Crise na Ucrânia: quem pisca primeiro, Biden ou Putin?

Por Ruben Rosenthal

O risco é que uma guerra possa irromper de forma inadvertida. A história está repleta de exemplos de provocações que saíram de controle.

Xadrez da geopolítica EUA-Rússia
    Xadrez da geopolítica Rússia-Estados Unidos \ Foto: Relatório da Rand Corporation

O Ocidente voltou a acusar a Rússia se estar prestes a invadir a Ucrânia, mas o Kremlin nega que tenha planos de invasão. Segundo a mídia ocidental, um contingente de cerca de 100 mil militares russos está estacionado há várias semanas nas proximidades das fronteiras da Ucrânia. Por seu lado, Moscou continua a exigir que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) cesse sua expansão para países do Leste Europeu.

As denúncias da iminência de uma invasão russa surgiram em 3 de dezembro. Segundo o Washington Post, “a inteligência norte-americana teria descoberto que o Kremlin está planejando uma ofensiva militar em várias frentes para o começo de 2022, envolvendo até 175 mil combatentes”.

Na verdade, a mídia Ocidental vem anunciando a proximidade de uma ação bélica russa desde abril de 2021. Naquela ocasião, o comandante do exército ucraniano, general Ruslan Khomchak, declarou que a Rússia estacionara 28 batalhões de grupos táticos na fronteira, totalizando de 20 a 25 mil militares (BBC News). Mas, ainda em abril, a agência Reuters inflou este número para 100 mil. Em 21 janeiro de 2022 o Financial Times “atualizou” o contingente russo para 106 mil.

Em 24 de janeiro, a OTAN anunciou que seus países-membros estavam colocando as tropas em prontidão e enviando navios e aviões de guerra para o Leste da Europa, pelo receio de uma invasão russa na Ucrânia (Reuters).

Estados Unidos e Reino Unido retiraram parte dos diplomatas da Ucrânia (BBC), ao mesmo tempo em que os EUA anunciaram que haviam colocado em alerta máximo um contingente de 8.500 militares para envio ao leste europeu.

Em 25 de janeiro, a Rússia conduziu manobras militares na Criméia e próximo à Ucrânia. As manobras teriam envolvido a participação de 6 mil militares em exercícios de combate com bombardeiros, sistemas antiaéreos, e navios das frotas do Mar Negro e do Cáspio (Agência France-Presse).

Poucos dias antes (18 de janeiro), ocorreram exercícios militares na Bielorússia, aliada da Rússia, que também faz fronteira com a Ucrânia. As manobras  envolveram sistemas de mísseis russos de defesa S-400 e Pantsir, segundo relato no Financial Times. Novas manobras conjuntas da Rússia com a Bielorússia estão previstas para fevereiro.

O atual recrudescimento da crise já era esperado, do momento em que a Rússia anunciou (17 dez. 2021) que não mais aceitaria que a OTAN prosseguisse em sua contínua expansão na direção da fronteira russa. O Ministério das Relações Exteriores russo pediu garantias por escrito de que a Ucrânia jamais ingressaria na OTAN. A Organização também deveria deixar de promover atividades militares na Ucrânia e em outros países que fazem fronteira com a Rússia (Moscow Times).

No entanto, o Secretário de Estado Antony Blinken declarou em 27 de janeiro de 2022, que Washington não daria tais garantias à Rússia (Folha de São Paulo, New York Times). Para Putin, os EUA estão tentando fazer com que Rússia ataque a Ucrânia, para que então sanções econômicas sejam impostas (BBC News).

Dentre as retaliações planejadas por Washington, caso ocorra uma intervenção militar russa na Ucrânia, estaria aplicar sanções aos títulos públicos russos. Também como retaliação, seria impedido o funcionamento do gasoduto Nord Stream 2, algo que no entanto também prejudicaria a  Alemanha.

