Mídia dos EUA ataca Biden em defesa das guerras do Pentágono

Por Ruben Rosenthal

A mídia procurou encobrir a forma desastrosa como os militares conduziram a guerra do Afeganistão desde o início.

People climb atop a plane at Kabul airport on Aug. 16. Thousands of people mobbed the airport trying to flee as Afghanistan fell to the Taliban. WAKIL KOHSAR/AFP VIA GETTY IMAGES
Milhares de afegãos invadem a pista do aeroporto de Cabul para fugir do talibã; algumas pessoas sobem no topo do avião,16 de agosto \ Foto: Wakil Kohsar/AFP via Getty Images

 

O presidente Biden ficou sob fogo cerrado da mídia dos EUA e do Ocidente por ter retirado as tropas do Afeganistão. Os pretextos para a avalanche de críticas foram as cenas no aeroporto de Cabul e a impossibilidade da retirada de todos os afegãos que se sentem ameaçados pelos talibãs, principalmente aqueles que  trabalharam com as forças de ocupação.

Mas por de trás deste pretenso interesse humanitário está um total alinhamento com teses militaristas. New York Times, Washington Post e tantos outros veículos de mídia se tornaram verdadeiros porta-vozes do Pentágono. Em parte, esta cooptação se deu através de think tanks financiados pelo complexo bélico.

Biden e as guerras sem fim

Joe Biden prometera em 2019 que, se chegasse à Casa Branca, daria fim às “guerras sem fim” no Afeganistão e Oriente Médio, e terminaria o envolvimento na guerra civil do Iêmen. Eleito presidente, ele pretende retomar a política de Obama de mudar o foco estratégico dos EUA para a região Ásia-Pacífico, para contenção da China e da Rússia.

Mas talvez ele só venha a cumprir parte do compromisso que assumira de remover todas as tropas envolvidas diretamente em combates.

Iraque. As 2.500 tropas de combate norte-americanas deixarão o país até o final do ano. Os Estados Unidos passarão a fornecer “suporte em treinamento e aconselhamento”, assim como apoio aéreo e capacitação de vigilância e inteligência na luta contra o Estado Islâmico. O número de militares poderá ser mantido.

Síria. Biden não pretende retirar a totalidade das tropas estacionadas na Síria. Deverão permanecer cerca de 900 combatentes, incluindo os Green Berets — forças especiais do exército, especializadas em guerras não-convencionais. A presença das tropas dos EUA impede que o governo sírio possa ter acesso aos campos de petróleo e a recursos de agricultura no nordeste do país.

No entanto, o Irã não deverá aliviar a pressão nas tropas estrangeiras que permanecerem no Iraque e Síria. Em apenas uma semana, no começo de julho, ocorreram seis ataques com morteiros e drones contra tropas e diplomatas dos EUA nos dois países. Os ataques teriam partido de milícias apoiadas pelo Irã.

Soldados norte-americanos da infantaria atendem colega ferido
Cena que não deverá se repetir no Afeganistão: soldados norte-americanos prestam assistência à colega ferido, setembro 2010, Kondoz, norte do país \ Foto: Damon Winter/ NYT

Afeganistão. Biden não cumpriu o exíguo prazo que herdara do acordo que Trump fizera com o Talibã, de remoção de todas as tropas  da OTAN até 1 de maio de 2021. Ao invés, a retirada foi iniciada em 1 de maio, com a conclusão sendo então anunciada para 11 de setembro. Os eventos que se seguiram já fazem parte da História.

As cenas caóticas no aeroporto internacional de Cabul trouxeram ecos da retirada norte-americana do Vietnã, em 1975. O atentado suicida junto ao portão do aeroporto — quando morreram 182 pessoas, incluindo 13 militares norte-americanos ­— só fez aumentar as críticas ao governo Biden na mídia.

Fabricando o consenso da mídia contra a retirada de tropas

No passado. Em novembro de 2010, durante o governo de Obama, o jornalista Mark Katz escrevia para o Middle East Policy Council sobre as implicações da saída das tropas norte-americanas do Iraque — que já havia se iniciado — e do Afeganistão.

Para Katz, caso os Estados Unidos saíssem do Iraque e do Afeganistão, seria gerada a percepção de que o poder e a influência norte-americana no Oriente Médio entrariam em declínio. Os aliados regionais poderiam buscar esquemas de segurança alternativos, e com isso reduzir ainda mais influência dos EUA. Os adversários globais ficariam então incentivados a tentar obter a saída das tropas norte-americanas de outros países.

No presente. Artigo de Eric Levitz no New York Magazine, em 25 de agosto, considera que a mídia fabricou o consenso que atribuiu a Biden a maior parte da responsabilidade por uma situação que ele herdara das políticas de seus antecessores. Levitz argumenta que é impossível saber se uma retirada mais lenta das tropas teria evitado o clima caótico que ocorreu no aeroporto de Cabul.

Para o premiado jornalista Gareth Porter, os recentes ataques da mídia norte-americana ao presidente Biden  demonstram que ela é porta-voz do Pentágono e da liderança militar. Ao atribuir a Biden toda a responsabilidade pelas falhas que ocorreram na evacuação de afegãos, a mídia procurou encobrir a forma desastrosa como os militares conduziram a guerra do Afeganistão desde o início, avalia Porter.

A cooptação de jornalistas que atuam em política externa e segurança nacional envolve muitas vezes uma triangulação com think tanks (institutos de análise política) financiados pelo complexo bélico, sendo o principal destes o CNAS, Center for a New American Security (ver artigo no blogue Chacoalhando).

Assim como Levitz, Gareth Porter questiona a premissa que a operação de resgatar dezenas de milhares de afegãos que haviam colaborado com as forças de ocupação poderia ter sido conduzida de forma eficiente, sem gerar pânico.

A campanha de lobby do Pentágono contra a política de Biden se iniciou em abril, quando o presidente recusou-se a manter tropas de forma permanente no Afeganistão, rejeitando o ponto de vista dos generais.  A partir daí, entrou em cena a aliança entre complexo bélico, think tanks e mídia cooptada.

O jornalista David Sanger, do The New York Times, foi bolsista em 2008 do programa de residência do CNAS para escritores. Ele costuma difundir desinformação em seus artigos, em temas como o desenvolvimento de armas atômicas pelo Irã, ataques cibernéticos pela Rússia, como também sobre o vírus Sars-CoV-2 ter se originado no laboratório chinês de Wuhan.

As vésperas da tomada de Cabul pelo Talibã, Sanger e sua colega Helene Cooper retomaram a notícia que em abril o general Mark A. Milley, Chefe do Estado-Maior Conjunto, tentara convencer Biden a manter um efetivo de 3.000 a 4.500 combatentes no país.

Os jornalistas citaram “previsões da inteligência de que em 2 ou 3 anos a Al-Qaeda teria novamente uma base no Afeganistão”. No entanto, a política do Talibã sempre foi de se opor a que a Al-Qaeda fizesse uso do território afegão para planejar ataques terroristas. Os atentados do 11 de setembro foram planejados na Alemanha, lembra Porter.

A dupla Sanger e Cooper também buscou declarações do general aposentado David Petraeus, ex-comandante no Afeganistão no período 2010-2011. Desde então ele vinha liderando um grupo de ex-comandantes e diplomatas que faziam lobby pela manutenção de tropas no país.

Petraeus asseverou que Biden falhou ao não reconhecer a necessidade de garantir a manutenção dos vôos da força aérea afegã. O mesmo ponto de vista foi expresso por Richard Fontaine, CEO do CNAS. Porter contesta este posicionamento, salientando que sem um número suficiente de tropas dos EUA e OTAN no solo seria impossível manter a segurança dos empreiteiros da força aérea.

Talibãs posam junto a avião Super Tucano capturado
Talibãs posam junto a um avião A-29 Super Tucano capturado. A força aérea afegã dispunha de 26 destes aviões comprados pelos EUA. A maioria foi parar no Uzbequistão (Reprodução).

O massacre midiático sofrido Biden não poderia ter deixado de incluir as declarações de Michèlle Flournoy, co-fundadora do CNAS. Flournoy atuou como vice-secretária de Defesa de Políticas no governo Obama, dando suporte aos comandantes em campo do Pentágono.

Quando Biden assumiu a presidência, Flournoy esperava ser indicada secretária de Defesa, cargo máximo do Departamento de Defesa. Conforme relatado no site Mother Jones, alguns setores progressistas do Partido Democrata se opuseram fortemente a esta indicação.

A rejeição foi por Flournoy ter contribuído para o aumento do envolvimento militar norte-americano no Afeganistão, e pelo apoio à intervenção da OTAN na Líbia, em 2011. Ao final, ela foi preterida em favor da indicação do general Lloyd Austin, ex-comandante das tropas norte-americanas no Iraque.

Em entrevista a Greg Jaffe, do Washington Post (outro jornalista que recebeu bolsa de residência do CNAS), Flournoy atribuiu o fracasso dos EUA no Afeganistão ao empenho excessivo em se tentar introduzir “ideais democráticos, quando a realidade do país é outra”.

Para Gareth Porter, Flournoy omitiu o fato crucial que, desde o começo, a intervenção se baseou em uma aliança dos EUA com facções de milicianos corruptos e assassinos. As milícias foram contratadas para atuar como polícias nas províncias, fornecendo segurança para os comboios que acessavam as bases militares dos EUA e da OTAN.

No entanto, os líderes das milícias (“warlords”) não estavam submetidos ao governo civil de Cabul. Eles e seus comandados agiam como bandidos, roubando e extorquindo a população, sequestrando e estuprando mulheres, moças e meninos — o que foi constatado pela Anistia Internacional desde 2003. Apesar das diversas denúncias encaminhadas, os militares norte-americanos nada fizeram a respeito.

O periódico on-line Foreign Policy também mantém uma posição favorável a intervenções militares pelos EUA. Em relação à saída das tropas do Afeganistão, FP relatou que vários atuais e ex-diplomatas expressaram anonimamente “imensa raiva, choque e amargura pelo colapso do governo que eles passaram décadas apoiando”.

Robin Wright, do New Yorker, expressou frustração pelo “fim desonrável, que enfraquece a posição dos EUA perante o mundo, talvez de forma irreparável…. O Talibã ganhou uma batalha-chave contra a democracia no Afeganistão”….O país certamente se tornará um paraíso para membros da Al-Qaeda”.

Assim, em coro uníssono, os veículos da mídia corporativa e mesmo independente responsabilizaram Biden por tudo o que já ocorreu ou venha a ocorrer como decorrência da retirada das tropas.

Resta ver se, em substituição ao engajamento direto de tropas norte-americanas em combates, Biden optará por terceirizar as guerras, empregando tropas de outros países, mercenários ou mesmo facções terroristas. O que não seria novidade.

Crise Humanitária no Afeganistão

Os preços de alimentos e de combustíveis dispararam no Afeganistão, que atravessa um período de seca, fazendo com que o país precise de ajuda humanitária, segundo a ONU.

Displaced Afghans who have fled the advancing Taliban reach out for aid at a camp in Kabul, Afghanistan. Photograph: Paula Bronstein/Getty Images
Afegãos pedem ajuda humanitária em um campo de Cabul, Afeganistão, agosto 2021 \ Foto: Paula Bronstein/Getty Images

Como forma de usar o sofrimento do povo afegão para pressionar o governo Talibã, o governo Biden não pretende liberar cerca de 10 bilhões de dólares em ouro, investimentos e reservas que estão custodiados nos Estados Unidos. A falta de liquidez financeira pode levar ao colapso da economia afegã.

O Departamento do Tesouro norte-americano declarou à agência Reuters que não irá aliviar as sanções sobre o governo Talibã, ou as restrições que impedem o acesso ao Fundo Monetário Internacional. Assim, mais um povo fica refém do controle que os Estados Unidos exerce no sistema financeiro.

Segundo relato no The Guardian, na conferência realizada em 13 de setembro pela ONU em Genebra para tratar da crise humanitária, o governo Talibã assegurou que as agências de ajuda poderão operar de forma independente, em segurança, e contratar mulheres.

Concluindo. A saída dos Estados Unidos do Afeganistão gerou um vácuo de poder que abre caminho para um possível aumento da influência do Paquistão, China, Irã e Rússia. No Oriente Médio, novos alinhamentos dos atores regionais também irão alterar a geopolítica pelos próximos anos.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Indústria bélica influencia a política externa do governo Biden

Por Ruben Rosenthal

Os gastos com armamentos apenas fortalecem a continuidade de guerras e novas intervenções militares. Uma aliança profana une think tanks, complexo bélico e imprensa.  

Soldados norte-americanos em avião de transporte chegam a Mazar-i-Sharif, Afeganistão, abril 2010
Biden dará fim às guerras infindáveis? Chegada de tropas ao Afeganistão, 2010 \ Foto: Damon Winter/The New York Times

Nos Estados Unidos é recorrente o envolvimento promíscuo dos institutos de análise política, conhecidos como think tanks, com a indústria bélica, órgãos do governo, jornalistas e governos estrangeiros.

Vários indicados por Biden para posições relevantes na administração tiveram ligações estreitas com o think tank CNAS, Centro para uma Nova Segurança Americana, que tem um histórico de apoiar as políticas belicistas do Pentágono.

Embora Biden tivesse prometido em 2019 que se chegasse à Casa Branca daria fim às “guerras infindáveis”, as novas escolhas de integrantes para os cargos de política externa e de segurança parecem sugerir o contrário. A retirada das tropas do Afeganistão pode ter sido uma exceção, que talvez ele não pretenda repetir no Iraque e na Síria.

Ou então, ao invés do engajamento direto de tropas norte-americanas, talvez Biden venha a terceirizar as guerras dos Estados Unidos, empregando tropas de outros países ou de facções terroristas (proxy wars). O que não seria novidade.

A volta da bolha assassina

O filme de 1958 “The blob”, que recebeu no Brasil o título de “A bolha assassina”, foi estrelado por Steve McQueen, então com 28 anos. No filme, uma entidade alienígena amorfa e gelatinosa chegou ao planeta Terra presa em um meteorito.

