A Turquia move suas peças no xadrez da guerra OTAN-Rússia

Por Ruben Rosenthal

A decisão da Turquia de enviar um navio-sonda para explorar reservas de gás nas proximidades de Chipre pode inflamar a região, e tornar ainda mais conturbado o relacionamento da Turquia com os demais países da OTAN.

Turkish President Recep Tayyip Erdogan poses with Turkey's new drill ship Abdulhamid Han at Tasucu port in the Mediterranean Turkish city of Mersin [Presidential Press Office/Handout via Reuters]
Presidente turco Recip Erdogan no lançamento do navio-sonda Abdulhamid Han, em Mersin / Foto: Imprensa presidencial via Reuters.
 Desde o início da invasão do território ucraniano por tropas russas, a Turquia vem mantendo uma política equilibrada em relação às partes beligerantes, bem como canais de diálogo com Moscou e Kiev. Mas esta estratégia pode ser alterada a favor da Rússia. O recente envio do navio-sonda turco Abdullhamid Han para explorar grandes jazidas de gás nas proximidades de Chipre tem o potencial de inflamar tensões regionais. Caso os Estados Unidos e a União Europeia (UE) se posicionem – como esperado – contra a Turquia, Ancara poderá retaliar, revendo a atual política de equidistância no conflito bélico.

Turquia: neutralidade ou oportunismo?

A Turquia faz parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), mas ao mesmo tempo, desempenha um papel independente. A decisão de Ancara de fechar os estreitos de Bósforo e Dardanelos a navios de guerra limitou a capacidade da marinha russa no Mar Negro, mas também impede que potências da OTAN possam interferir no conflito através de suas marinhas de guerra.

Segundo o analista russo Ivan Timofeev, do think tank russo Valdai Club, a Turquia parece ser um dos principais beneficiários do conflito. Ancara manobra habilmente, beneficiando-se de todos os lados.

A diplomacia turca se opõe à operação militar da Rússia e mostra solidariedade com os aliados da OTAN. Ancara está fornecendo armas à Ucrânia, incluindo drones Bayraktar. Acrescente-se que a Turquia não reconheceu a anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014.

Ao mesmo tempo, Ancara mantém relações construtivas com Moscou, e está desempenhando um importante papel como mediador econômico nas relações entre a Rússia e o Ocidente. O presidente Recep Erdogan recusou-se a implementar as sanções impostas pelo Ocidente contra a Rússia. As empresas turcas estão se preparando para ocupar uma série de nichos que ficaram disponíveis com a retirada de empresas ocidentais do mercado russo. A Turquia demonstrou flexibilidade nas relações financeiras com Moscou, aceitando cartões Mir (versão russa do Visa ou MasterCard). O país está se tornando um centro (hub) único de tráfego.

Esta equidistância pragmática possibilitou que Ancara tentasse desempenhar um papel mediador na resolução do conflito. Embora tais esforços não tenham sido ainda bem sucedidos, a intermediação contribuiu para resolver a questão da exportação dos grãos ucranianos e fortaleceu o status internacional de Ancara. Para o complexo militar-industrial turco, o conflito ampliou o mercado e as oportunidades de mostrar seus equipamentos bélicos em ação.

Exploração das reservas de gás do Mediterrâneo

Mesmo antes da crise energética decorrente do conflito na Ucrânia, as jazidas de gás natural do Mediterrâneo Oriental localizadas nas proximidades da costa de Chipre já atraíam o interesse de empresas petrolíferas, como a norte-americana Exxon Mobile, a francesa Total, e a italiana ENI.

No final da década de 2000, após Israel anunciar a descoberta de jazidas de gás natural na região, o governo de Chipre contratou diversas empresas de energia para iniciarem a prospecção de hidrocarbonetos ao redor da ilha. Em Dezembro de 2011, a empresa norte-americana Noble Energy anunciou a descoberta de “significativos recursos de gás natural”.

Segundo relato da Al Jazeera, em janeiro de 2019 foi constituído o Fórum de Gás do Mediterrâneo Oriental – órgão multinacional sediado no Cairo – reunindo diversos governos, inclusive de Israel e a Autoridade Palestina, mas excluindo a Turquia. Um ano depois, Chipre, Grécia e Israel assinaram um acordo para construir o gasoduto EastMed, de 1.872 quilômetros de comprimento, para transportar gás cipriota offshore para a Grécia e Itália.

Traçado planejado para o gasoduto EastMed
Traçado planejado para o gasoduto EastMed atravessa águas territoriais pretendidas pelos cipriotas turcos (linhas hachuradas)

Para Ancara, qualquer benefício desta exploração também deveria contemplar também os cipriotas turcos, e permanecer dependente das negociações sobre a reunificação da ilha mediadas pela ONU, mas que se encontram em impasse. O Chipre foi dividido na sequência da intervenção militar turca em 1974, entre o Sul cipriota grego e o Norte cipriota turco, que ocupa cerca de um terço do território, mas não é reconhecido pelas Nações Unidas.

No final de 2019, o Congresso dos EUA levantou o embargo de armas ao Chipre e aumentou a ajuda externa à ilha, para demonstrar o apoio à exploração de gás, onde estava envolvida a empresa Exxon Mobil.

Grécia e Turquia estiveram à beira de um confronto militar em agosto e setembro de 2020, depois que a Turquia lançou seu navio de pesquisa sísmica Oruc Reis – acompanhado de uma pequena frota naval – para explorar petróleo e gás em áreas do Mediterrâneo Oriental, que a Grécia reivindica como parte de sua plataforma continental e Zona Econômica Exclusiva. A França anunciou que iria reforçar temporariamente sua presença militar na região em apoio à Grécia.

As tensões aumentaram, até que, sob ameaça de sanções econômicas pela UE, a Turquia interrompeu a exploração do gás em dezembro de 2020. No entanto, o projeto do gasoduto não foi adiante na ocasião por questões de viabilidade econômica. As companhias petrolíferas internacionais estavam sob o impacto dos baixos preços do petróleo e gás e das enormes perdas com a pandemia. O momento era de corte de gastos e não de novos e dispendiosos investimentos.

A crise energética na Europa

Com a guerra na Ucrânia resultando em uma crise energética global, no aumento dos preços do gás natural, e em uma nova política energética pela UE visando acabar o mais rápido possível com a dependência do continente do gás russo, foi reacendido o interesse pelo gasoduto EastMed. Entretanto, os EUA retiraram seu apoio ao projeto em janeiro, citando preocupações com a sustentabilidade técnica e comercial.

Muitos analistas preveem que os níveis de preços internacionais do gás natural permanecerão elevados por um período prolongado, o que poderia fazer do EastMed um investimento lucrativo para as empresas que construírem e operarem o gasoduto, que tem um custo previsto em 6,1 bilhões de euros.

Conforme declaração à Al Jazeera de Ana Maria Jaller-Makarewicz, do Instituto para Economia em Energia e Análise Financeira (IEEFA, na sigla em inglês), “o EastMed pode ser economicamente viável agora, porque os preços da energia são muito altos, mas provavelmente não será a longo prazo”.  Para a especialista em energia, existem opções mais limpas e baratas que estão sendo ignoradas, como reduzir a demanda através das bombas de calor, que podem aquecer ambientes mesmo quando as temperaturas externas estão abaixo de zero graus centígrados.

Havendo ou não interesse da União Europeia em apoiar a construção do gasoduto, a decisão da Turquia de enviar um navio-sonda para explorar reservas de gás nas proximidades de Chipre pode inflamar a região, e tornar ainda mais conturbado o relacionamento da Turquia com os demais países da OTAN. A tentativa de golpe contra Erdogan em 2016 originou uma crise de confiança dos turcos em relação aos Estados Unidos e aos aliados do Ocidente. Por outro lado, o incidente da derrubada de um jato russo pela Turquia em 2015 foi plenamente superado, tanto que Moscou forneceu à Turquia o sistema russo de mísseis de defesa S400, para insatisfação da OTAN.

Erdogan declarou quando da cerimônia de lançamento ao mar do Abdulhamid Han: “O trabalho de pesquisa e perfuração que estamos realizando no Mediterrâneo está sendo conduzido dentro do nosso território soberano. Não precisamos receber permissão ou consentimento de ninguém para isso”.  A Rússia permanece como expectadora do desenrolar desta crise, que poderá auxiliá-la na condução da guerra na Ucrânia.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Roger Waters na mesma lista de alvos que filha morta de Dugin

Por Ruben Rosenthal

Roger Waters se junta assim a tantos outros críticos do governo autocrático e pró-nazista de Volodymyr Zelensky que tiveram seus nomes incluídos na lista, vários dos quais já foram assassinados.

Roger Waters is in the hit list of ucranian extremists
Roger Waters está na lista de alvos de site ucraniano de extrema-direita; apresentação do músico na turnê “This Is Not A Drill Tour.” Foto: Miami and beaches (fotomontagem do blog)

O músico de rock faz parte agora da extensa relação de pessoas que estão listadas como inimigos na Ucrânia no site Mirotvorets (Pacificador, em ucraniano), segundo artigo da jornalista Deborah L. Amstrong* no Medium.com. Também fazia parte da lista, Darya Dugina, a filha do polêmico filósofo russo Alexander Dugin, recém assassinada em um atentado quando uma bomba explodiu seu carro. Agora, na foto de Dugina consta uma tarja vermelha com a palavra ЛИКВИДИРОВАН, o termo ucraniano para LIQUIDADA.

O mesmo ocorreu com o jornalista italiano Andrea Rocchelli, que morreu em maio de 2014, juntamente com o intérprete e jornalista russo Andrey Mironov, quando o carro em que estavam foi atingido por um morteiro na região separatista de Donetsk. Não está claro porque na ficha de Dugina consta a palavra NATO (OTAN), enquanto que na de Rochelli aparece CIA, a agência de inteligência dos EUA, conforme pode ser visto na montagem a seguir.

Perfis de Dugina e italiano liquidados

Mirotvorets, um site semi-oficial do governo ucraniano

Mirotvorets contém um banco de dados que lista milhares de jornalistas, ativistas e qualquer um que seja declarado como “inimigo da Ucrânia”. Informações pessoais são publicadas, assim como os endereços de suas casas, números de telefone e de contas bancárias; qualquer dado que possa ajudar na localização dos “alvos”.  O endereço IP do site foi rastreado até um servidor em Bruxelas, Bélgica.

O Departamento de Estado dos EUA confirmou que o Ministério dos Assuntos Internos ucraniano estava relacionado ao site, mas o governo norte-americano não tomou qualquer providência para bloquear o site, mesmo reconhecendo que foram publicados dados pessoais de jornalistas.

A lista inclui uma menina ucraniana de 13 anos, Faina Savenkova, que foi adicionada por falar publicamente contra a sangrenta guerra que Kiev impôs aos civis de língua russa no Donbass, na parte oriental da Ucrânia. Já o cineasta Igor Lopatonok foi adicionado devido a um filme em que trabalhou com Oliver Stone.

Surpreendentemente, até Henry Kissinger, que uma vez sugeriu jogar bombas nucleares em Moscou, teve seu perfil incluído no Mirotvorets, como “inimigo da Ucrânia”, por ter expressado preocupação pela forma como os EUA estavam marchando para uma guerra contra a Rússia e China.

Roger Waters se junta assim a tantos outros críticos do governo autocrático e pró-nazista de Volodymyr Zelensky que tiveram seus nomes incluídos na lista, vários dos quais já foram assassinados.

Roger Waters: “A Crimeia pertence à Rússia”

O músico cofundador do Pink Floyd é amado por milhões de fãs ao redor do mundo. Na política, Waters é um crítico mordaz do papel representado pela OTAN. Waters, que sempre foi uma espécie de dissidente e antiguerra, como todos os astros do rock costumavam ser.

