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Ser ou não Ser Antissionista, o Dilema Shakespeariano do Partido Trabalhista do Reino Unido

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“Ser ou não ser, eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias
E, combatendo-o, dar-lhe fim?
(tradução de Millôr Fernandes)

Com a liderança de Jeremy Corbyn, esquerdista convicto e simpatizante da causa de um Estado Palestino, o Partido Trabalhista almeja voltar ao poder nas próximas eleições gerais no Reino Unido. Daí se explica a tentativa desesperada da mídia britânica de denegrir a imagem de Corbyn e do próprio partido, com acusações de antissemitismo.

Os ataques partiram dos movimentos judaicos de direita e da ala “blairista” do partido, com amplo respaldo da mídia, incluindo a rede pública BBC. Cabe lembrar que o Partido Trabalhista vinha sendo dominado internamente há anos pelos “blairistas”, termo usado em referência aos seguidores do ex-primeiro-ministro Tony Blair.  Para alguns, ele  deveria estar preso por crimes contra a humanidade, devido ao seu apoio ativo na invasão do Iraque e pela conivência com atos de tortura extremamente cruéis durante a chamada “guerra contra o terror”, conforme denúncias do ex-embaixador britânico Craig Murray (acesse aqui).

Internamente, o governo Blair representou a garantia da permanência do status quo de privilégios e desigualdades sociais herdados do sistema monárquico.

O ataque contra Corbyn começou de forma sistemática a partir do editorial conjunto intitulado Unidos Resistimos (United we Stand), publicado em 25 de julho na primeira página dos três mais importantes jornais judaicos do Reino Unido, Jewish Chronicle, Jewish News e Jewish Telegraph,  acusando o Partido de mostrar “desconsideração pelos Judeus e por Israel”, e alertando que um governo com a liderança de Corbyn representaria “uma ameaça existencial à vida dos judeus” (The Guardian, acesse aqui). O editorial foi especialmente crítico da decisão do Partido Trabalhista de adotar uma “versão diluída” da definição (e exemplos práticos) de anti-semitismo elaborada originalmente pela IHRA, a Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto. A definição, que data de 2016, estabelece: “Antissemitismo é uma certa percepção dos judeus, que pode ser expressa na forma de ódio a eles. Manifestações físicas ou retóricas de anti-semitismo são direcionadas contra indivíduos, judeus ou não, e/ou suas propriedades, contra instituições comunitárias e locais religiosos”. Embora a Executiva Nacional do Partido Trabalhista aceite a definição, não concordava com quatro dos onze exemplos de comportamento antissemita definidos pela Aliança. 

Em particular, dois destes exemplos estão relacionados à críticas a Israel e são bastante controversos. “É potencialmente antissemita aplicar dois pesos e duas medidas ao requerer de Israel um comportamento que não seja cobrado de outra nação democrática”. Este exemplo tem sido usado para atacar o movimento BDS, de Boicote, Desinvestimento e Sanções, alegando que, se todas as nações que violarem direitos humanos não forem submetidas à sanções, então haveria motivação (de natureza) antissemita para punir apenas a Israel com o BDS. Cabe recordar que o BDS foi calcado no boicote à África do Sul, e ajudou a acabar com o regime de Apartheid. O outro exemplo polêmico, é que “constitui uma forma de antissemitismo declarar que Israel é uma empreendimento (instituição) racista (“racist endeavour”). Este segundo exemplo será abordado mais de uma vez neste artigo.

Alguns membros do próprio trabalhismo juntaram-se às críticas de que Corbyn não se mostrou firme em combater os casos de antissemitismo existentes no partido, chegando mesmo a acusar Corbyn de racista e de antissemita. Muitos jovens judeus que apoiam o Partido Trabalhista em questões sociais se sentem desconcertados com a crise entre o partido e as lideranças judaicas do país. Por outro lado, não se sentiriam confortáveis migrando para o Partido Conservador, que vem sendo acusado de Islamofobia (The Guardian, acesse aqui).

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Protesto de judeus contra Corbyn  

A questão do “antissemitismo no Partido Trabalhista” passou a dominar a mídia do Reino Unido e também de Israel. Mesmo no jornal de esquerda de Israel, Haaretz, foram publicadas críticas à Corbyn (acesse aqui). O jornalista britânico Anshel Pfeffer, que contribui regularmente no Haaretz, escreveu o artigo “Por que o Corbynismo é uma Ameaça aos Judeus do Ocidente”, publicado em 3 de agosto, ressaltando que Corbyn estaria se  recusando a intervir na prejudicial crise interna para tratar do antissemitismo no Partido, contra a opinião de seus próprios aliados. O autor avalia ainda que “por ser Corbyn o único líder de esquerda  radical e verdadeiramente socialista do Ocidente”, existe o risco inerente que “a chegada (do Partido Trabalhista) ao poder nas próximas eleições gerais fará com que sua ideologia (antissemita?) se torne altamente influente por toda a Europa e América”. 

Para os apoiadores das alterações feitas nas normas da IHRA, a preocupação é que alguns dos exemplos estipulados de antissemitismo possam servir para negar aos Palestinos o direito de denunciar a discriminação e as injustiças sofridas. Desde que as diretrizes da IHRA foram adotadas no Reino Unido em dezembro de 2016, mesmo sem ter efeito legal, elas já teriam sido aplicadas para atingir organizações que apoiam os direitos dos Palestinos.

Em artigo publicado no The Guardian em 3 de agosto (acesse aqui), Corbyn se defende, ressaltando “a importância da sociedade britânica multicultural, e da imensa contribuição feita por judeus, homens e mulheres, em todos os aspectos da vida do país, da arte à ciência, indústria e política, na paz e na guerra…….e no movimento trabalhista ao longo da nossa história”. Ele declara: “Em nenhum momento aceito que um governo trabalhista represente ameaça, muito menos existencial à vida dos judeus no país, como três jornais judaicos recentemente publicaram….Mas reconheço que existe um problema real (de antissemitismo), que o partido está procurando resolver”. Corbyn ainda acrescentou: “nos anos 70, alguns na esquerda equivocadamente argumentavam que ‘Sionismo é racismo’. Aquilo estava errado. Mas afirmar agora que ‘Antissionismo é racismo’ também está errado”.

Com a recente aprovação no parlamento Israelense da Lei Básica do Estado-Nação, que torna constitucional a discriminação contra a população não Judaica de Israel, caso a definição e exemplos de práticas antissemitas, conforme definidos pela IHRA, sejam estritamente seguidos, críticas na Inglaterra à esta polêmica legislação podem ser rotuladas de práticas antissemitas. Entretanto, antissemitismo é uma acusação que não pode ser aplicada no caso da Dama inglesa Vivien Duffield, possivelmente a maior benemérita de Israel, que em entrevista ao Haaretz (acesse aqui) declarou “Meu Israel está morto. (Agora) É Apartheid!  Para os ingleses que se recordam da África do Sul, isto (a Lei do Estado-Nação) é a África do Sul. Uma regra para um grupo (étnico) e uma outra para o outro”. Acrescente-se que Dama Duffield está muito distante de poder ser considerada como simpatizante de Corbyn. 