The revenge of the blob
A volta da bolha assassina \ cartaz do filme The Blob, 1958, Paramount

O setor tradicionalista do establishment de relações exteriores foi apelidado de “blob” pelo assessor de Barack Obama, Ben Rhodes, em 2016. Para Rhodes, Hillary Clinton (então secretária de Estado), bem como outros belicistas de ambos os partidos que apoiavam a guerra no Iraque e no Afeganistão faziam parte da bolha.

Tanto Barack Obama como Donald Trump procuraram manter uma certa distância dos tradicionalistas, o que não impediu a forte influência de Hillary Clinton no governo Obama, e de John Bolton na administração Trump.

Quando o candidato vitorioso Joe Biden começou a formar, em dezembro de 2020, a equipe sênior que assumiria posições-chave na política externa e na segurança, ele privilegiou a elite linha-dura do establishment, os chamados falcões da política. Para o  site Vox, foi a “vingança da bolha”.

Para o cargo de conselheiro de segurança nacional, Biden chamou Jake Sullivan, que já fora seu conselheiro de segurança, quando vice-presidente na gestão de Obama. Sullivan atuou como membro (fellow) sênior junto ao Carnegie Endowment for International Peace.

Os doadores do Carnegie incluem as empresas bélicas Boeing e Northrop Grumman, a Marinha, a Força Aérea e a agência de inteligência da defesa, segundo relatório de outubro de 2020 do Centro para Política Internacional (CIP, na sigla em inglês).

Para o Departamento de Estado, o presidente convocou Antony Blinken, que o acompanha desde 2002. No segundo governo Obama, Blinken passara a ser o número 2 no Departamento de Estado.

Segundo o site Politico, em 2017 o atual secretário de estado formou com Michèle Flournoy, Avril Haines e outros membros da administração Obama, a empresa de consultoria WestExec Advisors.

Muitos dos funcionários da empresa são membros do Partido Democrata que ocuparam posições na segurança nacional e política externa.  A WestExec Advisors tem em seu portfólio de clientes corporações do setor bélico, como a Boeing e a firma israelense Windward, de tecnologia militar.

Think tanks e a indústria bélica

Com frequência, os think tanks não são transparentes sobre a origem dos fundos que recebem. Desta forma, relatórios favoráveis aos interesses dos doadores são produzidos pelos pesquisadores dos institutos, sem que seja mencionada a existência de possíveis conflitos de interesses nos pareceres.

O relatório produzido pelo CIP analisou o financiamento pelo governo norte-americano e por fornecedores da defesa aos 50 maiores think tanks dos EUA. Os principais recipientes destes financiamentos foram a Corporação RAND, CNAS, e New America. Os setores do governo que mais contribuíram foram a Secretaria de Defesa, a Força Aérea, o Exército, o Departamento de Segurança Interna, e o Departamento de Estado. As empresas fornecedoras da Defesa que fizeram as maiores doações foram a Northrop Grumman, Raytheon, Boeing, Lockheed Martin e Airbus.

Outros institutos também receberam seu quinhão. O Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) construiu sua sede de 1.400 metros quadrados em Washington com fundos recebidos de empresas do setor bélico, como a Lockheed, Boeing, Rayheon, de gigantes do setor farmacêutico, como a Procter & Gamble, de petrolíferas como a Chevron, e do Sultão de Omã.

Lockheed Martin’s latest Indago tethered variant is ready for intelligence at the battlefield
Drone Indago 3, para vigilância e inteligência \ cortesia Lockheed Martin

Conflitos de interesses na administração Biden

O relatório do “projeto porta-giratória” (revolving door project), do Centro para Pesquisa Econômica e Política (CEPR, na sigla em inglês), revelou que pelo menos 16 dos especialistas indicados por Biden para cargos relevantes nas áreas de segurança nacional e de relações exteriores, já exerceram funções na estrutura do think tank CNAS.

Para a Diretoria Nacional de Inteligência, a qual se subordinam 17 agências de inteligência, foi indicada Avril Haines. Haines já atuara como a número 2 da CIA na administração Obama, quando o programa de assassinatos por drones causou a morte de centenas de civis. Haines também teria acobertado os envolvidos no programa de torturas que decorreu do 11 de setembro.

Outra indicação de um integrante com vínculos ao CNAS foi a de Victoria Nuland para a sub-Secretaria de Assuntos Políticos, o terceiro cargo em importância do Departamento de Estado. Com seu forte posicionamento anti-Rússia, Nuland defendera anteriormente a presença de bases permanentes da OTAN próximas à fronteira oriental do Tratado.

Os setores progressistas conseguiram  evitar a indicação de Michèle Flournoy para o Departamento de Defesa, por seu apoio anterior à guerra do Afeganistão e à intervenção na Líbia. Flournoy foi co-fundadora do CNAS em 2007. Ao final, o cargo máximo da Defesa ficou para o general Lloyd Austin, que chegou a comandar as tropas norte-americanas no Iraque.

Outros indicados para posições relevantes na administração Biden, que tinham vínculos com o CNAS, foram David Cohen, que assumiu como vice-diretor da CIA, Colin Kahl, que ficou como sub-secretário de Defesa, e Susan Rice, como diretora do Conselho de Política Doméstica.

Doadores do CNAS

No site do CNAS estão indicadas as doações recebidas no período outubro 2019-setembro 2020. As maiores contribuições são provenientes do setor de defesa, aí se incluindo a Northrop Grumman Corporation, o Departamento de Estado e o de Defesa.

Elevadas contribuições foram também recebidas do Bank of America; de empresas do setor de informática, como a Google e Microsoft; e de instituições ligadas a governos de outros países, como Japão, Coréia, Taiwan e Canadá.

O relatório do “revolving door project apresentou o estudo de cinco casos em que o CNAS promoveu os interesses de seus doadores, sem a devida transparência: apoio a fornecedores de material bélico para as Forças Armadas;  apoio a estratégias no Afeganistão defendidas por oficiais das FAs com vínculos ao CNAS; apoio à embaixada dos Emirados Árabes Unidos, aliviando regras de exportação de drones de uso militar; recomendação de políticas para as relações EUA-China que beneficiassem doadores do think tank; defesa da compra de jatos de guerra da Northrop Grumman.

New B-21 stealth bomber aircraft, Northrop Grumman
Novo bombardeiro B-21 Raider, invisível ao radar / Arte gráfica: cortesia Northrop Grumman

Em relação ao quinto item, consta no relatório que, em 2018, o CNAS enalteceu o bombardeiro invisível B-21 Raider (dados técnicos) produzido pela  Northrop Grumman, defendendo a aquisição de 50 a 75 unidades, em adição as 100 que já haviam sido adquiridas. Coincidentemente, pouco tempo depois, a empresa bélica doou ao CNAS uma quantia de valor não inferior a 500 mil dólares (site do CNAS).

O relatório do revolving door project também ressaltou que diversos doadores –  indivíduos ou corporações – se encontram representados no quadro de conselheiros do CNAS, chegando a compor 70% dos assentos. Várias destes doadores têm vínculos diretos com empresas do setor de defesa. Embora o conselho não exerça governança, os conselheiros podem encontrar formas de defender seus interesses particulares junto à diretoria do think tank.

A promiscuidade entre think tanks e governos estrangeiros

Denúncias envolvendo ligações suspeitas entre think tanks e governos estrangeiros não constituem novidade. Em 2014, artigo no The New York Times já alertara que potências estrangeiras compravam influência através de think tanks. Segundo o artigo, mais de 12 institutos de análises políticas em Washington haviam recebido doações de governos estrangeiros.

Alguns acadêmicos destes institutos chegaram a relatar que sofreram pressões internas para produzirem relatórios que favorecessem os financiadores das pesquisas, de forma a induzir autoridades norte-americanas a adotar determinadas políticas sugeridas.

Para o CEPR é preciso não esquecer que os governos estrangeiros que financiam think tanks norte-americanos são aliados dos Estados Unidos. Portanto, muitas vezes os interesses desses países não são necessariamente considerados antagônicos aos dos EUA.

Mas não é sempre assim. Donald Trump vetou o acordo de livre comércio da Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês) no primeiro dia de seu governo. Conforme citado no artigo do NYT, durante a gestão de Barack Obama, o Japão concedera fundos ao CSIS para promover o TPP.

A promiscuidade entre think tanks e jornalistas

O jornalista Dan Cohen alerta em artigo no The Grayzone que jornalistas dos principais veículos da mídia norte-americana, que atuam em política externa e segurança nacional, têm ligações com o CNAS. Estes jornalistas provavelmente recebem benesses através dos financiamentos que abastecem o CNAS.

Cohen lembra que o envolvimento indevido entre jornalistas e o governo dos EUA é anterior à fundação do CNAS em 2007. As reportagens do jornalista David Sanger – atual correspondente-chefe em Washington do NYT – sobre a existência de armas de destruição de massa no Iraque ocorreram ainda no governo do presidente George W Bush.

Em 2008, Sanger fez parte do programa de residência do CNAS. O jornalista prosseguiu difundindo desinformação com seus artigos, em temas como o desenvolvimento de armas atômicas pelo Irã, ataques cibernéticos pela Rússia, como também sobre o vírus Sars-CoV-2 ter se originado no laboratório chinês de Wuhan.

No site do CNAS são citados como participantes programa de residência, quatro jornalistas do NYT, quatro do Washington Post, além de um jornalista do site Foreign Policy (Política Externa). Dan Cohen dá alguns exemplos da desinformação que estes jornalistas contribuíram para propagar.

Eric Schmitt, do NYT, difundiu estórias de hacking pela Rússia; Michael Gordon (ex-NYT e agora no Wall Street Journal) insistiu durante meses em propagar notícias sobre a origem do coronavírus no laboratório de Wuhan; Greg Jaffe, do Washington Post, escreveu sobre a retirada de tropas do Afeganistão; Thomas Ricks, também do Washington Post, comparou Putin a Bin Laden. Além das histórias de Sanger, é claro.

Concluindo. Os gastos com armamentos apenas fortalecem a continuidade de guerras e novas intervenções militares. Uma aliança profana une think tanks, complexo bélico e imprensa.  Enquanto isso,  a população norte-americana anseia por um sistema universal de saúde.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

 

Tretas dividem a “esquerda” norte-americana

Por Ruben Rosenthal

A esquerda fake não ataca as estruturas reais de poder por receio de sofrer represálias. Mas tomou para alvos de ataques os contestadores destas estruturas.

Cenk Uygur and Ana Kasparian accuse journalist Aaron Maté of being “paid by the Russians” and working for “disgusting dictators”, May 2021
Cenk Uygur e Ana Kasparian acusam o jornalista Aaron Maté de ser pago pelos russos e estar a serviço de ditadores \ Programa do TYT, 26 de maio, 2021

Uma série de contendas dentro do chamado campo progressista vem se proliferando nas mídias sociais dos Estados Unidos, envolvendo políticos, jornalistas e youtubers. Ao invés do debate ideias, recorre-se cada vez mais ao uso de táticas sujas.

Acusações de assédio sexual ou de conluio com países inimigos dos EUA são utilizadas, mesmo sem qualquer comprovação ou mínima existência de evidências.

Embora o campo assumidamente pró-corporações dentro do Partido Democrata (PD) possa estar se beneficiando do atrito entre os “progressistas”, as tretas estão servindo para melhor expor as verdadeiras posições políticas de ícones da esquerda.

Os movimentos de base precisarão avaliar em quem podem confiar no futuro. Existe o risco, no entanto, de fortalecimento do extremismo de direita, caso o PD não lide com o desamparo de grandes contingentes da população.

A esquerda no Partido Democrata. O ativismo de movimentos engajados na defesa de propostas progressistas possibilitou o avanço da esquerda no Partido Democrata. Em 2018, o comitê de ação política Justice Democrats (Democratas da Justiça) ajudou a eleger Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), Ayanna Pressley, Rashida Tlaib, Ilhan Omar, RO Khana, Raúl Grijalva e Pramila Jayapal.

AOC, Pressley, Omar e Tlaib constituíram o chamado Esquadrão Progressista, que foi acrescido por Jamaal Bowman e Cori Bush nas eleições de 2020. No entanto, uma vez consolidada a hegemonia política do PD no executivo e nas duas casas do legislativo, as ações dos parlamentares progressistas eleitos não vêm correspondendo às expectativas dos movimentos base.

O Esquadrão Progressista
O Esquadrão progressista. A partir da esquerda: Alexandria Ocasio-Cortez, Ayanna Presley, Ilhan Omar e Rachida Tlaib. Conferência de imprensa no Capitólio, julho 2019 \ Foto: Alex Wroblewski/Getty Images

Para os ativistas, chegara a hora do Esquadrão passar da retórica on-line nas mídias sociais, para avançar em causas como o Sistema Universal de Saúde (SUS), salário mínimo de 15 dólares/hora, tratamento humanitário para a questão dos imigrantes e política verde com enfoque social.

No entanto, começou a se evidenciar que alguns ícones da esquerda, tanto no Congresso como na mídia dita progressista, não estavam dispostos a questionar as lideranças do Partido. Aqueles que ousaram fazer questionamentos atraíram para si a ira dos defensores dos interesses pró-corporações.

Aí vieram as tretas, e algumas máscaras progressistas começaram a cair.

As tretas com a esquerda do Partido Democrata 

Em sintonia com os movimentos de base, o comediante e youtuber Jimmy Dore tem sido implacável nas críticas ao Esquadrão Progressista. “Se eles são nossos aliados deveriam estar lutando pelas propostas que dizem defender. Desde a posse em 3 de janeiro, eles são aliados do establishment, [dos financistas] de Wall Street, do complexo militar-industrial, e dos policiais”.

Mas defender a implantação do SUS norte-americano, o Medicare for All, exigiria bater de frente com o novo presidente e sua vice. Joe Biden e Pamela Harris haviam recebido vultosas doações de grandes corporações da área da saúde na campanha eleitoral.