Ele é conhecido por seu apoio a Julian Assange, criador do Wikileaks, que se encontra preso no Reino Unido e sob ameaça de ser extraditado em breve para os EUA. Recentemente, Waters se referiu a Biden na CNN como sendo um “criminoso de guerra”, e que Biden está “alimentando o fogo na Ucrânia”.

Waters acrescentou: “Esta guerra é basicamente sobre a ação da OTAN alcançando a fronteira russa, o que eles prometeram não fazer quando [Mikhail] Gorbachev negociou a retirada da União Soviética de toda a Europa Oriental”. E complementando: “A Crimeia pertence a Rússia, porque a maioria das pessoas que vivem na península são russas”.

Como seria de se esperar, as opiniões do astro do rock indignaram a malta pró-OTAN e os simpatizantes nazistas na Ucrânia, bem como os “guerreiros da justiça social”, campeões da liberdade que espumam pela boca em apoio aos temas encampados pela grande mídia, ressalta Deborah Amstrong .

Pro-nazi hit list: Profile of Roger Waters at Mirotvorets site
Perfil de Roger Waters no site Mirotvorets, que contém a lista de alvos dos extremistas de direita ucranianos pró-nazismo 

Quem são os organizadores do Mirotvorets?

Uma investigação da Fundação Russa de Combate à Injustiça revelou nomes de indivíduos, corporações e entidades governamentais que se acredita serem os organizadores, patrocinadores e curadores do site nacionalista ucraniano.

O site é controlado pelo Serviço de Segurança da Ucrânia, e foi criado por iniciativa de Anton Gerashchenko, conselheiro do Ministro dos Assuntos Internos da Ucrânia. Gerashchenko enfrenta acusações de terrorismo na Federação Russa, pela criação da lista de alvos.

Os investigadores dizem que a lista foi criada em 2014, sendo supervisionada pela organização pública “Mirotvorets Center”, liderada por Roman Zaitsev, um ex-funcionário dos serviços especiais ucranianos, e pela organização pública “Retaguarda do Povo”, liderada pelo político ucraniano, George Tuka.

Em seus primórdios, o site publicou os nomes dos chamados “separatistas russos” (residentes do leste da Ucrânia), que se opunham ao golpe de Maidan que afastou o presidente Viktor Yanukovych, que ousara fazer um acordo econômico com a Rússia, em detrimento da União Europeia.

O site passou então a publicar os dados pessoais de figuras públicas, jornalistas, ativistas e até de crianças. Mirotvorets tornou-se infame após o assassinato de duas figuras públicas ucranianas em 2015: o escritor e jornalista Oles Buzina e um deputado ucraniano foram mortos dias após seus endereços residenciais serem publicados.

Em maio de 2016, Mirotvorets divulgou os dados pessoais de mais de 4.500 jornalistas e representantes da mídia de todo o mundo, que haviam recebido permissão para trabalhar no território de Donbass. Os administradores do Mirotvorets teriam invadido o banco de dados do Ministério da Segurança de Estado da República Popular de Donetsk, onde coletaram números de telefone, endereços de e-mail e residenciais de jornalistas estrangeiros acusados de “colaborar com terroristas”, por estarem cobrindo a guerra em territórios sob controle dos rebeldes.

Os jornalistas passaram então a receber telefonemas e e-mails ameaçadores, além de assédio nas redes sociais. O governo da Ucrânia emitiu uma declaração de que não havia encontrado violações da lei nas ações praticadas pelo site.

Terrorist threat against russian-speaking immigrants in every country / Mirotvorets site
Ameaça extremista contra imigrantes de fala russa em qualquer país / site Mirotvorets

Norte-americanos colaboram com Mirotvorets 

Uma análise do protocolo de rede pela Fundação Russa de Combate à Injustiça descobriu que o banco de dados do Mirotvorets usa os serviços tecnológicos de uma empresa na Califórnia. Na página principal do site consta o endereço “Langley County”, Virginia. Coincidentemente, a sede da CIA fica no condado de Langley. Há postagens de contas contendo nomes de diversas agências de inteligência ocidentais: CIA, FBI, OTAN, MI5 e NSA.

Andrew Weisburd, um analista de inteligência norte-americano, anunciou publicamente sua cooperação com o governo ucraniano em janeiro de 2015, na época em que Mirotvorets começou a publicar os dados pessoais dos jornalistas. Weisburd declarou: “Estou apenas tentando fazer a minha parte, para ajudar a fazer coisas ruins acontecerem com pessoas más que estão a serviço do Kremlin”.

Joel Harding é outro norte-americano que esteve envolvido com a formação do Mirotvorets, segundo o jornalista investigativo George Eliason, que vive no Donbass há vários anos e escreve para o Consortium News. Harding é um autoproclamado “especialista em operações de informação”, que diz ser ex-oficial de inteligência do Exército dos EUA e ter atuado como conselheiro sênior na OTAN. Ele desenvolveu também uma estratégia de apoio cibernético para barrar o acesso à mídia russa na Ucrânia. De acordo com Eliason, Harding queria controlar quais notícias e informações os ucranianos poderiam acessar nas redes sociais, internet e televisão.

Ao investigadores da Fundação dizem ter evidências que conectam Mirotvorets a um grupo de ativistas cibernéticos conhecidos como “Ciberaliança Ucraniana”. O grupo é acusado de participar, desde 2016, de ataques a sites de notícias e do governo russo, incluindo o Ministério da Defesa.

As finanças do Mirotvorets

Através de financiamento coletivo, Mirotvorets recebe considerável assistência financeira de doadores anônimos do Ocidente, asseveram os investigadores da Fundação. Os patrocinadores mais prováveis são nacionalistas ucranianos que vivem no exterior, e pessoas associadas a agências de inteligência ocidentais que têm acesso a enormes quantias de dinheiro dos contribuintes.

Embora os programadores digam que receberam apenas alguns milhares de dólares, os dados sobre transações relacionadas às carteiras cripto do grupo indicam o recebimento de mais de 100 mil dólares.

Paralelamente aos atentados e intimidações aos opositores do governo de Kiev, prosseguem os conflitos bélicos que opõe OTAN e Rússia, até que ao Ocidente não mais interesse pagar o preço econômico de bancar a Ucrânia nesta guerra por procuração. A hora da verdade poderá chegar junto com o inverno europeu.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

*Deborah Armstrong atualmente escreve sobre geopolítica, com ênfase na Rússia. Ela trabalhou anteriormente em noticiários de TV locais nos EUA, onde ganhou dois Prêmios Emmy. Logo antes da dissolução da União Soviética, no início da década de 1990, ela trabalhou como consultora de televisão em Leningrado.

 

Zelensky liberta estupradores e torturadores para lutarem na frente de combate

Por Ruben Rosenthal

Embora atuassem no batalhão Tornado algumas das bestas mais selvagens que cometeram crimes hediondos, 58 outros batalhões do mesmo tipo permanecem operacionais em toda a Ucrânia.

Ruslan Onishenko, former commander of the now dismantled Tornado battalion trains for combat
Ruslan Onishenko, ex-comandante do agora desmantelado batalhão Tornado, treina para o combate

Líderes do notório batalhão Tornado que haviam sido condenados por estupro de menores e tortura sádica foram libertados por ordens de Zelensky para participarem dos combates contra a Rússia, conforme é relatado no artigo de Esha Krishnaswamy, no The Grayzone.

Segundo publicado em 11 de julho na mídia ucraniana, Ruslan Onishenko, comandante do agora disperso batalhão Tornado, foi libertado como parte do esquema do presidente Zelensky para aproveitar prisioneiros com experiência em combate. Onishenko é um psicopata sádico que foi condenado por estar envolvido em assassinatos, abusar sexualmente de crianças e torturar brutalmente prisioneiros.

Outros ex-membros condenados do Tornado também foram libertados. De acordo com o decreto de Zelensky de 27 de fevereiro, os prisioneiros com experiência em combate poderiam “compensar sua culpa” lutando nos “pontos mais quentes” do conflito. Desta forma, brutais criminosos neonazistas receberam imunidade oficial.

Além de tortura, assassinato, estupro – inclusive de crianças – os crimes de Onishenko incluíram sequestro, amputação e muito mais. Mesmo assim, ele foi condenado a apenas 11 anos de prisão em abril de 2017. Agora, após cumprir apenas cinco anos de sua sentença, ele foi libertado por um presidente que é elogiado como estadista e democrata pela mídia do Ocidente.

O surgimento do batalhão Tornado

Após o golpe de fevereiro de 2014, que ficou conhecido como a Revolução Euromaidan, o Batalhão Shakhtyorsk, onde Onishenko estava lotado, participou em agosto de uma operação fracassada para retomar uma área controlada pelos rebeldes do Donetsk, na cidade oriental de Ilovaisk. A derrota foi um fator importante para forçar o governo central da Ucrânia a negociar com as repúblicas separatistas do Donbass, sob as diretrizes dos Acordos de Minsk.

Esha relata que um mês depois, em setembro, o então presidente Poroshenko e outros membros do gabinete decidiram dissolver o batalhão Shakhtyorsk, acusando seus membros de terem cometido saques.  O batalhão foi dividido em dois grupos: um que se autodenominava “Santa Maria, e um segundo, liderado por Onishenko, chamado “Tornado”. Este era composto, em grande parte, de residentes de Lugansk e Donetsk simpatizantes do golpe de Maidan, bem como por alguns estrangeiros.

O Grupo de Direitos Humanos de Kharkiv escreveu um relatório em nome do Departamento de Estado dos EUA, detalhando o terror imposto aos moradores de Lugansk pelas “patrulhas diárias” do Tornado:

“Pessoas usando camuflagem e carregando metralhadoras arrombavam portas em casas privadas, realizavam buscas sem autorização judicial, humilhavam e espancavam proprietários, ameaçando-os de morte, e “expropriaram” seus bens. Nas ruas e postos de controle, membros do batalhão detinham pessoas, cobrindo suas cabeças com sacos….Muitos homens foram tirados à força de suas casas e levados sob escolta para o prédio do hospital ferroviário em Novaya Kondrashovka. A maioria dos detidos foi libertada, mas houve vários casos de pessoas desaparecendo depois de serem ilegalmente detidas por combatentes do batalhão”.

Além desses atos de crueldade, membros do batalhão Tornado se vangloriavam da extrema violência sexual, incluindo o estupro de crianças pequenas. Foi a propensão da unidade para a perversão que provavelmente levou a uma ordem do Ministério do Interior para desmantelá-la, em junho de 2015.

Ainda no mês de junho, o procurador militar-chefe Anatoliy Matios relatou que os combatentes do Tornado se recusavam a desarmar, e fizeram barricadas em uma escola de Severodonetsk.

As autoridades ucranianas finalmente conseguiram prender Onishenko no aeroporto de Donetsk. Em resposta, seus companheiros do batalhão tomaram posições defensivas, em preparação para a batalha com as forças de Kiev. Com o envio pelo governo de mais unidades militares, o batalhão foi finalmente subjugado e seus membros presos.

O julgamento do batalhão revelou um circo de horrores

Após as prisões, os celulares dos comandantes do Tornado foram apreendidos. O procurador-chefe ucraniano encontrou neles evidências de crimes hediondos cometidos por vários membros do batalhão. O vídeo a seguir (com legendas em inglês) é extremamente perturbador, contendo relatos chocantes das vítimas das torturas e estupros a que elas foram submetidas por seus algozes.

Embora atuassem no batalhão Tornado algumas das bestas mais selvagens que cometeram crimes hediondos, 58 outros batalhões do mesmo tipo permanecem operacionais em toda a Ucrânia.