Não são apenas críticas que Corbyn vem recebendo. Em carta publicada no britânico The Guardian, com o título “Parem o julgamento de Corbyn na mídia por antissemitismo”, quarenta acadêmicos seniores condenaram o que consideram ser uma cobertura tendenciosa da questão do antissemitismo (acesse aqui). Os signatários criticaram a omissão da mídia na cobertura das manifestações de judeus em prol de Corbyn, por seu reconhecido histórico anti-racista, salientando que a mídia deveria estar mais preocupada com o crescimento do antissemitismo em países da Europa, como a Hungria. O texto da carta faz uma associação das críticas a Corbyn com o fato dele estar bem posicionado para se tornar o próximo primeiro-ministro do país. Os signatários ressaltam que as fontes de informação a que a mídia britânica recorre consistem de conhecidos opositores de Corbyn.

Outro importante apoio a Corbyn foi a declaração conjunta de quarenta grupos judaicos de 15 países diferentes, condenando as tentativas de abafar críticas às políticas de ocupação (de terras) por Israel com falsas acusações de antissemitismo (The Independent, acesse aqui).

Segundo a declaração, a própria definição de antissemitismo da IHRA, cada vez mais adotada pelos governos do Ocidente, foi elaborada de forma intencional, com o intuito de suprimir a luta pelos direitos dos Palestinos, servindo também para blindar Israel de prestar contas perante as leis internacionais de (violações de) direitos humanos. Nos Estados Unidos a Lei de Conscientização do Antissemitismo teria o mesmo objetivo. Os signatários da declaração consideram ainda que, não apenas a luta por justiça para os Palestinos fica prejudicada ao se rotular de antissemitismo críticas às políticas discriminatórias de Israel, mas também a própria luta contra o (real) antissemitismo.

Em artigo de Ian Almond, escritor britânico especialista em culturas Orientais, publicado na Al Jazeera, é analisado exatamente o perigo de se considerar como  antissemitismo críticas feitas ao Sionismo (acesse aqui).   Ele pondera que o desvio proposital no uso do termo antissemitismo traria o risco de descaracterizar seu significado (ficando com isto agradecidos os reais  antissemitas). O jornalista vê ainda como perturbadores vários aspectos da cobertura pela mídia, pela quase completa ausência de um debate crítico, bem como o posicionamento quase geral dos comentaristas e entrevistados na televisão, de que o antissemitismo é um problema exclusivo do Partido Trabalhista, quando na verdade ele estaria presente em todo o espectro partidário.

A campanha de Israel contra os opositores de sua política para com os Palestinos não poupa nem aos judeus dissidentes. Foi o caso da detenção para interrogatório no aeroporto Ben Gurion, do jornalista americano Peter Beinert, que anteriormente expressara publicamente seu apoio ao boicote de produtos oriundos dos assentamentos judaicos na Cisjordânia ocupada (Haaretz, acesse aqui). O boicote direcionado apenas aos produtos e serviços associados aos assentamentos de colonos judeus considerados ilegais pela ONU, portanto uma ação menos radical que o BDS, também era a proposta do jornalista e ativista israelense Uri Avnery, falecido recentemente aos 94 anos, mas o histórico de décadas de lutas a favor de um Estado Palestino independente e estatura moral de Avnery o colocavam imune a retaliações de Benjamin Netanyahu, o radical primeiro-ministro de direita de Israel. Avnery defendia que o BDS tinha efeito prejudicial à causa palestina exatamente por fortalecer a direita israelense.

A formidável pressão da mídia sobre o Partido Trabalhista resultou,  em 4 de setembro, na aceitação pela Executiva Nacional de todos os exemplos de comportamento antissemita, conforme estipulados pela IHRA. Foi recusado um adendo proposto por Corbyn às definições da IHRA, de que “não deveria ser considerado antissemitismo descrever como racistas a Israel, suas políticas ou as circunstâncias de sua fundação pelo impacto discriminatório que tiveram, ou ainda apoiar um acordo diferente para a solução do conflito Israel-Palestina”.  Foi, no entanto, aprovada a inclusão de uma cláusula assegurando o direito de livre expressão sobre os direitos dos Palestinos.

O professor Colin Shindler, professor da London University, em artigo publicado no jornal Haaretz (acesse aqui), analisou as consequências do adendo proposto por Corbyn, se aprovado. Shindler avalia que, na visão de Corbyn, “Israel nasceu de um ‘empreendimento racista’ que visou expulsar Árabes Palestinos”. Ainda segundo o autor, a implicação é que devido a este ‘pecado original’ na criação, Corbyn consideraria que Israel não tem direito a sua auto-determinação, e que isto teria que ser levado em consideração em um futuro acordo de resolução do conflito.

Como evidência que a crise interna está longe de ser amenizada, a cláusula de liberdade de expressão passou a ser alvo de ataque de alguns grupos trabalhistas ligados a Israel, ainda com respaldo da mídia, por considerarem que ela daria cobertura a manifestações racistas contra os judeus.

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Cartaz espalhado em Londres  acusando Israel de racismo 

Por outro lado, organizações de apoio aos Palestinos criticaram o que consideraram ser um recuo do Partido Trabalhista, aceitar os ditames da IHRA e, em protesto, espalharam por Londres cartazes com os dizeres “Israel é uma Instituição Racista”.  O Labour Party está descobrindo que o preço a pagar poderá ser muito alto para a chegada ao poder. Corbyn precisará resolver seu dilema Shakespeariano: “ceder e sofrer na alma, ou pegar em armas contra o mar de angústias e, combatendo-o, dar-lhe fim”.


 

Netanyahu, Trump e Putin: uma História de Amor

Tradução informal e comentada, do artigo publicado em 8 de abril no Al Jazeera, de autoria do analista sênior, Marwan Bishara. Ruben Rosenthal

Com os resultados finais da eleição para o parlamento de Israel indicando que o partido do atual primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu conseguiu 36 dos 120 assentos, tudo indica que ele será o líder do governo de coalizão da direita. Será seu quinto mandato, caso os problemas de corrupção não o impeçam de assumir. Com ele no poder, pode-se prever que em breve virá a anexação de parte da Cisjordânia. Odiado por muitos, por sua responsabilidade no sofrimento e nas mortes de milhares de palestinos desde que assumiu o governo em 2009, Bibi é reconhecidamente um magistral enxadrista em geopolítica. Marwan Bishara nos explica como atua o polêmico político.

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Podem chamar Netanyahu de trapaceiro e belicista, mas que outro líder pode se gabar de ter conseguido se reunir com Trump e com Putin no prazo tão curto de duas semanas antecedendo eleições gerais. A motivação imediata desta diplomacia foi certamente o ganho eleitoral, mas as implicações estratégicas de sua vitória podem resultar na reconfiguração do Oriente Médio. Breve deverá vir a anexação de partes da Cisjordânia, prometida na campanha eleitoral. E novamente Trump deverá dar seu apoio, e Putin, emprestar seu silêncio. Como isto foi possível?

