Privatizando a guerra no Afeganistão: saem as tropas regulares, ficam os mercenários

Por Ruben Rosenthal

O temor do governo norte-americano é que a retirada de todas as tropas do solo afegão possa abrir caminho para o aumento da influência de russos e chineses.

Soldados norte-americanos da infantaria atendem colega ferido
Soldados norte americanos prestam assistência a colega ferido, setembro 2010, Kondoz, norte do Afeganistão \ Foto: Damon Winter/ NYT

Conforme determinação do presidente Joe Biden, em 1 de maio foi iniciada a retirada das tropas de combate norte-americanas da nação afegã. Até 11 de setembro está prevista a total remoção dos atuais efetivos – de 2.500 a 3.500 combatentes, e também do contingente da Otan, de 7.000 militares. Biden teria rejeitado as advertências em contrário de seus conselheiros militares e do Pentágono, que alertaram que a saída poderia resultar no “ressurgimento das ameaças terroristas e em guerra civil”, com o fortalecimento do Talibã. 

Na verdade, o acordo original que havia sido acertado com o Talibã na administração Trump, em 29 de fevereiro de 2020, previa a retirada completa das tropas estrangeiras no prazo de 14 meses após a assinatura do acordo, ou seja, até 1 de maio de 2021. Portanto, Biden não está cumprindo o acordo. Em resposta a esse descumprimento, o Talibã emitiu o seguinte comunicado: “A violação, em princípio, abriu caminho para o Emirado Islâmico do Afeganistão tomar todas as ações que considerar apropriadas contra as forças de ocupação”. 

No entanto, a violação do acordo é ainda mais grave que “apenas” um atraso no cronograma da retirada. Conforme publicado no New York Times, permanecerão no Afeganistão as Forças Especiais de Operação, que atuam de forma clandestina, agentes secretos de inteligência, e mercenários sob contrato do Pentágono.  

Em janeiro deste ano haviam mais de 18.000 mercenários em atuação no Afeganistão, segundo um relatório do Departamento de Defesa dos EUA. A informação que foi divulgada no CovertAction Magazine, um site voltado para expor ações clandestinas de governos norte-americanos, foi originalmente obtida no site Stars and Stripes (Estrelas e Listras, evocando a bandeira dos EUA), voltado para os interesses das forças armadas norte-americanas.  

A estratégia do governo norte-americano é de contratar mercenários através de corporações privadas, como forma de distanciar da população os impactos da guerra nas tropas. Uma das maiores empresas que intermediam na contratação de mercenários é a DynCorp International, de Falls Church, na Virgínia.  

A empresa recebeu mais de 7 bilhões de dólares em contratos com o governo norte-americano, conforme revelado no CovertAction Magazine. Esta vantagem da DynCorp na obtenção dos contratos para as guerras do Afeganistão e Iraque já havia sido relatada em artigo de 2009 da Forbes.   

Evolução da presença militar dos EUA no Afeganistão 

O engajamento militar norte-americano contra o Talibã começou em novembro de 2001, com a chegada de 1.300 combatentes, principalmente marines. No mês anterior, o então presidente George W. Bush bombardeara o Afeganistão em represália pela presença de terroristas da al-Qaida, responsável pelos  ataques de 11 de setembro às torres gêmeas em Nova York, e ao Pentágono. A evolução do engajamento militar norte-americano até o final do segundo governo Obama pode ser acompanhada no Military Times

Soldados norte-americanos em avião de transporte chegam a Mazar-i-Sharif, Afeganistão, abril 2010
Cena que talvez não mais se repita: Soldados norte-americanos chegam ao Afeganistão, abril 2010 \ Foto: Damon Winter/NYT

Em agosto de 2010, o contingente dos EUA em solo afegão alcançou a marca de 100.000. Com a morte de Bin Laden em 2011 no Paquistão, Obama anunciou a diminuição gradativa do efetivo. Em julho de 2016 ele quebra a promessa que fizera de retirar todas as tropas até o final de seu segundo mandato, declarando que manterá 8.400 combatentes, segundo relatou o Washington Post na ocasião.  

Trump também quebrou sua promessa inicial de remover todas as tropas. Em setembro de 2017 ele chegou, inclusive, a anunciar um aumento do efetivo. Ao final de seu governo, permaneceu um contingente de 2.500 a 3.500 norte-americanos nas tropas regulares, segundo relato no DW-Brasil. No entanto, ao assinar o  acordo com o Talibã, em que os EUA concordaram em retirar todas as tropas do país até 1 de maio de 2021, Donald Trump deixou este compromisso para seu sucessor, Joe Biden. Pertence apenas ao campo especulativo, se Trump teria ou não cumprido o que fora acordado, caso tivesse conseguido se reeleger.  

Mas o governo Biden parece não estar disposto a perder o controle sobre o território afegão. Biden procura ganhar tempo com a decisão de transferir o prazo para 11 de setembro, aniversário dos atentados da al-Qaida, mas está em violação do que ficara acordado.  

Embora os Estados Unidos disponham de inúmeras bases aéreas na região do Golfo Pérsico, recorrer ao lançamento de bombardeiros de longo alcance ou a drones armados pode não ser tão efetivo como a presença de tropas em território afegão, menciona o artigo do NYT, citando como fontes, “atuais e ex-funcionários norte-americanos”. A presença clandestina das Forças de Operação Especiais e de mercenários poderia suprir a necessidade de forças regulares presenciais.  

Provincia de Laghman controlada pelo Talibã: duas crianças passam por grupo de elite armado, março 2020
Civis passam por grupo de elite armado, Província de Laghman controlada pelo Talibã, março 2020 \ Foto: Jim Huylebroek / NYT

A importância geopolítica do Afeganistão 

Craig Murray, ex-embaixador do Reino Unido no Uzbequistão – país vizinho ao Afeganistão, compara as motivações dos EUA para dominar o Afeganistão, com os casos das ocupações pela Grã-Bretanha e, posteriormente, pela então União Soviética.  

A primeira ocupação britânica se deu em 1839, sob o pretexto de prevenir uma aliança com a Rússia e a Pérsia (atual Irã), visando a invasão da Índia, então uma possessão britânica. Duas outras intervenções pelos britânicos tiveram a mesma justificativa. 

A invasão soviética em 1979 foi com o intuito de proteger regiões da Ásia Central pertencentes à União Soviética, da difusão do radicalismo islâmico. A ocupação durou 10 anos, e trouxe imenso desgaste à então superpotência, contribuindo para o seu declínio. 

O pretexto dos norte-americanos em invadir e ocupar o Afeganistão foi o de deter ataques de extremistas islâmicos que se encontrariam abrigados no Afeganistão, embora os ataques terroristas de “11 de setembro” estivessem mais relacionados com a Arábia Saudita.   

Murray relata que com a ocupação pelos EUA, disparou a produção de ópio e heroína em solo afegão, com o apoio da CIA. Para manter a ocupação, os EUA precisavam do apoio dos “senhores da guerra” locais, que eram os produtores de heroína.  

Entretanto, segundo Murray, o motivo principal da ocupação original do Afeganistão foi o Gasoduto Trans Afegão, que levaria gás natural das reservas do Turcomenistão para o Paquistão, Índia, e então chegando ao Oceano Índico. Em 1997, foi formado um consórcio de seis empresas, juntamente com o governo do Turcomenistão, para construir o gasoduto de 1.271 quilômetros até o Paquistão. 

A maior participação no consórcio (54%) cabia à Corporação Unocal, sediada na Califórnia. Uma delegação do Talibã iria viajar ao Texas para tratar das negociações, que contariam com a benção do então governador do Texas, George W. Bush.  Com os ataques da al-Qaeda em 1998 contra alvos dos EUA na Tanzânia e no Quênia, o projeto foi engavetado, relata Murray. Na ocasião, Osama Bin Laden estava abrigado no Afeganistão.  Posteriormente, já na presidência do país, Bush invadiu o Afeganistão.  

Recentemente, uma delegação do Talibã fez uma visita ao Turcomenistão para conseguir apoio para a tão planejada e adiada linha de gás natural através do Afeganistão. O Turcomenistão possui a quarta maior reserva de gás natural no mundo, estimada em 19,5 trilhões de metros cúbicos.   

Conforme o relato no CovertAction Magazine, o objetivo almejado pelos EUA atualmente não é mais apenas o controle das linhas de suprimento de combustíveis naquela região da Ásia Central. Em 2007, o Serviço Geológico dos Estados Unidos teria identificado a presença no Afeganistão de minerais no valor estimado de 1 trilhão de dólares, incluindo ferro, cobre, cobalto, ouro e o estratégico lítio, usado em baterias de computadores.   

O temor do governo norte-americano é que a retirada de todas as tropas do solo afegão possa abrir caminho para o aumento da influência de russos e chineses. A China aumentou seus investimentos no Afeganistão, país com o qual faz fronteira, mantendo ao mesmo tempo relações com os rebeldes talibãs. Por seu lado, a Rússia investiu em projetos de moradia e no fornecimento de rifles Kalashnikov ao governo afegão, sem, no entanto, deixar de cortejar o Talibã.  

Mapa do Afeganistão mostrando distritos sob controle do Talibã
Mapa mostra o controle por distrito, março 2021: vermelho escuro- Talibã; cinza- governo central ou indeterminado- cinza; vermelho claro- em contestação \ Fonte: Long War Journal

O Talibã já controla diversas regiões do país. Os Estados Unidos tentam manter no poder o atual presidente Ghani ou substituí-lo por alguém que possam controlar. Por outro lado, nas negociações com o Talibã, as únicas cartas que os norte-americanos podem oferecer em troca da mudança do prazo final da retirada total das tropas são o levantamento das sanções e a libertação de prisioneiros. Mas Cabul não deverá concordar com a libertação de prisioneiros talibãs.   

Finalizando 

Em meio às tragédias de uma guerra, os fotógrafos conseguem captar imagens que impressionam. São registros de importância histórica, retratando tragédias humanas e personagens, anônimos ou famosos, que participaram de formas diversas das ações de guerra e da busca da paz. Mas, por outro lado, conseguindo expressar a arte de onde menos se espera. A guerra do Afeganistão pode ser, em parte, acompanhada através das lentes dos fotógrafos do Washington Post e do The New York Times.

O autor é professor aposentado pela UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.  

Presidente da Ucrânia aposta suas cartas em invasão russa?

Por Ruben Rosenthal

Se os russos intervierem, Zelensky tentará convencer o governo alemão a sustar o acordo do gasoduto Nord Stream 2. O novo gasoduto representará um baque devastador na economia da Ucrânia.

Ukrainian serviceman stands in position on the front line with separatists in Donetsk region on February 19, 2021.
Militar ucraniano na linha de frente em Donetsk,  fevereiro de 2021 \ Foto: Anatolii Stepanov / AFP via Getty Images

Relatos recentes sobre a crise na Ucrânia na mídia do Ocidente alertaram sobre o estacionamento de tropas russas na fronteira com a Ucrânia. BBC News: Acúmulo de tropas russas próximo à Ucrânia alarma a Otan. New York Times: Movimento de tropas russas e fala de intervenção causa apreensão na Ucrânia. Wall Street Journal: Imagens de satélite mostram expansão  da presença da Rússia na Ucrânia. 

A mídia do Ocidente especulou  sobre a motivação para as ações de Moscou. Testar a nova administração Biden? Desviar a atenção da prisão de Navalny? Forçar que a Ucrânia restabeleça o fornecimento de água a Criméia, cortado após a união com a Rússia? Ou seria uma retaliação pela perda de influência na Ucrânia? 

Repercutiu também na mídia ocidental a perturbadora previsão do “analista militar” russo, Pavel Felgenhauer, de que com a chegada das tropas russas à fronteira, a crise passou a ter potencial de escalar para uma guerra pan-européia ou mesmo para uma III Guerra Mundial.

Ainda no mês de abril, o cônsul ucraniano em São Petersburgo foi detido sob a acusação de receber informações secretas. As tensões aumentaram ainda mais com o anúncio da Rússia irá restringir por seis meses a navegação no Mar Negro para navios de guerra estrangeiros, com início em 24 de abril.

A atual crise mantém aceso o pavio do conflito iniciado com a revolução colorida de Maidan em fevereiro de 2014 – apoiada pela governo de Barack Obama, e que afastou Viktor Yanukovych, o presidente eleito da Ucrânia. Como reação, vieram na sequência o referendo pró-Rússia na Criméia e os movimentos separatistas na região do Donbass, no leste do país. Desde então já ocorreram cerca de 13.000 mortes nos confrontos de forças de Kiev com os separatistas.

Embora nos últimos dias Putin tenha anunciado a retirada de tropas da fronteira, não há sinais de que a crise tenha se esvaziado. O governo de Kiev vem se recusando sistematicamente a respeitar o Protocolo de Minsk, que deveria levar a um cessar-fogo permanente e à autonomia política do Donbass.

Quando não houver menção em contrário, as análises apresentadas  neste artigo foram extraídas da entrevista concedida pelo analista internacional Mark Sleboda, sediado em Moscou, para a jornalista Anya Parampil, do The Grayzone.

Região do conflito separatista do Donbass
O mapa mostra as regiões sob controle dos separatistas (região hachurada direita) e do governo central, em Luhansk e Donetsk

Ucrânia, um país com profundas divisões históricas

Os ucranianos do oeste do país têm um forte sentimento anti-russo; sua história passa pela Comunidade Polaco-Lituana e pelo Império Austro-Húngaro. Durante a II Guerra Mundial houve colaboração com os nazistas e com o holocausto. Já o leste da Ucrânia, juntamente com a Bielorússia, tem um forte vínculo histórico e cultural com a Rússia, incluindo o uso da mesma língua. Estas divisões históricas se refletiram no mapa dos resultados eleitorais das últimas duas décadas.