Ao mesmo tempo em que liberta as bestas, Zelensky bane praticamente toda a oposição política, publica uma lista negra de jornalistas e acadêmicos estrangeiros acusados de promover “propaganda russa”, e remove a proteção das leis trabalhistas para 70% dos ucranianos, relata Esha Krishnaswamy em seu artigo.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

EUA: Lobby pró-Israel investe milhões para controlar o Partido Democrata

Por Ruben Rosenthal

Os esforços dos grupos lobistas pró-Israel se concentram em candidatos nas primárias dos estados de maioria democrata garantida.

AIPAC: US and Israel connected for good
Mike Pompeo, Secretário de Estado de Donald Trump,  discursa na conferência anual do AIPAC, Washington, março 2019 / Foto: Mark Wilson/Getty Images

Grupos de defesa de Israel se aliaram aos interesses das grandes corporações para interferir no processo de seleção de candidatos democratas ao congresso, procurando barrar a indicação de progressistas. Para estes grupos, o objetivo é de reverter a tendência que se configurava no Partido Democrata (PD) de um posicionamento favorável aos palestinos. Para os representantes corporativos, o intuito é impedir que o PD seja dominado pela “esquerda radical”, e com isso evitar que prevaleçam posicionamentos a favor de regulamentações que as corporações entendam como prejudiciais aos seus interesses.

A estratégia é de impedir a vitória de candidatos progressistas ainda durante os processos seletivos internos do PD. Conforme o relato de  Peter Beinart, editor do Jewish Currents, e que serviu de base para o atual artigo, a canalização de vultosos recursos financeiros a favor de candidatos que fossem ao mesmo tempo pró-Israel e moderados/conservadores em questões internas dos EUA país já surtiu efeito em diversas disputas.

Os esforços dos grupos lobistas pró-Israel se concentram em candidatos nas primárias dos estados de maioria democrata garantida, os chamados “estados azuis”, até porque a radicalização política levou a que menos estados ficassem sujeitos a trocas de poder entre republicanos e democratas.

O sistema de doações em campanhas eleitorais

As doações individuais através de um comitê de ação política (PAC) tradicional não podem ultrapassar 5 mil dólares por ciclo eleitoral, e outros 5,8 mil diretamente para o candidato. O advento da internet possibilitou que políticos com muitos seguidores, como Bernie Sanders, levantassem grandes somas através de pequenas doações online.

Uma decisão da Suprema Corte em 2010 – Citizen United – permitiu a criação do chamado “Super PAC”, um novo tipo de comitê de ação política que poderia aceitar doações ilimitadas, desde que fossem utilizadas em “gastos independentes”, não repassados diretamente aos candidatos ou a comitês partidários.

Na última década, esses dois novos métodos – um baseado em um grande número de pequenos doadores, e outro, com base em um pequeno número de doações extremamente altas – impactaram profundamente a arrecadação de fundos a favor ou contra candidatos.

Principais grupos de lobby pró-Israel e pró-corporações

AIPAC, Comitê Americano de Ações Públicas de Israel: se apresenta como uma organização que suprapartidária defende o estreitamento de uma parceria mutuamente benéfica entre Israel e EUA, “reforçando os valores morais da América e seus interesses estratégicos”. Originalmente, AIPAC não fazia arrecadações diretas para campanhas.

DMFI, Maioria Democrata por Israel: o grupo defende no site que uma forte relação EUA-Israel representa o que é melhor para os Estados Unidos, pelos valores e interesses compartilhados. A organização diz apoiar políticas progressistas e a solução de dois estados na Palestina.

Mainstream Democrats (Democratas Majoritários): no site do grupo não é feita qualquer menção a Israel, mas a organização teria sido criada inteiramente pelo DMFI e dividem o mesmo escritório.  No site é especificado que “a tentativa de grupos de extrema-esquerda de assumir o controle do PD torna mais difícil a vitória democrata nas eleições em estados decisivos (swing states), e enfraquece a governança pelo Partido”.

A estratégia de arrecadação da AIPAC

Mesmo antes da eleição de Rashida Tlaib, Ilhan Omar e Alexandria Ocasio-Cortez para a Câmara e a formação do Esquadrão (The Squad) em 2019, já se notava um questionamento no interior do Partido Democrata da ajuda militar incondicional dos EUA a Israel. A deterioração das relações de Obama com Netanyahu e o bom relacionamento deste com Donald Trump abalaram o prestígio do AIPAC perante os democratas.

A posse em janeiro de 2019 dos progressistas do Esquadrão, altamente críticos de Israel, coincidiu com a formação da DMFI, pela ação de um grupo de doadores e estrategistas próximos ao AIPAC, com a missão de enraizar novamente o apoio a Israel no PD. E para tanto, DMFI fez uso do Super PAC para arrecadar quantias da ordem de centenas de milhares de dólares e direcioná-las às campanhas de candidatos ao Congresso. Para arrecadar quantias menores, AIPAC criou Pro-Israel America.

O fracasso que antecede o sucesso

Os grupos lobistas pró-Israel precisaram encarar inicialmente uma grande decepção nas primárias democratas para o distrito do Bronx, em Nova Iorque, em meados de 2020.

DMFI gastou cerca de 2 milhões de dólares em apoio a Eliot Engel, um influente político aliado do AIPAC. Pro-Israel America contribuiu com mais 228 mil dólares. O candidato à reeleição para a Câmara apoiava as investidas de Israel em Gaza, minimizava o impacto dos assentamentos judaicos, defendia cortes na agência da ONU para os refugiados palestinos, e era favorável ao controle total de Jerusalém por Israel.

O desafiante nas primárias no Bronx foi o educador Jamaal Bowman, que criticava o uso de ajuda dos EUA para deter crianças palestinas. A campanha de Bowman recebeu cerca de 500 mil dólares de grupos progressistas, como Justice Democrats e Working Families Party1, os maiores investidores2 nas campanhas de candidatos de esquerda. Bowman derrotou Engel com uma diferença de quase 15 pontos.

No entanto, a estratégia dos lobistas pró-Israel viria a dar frutos no ano seguinte. E sucesso atrai sucesso.

Um caso exemplar de sucesso

Em 2021, nas primárias para escolha do candidato democrata por um distrito no estado de Ohio para uma eleição especial ao Congresso, o favoritismo estava com Nina Turner, ex-senadora (2008-2014), e que havia sido forte apoiadora de Bernie Sanders nas campanhas para a escolha do candidato presidencial democrata em 2016 e 2020.

Nina defendia que a ajuda dos EUA a Israel não deveria ser usada para perpetuar a ocupação israelense da Cisjordânia, além de se recusar a criticar o BDS, o boicote contra Israel. Os fortes laços de Nina com Bernie Sanders também foram usados contra ela na campanha, como forma de questionar sua lealdade ao presidente Biden.

Alguns meses após Nina lançar sua candidatura DMFI  e America Pro-Israel endossaram seu principal adversário, a presidente do PD no Condado de Cuyahoga, Shontel Brown. Nos meses seguintes, as duas organizações investiram pesadamente na campanha de Brown: DMFI gastou mais de 2 milhões de dólares,  e America Pro-Israel contribuiu com 781 mil.

Os lobistas pró-corporações também declararam guerra a Nina Turner: Fox News, Exxon Mobil, Walmart, PhRMA e outras indústrias arrecadaram ainda mais fundos para a campanha de Brown. Em poucos meses a vantagem inicial de Nina por mais de 30 pontos foi revertida, e ela perdeu a indicação por uma diferença de 6 pontos.

Com a vitória, AIPAC decidiu criar seus próprios PAC e Super PAC, passando a levantar fundos diretamente para campanhas eleitorais, após 70 anos de atuação nos bastidores. Até agora, AIPAC arrecadou cerca de 22 milhões.

Em 2022, as duas candidatas voltaram a competir pela mesma vaga, visando as eleições legislativas de outubro. Desta vez, a organização Democratas Majoritários, que supostamente não toma partido no conflito Israel-Palestina, investiu 150 mil dólares para barrar Nina Turner. Em maio, Brown derrotou Turner por uma margem avassaladora de 66 a 33 pontos percentuais.

As convicções políticas de alguns progressistas ficaram abaladas.

Progressistas de pouca fé

Alguns democratas buscaram soluções conciliatórias. Um caso emblemático é o de Greg Casar, candidato a deputado por Austin, Texas. Ele procurou evitar o ataque de grupos pró-Israel enviando uma carta ao rabino local, onde se colocou contrário ao BDS e a favor do envio de armas a Israel. Mas condenou a expansão ilimitada de assentamentos judaicos na Palestina e a violação de direitos básicos. Ou seja, deu uma no cravo e outra na ferradura. Mas com o recuo, Casar perdeu o apoio dos Socialistas Democráticos da América (DSA).

Mesmo os briosos membros do Esquadrão passaram a recuar de suas posições a favor dos palestinos.

Desde que assumiu seu assento na Câmara em janeiro de 2021, o novo membro do Esquadrão, Jamaal Bowman, vem sendo criticado por apoiadores de esquerda, como DSA, principalmente por suas posições em questões relativas a Israel.

Bowman declarou oposição ao boicote BDS e votou a favor de fundos suplementares de 1 bilhão de dólares para financiar o Iron Dome, o escudo protetor contra mísseis lançados de Gaza contra Israel. Em dezembro de 2021, DAS anunciou que não apoiará Bowman para as eleições legislativas de novembro de 2022.

Alexandria Ocasio-Cortez, uma das fundadores do Esquadrão, também votou a favor de verbas adicionais para custear o Iron Dome. Ela alegou para seus eleitores de Nova Iorque que tinha sido submetida a uma “campanha de ódio”, quando inicialmente se opôs ao custeio do escudo.

 As dificuldades do apoio a candidatos pró-palestinos

O grupo sionista liberal J Street criou um Super PAC em janeiro e espera arrecadar para o ciclo eleitoral de 2022 a quantia de 1 milhão de dólares, o que ainda é bem pouco comparando com as arrecadações alcançadas por AIPAC e aliados. Grupos árabes, mulçumanos e de solidariedade palestina à esquerda de J Street deverão arrecadar bem menos ainda.

Divergências no campo liberal-progressista agravam ainda mais a arrecadação em apoio a candidatos mais compromissados com a causa palestina. J Street apoia a solução de “dois estados” na Palestina e se opõe ao boicote BDS contra Israel; assim, o grupo liberal não apoiou Nina Turner, como também deixou de apoiar Marie Newman em Illinois este ano, uma das oito deputadas democratas a se opor ao financiamento do Iron Dome. E não vai apoiar Rachida Tlaib ou Ilhan Omar, do Esquadrão. Estes são apenas alguns exemplos da falta de unidade no campo liberal/progressista.

Falhas na estratégia do AIPAC 

Ao endossar mais de 100 candidatos republicanos que votaram para anular os resultados da eleição presidencial de 2020, AIPAC mostrou que tem vulnerabilidades que podem ser exploradas. Um grupo progressista democrata da Carolina do Norte aproveitou para declarar que “nenhum candidato norte-americano deveria aceitar fundos de uma organização que apoia financeiramente aqueles que procuram destruir a nossa democracia”, e retirou o apoio que já havia concedido a uma candidata ao senado estadual.

Em seu artigo, Peter Beinart ressaltou o caminho das pedras para se fazer frente à aliança dos lobbies pró-Israel com democratas moderados e conservadores: denunciar os apoios que AIPAC e DMFI dão a candidatos com histórico condenável na saúde, meio-ambiente e democracia. Como exemplo, Beinart lembra que AIPAC ajudou a reeleger Henry Cuellar, que em 2021 foi o único deputado democrata a votar contra a legislação iria inserir o direito ao aborto na lei federal.

O caminho para que os eleitores democratas escolham candidatos que defendam a dignidade dos palestinos passa primeiro pela escolha de candidatos que defendam a dignidade e liberdade na América, assevera Beinart.

Notas:

1 Working Family Party é uma organização com base em grupos comunitários e de trabalhadores, que recruta, treina, e elege candidatos progressistas.