Ainda em novembro de 2020, quando já se configurava a possibilidade do PD vir a dominar o cenário político, Jimmy Dore fez uma provocação bombástica.

Através da campanha #ForceTheVote (Force  a Votação), o comediante desafiou os parlamentares considerados progressistas a colocarem uma condição para apoiar o reencaminhamento da congressista democrata Nancy Pelosi à liderança da Câmara. Pelosi deveria levar à votação em plenário o projeto de lei do Medicare for All, de autoria da deputada Pramila Jayapal.

Mas, ao final, os progressistas nada fizeram para aproveitar a ocasião única que se colocara no início de 2021, “traindo a todos que acreditaram no Esquadrão”, declarou Jimmy. O youtuber tem sido bastante duro em suas críticas a congressistas e jornalistas que se autodenominam de esquerda, mas que não apoiaram colocar o projeto do SUS em votação.

Cai a máscara de Alexandria Ocasio-Cortez. A congressista já foi defensora do Medicare for All,  como mostra o vídeo de 2018 em que ela defende suas prioridades. Mas, após as eleições de 2020, AOC passou a considerar que o projeto de Pramila Jayapal “não teria a menor condição de ser aprovado na Câmara, e por este motivo não deveria ser posto em votação”. Assim, a congressista se posicionou contrariamente aos movimentos de base que a elegeram.

Cai a máscara de Pramila Jayapal. A congressista declarou que colocar em votação o seu próprio projeto de lei do Medicare for All iria “terminar o nosso movimento”. Para Jimmy Dore, “Pramila Jayapal mente, como uma política charlatã. Desta forma, ela consegue fundos e atrai votos daqueles que esperam que ela irá lutar pela aprovação do projeto que encaminhou”.

Cai a máscara de Bernie Sanders. Bernie Sanders é autor da proposta do SUS encaminhada ao Senado, em boa parte semelhante à da deputada Jayapal. Quando da escolha do candidato Democrata às eleições presidenciais de 2020, o Medicare for All foi uma das principais bandeiras de Sanders, a qual ele já defendera anteriormente, na eleição de 2016.

O jornalista da mídia liberal, Mehdi Hasan, questionou Sanders por que ele não fazia uso de sua influência política a favor da  expansão do sistema de saúde e do salário mínimo de 15 dólares/hora, propostas que foram tão defendidas pelos progressistas nas eleições de 2020. Pego de surpresa, Sanders procurou se esquivar o melhor que pode.

Jimmy comentou a entrevista em seu programa, classificando Sanders de mentiroso, e afirmando ainda que “o senador claramente se tornara um instrumento de Joe Biden e do establishment do Partido Democrata, fazendo o trabalho sujo por Biden”.

Chris Hedges, ganhador do Prêmio Pulitzer de jornalismo de 2002, já declarara em 2020 no Jimmy Dore Show que “Sanders não quer pagar o preço de ir contra Nancy Pelosi e Schumer (líder do PD no Senado), que controlam as verbas partidárias vindas das corporações e de Wall Street”. Os pontos relevantes da entrevista foram transcritos em artigo, no item On Voting: Not Biden or Bernie (Votação: Nem Biden Nem Bernie).

Chris Hedges on Jimmy Dore Show
Chris Hedges no Jimmy Dore Show, abril 2020

Deve ser frustrante para os admiradores de Sanders, que chegou a ser considerado como o maior ícone da esquerda no Congresso norte-americano, constatarem que, no ocaso de sua carreira política, o guerreiro perdeu a coragem de defender seus ideais.

As tretas entre jornalistas e youtubers

Os Jovens Turcos. O programa de notícias e comentários políticos no YouTube “The Young Turks” (TYT) tem mais de cinco milhões de inscritos. O perfil do programa é considerado anti-establishment e progressista/liberal. Cenk Uygur é um dos fundadores, sendo também apresentador; Ana Kasparian é produtora e também apresentadora do noticiário.

O nome escolhido para um programa que se considera progressista é no mínimo polêmico. “Os Jovens Turcos” foi um movimento revolucionário que se opôs ao regime absolutista no Império Otomano, mas que foi considerado responsável pela limpeza étnica e genocídio de centenas de milhares de armênios no começo do século 20. Uygur é natural de Istambul, Turquia, e na juventude era um negacionista do genocídio armênio; atualmente ele prefere não opinar mais sobre o assunto. 

A treta entre TYT e Aaron Maté. Jornalista premiado, o canadense Aaron Maté vem vem denunciando a farsa que fora montada por setores da OPAQ, a Organização para a Proibição de Armas Químicas – a mando dos EUA – para incriminar o governo Assad pelo uso de armas químicas na Síria (ver no blogue Chacoalhando). Maté foi inclusive convidado para testemunhar perante o Conselho de Segurança da ONU, em setembro de 2020.

Aaron Maté também contribuiu para expor a farsa do episódio que ficou conhecido como Russiagate. Quando das eleições presidenciais norte-americanas de 2016, a Rússia foi acusada de conluio com Donald Trump por veículos da mídia corporativa e mesmo independente.

A treta entre Maté e os jornalistas de Os Jovens Turcos ocorreu porque o canadense “tirou um sarro” de Cenk Uygur, por este ter afirmado no Twitter que o conflito entre Israel e os palestinos era essencialmente uma questão religiosa, ou da forma posta por Uygur, uma questão [de escolha] de “deuses no céu”.

Centenas ou milhares de críticas a Uygur ocorreram na ocasião, mas a dupla do TYT não perdoou o comentário jocoso do canadense em 25 de maio: “O meu Deus me diz que este é o pior tuíte de todos os tempos”. No dia seguinte, a dupla deu o troco, de forma vil.

Uygur e Ana disseram no programa do TYT de 26 de maio, que “Maté estava a serviço de ditadores desprezíveis”, uma provável alusão ao russo Vladimir Putin e ao presidente sírio Bashar al-Assad. A insinuação decorrera certamente devido às reportagens de Maté sobre os casos do Russiagate e da OPAQ, em que contrariou os interesses dos EUA e da OTAN. 

Ana se referiu a Maté como “aquele cara que nega que crianças sírias foram mortas com ataques químicos. Foda-se, Aaron Maté”, complementou ela de forma agressiva, fazendo um certo gesto com o dedo médio, como pode ser visto na foto que abriu este artigo.

A treta entre TYT e Jimmy Dore. Jimmy Dore chegou a trabalhar por cerca de 10 anos como comentarista convidado com Os Jovens Turcos, até se afastar completamente no começo de 2019, de forma bastante amigável. Nesta ocasião, Jimmy já estava bem estabelecido como youtuber, com seu próprio programa, o Jimmy Dore Show, atualmente com quase 900 mil inscritos.

O posicionamento de Jimmy a favor de se pressionar os congressistas progressistas do PD a defenderem o Medicare for All através da campanha #ForceTheVote gerou algumas arestas com os jornalistas do TYT. Em dezembro de 2020, Uygur chegou a defender que se colocasse pressão nos congressistas democratas para se conseguir aprovar o projeto do Medicare for AllMas poucos dias depois, Ana declarou que não acreditava na boa fé de Jimmy Dore. Para Jimmy, o TYT é uma fraude, pois recebe fundos do establishment e não pode se colocar contra as corporações.

Entretanto, ao se solidarizar com Aaron Maté, na sequência das acusações infames que o TYT fizera contra o canadense, Jimmy Dore atraiu ainda mais a ira de Uygur e Ana. Em entrevista ao canal The Hill, Uygur disparou a metralhadora giratória contra Jimmy, acusando-o de querer destruir o movimento progressista e de fazer o jogo da direita. Aaron Maté foi entrevistado no mesmo programa do The Hill, e comentou os ataques que recebera de Uygur e Ana.  

Em outro ataque vindo do TYT, Jimmy recebeu uma mensagem privada de Ana em que a jornalista fez referência a ter sofrido assédios sexuais da parte dele, quando ambos eram colegas de trabalho no TYT.

Jimmy percebeu vinha chumbo grosso pela frente e, se antecipando, revelou no Jimmy Dore Show, de 12 de julho sua versão do que se passara 7 anos antes. De fato, pouco tempo depois, Uygur e Ana dispararam acusações contra Jimmy no TYT.

Independentemente de quem esteja com a razão, não deixa de causar estranheza que Ana Kasparian tenha mantido um relacionamento aparentemente cordial com Jimmy por 7 anos, para então acusá-lo, logo após o comediante de solidarizar com Maté.

A treta entre TYT e Glenn Greenwald. Ganhador do prêmio Pulitzer de jornalismo de 2014, Glenn recebeu apoio do TYT quando foi acusado pelo governo Bolsonaro de pertencer a uma quadrilha, por ter divulgado mensagens obtidas por hackers, que expunham os delitos da Operação Lavajato.

Mesmo morando no Brasil, Glenn permanece um atento e arguto observador da política norte-americana. Conforme análise do jornalista em artigo de 7 de julho na plataforma Substack, o mais relevante nas polêmicas envolvendo o TYT é o fato de que elas revelam “o caráter tóxico de uma tática destrutiva que se tornou muito comum no discurso liberal, e que começou na campanha presidencial de 2016”.

Na ocasião, a narrativa de que os russos haviam se infiltrado nas instituições norte-americanas para influenciar a política do país foi encampada pelo Partido Democrata, e encontrou amplo eco na mídia corporativa. Durante a campanha presidencial de 2016, Hillary Clinton acusou a candidata dos Verdes, Jill Stein, de apoiar a Rússia. Clinton veio a fazer o mesmo com Tulsi Gabbard, na campanha de 2020.

Agora, também várias mídias ditas progressistas recorrem às mesmas “táticas de levantar insinuações ou acusações falsas de que alguém é um agente pago pelos russos ou que cometeu assédio sexual”, complementou Glenn, em uma clara alusão ao TYT. Em resposta, Uygur recorreu novamente a sua tática predileta, e insinuou que Glenn omite evidências de seu público, questionando o passado jornalístico do ganhador do prêmio Pulitzer.

A esquerda fake não ataca as estruturas reais de poder, por receio de sofrer represálias. Mas tomou para alvos de ataques os contestadores destas estruturas, como Jimmy Dore, Glenn Greenwald e Aaron Maté, dentre outros.

Futuro incerto. Em artigo no Chicago Reader de junho de 2021, o jornalista Leonard Goodman considera que “o colapso do Esquadrão mostra que a mudança não virá de dentro do Partido Democrata. Os dois partidos corporativos que controlam Washington, D.C., estão podres até a raiz. É uma missão tola pensar que podemos fazer os democratas lutarem pelos trabalhadores, enquanto os principais doadores do partido estão lhes ditando para manter o status quo. É hora dos progressistas se afastarem do Partido Democrata e apoiarem um terceiro partido que esteja livre de influência corporativa”.

Mas, por outro lado, o desalento de amplos setores da população com o Partido Democrata poderá alimentar o crescimento de uma direita protofascista, avalia Chris Hedges. Para o jornalista, “graças à inépcia de Trump, o país foi salvo de um golpe de estado, mas a administração Biden poderá abrir o caminho para um fascista competente, como Mike Pompeo (ex-secretário de estado) ou o (senador) Tom Cotton, ligados à direita cristã”.

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Vacina do apartheid: produção da Johnson & Johnson na África vai para a Europa

Por Ruben Rosenthal

A Organização Mundial da Saúde prevê que 47 dos 54 países da África não cumprirão até mesmo a modesta meta de vacinar 10% de seus cidadãos contra a Covid-19 até setembro. Não representa surpresa que líderes africanos falem de “vacina do apartheid”.

A patient receives a Johnson & Johnson Covid vaccine, Hammanskraal, South Africa
Paciente recebe a vacina da Johnson & Johnson contra a Covid-9, Hammanskraal, África do Sul \ Foto: Alet Pretorius/AP

Mais de 32 milhões de doses de vacinas da J&J de dose única produzidas na fábrica da Aspen Pharmacare, África do Sul, já foram exportadas para a Europa. Outras 10 milhões serão exportadas em agosto e setembro.

O país havia encomendado 31 milhões de doses da J&J, mas o contrato impede que seja exercido o direito de impor restrições à exportação da vacina. Com menos de 7% de sua população vacinada, a África do Sul enfrenta atualmente a terceira onda da pandemia, com crise de leitos nos hospitais e falta de oxigênio.

As baixas taxas de vacinação em todo o continente africano levaram o Fundo Monetário Internacional (FMI) a reduzir novamente as perspectivas de recuperação econômica da África.

Neocolonialismo da vacina

Enquanto os governos ocidentais se preparam para administrar doses de reforço, centenas de milhões de pessoas na África ainda estão completamente desprotegidas. Apenas cerca de 1,8% da população adulta do continente africano já foi inteiramente vacinada, em comparação com 50% na Europa e Estados Unidos.

A África do Sul recebeu uma pequena parcela das 31 milhões de doses que encomendou da J&J, o que possibilitou que apenas 2 milhões de vacinas fossem administradas até agora. Por outro lado, foram exportadas mais de 32 milhões que haviam sido envasadas e embaladas na Aspen, conforme relato no The New York Times (NYT).

Segundo alegam os executivos da J&J, parte do atraso decorreu do descarte, por possível contaminação quando da produção em Baltimore, EUA, de milhões de doses da vacina que seriam envasadas na Aspen.

O periódico teve acesso ao contrato confidencial em que a África do Sul concordara em abrir mão do direito de coibir a exportação da vacina. Segundo um porta-voz do ministério da saúde, “a escolha do governo foi entre assinar o contrato ou ficar sem vacinas”. Tanto a J&J como a Pfizer impuseram aos sul-africanos cláusulas de proteção legal mais favoráveis às empresas do que as que normalmente constam nos contratos com  países desenvolvidos.

