Alerta: Pfizer quer criar supervírus mutante da Covid-19?

Por Ruben Rosenthal

É necessário ter muito controle, para se certificar de que este vírus mutante simplesmente não se espalhe por todos os lugares.

Testes de inoculação em cobaias humanas com o vírus Sars-CoV2 ativo
O uso de manipulação genética pela Pfizer no desenvolvimento de vacinas contra novas variantes do vírus SARS-CoV-2  gera fortes controvérsias \ Foto: Sigrid Gombert/Getty Images

A farmacêutica Pfizer está planejando conduzir experimentos de manipulação genética no vírus SARS-CoV-2. Uma gravação de vídeo foi obtida de forma oculta por um jornalista disfarçado, ligado ao Projeto Veritas. Em certo momento, o Diretor de Operações Estratégicas em Pesquisa e Desenvolvimento da empresa, Jordan Tristan Walker, declarou que a razão para a Pfizer querer promover a mutação do vírus é para poder ficar na dianteira, na disputa do desenvolvimento de vacinas para a Covid-19.

O Projeto Veritas consiste de um grupo estadunidense de extrema-direita, fundado em 2010 pelo ativista político James O’Keefe, e que propaga desinformação e teorias conspiratórias, inclusive através de manipulação na edição de vídeos. No atual caso, a Veritas recorreu uma vez mais ao seu modus operandis, mas seria necessário se ter acesso ao vídeo completo, para confirmar se ocorreu ou não qualquer deturpação nas falas da pessoa, que é tudo indica ser de fato um alto executivo da Pfizer.

Sem se dar conta de que estava sendo gravado o tempo todo durante o animado papo em mesa de bar, Walker fez declarações altamente controversas sobre experimentos de manipulação genética que a Pfizer pretenderia conduzir. Algumas das declarações parecem sugerir que tais experimentos já estariam sendo realizados, embora em outras ele tenha afirmado que ocorreram apenas discussões sobre o assunto. O executivo se mostrava bastante animado durante a conversa, até mesmo eufórico, parecendo já ter ingerido uma boa dosagem de álcool.

Em dado momento, James O’ Keefe entrou em cena para confrontar Walker sobre suas declarações, de que a Pfizer quer esconder do público que está pretendendo fazer experimentos de mutação genética. De início, Walker alegou que contara mentiras “para tentar impressionar a pessoa (com quem conversava) no encontro (o jornalista disfarçado)”. No entanto, em dado momento, ele tentou destruir o iPad pertencente ao Veritas e desferiu socos no jornalista (ver vídeo). As cenas impressionam. Não me parece que tudo tenha sido  um grande teatro, montado para criar e divulgar Fake News.

As polêmicas declarações

Seguem-se algumas das declarações de Walker que constam da gravação.

-“Bem, uma das coisas que estamos explorando é porque não fazemos, nós mesmos, as mutações, de forma a que possamos preventivamente desenvolver novas vacinas”….Se fizermos aquilo, vai existir um risco. Como você pode imaginar, ninguém quer empresas farmacêuticas fazendo mutações em vírus filhos da p***.”

– “Bem, não vamos dizer isso ao público”, declarou Walker, quando instado pelo jornalista disfarçado a falar mais sobre o plano da farmacêutica para fazer a mutação do vírus. “Não conte a ninguém. Prometa que você não vai contar a ninguém. O modo como funcionaria é colocarmos o vírus em macacos e, sucessivamente, fazer com que eles continuem se infectando uns aos outros, e (então) coletamos amostras deles.”

-“É preciso ter muito controle para se certificar de que este vírus mutante simplesmente não se espalhe por todos os lugares. Para ser honesto, suspeito que foi desta forma que o vírus começou em Wuhan.”

-“Definitivamente, não se trata de (pesquisa de) ganho de função*”. Esta foi a resposta de Walker, ao ser questionado sobre o assunto pelo “jornalista”, que não se deu por satisfeito e voltou a insistir no tema.

“Bem, não se deve fazer pesquisas de ganho de função com vírus. Eles preferem que não façamos, mas nós fazemos mutações de estruturas selecionadas, para ver se conseguimos torná-las mais potentes. Há pesquisas em andamento sobre isso. Não sei como isso vai funcionar. É melhor que não ocorram mais surtos, porque….Jesus Cristo!”

“Bem, eles ainda estão conduzindo os experimentos, mas pelo que eu ouvi, eles estão otimizando, mas estão indo devagar porque todos são muito cautelosos. Obviamente, (os pesquisadores) não querem acelerar muito. Eu acho que também estão apenas tentando fazer isso como algo exploratório, porque você obviamente não quer anunciar que se está antecipando mutações futuras”. Esta foi a resposta de Walker ao ser questionado como estava sendo desenvolvido no geral, o processo de mutação do vírus.

Jordan Walker também disse que a Pfizer tem sido uma porta giratória para os funcionários do governo que estão encarregados de regular os medicamentos, acrescentando: “eles não vão ser rígidos com a farmacêutica onde irão (mais tarde) conseguir emprego”, confessou.

Comunicado da Pfizer

A Pfizer emitiu um comunicado na noite do dia 27, em que afirma que a empresa “não realizou pesquisa de ganho de função ou de evolução”. A empresa afirma que o trabalho de pesquisa que é conduzido visa avaliar rapidamente a capacidade de uma vacina existente de induzir anticorpos que neutralizem uma variante que possa causar preocupação.

A Pfizer declarou também que “vale a pena observar que o Projeto Veritas, embora afirme conduzir jornalismo investigativo, tem uma longa história de recorrer a táticas eticamente duvidosas e editar vídeos de forma enganosa, para se encaixar em uma narrativa conservadora”.

Concluindo

A Pfizer já teve sua credibilidade comprometida em ocasiões anteriores, como no caso das denúncias feitas pelos Médicos Sem Fronteiras, de que a empresa estava enganando o público com anúncios publicitários falsos. Outra polêmica surgiu a partir da denúncia contida em artigo publicado no conceituado British Medical Journal, em 2 de novembro de 2021, de que teriam sido cometidas várias irregularidades nos procedimentos adotados para verificar a eficácia e a segurança da vacina contra a Covid-19 produzida pela Pfizer. Os testes haviam sido conduzidos por uma empresa subcontratada, Ventavia Research Group.

No caso das revelações atuais, analistas mais cautelosos ressaltaram que gostariam de ter acesso à gravação completa, e não apenas à versão editada do vídeo, liberada em 26 de janeiro pela Veritas. Espera-se que os fatos sejam esclarecidos, e que a grande influência que a Pfizer tem nos meios de comunicação não seja um empecilho para tanto.

Nota:

*A pesquisa por ganho de função envolve manipulação genética, de forma a aumentar as funções biológicas dos produtos genéticos. Tal pesquisa é conduzida com a expectativa de se desenvolver vacinas antes do surgimento de um novo vírus ou variante, mas sempre existe o risco de acidentes com patógenos aprimorados que possam causar ampla disseminação do vírus.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, responsável pelo blogue Chacoalhando e pelo programa de entrevistas Agenda Mundo, no canal da TV GGN.

Cenários para a guerra na Ucrânia em 2023

Por Scott Ritter*

Tradução e comentários por Ruben Rosenthal, do artigo publicado em 11 de janeiro de 2023 no Consortium News.

Dado o histórico enganoso dos Acordos de Minsk, é improvável que a Rússia possa ser dissuadida através de diplomacia a abrir mão de sua ofensiva militar. Assim, 2023 parece estar se configurando como um ano de confrontação violenta constante.

Ukrainian artillery fires in the fiercely-contested Bakhmut region of eastern Ukraine on November 8, 2022. Bulent Kilic/AFP via Getty Images
Disparos da artilharia ucraniana pelo controle da região de Bakhmut, leste da Ucrânia, novembro 2022 \ Foto: Bulent Kilic/AFP via Getty Images

 Depois de quase um ano de ações dramáticas, onde os avanços iniciais dos russos foram recebidos com impressionantes contraofensivas ucranianas, as linhas de frente no conflito em curso se estabilizaram, com ambos os lados envolvidos em sangrentos combates por posições, em uma brutal disputa de desgaste, enquanto aguardam pela próxima grande iniciativa de algum dos lados.

À medida que o aniversário de um ano da invasão da Ucrânia pela Rússia se aproxima, o fato de a Ucrânia ter chegado tão longe no conflito representa uma vitória moral e, em menor grau, militar. Assim como a chefia do Estado-Maior Conjunto dos EUA e a direção da CIA, a maioria dos altos oficiais militares e de inteligência do Ocidente avaliou no início de 2022 que uma grande ofensiva militar russa contra a Ucrânia resultaria em uma rápida e decisiva vitória russa.

A resiliência e a fortaleza dos militares ucranianos surpreenderam a todos, mesmo aos russos, cujo plano de ação inicial, incluindo a alocação de forças para o empreendimento, se mostrou inadequado para alcançar os objetivos pretendidos. Entretanto, é enganadora a percepção de uma vitória ucraniana.

Morte da diplomacia

Conforme a poeira assenta no campo de batalha, emerge um padrão em relação à visão estratégica por trás da decisão da Rússia de invadir a Ucrânia. Enquanto a narrativa ocidental dominante continuava a retratar a ação russa como um ato precipitado de agressão não provocada, surgiram fatos que sugerem que pode ter mérito a alegação russa de autodefesa coletiva preventiva, conforme o Artigo 51 da Carta das Nações Unidas

As recentes admissões por parte dos líderes de líderes responsáveis pela adoção dos Acordos de Minsk de 2014 e 2015 (o ex-presidente ucraniano Petro Poroshenko, o ex-presidente francês François Hollande e a ex-chanceler alemã Angela Merkel) mostram que se tratava de uma farsa que os acordos de Minsk visassem promover a resolução pacífica do conflito entre o governo ucraniano e os separatistas pró-russos, deflagrado  no Donbass após 2014.

De acordo com esta “troika”, os Acordos de Minsk foram pouco mais do que um meio de se ganhar tempo para que a Ucrânia pudesse construir, com ajuda da OTAN, um poder militar capaz de subjugar o Donbass e expulsar a Rússia da Crimeia.

Conversações do Acordo de Minsk, novembro de 2015
Presidente russo Vladimir Putin, Presidente francês François Hollande, Chanceler alemã Angela Merkel, Presidente ucraniano Petro Poroshenko: conversações no formato da Normandia em Minsk, Bielorrússia, Fevereiro de 2015 \ Fonte: Kremlin

Por esta ótica, o estabelecimento pelos EUA e pela OTAN de uma instalação permanente de treinamento no oeste da Ucrânia – onde foram treinados pelos padrões da OTAN cerca de 30 mil soldados ucranianos entre 2015 e 2022, com o único propósito de confrontar a Rússia no leste da Ucrânia – assume uma perspectiva totalmente nova.

A duplicidade admitida por Ucrânia, França e Alemanha contrasta com a insistência da Rússia, antes de sua decisão de 24 de fevereiro de 2022 de invadir a Ucrânia, de que os Acordos de Minsk fossem implementados na íntegra.

Em 2008, o ex-embaixador dos EUA na Rússia e atual diretor da CIA, William Burns, alertou que qualquer tentativa de ingresso da Ucrânia na OTAN seria visto pela Rússia como uma ameaça à sua segurança nacional, e que a determinação em concretizar tal filiação provocaria uma intervenção militar russa. O memorando de Burns fornece o contexto em que se deram as iniciativas da Rússia, de 17 de dezembro de 2021, de criar uma nova estrutura de segurança europeia, que manteria a Ucrânia fora da OTAN.

Simplificando, a meta da diplomacia russa foi de evitar o conflito. O mesmo não se pode dizer da Ucrânia ou de seus parceiros ocidentais, que buscaram uma política de expansão da OTAN, associada à resolução das crises do Donbass e da Crimeia através de meios militares.

A reação do governo russo ao fracasso de seus militares em derrotar a Ucrânia nas fases iniciais do conflito, fornece uma importante entendimento sobre o modo de pensar da liderança russa, em relação às suas metas e objetivos.

Negada uma vitória decisiva, os russos pareciam dispostos a aceitar um resultado que limitava os ganhos territoriais russos ao Donbass e à Crimeia, e a um acordo para a Ucrânia não aderir à OTAN. De fato, a Rússia e a Ucrânia estiveram à beira de formalizar um acordo nesse sentido, nas negociações programadas para ocorrer em Istambul, no início de abril de 2022.