Em comum, tanto no leste como no oeste do país, é a forte a influência política dos oligarcas. Ao contrário do que aconteceu na Rússia, onde Putin restringiu a ação dos oligarcas ao campo econômico, afastando-os de interferência na política, na Ucrânia umas poucas famílias dominam a política, controlando os partidos políticos. E isto não mudou com o Maidan.

Maidan, revolução colorida ou golpe?

O presidente Viktor Yanukovych, eleito democraticamente em 2010, era corrupto como corruptos foram todos os seus antecessores. Ele era um líder oriundo da região de Donbass, leste da Ucrânia. Quando procurou um acordo econômico com a União Européia, a contrapartida exigida foi uma terapia de choque neoliberal, que incluía privatizações em massa e alto desemprego.

Ele então tentou obter uma compensação de pelo menos 15 bilhões de dólares para aliviar os efeitos da “terapia”, sem nada conseguir. Com a economia em má situação, Yanukovych procurou os russos, atraindo desta forma a ira dos Estados Unidos.  Seu governo foi então derrubado em fevereiro de 2014, a partir dos protestos iniciados na Praça Maidan, pelo chamado Movimento Euromaidan. 

Após a tomada do poder, as novas autoridades baniram o partido Comunista e todos os partidos de esquerda do país. A intenção era de reorientar a geopolítica da Ucrânia a favor do Ocidente. Para tanto, era necessário derrotar a representação política do leste da Ucrânia, pró-Rússia, através de uma aliança de liberais pró-Ocidente com os ultra-nacionalistas fascistas, que consistiam a vanguarda do Maidan. 

Na seqüência da deposição do presidente ocorreram dezenas de milhares de deserções de militares para o Donbass ou para a Criméia. De acordo com o analista russo Ruslan Pukhov, diretor do Centro para Análises de Estratégias e Tecnologias e editor do jornal Moscow Defense Brief, os militares russos conseguiram convencer oitenta por cento das forças ucranianas na Criméia a desertar. 

Em março de 2014, a população da Criméia votou por avassaladora maioria (96,8%) pela união com a Rússia. Em abril, as regiões administrativas de Donetsk e Luhansk que constituem o Donbass, se proclamaram repúblicas independentes.

Ainda em abril, Kiev enviou tropas para o leste da Ucrânia, colocando o país a beira de uma guerra civil generalizada. Para tentar encerrar o conflito, em 2 de setembro de 2014 foi assinado um acordo entre o regime de Kiev e as autoridades políticas do Donbass.

O Protocolo de Minsk       

Esperava-se chegar à reconciliação política através de uma série de etapas que conduziriam a eleições livres, à  concessão de autonomia política ao Donbass, e ao controle por Kiev da fronteira com a Rússia. As negociações ocorreram na Biolorússia, monitoradas por observadores da OSCE (a Organização para a Segurança e Cooperação Européia), tendo como garantidores, França, Alemanha e Rússia.

O acordo deveria também incluir uma ampla anistia a todos os envolvidos no conflito, bem como o desmantelamento das organizações paramilitares de extrema direita que participaram do Maidan, e que também se envolveram nos confrontos no Donbass. 

Kiev não implementou quaisquer destas medidas, de forma que o conflito armado permanece. Para Mark Sleboda, a liderança de Kiev não tem a menor intenção de se encontrar com as autoridades políticas do Donbass, até porque sua própria legitimidade poderia ser colocada em questão. Entretanto, o protocolo de Minsk permanece como base para um acordo futuro.

Ukraine's President Volodymyr Zelenskiy visits positions of armed forces in Donbass region
Zelensky visita tropas na frente do Donbass, Ucrânia 9 de abril 2021. Serviço da Imprensa Presidencial / EPA

O governo Zelensky

Em 2019 foi eleito o comediante Volodymyr Zelensky para a presidência da Ucrânia, apoiado pelo oligarca Ihor Kolomoisky. Saiu derrotado por larga margem o então presidente e também oligarca, Petro Poroshenko.  Zelensky não conseguiu diminuir a corrupção no país, nem terminar a guerra no Donbass, como também fracassou no combate a pandemia do coronavírus. Ele está confrontando a corte constitucional do país para tentar impor as draconianas reformas requeridas pelo FMI.

Sua taxa de aprovação baixou de 75 para 30%, assim como a popularidade de seu partido, “Servidores do Povo”. Por outro lado, o partido mais popular do país atualmente é o que representa o leste da Ucrânia, “Plataforma de Oposição – Pela Vida”, também liderado por um oligarca – Viktor Medvedchuk.

Zelensky então fechou veículos de mídia, incluindo estações de TV, e está processando Medvedchuk por traição. Tudo para impedir o ressurgimento da oposição política no leste da Ucrânia.

Motivações dos EUA: geopolítica e o gasoduto Nord Stream 2

A administração Biden pode estar apoiando o acirramento da crise, mesmo ao custo de muitas vidas serem perdidas na Ucrânia, acredita Sleboda. Os EUA trouxeram recentemente para Odessa 350 toneladas de equipamentos militares, aumentando as tensões.

O aumento da influência política do leste da Ucrânia representa ao mesmo tempo o aumento da influência russa. Esta mudança geopolítica é algo que certamente a admistração Biden gostaria de evitar. Por outro lado, aos EUA interessaria controlar a segurança energética da Europa e, para tanto, a questão do gasoduto Nord Stream 2 é fator determinante.

Trata-se do segundo gasoduto ligando Rússia e Alemanha, e que possibilitará também a distribuição de energia a outras partes da Europa. Estando praticamente concluído, ele passa sob o Mar Báltico, dispensando as atuais linhas terrestres que atravessam a Ucrânia e Polônia, construídas ao tempo da União Soviética. Estas linhas possibilitaram que por anos Kiev exercesse pressão política sobre a Rússia.

Não apenas Kiev, mas também a Polônia e os Países Bálticos se aliaram aos EUA para impedir a implementação do Nord Stream 2. Os norte-americanos estão impondo sanções às empresas russas e alemãs envolvidas na construção do gasoduto. Empresas de energia européias que investiram na obra também sairiam prejudicadas.

As acusações contra a Rússia, de ter usado o agente neurológico novichok contra o opositor de Putin, Alexei Navalny, foram utilizadas sem sucesso para convencer a Alemanha a cancelar o gasoduto.  

Motivações da Rússia: ofensivas ou defensivas?

Para a Rússia, é de máxima importância a segurança das centenas de milhares de cidadãos do Donbass que têm dupla nacionalidade, bem como a dos 2 a 3 milhões de refugiados do leste da Ucrânia que acolheu quando os conflitos irromperam. Atualmente, como não existe fronteira entre a Rússia e o Donbass, seria muito mais fácil para a Rússia enviar tropas e armas para o leste Ucrânia do que para os EUA armarem o regime de Kiev.

Na primeira quinzena de março, Kiev começou a mover contingentes militares para a fronteira do Donbass, incluindo tanques, sistemas de artilharia, mísseis balísticos, bem como milhares de recrutas. Toda esta movimentação não foi noticiada na mídia do Ocidente, mas não passou despercebida em Moscou. Como dissuasão, a Rússia enviou cerca de 4 mil militares como parte de manobras na fronteira com a Ucrânia, acrescentando ao efetivo de 25 a 30 mil russos lá posicionados desde 2014.

O Centro para a Nova Segurança Americana (CNAS, na sigla em inglês), think tank em Washington, promoveu um debate no podcast Brussels Sprouts (Couve de Bruxelas) sobre o tema das tropas russas na fronteira com a Ucrânia. Os especialistas Michael Kofman e Maxim Samorukov admitiram que os efetivos russos colocados na fronteira com a Ucrânia não tinham uma postura ofensiva.

Sobre as opiniões alarmantes expressas por Pavel Felgenhauer, Sleboda as considera exageradas: “Felgenhauer não é especialista em estudos militares ou de segurança, embora ele se proclame um analista militar. A mídia ocidental recorre a ele quando quer apresentar pontos negativos, em geral falsos, sobre a Rússia”.

Motivações de Kiev: autopreservação do regime

Segundo Sleboda, o motivo real para Zelensky querer ampliar o conflito armado no leste da Ucrânia é fazer com que a Rússia intervenha para proteger o Donbass. A morte de milhares de recrutas ucranianos levaria provavelmente a um rompimento duradouro entre os dois países, o que seria no interesse de Kiev.

Ukrainian soldiers in a trench on the front lines facing Russian-backed separatists near the town of Zolote april 2021
Soldados ucranianos na trincheira, próximo à cidade de Zolote, no leste do país / Foto: AFP/Getty Images

Se os russos intervierem, Zelensky tentará convencer o governo alemão a sustar o acordo do gasoduto Nord Stream 2. O novo gasoduto representará um baque devastador na economia da Ucrânia. Cerca de 18% do orçamento nacional de Kiev é oriundo de taxas recebidas da Rússia e da Alemanha, pela passagem terrestre do gás em território ucraniano por meio das antigas linhas, que perderiam relevância.

O presidente e seu partido passam por uma fase de baixa aprovação. O acirramento da crise com a Rússia poderia trazer mais apoio popular, com um apelo ao nacionalismo extremado. Ao mesmo tempo, ele poderia reprimir a representação política da oposição política do leste do país.

Zelensky deve saber que não conseguirá recuperar o Donbass pela via militar, e provavelmente nem tem interesse nisto. Incorporar novamente ao país cerca de quatro a oito milhões de eleitores significaria fazer o pêndulo do poder político pender a favor dos ucranianos do leste, em um momento de baixa popularidade do presidente e de seu partido. 

Finalizando

Pode ser tentador para Zelensky apelar para um conflito militar interno para resolver seus problemas políticos e econômicos, quando muitas mortes de ucranianos poderiam ocorrer. Mas, mesmo considerando de um lado, o apoio do Ocidente e da Otan ao regime de Kiev, e de outro, o apoio ao Donbass pela Rússia, é bem pouco provável que a Rússia entre em conflito direto com os Estados Unidos e a Otan. A exceção seria caso a Ucrânia fosse incorporada à Otan, o que é inaceitável para Moscou. Resta ver se as tensões de abril irão retroceder ou inflamar a região.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Alba, novo partido reacende a chama pela independência da Escócia

Com a independência da Escócia, o papel da Grã-Bretanha no Ocidente ficaria prejudicado, alterando a balança global de poder.

Disputa eleitoral na Escócia: Alex Salmond, pelo partido Alba e Nicola Sturgeon, pelo SNP
Sturgeon e Salmond: de aliados a rivais \ Foto: domínio público

O ex-primeiro ministro escocês Alex Salmond anunciou na sexta-feira, 26 de março, a criação do partido Alba (Escócia, em gaélico). Com o novo partido, ele espera alcançar “uma supermaioria” a favor da independência do país nas eleições de 6 de maio para o Parlamento escocês, somados os assentos do Alba e do SNP, o Partido Nacional Escocês.

Salmond liderou o SNP de 2004 a 2014, e exercia o cargo de primeiro-ministro quando a proposta de independência foi rejeitada no referendo de 2014, por 55 a 45%. Na ocasião, os partidários do voto SIM, pela independência, criticaram a interferência da mídia britânica, principalmente devido às reportagens tendenciosas da BBC. O documentário London Calling (Londres Chamando) mostra muito bem como foi a atuação tendenciosa da emissora estatal a favor da permanência da Escócia no Reino Unido.

Salmond recebeu críticas de estar causando uma divisão do movimento pró-independência ao fundar o Alba. Entretanto, muitos ativistas históricos do SNP colocam em dúvida o compromisso da atual líder do partido, a primeira-ministra Nicola Sturgeon, com a autodeterminação do povo escocês. Ela é inclusive suspeita de estar por trás das acusações de agressão sexual que recaíram sobre Salmond, e que o forçaram a se afastar do partido em 2018. Ele foi levado a julgamento, que se estendeu de 9 a 20 de março de 2020.

A conspiração contra Salmond

Conforme relato anterior no Chacoalhando, a armação contra Salmond foi exposta em grande parte devido a uma série de artigos do ex-embaixador Craig Murray, ativista de direitos humanos e pela independência da Escócia. Murray foi indiciado por exercer a liberdade de imprensa para denunciar a trama. 

Segundo Murray escreveu em seu blog, tratou-se de um caso em que testemunhas de acusação não estavam presentes nos locais onde teriam ocorrido os abusos sexuais. Além disso, foram excluídas das audiências as evidências de que haveria uma conspiração contra Salmond.

Em seus artigos, fazendo uso de um humor sarcástico, Craig Murray deu algumas pistas de quem seriam as mulheres que alegavam ter sofrido agressão por parte de Salmond. Ele levantou suspeitas de que tudo não passara de uma armação de setores bem próximos à primeira-ministra, como forma de afastar da cena política o ex-aliado e atual rival.

Em face deste e de outros artigos que publicou, Murray foi acusado e considerado culpado de desacato à Corte (contempt of Court), e está sujeito ao encarceramento e à uma multa elevada, em parecer que será proferido em audiência em 7 de maio1 . Murray já anunciou que irá recorrer à Suprema Corte do Reino Unido, em Londres.