2 As duas organizações têm Super PACs, e arrecadaram no atual ciclo eleitoral mais de 3 milhões e 10 milhões de dólares, respectivamente. Mesmo assim, isso representa bem menos do que foi obtido pelas organizações pró-Israel.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Aborto nos EUA: a solução está no aumento de juízes da Suprema Corte?

Por Ruben Rosenthal

Restaurar o equilíbrio entre conservadores e liberais na Corte, talvez seja a única forma de reverter o progressivo aumento da cisão na sociedade norte-americana.

Abortion is a extremely divisive theme for the north-americanssive
Manifestantes contra e favor da legalização do aborto. A sociedade norte-americana se encontra dividida.

Conforme já era esperado, a Suprema Corte norte-americana decidiu por 5 a 4 reverter o caso Roe vs. Wade que estabelecera o direito constitucional ao aborto em 1973, com base na 4a e 14a emendas da Constituição. Agora os estados poderão estabelecer legislações específicas. Estima-se que em 26 estados do país o aborto será proibido ou terá severas restrições.

As mudanças afetarão principalmente mulheres de baixa renda, que não terão condições financeiras de viajar para outros estados para interromper a gravidez. Algumas empresas, como a Amazon e a Apple, já anunciaram que pagarão as despesas de suas funcionárias que precisarem viajar.

Mas outras liberdades civis também poderão ser afetadas com a nova interpretação da Corte de maioria conservadora. Voltam a surgir no país vozes de peso que defendem o aumento no número de juízes da Corte, de forma a restabelecer o equilíbrio entre liberais e conservadores.

As hesitações de Biden

Na sequência da decisão da corte, Biden se limitou a declarar que “os eleitores terão a palavra final”. Este posicionamento indicou que a intenção do presidente era de capitalizar em cima do drama de milhares de mulheres, visando atrair votos para o partido Democrata nas eleições legislativas de novembro próximo. Mas o presidente parece ter se dado conta que, ao contrário, este posicionamento dúbio estava trazendo imenso desgaste político, no momento em que seu apoio popular já se encontra bastante prejudicado pela alta inflação, que está próxima dos dois dígitos.

Em 30 de junho, após criticar o “comportamento vergonhoso” da Suprema Corte, Biden declarou que irá impedir que a oposição obstrua a votação no Senado que garantiria o direito ao aborto em todo o país: “Temos que codificar Roe vs. Wade na lei, e a forma de conseguir é garantindo que o Congresso faça isso”, disse Biden. “E se a obstrução (pela oposição) for atrapalhar, será como no (caso do) direito ao voto, nós criaremos….uma exceção à obstrução (específica) para essa ação.”

Só que Biden parece se esquecer que, no caso da votação da reforma eleitoral ocorrida em janeiro deste ano, dois senadores democratas “problemáticos”, Joe Manchin e Kyrsten Sinema, se posicionaram com os republicanos, e a legislação não foi aprovada. No caso da questão do aborto, Biden e a liderança democrata precisarão negociar muito para superar a dissidência interna no partido.

A 14a emenda

A 14a emenda foi criada em 1868, no pós-guerra civil nos EUA, para impor aos estados do Sul escravocrata direitos individuais aos ex-escravos.  Conforme lembrou o professor Rafael Ioris, no programa Agenda Mundo, ao longo do século 20, a 14a emenda foi interpretada para garantir a ampliação de direitos individuais, como a dessegregação nas escolas (1954), e estendeu o direito à privacidade (estabelecido pela 4a emenda) ao direito ao aborto (1973), e, posteriormente, ao do casamento entre pessoas do mesmo sexo (2015).

Ioris ressaltou ainda que estes direitos não estão explicitados na Constituição: “A interpretação que foi concedida do direito ao aborto nunca foi absoluta, tanto que possibilitou que os estados regulamentassem de forma diversa sua aplicação. Por se tratar de uma interpretação (da emenda), mudanças na composição da Suprema Corte podem rever decisões anteriores.”

Obama e Biden não cumpriram promessas de campanha

Conforme o ativista político e youtuber Jimmy Dore ressaltou em seu programa, quando das últimas eleições presidenciais em 2020 Biden declarou que, se eleito, enviaria imediatamente para votação no Congresso a codificação da decisão da Corte no caso Roe vs Wade, o que não ele não fez. A codificação da lei do aborto pela autoridade federal invalidaria quaisquer leis estaduais anti-aborto que estivessem em conflito com as cláusulas da lei federal.

Antes dele, Barack Obama também dissera que a primeira coisa que faria como presidente seria assinar o ato da “liberdade de escolha”. Naquela ocasião Obama dispunha de maioria expressiva tanto na Câmara como no Senado, o que não é o caso de Biden agora.

Atualmente, a maioria democrata na Câmara é de 220 a 210, enquanto que no Senado 50 assentos são ocupados pelos republicanos, 48 pelos democratas, e 2 por independentes que votam com os democratas. Em caso de empate 50-50, a decisão cabe ao voto da vice-presidente, Kamala Harris. No entanto, a atual maioria democrata no Senado é ilusória, já que os republicanos podem fazer uso do mecanismo de obstrução (filibuster, em inglês), válido para casos polêmicos.

A obstrução no Senado

Para que uma legislação seja aprovada no Senado sem sofrer obstrução pela oposição, é necessário que uma maioria qualificada de 60 votos seja alcançada. No passado, o mecanismo de obstrução já foi utilizado para barrar a aprovação de projetos de lei que visavam combater a discriminação racial, conforme relatado pelo Centro Brennan por Justiça (Brennan Center for Justice), um think tank progressista norte-americano da área advocatícia.

Quando o projeto de lei chega ao plenário para votação após a conclusão dos debates, basta uma maioria simples de 51 votos para aprová-lo. Entretanto, a oposição pode estender indefinidamente os debates, de forma obstrutiva, a não ser que o projeto alcance um mínimo de 60 votos. Biden anteriormente se posicionara contrariamente aos apelos vindos da ala liberal do Partido Democrata para que fosse abolido de vez o mecanismo da obstrução.

Por vezes, alguns tipos de leis foram isentadas da regra, como em acordos comerciais. Biden tentou criar uma exceção para o caso da reforma eleitoral e não conseguiu. E agora ele declara que vai garantir uma exceção para tornar lei federal o parecer do caso Roe vs Wade. Um possível complicador é que codificar Roe vs Wade significaria ignorar decisões da Suprema Corte posteriores a 1973, que possibilitaram a estados governados por conservadores impor algumas restrições ao aborto. É possível, e mesmo provável, que os senadores Manchin e Sinema não aceitem que Roe vs Wade se torne lei federal, se ficarem de fora as restrições posteriores aceitas pela Corte.

Existe um plano B?

Não está claro ainda se Biden está buscando alternativas, caso não consiga negociar um consenso com os dissidentes democratas. Enquanto esta situação não se define, uma alternativa relativamente simples de ser implementada a curto prazo foi sugerida pela congressista Alexandria Ocasio-Cortez: que nos estados em que o aborto seja totalmente proibido ou sofra fortes restrições, a interrupção da gravidez possa ser conduzida em clínicas estabelecidas em espaços que estejam sob jurisdição federal.

Esta seria evidentemente uma solução emergencial, pois é provável que um futuro presidente republicano viesse a reverter a medida. E esta é a perspectiva que se coloca já para 2024, caso os Democratas não consigam recuperar o apoio que vem perdendo desde a posse de Biden.

Mas a questão da proibição do aborto não é a único trauma que poderá afligir amplos setores da sociedade norte-americana. Com a nova interpretação da14a emenda pela Suprema Corte ficou também aberto o caminho para que outros direitos já estabelecidos sejam revertidos, como o casamento de pessoas do mesmo sexo e o controle de natalidade.

Falta legitimidade à Suprema Corte dos EUA

Na origem dos atuais problemas está a expressiva maioria conservadora na Suprema Corte (6 a 3), alcançada principalmente através de um lobby intenso de grupos bancados por bilionários, conforme detalhado em artigo anterior do blog.

No governo Obama, um doador desconhecido contribuiu com 17 milhões de dólares para barrar a indicação do juiz Merrick Garland para a Suprema Corte, e apoiar posteriormente a indicação de Neil Gorsuck para a mesma vaga, já na administração Trump. Em 2018, o grupo Judicial Crisis Network recebeu possivelmente do mesmo doador outros 17 milhões para intermediar apoio à indicação de Brett Kavanaugh, que precisou superar acusações de que cometera abusos sexuais na juventude.

Outro grupo atuante é a Federalist Society, uma influente organização de advogados conservadores e ultraliberais, com ligações próximas a juízes da Suprema Corte. O advogado Leonard Leo, então vice-presidente executivo da entidade, foi o principal articulador do plano para garantir a indicação de juízes conservadores para as cortes federais, como também para influenciar no desfecho de causas. Detalhes da estratégia adotada foram relatados pelo jornal The Washington Post, em artigo de maio de 2019.

Para a senadora democrata Elisabeth Warren, que foi pré-candidata nas eleições presidenciais de 2020, a solução estaria em expandir a Corte: “Acredito que precisamos restaurar a confiança em nossa Corte, e isso significa que precisamos de mais juízes na Suprema Corte dos Estados Unidos. Já aconteceu antes. Fizemos isso antes e precisamos fazê-lo novamente.”

De fato, isso já foi feito antes, por 7 vezes. O artigo 3 da Constituição dos Estados Unidos, na seção 1, concede esta autoridade ao Congresso. Restaurar o equilíbrio entre conservadores e liberais na Corte, talvez seja a única forma de reverter o progressivo aumento da cisão na sociedade norte-americana. Resta ver se Biden conseguirá se superar e estar à altura da gravidade do atual momento.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Ucranianos morrem para os Democratas não perderem votos

Por Ruben Rosenthal

Biden parece estar mais interessado em não prejudicar eleitoralmente o Partido Democrata do que nas mortes e sofrimento do povo ucraniano com o prolongamento da guerra que financia.

Xadrez da geopolítica EUA-Rússia
A Ucrânia é peça importante no xadrez da geopolítica Rússia-Estados Unidos / Foto: Relatório Rand Corporation

A desinformação propagada pela mídia ocidental, difundindo uma suposta incompetência dos militares russos, não consegue ocultar que as forças de combate russas estão próximas de expulsar das repúblicas separatistas do Donbass as tropas do governo central de Kiev, compostas principalmente de milícias de extrema-direita e mercenários estrangeiros. Ao mesmo tempo, foi conquistado um amplo corredor terrestre conectando Crimeia e Rússia.

Faltam ainda a ser alcançados outros objetivos estabelecidos inicialmente por Putin, como a desmilitarização e desnazificação da Ucrânia, bem como o não ingresso na OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, e a garantia de neutralidade do país com o qual a Rússia faz fronteira por uma extensão de cerca de 2.700 quilômetros.

A questão que se colocará em breve é se Moscou se dará por satisfeita com a liberação do Donbass e com outras metas já alcançadas, ou se o conflito entrará em uma nova fase, com consequências imprevisíveis para a Europa e para o mundo. A Rússia parece não ter sido profundamente afetada pelas sanções econômicas por parte do Ocidente, mas estas vêm causando aumento dos preços de combustíveis e escassez de alimentos em vários países.

No discurso de 24 de fevereiro ao povo russo, Putin ressaltou que as operações que se fizerem necessárias para expulsar as tropas ucranianas do Donbass estão de acordo com o Artigo 51 (capítulo VII) da Carta da ONU, e atenderam ao acordo de amizade e de assistência mútua com as repúblicas populares de Luhansk e Donetsk, que constituem o Donbass, cuja população é majoritariamente de origem russa. A escala das operações militares até o momento se faz com a autorização concedida pela Duma, o parlamento russo.

A ampliação das operações de combate necessárias para serem alcançados os objetivos originalmente pretendidos poderá fazer com que o conflito se espalhe para países vizinhos pertencentes a OTAN, avalia o analista Scott Ritter, ex-oficial de inteligência do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos.