No entanto, esta negociação naufragou após a intervenção do então primeiro-ministro britânico Boris Johnson, que condicionou a continuidade da assistência militar à Ucrânia, à disposição de Kiev em buscar a resolver o conflito no campo de batalha, em oposição a uma solução negociada. A intervenção de Johnson foi motivada pela avaliação, por parte da OTAN, que os fracassos iniciais dos militares russos eram indicativos de fraqueza.

O objetivo da OTAN foi de usar o conflito russo-ucraniano como uma guerra por procuração destinada a enfraquecer a Rússia, para que esta nunca mais procurasse empreender uma aventura militar semelhante à da Ucrânia. Associada à malfadada guerra econômica, o objetivo também foi remover Putin do poder, como admitido pelo presidente Joe Biden em março de 2022.

Reviravolta no jogo não traz vitória ucraniana

Os objetivos da OTAN se refletem nas declarações públicas de seu secretário-geral, o general Jens Stoltenberg: “Se Putin vencer, isso não significará apenas uma grande derrota para os ucranianos, mas também derrota e perigo para todos nós”. E também do secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin: “Queremos ver a Rússia enfraquecida, ao ponto em que jamais poderá novamente fazer o tipo de coisas que fez ao invadir a Ucrânia”.

Esta política serviu de impulso para injetar mais de 100 bilhões de dólares em assistência, incluindo dezenas de bilhões em equipamentos militares avançados para a Ucrânia. A infusão massiva de ajuda foi um evento que mudou o jogo, permitindo que o exército ucraniano fosse reconstituído, treinado, equipado e organizado segundo os padrões da OTAN. A Ucrânia fez a transição de uma postura principalmente defensiva para outra em que foram lançados contra-ataques em larga escala, que conseguiram expulsar as forças russas de grandes áreas da Ucrânia. Não foi, no entanto, uma estratégia que ganharia o jogo – longe disso.

As impressionantes realizações militares dos ucranianos, facilitadas através da prestação de ajuda militar pela OTAN, tiveram um enorme custo em vidas e materiais. Embora o cálculo exato das baixas sofridas por ambos os lados seja difícil de determinar, há um reconhecimento generalizado, mesmo dentro do governo da Ucrânia, de que as perdas ucranianas foram pesadas.

Matemática Militar

Com as linhas de batalha atualmente estabilizadas, a questão de qual lado do conflito a guerra vai favorecer a partir de agora se resume à matemática militar básica. Em suma, uma relação causal entre duas equações básicas que giram em torno das taxas de queima (com que rapidez as perdas ocorrem) versus as taxas de reabastecimento (com que rapidez essas perdas são repostas). O cálculo traz um mau presságio para a Ucrânia.

Nem a OTAN nem os Estados Unidos parecem capazes de sustentar a quantidade do armamento já entregue à Ucrânia, e que permitiu que as contraofensivas contra os russos fossem bem-sucedidas.

Estes equipamentos foram em grande parte destruídos e, apesar da insistência da Ucrânia em obter mais tanques, veículos de combate blindados, artilharia e defesa aérea, e de que a nova ajuda militar seja provável, esta demorará a chegar e virá em quantidade insuficiente para ter um impacto decisivo no confronto bélico.

Da mesma forma, o número de vítimas sofrido pela Ucrânia, que às vezes chegou a mais de mil homens por dia, excede em muito a sua capacidade de mobilizar e treinar substitutos. A Rússia, por outro lado, está no processo de finalizar a mobilização de mais de 300 mil homens, que parecem estar equipados com os sistemas de armas mais avançados do arsenal russo.

Quando a totalidade dessas forças estiver no campo de batalha – em algum momento até o final de janeiro –  a Ucrânia não terá resposta. Esta dura realidade, quando combinada com a anexação pela Rússia de mais de 20% do território da Ucrânia e danos à infraestrutura que se aproximam de 1 trilhão de dólares, traz um mau presságio para o futuro da Ucrânia.

Há um velho ditado russo que diz: “Um russo põe a sela devagar, mas cavalga rápido”. Isso parece ser o que está acontecendo em relação ao conflito russo-ucraniano.

Tanto a Ucrânia quanto seus parceiros ocidentais estão lutando para manter um conflito que iniciaram quando rejeitaram um possível acordo de paz em abril de 2022. A Rússia conseguiu se reagrupar em grande parte – após um período na defensiva – e parece estar pronta para retomar as operações ofensivas em larga escala, para as quais nem a Ucrânia e nem seus parceiros ocidentais terão uma resposta adequada.

Além disso, dado o histórico enganoso dos Acordos de Minsk, é improvável que a Rússia possa ser dissuadida através da diplomacia a abrir mão de sua ofensiva militar. Assim, 2023 parece estar se configurando como um ano de confrontação violenta constante, que levará a uma vitória militar russa decisiva.

Como a Rússia alavancará tal vitória militar para obter um acordo político sustentável que resulte em paz e segurança regionais é outra história, ainda a ser vista.

Comentários do tradutor: Resta ver se a antecipação feita por Scott Ritter de uma decisiva vitória russa leva em conta a determinação dos países aliados da Ucrânia de que este cenário não se concretize.  Cedendo a pressões de Kiev e de seus aliados, a Alemanha anunciou em 25 de janeiro que enviará 14 tanques de guerra do tipo Leopard-2-A6, provenientes do arsenal da Bundeswehr, as Forças Armadas do país, para reforçar a Ucrânia na luta contra as tropas russas.  A  Alemanha também autorizou que parceiros europeus possam repassar seus tanques Leopard à Ucrânia, de forma a montar rapidamente dois batalhões com estes blindados. Por outro lado, os Estados Unidos vão enviar tanques Abrams M1 para a Ucrânia, embora possa levar meses até que a entrega seja feita.

Assim, os cenários para a guerra na Ucrânia em 2023 podem não estar ainda definidos. A única certeza é o aumento no número de mortes de civis e militares dos dois lados. Lembrando que os 300 mil russos que foram recrutados para o campo de batalha também são civis, que tiveram que deixar suas famílias para ajudar no esforço de guerra. Uma guerra sem fim entre OTAN e Rússia?

*Scott Ritter é ex-oficial de inteligência do Corpo de Marines dos EUA, tendo servido na antiga União Soviética, implementando tratados de controle de armas; no Golfo Pérsico, durante a Operação Tempestade no Deserto; e no Iraque, na supervisão do desmantelamento das armas de destruição em massa. O seu livro mais recente é Disarmament in the Time of Perestroika, pela Clarity Press.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, responsável pelo blogue Chacoalhando e pelo programa de entrevistas Agenda Mundo, no canal da TV GGN.

Os curdos são o bode expiatório ideal para Turquia e Irã

Por Ruben Rosenthal

Tanto a Turquia como o Irã estão passando por períodos difíceis atualmente. Então, dá para entender por que seria do interesse de ambos os países desviar as atenções para um inimigo externo.

Mapa do Curdistão
O Grande Curdistão: regiões em cinco países historicamente habitadas pelo povo curdo \ Arte: BBC/CIA

O texto que se segue foi baseado em artigo de Marc Daou, publicado em 23 de novembro no site France24. Foi mantido o título original, ‘The Kurds are the ‘ideal scapegoat for both Turkey and Iran‘.

Em 20 de novembro a Turquia iniciou uma nova ofensiva contra grupos curdos na Síria, coincidindo com uma campanha aérea promovida pelo Irã contra o Curdistão iraquiano, engajando os curdos em combates nos dois lados da fronteira, em terras que constituem o chamado Grande Curdistão.

As ações da Turquia vêm na sequência do atentado em Istambul de 13 de novembro, que deixou cinco mortos e dezenas de feridos, cuja responsabilidade o governo turco atribuiu ao grupo combatente turco PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e à brigada YPG (Unidades de Proteção do Povo), esta com base na Síria. O PKK negou ter participado do atentado.

Já o governo iraniano responsabiliza os curdos pela incessante onda de protestos que se seguiu à morte da jovem curda Mahsa Amini, em 13 de setembro, enquanto estava sob custódia da “polícia da moralidade” da República Islâmica.

Os curdos sob ataque

A Turquia lançou o que chamou de “Operação Garra-Espada”, bombardeando várias regiões da Síria controladas pelos curdos. Um dos principais alvos atingidos foi a cidade de Kobane, no norte da Síria, que as forças curdas tomaram dos jihadistas do grupo Estado Islâmico em 2015. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, também ameaçou lançar em breve uma ofensiva terrestre no país.

Enquanto isso, o Irã está bombardeou o Curdistão iraquiano – acusando os movimentos curdos de fomentar a onda de protestos em todo o país que abalaram o regime desde que a jovem curda, Mahsa Amini, morreu sob custódia da “polícia da moralidade” da República Islâmica, em 13 de setembro.

A seguir é transcrita a entrevista concedida pelo sociólogo franco-iraquiano, Adel Bakawan, ao veículo de mídia estatal, France24. Bakawan é diretor do CFRI, o Centro Francês de Pesquisa sobre o Iraque, e pesquisador do IFRI, o Instituto Francês de Relações Internacionais.

France24: Os curdos estão sendo atacados tanto pela Turquia, na Síria, como pelo Irã, no norte do Iraque. Os dois países coordenaram suas ofensivas?

Bakawan: “Tanto a Turquia como o Irã estão passando por períodos difíceis atualmente. Então, dá para entender por que seria do interesse de ambos os países desviar as atenções para o inimigo externo. No entanto, não há evidências concretas de que Ancara e Teerã estejam trabalhando de comum acordo, embora isso não possa ser descartado.

A Turquia está atormentada por uma grave crise econômica, e Erdogan não está em uma posição muito confortável, à medida que as eleições presidenciais de junho de 2023 se aproximam. Então ele está em uma posição muito difícil em casa, e no exterior há constantes tensões diplomáticas com o Ocidente.  No que diz respeito ao Irã, o movimento de protesto está abalando a República Islâmica, e não mostra sinais de desaparecer.

Tendo em mente que ambas as nações vêem suas populações curdas como ameaças à integridade territorial, os curdos se tornam o bode expiatório ideal para a Turquia e o Irã, em meio a suas respectivas crises.”

France24: Por que Erdogan está mirando nos curdos na Síria?

Bakawan: “Quanto mais nos aproximarmos das eleições presidenciais do próximo ano, mais Erdogan precisará unir seus apoiadores, apontando um inimigo que ameace a segurança, a estabilidade e a coesão nacional da Turquia. Isso permitirá que ele se apresente ao eleitorado como o salvador da Turquia, desviando a atenção do fraco desempenho da economia em seu governo. Por isso, ele designou um inimigo nos curdos sírios, cujo território é controlado pela afiliada local do PKK, classificado como organização terrorista pela União Européia pelos Estados Unidos, bem como pela Turquia.

Erdogan também está ansioso para fazer uso da crescente insatisfação (da população turca) pela presença de 3 milhões de refugiados sírios na Turquia, e que vem expressando este descontentamento de forma cada vez mais veemente. O presidente turco está tentando tirar proveito eleitoral desta questão. Em particular, Erdogan quer cumprir sua promessa – feita bem antes do ataque de Istambul, que ele está usando para justificar sua atual ofensiva na Síria – de criar uma zona tampão entre a Turquia e os vários territórios no norte da Síria controlados por grupos curdos.

Ao lançar uma ofensiva terrestre na cidade simbólica de Kobane, Erdogan será capaz de criar uma faixa ininterrupta de terra fora das zonas já ocupadas pelo exército turco e aliados. Ele quer enviar refugiados sírios para a parte do norte da Síria atualmente ocupada por curdos.”

France24: O que o Irã está tentando alcançar, atacando alvos curdos no Iraque?

Bakawan: “Apesar da feroz repressão, o governo iraniano não foi capaz de subjugar o movimento de protesto que surgiu em 16 de setembro. A República Islâmica tentou apresentá-lo como tendo origem étnica – uma agitação pela independência em partes do país habitadas pela minoria curda. O regime até tentou alegar que os protestos fazem parte de uma revolta sunita defendida pela Arábia Saudita, países ocidentais e pelo Governo Regional do Curdistão no Iraque (KRG), para desestabilizar o Irã xiita.

