Campos de Prisioneiros ou de Extermínio na Bósnia?  Contratar um bom RP faz a diferença.

Por Ruben Rosenthal

O ex-presidente muçulmano da Bósnia, Alija Izetbegovic, pouco antes de sua morte, declarou que mentira, em 1992, ao confirmar a existência de campos de extermínio controlados pelos sérvios bósnios, com o objetivo da OTAN bombardear os sérvios. A empresa de relações públicas contratada completou o serviço, ao comparar estes campos com os nazistas.

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Campo de Manjaca: prisioneiros em estábulo / Foto Geilert – Ag. Caro

O atual artigo é o terceiro da série Revisitando os Conflitos e a Fragmentação da Iugoslávia. O primeiro, abordou o massacre em Srebrenica, e o segundo, o julgamento de Slobodan Milosevic, que havia sido presidente da Sérvia, e, posteriormente, da Iugoslávia.

Na República da Bósnia e Herzegovina, antes dos conflitos do início da década de 90, viviam em relativa harmonia, 4 milhões e 377 mil habitantes, de acordo com a seguinte demografia  (percentual da população), muçulmanos (44%), sérvios (32%) e croatas (17%). Com a exacerbação dos nacionalismos, os conflitos armados se disseminaram. Os relatos a seguir são de Edward Herman,  um forte crítico das ações do Ocidente e da OTAN, que levaram à fragmentação da Iugoslávia.

Os campos de prisioneiros controlados por sérvios foram denominados pela mídia de “campos de concentração”, comparando-os aos campos de extermínio nazistas, como Auschwitz. Alegações desta natureza partiram de jornalistas, que por vezes basearam seus artigos apenas em informações fornecidas por croatas e muçulmanos. Estas acusações contribuíram para a formação do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, em 1993, por determinação dos países da OTAN.

No entanto, anos depois (em 2004) ocorreu o seguinte diálogo entre o ex-presidente muçulmano da Bósnia, Alija Izetbegovic, já próximo da morte, e o médico e político Bernard Kouchner, relatadas no livro de Kouchner, “Les guerriers de la paix” (Os guerreiros da paz).

-Kouchner: “aqueles locais eram horríveis, mas não eram de consistente extermínio. Você sabia disto?”.                                                                             -Izetbegovic: “Sim. Era falsa a acusação. Não existiam campos de extermínio, mesmo sendo horríveis aqueles locais. Eu considerei que a minha denúncia iria apressar os bombardeios (da OTAN)”.

Kouchner, que fora ministro da saúde e ação humanitária no governo do presidente socialista Mitterrand, e das relações exteriores, na presidência do direitista Sakorzy, reafirma este diálogo em uma entrevista (em francês), que pode ser assistida em vídeoUma questão que pode ser levantada, é que Kouchner já teria conhecimento, desde 1992, que as acusações eram falsas, quando a organização humanitária, Médicins du Monde, por ele liderada, fez uma campanha (em 1993), com acusações de que os sérvios controlavam campos de extermínio. Esta entidade foi formada em 1980, a partir de um racha, comandado por Kouchner, na organização Médicos sem Fronteiras (Médicins sans Frontiers). 

Como ministro de Mitterrand, Kouchner teve a oportunidade de visitar diversos campos de prisioneiros na Bósnia, não apenas aqueles controlados por sérvios-bósnios. Em agosto de 1992, ele aceitou o convite recebido dos presidentes da República da Bósnia-Herzegovina e da Srpska, a República Sérvia da Bósnia, para vistoriar os campos de prisioneiros. No início de 1992, a Bósnia declarara sua independência da Iugoslávia, levando a que as províncias de maioria sérvia decidissem formar sua própria república.

Dos campos de prisioneiros geridos pelos sérvios, Koucher visitou a Manjaca, Omarska e Trnopolje, atendendo a sugestão do presidente muçulmano da Bósnia.  Segue-se um relato  das impressões de Kouchner sobre os locais visitados.

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Campo de Manjaca: alerta de minas no cartaz da cerca / Foto Patrick Robert /Sygma/Corbis

De Manjaca, a impressão foi ruim. A região no entorno do campo estava minada, para inibir as tentativas de fuga. Os prisioneiros em geral eram bastante magros, e na enfermaria do campo, cerca de 20 prisioneiros estavam em uma esteira. Kouchner relatou que alguns prisioneiros denunciaram a ocorrência de 6 mortes por disparos na semana anterior.

Em Omarska, que tinha a fama de ser também um campo de concentração, cerca de 200 prisioneiros estavam acomodados em prédios administrativos, mas a aparência geral era boa. Ali era um campo de transição, fosse para a liberdade ou para ir para Manjaca. Nenhum dos prisioneiros relatou tortura.

Trnopolje era um campo aberto, em que os prisioneiros podiam ir até a cidade comprar alimentos, desde que fosse com seu próprio dinheiro. A comida fornecida no campo era de boa qualidade, mas parca. Kouchner considerou ainda que campo poderia ficar inóspito no inverno. Foi neste campo que os jornalistas fotografaram Fikret Alic, e a foto percorreu o mundo, como será comentado mais adiante.