Já a União Europeia (UE) introduziu controle nas exportações de vacinas, quando os estoques ficaram baixos este ano. Também a Índia suspendeu as exportações do Instituto Serum, quando a pandemia ficou fora de controle. Os EUA puderam garantir seus estoques através da produção em seu próprio território, e pagando preços altos para adquirir a vacina de outros países.

Em artigo de opinião no The Guardian, o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, salientou que a atual situação expressa o chocante  fracasso do Ocidente em honrar sua promessa de distribuição equitativa de vacinas.  Brown revela ainda que soube, por líderes africanos, que cerca de 10 milhões de vacinas da J&J finalizadas na fábrica da Aspen seriam enviadas para a Europa em agosto e setembro, enquanto a África  atravessa sua onda mais letal de infecções por Covid-19.

Ainda segundo Brown, dos 4,7 bilhões de vacinas que foram distribuídas globalmente, mais de 80% deste total foi direcionado para os países mais ricos do G20. Até o momento, 496 milhões de vacinas foram administradas em toda a UE, com uma população de aproximadamente 440 milhões de pessoas. Apenas 77,3 milhões de doses foram administradas na África, que tem uma população de 1,3 bilhão de pessoas. O consórcio de vacinas Covax Facility garantiu 60 milhões de doses até agora.

Em face do fracasso do Ocidente em honrar suas promessas de fornecer fundos para obtenção de  700 milhões de doses para a África até o final do ano, a African Vaccine Acquisition Trust (AVAT) conseguiu superar a resistência da UE, e negociou um acordo com a J&J para o fornecimento de 400 milhões de vacinas de dose única.

Conforme informa Brown em seu artigo, isso só foi possível após a intervenção do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, que ameaçou proibir inteiramente a exportação de vacinas produzidas no país.  Pelo que ficou acordado, a partir de outubro todas as futuras vacinas da J&J produzidas na África poderiam ficar na África.

Uma cúpula especial do G20 para tratar de vacinas deve ser convocada em setembro. Através de financiamento internacional seria acelerado  o desenvolvimento da capacidade de produção de vacinas nos países mais pobres, incluindo a transferência de tecnologia por meio da dispensa temporária de patentes.

Resta conferir se isto irá de fato ocorrer.

Atraso na meta de vacinação na África

Os países do continente africano ainda não receberam a maior parte das doses encomendadas. As vacinas atualmente garantidas não são suficientes para cumprir a meta mais ampla de vacinação na África, definida em 60% dos adultos até meados de 2022. 

Devido à lentidão na entrega de vacinas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que 47 dos 54 países da África não cumprirão até mesmo a modesta meta de vacinar 10% de seus cidadãos até setembro. Não representa surpresa que líderes africanos falem de “vacina do apartheid”.

Conforme relatado no NYT, alguns críticos consideram que o governo da África do Sul teve parte da responsabilidade pelo baixo índice de vacinação. As autoridades do país teriam demorado muito a abrir negociações com as farmacêuticas, que pudessem assegurar as encomendas com antecipação.

Para suprir a atual demanda de vacinas nos países pobres, Brown defende que os líderes do G7 intervenham para garantir que países com excesso de oferta de vacinas supram as necessidades mais imediatas. Por outro lado, a União Africana resolveu abrir negociações com a China, para importar pelo menos 200 milhões de doses.

O FMI e quatro ex-ministros das finanças norte-americanos já propuseram que 50 bilhões de dólares em apoio financeiro fossem fornecidos através do consórcio Covax Facility, bem como a ajuda logística necessária para garantir que as vacinas possam ser administradas com rapidez e segurança, informa Brown.

Como bem salientou o jornal Nexo , o presidente Joe Biden poderá entrar firme na “diplomacia da vacina” para conter o crescimento da influência chinesa na África e em outros países pobres, como parte da disputa hegemônica entre os dois países.

Talvez assim a população do continente africano consiga finalmente obter a tão almejada imunização contra a Covid-19.

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Presidente Lula: interceda pelo defensor de direitos humanos no Reino Unido

Por Ruben Rosenthal

Ativista de direitos humanos e pela independência da Escócia, o ex-embaixador Craig Murray foi condenado a 8 meses de prisão.
Ex-embaixador Craig Murray foi encarcerado em 29 de julho, condenado a 8 meses de prisão. Foto: Guy Smallman/Getty Images

Presidente Lula, o ex-embaixador britânico e ativista de direitos humanos Craig Murray foi sentenciado a 8 meses de encarceramento pela Alta Corte do Judiciário da Escócia, tendo sido negada a possibilidade de que aguarde em liberdade pelo julgamento do recurso feito à Corte Suprema do Reino Unido.

Ele precisa agora da solidariedade ativa daqueles cuja voz possa ser ouvida em Edimburgo e Londres, para que seja libertado antes que sua saúde seja comprometida. Ninguém melhor que você sabe o que é ver negado o direito à liberdade quando se é vítima de perseguição política, sem poder recorrer a todas as instâncias do judiciário.

Craig Murray, ativista pela independência da Escócia, tem um histórico notável na defesa de direitos humanos, não importa o país ou continente. Ele foi uma das pouquíssimas pessoas que conseguiram acesso ao julgamento de Julian Assange, e seus precisos relatos ajudaram a expor a farsa kafkiana da corte britânica.

A acusação contra Murray foi de desacato à Corte, por ele ter denunciado em seus artigos, a falsa acusação de assédio sexual de que fora vítima o ex-primeiro-ministro escocês Alex Salmond (também fervoroso adepto da independência escocesa).  Murray expôs as entranhas da armação, indicando que as denunciantes seriam mulheres do círculo próximo da atual primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon.

Como a legislação não permite revelar os nomes das testemunhas, Murray fez uso de um jogo de palavras, dando algumas pistas nada conclusivas. Instado pela Corte a remover estas informações, Murray se recusou em nome da liberdade de expressão. O ex-embaixador passou a ser ele próprio vítima de lawfare. Surgira a oportunidade de calar sua incômoda voz.

Craig Murray, um dissidente político do Ocidente

Quem acompanhava o noticiário na época em que ainda existia a União Soviética, escutava ou lia sobre os dissidentes políticos que se posicionavam contra as restrições que o regime vigente impunha. Em geral, escritores e artistas, que muitas vezes aproveitavam as oportunidades para fugir para o Ocidente.

Atualmente, a dissidência política está no Ocidente. Como, por exemplo, aquelas pessoas que tomam coragem  de vazar ou divulgar documentos secretos que expõem crimes de guerra, interceptação telefônica e vigilância não autorizada dos cidadãos: Philip Agee, Daniel Ellsberg, Edward Snowden, Chelsea Manning e Julian Assange, apenas para citar alguns. Mas o preço a pagar pode ser bem caro.

Craig Murray não foi processado e preso por ter vazado algum documento específico, e sim por ter se tornado “uma pedra no sapato” para o Reino Unido e para a OTAN.

Breve histórico de um ativo defensor de direitos humanos

Quando embaixador no Uzbequistão, Craig Murray denunciou as frequentes torturas a que o presidente Islam Karimov submetia os opositores, com o beneplácito de seu próprio país, então governado pelo primeiro-ministro Tony Blair. E certamente com o apoio dos EUA, em plena “guerra ao terror” promovida por Bush filho.

Murray foi então demitido do serviço diplomático. A história é contada no livro Diplomacia Suja, publicado no Brasil pela Companhia da Letras, e acessível para download na internet. Melhor para o mundo, pois livre das amarras impostas pelo serviço diplomático, Murray passou a usar seu blog para denunciar as ações agressivas da OTAN. Ele também não se omitiu em criticar a Rússia, China, Irã ou qualquer outro país, sem, no entanto, se deixar levar pelas falsas narrativas propagadas pela mídia corporativa do Ocidente.

Declaração de Nadira, esposa de Craig Murray. 29.07.21

(A íntegra da declaração original pode ser acessada aqui)

Hoje é o dia mais dilacerante para mim. Meu marido, cuja saúde não é adequada para suportar a prisão, deve se entregar para detenção em poucas horas, após a decisão da Suprema Corte do Reino Unido de não ouvir seu recurso.

Estávamos extremamente esperançosos de que a Suprema Corte atendesse ao apelo, [……] dado o quão importante e relevante ele é no contexto da Liberdade de Expressão no Reino Unido. Em vez disso, a Suprema Corte se recusou.

[……] Além disso, a Corte Escocesa descartou totalmente que a saúde fraca de Craig e o seu bem-estar estariam em risco se ele fosse forçado a ir para a prisão, mesmo estando a Corte ciente desta condição através do relatório obrigatório do Serviço Social e dos relatórios médicos.

[……] estou triste e chocada ao saber que ele poderá ser colocado entre criminosos, sem poder levar livros ou ter permissão para escrever, sem a permissão de qualquer entretenimento. Ele está sendo tratado como um criminoso. Isto não é uma punição justa, é uma tentativa deliberada de quebrar o espírito de qualquer um, corajoso o suficiente para fazer uso da liberdade de expressão.

[……] Tendo convivido com Craig por duas décadas, ele sempre fez uso de seu tempo e energia para chamar a atenção para injustiças, se posicionando a favor do que é certo, de forma cuidadosa, consistente e com consideração.

Cresci durante os tempos da União Soviética, no período pós-independência do meu próprio país, o Uzbequistão. Testemunhei e experimentei pessoalmente qual é verdadeiramente o preço da liberdade de expressão. Os opositores “desapareciam”, supostamente “tiravam a própria vida”, ou eram trancafiados em asilos. [……] É terrível ver que Craig está passando pelo mesmo tratamento no Reino Unido, país considerado como respeitador dos “direitos humanos”.

Este é um ataque aos que dizem a verdade. Os textos dele são de um jornalista altamente qualificado, ativista de direitos humanos, ex-reitor da Universidade de Dundee, e ex-embaixador britânico. Para nós, sua família, esta situação é devastadora: agora estou com meu bebê de 5 meses, e tentando encontrar uma boa forma de explicar a sentença de prisão de Craig para seu filho de 12 anos, que está confuso e ansioso.

Para os leitores que estejam preocupados com a perda da liberdade de expressão e igualdade perante a lei, eu peço que demonstrem solidariedade ativa e direta com meu companheiro.

Murray mantém o humor

Em seu último artigo, publicado antes de ser encarcerado, o ex-embaixador escreveu: “A rainha gentilmente pagou por meus jantares por cerca de 20 anos, enquanto eu era um diplomata e embaixador britânico. E agora ela vai pagar pelos meus jantares novamente. Isto é muita gentileza, pois achei que ela tivesse me esquecido.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Tio Sam financia rappers na guerra híbrida contra Cuba

Por Ruben Rosenthal

Agentes financiados pelos EUA associados ao Movimento San Isidro defendiam a intervenção em Cuba meses antes das mídias sociais começarem a criticar o governo cubano de forma massiva.

Patria o CIA
Pátria ou CIA: Músicos do rap Patria Y Vida, Foto editada pelo The Grayzone \ Foto original: Yotuel Romero/Instagram

As cenas de um carro de polícia virado por manifestantes ocorridas no município de 10 de Outubro e coquetéis molotov atirados na polícia, ilustram bem o que foram as amplas manifestações de rua ocorridas em 11 de julho em Cuba (ver vídeo).

Segundo relato da BBC News Mundo, os protestos se iniciaram na cidade de San Antonio de los Baños, sudoeste de Havana, e de lá se espalharam por cerca de 20 vilarejos e cidades de todo o país. O artigo chama atenção para a questão do agravamento da situação econômica na ilha e do aumento das mortes por Covid-19.

Mas os veículos de mídia do Ocidente não mencionam o papel subversivo desempenhado pelos EUA, ao incentivar e financiar a dissidência política de artistas e rappers cubanos, reunidos principalmente no Movimento San Isidro. O rap anticomunista “Patria y Vida” se tornou o hino dos protestos, segundo a revista Rolling Stone.

O slogan do Movimento San Isidro é uma corruptela do lema “Patria o Muerte”, que Fidel Castro usou pela primeira vez no memorial aos trabalhadores das docas de Havana, mortos em 1960 em atentado da CIA.

Os EUA e a estratégia da guerra híbrida

Os EUA sabem tirar proveito dos sentimentos nacionalistas de minorias, e das situações de desavenças internas em países que atravessam uma crise econômica, para então lançarem mão de seu arsenal de táticas de guerra híbrida.

Foi assim, ao incentivarem os movimentos separatistas da etnia Uigur, na China, e dos Tártaros, na Rússia. Bem como ao fomentarem, com sucesso, o afastamento de Dilma Roussef e do PT do poder no Brasil, e das tentativas ainda não materializadas, de promoverem a mudança de regime na Bielorrússia, de Lukashenko, e em Cuba, que busca seu caminho ao socialismo.

É evidente que a estratégia norte-americana precisa encontrar um campo fértil para prosperar. No caso de Cuba, as condições econômicas e políticas estavam postas, até mesmo porque o Departamento de Estado norte-americano deu a sua contribuição para tanto.

Crise econômica

A historiadora brasileira Joana Salém mostra como a precária situação econômica atual, que fermentou a discórdia em Cuba, foi o resultado de três fatores principais: a pandemia da Covid-19, paralisando o turismo e reduzindo o PIB em 11%; o boicote norte-americano, agravado ainda mais com a suspensão por Trump do envio de divisas à ilha pelos familiares residentes nos EUA; e a reforma monetária e cambial promovida pelo governo cubano.

Conforme Salém relata, a reforma denominada de Tarea Ordenamiento eliminou o chamado dólar cubano, tornando o peso cubano a única moeda nacional; foi também criada uma moeda transitória na forma de um cartão, a Moneda Libremente Convertible, com valor de 25 pesos.

Ao mesmo tempo, foram eliminados subsídios a itens de consumo diário, aumentadas as tarifas, e os salários foram quintuplicados. No entanto, as medidas resultaram em descontrole financeiro que afetou negativamente o poder de compra dos cubanos de produtos básicos. A insatisfação da população foi inevitável.