As tentativas de apresentar o movimento (curdo) como uma força étnica divisiva falharam porque os protestos ocorrem em todo o país. Não é como se eles estivessem acontecendo apenas em cidades curdas ou baluchi. E os manifestantes tomaram a jovem vítima curda, Mahsa Amini, como um símbolo nacional de sua luta, um ponto de referência unificador para a juventude do país.

Assim, porque a tentativa de semear uma divisão interna falhou, a República Islâmica está olhando para seus inimigos externos – Arábia Saudita, Israel e o Governo Regional do Curdistão. É claro que é mais fácil atacar o Curdistão iraquiano, onde o Partido Democrático Curdo do Irã (KDPI) e o revolucionário Partido Komala do Curdistão Iraniano mantiveram campos nas últimas três décadas. O Irã acusa esses dois grupos de incitar protestos em seu território.

Nos últimos dias, Teerã vem insistindo que o novo governo em Bagdá, dominado por facções pró-iranianas, pressione o KRG a expulsar o KDPI e o Partido Komala do Iraque.

E finalmente – olhando para isso de uma perspectiva cínica – os iranianos sabem perfeitamente que podem atacar o Curdistão iraquiano sem gerar muito protesto, seja de Bagdá ou do Ocidente.”

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Guerra OTAN-Rússia na Ucrânia caminha para conflito nuclear?

Por Ruben Rosenthal

A escalada do confronto entre OTAN e Rússia parece ter entrado em modo automático e irreversível, com consequências impossíveis de serem previstas.  

Doomsday clock at 100 seconds to midnight
O Relógio do Juízo Final ou do Apocalipse marca 100 segundos para a meia-noite

Os recentes ganhos de território pelas tropas ucranianas usando armamento avançado da OTAN, e os atos de sabotagem contra os gasodutos Nord Stream e possivelmente contra a ponte que conecta Rússia e Crimeia podem requerer uma resposta enérgica de Vladimir Putin. Moscou sabe, no entanto, que do ponto de vista político, o uso de armas nucleares táticas seria contraprodutivo no momento, e deverá reservar o seu uso como último recurso para não perder a guerra contra os Estados Unidos e seus aliados da OTAN.

Como os EUA não estão minimamente interessados em que Rússia e Ucrânia cheguem a um acordo de paz que não seja humilhante para a Rússia, o conflito nuclear se coloca como mais que uma remota possibilidade, 60 anos após a crise dos mísseis em Cuba, que deixou o mundo à beira do Armagedon.

Em retrospecto, na sequência da entrada de tropas russas para a Ucrânia em fevereiro, o Ocidente ampliou o boicote à economia russa com foco na energia, ao mesmo tempo em que promoveu o envio maciço de armamento sofisticado da OTAN para ser usado pelos ucranianos na frente de batalha.

Da mesma forma que já haviam bloqueado há anos a implementação dos acordos de Minsk, que concederiam certo grau de autonomia para as províncias ucranianas de Donetsk e Luhansk, os EUA e seus aliados sabotaram as negociações de paz entre Rússia e Ucrânia, quando estas começavam a avançar. O presidente Zelensky foi instado pelo então primeiro-ministro britânico Boris Johnson a não prosseguir com as negociações, quando se reuniram em Kiev, em abril.

A política de Washington e de seus aliados é perfeitamente coerente com estratégia de sobrecarregar a economia da Rússia, preconizada há anos no relatório da Rand Corporation, think tank financiado pelas forças armadas norte-americanas. Uma das formas propostas seria exatamente forçando o engajamento de tropas russas no exterior. Outra forma é comprometendo as receitas que a Rússia obtém através da venda de hidrocarbonetos.

No campo da energia, os gasodutos Nord Stream 1 e 2, construídos para abastecer a Europa com gás russo, foram sabotados em 26 de setembro, data em que foram registradas poderosas explosões por sismógrafos na Dinamarca e Suécia. O Nord Stream 2 já estava concluído, mas ainda não entrara em operação, por retaliação da Alemanha pela invasão russa, enquanto que o outro gasoduto encontrava-se em manutenção. Seguiram-se trocas de acusações entre a Rússia e países da OTAN sobre a responsabilidade pelo atentado.

No cenário da guerra, embora a campanha de desinformação esteja sendo usada em larga escala nos meios de comunicação do Ocidente, as indicações são de que os ucranianos estão conseguindo sustar o avanço das tropas russas, e mesmo expulsá-las de algumas regiões que já haviam conquistado. A reação de Putin foi de convocar 300 mil reservistas e ameaçar o uso tático de armas nucleares.

A anexação formal pela Rússia, em 30 de setembro, das quatro províncias parcialmente ocupadas – Donetsk, Luhansk (que constituem o Donbass), Kherson e Zaporíjia – após um referendo confirmatório, abriria o caminho para o uso de armas nucleares em defesa da integridade dos territórios incorporados à pátria Rússia.

Para o economista norte-americano Jeffrey Sachs professor da Universidade de Columbia, o atual conflito na Ucrânia corresponde, em essência, a uma Segunda Guerra da Criméia. Desta vez, uma aliança militar liderada pelos EUA procura expandir a OTAN até a Ucrânia e Geórgia, ampliando a presença da Organização no estratégico Mar Negro.

A escalada do confronto entre OTAN e Rússia parece ter entrado em modo automático e irreversível, com consequências impossíveis de serem previstas.

O boicote à exportação da energia russa

Em artigo de 22 de setembro no think tank russo Valdai Club, o acadêmico e especialista em energia Vitaly Yermakov analisou em detalhes, como as medidas dos EUA e da União Européia (UE) para boicotar as receitas da Rússia com a venda de combustíveis estavam fadadas ao fracasso.

A guerra na Ucrânia fez com que a UE procurasse apressar o até então gradual processo de independência em relação aos combustíveis fósseis exportados pela Rússia. O boicote começou com o carvão (desde 11 de agosto de 2022), e deverá incluir também o petróleo bruto (a vigorar em 5 de dezembro de 2022) e produtos refinados (a partir de 1º de fevereiro de 2023). A UE também anunciou planos de eliminar completamente suas importações de gás russo até 2027.

Até agora, a Rússia tem sido resiliente, e conseguiu introduzir contramedidas eficazes, como redirecionar suas exportações de carvão e petróleo para a Ásia. Além disso, passou a oferecer suas commodities de energia com descontos significativos, evitando assim a necessidade de reduzir drasticamente a produção. Com as tensões geopolíticas em 2022, os preços globais do petróleo aumentaram significativamente, reforçando as receitas de exportação da Rússia, mesmo após os descontos.

Com o conflito na Ucrânia ainda está se arrastando, e a proximidade do inverno europeu, a UE passou a enfrentar um dilema: colocar em prática o embargo petrolífero em dezembro, arriscando nova disparada nos preços do petróleo, o que poderia trazer insatisfação da população em seus países, ou então deixar de lado a implementação do embargo e perder credibilidade.

Como alternativa, foi então concebida a ideia de impor limites de preços sobre os combustíveis exportados pela Rússia, negando a este país receitas extras que até então vinham preservando a economia russa de ser afetada pelas amplas sanções econômicas. Para o plano funcionar seria criado um cartel de compradores, que determinaria o limite de preço para o petróleo russo.

Para induzir compradores e transportadores a cooperar com o plano, seria negado o seguro marítimo internacional – majoritariamente controlado pela empresa Lloyds de Londres – a qualquer carga russa que não estivesse cumprindo os limites de preços. Ideias semelhantes começaram surgir na UE sobre fixar os preços do gás russo.

No entanto, sem a anuência de países como China e índia, tal plano nasceu já fadado ao fracasso. O presidente Vladimir Putin, falando no Fórum Econômico Oriental em Vladivostok, em 7 de setembro, alertou que a Rússia cortaria todo o fornecimento de energia para países que tentassem impor limites de preços às exportações russas.

A sabotagem dos gasodutos Nord Stream

O relato das explosões que danificaram os gasodutos Nord Stream 1 e 2 no noticiário da mídia corporativa do Ocidente revela como ela está alinhada com o esforço de guerra da OTAN.  No britânico The Guardian: Rússia é suspeita de ter executado as explosões para colocar pressão no fornecimento de energia.  No The New York Times: A CIA havia alertado os governos europeus de um possível ataque aos gasodutos. Na CNN: oficiais europeus de segurança haviam observado navios e submarinos russos em locais não distantes de onde ocorreram os vazamentos.

Gas leakage from Nord Stream 2
Gás emanando do vazamento do gasoduto Nord Stream 2 \ Foto: Airbus DS2022/AFP via Getty Images

No entanto, a versão de que a Rússia teria sido responsável pelas explosões não se sustenta, pois o dano aos gasodutos também significa que ela perde um elemento de pressão que ainda tinha sobre a Europa. Por outro lado, não é difícil identificar os beneficiários da interrupção do fornecimento do gás russo. O secretário de estado norte-americano Antony Blinken celebrou o que chamou de “tremenda oportunidade de remover a dependência (da Europa) no gás russo” (ver vídeo).

A Ucrânia sempre se opôs a entrada em operação do Nord Stream 2 , pois representaria a perda das vultosas receitas provenientes dos gasodutos russos subterrâneos que atravessam seu território, construídos durante o período da União Soviética. Não apenas Kiev, mas também a Polônia e os Países Bálticos haviam se aliado aos EUA para impedir a implementação do Nord Stream 2. Os norte-americanos chegaram a impor sanções às empresas russas e alemãs envolvidas na construção do gasoduto

O ex-ministro polonês das relações exteriores, Radosław Sikorski, atualmente no Parlamento Europeu, gerou forte controvérsia ao postar um tuíte que inclui uma foto do vazamento de gás no gasoduto danificado, acompanhada das palavras: “Obrigado, EUA”.  O agradecimento indica que Biden teria cumprido a promessa que fizera semanas antes da entrada das tropas russas na Ucrânia, caso a Rússia invadisse o país vizinho: “o gasoduto Nord Stream 2 deixará de existir; vamos acabar com ele”.

“Coincidentemente”, estava prevista para a primeira semana de outubro a entrada em operação do Baltic Pipe, o gasoduto construído pela Polônia com apoio da UE. O gasoduto irá levar gás natural da Noruega para a Europa Central através da costa da Polônia, podendo alcançar por terra outros países da região.

Em entrevista no canal de TV a cabo Bloomberg, o professor Jeffrey Sachs declarou “apostar que (a explosão) foi uma operação dos EUA, talvez EUA e Polônia”. Segundo ele, a motivação seria prejudicar ainda mais a economia russa. A entrevista foi rapidamente interrompida pelo apresentador do programa, após o professor emitir sua opinião.

Deve-se ainda levar em consideração que, com os dois gasodutos impossibilitados de operar não haveria como os governos da UE ceder aos protestos de suas populações, que já começam a ocorrer. No entanto, uma das quatro linhas do Nord Stream 2 não foi danificada, e poderia fornecer gás para a Europa. Resta ver se o governo alemão autorizaria a utilização no abastecimento do país, ou se vai continuar submetido à pressão dos EUA, prejudicando assim sua própria população.

A extrema-direita alemã já está capitalizando a insatisfação da população com o aumento do custo de vida resultante da escassez energética. Apoiadores do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) se reuniram em frente ao prédio do Reichstag em Berlim, em 8 de outubro, para protestar contra o aumento dos preços na Alemanha (ver vídeo). O co-líder do partido acusou o governo de travar uma guerra contra seu próprio povo, ao impor sanções à Rússia.

Um país que colocou em primeiro lugar seus próprios interesses foi a Arábia Saudita. Uma coalizão de nações produtoras de petróleo liderada pela Rússia e Arábia Saudita anunciou em 5 de outubro uma redução na produção de petróleo em 2 milhões de barris por dia, o que deverá levar ao aumento dos preços do gás em todo o mundo e reforçar a economia Rússia em seu esforço de guerra.

Referendo Fake de anexação?

Para o ex-embaixador britânico Craig Murray, defensor da independência da Escócia e forte crítico da expansão da OTAN, o referendo de anexação pela Rússia promovido nas regiões ocupadas pelas tropas russas foi irregular.

Além de questionar se foram seguidas as regras básicas para a realização de um referendo internacional, Murray considera que o resultado que foi divulgado, em que mais de 90% de votos nas quatro regiões ocupadas foram favoráveis à anexação, estaria longe de refletir a real proporção da população de origem russa nestas regiões.