Netanyahu aproveitou sua ida, em setembro de 2016, à reunião de cúpula anual das Nações Unidas em Nova Iorque, para um primeiro encontro, na Trump Tower, com o então candidato presidencial republicano. Segundo Steve Bannon, então conselheiro de Trump, o novato na política recebeu uma aula do mestre de xadrez da geopolítica mundial, particularmente sobre a importância das relações entre os Estados Unidos e Israel, face às realidades do Oriente Médio.

Netanyahu contribuiu para que Trump pudesse colocar de forma racional seus instintos sobre segurança, imigração, terrorismo, Islã, e mesmo as vantagens de um muro na fronteira (idéia que Trump deve ter aproveitado como sua ‘solução’ para a imigração através da fronteira com o México, N.T.). Mas a grande jogada de Netanyahu foi fazer o foco da conversa convergir para uma fórmula simples: ‘o Irã, e não a Rússia, é o principal inimigo’ de ambos, e que o presidente russo tem uma posição privilegiada na ajuda contra os aiatolás e o Islã radical.  Isto soou como música aos ouvidos de Trump, pois ele já vinha cortejando Putin, para horror de seus detratores em casa e na Europa. Graças a Netanyahu, Trump pôde se municiar de uma doutrina estratégica que envolvia forjar novas alianças e parcerias com lideranças fortes.

A nível pessoal, foi uma aliança tranquila de se estabelecer. Benjamin, Donald e Vladimir realmente pareciam se gostar. Com passados e estilos distintos, eles, no entanto, tem um mesmo perfil. Homens brancos, já de certa idade, adotando estereótipos do macho, nacionalistas1 com um traço de malignidade, os três são personalidades que polarizam. São vistos como enganadores, com um ‘jeitinho’ para agir com impunidade. Não gostam da liberdade de imprensa e de um judiciário independente e ativo.

O principal inimigo em comum do trio é nenhum outro que o ex-presidente americano Barack Obama, e tudo o que ele representava, seja o multiculturalismo, os ideais liberais e uma política externa liberal. Assim que assumiu a presidência, Trump começou a destruir o que Obama construiu no país e no exterior, sem se importar em violar leis e acordos internacionais, saudado por seus dois camaradas e por um número crescente de fãs pelo mundo. Ele deixou o Acordo de Paris e o acordo nuclear com o Irã, além de dar seu apoio incondicional aos mais repressivos regimes no Oriente Médio, dentre outros.  

O trio atraiu e inspirou uma nova cepa de líderes agressivos hiper-nacionalistas1 que veneram o poder, como Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, Abdel Fattah el-Sisi, do Egito, Viktor Orbán2 , da Hungria e Jair Bolsonaro, do Brasil.  Trump e Putin podem ser os líderes do grupo, mas foi Netanyahu,  o entusiástico apoiador desta nova leva de governantes (Haaretz), mostrando sua afinidade com os mesmos, contrariamente ao que se esperaria do líder de uma nação fundada por vítimas de perseguição étnica. 

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Netanyahu e o húngaro Viktor Órban

Os três líderes procuraram substituir o pensamento progressista e o liberalismo pela plutocracia. Mas se o namoro3 dos três foi bem sucedido em gerar uma tendência mundial pelo populismo, por outro lado, não conseguiu produzir relações mais próximas e amigáveis entre os governos russo e norte-americano. Nem Trump nem Netanyahu conseguiram convencer o establishment da política externa americana a abraçar Putin, nem mesmo como forma de conter o Irã. Este país é visto como um ator de nível regional a ser combatido, mas Democratas e Republicanos consideram a Rússia como um perigoso inimigo global.  Isto porque a Rússia de Putin conseguiu retornar ao cenário da geopolítica internacional como um importante participante independente, em geral adversário dos Estados Unidos. Isto se tornou evidente com a intervenção na Ucrânia e na Síria, bem como no envio de tropas para a Venezuela, um desafio direto a Washington no Hemisfério Ocidental.

Esta é a tragédia da política do poder. Embora Trump e Putin pensem de forma semelhante, eles continuarão a competir em um mundo anárquico, mesmo com o risco de guerra. Seus países estão de lados opostos em quase tudo, incluindo guerra cibernética, proliferação nuclear, segurança regional na Europa e Oriente Médio, e, naturalmente, na questão da interferência russa nas eleições americanas. Mas eles concordam sobre Israel, ou pelo menos Putin e Trump concordam, e ambos simpatizam com Netanyahu.

Trump and Putin tiveram uma reunião de cúpula (em Helsinki, julho de 2018, N.T.), que terminou em relativo fracasso4 , além de quatro encontros curtos. Netanyahu teve cinco bem sucedidas reuniões com Trump em dois anos, e treze bem sucedidas reuniões com Putin em quatro anos. O primeiro-ministro persistiu em cultivar relações próximas com Putin, porque a Rússia é a única potência que tem diálogo aberto com cada um dos atores principais no Oriente médio, incluindo o Hamas e o Hezbollah, e mesmo com rivais regionais, como Irã e Arábia Saudita, além de Turquia e Egito.

Netanyahu soube explorar o interesse da Rússia de que Washington voltasse a reconhecer seu status de superpotência e suas áreas de influência, fazendo uso de sua relação especial com Trump, para com isto conseguir concessões de Putin, começando pela Síria. Parecendo rapidamente esquecer do papel de Israel no episódio da derrubada de um avião militar russo com morte de 15 oficiais, Putin concordou em estabelecer um grupo de trabalho com Israel visando a remoção de todas as forças estrangeiras da Síria. O presidente russo também aceitou as constantes violações do espaço aéreo da Síria por Israel e o bombardeamento de alvos iranianos lá.  O Kremlin ainda propôs a Netanyahu que ele mediasse um acordo entre Estados Unidos, Síria e Irã, para a retirada completa de tropas, mas como tal acordo levaria ao fim das sanções contra o Irã, Netanyahu se recusou.

Em algumas ocasiões, a atuação diplomática de Netanyahu se aproximou de um jogo de pôquer, mas que conseguiu obter de Trump o reconhecimento da anexação das Colinas de Golã por Israel, em desrespeito à legislação internacional e à política tradicional do país. Aparentemente, Putin não fez nada e deixou esta questão passar em branco quando se reuniu com Netanyahu.

Se para obter a adesão de Putin um flerte prévio foi necessário, Netanyahu não poderia ter sonhado em melhor parceiro na Casa Branca que Trump. Este abraçou completamente as posições de Israel no Irã, e a ocupação de Jerusalém5 e das Colinas de Golã. Em breve deverá vir a anexação de parte da Cisjordânia, conforme promessa de Netanyahu caso ganhasse as eleições. E novamente Trump deverá dar seu apoio e Putin emprestar seu silêncio. Desta forma o primeiro-ministro de Israel vem conseguindo redefinir as fronteiras e as alianças no Oriente Médio.

Notas do Tradutor

Pequenas modificações foram introduzidas no artigo, sejam explicativas (indicadas por N.T.), ou como forma de tentar agilizar à leitura de um texto longo, incluindo a supressão de algumas partes, sem com isto afetar as opiniões expressas pelo autor. O tradutor apresenta a seguir alguns comentários adicionais, observando-se a correspondência no texto com a numeração sobrescrita. 