Alex Salmond arrest - friends and enemies at Holyrood are stunned ...
Alex Salmond,  após depoimento na  Corte do Xerife de Edimburgo, jan. 2019 \ Foto: Russell Cheyne/Reuters

Quanto a Salmond, ele foi inocentado das acusações de assédio sexual, recebendo 500 mil libras esterlinas de indenização. Sturgeon foi alvo de duas investigações para determinar se ela esteve envolvida nas irregularidades constatadas no caso. Enquanto um inquérito “independente” (aspas deste autor) encaminhou por isentá-la de responsabilidade, uma comissão parlamentar concluiu que Sturgeon enganou o Parlamento em seu depoimento, conforme relatado no jornal Público, de Portugal

Sturgeon muda o rumo do SNP e das políticas de governo

Para Craig Murray, Sturgeon nunca teve a intenção de alcançar a independência da Escócia.  Nas conferências do SNP, a palavra “independência” sequer aparecia na agenda. Na eleição de 2016 para Holyrood, o Parlamento escocês, Sturgeon declarou que queria que os adeptos da união com o Reino Unido se sentissem seguros em votar pelo SNP.

No entanto, o governo havia prometido em manifesto de 2016, que faria um novo referendo caso ocorresse “uma mudança substantiva nas circunstâncias”. Em 2018, com o voto dos escoceses por larga maioria a favor da permanência na União Européia, contrariamente à opção majoritária no Reino Unido pelo Brexit, estava colocada a circunstância ideal para justificar a convocação de um novo referendo, o Indyref2. O SNP havia declarado diversas vezes que a Escócia não seria tirada na União Européia contra a sua vontade. Chegara a hora da ação ou melhor, a hora da verdade

Em 31 de janeiro de 2020, no mesmo dia em que terminou o período de transição do Brexit, Sturgeon fez um discurso  em que anunciou que acatava a decisão de Boris Johnson, que negara a realização do referendo. Johnson fizera uso da Seção 302 da legislação da Devolução (Scottish Devolution), em que estão estabelecidas as limitações dos poderes do Parlamento escocês.

Para Craig Murray, o governo conservador (de Boris Johnson) não irá nunca conceder a autorização para um referendo que ele sabe que irá perder. Aceitar que o Parlamento de Westminster tenha o poder de veto é totalmente incompatível com o direito à autodeterminação, garantido pela carta da ONU, complementou. 

Murray lembra ainda que a Corte Internacional de Justiça estipulou que o fator principal que determina se um Estado pode ou não se tornar independente não é a legislação do país que poderá sofrer o desmembramento. Se assim fosse, a Estônia não teria se separado da antiga União Soviética, e a Slovênia, da antiga Iugoslávia.

Para consumo interno e aplacar o descontentamento no SNP, Sturgeon se apropriou de uma sugestão que Craig Murray apresentara quatro anos antes, em 2016. Ela convidaria os representantes eleitos na Escócia em todos os níveis – Parlamento local, Westminster, Parlamento Europeu, e líderes dos Conselhos locais – a se reunirem e endossar uma moderna Proclamação de Direitos, através de uma Convenção ConstitucionalNo entanto, a proposta de convocar uma Convenção Nacional logo foi deixada de lado, evidenciando que Sturgeon nunca pretendeu efetivar a medida, avalia Murray.

 O ex-embaixador do Reino Unido critica ainda a mudança na política externa promovida no governo Sturgeon. Foi rompido o enfoque tradicional do SNP de apoio à causa palestina. Passou a haver um alinhamento com a política neo-imperialista de Boris Johnson, como no apoio à narrativa contra a Rússia no caso da Ucrânia, e do uso do agente neurológico Novichok3 (ver no Chacoalhando).

O mesmo ocorreu em relação à Síria, no caso falacioso de uso de armas químicas em Douma (ver no Chacolhando). O líder do SNP no Parlamento de Westminster, Ian Blackford, chegou a pedir para o Reino Unido promover a mudança de regime na Síria.

Murray relata ainda em seu artigo que em 24 de março, dois parlamentares escoceses em Westminster alinhados com Sturgeon, solicitaram uma reunião  com o MI5, o serviço de segurança interna britânico. O objetivo seria discutir a cooperação contra a Rússia. Entretanto, a agência é também encarregada de lidar com situações vistas como ameaça ao Estado, como o nacionalismo escocês e os movimentos ambientalista e antinuclear.

Como Alex Salmond tem um programa na RT, canal russo de notícias em inglês, é possível que o MI5 tente criar uma narrativa de que Salmond esteja atuando em benefício dos interesses russos, em oposição aos do Reino Unido.

Após 14 anos no poder, o SNP deixou de ser um partido com cunho radical, conforme passou a receber os carreiristas que antes estavam vinculados ao Partido Trabalhista. Para estes, não vale a pena apoiar a independência do país e se arriscar a perder as mordomias do poder, avalia Murray. O novo SNP passou a priorizar a política de gênero, se afastando das causas tradicionais. O começo de novos caminhos alternativos pode estar na eleição de 6 de maio, com o voto no Partido Alba.

Alba e a volta de Salmond à cena política

Com a formação do Partido Alba, Salmond fez um retorno retumbante ao  cenário político. No lançamento do partido em 26 de março ele declarou, conforme relatado pelo jornal Público: “Os objetivos estratégicos do partido são claros e inequívocos: conseguir um país independente, bem-sucedido, socialmente justo e ecologicamente responsável. Queremos contribuir para políticas que ajudem na recuperação econômica da Escócia e que construam uma plataforma independentista, para encarar as novas realidades políticas”.

Declaração para a Escócia, 6 de abril de 2021

Segue trecho do discurso de Alex Salmond (assista ao vídeo) no aniversário de 701 anos da Declaração de Arbroath, a Declaração de Independência da Escócia.

“Proclamamos aqui o direito soberano do povo escocês de determinar a forma de governo mais adequada às suas necessidades, e declaramos e nos comprometemos que, em todas as nossas ações, os interesses (do povo) serão primordiais. ”Declaramos e nos comprometemos ainda que nossas deliberações serão direcionadas para os fins seguintes:

– Assegurar o direito soberano do povo escocês em agir através de seu Parlamento para assegurar a independência.

– Mobilizar a opinião escocesa e internacional para assegurar que este direito seja respeitado e cumprido.

Salmond apresentou rotas alternativas que poderão ser utilizadas para se alcançar a independência, a partir do estabelecimento de uma Convenção para Independência, composta dos representantes eleitos em todos os níveis.

Segundo ele, as cartas nas negociações com o governo do Reino Unido poderão incluir o referendo, em concordância com o que é estipulado pela Seção 30, mas também um plebiscito ou outro procedimento democrático, assim como uma ação judicial interna ou internacional, iniciativas diplomáticas, além de manifestações populares pacíficas.

Escócia: Declaração de Arbroath, com os selos de autentificação
Detalhe da Declaração de Arbroath, com os selos de autenticação, 6 de abril de 1320 \ Arquivo Nacional da Escócia

A independência da Escócia e a geopolítica internacional

Quando do referendo de 2014, o britânico George Robertson ex-secretário geral da OTAN  disse que a fragmentação da Grã-Bretanha corresponderia a um cataclismo. Em sua avaliação, como o Reino Unido é o principal aliado de Washington no cenário global, o Ocidente ficaria desfalcado de um sério parceiro, no momento em que a intimidação territorial continuada requer “solidez e sangue frio”.

Robertson alertou que com a independência da Escócia, o papel da Grã-Bretanha no Ocidente ficaria prejudicado, alterando a balança global de poder. Ele lembrou ainda que, quando da campanha para o referendo, o SNP prometera remover do oeste da Escócia a frota de submarinos Trident, da Grã-Bretanha. Com certeza este é um compromisso que o Partido Alba irá encampar. 

Notas do autor:

  1. Mensagens de repúdio ao processo político movido contra Craig Murray podem ser enviadas ao procurador geral do escritório da Coroa: The Right Honourable James Wolffe, Her Majesty’s advocate, pelo e.mail: PDCAseriouscasework@copfs.gov.uk
  2. Legislação de 1998 do Reino Unido referente ao Estatuto da Devolução estabelece, na Seção 30, que qualquer iniciativa de ampliação dos poderes do Parlamento da Escócia precisa passar pelo crivo de Westminster. Em março de 2017, o governo escocês solicitou a realização de um segundo referendo de independência, que foi recusado. Em 2019, Nicola Sturgeon renovou o pedido, também sem sucesso.
  3. A Rússia foi acusada de usar o agente neurológico Novichok contra o ex-espião Sergei Skripal e o opositor Alexei Navalny.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Chocolate de Páscoa com recheio de trabalho infantil

Por Ruben Rosenthal

Os problemas estruturais que causam o trabalho infantil nas plantações de cacau só podem ser resolvidos através de cooperação entre os governos dos países produtores e consumidores, indústria e organizações não governamentais. 

Grande parte do chocolate consumido no mundo é produzido com cacau obtido com trabalho infantil
Chocolate produzido com exploração do trabalho infantil \ Foto: The New Daily

A Páscoa judaica celebra a libertação dos escravos hebreus do Egito. A Páscoa cristã celebra a ressurreição de Jesus, e incorporou a crença pagã de associar ao ovo uma simbologia de renascimento; com os confeiteiros franceses foi introduzido o costume dos ovos de chocolate. Mas o chocolate consumido na Páscoa cristã está associado a práticas de escravidão e de exploração de trabalho infantil de risco em países produtores de cacau. As crianças da África Ocidental ainda aguardam por uma Páscoa que possam comemorar em liberdade.

Alguns dos países produtores, como Gana e Costa do Marfim, resolveram tomar medidas unilaterais para conseguir melhores preços para as safras dos grãos de cacau. A intenção é de reverter a pobreza no campo, principal causadora do trabalho infantil. No entanto, a reação de parte da indústria foi negativa e colocou em rota de colisão países fornecedores de matéria-prima e multinacionais do chocolate. 

A cadeia produtiva: do cacau ao chocolate

A indústria de chocolate rende 100 bilhões de dólares anuais, cabendo à Gana cerca de 2 bilhões e à Costa do Marfim, 4 bilhões. Estes dois países respondem por 2/3 da produção mundial de cacau. No entanto, o cultivo está associado à baixa remuneração dos agricultores, ao trabalho infantil, e vem causando destruição de florestas para aumento da produção.

Com a concentração internacional do mercado de cacau, grande parte das atividades é controlada pelo Big Chocolate, o pequeno grupo de transnacionais que inclui empresas processadoras dos grãos e fabricantes de chocolate.

O cacau de Gana e da Costa do Marfim é geralmente adquirido por empresas processadoras dos grãos como a suíça Barry Callebaut, Cargill, ECOM e Olam. Dentre as principais empresas que produzem chocolate incluem-se a Nestlé, Hershey, Mars, Ferrero, além da própria Barry Callebaut.

Trabalho infantil nas fazendas de cacau

Segundo estudo de pesquisadores brasileiros, as violações de direitos humanos na cadeia produtiva de cacau na África Ocidental estão diretamente relacionadas com a atuação das empresas multinacionais. A estrutura oligopolista dessas grandes empresas e o grande poder de barganha que possuem no mercado mundial contribuiriam para a perpetuação de um círculo vicioso de pobreza, e assim, para o aumento do trabalho infantil na produção de cacau.

Muitas destas crianças são oriundas de outros países, onde foram vendidas por seus pais. Por outro lado, a situação de pobreza nas fazendas de cacau requer por vezes que os próprios filhos dos donos das plantações se envolvam na colheita, deixando assim de frequentar a escola.

A estimava do Fórum Internacional de Direitos do Trabalho (ILRF, na sigla em inglês) é de que na África Ocidental o número de crianças em situação de trabalho infantil no setor de cacau esteja entre 500.000 e 1.500.000. Nas atividades extrativas, crianças costumam lidar com ferramentas de corte afiadas e com o uso de pesticidas.

criança faz trabalho de risco na colheita do cacau
Criança usando facão na colheita do cacau, África Ocidental, 2015 \ Foto: Daniel Rosenthal/Laif

O pequeno tamanho dos lotes familiares também não ajuda na obtenção de uma remuneração digna com a venda dos grãos. A maioria das plantações tem tamanho inferior a 10 hectares (0,1km quadrados). Um produtor que dispõe de uma extensão de terra equivalente a 2 hectares e produtividade média, ganha cerca de U$755,30 por ano na Costa do Marfim e U$ 983,12 em Gana. Por vezes  os produtores se associam em cooperativas de até 500 membros, conforme também relatado no estudo brasileiro. 

O trabalho infantil na indústria de chocolate começou a chamar a atenção da comunidade internacional em 2000, quando o documentário da BBCSlavery: a Global Investigation (Escravidão: uma Investigação Global) expôs os abusos praticados em Gana e na Costa do Marfim. Neste documentário foi relatado que centenas de milhares de crianças de Burquina Faso, Máli e Togo estavam sendo compradas de suas famílias, e vendidas como escravas para agricultores na Costa do Marfim.

A pressão internacional

Em resposta à indignação da comunidade internacional, grandes empresas da indústria de chocolate desenvolveram políticas para a cadeia produtiva. Uma iniciativa vinda do setor privado se deu através das organizações Fair Trade (Comércio Justo), que procuram garantir que cadeias globais e empresas transnacionais não desrespeitem direitos humanos e sociais. Os produtos passariam a receber certificados de “livre de trabalho infantil”, e de que o produtor recebeu um preço justo pela matéria prima.