Na república da Bósnia e Herzegovina, Kouchner visitou a prisão central, onde estavam sérvios e muçulmanos. O tratamento dado aos prisioneiros pareceu razoável a ele. Entretanto, quando da visita à prisão militar de “Viktor Bubanj”, constatou que os prisioneiros sérvios pareciam esqueletos, se comparados aos muçulmanos em Manjaca, além de vários apresentarem marcas de espancamento. As celas de quatro metros quadrados acomodavam a 12 prisioneiros (homens). As mulheres, velhas e jovens, incluindo uma grávida, estavam acomodadas em outro piso. Kouchner planejava ir também ao campo de Bradina, controlado pelos Bósnios, mas conflitos na região impediram a inspeção.

A constatação das terríveis condições a que os sérvios estavam submetidos na prisão de “Viktor Bubanj” não alcançou a devida repercussão na mídia, revelando que a cobertura estava sendo tendenciosa. Em março de 2012, ex-guardas da prisão foram a julgamento em Saravejo, Bósnia, pelos abusos cometidos anteriormente contra prisioneiros sérvios.

Na Croácia, Kouchner deu uma entrevista aos jornalistas, ainda no aeroporto, quando disse que  não ter presenciado campos de concentração como o de Bergen-Belzen, da época em que os nazistas invadiram e ocuparam a Yugoslávia. Entretanto, disse ter presenciado “campos de ódio, vingança e vergonha”. No entanto, isto não impediu que a campanha de Médicins du Monde focasse apenas nos sérvios sua virulenta campanha, como será visto no decorrer do artigo.

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Uma das principais peças da campanha difamatória contra os sérvios foram as imagens tomadas em agosto de 1992, no campo de Trnopolje, por jornalistas britânicos da ITN e do The Guardian. Fotos mostrando o prisioneiro Fikret Alic, emaciado ao extremo devido à tuberculose, atrás de uma cerca de arame farpado no campo de Trnopolje, percorreram o mundo, em manchetes nos principais jornais e revistas. Vinte anos após a publicação da famosa foto, Fikret relatou, em entrevista ao London Times, que a reportagem e entrevistas trouxeram retaliações para os internos do campo: “precisei fugir, porque os guardas queriam me matar”, afirmou.


Os relatos que se seguem estão no livro de Diana Johnstone, “Fool’s Crusade: Yugoslavia, Nato and Western Delusions”. Em janeiro de 1993, a organização Médicins du Monde, usou as fotos de Fikret Alic no campo de Trnopolje em uma montagem, sugerindo que havia semelhança com um campo nazista. Os dizeres eram: “um campo onde eles purificam grupos étnicos não faz você lembrar de nada?”. Dezenas de milhares de cartazes foram espalhados pelas principais cidades da França. A entidade também financiou, durante 3 semanas, anúncios nos canais de TV, inclusive com a participação de artistas conhecidos, como Jane Birkin e Michel Piccoli, denunciando crimes sérvios contra a humanidade. Tudo ao custo de 2 milhões de dólares.

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Campanha de Médicos do Mundo  /  Foto Georges Merillon/Gamma-Rapho

Em 1993, os jornalistas Roy Gutman, no New York Newsday, e John Burns, do New york Times, ganharam o prêmio Pulitzer por suas reportagens sobre as supostas atrocidades cometidas por sérvios. Gutman entrevistou em Zagreb, capital da Croácia, a refugiados muçulmanos que relataram que os sérvios estavam conduzindo “campos de extermínio”. Burns entrevistara, em um filme financiado por George Soros, a Boris Herak, um sérvio bósnio (insano, segundo Johnstone), prisioneiro em Saravejo, que confessou atrocidades cometidas, algumas imaginárias, nos campos controlados pelos sérvios. Anos depois ele revelou que havia sido coagido e forçado a memorizar as declarações que deveria fazer.

Aproveitando a campanha de Médicins du Monde e os artigos iniciais que estavam saindo na mídia, empresas de relações públicas  contratadas por muçulmanos e croatas conseguiram colocar os sérvios como os únicos vilões da história, e responsáveis por crimes terríveis. A campanha na mídia culminou com a OTAN realizando ataques contra alvos sérvios na Bósnia, em novembro de 1995, levando ao Acordo de Paz de Dayton. Em 1999, a OTAN voltaria a fazer novos bombardeios, desta vez incluindo Belgrado, a capital da Iugoslávia.

No livro “Liar’s Poker: the great powers, Yugoslavia and the wars of the future”, o jornalista Michel Collon, examina e associa os eventos na Iuguslávia ao interesse da Alemanha e EUA em controlar as rotas do petróleo e áreas estratégicas, bem como analisa a campanha de desinformação da mídia. Na parte do livro em que trata dos campos de prisioneiros, cita que o jornalista alemão, Thomas Deichman, foi examinar o campo de Trnopolje, e verificou que ele nunca foi cercado por arame farpado. A cerca seria usada apenas para delimitar a área permitida aos fotógrafos. O jornalista analisou todo o material filmado pela ITN, e concluiu que as pessoas que estavam no campo não se encontravam detidas, sendo que muitos delas seriam refugiados que haviam pedido proteção contra milícias locais.