  1.  O termo ‘nacionalismo’ pode ter conotações diferentes, dependendo do período e do país. As idéias nacionalistas já estiveram associadas  com teorias racistas no século XX, como na Alemanha (nacional-socialismo), na Itália (fascismo) e no Japão. No artigo, Marwan Bishara se refere a este nacionalismo que, ao exaltar de forma exacerbada os valores da pátria, se afasta do internacionalismo, entendido como uma política de cooperação entre as nações, podendo com isso levar ao xenofobismo.  Após a II Guerra Mundial, o nacionalismo que se manifesta em países do Terceiro Mundo está principalmente relacionado com a luta contra todas as formas neocolonialistas de exploração, embora a exaltação da pátria estava presente no Brasil do ‘ame-o ou deixe-o’, na época da ditadura militar, e reaparece no governo Bolsonaro, por exemplo, quando se exige dos alunos nas escolas públicas e privadas que cantem o hino nacional, ou se afastando da integração regional ao diminuir a prioridade do Mercosul. 
  2. O presidente da Hungria, Viktor Orbán, apoiado entusiasticamente por Netanyahu, é um político da extrema-direita, que defende e representa posições próximas às dos nazistas. Órban se omitiu quanto ao crescimento do antissemitismo no país, e até deu sua contribuição, com as críticas feitas a judeus proeminentes, além das declarações  xenófobas e racistas de seu partido  a refugiados.  
  3. Na tradução foi utilizado o termo ‘namoro’, para definir o relacionamento de Netanyahu com Putin e Trump, em substituição a ‘bromance’, expressão da língua inglesa que une as palavras brother e romance, para expressar  um relacionamento íntimo, não-sexual, entre dois (ou mais) homens.  
  4. Bishara não enumera que objetivos poderiam ter sido alcançados na cimeira de Helsinki para ela haver terminado em ‘relativo fracasso’.  Benjamim Netanyahu saudou as relações de Israel com a Rússia e Estados Unidos, após Trump e Putin declararem no encontro que a segurança do Estado Judaico fora discutida pelos dois presidentes. Do ponto de vista de Israel, as reuniões aparentemente trouxeram bons resultados. Vale lembrar ainda, que foi na cimeira de Helsinki que Trump criticou a comunidade de inteligência norte-americana (CNN), por esta afirmar que a Rússia havia intervindo nas eleição de 2016 que o conduzira à presidência. À esta declaração de Trump apoiando abertamente a Putin, líder de uma nação adversária, seguiu-se intenso bombardeio de críticas da mídia e do Partido Democrata, de Hillary Clinton. Ao final do encontro, ambos os líderes consideraram que a reunião fora ‘bem sucedida’, talvez por ter contribuído para cimentar as relações pessoais entre os dois.
  5. Na questão do expansionismo sionista, o relacionamento pessoal do presidente norte-americano com o líder israelense não deve ter sido decisivo no reconhecimento por Trump, da anexação de Jerusalém por Israel. Tal posicionamento decorreu principalmente das pressões dos evangélicos fundamentalistas (GGN), e do interesse de Trump  nos ganhos eleitorais que poderia obter com o apoio do  lobby evangélico.

 

 

Os Riscos do Lobby Pró-Israel

Poderá ser muito alta para o país, a conta a pagar pelo reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel em troca do apoio de evangélicos conservadores à eleição de Bolsonaro

 

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Muro das Lamentações e Domo da Mesquita de Omar

 

A atuação do movimento sionista levou à partilha decidida pela ONU em 1947 do território conhecido então como Palestina, e ao estabelecimento do Estado de Israel em 1948, sem que no entanto fosse efetivada a criação do Estado Palestino. Centenas de milhares de judeus acorreram para lá, incluindo muitos sobreviventes do Holocausto (estima-se que foram cerca de 600.000 nos três primeiros anos). Paralelamente, milhares de árabes palestinos fogem ou são desalojados e expulsos. Os países árabes não aceitaram a cessão de terras para a formação de Israel, invadindo a país recém formado. Um amplo conflito foi deflagrado, do qual Israel sai vitorioso, tomando cerca de 60% das terras previstas para o estado árabe-palestino. Como resultado da guerra, Israel ocupou o setor ocidental da cidade de Jerusalém, permanecendo a parte oriental, bem como a Cisjordânia, sob controle do reino Hachemita da Jordânia. Pela partilha, Jerusalém deveria ser internacionalizada, pelo caráter  sagrado para as três principais religiões monoteístas. As décadas seguintes foram de guerras, violentos conflitos e animosidade na região.

Com o fracasso do acordo de paz de Oslo de 1993 entre a OLP e Israel seguindo-se ao assassinato do líder israelense Yitzhak Rabin por um extremista judeu em 1995, a ascensão dos governos de direita de Ariel Sharon (2001-2006) e de Benjamin Netanyahu (a partir de 2009) só fez agravar a situação de beligerância na região. A questão do status de Jerusalém e a política de expansão dos assentamentos judaicos em terras da Cisjordânia solaparam a possibilidade de se chegar à solução de ‘Dois Estados’ preconizada pelo acordo de Oslo.

Os mapas da figura mostram a evolução temporal das terras ocupadas por judeus, partindo de umas poucas colônias ainda durante o mandato britânico, o mapa da partilha de 1947 pela ONU (Jerusalém em branco), o da independência do Estado de Israel, já com as terras conquistadas na guerra de 1948, e o mapa em 2000 , que mostra as terras que restavam aos palestinos, como resultado da expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia ocupada. A veracidade deste último mapa não pôde ser confirmada por este blogue, mas a expansão dos assentamentos prossegue até os dias atuais.  O termo ‘bantustão’ é por vezes utilizado pelos mais críticos  de Israel, ao fazer a comparação com o antigo sistema do Apartheid na África do Sul, que, por segurança, confinava a população negra majoritária em regiões dispersas.

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Mais recentemente, o bloqueio asfixiante a Gaza e o ‘abate’ de manifestantes próximos às cercas da fronteira da Faixa geraram imagens que percorreram e chocaram o mundo.  A aprovação da Lei do Estado-Nação em 2018 reforçou as críticas, vindas até mesmo da parte judeus, de Israel ter se tornado um regime de Apartheid, por discriminar contra seus cidadãos não-judeus, principalmente os palestinos (Haaretz).

Os grupos de pressão pró-Israel têm atuado intensamente a nível mundial, buscando atenuar as críticas nos Fóruns Internacionais. Não se trata mais apenas de defender a existência de um ‘lar nacional’ onde os judeus estejam protegidos das perseguições que sofreram por séculos na Europa, da ameaça de vizinhos árabes hostis de empurrar judeus para o mar, e de movimentos extremistas. O poder militar e de dissuasão de Israel garante, atualmente, a sua existência pela força, mas não a paz duradoura. Trata-se, agora, de tentar se contrapor ao crescente movimento internacional pelos direitos do Povo Palestino, e que contribuiu para fortalecer o BDS, o boicote cultural e de bens e serviços, que vem prejudicando a economia e isolando culturalmente o país.