Regions anexed by Russia after the 2022 referendum
O mapa mostra as regiões anexadas à Rússia após o referendo de 2022 \ Fonte: Instituto para o Estudo da Guerra/BBC

Murray apresenta os resultados do último censo realizado na Ucrânia, em 2001. Em Donetsk, os russos representavam 38,2% e os ucranianos, 56,9%. Em Luhansk: russos-39,0%, ucranianos-58,0. Em Kherson: russos-14,1, ucranianos-82,0. Em Zaporíjia- russos-24,7, ucranianos-70,8. Já na Criméia, os russos representavam de fato a maioria da população, com 58,3%, enquanto os ucranianos constituíam 24,3% e os tártaros 12,0%.

Assim, para o ex-embaixador, se constituiria em falácia a propalada versão de que as províncias de Donetsk e Luhansk, que constituem o Donbass, seriam constituídas majoritariamente de habitantes de origem russa, mesmo levando em conta o percentual de ucranianos que adotaram o russo como língua principal.

Por outro lado, Murray não leva em conta a possibilidade de que, nas regiões anexadas, parte da população de origem ucraniana – majoritariamente rural ­– pode ter abandonado suas casas desde o início dos conflitos em 2014, após o golpe que afastou o presidente eleito de origem russa, Victor Yanukovych. De qualquer forma, a discrepância é bem significativa, e levanta questionamentos sobre a lisura do processo de consulta.

O ex-embaixador considera ainda que Putin está caindo no jogo estratégico dos Estados Unidos de sangrar a Rússia, em uma guerra na qual a tecnologia militar do Ocidente é imensamente superior. Para Murray, os 300 mil reservistas que Putin enviará para a guerra serão abatidos à distância, sem nem mesmo ver o inimigo.

Para Scott Ritter, ex-oficial de inteligência do Corpo de Marines dos EUA, a decisão de Putin de simultaneamente mobilizar os reservistas russos, enquanto absorve o território do sul e leste da Ucrânia para a Federação Russa, coloca a OTAN em novo dilema: continuar a fornecer apoio material e financeiro maciço à Ucrânia, tornando-se parte direta do conflito, algo que ninguém no bloco quer, ou então recuar do apoio bélico à Ucrânia.

Explosão danifica a ponte Rússia-Crimeia

No sábado, 8 de outubro, foi parcialmente destruída a ponte que liga Rússia e Crimeia, que havia sido inaugurada por Putin em 2018. As suposições iniciais eram de ela poderia ter sido alvo de um míssil ucraniano ou da explosão de um caminhão-bomba, ocasionando ainda incêndios em vagões de trem contendo combustível. O presidente russo já acusou a Ucrânia pelo incidente. Um alto oficial do Segurança nacional ucraniana postou um vídeo do incêndio, acompanhado da canção “Feliz Aniversário, Sr. Presidente” (cantada por Marilyn Monroe), se referindo ao aniversário de Vladimir Putin na véspera.

A retaliação da Rússia veio na segunda-feira, 10 de outubro, através de bombardeios maciços em várias cidades. Segundo o Ministério da Defesa da Ucrânia, a Rússia disparou ao menos 83 mísseis contra Kiev, Lviv e Zaporíjia. A capital ucraniana não era bombardeada desde que o foco da guerra mudara para a conquista da região leste da Ucrânia após as primeiras semanas do início do conflito.

O Relógio do Juízo Final ainda permanece em 100 segundos para a meia-noite. Até quando?

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

 

A Turquia move suas peças no xadrez da guerra OTAN-Rússia

Por Ruben Rosenthal

A decisão da Turquia de enviar um navio-sonda para explorar reservas de gás nas proximidades de Chipre pode inflamar a região, e tornar ainda mais conturbado o relacionamento da Turquia com os demais países da OTAN.

Turkish President Recep Tayyip Erdogan poses with Turkey's new drill ship Abdulhamid Han at Tasucu port in the Mediterranean Turkish city of Mersin [Presidential Press Office/Handout via Reuters]
Presidente turco Recip Erdogan no lançamento do navio-sonda Abdulhamid Han, em Mersin / Foto: Imprensa presidencial via Reuters.
 Desde o início da invasão do território ucraniano por tropas russas, a Turquia vem mantendo uma política equilibrada em relação às partes beligerantes, bem como canais de diálogo com Moscou e Kiev. Mas esta estratégia pode ser alterada a favor da Rússia. O recente envio do navio-sonda turco Abdullhamid Han para explorar grandes jazidas de gás nas proximidades de Chipre tem o potencial de inflamar tensões regionais. Caso os Estados Unidos e a União Europeia (UE) se posicionem – como esperado – contra a Turquia, Ancara poderá retaliar, revendo a atual política de equidistância no conflito bélico.

Turquia: neutralidade ou oportunismo?

A Turquia faz parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), mas ao mesmo tempo, desempenha um papel independente. A decisão de Ancara de fechar os estreitos de Bósforo e Dardanelos a navios de guerra limitou a capacidade da marinha russa no Mar Negro, mas também impede que potências da OTAN possam interferir no conflito através de suas marinhas de guerra.

Segundo o analista russo Ivan Timofeev, do think tank russo Valdai Club, a Turquia parece ser um dos principais beneficiários do conflito. Ancara manobra habilmente, beneficiando-se de todos os lados.

A diplomacia turca se opõe à operação militar da Rússia e mostra solidariedade com os aliados da OTAN. Ancara está fornecendo armas à Ucrânia, incluindo drones Bayraktar. Acrescente-se que a Turquia não reconheceu a anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014.

Ao mesmo tempo, Ancara mantém relações construtivas com Moscou, e está desempenhando um importante papel como mediador econômico nas relações entre a Rússia e o Ocidente. O presidente Recep Erdogan recusou-se a implementar as sanções impostas pelo Ocidente contra a Rússia. As empresas turcas estão se preparando para ocupar uma série de nichos que ficaram disponíveis com a retirada de empresas ocidentais do mercado russo. A Turquia demonstrou flexibilidade nas relações financeiras com Moscou, aceitando cartões Mir (versão russa do Visa ou MasterCard). O país está se tornando um centro (hub) único de tráfego.

Esta equidistância pragmática possibilitou que Ancara tentasse desempenhar um papel mediador na resolução do conflito. Embora tais esforços não tenham sido ainda bem sucedidos, a intermediação contribuiu para resolver a questão da exportação dos grãos ucranianos e fortaleceu o status internacional de Ancara. Para o complexo militar-industrial turco, o conflito ampliou o mercado e as oportunidades de mostrar seus equipamentos bélicos em ação.

Exploração das reservas de gás do Mediterrâneo

Mesmo antes da crise energética decorrente do conflito na Ucrânia, as jazidas de gás natural do Mediterrâneo Oriental localizadas nas proximidades da costa de Chipre já atraíam o interesse de empresas petrolíferas, como a norte-americana Exxon Mobile, a francesa Total, e a italiana ENI.

No final da década de 2000, após Israel anunciar a descoberta de jazidas de gás natural na região, o governo de Chipre contratou diversas empresas de energia para iniciarem a prospecção de hidrocarbonetos ao redor da ilha. Em Dezembro de 2011, a empresa norte-americana Noble Energy anunciou a descoberta de “significativos recursos de gás natural”.

Segundo relato da Al Jazeera, em janeiro de 2019 foi constituído o Fórum de Gás do Mediterrâneo Oriental – órgão multinacional sediado no Cairo – reunindo diversos governos, inclusive de Israel e a Autoridade Palestina, mas excluindo a Turquia. Um ano depois, Chipre, Grécia e Israel assinaram um acordo para construir o gasoduto EastMed, de 1.872 quilômetros de comprimento, para transportar gás cipriota offshore para a Grécia e Itália.

Traçado planejado para o gasoduto EastMed
Traçado planejado para o gasoduto EastMed atravessa águas territoriais pretendidas pelos cipriotas turcos (linhas hachuradas)

Para Ancara, qualquer benefício desta exploração também deveria contemplar também os cipriotas turcos, e permanecer dependente das negociações sobre a reunificação da ilha mediadas pela ONU, mas que se encontram em impasse. O Chipre foi dividido na sequência da intervenção militar turca em 1974, entre o Sul cipriota grego e o Norte cipriota turco, que ocupa cerca de um terço do território, mas não é reconhecido pelas Nações Unidas.

No final de 2019, o Congresso dos EUA levantou o embargo de armas ao Chipre e aumentou a ajuda externa à ilha, para demonstrar o apoio à exploração de gás, onde estava envolvida a empresa Exxon Mobil.

Grécia e Turquia estiveram à beira de um confronto militar em agosto e setembro de 2020, depois que a Turquia lançou seu navio de pesquisa sísmica Oruc Reis – acompanhado de uma pequena frota naval – para explorar petróleo e gás em áreas do Mediterrâneo Oriental, que a Grécia reivindica como parte de sua plataforma continental e Zona Econômica Exclusiva. A França anunciou que iria reforçar temporariamente sua presença militar na região em apoio à Grécia.

As tensões aumentaram, até que, sob ameaça de sanções econômicas pela UE, a Turquia interrompeu a exploração do gás em dezembro de 2020. No entanto, o projeto do gasoduto não foi adiante na ocasião por questões de viabilidade econômica. As companhias petrolíferas internacionais estavam sob o impacto dos baixos preços do petróleo e gás e das enormes perdas com a pandemia. O momento era de corte de gastos e não de novos e dispendiosos investimentos.

A crise energética na Europa

Com a guerra na Ucrânia resultando em uma crise energética global, no aumento dos preços do gás natural, e em uma nova política energética pela UE visando acabar o mais rápido possível com a dependência do continente do gás russo, foi reacendido o interesse pelo gasoduto EastMed. Entretanto, os EUA retiraram seu apoio ao projeto em janeiro, citando preocupações com a sustentabilidade técnica e comercial.

Muitos analistas preveem que os níveis de preços internacionais do gás natural permanecerão elevados por um período prolongado, o que poderia fazer do EastMed um investimento lucrativo para as empresas que construírem e operarem o gasoduto, que tem um custo previsto em 6,1 bilhões de euros.

Conforme declaração à Al Jazeera de Ana Maria Jaller-Makarewicz, do Instituto para Economia em Energia e Análise Financeira (IEEFA, na sigla em inglês), “o EastMed pode ser economicamente viável agora, porque os preços da energia são muito altos, mas provavelmente não será a longo prazo”.  Para a especialista em energia, existem opções mais limpas e baratas que estão sendo ignoradas, como reduzir a demanda através das bombas de calor, que podem aquecer ambientes mesmo quando as temperaturas externas estão abaixo de zero graus centígrados.

Havendo ou não interesse da União Europeia em apoiar a construção do gasoduto, a decisão da Turquia de enviar um navio-sonda para explorar reservas de gás nas proximidades de Chipre pode inflamar a região, e tornar ainda mais conturbado o relacionamento da Turquia com os demais países da OTAN. A tentativa de golpe contra Erdogan em 2016 originou uma crise de confiança dos turcos em relação aos Estados Unidos e aos aliados do Ocidente. Por outro lado, o incidente da derrubada de um jato russo pela Turquia em 2015 foi plenamente superado, tanto que Moscou forneceu à Turquia o sistema russo de mísseis de defesa S400, para insatisfação da OTAN.

Erdogan declarou quando da cerimônia de lançamento ao mar do Abdulhamid Han: “O trabalho de pesquisa e perfuração que estamos realizando no Mediterrâneo está sendo conduzido dentro do nosso território soberano. Não precisamos receber permissão ou consentimento de ninguém para isso”.  A Rússia permanece como expectadora do desenrolar desta crise, que poderá auxiliá-la na condução da guerra na Ucrânia.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Roger Waters na mesma lista de alvos que filha morta de Dugin

Por Ruben Rosenthal

Roger Waters se junta assim a tantos outros críticos do governo autocrático e pró-nazista de Volodymyr Zelensky que tiveram seus nomes incluídos na lista, vários dos quais já foram assassinados.