Analisando a reportagem que concedeu o Pulitzer a Gutman, Collon detectou várias inconsistências. Na reportagem publicada no New York Newsday, Gutman relatara que a informação que “Manjaca abrigava um campo de extermínio”, vinha do pessoal da embaixada americana. Collon considerou um contra-senso este relato, lembrando que foram as autoridades sérvias que sugeriram a Gutman que ele visitasse Manjaca, acompanhado da Cruz Vermelha.

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Campo de Manjaca:  flagrante da vida no campo / Foto Isabel Ellsen

Quanto aos campos de Omarska e Trnolpoje, Gutman só os visitou em setembro de 1992, após ter escrito seus artigos, com base em duas (supostas) testemunhas, acrescentou Collon. Sobre a reportagem da ITN no campo de Trnopolje, Collon salientou que a jornalista que usou a expressão “campo de concentração” explicou depois, que o termo foi usado porque, tecnicamente, prisioneiros estavam lá concentrados, e não como alusão aos campos de extermínio nazistas.  

Outro jornalista a questionar as notícias sobre campos de extermínio controlados pelos sérvios bósnios, e algumas das supostas atrocidades cometidas por sérvios, foi Jacques Merlino, do canal de TV França 2. Merlino descreve em seu livro  “Les verites yougoslaves ne sont pas toutes bonnes a dire” (Nem todas as verdades da Iugoslávia são boas de serem ditas), uma entrevista de abril de 1993, com  James Harff, chefe da empresa de relações públicas Ruder Finn Global Public Affairs, com sede em Washington.

A agência representou a república da Croácia, entre agosto de 1991 e junho de 1992, e os governos muçulmano e croata da República da  Bósnia e Herzegovina, de maio de 1992 a dezembro de 1992. A firma também começou a representar os líderes albaneses de Kosovo, em outubro de 1992.

Harff revelou que se orgulhava de ter colocado a opinião pública judaica ao lado de seus representados. A tarefa não havia sido fácil, pelos escritos de natureza antissemita da parte do Presidente Tudjman (da Croácia).  E também, porque do lado bósnio, o Presidente Izetbegovic era um fervoroso defensor de um estado islâmico fundamentalista. Além disto, o passado da Croácia e da Bósnia fora marcado por um antissemitismo cruel, sendo que dezenas de milhares de judeus morreram em campos croatas.

Assim, havia todos os motivos para os intelectuais e organizações judaicas serem hostis a croatas e muçulmanos bósnios. Harff relata que, com uma jogada de mestre, conseguiu reverter esta tendência, e trazer os judeus para o lado dos muçulmanos. “Quando o New York Newsday publicou , em agosto de 1992, a história de Gutman sobre os campos de concentração sérvios, aproveitamos o caso e convencemos três grandes organizações judaicas (norte-americanas) a publicar um anúncio no New York Times, e a organizar protestos em frente ao prédio da ONU”.

Desta forma, a opinião pública (norte-americana) passou a identificar os sérvios como nazistas. Harff acrescentou ainda, que poucas pessoas realmente sabiam, nos Estados Unidos, o que estava ocorrendo na Iugoslávia, ou mesmo, “em que região da África” a Bósnia estava situada. Na imprensa a linguagem mudou nitidamente, passando a aparecer expressões como “limpeza étnica”, “campos de concentração”, etc, com associação às câmaras de gás e a Auschwitz. Ninguém ousava emitir uma opinião contrária, tal o clima emocional reinante, declarou na entrevista o chefe da empresa de relações públicas, que não considerou amoral suas ações como RP.

É interessante relatar, em aparente paradoxo a estas revelações de Merlino, que existem denúncias que foram abafadas, com “evidências concretas que Israel exportou para as tropas sérvias, durante o período dos conflitos na Bósnia, incluindo treinamento (militar), munição e rifles”. Isto ocorreu no período em que estava em vigor uma restrição da ONU, de vendas de armas para as partes em conflito na Iugoslávia. A Suprema Corte de Israel determinou, em dezembro de 2016, que “expor o envolvimento de Israel em genocídio, iria causar danos às relações externas do país, de tal monta que ultrapassaria o interesse público em conhecer tal informação, e o possível processo judicial dos envolvidos”.

Em outubro de 1999, meses após os bombardeios pela OTAN da Iugoslávia, inclusive da capital, Belgrado, Bernard Kouchner, em entrevista ao Los Angeles Times defendeu o direito da intervenção militar humanitária, contra o que ele chamou de “abusos da soberania nacional” pelo cometimento de opressão contra os direitos humanos. Estas justificativas seriam usadas posteriormente pelos Estados Unidos e OTAN para atacar o Iraque, Líbia e Síria, e ameaçam, atualmente, a Venezuela.

 

 

 

 

 

 

 

 

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