O setor privado promoveu diversas outras iniciativas voltadas para a questão social na base da pirâmide da cadeia produtora do chocolate. International Cocoa Initiative (ICI), World Cocoa Foundation, Roundtable for a Sustainable Cocoa Economy e Bill&Melinda Gates Foundation foram algumas das organizações que estiveram envolvidas com projetos. Algumas empresas, como a suíça Nestlé e a britânica Cadbury, lançaram seus próprios planos.

Entretanto, conforme relatado pela plataforma online Swissinfo.ch, um estudo conduzido pela Universidade de Chicago verificou que o trabalho infantil na cadeia de fornecimento do cacau na Costa do Marfim e em Gana aumentou de 31 para 45% entre 2008 e 2019, apesar do compromisso das multinacionais do Big Chocolate em erradicar esta prática nas regiões de cultivo.

A indústria agora avalia que “as metas foram definidas sem uma compreensão total da complexidade e da escala de um desafio fortemente associado à pobreza na África rural”. Para a ICI, “uma das lições aprendidas é que não funciona a abordagem que pune agricultores por usarem seus filhos para ajudar na colheita, quando são poucas as alternativas”. Além disso, os rendimentos dos agricultores ficam ao sabor dos preços globais de mercado, que despencam quando a safra é mais abundante.

Novas abordagens no combate ao trabalho infantil

A Unicef está incentivando a indústria a investir em saúde, alimentação e educação para romper com o ciclo de pobreza. E parte da indústria parece estar aderindo a esta visão, segundo relatado pelo swiss.co. A Nestlé se comprometeu em priorizar saneamento, água e igualdade de gênero em seu Plano do Cacau; a empresa também declarou que está construindo escolas em algumas aldeias.

Ainda segundo a matéria,  empresa Barry Callebaut desenvolve um projeto que está ajudando os agricultores a aproveitarem melhor suas terras, utilizando parte delas para cultivo de produtos agrícolas de subsistência e criação de pequenos animais, como galinhas. Desta forma não haveria dependência econômica exclusivamente no comércio de cacau.

Por outro lado, o governo suíço está investindo em parcerias com a indústria suíça do cacau e com ONGs, como parte da Plataforma Suíça para o Cacau Sustentável (SWISSCO), fundada em 2018.

A escala destas iniciativas é que determinará sua efetividade na solução dos problemas sociais e econômicos que envolvem os países produtores de cacau da África Ocidental. No entanto, alguns governantes africanos não estão dispostos a aguardar mais tempo pelo resultados das iniciativas vindas da indústria do chocolate.

A queda de braço com o Big Chocolate

Gana e Costa do Marfim resolveram impor unilateralmente a partir de outubro de 2020, um adicional de 400 dólares no preço da tonelada de grão. A taxa denominada “diferencial de condição de vida” (LID, na abreviatura em inglês) possibilitaria aos fazendeiros, enviar os filhos para a escola, arcar com despesas médicas e uma melhor alimentação.

Para alguns dos grandes produtores e comerciantes de chocolate existe de fato a preocupação que seus nomes não estejam associados com aumento de pobreza, trabalho infantil e degradação ambiental. A empresa suíça Barry Callebaut, maior compradora mundial de cacau, apoiou com cautela a nova taxa.

Entretanto, algumas reações foram negativas. Para Michiel Hendriksz, ex-comerciante de commodities, a imposição da taxa extra de 400 dólares está fadada ao fracasso. Conforme ele relatou ao Financial Times, “a LID seria uma má jogada de pôquer por quem não deveria jogar”. Para Hendriksz, “seria melhor usar parte das terras para plantar produtos agrícolas voltados para alimentação, e com isto reduzir a produção do cacau, fazendo os preços subirem”. 

Em carta enviada ao Financial Times, publicada em 1 de dezembro, Gana e Costa do Marfim acusaram produtores de chocolate de agir de má fé para não pagar a taxa LID. Foram citadas na carta as empresas Mars, Hershey e Olam, além de quatro pequenos comerciantes de cacau, que se defenderam das acusações. 

O presidente de Gana dobra a aposta

Em 28 de fevereiro deste ano, em discurso histórico perante os membros do Conselho Federal da Confederação Suíça, o presidente de Gana anunciou (ver vídeo) que seu país não quer continuar a ser dependente da exportação de matéria prima. O presidente Nana Akufo-Addo acrescentou que, “no caso do cacau, a intenção é de incrementar o processamento em Gana visando produzir mais chocolate no país”.

Após enaltecer a contribuição da Suíça com o desenvolvimento de Gana, o presidente foi taxativo ao afirmar que “não poderá haver prosperidade no futuro para o povo de Gana se forem mantidas as atuais estruturas econômicas”. Acrescentou ainda que a intenção de seu governo é de “adicionar valor agregado às matérias-primas do país, industrializar e aumentar a produção agrícola”. Ou seja, não mais exportar cacau sem beneficiamento prévio dos grãos.

Discurso do Presidente Nana Akufo-Addo anunciando a mudança na política para o cacau
Presidente de Gana anuncia para o Conselho da Suíça, a nova política para o cacau, 28 de fevereiro de 2021

Ainda são imprevisíveis os efeitos que a nova política – se for implementada a fundo, poderá trazer para a produção do chocolate suíço e para o mercado internacional de chocolate. Gana é o maior exportador de grãos de cacau para a Suíça, e o segundo produtor mundial, atrás apenas da Costa do Marfim.

O presidente Nana Akufo-Addo precisará fazer uso de uma visão sistêmica para conseguir trazer benefícios efetivos para o setor cacaueiro de seu país. Um caminho a considerar é contornar a intermediação das Trade Houses, as empresas de comércio que lidam com importação e exportação de commodities.  

Por um lado, é arriscado colocar todas as cartas no chocolate Made in Gana. O país não possui uma indústria de leite de porte suficiente, o que obrigaria recorrer à importação. Além disso, o custo da eletricidade é elevado, o que encareceria o preço final do chocolate, devido à necessidade do uso de refrigeração na fabricação e conservação.

O beneficiamento mais simples seria moer os grãos de cacau em Gana antes da exportação. Outra possibilidade seria produzir o licor e a manteiga de cacau, que não precisam ser mantidos em refrigeração. Iniciativas como a da Barry Callebaut de incentivar a diversificação da produção nas terras agriculturáveis, se aplicadas em larga escala nos países produtores, podem resultar em melhores preços de venda do cacau no mercado internacional. Ficará alterado poder de barganha com as multinacionais do Big Chocolate.

Mas na queda de braço com o Big Chocolate, os países produtores contam com aliados. Em 12 de fevereiro foi aberta uma ação na capital norte-americana pela organização International Rights Advocates (IRA) a favor de oito jovens adultos originalmente do Mali que, quando crianças, haviam sido forçados a trabalhar sem pagamento em plantações na Costa do Marfim. A ação foi movida contra a Nestlé, Mondelez, Cargill, Barry Callebaut, Mars, Olam e Hershey. Se defendendo,  as empresas proclamam estar comprometidas com a erradicação do trabalho infantil na cadeia de suprimento do cacau.

Para Nicko Debenham, chefe de sustentabilidade da Barry Callebaut, os problemas estruturais que causam o trabalho infantil nas plantações de cacau só podem ser resolvidos através de cooperação entre os governos dos países produtores e consumidores, indústria e organizações não governamentais. 

Enquanto isso, no Brasil…

Em artigo de novembro de 2019 publicado pelo Brasil de Fato, foi relatado que as multinacionais Nestlé, Mondelez, Barry Callebaut, Cargill e Olam Brasil exploram o trabalho infantil e o trabalho escravo em lavouras de cacau na Bahia e no Pará. As empresas já foram notificadas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), mas não assumiram responsabilidade pelo problema.

E a propósito, qual o recheio do ovo de chocolate que você comprou para esta Páscoa?

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo Blogue Chacoalhando.  

Armas químicas na Síria: manifesto denuncia armação contra o presidente Assad

Por Ruben Rosenthal

Simplesmente não é cabível para uma organização científica como a OPAQ recusar-se a responder abertamente às críticas e preocupações de seus próprios cientistas, e estar associada a tentativas de desacreditar e difamar estes cientistas. 

Governo sírio bombardeia áreas controladas pelos rebeldes em Douma, 6 de abril de 2018
Conflito em Douma, 6 de abril de 2018, véspera do suposto ataque com armas químicas \ Foto: SIPA EUA/AP

O embaixador brasileiro José Maurício de Figueiredo Bustani, primeiro diretor-geral da OPAQ, a Organização para a Prevenção de Armas Químicas, lidera uma carta aberta encaminhada ao atual diretor-geral, o espanhol Fernando Arias. O manifesto de 11 de março clama pelo esclarecimento das controvérsias acerca da investigação sobre o suposto uso de armas químicas em Douma, na Síria, em 2018.

O relatório preparado pelos inspetores da missão de campo (Fact Find Mission) enviada a Douma foi adulterado para incriminar o presidente sírio Bashar al-Assad; a farsa só foi descoberta porque o relatório original foi vazado. Na sequência, inspetores que defenderam o respeito às conclusões da missão de campo tiveram a credibilidade e idoneidade atacadas.

Para os signatários da carta, “o caso em questão ameaça prejudicar seriamente a reputação e credibilidade da OPAQ, e abalar seu papel vital de busca da segurança e da paz internacional”. O manifesto encabeçado pelo embaixador Bustani é apoiado por ex-inspetores da OPAQ, além de renomados acadêmicos, intelectuais, políticos, jornalistas e cineastas de diversos países.

Para melhor entendimento do conteúdo da carta, cuja tradução é reproduzida neste artigo, é necessário apresentar antes um breve histórico dos eventos ocorridos até agora.

O uso de armas químicas em Douma

Em 7 de abril de 2018, tropas sírias engajadas no combate a rebeldes islâmicos fechavam o cerco à cidade de Douma, leste de Damasco. Foi quando chegaram aos lares, em todo o mundo, cenas de civis espumando pela boca e aparentemente sufocando até a morte pela suposta inalação de um gás letal. As fotos e filmagens foram feitas pela Defesa Civil Síria-Capacetes Brancos, grupo fundado por James Le Measurier, apoiador dos jihadistas.

Crianças usando máscaras para inalar oxigênio, após suposto ataque com gases químicos em Douma, Síria.. A foto foi obtida pela Defesa Civil Síria-Capacetes Brancos, grupo fundado por James Le Mesurier, que tinha vínculos com extremistas jihadistas.
Criança recebendo oxigênio através de máscara, após suposto ataque com gás cloro em Douma \ Foto: Defesa Civil Síria-Capacetes Brancos, via AP

Mesmo antes da comprovação de qualquer responsabilidade do governo sírio, mísseis cruise dos Estados Unidos foram lançados contra a Síria, com apoio do Reino Unido e da França. Em 21 de abril uma missão de investigação da OPAQ foi enviada a Douma. No relatório final publicado pela OPAQ em 1 de março de 2019 constava que os dois cilindros contendo resíduos de gás cloro, encontrados em destroços em Douma, foram atirados de helicópteros. Como o espaço aéreo era controlado pelo governo sírio, o mesmo foi imediatamente responsabilizado na mídia pelo uso de armas químicas contra a população civil.

No entanto, documentos vazados possibilitaram que em maio de 2019 se tomasse conhecimento do relatório original, “Avaliação de Engenharia dos dois cilindros observados no incidente em Douma-Sumário Executivo”, datado de fevereiro de 2019. O documento estava assinado por Ian Henderson, provável chefe do subgrupo de engenheiros da missão de investigação da OPAQ.

Ao contrário do que constava no relatório final, os inspetores haviam na verdade concluído que os dois cilindros encontrados nos escombros de locais bombardeados por tropas do governo sírio foram provavelmente lá colocados manualmente, e não atirados de helicópteros. Com isto ficava evidenciado que o incidente não passara de uma armação para incriminar Assad e justificar o ataque pelas forças da OTAN.

Do relatório original dos inspetores: Local 4: A cama: Em resumo, as observações nas cenas dos dois locais e as análise subsequentes sugerem que existe uma grande possibilidade que ambos os cilindros foram manualmente colocados nestes dois locais e não arremessados (Avaliação 33)
Cilindro com traços de cloro, em cima de uma cama em casa bombardeada \ Foto: relatório da missão de campo da OPAQ

A adulteração só foi possível porque um novo grupo foi encarregado de elaborar o relatório final, consistindo basicamente de jovens inspetores em começo de carreira na OPAQ. Com a proximidade do término do mandato do Dr. Brendan Whelan em setembro de 2018 como coordenador científico da missão de campo, ele foi instruído a repassar toda a documentação disponível ao novo grupo. Esta alteração no grupo possibilitou que adulterações nas conclusões dos inspetores de campo fossem incluídas no relatório final publicado em 1 de março de 2019.

O vazamento foi divulgado pelo jornalista britânico Peter Hitchens, no Mail on Sunday, e por Robert Fisk, no The Independent, e na sequência, pelo blogue Chacoalhando.

Ao se dar conta da manipulação, o Dr. Brendan Whelan enviou um e.mail de protesto em 22 de junho de 2019 ao chefe de gabinete da OPAQ, Robert Fairweather. A mensagem de Whelan foi vazada e publicada por Peter Hitchens e pelo Wikileaks em novembro de 2019.

A resposta do chefe de gabinete Fairweather ao e.mail enviado por Whelan consta de novo vazamento de documentos internos da OPAQ publicados pelo The Grayzone em dezembro de 2020. Fairweather não negou que o relatório fora editado, mas insistiu que o procedimento não foi ordenado pelo diretor-geral. 