Para melhor compreensão do cenário atual e do que poderá vir futuramente é necessário se ter em conta quais foram os antecedentes que levaram à intervenção russa em solo ucraniano.

O pavio do conflito. Os analistas independentes não hesitam em associar a origem do atual conflito ao golpe de 2014, apoiado por Barack Obama, que afastou o presidente eleito Viktor Yanukovych através do que ficou conhecido como a revolução colorida de Maidan (ver artigo anterior do blog)

Seguiu-se o referendo na Crimeia, com 97% dos votantes optando pela incorporação da península à Rússia. Na sequência, as regiões Luhansk e Donetsk demandaram um referendo de autodeterminação (autonomia), de forma a poder preservar a cultura russa, que se via ameaçada pelo novo governo. Não se tratava naquela ocasião de um movimento separatista.

A reação de Kiev levou à repressão contra diversas regiões de língua russa, e a massacres em Odessa e Mariupol.  Os autonomistas tomaram em armas para se defender. Conforme assinala artigo do analista Jacques Baud, ex-membro da inteligência estratégica suíça, os rebeldes não obtiveram suas armas da Rússia, e sim, de unidades ucranianas de fala russa. Baud lembra ainda que os acordos de Minsk 1 (setembro de 2014) e Minsk 2 (fevereiro de 2015) não concediam independência às Repúblicas de Luhansk e Donetsk, mas, um certo grau de autonomia.

O acordo deveria também incluir uma ampla anistia a todos os envolvidos no conflito, bem como o desmantelamento das organizações paramilitares de extrema direita que participaram do Maidan, e que também se envolveram nos confrontos bélicos. Entretanto, a Ucrânia não implementou quaisquer das  medidas estipuladas. A OSCE passou a monitorar a linha de separação entre as partes beligerantes, mas não tinha capacidade militar para intervir.

O estopim do conflito. Em 24 de março de 2021, o presidente ucraniano Volodymir Zelensky emitiu um decreto que reafirmava a soberania sobre a Crimeia e passou a estacionar tropas no sul do país. As tensões entre Rússia e Ucrânia escalaram no decorrer do ano.

A intenção explicitada por Zelensky  de que seu país entrasse para a OTAN, contou com a concordância de Joe Biden. O Ministério das Relações Exteriores russo pediu garantias por escrito de que a Ucrânia jamais ingressaria na OTAN. Em 17 de dezembro de 2021, Putin cobrou também que a área de influência militar da OTAN retrocedesse aos limites existentes em 1997, conforme o que havia sido então acordado entre EUA e Rússia quando do final da União Soviética.

Expansão da OTAN para o Leste da Europa
Expansão da OTAN no Leste da Europa após 1997; a adesão da Alemanha Oriental se deu com a reunificação do país em 1990 / Fonte: BBC

Em 27 de janeiro de 2022, o Secretário de Estado Antony Blinken declarou que Washington não daria garantias à Rússia de que a Ucrânia não ingressaria no bloco militar. Os EUA continuaram a agitar o cenário político, criando um clima de pânico de que a invasão russa era iminente, o que fez com que Zelensky pedisse moderação ao Ocidente, para não prejudicar a economia ucraniana.

Em 16 de fevereiro de 2022, a artilharia ucraniana iniciou um massivo bombardeio de regiões civis do Donbass sob controle dos rebeldes. Talvez isso explique porque Biden anunciou, em 17 de fevereiro, que a Rússia atacaria a Ucrânia nos próximos dias.

Os ataques devem ter partido provavelmente do batalhão Azov, que está vinculado à Guarda Nacional, que responde ao Ministério do Interior; já o Exército, está subordinado ao Ministério da Defesa.

Teria o batalhão Azov agido à revelia de Zelensky, incitado por Washington? Esta é uma hipótese bem plausível, considerando que aos EUA interessavam a deflagração de um conflito que desgastasse a economia russa. A estratégia está explicitada nas páginas 95 a 103 do manual de guerra híbrida da Rand Corporation, think tank financiado pelo exército norte-americano.

Vale lembrar que Zelensky fora eleito com uma proposta de selar a paz no Donbass. Mas segundo declaração do especialista em Rússia, Stephen Cohen (falecido recentemente), em entrevista ao jornalista Aaron Maté, Zelensky logo foi obrigado a recuar em face das ameaças de morte vindas da extrema-direita ucraniana, e por não ter recebido apoio de Washington. Mas, como todo ator que se preza, Zelensky assumiu e incorporou um novo personagem, que agora só usa como traje teatral, camisas T-shirt do exército ucraniano.

Em 19 de fevereiro de 2022, Zelensky fez um discurso na Conferência de Segurança de Munique, em que pede ao Ocidente que apoie a Ucrânia para impedir uma invasão russa. O presidente ucraniano ameaçou abandonar o Memorando de Budapeste de 1994, pelo qual a Ucrânia abrira mão de seu arsenal atômico com a garantia que teria preservada a integridade de suas fronteiras.  A declaração acirrou ainda mais as tensões com a Rússia.

Em 21 de fevereiro, Putin reconheceu a independência das Repúblicas de Luhansk e Donesk. Em 23 de fevereiro as duas repúblicas pediram ajuda militar à Rússia. No dia seguinte, Putin fez o discurso já mencionado, em que estabeleceu os objetivos da intervenção que se iniciava em solo ucraniano.   

A primeira fase da guerra. Nas primeiras semanas do conflito a capital ucraniana Kiev foi submetida a intenso bombardeio, ao mesmo tempo em que um longo comboio de blindados se dirigia para a capital. Para os analistas da mídia ocidental a estratégia russa era de tomar a capital ucraniana, afastando Zelensky da presidência.

Após um mês de luta as tropas russas se retiraram do norte da Ucrânia, e passaram a focar na conquista da região leste. Ritter cita em seu artigo a declaração feita em 25 de março pelo coronel-general Sergei Rudskoy, do Estado-Maior da Forças Armadas da Federação Russa: “Os objetivos principais da primeira fase de operações foram alcançados. A capacidade de combate das Forças Armadas da Ucrânia foi significativamente reduzida, o que nos permite de novo concentrar nossos esforços em alcançar o objetivo principal – a liberação do Donbass. Todas as 24 formações das forças terrestres (ucranianas)….sofreram perdas significativas.”

A segunda fase da guerra. Na batalha da informação, prevalecia o consenso estabelecido pela mídia do Ocidente, que demonizava Putin e procurava desmoralizar a eficácia das tropas russas, ecoando versões que a Ucrânia estava forçando os russos a recuarem, e que logo a Crimeia seria retomada.

De fato, a tarefa de derrotar as tropas ucranianas estacionadas no Donbass não seria fácil. Nos oito anos de guerra civil os militares do governo central de Kiev preparam um cinturão defensivo, consistindo de estruturas de concreto bem fortificadas, segundo declaração do general Rudskoy citada por Scott Ritter.

Ainda segundo Ritter, a vantagem russa na artilharia vem sendo um fator determinante do resultado vitorioso na fase 2 das operações, “pulverizando as defesas ucranianas e abrindo o caminho para a infantaria e blindados”. E acrescentou: “A vitória russa no leste da Ucrânia possibilita uma conexão por terra entre a Crimeia e o território da Federação Russa. A tomada de Kherson permite restabelecer o fornecimento de água à Crimeia, o que vinha sendo impedido pelo governo central desde o plebiscito de 2014.”

 A guerra entrará em uma terceira fase? Vários dos objetivos pretendidos por Putin não foram ainda alcançados, ressalta Scott Ritter. No campo político, a “operação especial militar” tinha como um dos principais objetivos, impedir o ingresso da Ucrânia na OTAN. No campo dos objetivos militares, faltava ainda desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia.

Desnazificação. A derrota do Batalhão Azov em Mariupol representou um sério revés para as milícias neonazistas. No entanto, milhares de combatentes neonazistas se encontram ainda em atividade no leste da Ucrânia.

Para Ritter, o objetivo só poderá ser alcançado com a  remoção de Zelensky da presidência, e sua substituição por uma liderança que esteja comprometida com a efetiva  erradicação da ideologia neonazista na Ucrânia.

Desmilitarização. Conforme relato de Jacques Baud, a desmilitarização seria alcançada através dos seguintes objetivos: destruição no solo da aviação, dos sistemas de defesa aérea e dos meios de reconhecimento; neutralização das estruturas de comando e inteligência, bem como das principais rotas logísticas no interior do território; cerco ao exército ucraniano concentrado no sudeste do país. 

No entanto, com a ajuda militar de dezenas de bilhões de dólares a Kiev pelos EUA e outros países da OTAN torna-se bem mais complicado para a Rússia conseguir completar os objetivos de desnazificar e desmilitarizar a Ucrânia.

Putin precisará avaliar muito bem se poderá continuar a perseguir estes objetivos, bem como a não filiação da Ucrânia à OTAN, fortalecida ainda mais com o ingresso esperado da Suécia e Finlândia, sendo que este último apresenta extensa fronteira comum com a Rússia. Para obter sucesso, a Rússia precisaria expandir as operações militares em regiões não ocupadas nas fases 1 e 2, avalia Ritter. Aos Estados Unidos interessam estender a duração do conflito, para desgastar ainda mais a economia russa.  

No entanto, importantes especialistas militares das Forças Armadas norte-americanas já consideram que, para a Ucrânia, é melhor negociar agora um acordo de paz com a Rússia, do que esperar mais tempo e entrar enfraquecida nas negociações. Em um painel organizado pelo think tank CFR, Council for Foreign Relations no final de maio, essa foi a opinião expressa pelo tenente-general Stephen Twitty, ex-comandante do Primeiro Exército dos EUA e ex-vice-comandante (2018-2020) do Comando Europeu dos EUA. Para Twitty, os ucranianos nunca conseguirão derrotar os russos: apesar da paridade numérica de ambas as tropas (nos cenários de operações), a Rússia tem um poder de combate bem maior que o dos ucranianos.

Ao participar de um seminário na Finlândia em 12 de junho, o secretário geral da OTAN, Jens Stoltemberg, também se mostrou realista sobre o encaminhamento da guerra, antecipando que a Ucrânia precisaria fazer concessões, ao declarar: “O apoio militar (a Kiev) é um caminho para fortalecer os ucranianos na mesa de negociações…(mas) a questão é: qual o preço a pagar pela paz? Quanto território? Quanta independência? Quanta soberania?”  

Para o presidente norte-americano Joe Biden, a capitulação da Ucrânia antes das eleições de novembro representaria um forte revés político, que seria explorado politicamente pelos republicanos. Biden parece estar mais interessado em não prejudicar as chances do Partido Democrata do que nas mortes e sofrimento do povo ucraniano com o prolongamento da guerra que financia.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

Rússia-Ucrânia: a geopolítica do novo mundo

Por Ruben Rosenthal

O processo-chave neste novo mundo será o chamado “confronto gerenciado” entre a Rússia e o Ocidente, impedindo a escalada espontânea em direção à guerra.

War in Ukraine
Guerra Rússia-Ucrânia: tensões no Leste da Europa. Foto montagem: Kirill Makarov

Tanto cutucaram o urso com vara curta que finalmente ele reagiu. A crise na Ucrânia, que culminou com a invasão russa de 24 de fevereiro, foi em verdade iniciada em 2014, com o golpe apoiado por Barack Obama e que afastou o presidente eleito Viktor Yanukovych através da revolução colorida de Maidan.

Seguiu-se o referendo na Criméia, com 97% dos votantes optando pela incorporação da península à Rússia. Na sequência  cresceu o movimento separatista no Donbass, onde parte significativa da população é de origem russa.

Nos meses recentes, as constantes violações do cessar-fogo entre os separatistas do Donbass e tropas do governo de ultranacionalista de Kiev contribuíram para a escalada das tensões entre Moscou e Kiev.