Crise política

Em meio às sérias dificuldades econômicas por que vem passando, o povo cubano sente que suas demandas e insatisfações não são escutadas pelo governo, avalia Salém. Segundo a historiadora, “existe um engessamento ou quebra dos canais de poder popular nas estruturas políticas do socialismo cubano”. Assim, restou aos cubanos expressarem nas ruas sua raiva com o governo. Para os cubanos de esquerda, o governo precisa criar novos mecanismos de decisão e de poder popular, complementa ela.

Anti-government protesters gather at the Maximo Gomez monument in Havana, Cuba, Sunday, July 11, 2021. Hundreds of demonstrators took to the streets in several cities in Cuba to protest against ongoing food shortages and high prices of foodstuffs. © Eliana Aponte/AP
Manifestantes contra o governo cubano reunidos no monumento Maximo Gomez, em Havana, Cuba, 11 de julho de 2021 \ Foto: Eliana Aponte/AP

No entanto, os protestos de julho foram fomentados através de ações de entidades norte-americanas tradicionalmente envolvidas na desestabilização política de governos que não seguem a cartilha de Washington. O imperialismo norte-americano procurará canalizar ainda mais o sentimento que resultou na revolta que se espalhou pela ilha em 11 de julho, para acirrar a crise política visando a mudança de regime.

Os principais setores dos EUA que financiam e incentivam as ações de desestabilização em outros países são em geral os mesmos. A USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) e a NED (Fundação Nacional para Democracia). Um das entidades que recebe financiamento da NED é a Atlas Network, que atuou na desestabilização do governo Roussef no Brasil, através de sua cria, o MBL de Kim Kataguiri “et caterva“.

Contrarrevolução em Cuba: EUA financiam a dissidência cultural e artística

Conforme relatado pelo jornalista Max Blumenthal no The Grayzone (em espanhol, em inglês), na última década os EUA utilizaram milhões de dólares para seduzir rappers, músicos, artistas e jornalistas cubanos. O relato que se segue contém extratos do extenso e detalhado artigo de Blumenthal.

Em 2009, um artigo no Journal of Democracy, órgão noticioso da NED, esboçou um plano ambicioso para unir e mobilizar contra “o regime altamente repressivo” de Cuba, os despossuídos, os jovens desempregados, os que ficaram à margem do sistema, atraídos para as drogas, crime e prostituição.

A estratégia recomendada pelos autores do artigo, Carl Gershman e Orlando Gutierrez-Boronat, era que estes grupos não cooperassem com as instituições cubanas. Gershman é fundador e diretor da NED, enquanto Boronat – cubano de nascimento – é secretário geral da USAID, e fervoroso defensor da invasão de Cuba pelos EUA. Boronat foi recebido por Jair Bolsonaro, poucos dias antes da posse deste na presidência do Brasil.

No mesmo ano em que o influente artigo de Gershman e Gutierrez foi publicado, Washington adotou uma audaciosa operação secreta baseada na estratégia sugerida. A USAID iniciou um programa para desencadear um movimento de jovens contra o governo de Cuba, cultivando e promovendo artistas locais de hip-hop.

Devido à sua longa história como uma frente da CIA, a USAID terceirizou a operação para a Creative Associates International, uma empresa com sede em Washington DC, com seu próprio histórico de ações secretas. A empresa enviou a Cuba o sérvio Rajko Bozic, que pertencera ao grupo Otpor! (resistência, em croata), apoiado pela CIA. O grupo ajudara a afastar do poder o líder nacionalista da Sérvia, Slobodan Milosevic.

Posando como um promotor musical, Bozic se aproximou de um grupo de rap cubano chamado Los Aldeanos, que era conhecido por seu hino anti-governo, “Rap is War” (Rap é Guerra). O agente sérvio não revelou que trabalhava para a CIA, alegando ser um profissional de marketing. A inteligência cubana descobriu contratos ligando Bozic à USAID, e expôs a operação.

Conforme publicado no insuspeito jornal britânico Daily Mail, em 2014, a USAID foi novamente exposta por um vazamento que revelou que a agência contratara a Creative Associates para organizar uma série de falsas oficinas de prevenção do HIV, que se tratavam, na verdade, de seminários de recrutamento político.

Na mesma época, o então presidente Barack Obama apresentou seu plano para normalizar as relações com o governo de Cuba, condicionado a que Cuba ampliasse o acesso à internet. Talvez um dia o ex-presidente revele se foi uma armadilha arquitetada para abrir as portas para a interferência norte-americana na ilha, o “cavalo de Tróia” digital.

Expansão da Internet abre as portas para infiltração dos EUA

A rede de internet 3G chegou a Cuba em 2018, permitindo que jovens cubanos acessassem mídias sociais como Facebook e YouTube em seus telefones celulares. A NED e a USAID exploraram a abertura para construir um potente aparato de mídia on-line anti-governo. Novos veículos de viés tóxico, como CubaNet, Cibercuba e ADN Cuba, propagaram acusações ao regime, bem como ofensas ao presidente cubano, Miguel Diaz-Canel.

Para Ted Henken, um acadêmico dos EUA e autor de “A Revolução Digital de Cuba”, os líderes cubanos calcularam mal, não percebendo que [o acesso expandido à internet] rapidamente se voltaria contra eles.

Ainda em 2018, a NED destinou cerca de US$ 500.000 para o recrutamento e treinamento de jornalistas antigoverno, e para estabelecer novos meios de comunicação. Outra subvenção da NED encaminhou fundos para “promover a inclusão de populações marginalizadas na sociedade cubana e fortalecer uma rede de parceiros na ilha”, implicando que seria direcionada aos afro-cubanos.

A NED deu muita ênfase à infiltração na cena hip-hop de Cuba. Também em 2018, a Cuban Soul Foundation recebeu US$ 80.000 para “capacitar artistas independentes a produzir, executar e expor seus trabalhos em eventos comunitários sem censura”. Uma ONG com sede na Colômbia, chamada Fundación Cartel Urbano, recebeu US$ 70.000 para “capacitar artistas cubanos de hip-hop como líderes na sociedade”.

A propaganda antigoverno e a infiltração dos EUA no cenário cultural de Cuba que acompanhou a expansão da internet, provocaram uma forte reação da liderança do país. O governo se deu conta, tardiamente, que nunca deveria ter confiado em Obama, avalia a jornalista cubana Cristina Escobar, conforme relato no The Grayzone.

Poucas horas depois de tomar posse, em abril de 2018, Diaz-Canel propôs o Decreto 349. A nova medida passou a exigir que todos os artistas, músicos e artistas obtenham aprovação prévia do Ministério da Cultura antes de divulgar seus trabalhos.

Rapidamente, um coletivo de artistas e músicos se mobilizou para protestar contra o decreto. O grupo adotou o nome de Movimento San Isidro, nome do bairro de Havana Velha onde vivem vários de seus membros. O novo movimento se apresentou diretamente aos influenciadores culturais do Norte Global como um coletivo diversificado de criadores visuais e rappers independentes, lutando por liberdade artística.

A NED e a USAID continuaram a aprofundar a influência norte-americana em Cuba. A ONG Instituto para Relatos de Guerra e Paz (IWPR, na sigla em inglês), recebeu US$ 145.230 da NED em 2020 para “fortalecer a colaboração entre jornalistas independentes cubanos”, e treiná-los nas mídias sociais.  Entre os beneficiários inclui-se El Estornudo, que também foi financiado pela Open Society, de George Soros, para criticar a resposta do governo cubano à Covid-19.

Outro veículo antigoverno que opera sob os auspícios da IWPR é Tremenda Nota, um site com temática LGBTQ que acusa rotineiramente o governo cubano de homofobia e transfobia, mesmo tendo a administração Diaz-Canel atuado no sentido de legalizar o casamento gay, aberto o exército para soldados gays e iniciado eventos oficiais do orgulho, relata o The Grayzone.

Em 6 de novembro de 2020, um policial apareceu na casa de Denis Solis, um rapper afiliado ao Movimento. Solis usou a câmera do celular para transmitir ao vivo para o Facebook, os insultos antigays que dirigiu ao policial. A sentença de 8 meses de prisão que Solis recebeu por “desacato” gerou a faísca para a greve de fome de novembro de 2020, que levou o San Isidro ao palco global.

Luis Manuel Otero, coordenador do Movimento San Isidro, em atos de desrespeito à bandeira de Cuba
Luis Manuel Otero, coordenador do Movimento San Isidro, em atos de desrespeito à bandeira de Cuba

A greve foi realizada em Havana Velha, na casa do coordenador do Movimento, Luis Manuel Otero Alcántara. Artista afro-cubano, Otero atraiu a ira do governo ao desrespeitar a bandeira cubana, inclusive enrolando-a em torno de seu torso nu, sentado no vaso sanitário. Em outra exibição provocativa, Otero reuniu crianças para correr pelo bairro, agitando uma bandeira americana gigante, o que desencadeou uma resposta policial imediata, e sua própria detenção por 4 dias.

A visita ao local da greve de fome pelo jornalista e reconhecido autor literário cubano, Carlos Manuel Álvarez, ajudou a galvanizar o interesse da mídia internacional. Vindo das fileiras da elite educada de Cuba, Álvarez logo encontrou espaço na seção de opinião do The New York Times, para comercializar San Isidro para um público liberal nos EUA.

greve de fome de membros do Movimento San Isidro
Jornalista Carlos Manuel Álvarez (centro) em solidariedade à greve de fome de Luis Miguel Otero (à direita) e do rapper Maykel Osorbo (à esquerda), novembro de 2020.

Em 7 de novembro de 2020, um grupo de artistas começou um sit-in do lado de fora do Ministério da Cultura. Boa parte deles não era de opositores do governo, e buscavam o diálogo com o ministro. Entretanto, os veículos da mídia ocidental entrevistaram apenas os membros do Movimento San Isidro.

A intensa cobertura alçou o San Isidro ao cenário internacional, ganhando a atenção de artistas e escritores famosos nos EUA e Europa. O Departamento de Estado norte-americano alcançara seu objetivo.

O Movimento aprofundou seus laços com a direita internacional através da fundação CADAL, com base na Argentina, que nomeou o San Isidro para o Prêmio Freemuse de Expressão Artística 2021. A CADAL está no centro de uma rede de organizações libertárias que alavancam o dinheiro corporativo para impulsionar o mercado livre em toda a América Latina. Entre os parceiros mais próximos da CADAL está a Atlas Network, o think tank que também é patrocinado pelo Departamento de Estado dos EUA, através da NED.

Em maio de 2021, depois que Otero foi novamente detido pela segurança cubana, uma carta aberta ao presidente Diaz-Canel, assinada por um elenco de figuras culturais negras e afro-latinas proeminentes, apareceu na New York Review of Books, exigindo sua libertação.

Patria y Vida, o rap favorito do Departamento de Estado dos EUA

Patria y Vida, a primeira canção diretamente associada à mobilização de cubanos para protestar contra o governo, foi gravada em Miami. A canção apresenta três artistas cubanos auto-exilados: Yotuel do grupo de hip-hop Orishas, o duo de reggaeton Gente de Zona e o cantor e compositor Descemer Bueno. Eles foram complementados por dois membros do Movimento San Isidro, os artistas de hip-hop, El Funky e Maykel “Osorbo” Castillo.

The opening image of the video of Patria y Vida
Imagem de abertura do vídeo Patria y Vida

Em 12 de março deste ano, Yotuel e Gente de Zona realizaram uma vídeo-chamada com funcionários do Departamento de Estado, informando-os sobre o sucesso da canção e das demandas do Movimento San Isidro. Ao Parlamento Europeu, Yotuel pediu a “condenação do governo cubano, para que a ilha tenha forças para se rebelar“.

Três meses depois, a USAID emitiu um edital no valor de US$ 2 milhões, para subvenção de organizações da “sociedade civil” que procurassem promover a mudança de regime em Cuba. O documento enfatizou a necessidade de programas que “apoiem populações marginalizadas e vulneráveis, incluindo, mas não se limitando a jovens, mulheres, LGBTQI+, líderes religiosos, artistas, músicos e indivíduos de ascendência afro-cubana”.

11 de julho. Otero emitiu um chamado no Twitter em nome do Movimento San Isidro, para que manifestantes se reunissem no Malecón, litoral da cidade de Havana. As ocorrências iniciais em San Antonio de los Baños podem também ter sido em resposta à convocação de Otero. Os protestos então se espalharam pela ilha.

Joe Biden prometeu adicionar novas e sanções esmagadoras às que haviam sido impostas por Trump. As indicações são de que a administração democrata não retornará ao processo de normalização iniciado por Obama.

O movimento Vidas Negras Importam se posicionou no Instagram com uma declaração de solidariedade com a revolução cubana, recebendo críticas de setores conservadores norte-americanos.

Para o jornalista Max Blumenthal, os protestos de julho em Cuba foram arquitetados na Flórida. Através da hashtag  #SOSCuba, agentes financiados pelos EUA associados ao Movimento San Isidro defendiam a intervenção em Cuba meses antes das mídias sociais começarem a criticar o governo cubano de forma massiva.

A nova liderança cubana, que se seguiu ao período dos irmãos Castro na presidência do país e na secretaria do Partido Comunista Cubano, tem um enorme desafio pela frente, para que a contrarrevolução não seja bem sucedida.

Como salientou a historiadora Joana Salém, o governo precisaria reativar os canais de poder popular nas estruturas políticas, através de novos mecanismos de decisão. Ou seja, aprofundar a revolução socialista, ampliando a democracia popular.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Bielorrússia no xadrez da geopolítica: aumenta o cerco contra a Rússia

A queda da Bielorrússia colocaria um regime simpático à OTAN a cerca de 450 km de Moscou.

