Extradição, no Modelo do Tratado de Extradição das Nações Unidas, e na Convenção da Interpol em Extradição.

“Esta (restrição) constava em cada um dos tratados de extradição dos Estados Unidos com outros países, e assim foi por um século, por insistência dos Estados Unidos. Para agora, tanto os governos do EUA como o Reino Unido dizerem que não se aplica, seria um terrível precedente que colocaria em perigo, dissidentes e prisioneiros políticos em potencial da China, Rússia e regimes de todo o mundo que escaparem de seus países”, asseverou o advogado de defesa.

Fitzgerald declarou que todas as principais autoridades concordam que existem dois tipos de ofensa política: a pura e a relativa. “A ofensa política ‘pura’ foi definida como traição, espionagem e rebelião. A ‘relativa’, corresponde a uma ação normalmente de crime, como assalto ou vandalismo, realizado com motivação política.”

E prosseguindo: “Cada uma das acusações contra Assange consistiu de uma ofensa política ‘pura’. Todas, com exceção de uma, foram acusações de espionagem. Quanto à acusação de uso indevido do computador, esta foi comparada pela Promotoria, à quebra da Lei de Segredos Oficiais, para poder ser enquadrada no ‘teste de criminalidade dupla’ (constituir crime nos dois países). A acusação maior, de que Assange estava tentando prejudicar os interesses políticos e militares dos Estados Unidos, representou para as autoridades, a própria definição de um crime político.”

Em reposta, Lewis declarou que um tratado não pode ser impositivo à legislação inglesa, a menos que especificamente incorporado pelo Parlamento. Isto consiste de uma defesa democrática: “Tratados são feitos pelo executivo, que não faz as leis. Isto cabe à soberania do Parlamento”. Lewis citou muitos julgamentos que estabeleceram que tratados internacionais, assinados e ratificados pelo Reino Unido, não foram aceitos em cortes britânicas. “Pode vir como surpresa para outros países, que seus tratados com o governo britânico não tem força legal”, ele pilheriou.

Lewis disse que não ocorreu abuso do processo, e assim, não houve invocação de direitos (violados) perante a Convenção Européia. “Foi uma operação normal da lei, que uma cláusula do tratado sobre proibição de extradição por ofensas políticas, não tem base legal. O governo dos EUA disputa que as ofensas de Assange sejam políticas. Nos EUA, Reino Unido e Austrália existe uma definição de ofensa política que difere do resto do mundo.”

E prosseguindo com a argumentação: “Nós víamos as ofensas políticas ‘puras’ de traição, espionagem e rebelião como não sendo ofensas políticas. Somente as ofensas políticas ‘relativas’, crimes comuns cometidos por motivação política, eram considerados como ofensas políticas na nossa tradição. Por esta tradição, a definição de ‘político’ estava também restrita ao apoio a um partido político em algum país.” Lewis irá prosseguir com sua argumentação no dia seguinte.

Notas do tradutor

1. Craig Murray, blogueiro, escritor e ativista pela independência da Escócia, foi diplomata e embaixador do Reino Unido, além de reitor da Universidade de Dundee. 

2. Para desfrutar de alguns momentos de descontração, em caso do leitor se sentir deprimido após esta leitura, recomenda-se assistir a estes dois vídeos dos Daleks em ação, na série Dr. Who. Para ver os Daleks girando, como na associação que Craig Murray fez ao comportamento da magistrada Baraitser, clique aqui. Para ver uma seleção dos melhores momentos cômicos dos Daleks, clique aqui.

3. Informações explicativas  pelo tradutor foram colocadas em parênteses.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e responsável pelo blogue Chacoalhando.