A intenção explicitada pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky,  de que seu país entrasse para a OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, bem como a concordância de Joe Biden, foram considerados por Vladimir Putin uma ameaça insustentável à segurança da Rússia.

A expansão da OTAN, seguindo-se ao fim da aliança militar do Pacto de Varsóvia (julho 1991) e da União Soviética (dezembro de 1992), já há muito alcançara a fronteira russa. Em dezembro de 2021, a imprensa do ocidente começou a gerar notícias de que uma invasão russa da Ucrânia era iminente.

NATO's eastern expansion
Mapa da expansão da OTAN para o leste da Europa. A Alemanha Oriental foi incluída com a reunificação do país em 1990. Fonte: OTAN

O desenrolar da crise da Ucrânia, desde seu início em 2014 até a escalada de tensões que antecedeu a invasão do território ucraniano, pode ser acompanhada em artigo anterior do blog. Aos Estados Unidos interessam forçar engajamentos militares da Rússia que sobrecarreguem a economia russa, da mesma forma que as sanções aplicadas pelo Ocidente. A receita está explicitada no manual de guerra híbrida da Rand Corporation, think tank financiado principalmente pelo exército norte-americano.

A invasão da Ucrânia tem o potencial de abalar a atual ordem geopolítica. Segundo o veículo informativo alemão Deutsche Welle (DW), analistas consideram que poderá ser revertido “o ordenamento pacífico” (grifo do blog) que muitos previam que iria prevalecer quando a OTAN e a União Europeia começaram a incorporar novos países-membros no Leste da Europa, com o colapso da União Soviética.

Para esses analistas, com a atual crise na Ucrânia os países europeus passariam a ser mais dependentes dos EUA para a defesa de seus territórios, assim como quando do período da Guerra Fria. Também aumentaria a militarização das regiões próximas à fronteira russa.

Para o New Statesman, as relações entre a Rússia e o Ocidente serão alteradas de tal forma que o cenário da geopolítica global poderá ser afetado. Os efeitos desestabilizadores do conflito chegariam a outras regiões na Europa Central, Bálcãs, Ásia Central e ao Pacífico. A questão China-Taiwan voltaria a ficar na ordem do dia, para o veículo de mídia britânico.

Os dois países beligerantes acertaram iniciar conversações na fronteira entre Ucrânia e Bielorússia (Belarus) em 28 e fevereiro. A Rússia certamente não aceitará menos do que a desmilitarização da Ucrânia e o compromisso de não filiação à OTAN.  Por outro lado, pode fazer parte das cartas de Putin que as regiões de Donetsk e Luhansk, no Donbass, voltem se integrar à Ucrânia, mas como repúblicas autônomas. O Protocolo de Minsk de 2014, que já previa a concessão de um certo grau de autonomia para estas regiões, foi então sabotado pela Ucrânia e pelos Estados Unidos.

No entanto, na visão do analista russo Andrey Sushentsov, decano da Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO), poderia estar nos planos de Putin que a Ucrânia venha a se tornar o terceiro membro de uma União de Estados entre Rússia e Bielorrússia. No entanto, considerando que as negociações para se criar a União de Estados entre Belarus e Rússia já se arrastam há mais de 20 anos, fica difícil imaginar como tal solução poderia ser implementada no caso da Ucrânia, senão através de uma adesão compulsória que não seria aceita por parte da população ucraniana.

O artigo de Sushentsov intitulado “Rússia-Ucrânia: Aonde Vais”, publicado em 26.02.2022 no Valdai Club, é apresentado a seguir em sua íntegra1, com tradução2 de Ruben Rosenthal. O autor prevê que o novo ordenamento geopolítico global que se anuncia buscará sua estabilidade através do “confronto gerenciado”.

Russia-Ukraine: Quo Vadis?, por Andrey Sushentsov

“Em 24 de fevereiro, terminou a era da busca da Rússia por seu lugar em um mundo centrado no Ocidente. Neste mundo, todas as iniciativas políticas vieram apenas do Ocidente. Os países ocidentais também determinaram as regras básicas e permitiram, a critério deles, que outros participantes compartilhassem os benefícios da ordem estabelecida.

Nas últimas três décadas, a Rússia procurou encontrar seu lugar neste mundo, de uma forma que estivesse de acordo com seus interesses. De início, com cautela e até timidamente, e depois de forma mais persistente, a Rússia sinalizou que ignorar seus interesses levaria a uma crise mundial.

Em resposta a isso, o Ocidente começou a considerar a Rússia o principal problema enfrentado pela segurança europeia. A questão principal foi estabelecer o grau de culpa da Rússia pelo que estava acontecendo na Europa Oriental – Moldávia, Bielorrússia, Donbass e Crimeia. Ao final de 2020, era rotineiro realizar provocações militares nas fronteiras da Rússia, testando a vontade política da liderança russa quase que diariamente.

A perigosa proximidade de navios militares, as manobras de frotas militares perto das fronteiras da Rússia, provocações no Donbass e na Crimeia, a pressão política constante, as sanções, os ataques cibernéticos, bem como a constante ameaça de escalada do conflito tornaram-se uma característica integral do chamado “diálogo” político com a Rússia.

Ao longo de todas essas décadas, o enfoque russo foi baseado na diplomacia. A resposta russa foi complexa, metódica, e apelou para o senso comum das principais elites do Ocidente. Em uma série de aparições públicas em grandes fóruns estrangeiros e através de uma lista de iniciativas para criar um novo regime de segurança na Europa – como o Tratado Europeu de Segurança – a Rússia buscou que uma sólida e indivisível arquitetura de segurança europeia fosse construída através de acordos e diplomacia.

Quando finalmente percebeu que essas tentativas não tinham sucesso, a Rússia adotou a lógica do Ocidente, segundo a qual a segurança europeia só tinha um problema (a própria Rússia, no entender do Ocidente). Moscou pensa agora também desta forma: o principal problema do sistema de segurança europeu está no ativismo militar dos EUA e da OTAN.

Depois de um tempo, diminuirão as emoções associadas à fase aguda atual da crise, e as negociações inevitavelmente serão retomadas. Mas de qualquer forma, será outro mundo. Neste mundo, a Rússia afastará a fronteira de segurança de suas fronteiras (físicas), para longe em direção ao Ocidente.

A Ucrânia terá um novo governo e será desmilitarizada, com certeza. É mais provável que a Ucrânia se torne o terceiro membro da União (de Estados) entre Rússia e Bielorrússia. Se a ameaça americana de criar um sistema de apoio para ações clandestinas ucranianas, com a implantação de campos no território dos estados da Europa Oriental começar a se materializar, a Rússia terá em mente uma resposta simétrica: forte pressão sobre países da Europa Oriental.

Com o tempo, este confronto híbrido deverá terminar, como terminou antes entre a Rússia e a Turquia, que usaram ferramentas semelhantes de influência uma contra a outra. No novo mundo, a Rússia não tolerará violações dos direitos das pessoas com identidade russa, onde quer que vivam: irá defendê-las com firmeza e persistência.

A troca de ataques cibernéticos se tornará comum em um mundo onde um conflito militar direto entre a Rússia e o Ocidente é impossível. Será relativamente rotineira, para demonstrar as intenções e o potencial militar. No caso do estacionamento de armas ofensivas em países da OTAN nas fronteiras russas, por exemplo, nos territórios dos Estados Bálticos ou da Polônia, a Rússia criará ameaças em lugares inesperados da Europa e do Hemisfério Ocidental.

O processo-chave neste novo mundo será o chamado “confronto gerenciado” (grifo do blog) entre a Rússia e o Ocidente, impedindo a escalada espontânea em direção à guerra. O objetivo da Rússia permanece inalterado – criar um sistema de segurança mais justo na Europa, que leve mais em conta os interesses russos. Este sistema deve basear-se nas regras de comportamento prudente e na recusa em criar ameaças militares mútuas.

A interdependência entre a Rússia e os países do Ocidente será menor, mas não cessará completamente. As entregas de recursos energéticos russos em troca de tecnologias ocidentais continuarão em demanda. Também não é possível excluir completamente a Rússia do sistema financeiro global. No entanto, as sanções impostas pelos EUA e pela UE acelerarão a retirada do dólar dos acordos internacionais.

Embora nas primeiras páginas da mídia mundial vejamos a percepção da crise atual através dos olhos do Ocidente, os atores importantes na situação atual são os estados do Oriente: a China escolheu uma linha cautelosa em relação ao que está acontecendo, e está enviando sinais de que é uma das partes interessadas em criar uma ordem mundial multipolar.

A posição de outros grupos de elite influentes também mostra que eles não estão solidários aos países do Ocidente, com o que está acontecendo. Irã, Azerbaijão, Turquia, Brasil e Paquistão demonstram que seus interesses nacionais são diferentes dos do Ocidente em relação à segurança europeia.

O caráter rotineiro da maior crise militar da Europa desde o ataque da OTAN a Belgrado mostra que as relações internacionais estão voltando ao seu padrão histórico: vários centros de iniciativa que competem entre si pela influência global. Há mais perigos neste mundo, mas também mais cautela.”

1 O blog não necessariamente compartilha de todos os pontos de vista expressos pelo analista russo.

2 Os termos entre parênteses foram acrescentados na tradução.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF e responsável pelo  blogue Chacoalhando.

Agrotóxicos matam mais crianças no Brasil que a Covid-19

Por Ruben Rosenthal

É inaceitável que a ANVISA não tenha a última palavra sobre a proibição de agrotóxicos que causem a morte e danos irreparáveis à saúde de centenas de crianças.

Stringer Mexico Reuters
Protesto contra a Monsanto, México, 2021 \ Foto: Stringer México/Reuters 

O texto-base do Projeto de Lei 6299/2002 aprovado há poucos dias na Câmara transfere a decisão de autorização e comercialização de agrotóxicos no país para o Ministério da Agricultura. Com isso, o IBAMA e a ANVISA, embora mantenham a responsabilidade por analisar e estabelecer exigências aos produtos, deixariam de ter o poder de decisão final.

No entanto, ao longo dos anos, tanto IBAMA como ANVISA permitiram que a contaminação de alimentos e da água causada pelos agrotóxicos atingisse níveis alarmantes. Com as mudanças que governo Bolsonaro procura aprovar na legislação, as consequências serão catastróficas – caso o Senado ratifique estas medidas – que causarão ainda mais mortes.

Os agrotóxicos mais consumidos no mundo são à base de glifosato, como o Roundup desenvolvido pela Monsanto, que foi comprada pela Bayer em 2018.

Desde 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, que faz parte da OMS, a Organização Mundial de Saúde, classificou o glifosato como provável causador de câncer.

Um estudo feito por pesquisadores brasileiros da Universidade de Princeton, da FGV e do Insper, mostrou que mais de 500 crianças morrem no Brasil todos os anos pelo efeito do glifosato. Existem também muitos relatos de malformação congênita e sérios distúrbios neurológicos em crianças causados por este agrotóxico.

Segundo o estudo, as mortes aumentaram a partir da introdução da soja transgênica, conhecida como Roundup Ready. Por ser resistente ao uso do glifosato, maiores níveis do produto podem ser aplicados na lavoura, o que levou à contaminação da água dos rios próximos. Na Europa, o limite máximo permitido de glifosato na água é 5.000 vezes menor que no Brasil. Ou seja, 0,1 microgramas por litro lá, e 500 microgramas por litro, aqui.

Alguns países já estão banindo o uso do glifosato, ou mesmo processando a Bayer/Monsanto por casos de câncer, como está ocorrendo nos Estados Unidos. Nos EUA, a Monsanto já foi condenada em várias instâncias em um caso emblemático, que mostrou o glifosato causa o linfoma não-Hodgkin, que é extremamente agressivo e mortal.