Xadrez da geopolítica EUA-Rússia
Xadrez da geopolítica Rússia-Estados Unidos \ Foto: Relatório Rand Corporation

O presidente Aleksandr Lukashenko pertence ao pequeno clube de governantes, do qual Jair Bolsonaro faz parte, que atuaram como negacionistas da pandemia de Covid-19. O bielorrusso declarou em abril de 2020 que vodka e sauna previnem a Covid-19. Há 27 anos no poder, ele é chamado pela mídia corporativa do Ocidente de o “último ditador da Europa”. No entanto, ao contrário do brasileiro, Lukashenko vem procurando garantir a soberania do país e proporcionar condições de vida satisfatórias à população.

Sua vitória na eleição presidencial de agosto de 2020 para um sexto mandato levou a denúncias de fraude e ao estabelecimento de sanções econômicas contra o país. As críticas aumentaram em maio de 2021, quando um avião da empresa irlandesa Ryanair foi forçado a descer no aeroporto da capital Minsk para que fosse detido o jornalista Roman Protasevich.

Desde então, o regime de Lukashenko vem enfrentando o acirramento dos protestos de setores da população e o aumento das sanções externas. O que a mídia ocidental vem omitindo, é que Protasevich era mais que um jornalista apenas empenhado na defesa dos direitos humanos. Ele já atuara como combatente no Batalhão Azov, a milícia neonazista ucraniana, contra os separatistas pró-Rússia da região do Donbas. E atualmente Roman é um ativista político engajado na derrubada do regime.

Michelle Bachelet, Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, denunciou em 15 de julho a prisão de opositores do governo bielorrusso, bem como invasões de escritórios de ONGs, de associações de jornalistas e de movimentos de oposição.

Para a Rússia, a desestabilização do país vizinho traz problemas de segurança, e poderia exacerbar as já difíceis relações com o Ocidente, avalia Ivan Timofeev, analista do think tank russo, Valdai Club.

No xadrez da geopolítica da Europa Oriental, as peças representadas pela Ucrânia e pela Moldávia já foram perdidas pela Rússia através de ações de guerra híbrida orquestradas principalmente por Washington e Londres. A queda da Bielorrússia colocaria um regime simpático à OTAN a cerca de 450 km de Moscou.

Qual é a história que a mídia não divulga sobre os protestos que nos últimos 12 meses vêm desestabilizando o país, e que levaram às recentes ações repressivas contra opositores, condenadas veementemente por Bachelet? E como a Rússia irá reagir se o Ocidente impuser uma revolução colorida para depor Lukashenko?

A integração da Bielorrússia com a Rússia

A Bielorrúsia era uma das 15 repúblicas da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, extinta em 1991. No poder desde 1994, Lukashenko tinha um pacto não explicitado com a população, em que esta usufruía de um estado de bem-estar social, enquanto abria mão de uma democracia no estilo ocidental.

Desde 1999, portanto oito anos após o fim da URSS, o país está envolvido em difíceis negociações com a Rússia visando uma ampla integração dos dois países, formando a União de Estados. Na ocasião da assinatura do tratado de intenções, Lukashenko já estava na presidência, enquanto Putin era o primeiro-ministro russo, em vias de assumir a presidência, em substituição a Boris Iéltsin.

De acordo com o relato da agência Tass, a criação de uma União de Estados entre a Federação Russa e República da Bielorrússia implica no estabelecimento de estruturas supranacionais, incluindo o parlamento bicameral, uma Constituição, corte de justiça, câmara de arbitragem, além de moeda única, sistemas energéticos unificados, sistema único de impostos e compatibilidade das políticas de comércio e aduaneiras.

Lukashenko vem procurando preservar os interesses e a soberania da Bielorrússia nas duras negociações com a Rússia. No início de 2021, permaneciam ainda cerca de 6 ou 7 questões a resolver, segundo a Tass.

Dentre as demandas de Minsk ainda pendentes de aceitação por Moscou estão preços mais baixos para o gás russo, compensações por perdas e a remoção de restrições a produtos da Bielorrússia.

Em outro artigo, Timofeev avalia que as sanções impostas pelo Ocidente podem enfraquecer a posição da Bielorrússia, forçando-a a fazer concessões nas negociações atuais, em troca de um apoio emergencial de Putin. No entanto, até o momento, Lukashenko vem mantendo suas condições para ir adiante com a integração, pelo menos nas declarações públicas.

O início da guerra híbrida contra a Bielorrússia

Um relatório de 2019 da Corporação Rand, um think tank financiado em grande parte pelas forças armadas norte-americanas, analisa as vantagens geopolíticas e ideológicas de se tentar “promover a mudança de regime na Bielorrússia”, dando apoio à oposição. Entretanto, o relatório menciona também que a população estaria menos interessada em liberdade do que em melhores condições vida.

O relatório cita uma pesquisa independente conduzida em 2015, que revelou que 70% dos entrevistados não queriam uma revolução no estilo da que havia ocorrido na Ucrânia em 2014. E que 78% não querem que ocorra derramamento de sangue no país.

Para os analistas da Rand, mesmo que as tentativas de se mudar o regime falhassem, haveria ganhos políticos por forçar Moscou a se sobrecarregar ao “empregar recursos – inclusive militares – para preservar sua posição na Bielorrússia. Os EUA e seus aliados europeus responderiam, então, com o endurecimento das sanções”. No entanto, “haveria o risco de ocorrer a deterioração geral do ambiente de segurança na Europa, o que representaria um revés para a política dos EUA”, avalia o relatório.

Segundo relato no Covert Action Magazine, interferências do Ocidente em questões internas da Bielorrússia vem ocorrendo desde 2016.  Um dos recipientes dos financiamentos para desestabilizar o regime bielorrusso foi o canal de televisão Belsat, baseado na Polônia.

Tanto a Polônia como a Lituânia são favoráveis à presença de tanques dos EUA no leste Europeu, posição que não é compartilhada pela Bielorrússia. Segundo Andrey Sushentsov, analista do Valdai Club, a competição estratégica entre a OTAN e a OTSC, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva, levaria ao aumento – indesejável para Minsk – da presença militar russa na região, e à escalada de tensões.

Sushentov avalia que a crise econômica de 2014 e a queda do preço do petróleo afetaram fortemente a economia Bielorrússia, dependente do mercado russo. Neste contexto de taxas de crescimento baixas, ou mesmo negativas, diminuiu o apoio ao governo, com a queda no padrão de vida da população.

A oposição liberal aproveitou para contestar a estratégia de promover a integração com a Rússia, acusando ainda o governo de fazer concessões a Moscou em troca de apoio na crise econômica e política. Este era o clima interno do país em 2020, ano eleitoral

As eleições presidenciais de agosto de 2020

Durante a campanha, a liderança bielorrussa teria cometido um erro político, segundo sustenta Sushentsov em outro artigo, ao adotar a narrativa de que o país se encontrava sitiado pela Rússia.

Em um confuso incidente ocorrido poucas semanas antes das eleições, 33 russos – supostamente mercenários – foram detidos nas proximidades da capital Minsk. Dentre as muitas versões difundidas, incluía-se a de que o grupo pretendia fazer atos de provocação com o intuito de causar tumultos em massa.

Por alguns dias, o presidente fez uso de retórica anti-russa, para depois retomar o tradicional discurso da amizade entre os dois países. No entanto, Lukashenko pode ter contribuído para causar desorientação em seus eleitores, avalia Sushentsov. Os resultados das eleições de agosto, que indicaram a vitória de Lukashenko para um sexto mandato, foram contestados no Ocidente.

A candidata da oposição, Svetlana Tsikhanouskaya, buscou refúgio na Lituânia, na sequência da repressão aos manifestantes que protestaram contra o que alegam terem sido eleições fraudulentas. Tsikhanouskaya concorrera à presidência em substituição a seu marido, Sergei, que fora impedido de se candidatar e se encontra preso.

protests against Lukashenko after the presidential elections of August 2020
Protestos contra Lukashenko em Minsk, setembro de 2020 \ Foto: AFP

Em abril de 2021, os EUA aplicaram sanções a nove empresas estatais, enquanto Tikhanovskaya conclamou o congresso norte-americano a apoiar organizações da sociedade civil e veículos de mídia de oposição.

A pegadinha que expôs as ações subversivas de Washington

Duas pessoas brincalhonas enganaram altos funcionários da National Endowment for Democracy (NED), órgão do governo norte-americano ligado a CIA, que financia atividades visando mudança de regime em países-alvo.

A coordenadora sênior da NED para a Europa, Nina Ognianova, e o presidente da instituição, Carl Gershman, foram enganados e levados a pensar que estavam conversando ao telefone com a líder oposicionista Svetlana Tsikhanouskaya (acesse o vídeo com a gravação).

Nas conversas que ocorreram em 17 de maio deste ano, ambos falaram abertamente do envolvimento da NED no financiamento e treinamento da oposição bielorrussa. Mencionaram também os apoios dados a sindicatos independentes, jornalistas, e as relações estabelecidas com o setor privado. Mais detalhes da pegadinha são apresentados no artigo de Ben Norton, no The Grayzone.

O desvio do voo 4978 da Ryanair

Em 23 de maio, um avião da empresa irlandesa Ryanair, ao sobrevoar o espaço aéreo da Bielorrússia, foi desviado de sua rota e forçado a pousar em Minsk, quando então foram detidos o jornalista Roman Protasevich e sua namorada. A aeronave estava no trajeto de Atenas para Vilnius, na Lituânia, base do governo paralelo de Tikhanovskaya.

aircraft with Protasevich diverted to Minsk
Rota do avião com Protasevich desviado para Minsk \ Arte editada: BBC 

Embora a detenção de Protasevich tenha sido discricionária, por outro lado pode-se argumentar que não foram realmente violadas normas internacionais.

O desvio do curso do voo e a prisão de Protasevich receberam o repúdio unânime da mídia do Ocidente, cuja memória seletiva convenientemente se esqueceu de mencionar um precedente bem mais sério, que realmente violou normas internacionais.

Em 2013, o avião que conduzia o presidente boliviano Evo Moralez de Moscou a La Paz fora proibido de sobrevoar o espaço aéreo de vários países europeus, e teve que permanecer por horas no aeroporto de Viena. A intenção dos países da OTAN era a de capturar Edward Snowden, responsável pelo vazamento de informações secretas da NSA (a Agência Nacional de Segurança norte-americana). No entanto, Snowden não se encontrava a bordo.

Mas quem é realmente Roman Protasevich?

Ele é apresentado na mídia ocidental como um heróico defensor de direitos humanos, atuando contra a brutal ditadura de Lukashenko. Entretanto, no mesmo artigo do The Grayzone, Ben Norton apresenta uma faceta menos conhecida do jornalista.

Protasevich trabalhou na Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade fundada pela CIA, originalmente um veículo de propaganda contra a União Soviética, e agora atuando contra a Rússia.

Do exterior, Protasevich organizou protestos e operações de desestabilização do governo bielorrusso. Ele trabalhou com a Rádio Européia para a Bielorrússia, um veículo de direita financiado pelos governos dos EUA, Polônia, Holanda e Lituânia. Na Polônia, Protasevich operou o canal Nexta, do Telegram.

Envolvimentos anteriores de Protasevich, também expostos no artigo The Grayzone,  mostram que ele não se limitou apenas a atividades de mídia e de propaganda política. Ele participou de operações militares do Batalhão Azov, a notória milícia neonazista ucraniana. Esta participação parece não ter se limitado ao serviço de imprensa da milícia. Um líder do Azov reconheceu publicamente que Roman atuou também como combatente.

Activist Roman Protasevich wearing combat uniform of neo-nazi Azov Batallion
Protasevich em suas atividades extra-jornalismo: no Departamento de Estado, Washington, em abril 2018/usando uniforme com a insígnia neonazista do batalhão Azov/na capa de uma publicação do Azov/com um rifle de assalto \ Fotomontagem: The Grayzone

Diversas fotos mostram Roman em uniforme militar, inclusive portando um rifle. Ele também aparece usando camisas com a suástica neonazista.  Segundo relatado no The Grayzone, o próprio Protasevich admitiu que passou 1 ano lutando contra forças pró-russas na região separatista do Donbas, ao leste da Ucrânia.

As novas sanções contra a Bielorrússia

Em 25 de maio, os líderes dos países da União Européia aprovaram uma resolução demandando a aplicação de novas medidas contra a Bielorrússia. Estas iriam desde sanções contra indivíduos, a medidas capazes de afetar a economia do país.

Outro analista do Valdai Club, Ivan Timofeev, considera que o Ocidente deveria ter o cuidado de não tornar o governo de Minsk muito dependente de Moscou, mas não foi isto que ocorreu, pois duras sanções foram impostas. Talvez tenha prevalecido a visão apresentada no relatório da Rand Corporation, de que haveria ganhos para o Ocidente em forçar Moscou a se desgastar no empenho de apoiar Lukashenko.

Em 21 de junho, os ministros de relações exteriores dos países da União Européia aprovaram em Luxemburgo as novas sanções contra a Bielorrússia. Segundo relato no Deutsche Welle, serão afetados importantes setores da economia, como as exportações de fertilizantes, a indústria do tabaco, produtos petrolíferos e petroquímicos, além do setor financeiro.

Estados Unidos, Canadá e Reino Unido também aplicaram novas sanções. Os EUA congelaram os bens de dezenas de funcionários do governo bielorrusso. Tikhanovskaya aproveitou para pedir pela libertação de presos políticos, inclusive de seu marido Sergei.

As duras sanções irão estimular uma maior integração dos sistemas de pagamento nas transações entre Minsk e Moscou, avalia Timofeev em outro artigo. Mas será provavelmente inevitável a queda no nível de vida dos bielorrussos, com efeito imprevisível na estabilidade do país.

Em face das novas sanções impostas pelo Ocidente, Putin já determinou em 15 de julho que o governo russo ajude a Bielorrússia. Moscou parece disposta a não permitir que o Ocidente tome sua torre de defesa no tabuleiro de xadrez.

Concluindo

A Rússia deverá continuar a garantir a estabilidade da Bielorrússia. E a população do país precisará encontrar formas de resolver seus problemas, sem interferência externa.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

 

Israel e palestinos em luta decisiva à frente

Uma Intifada popular palestina de longa duração, em uma revolta com demandas específicas e sob uma liderança nacional unificada, representaria a maior ameaça à ocupação militar de Israel e ao regime do apartheid em muitos anos.