Os  antissionistas, críticos das políticas do expansionistas e dos excessos cometidos por Israel na repressão aos palestinos, passaram a ser indistintamente rotulados de ‘antissemitas’. É  o que vem ocorrendo intensamente na Inglaterra, com acusações  contra parlamentares do Partido Trabalhista (Chacoalhando). A pressão também aumenta contra parlamentares dos Democratas nos Estados Unidos, conforme este partido começa a se alinhar mais com teses simpáticas aos palestinos. Trump aproveitou para acusar os Democratas de serem um partido contra os judeus (Haaretz).

Da mesma forma que nos Estados Unidos, o principal grupo de pressão religioso pró-Israel no Brasil era tradicionalmente constituído por membros proeminentes e entidades da comunidade judaica, pela influência exercida na mídia e nos políticos. A narrativa do Holocausto sempre angariou no passado apoio a Israel na maior parte da mídia do então chamado Ocidente (países da OTAN, essencialmente), apoio este garantido também na época da ‘guerra fria’, por Israel ser considerado como um enclave da civilização ocidental no Oriente Médio, onde a então União Soviética buscava ampliar sua influência sobre os países árabes. E para que pudesse se defender e atuar como ponta de lança dos interesses do Ocidente, Israel recebia, e continua a receber modernos armamentos, além da ajuda econômica das entidades sionistas destes países. O Brasil, tradicionalmente alinhado com os Estados Unidos, não foi exceção.

No período dos governos do PT as políticas expansionistas de Israel não encontraram respaldo, chegando a surgir fortes atritos diplomáticos entre os dois países durante o governo de Dilma Rouseff.  A atuação do lobby judaico no país não era forte o suficiente para alterar o posicionamento dos governos petistas em favor da solução de Dois Estados e de resoluções da ONU contra o reconhecimento da ocupação de territórios obtidos por Israel pela força.

Era de se esperar, portanto, que instituições judaicas conservadores viessem a fazer oposição a qualquer futuro candidato presidencial do PT. Desta forma, apoiaram abertamente a candidatura de Jair Bolsonaro, apesar das amplas manifestações de judeus progressistas, alertando dos riscos que o candidato de extrema-direita representava para a democracia no país. A comunidade judaica ficou dividida, assim como o resto da nação.

menorah bolsonaro

O fortalecimento gradual da influência política dos evangélicos nos últimos anos no Brasil introduziu um novo fator na correlação de forças políticas. Eles passaram a se constituir, recentemente, no principal grupo de pressão pró-Israel no país, seguindo a mesma tendência que já se verificara nos Estados Unidos. Disto se aproveitou Bolsonaro, da mesma forma que Trump já vinha fazendo, para obter apoio político e dividendos eleitorais. Independente do jogo sujo na campanha eleitoral de 2018, pela ampla disseminação de notícias falsas (fake news), a questão do status de Jerusalém teve papel fundamental no apoio dos evangélicos a Bolsonaro, apoio este surpreendentemente fundamentado em uma profecia bíblica milenar.

Conforme cita a Dra. Diana Butler Bass, Ph.D. em estudos religiosos, (CNN), a Bíblia relata que sempre que o reino de Israel estendia suas fronteiras ou seu território de influência política pelas guerras, era pela vontade de Deus. Jerusalém passou a ser o coração espiritual de Israel no tempo do Rei Davi. Para muitos evangélicos conservadores a questão de Jerusalém não é política ou sobre planos de paz com Palestinos. Segundo a Dra. Bass, muitos evangélicos fundamentalistas seguem o chamado ‘pré-milenialismo dispensionalista’. Por esta doutrina, a ‘era da igreja cristã’, iniciada (por Deus) quando os judeus rejeitaram Jesus, terminará em breve. Os judeus serão então redimidos graças ao amor de Deus por eles, passando então por um grande renascimento religioso, quando será reconstruído o templo de Jerusalém.

Em seguida, ainda segundo a profecia, ocorrerá uma série de eventos cataclísmicos, culminando na Batalha de Armagedom, a última guerra da humanidade, com as tropas de Deus sendo lideradas pelo arcanjo Miguel (foto abaixo). Os judeus finalmente aceitarão Jesus como o Messias, seguindo-se o retorno de Jesus em glória e um reino de Deus com mil anos de paz. Todos estes eventos só poderão vir a ocorrer com Jerusalém pertencendo a Israel, daí a motivação dos evangélicos seguidores desta escatologia em ‘dar uma ajudinha’ para apressar o Armagedom.

miguel arcanjo

Originada nos Estados Unidos por volta de 1840 a partir de um pequeno movimento , o ‘dispensionalismo’ se popularizou através de livros best-sellers, se propagando também por meio de seminários teológicos, escolas, filmes, vídeos. Embora a maioria dos cristãos não compartilhe destas idéias, versões desta visão fundamentalista se disseminaram, influenciando por tabela a setores evangélicos no Brasil.

Importantes líderes evangélicos conservadores no país resolveram apoiar a campanha de Jair Bolsonaro à presidência da República, na condição do reconhecimento da mudança da capital de Israel para Jerusalém. Este reconhecimento, mais do que representar apenas outra faceta do atrelamento ideológico de Bolsonaro ao governo Trump, se tratou de uma estratégia do capitão para ganhar apoio eleitoral na significativa comunidade evangélica, e, naturalmente, também na judaica.

Eleito, Bolsonaro precisou logo fazer um recuo no reconhecimento de Jerusalém, pelas ameaças de retaliação econômica de países árabes, deixando insatisfeitas algumas lideranças evangélicas. O pastor Silas Malafaia, da Assembléia de Deus, foi taxativo ao declarar que Bolsonaro terá que cumprir o compromisso de campanha, ou a situação ‘ficará ruim’ para ele (Oglobo). Esta ameaça, mais do que velada, tem respaldo nas bancadas evangélica e da bala, pois a agronegócio (o terceiro B, da bancada BBB) não está nada satisfeito com a perspectiva do boicote  pelo mundo mulçumano. Provavelmente por não ser capaz de cumprir agora a promessa, o governo Bolsonaro rompeu com uma tradição da diplomacia brasileira, ao se posicionar no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas contrariamente à condenação de Israel ‘pelo uso de força ilegal e excessiva contra manifestantes palestinos’, se abstendo ainda em outra resolução contra a expansão das colônias israelenses nos territórios ocupados.

Na visita a Israel que acaba de concluir neste início de abril, Bolsonaro anunciou a abertura de um escritório comercial em Jerusalém, como forma de apaziguar parcialmente a bancada evangélica e, ao mesmo tempo, dando apoio à candidatura de Netanyahu nas eleições gerais de abril. Acompanhado de Netanyahu, Bolsonaro visitou o Muro das Lamentações, na Jerusalém Oriental, setor em que os palestinos pretendiam implantar a capital de seu futuro Estado. O Hamas, que governa a Faixa de Gaza, emitiu de imediato um comunicado, condenando tanto os planos de abertura do escritório como a visita à Jerusalém. Essa política não ajuda a estabilidade e a segurança da região, e ameaça os laços do Brasil com países árabes e muçulmanos’, salientou o comunicado do Hamas.