Entretanto, o chefe de gabinete solicitou que o e.mail de Whelan fosse deletado por todos que o receberam. Assim, deixaria de existir um registro do protesto de Whelan. Pelo visto, nem todos aceitaram a censura, pois a reclamação de Whelan chegou ao conhecimento de Hitchkens e do Wikileaks em novembro de 2019.

Os documentos obtidos pelo The Grayzone mostram também que alguns executivos da OPAQ fizeram elogios a Whelan, por sua integridade.  Em privado, foram feitas críticas à forma como foi manipulado o relatório técnico original dos inspetores. Um destes executivos, mesmo sendo contra a adulteração do relatório técnico, expressou receio que as críticas fossem tornadas públicas “para não fortalecer a narrativa russa”.

Campanha de difamação dos inspetores

Desde a revelação da manipulação do relatório, Ian Henderson e Brendan Whelan passaram a ser submetidos a uma campanha de difamação. Seus detratores incluem o atual diretor-geral da OPAQ, embaixadores de países membros da OTAN, e supostos oficiais anônimos da OPAQ.

Em fevereiro de 2020 o The Grayzone publicou outro documento vazado, datado do mês anterior, contendo o testemunho do inspetor Ian Henderson sobre a missão Douma perante uma sessão especial do Conselho de Segurança da ONU. Henderson expôs as falhas do inquérito da OPAQ, como os principais resultados foram manipulados, e a pressão exercida pelos Estados Unidos para influenciar a investigação.

Em 6 de fevereiro o diretor-geral Fernando Arias encaminhou um documento aos Estados Partes da Convenção de Armas Químicas, em que ele apresentou suas considerações sobre os resultados do que chamou de “investigação independente sobre possíveis quebras de confidencialidade”, como resultado do vazamento de maio de 2019. Os inspetores são mencionados como A e B, e se tratam provavelmente de Henderson e Whelan.

Desde então, a campanha contra os inspetores se intensificou, inclusive no Conselho de Segurança da ONU. EUA, Reino Unido e França associaram os questionamentos feitos pelos inspetores ao relatório da OPAQ como sendo parte de uma campanha de desinformação por parte da Rússia e da Síria. Em outubro do ano passado, estes mesmos países impediram que o embaixador Bustani pudesse apresentar seu testemunho na ONU a favor dos inspetores com quem trabalhara durante sua gestão como diretor-geral da OPAQ.  

Este foi o cenário que precedeu a elaboração da carta aberta em que os signatários cobram do atual diretor-geral, mais transparência interna na OPAQ.

Declaração de Preocupação, 11 de março de 2021: Investigação da OPAQ sobre o suposto uso de armas químicas em Douma, na Síria.

“Desejamos expressar nossa profunda preocupação com a prolongada controvérsia e com as consequências políticas envolvendo a OPAQ, e sua investigação dos supostos ataques com armas químicas em Douma, na Síria, em 7 de abril de 2018.

Desde a publicação pela OPAQ de seu relatório final em março de 2019, uma série de eventos preocupantes levantaram sérias e substanciais inquietações a respeito da condução da investigação. Estes eventos incluem casos em que inspetores da OPAQ envolvidos na investigação identificaram graves irregularidades procedimentais e científicas, o vazamento de uma quantidade significativa de documentos confirmatórios, e declarações condenáveis proferidas em reuniões do Conselho de Segurança da ONU.

Está agora bem estabelecido que alguns inspetores seniores envolvidos com a investigação, um dos quais desempenhou um papel central, rejeitam como a investigação obteve suas conclusões. A gestão da OPAQ está sendo agora acusada de aceitar resultados não comprovados ou possivelmente manipulados, com sérias implicações geopolíticas e de segurança. Os apelos de alguns membros do Conselho Executivo da OPAQ para permitir que todos os inspetores fossem ouvidos foram barrados.

As preocupações dos inspetores são compartilhadas pelo primeiro diretor-geral da OPAQ, José Bustani, e um número significativo de eminentes indivíduos pediu transparência e responsabilidade por parte da OPAQ. O próprio Bustani foi recentemente impedido por membros importantes do Conselho de Segurança de participar de uma audiência sobre o dossiê sírio.

Conforme declarou o embaixador Bustani em um apelo pessoal ao diretor-geral, se a Organização está confiante na condução de sua investigação sobre Douma, então não deveria ter dificuldade em levar em conta as preocupações dos inspetores.

Até o momento, infelizmente, a alta administração da OPAQ falhou em responder adequadamente às alegações contra ela e, apesar de fazer declarações em contrário, entendemos que nunca permitiu que opiniões ou preocupações dos membros da equipe de investigação fossem ouvidas, ou mesmo encontrou-se com a maioria deles. Em vez disso, contornou a questão, ao lançar uma investigação sobre um documento vazado relacionado ao caso Douma, e ao condenar publicamente seus inspetores mais experientes por se manifestarem.

Em um preocupante acontecimento recente, foi feita a falsa alegação de que o rascunho de uma carta teria sido enviado pelo diretor-geral a um dos inspetores dissidentes, e que o mesmo fora vazado para um site de investigação1 de “fontes abertas”, em uma aparente tentativa de difamar o ex-cientista sênior da OPAQ. O site de “fontes abertas” publicou então o rascunho da carta, juntamente com a identidade do inspetor em questão.

Ainda mais alarmante, em uma série de rádio da BBC4 transmitida recentemente, uma fonte anônima, supostamente ligada à investigação de Douma pela OPAQ, deu uma entrevista à BBC que contribuiu com a tentativa de desacreditar não apenas os dois inspetores dissidentes, mas até mesmo o embaixador Bustani. É importante ressaltar que vazamentos recentes, em dezembro de 2020, evidenciaram que vários funcionários seniores da OPAQ apoiaram um inspetor da OPAQ que havia se manifestado a respeito de má conduta.

A questão ameaça prejudicar gravemente a reputação e a credibilidade da OPAQ, e minar seu papel vital na busca da paz e segurança internacionais. Simplesmente não é cabível para uma organização científica como a OPAQ recusar-se a responder abertamente às críticas e preocupações de seus próprios cientistas, e estar associada a tentativas de desacreditar e difamar estes cientistas.

Além disso, a presente controvérsia em relação ao relatório Douma também levanta preocupações com relação à confiabilidade de relatórios anteriores das missões de campo, incluindo a investigação do alegado ataque em Khan Shaykhun2 em 2017.

Acreditamos que os interesses da OPAQ são melhor atendidos com o Diretor-Geral proporcionando um fórum transparente e neutro, no qual as preocupações de todos os investigadores possam ser ouvidas, bem como garantindo que uma investigação científica e totalmente objetiva seja conduzida.

Para tanto, apelamos ao diretor-geral da OPAQ para que encontre a coragem para abordar os problemas internos da Organização relacionados com esta investigação, e garantir que os Estados-Partes e as Nações Unidas sejam informados em conformidade. Desta forma, esperamos e acreditamos que a credibilidade e integridade da OPAQ possam ser restauradas.”

Notas do autor:

  1. Trata-se do site Bellingcat, que recebe financiamento da OTAN.
  2. Em abril de 2017 ocorreu um ataque com gás sarin em Khan Shaykhun, noroeste da Síria, em que teriam morrido mais de 70 pessoas, incluindo 20 crianças
  3. O autor considera o embaixador José Maurício Bustani é um brasileiro que oferece um raro exemplo de integridade moral e coragem pessoal. Vale lembrar as ameaças de morte que ele e sua família receberam, quando era diretor-geral da OPAQ, vindas diretamente de John Bolton, então subsecretário no governo de George W. Bush. 

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Covid-19: a ética de inocular o vírus em cobaias humanas

Por Ruben Rosenthal

Mesmo com a aprovação do estudo do Imperial College pela Autoridade de Pesquisa em Saúde do Reino Unido, os testes com o vírus ativo da Covid-19 em voluntários estão gerando forte controvérsia.

Testes de inoculação em cobaias humanas com o vírus Sars-CoV2 ativo
Testes de desafio em humanos com vírus da Covid-19 \ Foto: Sigrid Gombert/Getty Images

O Imperial College de Londres está selecionando voluntários para se submeterem em breve a ensaios clínicos de “desafio em humanos” com o vírus Sars-CoV-2. Neste tipo de estudo clínico o corpo humano é desafiado pela inoculação do vírus ativo, não atenuado1.  

Os experimentos incluem aplicar em pacientes saudáveis uma vacina ainda sem eficácia comprovada, e então infectar deliberadamente os voluntários. No entanto, mesmo com a aprovação do estudo do Imperial College pela Autoridade de Pesquisa em Saúde, os testes com o vírus ativo da Covid-19 em voluntários estão gerando forte controvérsia. 

Os médicos utilizarão o vírus original que circula no Reino Unido desde março de 2020, por existirem menos informações disponíveis sobre as novas variantes. A pesquisa irá avaliar o desenvolvimento de anticorpos e a resistência à evolução da doença. Segundo o líder da pesquisa, o Dr. Chris Chiu do Departamento de Doenças Infecciosas do Imperial College, o objetivo final é testar rapidamente quais vacinas e tratamentos funcionam melhor no combate à Covid-19, acelerando seu desenvolvimento.  

Apoiada por um investimento do governo do Reino Unido de 33,6 milhões de libras esterlinas, a pesquisa será realizada por uma parceria entre Imperial College, Royal Free Hospital e a empresa clínica hVIVO. 

A investigação envolverá até 90 voluntários adultos saudáveis com idades entre 18 e 30 anos, por estes apresentarem “menor risco de complicações graves decorrentes do coronavírus”. A saúde dos participantes será monitorada em uma unidade de quarentena no Royal Free Hospital, em Londres. Os voluntários também serão acompanhados por um ano após a participação nos testes. 

A ética dos testes de desafio em cobaias humanas 

Estudos clínicos de desafio em humanos já foram realizados anteriormente para outros vírus, como o da cólera.  Existe a tendência de se considerar como éticos os estudos em que a adesão dos voluntários for espontânea, sem o cometimento de abusos ou de pressões sobre indivíduos ou outros países.  

No caso da pandemia da Covid-19, o professor e especialista em ética da Universidade de Oxford, Julian Savulescu, se declara a favor dos estudos de desafio, conforme relatado pela BBC-Brasil: “Em uma pandemia, tempo é vida. Até agora, mais de 1 milhão de pessoas morreram”.  

Por outro lado, o mesmo artigo da BBC-Brasil relata também que a professora de bioética da Escola de Medicina Albert Einstein de Nova Iorque, Ruth Macklin, considera que é eticamente injustificável “acelerar pesquisas envolvendo uma doença grave para a qual inexiste tratamento eficaz”. Esta posição é compartilhada por  Angela Rasmussen, virologista da Universidade de Columbia, que avalia que os estudos de desafio não trariam dados úteis para além do grupo participante do estudo.  

Para Christine Grady2, chefe do Departamento de Bioética do Centro Clínico no National Institutes of Health, “não está claro se os estudos clínicos de desafio irão mesmo apressar as pesquisas”, conforme artigo na Forbes.  

Willowbrook, a antítese da ética médica 

A história do desenvolvimento de vacinas no Ocidente, iniciada com a descoberta da vacina contra a varíola pelo britânico Edward Jenner em 1798, mostra que nem sempre foram atendidos os padrões éticos necessários. Uma das mais controversas pesquisas de desenvolvimento de vacinas com inoculação do vírus ativo ocorreu nos Estados Unidos, no período entre 1955 e 1970.  

Ainda segundo o mesmo artigo da Forbes, um experimento de inoculação do vírus da hepatite foi realizado em crianças com deficiências mentais da Escola Estadual de Willowbrook, Staten Island, Nova York. O estudo fora autorizado pelo Departamento de Higiene Mental do estado.  

Estudos de desafio em crianças com deficiência mental foram realizados na Escola Estadual Willowbrook, Nova Iorque
Crianças com deficiência mental serviram de cobaias em ensaios clínicos com vírus da hepatite \ Escola Estadual Willowbrook. Fotos: Bob Adelman

A busca pela vacina contra a hepatite assumira grande relevância para os Estados Unidos no começo da década de 50, com a constatação de que durante a Segunda Guerra Mundial cerca de 50.000 militares das tropas norte-americanas foram afetados pela doença causada pelos múltiplos vírus da hepatite. 

Segundo o relato da mãe de uma menina com grau severo de autismo, para conseguir uma vaga em Willowbrook, ela precisou consentir que a filha Nina se participasse dos testes de desenvolvimento da vacina contra a hepatite. A menina foi uma das 50 crianças submetidas aos estudos conduzidos pelo Dr. Saul Krugman, respeitado pediatra de Nova York. 

Os ensaios clínicos incluíram infectar as crianças, contaminando com vírus o leite achocolatado que era dado a elas. Os testes eram aplicados repetidas vezes em uma mesma criança, para avaliar o tempo para surgimento de sintomas após contágio e se a imunidade seria alcançada em caso de novas exposições ao vírus. Os resultados foram publicados no New England Journal of Medicine, na Lancet, e no Journal of the American Medical Association. 

Em 1966, o renomado médico Henry K. Beecher, especialista em ética médica, publicou um artigo em que citou Willowbrook como exemplo de experimento antiético, acrescentando “não ser correto prejudicar uma pessoa para benefício de outras”. Cinco anos depois, o comitê editorial da Lancet se desculpou “pela publicação de uma pesquisa que não traria benefício direto para as crianças infectadas”. 