Roger Waters is in the hit list of ucranian extremists
Roger Waters está na lista de alvos de site ucraniano de extrema-direita; apresentação do músico na turnê “This Is Not A Drill Tour.” Foto: Miami and beaches (fotomontagem do blog)

O músico de rock faz parte agora da extensa relação de pessoas que estão listadas como inimigos na Ucrânia no site Mirotvorets (Pacificador, em ucraniano), segundo artigo da jornalista Deborah L. Amstrong* no Medium.com. Também fazia parte da lista, Darya Dugina, a filha do polêmico filósofo russo Alexander Dugin, recém assassinada em um atentado quando uma bomba explodiu seu carro. Agora, na foto de Dugina consta uma tarja vermelha com a palavra ЛИКВИДИРОВАН, o termo ucraniano para LIQUIDADA.

O mesmo ocorreu com o jornalista italiano Andrea Rocchelli, que morreu em maio de 2014, juntamente com o intérprete e jornalista russo Andrey Mironov, quando o carro em que estavam foi atingido por um morteiro na região separatista de Donetsk. Não está claro porque na ficha de Dugina consta a palavra NATO (OTAN), enquanto que na de Rochelli aparece CIA, a agência de inteligência dos EUA, conforme pode ser visto na montagem a seguir.

Perfis de Dugina e italiano liquidados

Mirotvorets, um site semi-oficial do governo ucraniano

Mirotvorets contém um banco de dados que lista milhares de jornalistas, ativistas e qualquer um que seja declarado como “inimigo da Ucrânia”. Informações pessoais são publicadas, assim como os endereços de suas casas, números de telefone e de contas bancárias; qualquer dado que possa ajudar na localização dos “alvos”.  O endereço IP do site foi rastreado até um servidor em Bruxelas, Bélgica.

O Departamento de Estado dos EUA confirmou que o Ministério dos Assuntos Internos ucraniano estava relacionado ao site, mas o governo norte-americano não tomou qualquer providência para bloquear o site, mesmo reconhecendo que foram publicados dados pessoais de jornalistas.

A lista inclui uma menina ucraniana de 13 anos, Faina Savenkova, que foi adicionada por falar publicamente contra a sangrenta guerra que Kiev impôs aos civis de língua russa no Donbass, na parte oriental da Ucrânia. Já o cineasta Igor Lopatonok foi adicionado devido a um filme em que trabalhou com Oliver Stone.

Surpreendentemente, até Henry Kissinger, que uma vez sugeriu jogar bombas nucleares em Moscou, teve seu perfil incluído no Mirotvorets, como “inimigo da Ucrânia”, por ter expressado preocupação pela forma como os EUA estavam marchando para uma guerra contra a Rússia e China.

Roger Waters se junta assim a tantos outros críticos do governo autocrático e pró-nazista de Volodymyr Zelensky que tiveram seus nomes incluídos na lista, vários dos quais já foram assassinados.

Roger Waters: “A Crimeia pertence à Rússia”

O músico cofundador do Pink Floyd é amado por milhões de fãs ao redor do mundo. Na política, Waters é um crítico mordaz do papel representado pela OTAN. Waters, que sempre foi uma espécie de dissidente e antiguerra, como todos os astros do rock costumavam ser.

Ele é conhecido por seu apoio a Julian Assange, criador do Wikileaks, que se encontra preso no Reino Unido e sob ameaça de ser extraditado em breve para os EUA. Recentemente, Waters se referiu a Biden na CNN como sendo um “criminoso de guerra”, e que Biden está “alimentando o fogo na Ucrânia”.

Waters acrescentou: “Esta guerra é basicamente sobre a ação da OTAN alcançando a fronteira russa, o que eles prometeram não fazer quando [Mikhail] Gorbachev negociou a retirada da União Soviética de toda a Europa Oriental”. E complementando: “A Crimeia pertence a Rússia, porque a maioria das pessoas que vivem na península são russas”.

Como seria de se esperar, as opiniões do astro do rock indignaram a malta pró-OTAN e os simpatizantes nazistas na Ucrânia, bem como os “guerreiros da justiça social”, campeões da liberdade que espumam pela boca em apoio aos temas encampados pela grande mídia, ressalta Deborah Amstrong .

Pro-nazi hit list: Profile of Roger Waters at Mirotvorets site
Perfil de Roger Waters no site Mirotvorets, que contém a lista de alvos dos extremistas de direita ucranianos pró-nazismo 

Quem são os organizadores do Mirotvorets?

Uma investigação da Fundação Russa de Combate à Injustiça revelou nomes de indivíduos, corporações e entidades governamentais que se acredita serem os organizadores, patrocinadores e curadores do site nacionalista ucraniano.

O site é controlado pelo Serviço de Segurança da Ucrânia, e foi criado por iniciativa de Anton Gerashchenko, conselheiro do Ministro dos Assuntos Internos da Ucrânia. Gerashchenko enfrenta acusações de terrorismo na Federação Russa, pela criação da lista de alvos.

Os investigadores dizem que a lista foi criada em 2014, sendo supervisionada pela organização pública “Mirotvorets Center”, liderada por Roman Zaitsev, um ex-funcionário dos serviços especiais ucranianos, e pela organização pública “Retaguarda do Povo”, liderada pelo político ucraniano, George Tuka.

Em seus primórdios, o site publicou os nomes dos chamados “separatistas russos” (residentes do leste da Ucrânia), que se opunham ao golpe de Maidan que afastou o presidente Viktor Yanukovych, que ousara fazer um acordo econômico com a Rússia, em detrimento da União Europeia.

O site passou então a publicar os dados pessoais de figuras públicas, jornalistas, ativistas e até de crianças. Mirotvorets tornou-se infame após o assassinato de duas figuras públicas ucranianas em 2015: o escritor e jornalista Oles Buzina e um deputado ucraniano foram mortos dias após seus endereços residenciais serem publicados.

Em maio de 2016, Mirotvorets divulgou os dados pessoais de mais de 4.500 jornalistas e representantes da mídia de todo o mundo, que haviam recebido permissão para trabalhar no território de Donbass. Os administradores do Mirotvorets teriam invadido o banco de dados do Ministério da Segurança de Estado da República Popular de Donetsk, onde coletaram números de telefone, endereços de e-mail e residenciais de jornalistas estrangeiros acusados de “colaborar com terroristas”, por estarem cobrindo a guerra em territórios sob controle dos rebeldes.

Os jornalistas passaram então a receber telefonemas e e-mails ameaçadores, além de assédio nas redes sociais. O governo da Ucrânia emitiu uma declaração de que não havia encontrado violações da lei nas ações praticadas pelo site.

Terrorist threat against russian-speaking immigrants in every country / Mirotvorets site
Ameaça extremista contra imigrantes de fala russa em qualquer país / site Mirotvorets

Norte-americanos colaboram com Mirotvorets 

Uma análise do protocolo de rede pela Fundação Russa de Combate à Injustiça descobriu que o banco de dados do Mirotvorets usa os serviços tecnológicos de uma empresa na Califórnia. Na página principal do site consta o endereço “Langley County”, Virginia. Coincidentemente, a sede da CIA fica no condado de Langley. Há postagens de contas contendo nomes de diversas agências de inteligência ocidentais: CIA, FBI, OTAN, MI5 e NSA.

Andrew Weisburd, um analista de inteligência norte-americano, anunciou publicamente sua cooperação com o governo ucraniano em janeiro de 2015, na época em que Mirotvorets começou a publicar os dados pessoais dos jornalistas. Weisburd declarou: “Estou apenas tentando fazer a minha parte, para ajudar a fazer coisas ruins acontecerem com pessoas más que estão a serviço do Kremlin”.

Joel Harding é outro norte-americano que esteve envolvido com a formação do Mirotvorets, segundo o jornalista investigativo George Eliason, que vive no Donbass há vários anos e escreve para o Consortium News. Harding é um autoproclamado “especialista em operações de informação”, que diz ser ex-oficial de inteligência do Exército dos EUA e ter atuado como conselheiro sênior na OTAN. Ele desenvolveu também uma estratégia de apoio cibernético para barrar o acesso à mídia russa na Ucrânia. De acordo com Eliason, Harding queria controlar quais notícias e informações os ucranianos poderiam acessar nas redes sociais, internet e televisão.

Ao investigadores da Fundação dizem ter evidências que conectam Mirotvorets a um grupo de ativistas cibernéticos conhecidos como “Ciberaliança Ucraniana”. O grupo é acusado de participar, desde 2016, de ataques a sites de notícias e do governo russo, incluindo o Ministério da Defesa.

As finanças do Mirotvorets

Através de financiamento coletivo, Mirotvorets recebe considerável assistência financeira de doadores anônimos do Ocidente, asseveram os investigadores da Fundação. Os patrocinadores mais prováveis são nacionalistas ucranianos que vivem no exterior, e pessoas associadas a agências de inteligência ocidentais que têm acesso a enormes quantias de dinheiro dos contribuintes.

Embora os programadores digam que receberam apenas alguns milhares de dólares, os dados sobre transações relacionadas às carteiras cripto do grupo indicam o recebimento de mais de 100 mil dólares.

Paralelamente aos atentados e intimidações aos opositores do governo de Kiev, prosseguem os conflitos bélicos que opõe OTAN e Rússia, até que ao Ocidente não mais interesse pagar o preço econômico de bancar a Ucrânia nesta guerra por procuração. A hora da verdade poderá chegar junto com o inverno europeu.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

*Deborah Armstrong atualmente escreve sobre geopolítica, com ênfase na Rússia. Ela trabalhou anteriormente em noticiários de TV locais nos EUA, onde ganhou dois Prêmios Emmy. Logo antes da dissolução da União Soviética, no início da década de 1990, ela trabalhou como consultora de televisão em Leningrado.

 

Zelensky liberta estupradores e torturadores para lutarem na frente de combate

Por Ruben Rosenthal

Embora atuassem no batalhão Tornado algumas das bestas mais selvagens que cometeram crimes hediondos, 58 outros batalhões do mesmo tipo permanecem operacionais em toda a Ucrânia.

Ruslan Onishenko, former commander of the now dismantled Tornado battalion trains for combat
Ruslan Onishenko, ex-comandante do agora desmantelado batalhão Tornado, treina para o combate

Líderes do notório batalhão Tornado que haviam sido condenados por estupro de menores e tortura sádica foram libertados por ordens de Zelensky para participarem dos combates contra a Rússia, conforme é relatado no artigo de Esha Krishnaswamy, no The Grayzone.

Segundo publicado em 11 de julho na mídia ucraniana, Ruslan Onishenko, comandante do agora disperso batalhão Tornado, foi libertado como parte do esquema do presidente Zelensky para aproveitar prisioneiros com experiência em combate. Onishenko é um psicopata sádico que foi condenado por estar envolvido em assassinatos, abusar sexualmente de crianças e torturar brutalmente prisioneiros.

Outros ex-membros condenados do Tornado também foram libertados. De acordo com o decreto de Zelensky de 27 de fevereiro, os prisioneiros com experiência em combate poderiam “compensar sua culpa” lutando nos “pontos mais quentes” do conflito. Desta forma, brutais criminosos neonazistas receberam imunidade oficial.

Além de tortura, assassinato, estupro – inclusive de crianças – os crimes de Onishenko incluíram sequestro, amputação e muito mais. Mesmo assim, ele foi condenado a apenas 11 anos de prisão em abril de 2017. Agora, após cumprir apenas cinco anos de sua sentença, ele foi libertado por um presidente que é elogiado como estadista e democrata pela mídia do Ocidente.

O surgimento do batalhão Tornado

Após o golpe de fevereiro de 2014, que ficou conhecido como a Revolução Euromaidan, o Batalhão Shakhtyorsk, onde Onishenko estava lotado, participou em agosto de uma operação fracassada para retomar uma área controlada pelos rebeldes do Donetsk, na cidade oriental de Ilovaisk. A derrota foi um fator importante para forçar o governo central da Ucrânia a negociar com as repúblicas separatistas do Donbass, sob as diretrizes dos Acordos de Minsk.

Esha relata que um mês depois, em setembro, o então presidente Poroshenko e outros membros do gabinete decidiram dissolver o batalhão Shakhtyorsk, acusando seus membros de terem cometido saques.  O batalhão foi dividido em dois grupos: um que se autodenominava “Santa Maria, e um segundo, liderado por Onishenko, chamado “Tornado”. Este era composto, em grande parte, de residentes de Lugansk e Donetsk simpatizantes do golpe de Maidan, bem como por alguns estrangeiros.