Continuando a se comportar como um ‘galinho de briga’, o senador Flávio Bolsonaro, ainda colocou mais lenha na fogueira ao mandar mensagem para o Hamas: ‘quero que se explodam’ (Valor). A continuar a política irresponsável nas relações exteriores, o Brasil poderá em breve sofrer retaliações comerciais de nações árabes e islâmicas em geral, bem como aumentará o risco do país se tornar alvo de atentados terroristas perpetrados por extremistas islâmicos. Chegamos a esta situação de risco graças a escatologia adotada pelos evangélicos.

Tudo indica que os setores evangélicos conservadores continuarão a apoiar a expansão territorial de Israel, como a recente anexação das colinas de Golã. Esperemos apenas que não esteja nos planos futuros de Israel alcançar a grandeza dos tempos dos reis Davi e Salomão, quando Damasco foi conquistada e pagava tributo ao reino.

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No mapa dos tempos bíblicos, a área em vermelho representa o território de Israel antes do reinado de Davi. Em laranja, as terras conquistadas por ele, que incluíram Damasco, na Síria, e herdadas por seu filho Salomão. Em amarelo, as regiões com forte influência econômica de Salomão, chegando até o Rio Eufrates.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Brasil Uber Alles, Heil Mein Capitão

Esta é uma história fictícia, com personagens fictícios. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos atuais é uma mera e assustadora coincidência. A narrativa ficcional procurou passar uma visão otimista de que, mesmo descendo ao inferno da barbárie, conseguiremos recuperar o caminho da civilização em quatro anos. Só que na vida nem sempre o final é feliz.

Ano 2022. Uma Assembléia Constituinte foi convocada para estabelecer as bases do recomeço democrático no Brasil, após quatro anos de trevas resultantes da chegada do fascismo ao poder pelas urnas. As esperanças são que, desta vez, o país possa usufruir de um longo período de prosperidade e justiça social.

Quatro anos, que mais pareceram uma eternidade, se passaram desde a eleição presidencial que levou ao poder o capitão Jairo Olson. A campanha para a eleição foi realizada com ampla disseminação de notícias falsas, com o emprego das mesmas estratégias de campanha pela internet que já haviam se mostrado bem sucedidas em levar ao poder governos de extrema-direita em vários países, inclusive no centro do Império. Surgiram denúncias bem embasadas de financiamento ilegal da campanha do capitão promovido por empresas, exatamente com o intuito de propagar notícias falsas por meio das mídias sociais. No entanto, a justiça eleitoral falhou ao não impugnar a candidatura do capitão em face destas denúncias. Nas ruas, o clima foi de intimidação, com ataques a ativistas e apoiadores da campanha do candidato trabalhista, sob o olhar complacente da justiça eleitoral e da polícia militar.

Nos dias que antecederam o segundo turno da eleição ocorreram violentas agressões contra gays e seguidores de cultos afrobrasileiros, uma provável retribuição de alguns seguidores do capitão ao apoio recebido das igrejas neopentecostais, e um sinal do que estaria por vir. Era assustadora a semelhança com a atuação conhecida das hordas fascistas e nazistas na Itália e Alemanha, e que contribuíram para consolidar pelo terror o poder de Mussolini e Hitler. O que se seguiu nestes dois países, na Europa, e em boa parte do mundo nas décadas de 30 e 40 do século 20, parecia, em 2018, fazer parte de uma História esquecida ou não aprendida por muitos. Foi formada uma Frente Democrática em prol do candidato trabalhista, mas, infelizmente, nem todos compreenderam, ou então preferiram ignorar, os riscos representados pela candidatura do capitão Olson.

Neste clima o país foi às urnas. Desde a véspera do pleito, tropas do exército ocuparam ostensivamente as ruas das principais cidades do país e, em prontidão, aguardaram pelo desenrolar do processo eleitoral. Não havia a menor chance para o opositor do capitão Olson vencer as eleições, fosse ele qual fosse.

As tropas dispersaram com eficácia, leia-se extrema violência, os protestos contra as eleições com cartas marcadas. Aquela noite e as seguintes ficaram eternizadas mundialmente como as ‘noites tropicais dos cristais’. Tratava-se de uma referência explícita à infame ‘noite dos cristais’ na Alemanha hitlerista, quando casas, lojas, escolas, sinagogas de judeus foram saqueadas, danificadas e incendiadas, com dezenas de mortos.

Noite dos Cristais, Berlim, 9 de Novembro de 1938

  De fato, com a confirmação da vitória do capitão, hordas fascistas realizaram ataques generalizados aos locais de encontro de homossexuais, centros de cultura e religião de origem africana, e sedes dos partidos de esquerda e mesmo de centro. Nem as tropas do exército nem a polícia intervieram no sentido de impedir o vandalismo e as agressões. Na televisão, nem uma imagem dos ataques foi exibida. No entanto, relatos do ocorrido se espalharam pela internet e na imprensa internacional, através dos correspondentes que vieram cobrir as eleições. Mesmo os jornalistas estrangeiros foram intimidados ao tentar documentar os ataques dos grupos fascistóides. A maioria teve a credencial tomada e foi obrigada a deixar o país imediatamente. Foi o começo do longo período de trevas.

Nas semanas que se seguiram, já não se via nas ruas manifestações de afeto entre pessoas do mesmo sexo. Clubes e locais tradicionais de encontro da comunidade LGBT fecharam, por questão de segurança, após o incêndio criminoso com muitas vítimas ocorrido em São Paulo, atribuído ao recém-formado e temido CCV, o comando de caça aos viados, que passou a atuar em sintonia com o CCC, o comando de caça aos comunistas, que, como um zumbi, ressuscitou dos anos de 1960. As mulheres também evitavam andar desacompanhadas, pois os casos de estupro aumentaram a níveis alarmantes.

Sindicalistas e ativistas que tentaram organizar os trabalhadores para resistir ao rolo compressor de mudanças introduzidas nas leis trabalhistas e na previdência social foram perseguidos, agredidos e presos. Com a maioria que obteve na Câmara e no Senado, a partir do apoio das bancadas constituídas pelo que havia de mais retrógrado no país, até mesmo a escravidão poderia ter voltado a ser legal, se uma proposta tivesse sido então encaminhada neste sentido. Mas um mínimo de aparências precisava ser mantido para o mundo. Em compensação, aprovaram facilmente a mudança na maioridade penal, reduzida para 12 anos de idade. Nos lares, o bicho-papão das histórias contadas para as crianças por suas mães foi substituído pelo ‘capetão’.

O desmatamento cresceu vertiginosamente, gerando em reação, uma campanha internacional das entidades internacionais de preservação da natureza, como WWF e Greepeace, que resultou em amplo boicote à carne brasileira e a produtos agrícolas, exceto quando a procedência fosse efetivamente comprovada como sendo de áreas não desmatadas. Os escritórios no país destas e outras entidades conservacionistas foram depredados e seus apoiadores agredidos. A esta altura o Brasil já havia se tornado um pária na comunidade internacional.