O filho do Dr. Krugman, também um médico pediatra, defende o pai: “Ele certamente pensou que estava fazendo uma contribuição para a pesquisa de uma doença infecciosa”. De fato, a pesquisa realizada em Willowbrook acelerou a descoberta da vacina para a hepatite.   

No entanto, ao final da década de 60, o Dr. Baruch Blumberg descobriu de forma independente a vacina para a hepatite B, examinando amostras de sangue e testando as funções do fígado em crianças e adultos já infectados. A pesquisa rendeu a Blumberg o prêmio Nobel de Medicina.  

O experimento em Willowbrook representa apenas um dos vários estudos clínicos anti-éticos conduzidos em crianças, presidiários e grupos minoritários. Este foi o caso dos falsos tratamentos em Tuskedee para avaliar a evolução da sífilis, e que levaram à morte de centenas de negros portadores da doença, quando já existia a cura.  

Decorre então o questionamento se é realmente necessário ou correto arriscar a saúde de uns poucos para o benefício de muitos. Existe sempre o risco que motivações políticas possam relegar a um segundo plano a segurança dos voluntários envolvidos na pesquisa, na busca de resultados rápidos. Por outro lado, alguns médicos que se envolveram anteriormente nesta modalidade de ensaios clínicos com cobaias humanas cometeram abusos inaceitáveis.  

Para muitos, Saul Krugman fez a coisa certa com seus estudos em Willowbrook.  E ele recebeu a recompensa por seu trabalho, se tornando presidente da Sociedade Americana de Pediatria em 1972, mesmo após amplamente expostas  na mídia as denúncias sobre a pesquisa. 

Estudos clínicos de desafio humano deveriam requerer a aprovação e fiscalização por uma comissão de ética independente, para evitar eventuais ingerências políticas e desvios de conduta médica.  

Notas do autor 

  1. As vacinas fazem uso do vírus causador de uma doença, mas em sua forma atenuada ou inativada. 
  2. Christine Grady é esposa do Dr. Anthony Fauci, o renomado imunologista estadunidense. 

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

BBC e Reuters na guerra híbrida contra a Rússia

Por Ruben Rosenthal

Cada vez mais, BBC e Reuters vêm desempenhando um papel agressivo na demonização de governos que não seguem a cartilha imposta por Washington e Londres

Reino Unido financiou BBC e Reuters em campanha de desinformação contra a Rússia
 Monumento em homenagem a dois príncipes que expulsaram invasores. Ao fundo, a Catedral de São Basílio, Moscou

Documentos vazados por hackers, publicados em artigo de Max Bluementhal no The Grayzone em fevereiro, mostram que BBC e Reuters participaram de programas secretos do Ministério das Relações Exteriores (FCO) do Reino Unido. Através de campanhas de desinformação, os programas pretenderam enfraquecer a influência regional da Rússia, bem como minar a autoridade e desestabilizar o governo Putin. O governo britânico faz assim pleno uso de táticas da guerra híbrida, que o Ocidente tanto acusa a Rússia de praticar.

A atuação do governo britânico se deu através do Departamento de Contra Desinformação e de Desenvolvimento de Mídia (CDMD, na sigla em inglês), cujas atividades são consideradas de segurança nacional. O CDMD/FCO fez uma convocação aos veículos de comunicação interessados em atuar para “conter a narrativa do governo russo”, e “enfraquecer a influência da Rússia junto aos países vizinhos”.  

BBC e Reuters submeteram propostas ao CDMD de estabelecer redes de influência na Rússia e países vizinhos que promovessem narrativas favoráveis a OTAN. Porta-voz da Reuters confirmou a autenticidade dos documentos, argumentando, no entanto, que as atividades não seriam secretas, e que faziam parte de um “trabalho de décadas em prol da imprensa livre a nível global”.

A Reuters já fora secretamente financiada pelo governo britânico para colaborar em propaganda anti-soviética nas décadas de 60 e 70, em atuação com o serviço de inteligência M16. A informação consta de documentos oficiais que tiveram o acesso liberado em janeiro de 2020. A BBC atuou como intermediária nos pagamentos à Reuters.

Ambos os veículos de mídia declararam que o que acontecera anteriormente não mais se repetiria, pois seus princípios são fundamentados na independência e na verdade. Os novos vazamentos mostraram exatamente o contrário. Cada vez mais, BBC e Reuters vêm desempenhando um papel agressivo na demonização de governos que não seguem a cartilha imposta por Washington e Londres.

Um exemplo da cooptação da mídia, incluindo a Al Jazeera, foi revelado em outro vazamento pelo grupo de hackers Anonymous, relatado pelo Grayzone em setembro de 2020. O vazamento expôs a ação de propaganda do FCO do Reino Unido visando angariar apoio para remover Assad do poder na Síria. O mesmo grupo hacker estaria envolvido nos novos vazamentos.

A Reuters se infiltra na mídia russa

A Reuters é o setor de notícias e mídia da Thomson Reuters, a maior agência internacional de multimídia. A empresa privada está sediada em Nova Iorque, e resultou da aquisição da britânica Reuters pela canadense Thomson Corporation.

Em 2017, a Fundação Thomson Reuters submeteu uma proposta formal para participar de um contrato confidencial com o FCO, que envolvia a embaixada britânica em Moscou. Tratava-se de um projeto de capacitação da mídia russa, através de um “programa de visitas temáticas de jornalistas e influenciadores digitais russos” ao Reino Unido. A meta pretendida era de promover nos jornalistas “um impacto positivo na percepção do Reino Unido”.

Em 2019, a Reuters ingressou em programa semelhante, com o objetivo de “conter a narrativa do governo russo e sua dominação da mídia e dos meios de informação”.  O plano do governo britânico era de se infiltrar na mídia russa para propagar sua própria narrativa através dos jornalistas russos treinados no Reino Unido.

A Reuters organizou então mais visitas de jornalistas russos, para promover “os valores políticos e culturais do Reino Unido”.  A Reuters proclama ter influenciado cerca de 400 jornalistas russos através de seus programas de visitas, e de contar com 1.500 jornalistas em sua rede global de influência.

Como parte de suas atividades de desinformação, a Reuters manteve ligações com o canal de televisão Belsat, da Bielorússia. O canal tem base na Polônia e recebe fundos de governos da União Européia. Belsat teve um papel preponderante na promoção dos protestos de maio de 2020 pela saída do presidente Alexander Lukashenko. 

A BBC na campanha de desinformação contra a Rússia

A britânica BBC consiste na maior emissora pública internacional, e se apresenta como imparcial e independente. Através do setor BBC Media Action, a emissora estatal se propôs a participar de um programa secreto do CDMD/FCO britânico, de 2019 a 2022, voltado para conter a influência russa na região Báltica por meio de novos veículos de mídia pretensamente independentes, mas que promoveriam posicionamentos pró-OTAN.

A BBC se interessou em participar de outro programa de propaganda na mídia, com foco na Ucrânia, Moldávia e Geórgia. Seria formado um consórcio, que incluiria a Reuters e uma empresa de inteligência não mais existente, a Atkins Strategy.

A BBC Media Action também propôs desenvolver, junto com a Atkins, um trabalho pró-OTAN na guerra de informação em áreas de conflito, como na região de Donbas, leste da Ucrânia, onde ocorriam choques dos separatistas pró-Rússia com as forças militares do governo apoiado pelo Ocidente.

O Consórcio entre empresas de notícias e de inteligência

Dentre as empresas de inteligência que se inscreveram para participar do Consórcio custeado pelo CDMD/FCO britânico estavam a Albany Communication e a Zinc Network.

Segundo relato de Ben Norton no Grayzone, a Albany já atuara junto a setores de mídia para propagar as narrativas do Ocidente, enquanto OTAN e as monarquias do Golfo Pérsico procuravam forçar uma mudança de regime de na Síria.

A Zinc teve participação anterior em projetos clandestinos de mídia junto a comunidades mulçumanas, tanto no Reino Unido como na Austrália, como parte de estratégias de contraterrorismo. A Zinc buscou apoio para a Mediazone, um veículo de mídia anti-Putin fundado por duas participantes do grupo performático feminista de punk rock, Pussy Riot (assista a performance Reza Punk no vídeo). 

A Zinc se propôs também a reduzir a visibilidade nas buscas no Google, do site RT (ex-Russian Television), apoiado pelo governo russo. O recente vazamento também revelou que a Zinc propusera atuar no Consórcio, para ajudar influenciadores digitais a “desenvolverem estratégias editoriais no YouTube”. O objetivo era o de estabelecer uma rede de YouTubers na Rússia e na Ásia Central, que promovesse de forma camuflada a visão do Reino Unido e dos países da OTAN, enquanto pretendendo atuar na “promoção de valores democráticos e de integridade da mídia”.

Um nome que aparece relacionado aos documentos vazados é o de Vladimir Ashurkov, diretor executivo da Fundação Anti-Corrupção, FBK, capitaneada por Alexei Navalny. Navalny é opositor de Putin e o queridinho da mídia Ocidental, apesar de sua pouca representatividade política na Rússia; ele é também conhecido por seu discurso de ódio e por suas posições racistas e xenófobas (ver artigo no Chacoalhando).

Alexei Navalny é detido durante protesto em Moscou, 2018
Detenção de Alexei Navalny no protesto de maio de 2018 em Moscou \ Foto: TASS/Barcroft Images

Em 2013, Ashurkov foi filmado em encontro com um agente do M16  da inteligência britânica, em que o russo solicita de 10 a 20 milhões de dólares por ano, para modificar o cenário político.  Pouco tempo depois, Ashurkov buscou asilo no Reino Unido.

Em 2018, o nome de Ashurkov apareceu em documentos vazados divulgados pelo Grayzone, em conexão com a rede de influência Integrity Iniciative, ligada ao FCO britânico. O grupo de propaganda clandestina, composto por militares da inteligência, atuava através de influenciadores britânicos na mídia e na política. O objetivo era de estigmatizar ao máximo a Rússia por suas “intenções malignas”, e aumentar as tensões entre o Ocidente e a Rússia.

Outro parceiro da rede da Zinc no Consórcio exposto pelo vazamento de 2021 é o site Bellingcat. O site já havia interagido com Navalny para culpar a inteligência russa pelo envenenamento do opositor de Putin com o gás neurológico Novichok, conforme relatado pelo Grayzone.

Bellingcat esteve envolvido nas eleições na Macedônia do Norte, promovendo o candidato pró-OTAN, que saiu vencedor. A tática empregada incluiu acusar a Rússia de interferência nas eleições na Macedônia. Também participou da campanha de desinformação na Macedônia, o DFRlab, vinculado ao Atlantic Council, entidade que atua de forma obscura na promoção dos interesses norte-americanos. 

O artigo do Grayzone menciona que Bellingcat recebe fundos da NED, National Endowment for Democracy, entidade privada norte-americana, bancada em grande parte pelos partidos Republicano e Democrata. A NED atua na promoção de mudanças de regime político em diversos países, como fez no Brasil no governo Dilma, através da Atlas Network.

Com a veracidade dos documentos vazados plenamente comprovada, ficaram comprometidas as pretensas imparcialidade e independência da BBC e da Reuters. As duas corporações são frequentemente fontes de matérias publicadas em veículos de imprensa em diversos países. Como confiar agora na autenticidade destas matérias? 

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Farsa: TPI isenta britânicos de Crimes de Guerra no Iraque

Por Ruben Rosenthal

A Procuradoria do Tribunal Penal Internacional desconsiderou que as  autoridades britânicas obstruíram as investigações, apesar de diversas denúncias neste sentido constarem do relatório. 

Tropas britânicas no Iraque são acusadas de crimes de guerra
Tropas britânicas atuam em operações militares no Iraque desde 2003 \ Foto: Picture Alliance/PA

O Tribunal Penal Internacional encerrou em dezembro de 2020, o inquérito preliminar que conduzia contra militares britânicos por acusações de crimes de guerra no Iraque. O parecer da procuradora-chefe do TPI, a gambiana Fatou Bensouda, apesar de reconhecer que crimes de guerra foram de fato cometidos, desconsiderou que autoridades do Reino Unido obstruíram as investigações e acobertaram provas que incriminavam os militares.

O Estatuto de Roma, que rege o TPI, estabelece a inadmissibilidade da abertura de indiciamentos pela Corte de Haia quando um país promove os inquéritos internos de forma apropriada. Esta foi a justificativa usada por Bensouda para sustar o processo e que mostrou o caminho para que no futuro, crimes de guerra cometidos pelas grandes potências não sejam punidos.

Só que os procedimentos investigativos conduzidos no Reino Unido consistiram de um simulacro de justiça, uma completa farsa. Coincidentemente, o parecer da procuradora foi proferido no momento em que o governo de Sua Majestade está empenhado na aprovação da Overseas Operations Bill, legislação que protegeria seus militares de serem processados por quaisquer crimes cometidos há mais de cinco anos, incluindo crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

A Procuradoria perdeu a oportunidade de desmentir a narrativa que se consolida cada vez mais, de que o TPI é uma corte de justiça que condena apenas os adversários das potências ocidentais, como líderes e militares africanos. O mesmo ocorreu também com Slobodan Milosevic, ex-presidente da Sérvia, que só foi absolvido anos após sua morte no cárcere.