Gaza war
Gaza no centro dos conflitos entre Israel e os palestinos \ Arte: domínio público

O texto que se segue é uma tradução, por Ruben Rosenthal, do artigo do jornalista e pesquisador Ramzy Baroud¹, Teatro político de Bennett: Israel e palestinos em luta decisiva à frente, publicado no Counter Punch em 2 de julho de 2021.  A ilustração original foi substituída pelo tradutor.

Muitos palestinos acreditam que o confronto militar de 10 a 21 de maio entre Israel e a resistência de Gaza, juntamente com a revolta popular simultânea em toda a Palestina, foi um divisor de águas. Israel está fazendo tudo ao seu alcance para provar que estão errados.

Os palestinos estão justificados em ter este ponto de vista. Afinal, apesar de suas minúsculas capacidades militares, eles conseguiram repelir – ou pelo menos neutralizar – a enorme e superior máquina militar israelense em um pequeno trecho de terra sitiado e empobrecido como a Faixa de Gaza.

No entanto, para os palestinos, não se trata apenas de poder de fogo, mas também de sua almejada unidade nacional. De fato, a revolta palestina, que incluiu todos os palestinos, independentemente de suas origens políticas ou geográficas, está promovendo um novo discurso sobre a Palestina – não sectário, assertivo e progressista.

O desafio para o povo palestino é se ele será capaz de traduzir suas conquistas em uma estratégia política real, e finalmente superar o opressivo – e muitas vezes trágico – período que se seguiu aos acordos de Oslo².

É evidente que não será tão fácil. Afinal, há forças poderosas que estão profundamente envolvidas no atual status quo. Para elas, qualquer mudança positiva no caminho da liberdade palestina certamente levará a perdas políticas, estratégicas e econômicas.

A Autoridade Palestina, que opera sem mandato democrático, está mais consciente de sua posição vulnerável do que em qualquer outro momento do passado. Não só os palestinos comuns não têm fé nesta “autoridade”, mas eles a veem como um obstáculo em seu caminho para a libertação.

Portanto, não foi surpresa ver o presidente da AP, Mahmoud Abbas, e muitos de seu corrupto círculo íntimo, cavalgarem a onda da revolta popular palestina, mudando inteiramente sua linguagem. Mesmo que fugazmente, eles passaram de um discurso que fora cuidadosamente projetado para ganhar a aprovação dos “países doadores”, para um que canta as glórias da “resistência” e da “revolução”. Este grupo corrupto está desesperado, ansioso para sustentar seus privilégios e sobreviver a qualquer custo.

Se os palestinos continuarem com sua mobilização popular e trajetória ascendente, Israel é a entidade que mais tem a perder. Uma Intifada popular palestina de longa duração, em uma revolta com demandas específicas e sob uma liderança nacional unificada, representaria a maior ameaça à ocupação militar de Israel e ao regime do apartheid em muitos anos.

O governo israelense, desta vez sob a liderança inexperiente do atual primeiro-ministro, Naftali Bennett, e de seu parceiro de coalizão, o futuro primeiro-ministro, Yair Lapid, é claramente incapaz de articular uma estratégia de guerra pós-Gaza. Se a bizarra transição política de poder, do ex-líder israelense Benjamin Netanyahu para a coalizão de Bennett, for por um instante ignorada, parece como se Netanyahu estivesse ainda mantendo o controle.

Bennett, até agora, seguiu o manual de Netanyahu sobre todos os assuntos relativos aos palestinos. Ele, e especialmente seu ministro da Defesa, Benny Gantz – ex-parceiro de coalizão de Netanyahu – continuam a falar de seu triunfo militar em Gaza e da necessidade de avançar nessa suposta “vitória”. Em 15 de junho, o exército israelense bombardeou vários locais na Faixa de Gaza sitiada e, novamente, em 18 de junho. No entanto, umas bombas a mais dificilmente mudarão o resultado da guerra de maio.

“É hora de converter nossas conquistas militares em ganhos políticos”, disse Gantz em 20 de junho. Mais fácil dizer do que fazer. De acordo com essa lógica, Israel vem pontuando “conquistas militares” em Gaza há muitos anos, ou seja, desde a sua primeira grande guerra contra a Faixa, em 2008-09. Desde então, milhares de palestinos, a maioria civis, foram mortos e muitos mais feridos. No entanto, a resistência palestina continuou inabalável e zero “ganhos políticos” foram realmente alcançados.

Gantz, como Bennett e Lapid, reconhece que a estratégia de Israel em Gaza foi um total fracasso. Uma vez que seu principal objetivo é permanecer no poder, eles estão atados às regras do velho jogo que foram formuladas por políticos de direita e sustentadas por extremistas de direita. Qualquer desvio deste estratagema fracassado significa um possível colapso de sua coalizão instável.

Em vez de conceber uma nova estratégia realista, o novo governo de Israel está ocupado, enviando mensagens simbólicas. A primeira mensagem é para seu principal público-alvo – o eleitorado de direita de Israel, particularmente os partidários de Netanyahu descontentes– de que o novo governo está igualmente comprometido com a “segurança” de Israel, para garantir uma maioria demográfica na Jerusalém ocupada, como no resto da Palestina, e que nenhum Estado palestino jamais será concretizado.

Outra mensagem é para os palestinos e, por extensão, para países da região cujos povos e governos apoiaram a revolta palestina durante a guerra de maio: que Israel continua sendo uma formidável força militar, e que a equação militar fundamental permanece inalterada.

Ao continuar sua escalada militar dentro e ao redor de Gaza, as violentas provocações no bairro de Sheikh Jarrah e em toda Jerusalém Oriental, e as contínuas restrições à necessidade urgente de reconstrução de Gaza, a coalizão de Bennett está se engajando em um teatro político. Enquanto a atenção permanecer fixada em Gaza e Jerusalém, Bennett e Lapid continuam a ganhar tempo e a distrair o público israelense de uma iminente implosão política.

Os palestinos estão, mais uma vez, provando ser atores críticos na política israelense. Afinal, foi a unidade e a determinação palestina em maio que humilhou Netanyahu, e encorajou seus inimigos a finalmente removê-lo do poder.

Agora, os palestinos poderiam potencialmente ter as chaves para a sobrevivência da coalizão de Bennet, especialmente se o governo israelense  concordar com uma troca de prisioneiros: vários soldados israelenses capturados por grupos palestinos em Gaza seriam libertados, em troca de centenas de prisioneiros palestinos mantidos sob terríveis condições em Israel.

No dia da última troca de prisioneiros, em outubro de 2011, Netanyahu fez um discurso televisionado, cuidadosamente elaborado para ele se apresentar como salvador de Israel. Bennett e Lapid apreciariam uma oportunidade semelhante.

Cabe aos novos líderes de Israel ter cautela em como proceder a partir de agora. Os palestinos estão provando que não são mais peões no circo político de Israel, e que também podem fazer política, como as últimas semanas demonstraram.

Até agora, Bennett provou ser um outro Netanyahu. No entanto, se o primeiro-ministro mais longevo de Israel em última análise falhou em convencer os israelenses do mérito de sua doutrina política, a farsa de Bennett provavelmente será exposta muito mais cedo. E o preço certamente será ainda mais pesado desta vez.

¹Ramzy Baroud é jornalista e editor do The Palestine Chronicle. Ele é autor de vários livros, e pesquisador sênior não residente no Centro para o Islã e Assuntos Globais (CIGA),  da Universidade Zaim de Istambul.

²Em 1993, Yitzhak Rabin, então primeiro-ministro de Israel, e Yasser Arafat , presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), assinaram os chamados “acordos de paz de Oslo” na Noruega.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue  Chacolhando.

Brasil participa de manobras navais contra a Rússia no Mar Negro

Por Ruben Rosenthal

Que interesses no Brasil serão favorecidos pelo alinhamento com a política belicista de Biden? A decisão do governo brasileiro não chega a surpreender, vinda de um presidente que bate continência para a bandeira dos EUA. E os militares estão satisfeitos com esta posição subalterna, acreditando que a Rússia ainda é um país comunista?

Logotipo Sea Breeze
Sea Breeze, manobras anuais promovidas pelos EUA e Ucrânia, no mar, terra e ar \ Crédito: C6F-Sexta Frota

A manobra aeronaval Sea Breeze (Brisa do Mar) iniciada em 28 de junho no Mar Negro, nas proximidades do território russo, é liderada pelos Estados Unidos e conta com a participação de 32 países, inclusive do Brasil. As ações vêm na sequência de incidentes ocorridos no Mar Negro, quando um barco patrulha russo fez disparos de aviso contra o destroier da marinha britânica HMS Defender, que entrara em águas territoriais da Criméia, segundo declaração do ministro da defesa russo em 23 de junho.

A manobra faz parte de uma parceria dos EUA com a Ucrânia, e ocorre apenas algumas semanas após a reunião dos presidentes Biden e Putin em Genebra. A participação do Brasil em exercícios militares hostis à Rússia pode levar ao engajamento do país em uma confrontação, que parece reacender o clima da Guerra Fria que prevaleceu por décadas, para benefício da indústria bélica.

O incidente com o destroier HMS Defender

A anexação da Criméia pela Rússia, seguindo-se ao referendo de 2014 em que 97% da população da península teria se manifestado favorável à separação da Ucrânia, nunca foi reconhecida pelo Ocidente. Poucos meses antes da consulta popular, uma revolução colorida orquestrada em Washington tirara do poder o presidente ucraniano eleito, possibilitando a ascensão ao poder da extrema direita ucraniana, ferozmente antirrussa. 

Estes eventos alienaram as populações de origem russa da Criméia e da parte ocidental da Ucrânia.  A região do Donbass tentou seguir o mesmo caminho da Criméia, mas encontrou forte resistência de Kiev, o que originou confrontos bélicos entre o governo central e os separatistas, e o aumento das tropas russas na fronteira, causando alarme na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Este é o clima que antecedeu os exercícios militares deste ano no mar Negro, iniciados pelos britânicos.

O HMS Defender se encontrava no Mar Negro, na rota do porto ucraniano de Odessa para a Geórgia, quando violou águas territoriais na região da Criméia. Segundo o Deutsche Welle, a Rússia declarou que o HMS Defender deixou as águas territoriais russas após os disparos de aviso. Assista o  vídeo liberado pelo FSB, o Serviço de Segurança da Rússia. Um bombardeiro russo SU-24 teria também despejado quatro bombas à frente do Defender, para convencê-lo a mudar o curso.

British navy cruiser HMS Defender is intercepted by russian plane
HMS Defender muda o curso após aviso russo e despejo de 4 bombas pelo avião SU-24 \ Fonte: Less Daily

O ministro da defesa do Reino Unido declarou que “o navio da marinha real estava exercendo passagem inocente através de águas territoriais ucranianas, em concordância com a legislação internacional. E que não ocorreram disparos de alerta”.

Para o ex-embaixador britânico Craig Murray, crítico do belicismo da OTAN, não está em disputa que a Rússia exerce o controle de fato da Criméia, mesmo que a anexação não tenha sido conduzida de acordo com as normas internacionais. Um vaso de guerra navegar em águas territoriais da Criméia equivale a um regimento de tropas desembarcar na península, acrescentou Murray. 

A alegação de “passagem inocente” não procede, considera ele. Trataria-se na verdade de um ato de propaganda, pela presença de uma equipe da BBC a bordo do HMS Defender, como também de busca de informações sobre a defesa militar russa.

Mesmo que o governo de Sua Majestade apoie o pleito ucraniano de soberania, a posição legal seria a de considerar a Rússia como potência ocupante e não violar as águas territoriais da Criméia, avalia o ex-embaixador. Murray ressalta o contraste com que o Reino Unido trata outra potência ocupante, Israel. O próprio Reino Unido ocupa ilegalmente as Ilhas Chagos, em desobediência a diversas decisões de cortes internacionais, conforme denunciou anteriormente Murray.

Sea Breeze, as manobras elevam a tensão no Mar Negro

Os exercícios militares conjuntos entre Ucrânia e EUA no Mar Negro começaram em 1997, dois anos após Rússia e Ucrânia acertarem a divisão da frota, com o fim da União Soviética, conforme outro relato no Deutsche Welle. Com a secessão da Criméia, parte da frota ucraniana passou para a Rússia. 

Conforme relato no America’s Navy, as manobras de 2021 se estenderão de 28 de junho a 10 de julho, contando com a participação de 32 países de seis continentes, com 5.000 tropas, 32 embarcações, 40 aviões e 18 grupos de operações especiais.

Além dos países membros da OTAN e da Ucrânia, participam dentre outros, Israel, Egito, Marrocos, Emirados Árabes Unidos, Coréia do Sul, Japão, Austrália, Suécia, Moldávia, Geórgia e Brasil.

O incidente com  HMS Defender mostrou que a Rússia não está disposta a aceitar provocações sem reagir. Com menos de 6 meses na presidência, Joe Biden parece que fará as tensões entre EUA e Rússia escalarem, levando a uma nova Guerra Fria entre os dois países.  

Que interesses no Brasil serão favorecidos pelo alinhamento com a política belicista de Biden? A decisão do governo brasileiro não chega a surpreender, vinda de um presidente que bate continência para a bandeira dos EUA. E os militares estão satisfeitos com esta posição subalterna, acreditando que a Rússia ainda é um país comunista?

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacolhando.

A longa marcha da China rumo à liderança econômica: O Império resiste

Por Ruben Rosenthal

No governo Biden, deverá continuar ou mesmo ser expandida a política de sanções e restrições a empresas e autoridades chinesas, com o pretexto de impor punições por competição desleal e violações de direitos humanos em Xinjiang e Hong Kong.