O Grupo de Direitos Humanos de Kharkiv escreveu um relatório em nome do Departamento de Estado dos EUA, detalhando o terror imposto aos moradores de Lugansk pelas “patrulhas diárias” do Tornado:

“Pessoas usando camuflagem e carregando metralhadoras arrombavam portas em casas privadas, realizavam buscas sem autorização judicial, humilhavam e espancavam proprietários, ameaçando-os de morte, e “expropriaram” seus bens. Nas ruas e postos de controle, membros do batalhão detinham pessoas, cobrindo suas cabeças com sacos….Muitos homens foram tirados à força de suas casas e levados sob escolta para o prédio do hospital ferroviário em Novaya Kondrashovka. A maioria dos detidos foi libertada, mas houve vários casos de pessoas desaparecendo depois de serem ilegalmente detidas por combatentes do batalhão”.

Além desses atos de crueldade, membros do batalhão Tornado se vangloriavam da extrema violência sexual, incluindo o estupro de crianças pequenas. Foi a propensão da unidade para a perversão que provavelmente levou a uma ordem do Ministério do Interior para desmantelá-la, em junho de 2015.

Ainda no mês de junho, o procurador militar-chefe Anatoliy Matios relatou que os combatentes do Tornado se recusavam a desarmar, e fizeram barricadas em uma escola de Severodonetsk.

As autoridades ucranianas finalmente conseguiram prender Onishenko no aeroporto de Donetsk. Em resposta, seus companheiros do batalhão tomaram posições defensivas, em preparação para a batalha com as forças de Kiev. Com o envio pelo governo de mais unidades militares, o batalhão foi finalmente subjugado e seus membros presos.

O julgamento do batalhão revelou um circo de horrores

Após as prisões, os celulares dos comandantes do Tornado foram apreendidos. O procurador-chefe ucraniano encontrou neles evidências de crimes hediondos cometidos por vários membros do batalhão. O vídeo a seguir (com legendas em inglês) é extremamente perturbador, contendo relatos chocantes das vítimas das torturas e estupros a que elas foram submetidas por seus algozes.

Embora atuassem no batalhão Tornado algumas das bestas mais selvagens que cometeram crimes hediondos, 58 outros batalhões do mesmo tipo permanecem operacionais em toda a Ucrânia.

Ao mesmo tempo em que liberta as bestas, Zelensky bane praticamente toda a oposição política, publica uma lista negra de jornalistas e acadêmicos estrangeiros acusados de promover “propaganda russa”, e remove a proteção das leis trabalhistas para 70% dos ucranianos, relata Esha Krishnaswamy em seu artigo.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

EUA: Lobby pró-Israel investe milhões para controlar o Partido Democrata

Por Ruben Rosenthal

Os esforços dos grupos lobistas pró-Israel se concentram em candidatos nas primárias dos estados de maioria democrata garantida.

AIPAC: US and Israel connected for good
Mike Pompeo, Secretário de Estado de Donald Trump,  discursa na conferência anual do AIPAC, Washington, março 2019 / Foto: Mark Wilson/Getty Images

Grupos de defesa de Israel se aliaram aos interesses das grandes corporações para interferir no processo de seleção de candidatos democratas ao congresso, procurando barrar a indicação de progressistas. Para estes grupos, o objetivo é de reverter a tendência que se configurava no Partido Democrata (PD) de um posicionamento favorável aos palestinos. Para os representantes corporativos, o intuito é impedir que o PD seja dominado pela “esquerda radical”, e com isso evitar que prevaleçam posicionamentos a favor de regulamentações que as corporações entendam como prejudiciais aos seus interesses.

A estratégia é de impedir a vitória de candidatos progressistas ainda durante os processos seletivos internos do PD. Conforme o relato de  Peter Beinart, editor do Jewish Currents, e que serviu de base para o atual artigo, a canalização de vultosos recursos financeiros a favor de candidatos que fossem ao mesmo tempo pró-Israel e moderados/conservadores em questões internas dos EUA país já surtiu efeito em diversas disputas.

Os esforços dos grupos lobistas pró-Israel se concentram em candidatos nas primárias dos estados de maioria democrata garantida, os chamados “estados azuis”, até porque a radicalização política levou a que menos estados ficassem sujeitos a trocas de poder entre republicanos e democratas.

O sistema de doações em campanhas eleitorais

As doações individuais através de um comitê de ação política (PAC) tradicional não podem ultrapassar 5 mil dólares por ciclo eleitoral, e outros 5,8 mil diretamente para o candidato. O advento da internet possibilitou que políticos com muitos seguidores, como Bernie Sanders, levantassem grandes somas através de pequenas doações online.

Uma decisão da Suprema Corte em 2010 – Citizen United – permitiu a criação do chamado “Super PAC”, um novo tipo de comitê de ação política que poderia aceitar doações ilimitadas, desde que fossem utilizadas em “gastos independentes”, não repassados diretamente aos candidatos ou a comitês partidários.

Na última década, esses dois novos métodos – um baseado em um grande número de pequenos doadores, e outro, com base em um pequeno número de doações extremamente altas – impactaram profundamente a arrecadação de fundos a favor ou contra candidatos.

Principais grupos de lobby pró-Israel e pró-corporações

AIPAC, Comitê Americano de Ações Públicas de Israel: se apresenta como uma organização que suprapartidária defende o estreitamento de uma parceria mutuamente benéfica entre Israel e EUA, “reforçando os valores morais da América e seus interesses estratégicos”. Originalmente, AIPAC não fazia arrecadações diretas para campanhas.

DMFI, Maioria Democrata por Israel: o grupo defende no site que uma forte relação EUA-Israel representa o que é melhor para os Estados Unidos, pelos valores e interesses compartilhados. A organização diz apoiar políticas progressistas e a solução de dois estados na Palestina.

Mainstream Democrats (Democratas Majoritários): no site do grupo não é feita qualquer menção a Israel, mas a organização teria sido criada inteiramente pelo DMFI e dividem o mesmo escritório.  No site é especificado que “a tentativa de grupos de extrema-esquerda de assumir o controle do PD torna mais difícil a vitória democrata nas eleições em estados decisivos (swing states), e enfraquece a governança pelo Partido”.

A estratégia de arrecadação da AIPAC

Mesmo antes da eleição de Rashida Tlaib, Ilhan Omar e Alexandria Ocasio-Cortez para a Câmara e a formação do Esquadrão (The Squad) em 2019, já se notava um questionamento no interior do Partido Democrata da ajuda militar incondicional dos EUA a Israel. A deterioração das relações de Obama com Netanyahu e o bom relacionamento deste com Donald Trump abalaram o prestígio do AIPAC perante os democratas.

A posse em janeiro de 2019 dos progressistas do Esquadrão, altamente críticos de Israel, coincidiu com a formação da DMFI, pela ação de um grupo de doadores e estrategistas próximos ao AIPAC, com a missão de enraizar novamente o apoio a Israel no PD. E para tanto, DMFI fez uso do Super PAC para arrecadar quantias da ordem de centenas de milhares de dólares e direcioná-las às campanhas de candidatos ao Congresso. Para arrecadar quantias menores, AIPAC criou Pro-Israel America.

O fracasso que antecede o sucesso

Os grupos lobistas pró-Israel precisaram encarar inicialmente uma grande decepção nas primárias democratas para o distrito do Bronx, em Nova Iorque, em meados de 2020.

DMFI gastou cerca de 2 milhões de dólares em apoio a Eliot Engel, um influente político aliado do AIPAC. Pro-Israel America contribuiu com mais 228 mil dólares. O candidato à reeleição para a Câmara apoiava as investidas de Israel em Gaza, minimizava o impacto dos assentamentos judaicos, defendia cortes na agência da ONU para os refugiados palestinos, e era favorável ao controle total de Jerusalém por Israel.

O desafiante nas primárias no Bronx foi o educador Jamaal Bowman, que criticava o uso de ajuda dos EUA para deter crianças palestinas. A campanha de Bowman recebeu cerca de 500 mil dólares de grupos progressistas, como Justice Democrats e Working Families Party1, os maiores investidores2 nas campanhas de candidatos de esquerda. Bowman derrotou Engel com uma diferença de quase 15 pontos.

No entanto, a estratégia dos lobistas pró-Israel viria a dar frutos no ano seguinte. E sucesso atrai sucesso.

Um caso exemplar de sucesso

Em 2021, nas primárias para escolha do candidato democrata por um distrito no estado de Ohio para uma eleição especial ao Congresso, o favoritismo estava com Nina Turner, ex-senadora (2008-2014), e que havia sido forte apoiadora de Bernie Sanders nas campanhas para a escolha do candidato presidencial democrata em 2016 e 2020.

Nina defendia que a ajuda dos EUA a Israel não deveria ser usada para perpetuar a ocupação israelense da Cisjordânia, além de se recusar a criticar o BDS, o boicote contra Israel. Os fortes laços de Nina com Bernie Sanders também foram usados contra ela na campanha, como forma de questionar sua lealdade ao presidente Biden.

Alguns meses após Nina lançar sua candidatura DMFI  e America Pro-Israel endossaram seu principal adversário, a presidente do PD no Condado de Cuyahoga, Shontel Brown. Nos meses seguintes, as duas organizações investiram pesadamente na campanha de Brown: DMFI gastou mais de 2 milhões de dólares,  e America Pro-Israel contribuiu com 781 mil.

Os lobistas pró-corporações também declararam guerra a Nina Turner: Fox News, Exxon Mobil, Walmart, PhRMA e outras indústrias arrecadaram ainda mais fundos para a campanha de Brown. Em poucos meses a vantagem inicial de Nina por mais de 30 pontos foi revertida, e ela perdeu a indicação por uma diferença de 6 pontos.

Com a vitória, AIPAC decidiu criar seus próprios PAC e Super PAC, passando a levantar fundos diretamente para campanhas eleitorais, após 70 anos de atuação nos bastidores. Até agora, AIPAC arrecadou cerca de 22 milhões.

Em 2022, as duas candidatas voltaram a competir pela mesma vaga, visando as eleições legislativas de outubro. Desta vez, a organização Democratas Majoritários, que supostamente não toma partido no conflito Israel-Palestina, investiu 150 mil dólares para barrar Nina Turner. Em maio, Brown derrotou Turner por uma margem avassaladora de 66 a 33 pontos percentuais.

As convicções políticas de alguns progressistas ficaram abaladas.

Progressistas de pouca fé

Alguns democratas buscaram soluções conciliatórias. Um caso emblemático é o de Greg Casar, candidato a deputado por Austin, Texas. Ele procurou evitar o ataque de grupos pró-Israel enviando uma carta ao rabino local, onde se colocou contrário ao BDS e a favor do envio de armas a Israel. Mas condenou a expansão ilimitada de assentamentos judaicos na Palestina e a violação de direitos básicos. Ou seja, deu uma no cravo e outra na ferradura. Mas com o recuo, Casar perdeu o apoio dos Socialistas Democráticos da América (DSA).

Mesmo os briosos membros do Esquadrão passaram a recuar de suas posições a favor dos palestinos.

Desde que assumiu seu assento na Câmara em janeiro de 2021, o novo membro do Esquadrão, Jamaal Bowman, vem sendo criticado por apoiadores de esquerda, como DSA, principalmente por suas posições em questões relativas a Israel.

Bowman declarou oposição ao boicote BDS e votou a favor de fundos suplementares de 1 bilhão de dólares para financiar o Iron Dome, o escudo protetor contra mísseis lançados de Gaza contra Israel. Em dezembro de 2021, DAS anunciou que não apoiará Bowman para as eleições legislativas de novembro de 2022.

Alexandria Ocasio-Cortez, uma das fundadores do Esquadrão, também votou a favor de verbas adicionais para custear o Iron Dome. Ela alegou para seus eleitores de Nova Iorque que tinha sido submetida a uma “campanha de ódio”, quando inicialmente se opôs ao custeio do escudo.

 As dificuldades do apoio a candidatos pró-palestinos

O grupo sionista liberal J Street criou um Super PAC em janeiro e espera arrecadar para o ciclo eleitoral de 2022 a quantia de 1 milhão de dólares, o que ainda é bem pouco comparando com as arrecadações alcançadas por AIPAC e aliados. Grupos árabes, mulçumanos e de solidariedade palestina à esquerda de J Street deverão arrecadar bem menos ainda.