Aqui no Brasil, a mídia corporativa só apresenta as virtudes do agronegócio. Na Globo, “Agro é Pop”. Um boletim de 2011 da Rede Globo sobre o agronegócio, voltado especialmente para publicitários, ressaltou como um “caso de sucesso”, como a Monsanto conseguiu alcançar seu público-alvo para comercializar o Roundup, através do Globo Rural.

O periódico britânico The Guardian relatou que o uso indiscriminado do Roundup fez com que surgissem ervas daninhas super-resistentes ao glifosato,    em milhões de acres de terras cultiváveis nos EUA.

Em face disso, Monsanto e BASF atuaram juntas para desenvolver sementes que fossem resistentes a um outro agrotóxico, o dicamba. No entanto, o dicamba é muito volátil no verão, e por deriva pode alcançar regiões bem distantes de onde ele é aplicado, arruinando outras plantações, inclusive de orgânicos. Por este motivo, dezenas de fazendeiros norte-americanos estão processando a Monsanto e a BASF, e seu uso foi proibido pela justiça norte-americana.

Existe documentação que mostra como a Monsanto interferiu secretamente em trabalhos científicos sobre o efeito cancerígeno do glifosato. Os lobistas dos agrotóxicos, como a CropLife Brasil, fazem uso destas matérias de pretenso cunho científico para propaganda, e para questionar as pesquisas sérias que demonstraram os efeitos nocivos de vários tipos de agrotóxicos.

Outros agrotóxicos trazem também enormes riscos de saúde. Neste artigo apenas alguns destes são mencionados. O clopirifós é um agrotóxico que foi proibido nos EUA por estar associado à diminuição do QI em crianças, mas que é usado em larga escala no Brasil, segundo o site Por Trás do Alimento.

Segundo outro relato do site Por Trás do Alimento, o Brasil é o principal destino de inseticidas à base de neonicotinóides  exportados pela Bayer e pela chinesa Syngenta. Estes agrotóxicos foram banidos na Europa por causarem a morte de centenas de milhões de abelhas, assim como o fipronil. Como as abelhas são fundamentais para a agricultura através da polinização, o agronegócio pode estar dando um tiro no pé, ao continuar com o uso destes produtos em níveis elevados. Atualmente, a Europa está considerando proibir a exportação de agrotóxicos cujo uso já seja proibido lá.

A Bayer vem investindo em uma agenda positiva, para se contrapor a má imagem na questão dos agrotóxicos. A empresa fabricante de agrotóxicos também produz medicamentos, como a aspirina e outros. E, exatamente por este motivo, ela pode ficar vulnerável a um boicote de consumidores que estejam conscientes da contaminação de alimentos e da água por vários dos “remédios” que a Bayer produz para uso nas lavouras.

Com os desatinos do governo Bolsonaro e de sua ministra Tereza Cristina, que já foi chamada de “musa do veneno”, o número de mortes vai aumentar, bem como o de casos de malformação congênita. O setor dos agrotóxicos precisa ser devidamente regulamentado, de forma a garantir o direito da população a consumir um alimento saudável e o acesso à água não contaminada por resíduos de produtos químicos.

Caso contrário, o cenário que continuaremos a ter todos os anos no país é de mais mortes e sequelas graves em crianças, do que as que foram causadas pela pandemia da Covid-19.

É inaceitável que a ANVISA não tenha a última palavra sobre a proibição de agrotóxicos que causem a morte e danos irreparáveis à saúde de centenas de crianças. Assim como é também inaceitável que não caiba ao IBAMA a decisão de banir um agrotóxico que cause o extermínio de abelhas.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Crise na Ucrânia: quem pisca primeiro, Biden ou Putin?

Por Ruben Rosenthal

O risco é que uma guerra possa irromper de forma inadvertida. A história está repleta de exemplos de provocações que saíram de controle.

Xadrez da geopolítica EUA-Rússia
    Xadrez da geopolítica Rússia-Estados Unidos \ Foto: Relatório da Rand Corporation

O Ocidente voltou a acusar a Rússia se estar prestes a invadir a Ucrânia, mas o Kremlin nega que tenha planos de invasão. Segundo a mídia ocidental, um contingente de cerca de 100 mil militares russos está estacionado há várias semanas nas proximidades das fronteiras da Ucrânia. Por seu lado, Moscou continua a exigir que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) cesse sua expansão para países do Leste Europeu.

As denúncias da iminência de uma invasão russa surgiram em 3 de dezembro. Segundo o Washington Post, “a inteligência norte-americana teria descoberto que o Kremlin está planejando uma ofensiva militar em várias frentes para o começo de 2022, envolvendo até 175 mil combatentes”.

Na verdade, a mídia Ocidental vem anunciando a proximidade de uma ação bélica russa desde abril de 2021. Naquela ocasião, o comandante do exército ucraniano, general Ruslan Khomchak, declarou que a Rússia estacionara 28 batalhões de grupos táticos na fronteira, totalizando de 20 a 25 mil militares (BBC News). Mas, ainda em abril, a agência Reuters inflou este número para 100 mil. Em 21 janeiro de 2022 o Financial Times “atualizou” o contingente russo para 106 mil.

Em 24 de janeiro, a OTAN anunciou que seus países-membros estavam colocando as tropas em prontidão e enviando navios e aviões de guerra para o Leste da Europa, pelo receio de uma invasão russa na Ucrânia (Reuters).

Estados Unidos e Reino Unido retiraram parte dos diplomatas da Ucrânia (BBC), ao mesmo tempo em que os EUA anunciaram que haviam colocado em alerta máximo um contingente de 8.500 militares para envio ao leste europeu.

Em 25 de janeiro, a Rússia conduziu manobras militares na Criméia e próximo à Ucrânia. As manobras teriam envolvido a participação de 6 mil militares em exercícios de combate com bombardeiros, sistemas antiaéreos, e navios das frotas do Mar Negro e do Cáspio (Agência France-Presse).

Poucos dias antes (18 de janeiro), ocorreram exercícios militares na Bielorússia, aliada da Rússia, que também faz fronteira com a Ucrânia. As manobras  envolveram sistemas de mísseis russos de defesa S-400 e Pantsir, segundo relato no Financial Times. Novas manobras conjuntas da Rússia com a Bielorússia estão previstas para fevereiro.

O atual recrudescimento da crise já era esperado, do momento em que a Rússia anunciou (17 dez. 2021) que não mais aceitaria que a OTAN prosseguisse em sua contínua expansão na direção da fronteira russa. O Ministério das Relações Exteriores russo pediu garantias por escrito de que a Ucrânia jamais ingressaria na OTAN. A Organização também deveria deixar de promover atividades militares na Ucrânia e em outros países que fazem fronteira com a Rússia (Moscow Times).

No entanto, o Secretário de Estado Antony Blinken declarou em 27 de janeiro de 2022, que Washington não daria tais garantias à Rússia (Folha de São Paulo, New York Times). Para Putin, os EUA estão tentando fazer com que Rússia ataque a Ucrânia, para que então sanções econômicas sejam impostas (BBC News).

Dentre as retaliações planejadas por Washington, caso ocorra uma intervenção militar russa na Ucrânia, estaria aplicar sanções aos títulos públicos russos. Também como retaliação, seria impedido o funcionamento do gasoduto Nord Stream 2, algo que no entanto também prejudicaria a  Alemanha.

Em outra frente de conversações, representantes da França, Alemanha, Rússia e Ucrânia concordaram em manter o acordo de cessar fogo no leste da Ucrânia, entre separatistas do Donbass e o governo central de Kiev (Deutsche-Welle). O enviado do Kremlin, Dmitry Kozak, disse que, “apesar de todas as diferenças nas interpretações, o cessar-fogo precisa ser mantido em linha com os acordos”.  Tratava-se de uma referência aos acordos de Minsk, que foram assinados na Normandia em 2014, pelos representantes dos quatro países.

Histórico da crise: Viktor Yanukovych, eleito presidente da Ucrânia em 2010, adotou com uma posição contrária a um desvantajoso acordo econômico com a União Europeia. O presidente optou então em fazer o acordo com a Rússia, o que desagradou Washington

Sobreveio então a revolução colorida de Maidan, em fevereiro de 2014 – apoiada pelo governo de Barack Obama – que afastou Yanukovych da presidência. Foi então instalado um governo pró-Ocidente em 2014, com a ajuda de grupos neonazistas ucranianos.

Como reação, a população ucraniana de origem russa na Criméia promoveu um referendo, com resultado favorável à anexação da península pela Rússia.  Movimentos separatistas em Luhansk e Donetsk, na região do Donbass no leste da Ucrânia, também defenderam a realização de um referendo, o que levou à confrontação bélica com as tropas de Kiev.

Protocolo de Minsk: As negociações de paz ocorreram na capital da Bielorússia, monitoradas por observadores da OSCE (a Organização para a Segurança e Cooperação Europeia), tendo como garantidores França, Alemanha e Rússia. Pelo acordo de 2015 esperava-se chegar à reconciliação política na Ucrânia através de uma série de etapas que conduziriam a eleições livres, à concessão de autonomia política ao Donbass e ao controle por Kiev da fronteira com a Rússia.

O acordo deveria também incluir uma ampla anistia a todos os envolvidos no conflito, bem como o desmantelamento das organizações paramilitares de extrema direita que participaram do Maidan, e que também se envolveram nos confrontos bélicos. Entretanto, a Ucrânia não implementou quaisquer destas medidas. A OSCE monitora desde então a linha de separação entre as partes beligerantes, mas não tem capacidade militar para intervir.

Região do conflito separatista do Donbass
O mapa mostra as regiões em Luhansk e Donetsk sob controle dos separatistas (região hachurada à direita) e do governo central. 

Um cessar-fogo foi implementado em 27 de julho de 2020, embora escaramuças entre separatistas e tropas do governo tenham ocorrido em algumas ocasiões. Estima-se que, desde o início da guerra, o número de mortes nos confrontos seja de 14 mil. O protocolo de Minsk permanece como base para um acordo futuro.

A expansão da OTAN e o cerco à Rússia

A crise na Ucrânia não pode ser entendida fora do contexto geopolítico que se seguiu ao fim da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, segundo o professor russo Alexander Zhebit1 declarou em entrevista ao programa Agenda Mundo (Parte 1, Parte 2).

“Com a extinção do Pacto de Varsóvia em 1990, a Rússia retirou suas tropas – cerca de 350 mil – da Alemanha e da Europa Oriental, mas o aparato militar da OTAN existente ao final da Guerra Fria não foi desmontado”.

“O equilíbrio estratégico começou a mudar severamente contra a Rússia quando OTAN começou a se expandir, apesar das promessas de líderes ocidentais de que tal expansão não ocorreria”.

“Em 1999 ocorreu a adesão da Polônia, Hungria e República Checa à OTAN. Em 2004, a expansão se deu para a área da antiga União Soviética, chegando às fronteiras da Rússia, com a entrada da Lituânia, Letônia e Estônia na Organização. Na Europa centro-oriental, aderiram Eslovênia, Eslováquia, Bulgária e Romênia”.

Mais países ingressaram na OTAN nos anos seguintes, de forma que atualmente a Organização totaliza 30 estados membros. “Várias adesões se deram com base na “chantagem de que a adesão à OTAN seria uma etapa indispensável para ingressar na União Europeia”, lembra Zhebit.

A OTAN pretende expandir o bloco ainda mais, para incluir Ucrânia e Geórgia. Em uma reunião de cúpula da Organização realizada em 2008 em Bucareste, Romênia, o então presidente norte-americano George Bush propôs que Ucrânia e Geórgia passassem por um processo gradativo de ingresso na OTAN. Na ocasião, prevaleceu a posição contrária defendida pela chanceler Angela Merkel, que argumentou que tal ação iria levar ao aumento da fricção com a Rússia (The Guardian).