Em outra frente de conversações, representantes da França, Alemanha, Rússia e Ucrânia concordaram em manter o acordo de cessar fogo no leste da Ucrânia, entre separatistas do Donbass e o governo central de Kiev (Deutsche-Welle). O enviado do Kremlin, Dmitry Kozak, disse que, “apesar de todas as diferenças nas interpretações, o cessar-fogo precisa ser mantido em linha com os acordos”.  Tratava-se de uma referência aos acordos de Minsk, que foram assinados na Normandia em 2014, pelos representantes dos quatro países.

Histórico da crise: Viktor Yanukovych, eleito presidente da Ucrânia em 2010, adotou com uma posição contrária a um desvantajoso acordo econômico com a União Europeia. O presidente optou então em fazer o acordo com a Rússia, o que desagradou Washington

Sobreveio então a revolução colorida de Maidan, em fevereiro de 2014 – apoiada pelo governo de Barack Obama – que afastou Yanukovych da presidência. Foi então instalado um governo pró-Ocidente em 2014, com a ajuda de grupos neonazistas ucranianos.

Como reação, a população ucraniana de origem russa na Criméia promoveu um referendo, com resultado favorável à anexação da península pela Rússia.  Movimentos separatistas em Luhansk e Donetsk, na região do Donbass no leste da Ucrânia, também defenderam a realização de um referendo, o que levou à confrontação bélica com as tropas de Kiev.

Protocolo de Minsk: As negociações de paz ocorreram na capital da Bielorússia, monitoradas por observadores da OSCE (a Organização para a Segurança e Cooperação Europeia), tendo como garantidores França, Alemanha e Rússia. Pelo acordo de 2015 esperava-se chegar à reconciliação política na Ucrânia através de uma série de etapas que conduziriam a eleições livres, à concessão de autonomia política ao Donbass e ao controle por Kiev da fronteira com a Rússia.

O acordo deveria também incluir uma ampla anistia a todos os envolvidos no conflito, bem como o desmantelamento das organizações paramilitares de extrema direita que participaram do Maidan, e que também se envolveram nos confrontos bélicos. Entretanto, a Ucrânia não implementou quaisquer destas medidas. A OSCE monitora desde então a linha de separação entre as partes beligerantes, mas não tem capacidade militar para intervir.

Região do conflito separatista do Donbass
O mapa mostra as regiões em Luhansk e Donetsk sob controle dos separatistas (região hachurada à direita) e do governo central. 

Um cessar-fogo foi implementado em 27 de julho de 2020, embora escaramuças entre separatistas e tropas do governo tenham ocorrido em algumas ocasiões. Estima-se que, desde o início da guerra, o número de mortes nos confrontos seja de 14 mil. O protocolo de Minsk permanece como base para um acordo futuro.

A expansão da OTAN e o cerco à Rússia

A crise na Ucrânia não pode ser entendida fora do contexto geopolítico que se seguiu ao fim da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, segundo o professor russo Alexander Zhebit1 declarou em entrevista ao programa Agenda Mundo (Parte 1, Parte 2).

“Com a extinção do Pacto de Varsóvia em 1990, a Rússia retirou suas tropas – cerca de 350 mil – da Alemanha e da Europa Oriental, mas o aparato militar da OTAN existente ao final da Guerra Fria não foi desmontado”.

“O equilíbrio estratégico começou a mudar severamente contra a Rússia quando OTAN começou a se expandir, apesar das promessas de líderes ocidentais de que tal expansão não ocorreria”.

“Em 1999 ocorreu a adesão da Polônia, Hungria e República Checa à OTAN. Em 2004, a expansão se deu para a área da antiga União Soviética, chegando às fronteiras da Rússia, com a entrada da Lituânia, Letônia e Estônia na Organização. Na Europa centro-oriental, aderiram Eslovênia, Eslováquia, Bulgária e Romênia”.

Mais países ingressaram na OTAN nos anos seguintes, de forma que atualmente a Organização totaliza 30 estados membros. “Várias adesões se deram com base na “chantagem de que a adesão à OTAN seria uma etapa indispensável para ingressar na União Europeia”, lembra Zhebit.