A liberação do porte de armas foi facilmente aprovada pelo Congresso, mas ao contrário do que fora preconizado pelo Capitão Olson durante a campanha eleitoral, a liberação não foi indiscriminada. O exército não viu com bons olhos o acesso generalizado a armas pela população, fosse pelo risco de fortalecer o poder de fogo dos traficantes, mas, também, para não possibilitar que a esquerda pudesse se armar. Falou mais alto a lembrança dos grupos armados que resistiram à tomada do poder pelos militares em 1964. Neste momento prevaleceu a hierarquia militar, o presidente-capitão tendo que aceitar a ordem de seu vice, o general Brandão, apoiado por todo o estado-maior do Exército e das demais Forças.

Foi liberada a venda para os grandes proprietários no campo, o que levou ao acirramento dos conflitos contra os movimentos dos trabalhadores sem terra, enquanto que, nas cidades, apenas os grupos fascistas receberam armas, com a justificativa de que atuariam na defesa do cidadão, contra os ataques de meliantes. Porretes e socos-ingleses foram deixados de lado e substituídos por armas de fogo, levando à formação dos grupos de paramilitares uniformizados, os ‘Paras’, que atacavam aos gritos de ‘Brasil acima de tudo’, slogan da campanha eleitoral do capitão Olson. Uma visão que remetia à SA nazista, a milícia chefiada por Ernst Rohm, capitão do exército alemão. ‘Deutschland uber alles, Alemanha acima de tudo’, foi a trilha sonora do nazismo.

Paramilitar da SA

Os políticos que poderiam ter aderido à frente antifascista quando da eleição presidencial, mas que preferiram optar por uma cômoda ou cúmplice “neutralidade”, se deram conta, tardiamente, do terrível engano que haviam cometido. Depois, tomados pelo medo, já não ousaram se manifestar. Alguns bolsões no judiciário tentaram, sem sucesso, resistir à avalanche do fascismo. Para melhor controlar o STF, o presidente fez o que já havia avisado que faria durante a campanha, ou seja, aumentar o número de vagas de ministros do Supremo, de forma que os indicados fossem pessoas de sua inteira confiança, assim obtendo o total controle das votações. Num último gesto de independência, antes que os novos ministros tomassem posse, o plenário do STF, em histórica votação por 6 a 5, concedeu habeas corpus ao velho e principal líder trabalhista que se encontrava preso há mais de um ano, ainda sem culpa comprovada. Foi também restaurada a presunção de inocência, o que seria revertido como primeiro ato após a posse dos novos Ministros, bem como suspensos todos os habeas corpus. Mas o intervalo de tempo fora suficiente para o líder trabalhista, já com a saúde debilitada, sair discretamente da prisão e procurar proteção na Nunciatura Apostólica. Lideranças políticas e sindicais que haviam recebido ameaças de morte, também optaram por pedir abrigo em embaixadas ou se esconder no interior do país. Alguns deixaram o país pelo Sul, antes do fechamento da fronteira.

Na grande imprensa, os jornalistas independentes foram demitidos para evitar o corte no financiamento proporcionado pelos anúncios publicitários pagos pelo governo. Este foi o caso ocorrido com o respeitado jornalista Juno de Freitas, da Folha do Brasil. Os blogues de oposição ainda conseguiram resistir por alguns meses, mas foram silenciados praticamente sem o uso da violência física, e sim, pela conivência do judiciário na aplicação de vultuosas multas, com o pretexto de indenizações por danos morais a qualquer um que fosse chamado de fascista ou de pertencer a extrema-direita. Em seguida veio o controle quase total da internet, usando a técnica adotada na China, conhecida como o ‘Grande Firewall’, aprofundando ainda mais o país na escuridão. Neste clima se deram as eleições para os governos locais, com resultados amplamente favoráveis ao governo.

A esta altura o setor de turismo já estava fortemente abalado com a drástica diminuição da vinda de turistas internacionais, gerando ociosidade na rede hoteleira, e afetando o comércio em geral. Por outro lado, turistas brasileiros eram hostilizados no exterior, caso manifestassem qualquer simpatia pelo governo fascista ou ostentassem riqueza. O Brasil passou a ser repetidamente criticado nos foros internacionais de direitos humanos, e só não era condenado no Conselho de Segurança da ONU, graças à intervenção dos Estados Unidos.

As Forças Armadas investiram pesado no rearmamento e no treinamento das tropas, e para tanto contaram com a ajuda de Israel. Foi a retribuição ao governo brasileiro pelo reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado Judaico. Os Estados Unidos, embora tivessem visto com bons olhos a ascensão do governo de extrema direita no Brasil, hesitaram, naquele momento, em contribuir efetivamente para fortalecê-lo militarmente, por receio da repetição da experiência anterior com o Iraque de Sadam Hussein, que adotara política expansionista própria, em desobediência ao Império. Tudo bem, enquanto os militares do Brasil ficassem na linha, atuando primordialmente em defesa dos interesses norte-americanos.

Após anos de ressentimento pelas amarras que se seguiram à redemocratização da década de 80, as Forças Armadas finalmente se livraram da tutela civil, que tanto ressentimento lhes causara, e se sentiram novamente poderosas e em condições de exercitar seus músculos fora do território nacional. O trabalho sujo interno ficou por conta dos Paras, liberando as F.A.s para interferir na geopolítica do continente, atuando contra os países do bloco bolivariano. A Venezuela foi o primeiro alvo, como seria de se esperar. Em sessão tumultuada, em que parlamentares dos partidos de esquerda foram agredidos pelos seguranças do Congresso, foi aprovado o envio das tropas, mesmo sem o consentimento pleno dos países membros da OEA. De nada adiantaram os esforços da oposição em tentar impedir aprovação. Na verdade o Congresso só não fora fechado ainda porque a oposição não conseguia ser um obstáculo às ações do governo.

O treinamento para a invasão foi feito tendo como o “inimigo a dominar” os traficantes nos morros e de outras comunidades do Rio de Janeiro, cidade natal do presidente Jairo Olson. Após um trabalho inicial de logística, passou a ser utilizada a artilharia pesada. Prédios de apartamentos próximos foram ocupados e seus moradores desalojados, para permitir a instalação nos terraços de lançadores de obuses. Dos helicópteros foram também lançados projéteis. No entanto, a derrubada de dois helicópteros enfureceu o comandante militar da operação, que ordenou o uso dos esquadrões de caça A-1 da FAB, com bombas guiadas a laser. Este comandante não sabia, naquele momento, que seria futuramente submetido a julgamento em um tribunal internacional de crimes contra a humanidade.

A reação da Igreja Católica foi imediata. Se até então a atuação dos bispos havia sido principalmente no oferecimento de abrigo e esconderijo aos perseguidos pelo regime, em face da proporção das novas barbáries foi solicitada a intervenção do Papa, que o fez de forma enérgica, excomungando de imediato o tal comandante responsável pelo bombardeio, e deixando implícito que o mesmo poderia ser feito com outros líderes do governo seguidores da fé católica. Alguns grupos de Paras atacaram igrejas, mas o governo desta vez precisou atuar para contê-los, pois o agravamento da crise com a Igreja poderia atrapalhar nos planos de intervenção na Venezuela. O treinamento foi dado como concluído.