As acusações de crimes de guerra

As tropas britânicas fizeram parte da coalizão de países do Ocidente que em março de 2003 invadiram e ocuparam o Iraque, na sequência das acusações de que o regime de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa. Entretanto, a existência de tais armas jamais foi comprovada, indicando que a acusação se tratara apenas de um pretexto para a deposição de Saddam e a exploração do petróleo país.

A própria invasão do Iraque poderia ser enquadrada como um crime de guerra que, entretanto, o TPI anteriormente optara por ignorar, sob a alegação de que na ocasião do conflito as guerras de agressão ilegais – sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, não estavam incluídas no Estatuto de Roma como crimes de guerra.

O ex-embaixador britânico e ativista de direitos humanos Craig Murray avalia, no entanto, que “guerras de agressão ilegais” já estavam então bem estabelecidas na lei internacional, tanto que formaram a base do julgamento de Nüremberg em 1945/46.  Assim, não seria necessária a menção específica no Estatuto, para a Corte de Haia abrir procedimentos jurídicos contra os invasores do Iraque. Para Murray, o ex-primeiro-ministro britânico deveria estar preso pela invasão do Iraque. 

Manifestantes com faixa pedem o julgamento de Tony Blair por crimes de guerra no Iraque e Afeganistão
Manifestantes pedem o julgamento de Tony Blair por crimes de guerra, residência de Blair, Londres, 2017 \ Foto: picture-alliance/PA Wire/J.Brady

O Centro Europeu para Direitos Humanos e Constitucionais (ECCHR, na sigla em inglês) submeteu a partir de 2014, vários dossiês com evidências de abusos sistemáticos praticados contra prisioneiros no Iraque pelas forças de ocupação britânicas. Finalmente, em dezembro 2017, a Procuradoria do TPI confirmou em parecer que havia uma base razoável para se acreditar que crimes de guerra haviam sido cometidos no Iraque, incluindo assassinatos, tortura, tratamento cruel e desumano, atentados à dignidade pessoal, estupros e outras formas de violência sexual. O inquérito teria então prosseguimento.

Falta de provas ou acobertamento?

Em julho de 2019 o ECCHR fez nova submissão de documentação, focando nas falhas do Reino Unido em levar adiante processos judiciais internos dos casos de tortura e de outros abusos cometidos por suas tropas. Em novembro de 2019, conforme relatado pela BBC-Brasil, uma investigação conduzida pelo programa Panorama, da BBC, e pelo jornal britânico Sunday Times revelou fortes evidências do envolvimento de tropas britânicas em crimes de guerra no Iraque e no Afeganistão.

As evidências apresentadas vieram do Time de Alegações Históricas do Iraque (IHAT, na sigla em inglês), grupo criado pelo próprio governo britânico para investigar as alegações de torturas e abusos cometidos por suas tropas. O já extinto IHAT era composto por investigadores e ex-investigadores da polícia, polícia militar e da marinha, e se deparou com tentativas de acobertamento de provas pelas autoridades militares e governo.

Em junho de 2020, o diretor do Service Prosecuting Authority (SPA, na sigla em inglês), órgão correspondente ao Ministério Público, comunicou à emissora BBC que apenas um único caso ainda permanecia sob investigação interna, sendo que as demais acusações haviam sido descartadas por falta de provas e pelo “baixo nível das infrações supostamente cometidas pelos militares britânicos”. O SPA é um órgão ligado ao Ministério da Defesa (MoD, na sigla em inglês), e principal autoridade de acusação na justiça britânica para o pessoal em serviço militar. 

O parecer tendencioso do TPI

Em 9 de dezembro de 2020 foram divulgadas as conclusões do inquérito promovido pelo TPI. O relatório de 184 páginas confirmou que centenas de prisioneiros iraquianos, muitos dos quais civis, foram submetidos a abusos de diversas naturezas por soldados britânicos, no período entre 2003 e 2008. Entretanto, segundo Fatou Bensouda, “A Procuradoria não pode concluir que os procedimentos não foram conduzidos pelas autoridades britânicas de forma independente e imparcial….e que as investigações tenham sido inconsistentes com a intenção de trazer os responsáveis à justiça”. Esta foi a justificativa apresentada pelo TPI para não indiciar militares britânicos.

O ex-embaixador Craig Murray, com o seu amplo conhecimento das artimanhas do MoD, percebeu que relatório do TPI fora escrito com a ótica das forças de ocupação. Os iraquianos que resistiram aos invasores são referidos como “insurgentes” no documento da Procuradoria. Murray alerta que em nenhum momento foi apresentado qualquer testemunho feito por vítimas iraquianas. O TPI baseou seu relatório inteiramente em entrevistas realizadas com autoridades britânicas. Nenhuma das 776 notas de pé de página se referem a documentos de origem árabe.

Apesar destas limitações evidentes, o inquérito concluiu que as tropas britânicas foram responsáveis por crimes de guerra em larga escala, tipificados no parágrafo 71 do relatório. No entanto, Murray salienta que nenhum dos crimes para os quais existem boas evidências, em função do trabalho realizado pelo IHAT, resultou em indiciamentos de militares na justiça britânica. As recusas se deram principalmente pela ação do SPA, ao qual o IHAT devia se reportar.

Murray salienta que ocorreram duas exceções, que apenas comprovaram a regra geral de que as autoridades britânicas procuraram a todo custo evitar a condenação de seus militares envolvidos em abusos de direitos humanos. Em uma das circunstâncias, como forma de obter “troféus” de guerra, um soldado fotografou seus colegas cometendo torturas e abusos sexuais contra prisioneiros. Os filmes foram enviados para revelação em uma loja, o que levou o atendente a fazer uma denúncia junto à polícia civil. O outro caso se tratou de uma confissão espontânea feita por um militar que estava com a consciência pesada (parágrafo 250 do relatório), mas seus colegas foram absolvidos.

Estas foram as únicas condenações pela justiça do Reino Unido por crimes de guerra cometidos no Iraque. O ex-embaixador Craig Murray avalia que, ao usar estas exceções como evidências de que o Reino Unido conduzira as investigações de forma apropriada, o TPI agiu de forma tendenciosa. A Procuradoria do Tribunal Penal Internacional desconsiderou que as  autoridades britânicas obstruíram as investigações, apesar de diversas denúncias neste sentido constarem do relatório. 

Obstrução das investigações

No relatório final da Procuradoria consta (parágrafos 380 a 385) que, para os investigadores do IHAT, as investigações não estavam passando para o estágio de formalização de acusações devido a obstruções, que só poderiam resultar de ações das chefias do próprio IHAT e do SPA. O SPA, sendo vinculado ao Ministério da Defesa, não poderia ser realmente imparcial em relação às forças armadas, segundo avaliação da equipe de campo do IHAT.

Diversos relatos vindos do IHAT mencionaram as dificuldades de obter evidências de posse do MoD e da Polícia Militar Real, que obstruíam o acesso aos arquivos. Caixas contendo evidências chegaram a ter a rotulagem trocada para dificultar a localização do material procurado.

Algumas passagens no relatório incluem citações, até mesmo de juízes que presidiram alguns dos casos que chegaram a ser levados à corte marcial, da ausência de depoimentos de testemunhas militares que presenciaram torturas e mortes (parágrafos 217, 219, 228, 331). Prevaleceu o comportamento corporativo de cerrar fileiras em defesa dos companheiros de farda, conforme mencionado nestas citações.

Para o ex-embaixador Craig Murray, não se pode mais argumentar que o TPI seja uma corte de justiça imparcial: “a autoridade moral (do TPI) foi totalmente perdida”, acrescentou.

Em 12 de fevereiro de 2021 foi eleito um novo procurador-chefe do TPI, o advogado britânico Karim Khan. Na nova gestão serão conduzidos, dentre outros, os inquéritos sobre as acusações de cometimento de crimes de guerra no Afeganistão por tropas norte-americanas, militares afegãos e pelo Talibã; de crimes cometidos por Israel e Hamas nos territórios palestinos ocupados; e a investigação das denúncias levantadas contra o presidente Jair Bolsonaro, de ter cometido genocídio e crimes contra a humanidade em território brasileiro.

Resta ver se Karim Khan dará motivos para o ex-embaixador Craig Murray rever sua avaliação de que os pareceres do TPI são favoráveis apenas aos interesses das potências ocidentais. 

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Crise EUA-Irã: general norte-americano fomenta a tensão no Golfo Pérsico

Por Ruben Rosenthal

O general McKenzie se contentará em ser um observador da evolução das negociações entre Estados Unidos e Irã sobre o acordo nuclear ou tentará sabotá-las, com a ajuda de Israel?

General Kenneth McKenzie, Comandante militar do CENTCOM, o Comando Central dos Estados Unidos
General Kenneth McKenzie, Comandante do CENTCOM

Com o intuito de aumentar sua influência e poder no meio militar o general Kenneth Franklin McKenzie Jr., chefe do CENTCOM¹ – Comando Central dos Estados Unidos, procurou acirrar a crise EUA-Irã. O objetivo do general foi trazer de volta o foco militar principal dos EUA para o Golfo Pérsico e Oriente Médio, área de atuação de seu Comando.

Com astúcia ímpar, Frank McKenzie soube usar a mídia, mesmo ao custo de elevar as tensões no Golfo Pérsico a níveis próximos da confrontação militar direta. O risco seria ainda maior caso Israel se aproveitasse de uma crise fabricada artificialmente para acender o pavio, através de um ataque camuflado de falsa bandeira (false flag). A região entraria em conflito bélico, do qual Israel provavelmente não hesitaria em participar, atacando alvos estratégicos iranianos. 

Os líderes iranianos têm sabido responder a provocações, sem deixar a crise escalar a ponto de tornar-se irreversível a deflagração de um confronto generalizado. As retaliações contra os EUA, como após o assassinato do general Soleimani em janeiro de 2020, têm ocorrido no campo da guerra híbrida, sem o envolvimento direto de contingentes iranianos e sim de ações de milícias parceiras, como o Hezbollah. 

Artigo do historiador e jornalista investigativo Gareth Porter² no The Grayzone revela detalhes de como o general McKenzie vem atuando por ambição pessoal, desde que assumiu o comando do CENTCOM em março de 2019. Porter relata como nas últimas semanas do governo Trump, McKenzie fomentou as tensões EUA-Irã, sem que tivessem partido de Teerã ameaças concretas às tropas norte-americanas estacionadas no Oriente Médio. 

Para alcançar seus objetivos o general McKenzie precisava reverter a estratégia de segurança nacional do governo Trump, voltada para a competição com a Rússia e a China, “países que desafiam os interesses, influência e o poder norte-americano”. 

Mais armas e tropas para conter o Irã

Em maio de 2019, o general já recomendava pela volta a uma maior presença de forças dos EUA no Oriente Médio para ajudar na contenção de ameaças iranianas, conforme publicado pelo Wall Street Journal. Além de tropas, foi solicitado o envio do porta-aviões USS Abraham Lincoln, bombardeiros e um sistema antimísseis. O USS Abraham Lincoln permaneceria no Golfo Pérsico até novembro do mesmo ano 

Em junho de 2019, McKenzie declarou à imprensa que “a ameaça representada pelo Irã fora estabilizada…. mas que os perigos permaneciam reais e um ataque poderia ser iminente”. O novo artigo no Wall Street Journal acrescentou que McKenzie estava pretendendo expandir ainda mais o poderio militar estadunidense na região para conter o Irã. 

Em 31 de dezembro, o Hezbollah cometeu um atentado contra o complexo da embaixada dos EUA em Bagdá, em retaliação contra ataques aéreos dos EUA dias antes. Foi exatamente este ataque à embaixada que levou Trump a ordenar a ação que resultou no assassinato do general iraniano Soleimani no início de 2020, e as retaliações subsequentes pelo Irã.

McKenzie tentou manter o máximo de tropas na ocupação no Iraque, com o pretexto do combate ao ISIS. Entretanto, com o assassinato de Soleimani o Iraque pediu a retirada de todas as tropas norte-americanas do país. Ao mesmo tempo, milícias alinhadas com o Irã aumentaram os ataques, inclusive o que foi efetuado com foguetes contra o Campo Taji em 11 de março, e que resultou na morte de dois militares norte-americanos. 

Em 13 de março, Frank McKenzie testemunhou perante um comitê do Senado norte-americano. Quando da audiência, o general já estava por completar 12 meses à frente do CENTCOM. O ataque que ocorrera na véspera da audiência desafiara a noção de que a ameaça representada pelo Irã aos interesses norte-americanos havia sido contida.   

O testemunho foi divulgado pelo setor de mídia do CENTCOM. O general McKenzie apresentou um relatório das ações bélicas realizadas por Teerã ou milícias parceiras contra alvos norte-americanos ou de seus aliados regionais. 

O general foi questionado pelos senadores sobre a incapacidade das 14.000 tropas adicionais enviadas à região em conter o Irã e seus apoiadores, que prosseguiam nos ataques contra alvos norte-americanos e nações aliadas. Cerca de 90.000 tropas se encontravam então sob o controle do Comando Central dos EUA. 

Em resposta, McKenzie declarou que a nível de estado-estado a contenção do Irã fora alcançada. E que, mesmo não havendo então risco iminente de ataques diretos de mísseis vindos do Irã, as ações iranianas continuariam de forma indireta através dos parceiros de Teerã.

No decorrer de 2020, parte das 90.000 tropas sob a jurisdição do Comando Central foram enviadas para a Ásia Oriental ou Europa, conforme relatado por Porter em seu artigo. Esta mudança estava em linha com a prioridade da administração Trump na competição com a China e Rússia, e não mais na “guerra ao terror”.      