Divergências no campo liberal-progressista agravam ainda mais a arrecadação em apoio a candidatos mais compromissados com a causa palestina. J Street apoia a solução de “dois estados” na Palestina e se opõe ao boicote BDS contra Israel; assim, o grupo liberal não apoiou Nina Turner, como também deixou de apoiar Marie Newman em Illinois este ano, uma das oito deputadas democratas a se opor ao financiamento do Iron Dome. E não vai apoiar Rachida Tlaib ou Ilhan Omar, do Esquadrão. Estes são apenas alguns exemplos da falta de unidade no campo liberal/progressista.

Falhas na estratégia do AIPAC 

Ao endossar mais de 100 candidatos republicanos que votaram para anular os resultados da eleição presidencial de 2020, AIPAC mostrou que tem vulnerabilidades que podem ser exploradas. Um grupo progressista democrata da Carolina do Norte aproveitou para declarar que “nenhum candidato norte-americano deveria aceitar fundos de uma organização que apoia financeiramente aqueles que procuram destruir a nossa democracia”, e retirou o apoio que já havia concedido a uma candidata ao senado estadual.

Em seu artigo, Peter Beinart ressaltou o caminho das pedras para se fazer frente à aliança dos lobbies pró-Israel com democratas moderados e conservadores: denunciar os apoios que AIPAC e DMFI dão a candidatos com histórico condenável na saúde, meio-ambiente e democracia. Como exemplo, Beinart lembra que AIPAC ajudou a reeleger Henry Cuellar, que em 2021 foi o único deputado democrata a votar contra a legislação iria inserir o direito ao aborto na lei federal.

O caminho para que os eleitores democratas escolham candidatos que defendam a dignidade dos palestinos passa primeiro pela escolha de candidatos que defendam a dignidade e liberdade na América, assevera Beinart.

Notas:

1 Working Family Party é uma organização com base em grupos comunitários e de trabalhadores, que recruta, treina, e elege candidatos progressistas.

2 As duas organizações têm Super PACs, e arrecadaram no atual ciclo eleitoral mais de 3 milhões e 10 milhões de dólares, respectivamente. Mesmo assim, isso representa bem menos do que foi obtido pelas organizações pró-Israel.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Aborto nos EUA: a solução está no aumento de juízes da Suprema Corte?

Por Ruben Rosenthal

Restaurar o equilíbrio entre conservadores e liberais na Corte, talvez seja a única forma de reverter o progressivo aumento da cisão na sociedade norte-americana.

Abortion is a extremely divisive theme for the north-americanssive
Manifestantes contra e favor da legalização do aborto. A sociedade norte-americana se encontra dividida.

Conforme já era esperado, a Suprema Corte norte-americana decidiu por 5 a 4 reverter o caso Roe vs. Wade que estabelecera o direito constitucional ao aborto em 1973, com base na 4a e 14a emendas da Constituição. Agora os estados poderão estabelecer legislações específicas. Estima-se que em 26 estados do país o aborto será proibido ou terá severas restrições.

As mudanças afetarão principalmente mulheres de baixa renda, que não terão condições financeiras de viajar para outros estados para interromper a gravidez. Algumas empresas, como a Amazon e a Apple, já anunciaram que pagarão as despesas de suas funcionárias que precisarem viajar.

Mas outras liberdades civis também poderão ser afetadas com a nova interpretação da Corte de maioria conservadora. Voltam a surgir no país vozes de peso que defendem o aumento no número de juízes da Corte, de forma a restabelecer o equilíbrio entre liberais e conservadores.

As hesitações de Biden

Na sequência da decisão da corte, Biden se limitou a declarar que “os eleitores terão a palavra final”. Este posicionamento indicou que a intenção do presidente era de capitalizar em cima do drama de milhares de mulheres, visando atrair votos para o partido Democrata nas eleições legislativas de novembro próximo. Mas o presidente parece ter se dado conta que, ao contrário, este posicionamento dúbio estava trazendo imenso desgaste político, no momento em que seu apoio popular já se encontra bastante prejudicado pela alta inflação, que está próxima dos dois dígitos.

Em 30 de junho, após criticar o “comportamento vergonhoso” da Suprema Corte, Biden declarou que irá impedir que a oposição obstrua a votação no Senado que garantiria o direito ao aborto em todo o país: “Temos que codificar Roe vs. Wade na lei, e a forma de conseguir é garantindo que o Congresso faça isso”, disse Biden. “E se a obstrução (pela oposição) for atrapalhar, será como no (caso do) direito ao voto, nós criaremos….uma exceção à obstrução (específica) para essa ação.”

Só que Biden parece se esquecer que, no caso da votação da reforma eleitoral ocorrida em janeiro deste ano, dois senadores democratas “problemáticos”, Joe Manchin e Kyrsten Sinema, se posicionaram com os republicanos, e a legislação não foi aprovada. No caso da questão do aborto, Biden e a liderança democrata precisarão negociar muito para superar a dissidência interna no partido.

A 14a emenda

A 14a emenda foi criada em 1868, no pós-guerra civil nos EUA, para impor aos estados do Sul escravocrata direitos individuais aos ex-escravos.  Conforme lembrou o professor Rafael Ioris, no programa Agenda Mundo, ao longo do século 20, a 14a emenda foi interpretada para garantir a ampliação de direitos individuais, como a dessegregação nas escolas (1954), e estendeu o direito à privacidade (estabelecido pela 4a emenda) ao direito ao aborto (1973), e, posteriormente, ao do casamento entre pessoas do mesmo sexo (2015).

Ioris ressaltou ainda que estes direitos não estão explicitados na Constituição: “A interpretação que foi concedida do direito ao aborto nunca foi absoluta, tanto que possibilitou que os estados regulamentassem de forma diversa sua aplicação. Por se tratar de uma interpretação (da emenda), mudanças na composição da Suprema Corte podem rever decisões anteriores.”

Obama e Biden não cumpriram promessas de campanha

Conforme o ativista político e youtuber Jimmy Dore ressaltou em seu programa, quando das últimas eleições presidenciais em 2020 Biden declarou que, se eleito, enviaria imediatamente para votação no Congresso a codificação da decisão da Corte no caso Roe vs Wade, o que não ele não fez. A codificação da lei do aborto pela autoridade federal invalidaria quaisquer leis estaduais anti-aborto que estivessem em conflito com as cláusulas da lei federal.

Antes dele, Barack Obama também dissera que a primeira coisa que faria como presidente seria assinar o ato da “liberdade de escolha”. Naquela ocasião Obama dispunha de maioria expressiva tanto na Câmara como no Senado, o que não é o caso de Biden agora.

Atualmente, a maioria democrata na Câmara é de 220 a 210, enquanto que no Senado 50 assentos são ocupados pelos republicanos, 48 pelos democratas, e 2 por independentes que votam com os democratas. Em caso de empate 50-50, a decisão cabe ao voto da vice-presidente, Kamala Harris. No entanto, a atual maioria democrata no Senado é ilusória, já que os republicanos podem fazer uso do mecanismo de obstrução (filibuster, em inglês), válido para casos polêmicos.

A obstrução no Senado

Para que uma legislação seja aprovada no Senado sem sofrer obstrução pela oposição, é necessário que uma maioria qualificada de 60 votos seja alcançada. No passado, o mecanismo de obstrução já foi utilizado para barrar a aprovação de projetos de lei que visavam combater a discriminação racial, conforme relatado pelo Centro Brennan por Justiça (Brennan Center for Justice), um think tank progressista norte-americano da área advocatícia.

Quando o projeto de lei chega ao plenário para votação após a conclusão dos debates, basta uma maioria simples de 51 votos para aprová-lo. Entretanto, a oposição pode estender indefinidamente os debates, de forma obstrutiva, a não ser que o projeto alcance um mínimo de 60 votos. Biden anteriormente se posicionara contrariamente aos apelos vindos da ala liberal do Partido Democrata para que fosse abolido de vez o mecanismo da obstrução.

Por vezes, alguns tipos de leis foram isentadas da regra, como em acordos comerciais. Biden tentou criar uma exceção para o caso da reforma eleitoral e não conseguiu. E agora ele declara que vai garantir uma exceção para tornar lei federal o parecer do caso Roe vs Wade. Um possível complicador é que codificar Roe vs Wade significaria ignorar decisões da Suprema Corte posteriores a 1973, que possibilitaram a estados governados por conservadores impor algumas restrições ao aborto. É possível, e mesmo provável, que os senadores Manchin e Sinema não aceitem que Roe vs Wade se torne lei federal, se ficarem de fora as restrições posteriores aceitas pela Corte.

Existe um plano B?

Não está claro ainda se Biden está buscando alternativas, caso não consiga negociar um consenso com os dissidentes democratas. Enquanto esta situação não se define, uma alternativa relativamente simples de ser implementada a curto prazo foi sugerida pela congressista Alexandria Ocasio-Cortez: que nos estados em que o aborto seja totalmente proibido ou sofra fortes restrições, a interrupção da gravidez possa ser conduzida em clínicas estabelecidas em espaços que estejam sob jurisdição federal.

Esta seria evidentemente uma solução emergencial, pois é provável que um futuro presidente republicano viesse a reverter a medida. E esta é a perspectiva que se coloca já para 2024, caso os Democratas não consigam recuperar o apoio que vem perdendo desde a posse de Biden.

Mas a questão da proibição do aborto não é a único trauma que poderá afligir amplos setores da sociedade norte-americana. Com a nova interpretação da14a emenda pela Suprema Corte ficou também aberto o caminho para que outros direitos já estabelecidos sejam revertidos, como o casamento de pessoas do mesmo sexo e o controle de natalidade.

Falta legitimidade à Suprema Corte dos EUA

Na origem dos atuais problemas está a expressiva maioria conservadora na Suprema Corte (6 a 3), alcançada principalmente através de um lobby intenso de grupos bancados por bilionários, conforme detalhado em artigo anterior do blog.

No governo Obama, um doador desconhecido contribuiu com 17 milhões de dólares para barrar a indicação do juiz Merrick Garland para a Suprema Corte, e apoiar posteriormente a indicação de Neil Gorsuck para a mesma vaga, já na administração Trump. Em 2018, o grupo Judicial Crisis Network recebeu possivelmente do mesmo doador outros 17 milhões para intermediar apoio à indicação de Brett Kavanaugh, que precisou superar acusações de que cometera abusos sexuais na juventude.

Outro grupo atuante é a Federalist Society, uma influente organização de advogados conservadores e ultraliberais, com ligações próximas a juízes da Suprema Corte. O advogado Leonard Leo, então vice-presidente executivo da entidade, foi o principal articulador do plano para garantir a indicação de juízes conservadores para as cortes federais, como também para influenciar no desfecho de causas. Detalhes da estratégia adotada foram relatados pelo jornal The Washington Post, em artigo de maio de 2019.

Para a senadora democrata Elisabeth Warren, que foi pré-candidata nas eleições presidenciais de 2020, a solução estaria em expandir a Corte: “Acredito que precisamos restaurar a confiança em nossa Corte, e isso significa que precisamos de mais juízes na Suprema Corte dos Estados Unidos. Já aconteceu antes. Fizemos isso antes e precisamos fazê-lo novamente.”

De fato, isso já foi feito antes, por 7 vezes. O artigo 3 da Constituição dos Estados Unidos, na seção 1, concede esta autoridade ao Congresso. Restaurar o equilíbrio entre conservadores e liberais na Corte, talvez seja a única forma de reverter o progressivo aumento da cisão na sociedade norte-americana. Resta ver se Biden conseguirá se superar e estar à altura da gravidade do atual momento.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Ucranianos morrem para os Democratas não perderem votos

Por Ruben Rosenthal

Biden parece estar mais interessado em não prejudicar eleitoralmente o Partido Democrata do que nas mortes e sofrimento do povo ucraniano com o prolongamento da guerra que financia.

Xadrez da geopolítica EUA-Rússia
A Ucrânia é peça importante no xadrez da geopolítica Rússia-Estados Unidos / Foto: Relatório Rand Corporation

A desinformação propagada pela mídia ocidental, difundindo uma suposta incompetência dos militares russos, não consegue ocultar que as forças de combate russas estão próximas de expulsar das repúblicas separatistas do Donbass as tropas do governo central de Kiev, compostas principalmente de milícias de extrema-direita e mercenários estrangeiros. Ao mesmo tempo, foi conquistado um amplo corredor terrestre conectando Crimeia e Rússia.