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Abertura da reunião dos representantes diplomáticos da China e EUA em Anchorage, Alasca, 18 de março  \ Foto: Frederic J. Brown/AFP/Getty Images

Nestes meses iniciais da presidência de Joe Biden, os analistas políticos procuram identificar o que se pode esperar das relações entre Estados Unidos e China.  As ações da nova administração até o momento indicam que existe vontade política para tentar resolver as atuais pendências através de  negociações? Ou a probabilidade é de que ocorra agravamento do contencioso comercial, e de que alguma crise localizada, como a questão do Mar do Sul da China ou de Taiwan, possa evoluir para uma confrontação armada entre as duas maiores economias do planeta?

Este artigo é o terceiro de uma trilogia que procurou mostrar como a China evoluiu a partir de meados do século 20, de uma economia essencialmente agrária e de indústria pesada, para se tornar a segunda economia mundial, tendo alcançado inovações tecnológicas em setores de ponta.  Uma jornada em  que precisou e ainda precisa superar obstáculos, e que resgata a relevância histórica da China para o processo civilizatório.

O primeiro artigo da trilogia relata como, através do plano de modernização tecnológica Made in China 2025, o país espera se tornar uma superpotência industrial até 2049. O segundo artigo mostrou que através da Nova Rota da Seda (Iniciativa Cinturão e Rota) a China rompeu com a política diplomática que adotara a partir dos anos 80, de manter um perfil discreto em política externa, para passar a agir de forma mais assertiva na busca de parceiros comerciais e de regiões de influência.

No entanto, ao passar a interferir nos interesses econômicos norte-americanos e de seus aliados, a China se tornou alvo de uma incessante campanha em diversas frentes. O artigo sobre a Nova Rota da Seda também relata como evoluíram as relações entre a República Popular da China e os Estados Unidos a partir da tomada do poder pelos comunistas, com foco nas administrações de Obama e Trump, resumidas a seguir.

Relações China-EUA no governo Obama

Um novo fator pode ter levado a China a assumir uma posição ainda mais assertiva na Ásia. Em outubro de 2011, a então secretária de estado de Barack Obama, Hillary Clinton, defendeu um reposicionamento da política externa norte-americana, em função da retirada de tropas do Afeganistão. Segundo a secretária de estado, a região Ásia-Pacífico deveria se tornar “alvo prioritário das ações diplomáticas, estratégicas e de investimentos dos EUA”.

No centro da nova estratégia de Washington de um “pivô para a Ásia” estava a Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês), prevista para se tornar o maior acordo de livre comércio no mundo, cobrindo cerca de 40 por cento da economia global. A iniciativa da Nova Rota da Seda representou uma reação da China à mudança de foco da política externa dos Estados Unidos proposta por Clinton.

Em 2011, o déficit comercial dos EUA com a China alcançou 295,5 bilhões de dólares. Em 2012, EUA e Japão questionaram junto à OMC, a Organização Mundial do Comércio, as restrições chinesas à exportação de metais de terras raras. Era o início das tensões comerciais entre os dois países, que atingiriam um clímax na gestão Trump.

Relações China-EUA no governo Trump

Donald Trump se retirou da TTP já no seu primeiro dia no cargo, em 2 de janeiro de 2017, antes mesmo da ratificação da Parceria pelo Congresso. Em seu governo, o contencioso comercial evoluiu para uma guerra comercial, com a aplicação de barreiras e sobretaxas a produtos chineses.

Por outro lado, sanções econômicas foram aplicadas em função de acusações de violações de direitos humanos em Xinjiang, Hong Kong e Tibet. Foram também levantadas acusações contra os chineses de ataques cibernéticos e de roubo de tecnologia. A questão da internet 5G se tornou uma parte importante da disputa tecnológica entre os dois países.

A retórica anti-China dominou a administração Trump, aumentando ainda mais com as acusações de que o vírus da Covid-19 fora produzido em laboratório pelos chineses. E que uma indenização bilionária deveria ser imposta à China.

O documento interno “Estratégia dos EUA para o Indo-Pacífico”, de 2018, que teve sua divulgação liberada nos últimos dias da gestão de Trump, mostra como as ações do governo estavam claramente impregnadas de um viés ideológico.

Em um dos itens do documento consta: “A China busca dominar tecnologias de ponta, incluindo inteligência artificial e biogenética, para aproveitá-las a serviço do autoritarismo. O domínio pelos chineses de tais tecnologias traria profundos desafios para as sociedades livres”.

No documento da Casa Branca intitulado “Enfoque Estratégico dos Estados Unidos para a República Popular da China”, datado de maio de 2020, estão elencados os desafios que a RPC colocava para os Estados Unidos, na visão da administração Trump. O documento avalia que a China procurará obter “vantagens econômicas e militares indevidas, para impor o pensamento do Partido Comunista Chinês e censurar a livre expressão”.

Nestes meses iniciais da administração Biden, a política em relação à China que foi herdada do antecessor Donald Trump está sendo reavaliada. Resta ver se as futuras ações dos EUA irão favorecer a cooperação ou a confrontação entre os dois países.

Relações China-EUA no governo Biden

Ao analisar o enfoque da administração Biden no estabelecimento de sua política de competição estratégica com a China, o pesquisador An Gang, da Universidade de Tsinghua, Pequim, identifica duas fases distintas. Na primeira, que iria da posse em janeiro até a reunião em março de altas autoridades dos dois países em Anchorage, no Alasca, Gang percebe quatro ações principais.

Como primeira ação, a política hostil na relação comercial está sendo revista, mas permanece ainda indefinida. As táticas agressivas de guerras comerciais adotadas por Trump provavelmente não terão continuidade.

No entanto, no governo Biden deverá continuar ou mesmo ser expandida a política anterior de sanções e restrições a empresas e autoridades chinesas, com o pretexto de impor punições por competição desleal, e violações de direitos humanos em Xinjiang e Hong Kong.

A segunda ação está relacionada com a estratégia geopolítica norte-americana. Os EUA retiraram forças (convencionais) do Oriente Médio e do Afeganistão, e passaram a concentrar o foco na estratégia do Indo-Pacífico, como forma de contenção da China.

Vijay Prashad, historiador e jornalista indiano, chama a atenção para a reunião virtual ocorrida em 12 de março, de Joe Biden com os chefes de estado da Austrália, Índia, Japão. Tratava-se de uma reunião do Diálogo de Segurança Quadrilateral, conhecido como Quad.

Reunião do Quad
Reunião virtual do “Quad”, com participação dos chefes de estado da Índia, EUA, Austrália e Japão, 22 de março \ Foto: Twitter/Scott Morrison

O objetivo do Quad é de aprofundar a pressão econômica e militar sobre a China. O grupo foi criado em 2004, fez parte da política de Obama de um “pivô para a Ásia”, mas só decolou na administração Trump.

Embora não tivesse ocorrido menção direta à China durante a reunião, a decisão tomada então, de se formar um grupo de trabalho em tecnologias críticas emergentes e cadeias de fornecimento indicou a clara  intenção de bloquear o acesso da China a tecnologias e matérias primas que possam ter uso civil e militar, avalia Prashad.

A terceira ação visualizada por Gang foi que os EUA passaram a atuar de forma coordenada com os aliados. Por exemplo, a administração Biden conseguiu que a União Europeia suspendesse a ratificação de acordo de cooperação em investimentos com a China, a pretexto da situação em Xinjiang.

A quarta ação foi de priorizar na cooperação China-EUA, a questão das mudanças climáticas, com foco nas emissões de carbono. Os EUA esperam assumir a liderança global neste campo, após o negacionismo que vigorou durante o governo Trump.

Reunião em Anchorage, Alasca 

Representantes de alto nível dos dois países se reuniram em Anchorage, em 18 e 19 de março. A delegação norte-americana era liderada pelo secretário de estado Antony Blinken e por Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional. No comando da delegação chinesa estavam o ministro das relações exteriores, Wang Yi, e Yang Jiechi, conselheiro de estado e ex-embaixador da China nos Estados Unidos.

Conforme relato no britânico The Guardian, na véspera da reunião os EUA tomaram uma série de ações contra a China, incluindo intimações de diversas empresas chinesas de tecnologia por questões de segurança nacional, atualização de sanções relacionadas com a questão de Hong Kong, bem como iniciaram a revogação de licenças de telecomunicação.

Os anfitriões não foram nada sutis desde a intervenção inicial, como mostram as declarações de Blinken e Sullivan publicadas pelo The Guardian (ver vídeo).  Blinken disparou: “Nós vamos discutir nossas profundas preocupações com ações da China, incluindo em Xinjiang, Hong Kong, Taiwan, ataques cibernéticos contra os Estados Unidos e coerção econômica de nossos aliados. Cada uma dessas ações ameaça a ordem baseada em regras que mantém a estabilidade global.”

Jiechi replicou de forma contundente: “Os Estados Unidos fazem uso de força militar e da hegemonia financeira para ampliar sua jurisdição e reprimir outros países. Abusam dos conceitos de segurança nacional, para obstruir as trocas comerciais normais e incitar alguns países a atacar a China”. E prosseguindo: “Deixe-me dizer que, para os chineses, os Estados Unidos não têm qualificação para falar com a China a partir de uma posição de força”.

Em discurso de 15 minutos, Jiechi ressaltou ainda a hipocrisia dos EUA em relação aos direitos humanos, criticou as intervenções externas dos norte-americanos, e acusou as autoridades de adotarem uma mentalidade de “Guerra Fria”.

Já o ministro das relações exteriores, Wang Yi, teria adotado um tom mais conciliador, conforme relatado em Foreign Policy. Segundo a publicação, o ministro declarou que “Blinken e Sullivan são verdadeiros amigos do povo chinês”. Tal declaração está evidentemente carregada de ironia.

O Pós-Alasca

Para An Gang, as ações da administração Biden após Anchorage indicam uma nova fase, em que republicanos e democratas atuarão de forma conjunta no congresso norte-americano para introduzir leis agressivas em relação à China. Diversos projetos de lei versando sobre questões de competição estratégica aguardam votação no legislativo, e poderão afetar negativamente o futuro das relações entre os dois países.

Poucos dias após a reunião do Alaska, em 22 de março, foram aplicadas sanções em quatro autoridades chinesas pelos EUA, Canadá e Reino Unido. No entanto, os chineses não foram pegos de surpresa. Os ministros do exterior de China e Rússia se reuniram em Guilin, na China, em 22 e 23 março, quando concordaram em atuar conjuntamente contra as “sanções ilegítimas, sem base na lei internacional”,  conforme relato de Amber Wang, jornalista do South China Morning Post, de Hong Kong.

Sergey Lavrov e Wang Yi
Sergey Lavrov, ministro das relações exteriores russo, e seu homólogo chinês, Wang Yi; Guilin, China, 23 de março \ Foto: Reuters

O ministro do exterior russo, Sergey Lavrov, classificou as ações dos norte-americanos de “táticas destrutivas de Guerra Fria”. A Rússia também sofre sanções impostas pelo Ocidente após a anexação da Crimeia em 2014, aumentadas em março de 2021 a pretexto do suposto envenenamento do opositor de Putin, Alexei Navalny.

Anteriormente, Lavrov já propusera que os dois países se afastassem do dólar em suas relações comerciais, como forma de reduzir o efeito das sanções.  Yang Jin, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, considera que a China deve receber bem a proposta de se afastar do sistema de pagamentos SWIFT controlado pelos EUA, passando Rússia e China a usar o rublo e o yuan em seus acordos comerciais.  

Para Cheng Yijun, especialista em relações China-Rússia na Academia Chinesa de Ciências Sociais, não é viável se alcançar a independência completa em relação ao dólar nas relações comerciais entre os dois países. Yijun considera também que, “forjar uma aliança com a Rússia não é a melhor opção para a China”. E continua: “Não há dúvida que os dois países se aproximaram em face das pressões vindas dos EUA, mas existem mais diferenças que pontos em comum entre eles”. A ascensão da China representaria também uma ameaça à Rússia, segundo o especialista.

Para a administração Biden, a fonte com maior potencial de conflito com os chineses é a questão de Taiwan, avalia An Gang. Daniel Ellsberg, responsável pelo vazamento do Documentos do Pentágono em 1971, também compartilha desta opinião. Temendo que a questão de Taiwan leve a um conflito militar entre EUA e China, ele divulgou agora informações altamente secretas que guardara por 50 anos.

Durante a crise do estreito de Taiwan em 1958, os líderes militares dos Estados Unidos planejaram aproveitar o clima de tensão para realizar ataques nucleares contra alvos militares chineses localizados em áreas densamente habitadas. No entanto, o presidente Eisenhower se recusou a ir adiante com o plano do alto comando.

No documento da Inteligência Nacional dos EUA publicado em abril de 2021  consta que o Partido Comunista Chinês continuará seus esforços para difundir a influência da China em detrimento dos Estados Unidos, procurando afastar Washington de seus aliados e parceiros, e criando normas internacionais que favoreçam o sistema autoritário chinês. O documento sugere ainda que os EUA precisarão estar preparados para conflitos de guerra híbrida situados entre guerra e paz.

Um indício que as relações bilaterais entre os dois países poderão se deteriorar foi a decisão da  administração Biden de resgatar a polêmica sobre a origem do vírus da Covid-19. Diferentemente de Trump, Biden quer obter um “parecer científico” sobre a questão.  Entretanto, no prazo de poucas semanas nenhuma conclusão minimamente confiável pode ser alcançada.

Uma notícia de dezembro de 2020, que voltou a aparecer na mídia no começo de junho, é que o Pentágono deu 39 milhões de dólares para a entidade de caridade EcoHealth Alliance, que financiou pesquisa sobre coronavírus em Wuhan no laboratório chinês que vem sendo acusado de ser a origem do surto  do vírus Sars-CoV-2.

Cui Liru, do Taihe Institute, um importante  think tank chinês sediado em Pequim, considera que é necessário que as duas nações discutam como lidar com a competição estratégica em temas sensíveis e de alto risco. O desafio de longo prazo será “explorar conceitos e práticas que construam pontes que ajudem a superar as diferenças estruturais”.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.