Os ataques das milícias contra bases norte-americanas aumentaram entre março e agosto de 2020. Pressionado, McKenzie se viu então obrigado a retirar suas tropas e repassar as bases para o controle do Iraque. Conforme relatado no PODER360, McKenzie anunciou em setembro que o contingente no Iraque seria reduzido de 5.200 para 3.000 militares. Mas também em setembro o porta-aviões USS Nimitz entrou no Golfo Pérsico, o primeiro após a partida do USS Abraham Lincoln.

Em meados de novembro, Trump decidiu reduzir ainda mais as tropas no Afeganistão e Iraque, passando o contingente em cada país para 2.500 militares, conforme relatado por Gareth Porter. McKenzie e seus aliados resolveram  então que chegara a hora de acirrar ainda mais a crise com o Irã, fomentando o temor de que o país estava planejando atacar alvos norte-americanos. 

Cronologia do agravamento das tensões EUA-Irã

16/11/2020: O New York Times publicou que setores militares estavam preocupados com possíveis ataques, coincidindo com o primeiro aniversário da morte de Soleimani em janeiro de 2021. Na ocasião, Trump foi desaconselhado por seus assessores mais próximos a atacar instalações nucleares do Irã, para evitar um conflito em larga escala.

17/11/2020: O Washington Post bateu na mesma tecla do aumento das tensões com Teerã, após novo ataque de milícias pró-Irã contra o complexo da embaixada dos EUA em Bagdá. O artigo cita declarações de um “oficial sênior dos EUA que falou na condição de anonimato”, sobre os riscos de ataques preventivos ao Irã. 

Stratofortress B-52 bombers, Arsenal Plane, and weapons
Fortaleza voadora B-52H, Força Aérea dos EUA \ Foto: sargento técnico Robert J. Horstman

21/11/2020: Um esquadrão com duas fortalezas voadoras B-52 voou para o Golfo Pérsico, tendo como única justificativa por parte do Comando Central dos EUA, a proximidade com o aniversário do assassinato de Soleimani. 

07/12/2020: McKenzie prosseguiu com seu trabalho junto à mídia. Um “oficial sênior, com conhecimento na região” ressaltou a necessidade de um novo esquadrão de caças a jato e a permanência do USS Nimitz na região. A agência Associated Press citou que “um oficial sênior dos EUA, com conhecimento na região”, declarou que o Irã poderia tirar proveito da retirada de tropas do Iraque e do Afeganistão. 

10/12/2020: De forma provocativa, bombardeiros B-52 sobrevoaram o Golfo Pérsico em uma região próxima ao espaço aéreo do Irã, aumentando a tensão entre os dois países. A matéria foi publicada no New York Times com o título: “Para conter ataques iranianos às tropas dos EUA, o Pentágono ordena voos de B-52 ao Oriente Médio”. 

20/12/2020: Ocorreram ataques com foguetes na chamada zona verde da capital iraquiana, que chegaram a atingir o complexo da embaixada norte-americana sem, no entanto, causar vítimas. O site do CENTCOM atribuiu o ataque a grupos de milícias apoiadas pelo Irã. 

21/12/2020: A marinha dos EUA anunciou que o submarino nuclear USS Georgia, que pode levar até 154 mísseis Tomahawk, e dois cruzadores com mísseis guiados atravessaram o estreito de Hormuz, entrando no Golfo Pérsico.  Mais uma vez foi levantada por “oficiais dos EUA” a possibilidade do Irã aproveitar o aniversário do assassinato do general Soleimani para atacar alvos norte-americanos. 

22/12/2020: Na sequência do ataque com foguetes à embaixada dos EUA em Bagdá, Frank Mckenzie procurou o jornalista Luiz Martinez da ABC News. Conforme transcrito no site do CENTCOM, o general declarou que acreditava no risco de ataques por parte de grupos xiitas apoiados pelos iranianos, com a intenção de forçar a saída das tropas norte-americanas do Iraque, mas que o Irã não deseja a guerra com os EUA. 

30/12/2020: O Secretário de Defesa Christopher Miller decidiu não estender a permanência do porta-aviões Nimitz no Golfo Pérsico, desta forma enviando um sinal a Teerã da intenção dos EUA de amainar a crise, segundo a CNN. McKenzie, em posição contrária a de Miller,  vinha pressionando pela não retirada do Nimitz da região.

Entretanto, também em 30 de dezembro bombardeiros B-52 se dirigiram ao Golfo Pérsico, em mais uma demonstração de força pelos Estados Unidos. McKenzie foi enfático ao declarar que “sua intenção era deixar evidente a capacidade de resposta a qualquer agressão dirigida contra os interesses norte-americanos”. 

Ainda segundo a CNN as mensagens conflitantes poderiam refletir divisões internas no Pentágono. Um “oficial sênior da defesa” (não identificado) declarou que “não existe qualquer evidência que sugira a iminência de um ataque pelo Irã”. Já outro “oficial militar sênior”, também não identificado, destacou que “estamos vendo planejamentos (pelos iranianos) que poderão matar vários norte-americanos”. 

General McKenzie consegue que o Secretário de Defesa Christopher Miller reverta sua decisão de retirar o porta-aviões Nimitz do Golfo Pérsico
Tripulantes do porta-aviões Nimitz em momento de contemplação no Golfo Pérsico \ Foto: Mario Tama/Getty Images

03/01/2021: O Pentágono decide que o porta-aviões Nimitz deve permanecer no Golfo Pérsico devido à “ameaça” iraniana. Miller foi forçado a reverter sua decisão, no que representou uma vitória significativa para McKenzie.  

07/01/2021: Ocorre outro sobrevoo de fortalezas B-52 no Golfo, apesar de não terem ocorrido quaisquer incidentes no aniversário do assassinato de Soleimani. Nova vitória de McKenzie sobre o Secretário de Estado Miller. 

14/01/2021: O Pentágono informou que Israel passaria a integrar a estrutura do CENTCOM, saindo do EUCOM, o Comando Europeu dos Estados Unidos, conforme noticiado pelo Wall Street Journal. Agora o CENTCOM não poderia mais alegar desconhecimento quando Israel atacar alvos na Síria e Iraque, analisou o Jerusalem Post Com esta mudança ao final de seu governo, Trump espera prejudicar as negociações sobre o acordo nuclear que Joe Biden anunciou que pretendia retomar.

Biden e o acordo nuclear com o Irã

A administração Biden resolveu que já era hora do Nimitz retornar aos Estados Unidos. No entanto, as missões dos B-52 no Golfo ainda seriam mantidas como demonstração de força, segundo relato no New York Times em 1 de fevereiro. O artigo acrescentou ainda que o especialista Robert Malley será enviado ao Irã para abrir negociações sobre a questão do enriquecimento de urânio e das atuais sanções econômicas.

Esta mudança na política norte-americana desagradou a Israel. O general israelense Aviv Kochavi alertou Biden para não retomar o acordo nuclear, e ao mesmo tempo ordenou que suas forças aumentassem os preparativos para possíveis ações futuras contra o Irã. 

Resta ver como Frank Mckenzie e seus apoiadores no Pentágono irão lidar com a possibilidade de um um alívio nas tensões entre Estados Unidos e Irã que, se concretizado, diminuiria a influência de McKenzie. O general se contentará em ser um observador da evolução das negociações entre Estados Unidos e Irã sobre o acordo nuclear ou tentará sabotá-las, com a ajuda de Israel? 

Notas do autor. 

  1. O CENTCOM está sediado na Base Aérea de MacDill, Flórida. Trata-se de um comando unificado de combate, abrangendo uma área de responsabilidade que inclui a região conhecida como Chifre da África, o Oriente Médio, o Golfo Pérsico, a Ásia Central e partes do Sul da Ásia, em um total de 28 países, com a entrada de Israel.
  2. Gareth Porter recebeu o Prêmio Martha Gellhorn de jornalismo em 2012. 

O autor é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Uma jornada de cem anos sem solidão

Por Ruben Rosenthal

A vitória pessoal começou naquela primeira semana que não consta do registro de nascimento.

Tenente Israel Rosenthal Força Expedicionária Brasileira
Tenente da FEB Israel Rosenthal participa de solenidade

1921. Já não se falava tanto nos horrores da Grande Guerra, que tivera como palco principal o continente  europeu. O país contava então com uma população em torno de 30 milhões, e uma expectativa média de vida ao nascer de 35 anos para os homens. A medicina ainda avançava devagar.

31 de janeiro. Era quase impensável que alguém nascido no início dos anos 20, mesmo em uma metrópole como o Rio de Janeiro, pudesse chegar aos 100 anos de idade. Nas duas primeiras décadas do século o Brasil fora assolado por doenças como a febre amarela, peste bubônica, varíola, tuberculose e ao final da segunda década, pela espanhola.  Em 1921 ainda faltavam sete anos para a descoberta da penicilina, e duas décadas para que seu uso clínico fosse definido em Oxford em 1940, dando origem à era dos antibióticos.

Para o país, a década de 20 representou o começo da transição de um modelo exportador primário com base no café, para o da industrialização voltada para o consumo interno. O rádio foi uma novidade, com o início da radiodifusão no país em 1922. A criança então com nove anos talvez observasse seus pais acompanhando os discursos de Getúlio Vargas, mas é pouco provável que tivesse algum entendimento do que era dito ou mesmo que uma Revolução estava ocorrendo no país em 30. Poucos anos depois, esta mesma criança poderia notar a aflição dos pais ao escutarem as notícias de que o líder nazista Adolf Hitler se tornara chanceler da Alemanha.

As feições do Rio de Janeiro herdadas dos tempos coloniais já haviam mudado substancialmente com as intervenções urbanísticas de Pereira Passos no início do século (1906), dando à capital do país uma aparência moderna. Mas estas reformas também contribuíram para aumentar a segregação da cidade. Até 1930 prosseguiu a remodelação do antigo Centro e desenvolveu-se o vetor na direção sul da cidade.  

No decorrer dos anos 30 o adolescente já poderia se dar conta do desenvolvimento urbano, como também do crescimento das favelas. Faziam sucesso nesta década as músicas O que é que a baiana tem, na voz de Carmen Miranda, Tico-tico no fubá, a marchinha de carnaval As Pastorinhas, Linda morena, Carinhoso, dentre outras.

Os jovens dançavam em clubes ou nas populares gafieiras, como o Elite Club. No final da década de 30 surgiu o Clube Cabiras, que passou a ser um ponto de diversão da juventude judaica. 

Tenente Rosenthal participa da campanha da FEB na Itália, 1945
Tenente Israel Rosenthal, FEB, Itália, 1945

No entanto, aquela despreocupação cedeu lugar à apreensão, quando as consequências do advento do nazi-fascismo no mundo se fizeram sentir. Ao final da década de 30 eclodiu a segunda Grande Guerra, e nos anos seguintes tropas da FEB, a Força Expedicionária Brasileira, foram enviadas para o teatro de operações na Europa para combater o nazi-fascismo.

O jovem tenente nascido em 1921 embarca com seus companheiros para passar por sua inesquecível experiência. Ao regressar ao país em 1945, o pracinha da FEB estará com 24 anos. Os momentos vividos serão sempre lembrados e celebrados. O retorno das tropas apressou o fim da ditadura Vargas.

Na década de 40 despontaram na música nomes como Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Ataulfo Alves, Nelson Gonçalves, Ciro Monteiro e Luiz Gonzaga, com Asa Branca. No Carnaval, Emilinha Borba reinou soberana em 1949, com Chiquita Bacana. Para aquele jovem adulto nascido em 21, era possível usufruir novamente de momentos de plena descontração, namorar, casar e constituir família.

A televisão surge no país em 1950 com a Tupi. Vargas retorna, eleito presidente em 51 e se suicida em 54. Em 58, o Brasil ganha o seu primeiro campeonato mundial de futebol. Eis que desponta Pelé, o Edson Arantes do Nascimento. O principal esporte ainda traria muitas alegrias e tristezas nas décadas seguintes.  Juscelino inaugura Brasília em 1960. Surge a Bossa Nova, na voz e violão de João Gilberto. Militares no poder em 64. Diretas Já. Ayrton Senna. Lula na presidência. Bolsonaro.

Estes foram apenas alguns dos momentos que mexeram com o país, que podem ter sido comemorados, ignorados ou repudiados por alguém nascido em 21. A música já lhe causava estranheza desde o surgimento do Rock & Roll e dos Beatles. Os aparelhos eletrônicos se sofisticaram e seu uso requer esforço da parte do agora idoso nascido em 1921, como no caso de computadores e celulares. A violência aumentou nas ruas do Rio de Janeiro, trazendo também insegurança ao outrora pacato bairro do Catete. 

2021. O ciclo de 100 anos se completa, e uma pandemia mortal como a espanhola voltou a se abater sobre o mundo. Também um novo ciclo de extremismo político se espalhou por vários países, 75 anos após a derrocada do nazi-fascismo.  A expectativa média de vida de um brasileiro que nascer em 2021 será de 77 anos, mas este cidadão poderá ter uma vida bem mais longa e saudável, se os vírus e os extremismos políticos não prevalecerem.

O nosso herói completa agora 100 anos. E chega a esta idade com lucidez e autonomia para desempenhar suas atividades diárias. A jornada não foi solitária, pois dela fizeram parte muitas pessoas. Algumas muito queridas ficaram pelo caminho, enquanto outras foram chegando e estão agora presentes. Os amigos e uma família de filhos, netos, bisnetos e sobrinhos comemoram esta longevidade.