Faltam ainda a ser alcançados outros objetivos estabelecidos inicialmente por Putin, como a desmilitarização e desnazificação da Ucrânia, bem como o não ingresso na OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, e a garantia de neutralidade do país com o qual a Rússia faz fronteira por uma extensão de cerca de 2.700 quilômetros.

A questão que se colocará em breve é se Moscou se dará por satisfeita com a liberação do Donbass e com outras metas já alcançadas, ou se o conflito entrará em uma nova fase, com consequências imprevisíveis para a Europa e para o mundo. A Rússia parece não ter sido profundamente afetada pelas sanções econômicas por parte do Ocidente, mas estas vêm causando aumento dos preços de combustíveis e escassez de alimentos em vários países.

No discurso de 24 de fevereiro ao povo russo, Putin ressaltou que as operações que se fizerem necessárias para expulsar as tropas ucranianas do Donbass estão de acordo com o Artigo 51 (capítulo VII) da Carta da ONU, e atenderam ao acordo de amizade e de assistência mútua com as repúblicas populares de Luhansk e Donetsk, que constituem o Donbass, cuja população é majoritariamente de origem russa. A escala das operações militares até o momento se faz com a autorização concedida pela Duma, o parlamento russo.

A ampliação das operações de combate necessárias para serem alcançados os objetivos originalmente pretendidos poderá fazer com que o conflito se espalhe para países vizinhos pertencentes a OTAN, avalia o analista Scott Ritter, ex-oficial de inteligência do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos.

Para melhor compreensão do cenário atual e do que poderá vir futuramente é necessário se ter em conta quais foram os antecedentes que levaram à intervenção russa em solo ucraniano.

O pavio do conflito. Os analistas independentes não hesitam em associar a origem do atual conflito ao golpe de 2014, apoiado por Barack Obama, que afastou o presidente eleito Viktor Yanukovych através do que ficou conhecido como a revolução colorida de Maidan (ver artigo anterior do blog)

Seguiu-se o referendo na Crimeia, com 97% dos votantes optando pela incorporação da península à Rússia. Na sequência, as regiões Luhansk e Donetsk demandaram um referendo de autodeterminação (autonomia), de forma a poder preservar a cultura russa, que se via ameaçada pelo novo governo. Não se tratava naquela ocasião de um movimento separatista.

A reação de Kiev levou à repressão contra diversas regiões de língua russa, e a massacres em Odessa e Mariupol.  Os autonomistas tomaram em armas para se defender. Conforme assinala artigo do analista Jacques Baud, ex-membro da inteligência estratégica suíça, os rebeldes não obtiveram suas armas da Rússia, e sim, de unidades ucranianas de fala russa. Baud lembra ainda que os acordos de Minsk 1 (setembro de 2014) e Minsk 2 (fevereiro de 2015) não concediam independência às Repúblicas de Luhansk e Donetsk, mas, um certo grau de autonomia.

O acordo deveria também incluir uma ampla anistia a todos os envolvidos no conflito, bem como o desmantelamento das organizações paramilitares de extrema direita que participaram do Maidan, e que também se envolveram nos confrontos bélicos. Entretanto, a Ucrânia não implementou quaisquer das  medidas estipuladas. A OSCE passou a monitorar a linha de separação entre as partes beligerantes, mas não tinha capacidade militar para intervir.

O estopim do conflito. Em 24 de março de 2021, o presidente ucraniano Volodymir Zelensky emitiu um decreto que reafirmava a soberania sobre a Crimeia e passou a estacionar tropas no sul do país. As tensões entre Rússia e Ucrânia escalaram no decorrer do ano.

A intenção explicitada por Zelensky  de que seu país entrasse para a OTAN, contou com a concordância de Joe Biden. O Ministério das Relações Exteriores russo pediu garantias por escrito de que a Ucrânia jamais ingressaria na OTAN. Em 17 de dezembro de 2021, Putin cobrou também que a área de influência militar da OTAN retrocedesse aos limites existentes em 1997, conforme o que havia sido então acordado entre EUA e Rússia quando do final da União Soviética.

Expansão da OTAN para o Leste da Europa
Expansão da OTAN no Leste da Europa após 1997; a adesão da Alemanha Oriental se deu com a reunificação do país em 1990 / Fonte: BBC

Em 27 de janeiro de 2022, o Secretário de Estado Antony Blinken declarou que Washington não daria garantias à Rússia de que a Ucrânia não ingressaria no bloco militar. Os EUA continuaram a agitar o cenário político, criando um clima de pânico de que a invasão russa era iminente, o que fez com que Zelensky pedisse moderação ao Ocidente, para não prejudicar a economia ucraniana.

Em 16 de fevereiro de 2022, a artilharia ucraniana iniciou um massivo bombardeio de regiões civis do Donbass sob controle dos rebeldes. Talvez isso explique porque Biden anunciou, em 17 de fevereiro, que a Rússia atacaria a Ucrânia nos próximos dias.

Os ataques devem ter partido provavelmente do batalhão Azov, que está vinculado à Guarda Nacional, que responde ao Ministério do Interior; já o Exército, está subordinado ao Ministério da Defesa.

Teria o batalhão Azov agido à revelia de Zelensky, incitado por Washington? Esta é uma hipótese bem plausível, considerando que aos EUA interessavam a deflagração de um conflito que desgastasse a economia russa. A estratégia está explicitada nas páginas 95 a 103 do manual de guerra híbrida da Rand Corporation, think tank financiado pelo exército norte-americano.

Vale lembrar que Zelensky fora eleito com uma proposta de selar a paz no Donbass. Mas segundo declaração do especialista em Rússia, Stephen Cohen (falecido recentemente), em entrevista ao jornalista Aaron Maté, Zelensky logo foi obrigado a recuar em face das ameaças de morte vindas da extrema-direita ucraniana, e por não ter recebido apoio de Washington. Mas, como todo ator que se preza, Zelensky assumiu e incorporou um novo personagem, que agora só usa como traje teatral, camisas T-shirt do exército ucraniano.

Em 19 de fevereiro de 2022, Zelensky fez um discurso na Conferência de Segurança de Munique, em que pede ao Ocidente que apoie a Ucrânia para impedir uma invasão russa. O presidente ucraniano ameaçou abandonar o Memorando de Budapeste de 1994, pelo qual a Ucrânia abrira mão de seu arsenal atômico com a garantia que teria preservada a integridade de suas fronteiras.  A declaração acirrou ainda mais as tensões com a Rússia.

Em 21 de fevereiro, Putin reconheceu a independência das Repúblicas de Luhansk e Donesk. Em 23 de fevereiro as duas repúblicas pediram ajuda militar à Rússia. No dia seguinte, Putin fez o discurso já mencionado, em que estabeleceu os objetivos da intervenção que se iniciava em solo ucraniano.   

A primeira fase da guerra. Nas primeiras semanas do conflito a capital ucraniana Kiev foi submetida a intenso bombardeio, ao mesmo tempo em que um longo comboio de blindados se dirigia para a capital. Para os analistas da mídia ocidental a estratégia russa era de tomar a capital ucraniana, afastando Zelensky da presidência.

Após um mês de luta as tropas russas se retiraram do norte da Ucrânia, e passaram a focar na conquista da região leste. Ritter cita em seu artigo a declaração feita em 25 de março pelo coronel-general Sergei Rudskoy, do Estado-Maior da Forças Armadas da Federação Russa: “Os objetivos principais da primeira fase de operações foram alcançados. A capacidade de combate das Forças Armadas da Ucrânia foi significativamente reduzida, o que nos permite de novo concentrar nossos esforços em alcançar o objetivo principal – a liberação do Donbass. Todas as 24 formações das forças terrestres (ucranianas)….sofreram perdas significativas.”

A segunda fase da guerra. Na batalha da informação, prevalecia o consenso estabelecido pela mídia do Ocidente, que demonizava Putin e procurava desmoralizar a eficácia das tropas russas, ecoando versões que a Ucrânia estava forçando os russos a recuarem, e que logo a Crimeia seria retomada.

De fato, a tarefa de derrotar as tropas ucranianas estacionadas no Donbass não seria fácil. Nos oito anos de guerra civil os militares do governo central de Kiev preparam um cinturão defensivo, consistindo de estruturas de concreto bem fortificadas, segundo declaração do general Rudskoy citada por Scott Ritter.

Ainda segundo Ritter, a vantagem russa na artilharia vem sendo um fator determinante do resultado vitorioso na fase 2 das operações, “pulverizando as defesas ucranianas e abrindo o caminho para a infantaria e blindados”. E acrescentou: “A vitória russa no leste da Ucrânia possibilita uma conexão por terra entre a Crimeia e o território da Federação Russa. A tomada de Kherson permite restabelecer o fornecimento de água à Crimeia, o que vinha sendo impedido pelo governo central desde o plebiscito de 2014.”

 A guerra entrará em uma terceira fase? Vários dos objetivos pretendidos por Putin não foram ainda alcançados, ressalta Scott Ritter. No campo político, a “operação especial militar” tinha como um dos principais objetivos, impedir o ingresso da Ucrânia na OTAN. No campo dos objetivos militares, faltava ainda desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia.

Desnazificação. A derrota do Batalhão Azov em Mariupol representou um sério revés para as milícias neonazistas. No entanto, milhares de combatentes neonazistas se encontram ainda em atividade no leste da Ucrânia.

Para Ritter, o objetivo só poderá ser alcançado com a  remoção de Zelensky da presidência, e sua substituição por uma liderança que esteja comprometida com a efetiva  erradicação da ideologia neonazista na Ucrânia.

Desmilitarização. Conforme relato de Jacques Baud, a desmilitarização seria alcançada através dos seguintes objetivos: destruição no solo da aviação, dos sistemas de defesa aérea e dos meios de reconhecimento; neutralização das estruturas de comando e inteligência, bem como das principais rotas logísticas no interior do território; cerco ao exército ucraniano concentrado no sudeste do país. 

No entanto, com a ajuda militar de dezenas de bilhões de dólares a Kiev pelos EUA e outros países da OTAN torna-se bem mais complicado para a Rússia conseguir completar os objetivos de desnazificar e desmilitarizar a Ucrânia.

Putin precisará avaliar muito bem se poderá continuar a perseguir estes objetivos, bem como a não filiação da Ucrânia à OTAN, fortalecida ainda mais com o ingresso esperado da Suécia e Finlândia, sendo que este último apresenta extensa fronteira comum com a Rússia. Para obter sucesso, a Rússia precisaria expandir as operações militares em regiões não ocupadas nas fases 1 e 2, avalia Ritter. Aos Estados Unidos interessam estender a duração do conflito, para desgastar ainda mais a economia russa.  

No entanto, importantes especialistas militares das Forças Armadas norte-americanas já consideram que, para a Ucrânia, é melhor negociar agora um acordo de paz com a Rússia, do que esperar mais tempo e entrar enfraquecida nas negociações. Em um painel organizado pelo think tank CFR, Council for Foreign Relations no final de maio, essa foi a opinião expressa pelo tenente-general Stephen Twitty, ex-comandante do Primeiro Exército dos EUA e ex-vice-comandante (2018-2020) do Comando Europeu dos EUA. Para Twitty, os ucranianos nunca conseguirão derrotar os russos: apesar da paridade numérica de ambas as tropas (nos cenários de operações), a Rússia tem um poder de combate bem maior que o dos ucranianos.

Ao participar de um seminário na Finlândia em 12 de junho, o secretário geral da OTAN, Jens Stoltemberg, também se mostrou realista sobre o encaminhamento da guerra, antecipando que a Ucrânia precisaria fazer concessões, ao declarar: “O apoio militar (a Kiev) é um caminho para fortalecer os ucranianos na mesa de negociações…(mas) a questão é: qual o preço a pagar pela paz? Quanto território? Quanta independência? Quanta soberania?”  

Para o presidente norte-americano Joe Biden, a capitulação da Ucrânia antes das eleições de novembro representaria um forte revés político, que seria explorado politicamente pelos republicanos. Biden parece estar mais interessado em não prejudicar as chances do Partido Democrata do que nas mortes e sofrimento do povo ucraniano com o prolongamento da guerra que financia.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.