Quando a escalada da crise começou em abril de 2021, o analista político Mark Sleboda, norte-americano radicado na Rússia, avaliou que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky estaria interessado em forçar uma intervenção russa, para que o projeto do gasoduto Nord Stream 2 fosse  sustado pela Alemanha. Isso porque, com o gasoduto concluído, a Ucrânia deixaria de receber pagamento pela passagem de suprimentos de gás por seu território, afetando bastante a economia do país.

Alexander Zhebit concorda com Sleboda, acrescentando ainda que “outros membros da União Europeia, como Polônia, Países Bálticos, República Checa e Romênia estariam também interessados em encorajar o agravamento do conflito em Donbass, para induzir a Rússia a alguma ação bélica”.

Entretanto, se esta era a intenção original de Zelensky, o tiro pode ter saído pela culatra, pois o  “pânico” gerado pelo Ocidente está  desestabilizando a economia do país, alertou o presidente ucraniano.

O professor Zhebit mostra como ações dos EUA e da OTAN geraram um clima de histeria : “Desde abril de 2021 vem ocorrendo uma escalada das tensões, causada pela realização de exercícios terrestres e navais no Mar Negro, com a participação da OTAN, inclusive no território ucraniano. A OTAN começou a massificar suas forças nos territórios dos países-membros na Europa Oriental”.

Zhebit associa as provocações da OTAN com as estratégias de guerra híbrida apresentadas no manual de guerra híbrida da Rand Corporation, think tank norte-americano financiado principalmente pelo exército dos EUA. Para os analistas da Rand, a melhor forma de combater a Rússia, seria combalir sua economia, fazendo com que ela se sobrecarregasse com engajamentos militares, que drenariam seus recursos financeiros.

A grande incógnita que se coloca é se a Rússia estaria disposta a enfrentar ameaças econômicas para impedir que a OTAN chegue a suas fronteiras com a Ucrânia.

Para Alexander Zhebit, a Rússia tem feito de tudo para evitar tal desenvolvimento. “Ela está tentando dissuadir a OTAN, advertindo que uma provocação resultaria em conflito. O conflito em si não se transformaria em uma Terceira Guerra Mundial, mas poderia levar a uma nova configuração das forças na Europa e a uma nova guerra fria, mais agressiva”, avalia ele.

“O risco é que uma guerra pode irromper de forma inadvertida. A história está repleta de exemplos de provocações que saíram de controle. Resta ver se o bom senso vai prevalecer em relação a conter o avanço da OTAN para o leste”,  completa Zhebit.

Notas do autor:

1 Alexander Zhebit possui doutorado e livre Docência em História das Relações Internacionais e Política Externa pela Academia Diplomática do Ministério das Relações Exteriores da Rússia. Atualmente, ele é professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Instituto de Relações Internacionais e Defesa.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Pfizer: Verdades e mentiras da vacinação infantil contra a Covid-19  

Por Ruben Rosenthal

A principal verdade é que pais e mães precisam estar bem informados para melhor poderem decidir se querem ou não que seus filhos sejam vacinados contra a Covid-19.

Anistia Internacional lucro das farmacêuticas com a vacina da Covid-19 C
Denúncia dos lucros com as vacinas contra a Covid-19. Anistia Internacional.

 A politização da vacinação infantil contra a Covid-19 teve mais um capítulo, desta vez envolvendo membros do Ministério Público. O caso teve início quando 5 defensores públicos de Goiás encaminharam recomendação ao Ministério da Saúde para divulgar que a vacina da Pfizer ainda se encontra na fase experimental, e que pode causar miocardite e periocardite nas crianças.

De fato, a própria Pfizer, através da Wyeth, relata na bula direcionada a pacientes a ocorrência de “casos muito raros de miocardite e periocardite após a vacinação com a Comirnaty”. O documento menciona ainda que o paciente deve ficar alerta após a vacinação para “falta de ar, palpitações e dores no peito”, e que, em caso de manifestação destes sintomas, é necessário atendimento médico. São também apresentadas outras precauções a serem consideradas em relação à vacinação.

O posicionamento dos cinco defensores públicos foi rebatido em nota da Defensoria Nacional e 13 Defensorias Regionais de Direitos Humanos da Defensoria Pública da União. Diz a nota que a vacina da Pfizer já tem registro definitivo e que todas as recomendações necessárias já foram indicadas pela ANVISA.

A nota da DN e DRDH/DPU vai mais além, ao declarar que pelo Estatuto da Criança e do Adolescente “é obrigatória a vacinação de crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias”, e que, portanto, a imunização de crianças na faixa de 5 a 11 anos contra a Covid-19 deve ser compulsória.

O confronto de posições dentro do Ministério Público reflete a polarização mais ampla na sociedade entre negacionistas da vacina e mesmo da própria existência de uma pandemia mortal, e amplos setores que, em nome da ciência, defendem vacinação irrestrita da população. Mas a ciência não oferece uma única resposta sobre a vacinação infantil.

Consta no site do Colégio Real de Pediatria e Saúde da Criança (RCPCH, na sigla em inglês) do Reino Unido: “o Comitê Conjunto em Vacinação e Imunização recomenda que recebam a vacina da Pfizer apenas as crianças na faixa de 5 a 11 anos que tenham elevado risco clínico, ou que tenham contato em suas casas com familiares que sejam imunossuprimidos”.  A vacinação de crianças dessa faixa etária, que não estejam nos grupos acima mencionados, está ainda pendente de decisão futura.

No mesmo documento estão especificadas quais são as situações de alto risco clínico em crianças de 5 a 15 anos, que as tornam alvos prioritários da campanha de vacinação infantil contra a Covid-19 no Reino Unido: doenças respiratórias crônicas, problema renal crônico, problema no fígado ou no sistema digestivo, doença neurológica crônica, desordens endócrinas, imunossupressão por doença ou tratamento, asplenia ou disfunção do baço, anormalidades genéticas sérias que afetem outros sistemas, e gravidez.

A decisão do Comitê do Reino Unido está em linha com a visão do Centro Europeu para Prevenção e Controle de Doenças (ECDC, na sigla em inglês), que, em manifestação de 1 de dezembro de 2021, relatou que foram raros os casos severos de Covid-19 em crianças na faixa de 5 a 11 anos durante o período de prevalência da variante Delta: 0,61% dos casos  demandaram internação, sendo 0,06% em unidades de tratamento intensivo/apoio respiratório.

Segundo o ECDC, a maior parte (78%) das crianças que necessitaram de internações não se enquadravam, no entanto, em situação prévia de elevado risco clínico. No Brasil morreram de Covid, até momento, 324 crianças na faixa de idade de 5 a 11 anos, mas não está acessível a informação de quantas delas estavam em situação de comorbidade.

É possível que outros países estejam adotando procedimentos semelhantes aos do Reino Unido. Na Austrália, onde a vacinação de crianças na faixa de 5 a 11 é voluntária, os responsáveis pela criança devem assinar um termo de consentimento.

Neste termo consta um formulário com 7 perguntas a serem respondidas. Caso pelo menos uma das respostas for SIM, a criança ainda assim poderá receber a vacina, mas antes deverá ser atendida por um especialista em imunização ou cardiologista. Este determinará as precauções necessárias e o momento adequado para a vacinação.

formulário de consentimento AUS
Formulário de consentimento para vacinação contra a Covid-19 de crianças de 5-11 anos, autoridade sanitária da Austrália.

O fato do setor de vacinação e imunização do Reino Unido ter optado por vacinar contra a Covid-19 apenas as crianças de 5 a 11 anos que se enquadrarem nas condições especificadas acima, não significa que a ANVISA esteja equivocada em sua decisão de aprovar a vacinação irrestrita. A instituição brasileira possui um quadro técnico extremamente qualificado e não precisa ficar a reboque da decisão de outros países.

Mas o que não deveria acontecer é a desinformação ou omissão de informações com o intuito de se “fabricar o consenso”. Os documentos emitidos pela ANVISA e pela Pfizer não alcançam a maioria da população, já que a mídia não está cumprindo o seu papel. A principal verdade é que pais e mães precisam estar bem informados para melhor poderem decidir se querem ou não que seus filhos sejam vacinados contra a Covid-19.

A mídia também falha ao não mostrar como a ganância das grandes farmacêuticas (Big Pharma) atropela a Ciência.

Pfizer, quando o passado condena

Em 2016, a organização Médicos Sem Fronteiras denunciou que a Pfizer fez uma campanha publicitária enganosa em Londres, para tentar influenciar os parlamentares britânicos de que os investimentos necessários em pesquisa e desenvolvimento para se produzir um novo medicamento alcançavam a cifra de 1 bilhão de libras esterlinas (atualmente equivalente a 7,6 bilhões de reais). Segundo o MSF o objetivo real da campanha era o de justificar os elevados preços dos medicamentos.

Más práticas nos testes da vacina da Pfizer

Os testes para verificar a eficácia e a segurança da vacina contra a Covid-19 produzida pela Pfizer foram conduzidos por uma contratada que cometeu  várias irregularidades no decorrer da pesquisa, segundo artigo publicado no British Medical Journal, em 2 de novembro de 2021.

A empresa Ventavia Research Group, que fora contratada pela Pfizer para conduzir os testes da vacina contra a Covid-19, teria cometido diversas irregularidades nos procedimentos adotados, que podem ter comprometido a integridade dos dados obtidos. Dentre estas se incluem desvios do protocolo, armazenamento das vacinas em temperaturas impróprias e erros na rotulagem das amostras.

Segundo a ex-diretora regional da Ventavia, Brook Jackson, a empresa falsificou dados, expôs a identidade de pacientes em testes que requerem anonimato, e contratou  pessoal sem qualificação para aplicar as vacinas. A então diretora enviou um e.mail à FDA em 25 de setembro de 2020, para avisar das práticas indevidas cometidas pela Ventavia. Brook Jackson foi demitida no mesmo dia em que fez a denúncia.

Em 10 de dezembro de 2020, a Pfizer encaminhou a solicitação de uso emergencial de sua vacina (para adultos) ao comitê da FDA, sem mencionar as falhas da Ventavia.  A farmacêutica voltou a contratar a Ventavia para testar as vacinas da Covid-19 para crianças, jovens adultos e mulheres grávidas.

Facebook blinda Pfizer de críticas

Em novembro de 2021 os editores do British Medical Journal enviaram uma carta aberta a Mark Zuckerberg, do Facebook, protestando que o artigo contendo o artigo contendo a denúncia sobre a Ventavia estava sendo tratado como Fake News pela agência terceirizada Lead Stories, que presta serviços ao Facebook. Desta forma o compartilhamento do artigo foi dificultado, o que na prática protegeu a Pfizer de críticas.

Sars-CoV-2, um vírus que veio para ficar

Enquanto a variante ômicron se espalha pelo mundo, foi detectada no sul da França uma nova variante do coronavírus, que foi denominada de IHU. A provável origem teria sido no Camarões, na África Central. No continente africano apenas 6,6% da população havia sido vacinada até o final de novembro de 2021.

Segundo declarou a BBC News,  Ayoade Olatunbosun-Alakija, porta-voz da Aliança Africana para a Distribuição de Vacinas, o “surgimento da variante (ômicron) foi inevitável. Isso ocorreu devido à falta de vacinação e ao acúmulo de vacinas pelos países desenvolvidos”.

Assim, parece que estamos fadados a conviver com por um longo tempo com novas cepas da Covid-19. Mesmo sendo mais fracas em comparação com a Delta, elas poderão continuar a causar mortes, problemas de saúde e afastamento do trabalho, afetando assim a economia de diversos países.

Enquanto isso, BIG Pharma continuará a auferir lucros com as vacinas e medicamentos contra a Covid-19. A empresa Pfizer lucrou 36 bilhões de dólares em 2021, apenas com sua vacina para a Covid-19. E poderá vir a superar este valor em 2022.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.