A OTAN pretende expandir o bloco ainda mais, para incluir Ucrânia e Geórgia. Em uma reunião de cúpula da Organização realizada em 2008 em Bucareste, Romênia, o então presidente norte-americano George Bush propôs que Ucrânia e Geórgia passassem por um processo gradativo de ingresso na OTAN. Na ocasião, prevaleceu a posição contrária defendida pela chanceler Angela Merkel, que argumentou que tal ação iria levar ao aumento da fricção com a Rússia (The Guardian).

Quando a escalada da crise começou em abril de 2021, o analista político Mark Sleboda, norte-americano radicado na Rússia, avaliou que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky estaria interessado em forçar uma intervenção russa, para que o projeto do gasoduto Nord Stream 2 fosse  sustado pela Alemanha. Isso porque, com o gasoduto concluído, a Ucrânia deixaria de receber pagamento pela passagem de suprimentos de gás por seu território, afetando bastante a economia do país.

Alexander Zhebit concorda com Sleboda, acrescentando ainda que “outros membros da União Europeia, como Polônia, Países Bálticos, República Checa e Romênia estariam também interessados em encorajar o agravamento do conflito em Donbass, para induzir a Rússia a alguma ação bélica”.

Entretanto, se esta era a intenção original de Zelensky, o tiro pode ter saído pela culatra, pois o  “pânico” gerado pelo Ocidente está  desestabilizando a economia do país, alertou o presidente ucraniano.

O professor Zhebit mostra como ações dos EUA e da OTAN geraram um clima de histeria : “Desde abril de 2021 vem ocorrendo uma escalada das tensões, causada pela realização de exercícios terrestres e navais no Mar Negro, com a participação da OTAN, inclusive no território ucraniano. A OTAN começou a massificar suas forças nos territórios dos países-membros na Europa Oriental”.

Zhebit associa as provocações da OTAN com as estratégias de guerra híbrida apresentadas no manual de guerra híbrida da Rand Corporation, think tank norte-americano financiado principalmente pelo exército dos EUA. Para os analistas da Rand, a melhor forma de combater a Rússia, seria combalir sua economia, fazendo com que ela se sobrecarregasse com engajamentos militares, que drenariam seus recursos financeiros.

A grande incógnita que se coloca é se a Rússia estaria disposta a enfrentar ameaças econômicas para impedir que a OTAN chegue a suas fronteiras com a Ucrânia.

Para Alexander Zhebit, a Rússia tem feito de tudo para evitar tal desenvolvimento. “Ela está tentando dissuadir a OTAN, advertindo que uma provocação resultaria em conflito. O conflito em si não se transformaria em uma Terceira Guerra Mundial, mas poderia levar a uma nova configuração das forças na Europa e a uma nova guerra fria, mais agressiva”, avalia ele.

“O risco é que uma guerra pode irromper de forma inadvertida. A história está repleta de exemplos de provocações que saíram de controle. Resta ver se o bom senso vai prevalecer em relação a conter o avanço da OTAN para o leste”,  completa Zhebit.

Notas do autor:

1 Alexander Zhebit possui doutorado e livre Docência em História das Relações Internacionais e Política Externa pela Academia Diplomática do Ministério das Relações Exteriores da Rússia. Atualmente, ele é professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Instituto de Relações Internacionais e Defesa.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

2 comentários em “Crise na Ucrânia: quem pisca primeiro, Biden ou Putin?

  1. Prezado Ruben,
    Depois da declaração conjunta da Rússia e da China, ontem, em tom muito firme, acho que quem vai piscar primeiro é o Biden.
    De qualquer forma, creio que os EUA tem, nessa questão, um limite difícil de transpor: uma coisa é fazer a guerra no Sudeste Asiático, onde as pessoas não dão tanto valor à vida (apud general Westmoreland), ou em alguma republiqueta de bananas aqui, no quintal deles, e outra coisa é ter como teatro de operações a Europa, rica, branca, e de olhos azuis.
    De qualquer forma, aguardemos os desdobramentos da nota conjunta de ontem, cujo tom, creio, foi de uma firmeza que talvez poucos esperassem.
    Um abraço

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    1. Caro Antonio, Putin certamente agirá com firmeza em defesa dos interesses da Rússia, que se vê ameaçada pela OTAN. Como você colocou, a aliança com a China é estratégica neste momento.
      Abraço

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