O governo Bolivariano, apesar de ter logrado infligir baixas aos invasores, não conseguiu resistir às mais numerosas e bem armadas tropas brasileiras, apoiadas na logística pela Colômbia. A entrada dos brasileiros em Caracas foi triunfal, saudados pelos direitistas tradicionalmente golpistas. Os combatentes venezuelanos se retiraram para as montanhas, para de lá organizar a resistência, enquanto as principais lideranças políticas formaram um governo de exílio na Bolívia. Em breve, a própria Bolívia estaria também sendo invadida. Dois anos após a chegada ao poder do fascismo no Brasil, a escuridão parecia se espalhar pela América do Sul, numa repetição dos tristes anos de chumbo que assolaram a América Latina nos anos 70.

Outra repercussão negativa no plano internacional foi a decisão tomada pela cúpula das Forças Armadas de denunciar, em 2020, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, existente desde 1968, ao qual o Brasil, por pressão norte-americana, aderira apenas em 1998. Não houve qualquer reação explícita do governo de direita dos Estados Unidos, mas a Argentina sentiu o baque, e convocou seu embaixador no Brasil para consultas.

Internamente, no entanto, a coesão em torno do governo começava a apresentar as primeiras rachaduras. Se inicialmente uma melhora em alguns setores da economia ajudou para manter uma base de apoio na população de média e alta renda, a diminuição drástica do turismo, o boicote internacional à carne e produtos agrícolas, e o aumento da pobreza com a política salarial draconiana causaram crescente insatisfação. A continuação dos atos de violência cometidos pelos Paras geraram críticas, mesmo que veladas, por setores que haviam ajudado a eleger o capitão. Contribuiu decisivamente para isto a intensa atuação da Igreja Católica, estando em rara sintonia, bispos conservadores, moderados e progressistas. Também os rabinos e líderes evangélicos moderados contribuíram para a progressiva reversão do apoio da população ao governo militarista.

O governo esperava conseguir reverter a perceptível queda em seu apoio obtendo vitórias expressivas no ‘front’ da guerra. Mas a linha de frente começou apresentar revezes. Isto decorreu do apoio de ‘brigadas internacionalistas’ aos resistentes venezuelanos e bolivianos. Não foi de Cuba que vieram os contingentes, o que seria visto como intolerável por parte do governo radical de direita dos Estados Unidos, sujeitando a ilha a uma severa retaliação. A ajuda veio da Confederação das Repúblicas da Inglaterra, Gales e Escócia, que fora constituída em 2021, através de uma sucessão encadeada de eventos épicos.

Com a vitória do Partido Trabalhista, sob a liderança de esquerda de Jeremy Corbyn, nas eleições gerais de 2019 do então Reino Unido, foi autorizada a realização de novo plebiscito na Escócia, que continuava a pleitear sua independência. Dessa vez, a BBC e a mídia não puderam intervir de forma parcial e indevida no processo, como fizeram anteriormente, pois, com a ascensão de Corbyn como primeiro-ministro e da esquerda autêntica do trabalhismo, a mídia fora democratizada como medida prioritária.

Expressiva maioria de votos levou à independência da Escócia após mais de 300 anos de submissão à Londres, sendo a monarquia abolida. O momento foi propício para que o partido nacionalista Plaid Cymru conseguisse a independência para Gales, com opção também pelo sistema republicano. Na Inglaterra, o sentimento antimonarquia sempre esteve presente ao longo dos anos, e só não prevalecia pelo poder da mídia em propagar a velha cantilena dos benefícios do regime monárquico e do culto fantasioso a reis e rainhas, príncipes e princesas. A ‘realeza ficou nua’ sem o apoio da mídia. O vírus republicano se espalhou da Escócia e Gales, e encontrou terreno fértil na Inglaterra para terminar com a mais longeva monarquia do mundo. As três repúblicas da ilha se uniram em uma confederação de iguais. E foi desta confederação, formada em 1921, que em nome do internacionalismo, veio o apoio aos resistentes da Venezuela e Bolívia. Os governos bolivarianos da Venezuela e da Bolívia eram certamente merecedores de críticas, sob vários aspectos, mas a intervenção estrangeira era inaceitável para os verdadeiros democratas.

Ao contrário das gloriosas jornadas das tropas brasileiras que lutaram contra o fascismo na Itália na Segunda Guerra Mundial, desta vez o Brasil estava como o vilão, defendendo a ampliação da dominação da extrema-direita pela América do Sul. O moral das tropas caiu vertiginosamente com os primeiros revezes e a percepção de que, desta vez, não eram elas os ‘mocinhos’. Daí para a recusa em cumprir ordens foi um passo. Seguiu-se um acordo de paz e o regresso das tropas ao Brasil. O acordo incluiu uma maior abertura democrática dos governos bolivarianos.

Da mesma forma que a volta dos ‘pracinhas’ que lutaram contra o fascismo na Itália desestabilizou o governo autoritário de Vargas, também o governo fascista e militarista do presidente Jairo Olson ficou sob pressão com o regresso dos combatentes. Eles que haviam mostrado seu valor e heroísmo em batalha, mas que haviam sido lubridiados pela propaganda fascista. As eleições de 2022 para a presidência da República e Congresso Nacional foram canceladas, pois não havia mais a certeza da vitória. Os protestos de rua começaram a se generalizar e as tropas, desta vez, ficaram nos quartéis, pois os setores legalistas e antifascistas no comando se recusaram a atacar a população.

Restava ao governo recorrer ao poder de fogo dos Paras para reverter sua debacle, e terminar com os protestos de rua que poderiam logo assumir proporções de uma revolta popular sem controle. Mas uma aliança inusitada e estratégica de ativistas e sindicalistas, que haviam buscado refúgio nos morros do Rio de Janeiro, com os traficantes que haviam ficado sujeitos às bombas e mísseis despejados, possibilitou o enfrentamento dos Paras no asfalto das ruas. Os covardes fugiram, e muitos preferiram se livrar das armas para não serem identificados. Em seguida ao Rio, os Paras foram dominados em outras metrópoles.

No começo de 2022 a cúpula do governo de Olson renunciou e deixou o país, com destino ainda ignorado. O mundo respirou aliviado com a derrota do fascismo no Brasil. Seguiu-se o retorno das lideranças que estavam no exílio e a formação de um governo de unidade nacional, com a liderança provisória do candidato trabalhista que concorrera às eleições presidenciais. Já o velho líder preferiu interferir o mínimo possível, para possibilitar a renovação do partido, com a ascensão de novas gerações, com novas idéias. O governo de unidade convocou uma Assembléia Constituinte para rever a legislação introduzida pelo governo fascista e avançar com a democracia. Os trabalhos vão começar na semana que vem e eu estou otimista sobre o futuro.

Hoje cedo estava lembrando daquele terrível dia de 2018, quando foi anunciado o resultado das eleições. Eu me sentia profundamente deprimido, pois não tinha dúvidas sobre o que estava por vir. Me deparei diversas vezes com vizinhos ou com conhecidos, que entusiasticamente celebravam o resultado. Pessoas que eu jamais esperaria que tivessem se deixado levar pelas mentiras e ilusões prometidas, ou que talvez já possuíssem na alma o germe do fascismo. Preferi, na época, nem procurar saber quem, na minha família, aderira, pois temia sofrer uma forte decepção.