A Turquia move suas peças no xadrez da guerra OTAN-Rússia

Por Ruben Rosenthal

A decisão da Turquia de enviar um navio-sonda para explorar reservas de gás nas proximidades de Chipre pode inflamar a região, e tornar ainda mais conturbado o relacionamento da Turquia com os demais países da OTAN.

Turkish President Recep Tayyip Erdogan poses with Turkey's new drill ship Abdulhamid Han at Tasucu port in the Mediterranean Turkish city of Mersin [Presidential Press Office/Handout via Reuters]
Presidente turco Recip Erdogan no lançamento do navio-sonda Abdulhamid Han, em Mersin / Foto: Imprensa presidencial via Reuters.
 Desde o início da invasão do território ucraniano por tropas russas, a Turquia vem mantendo uma política equilibrada em relação às partes beligerantes, bem como canais de diálogo com Moscou e Kiev. Mas esta estratégia pode ser alterada a favor da Rússia. O recente envio do navio-sonda turco Abdullhamid Han para explorar grandes jazidas de gás nas proximidades de Chipre tem o potencial de inflamar tensões regionais. Caso os Estados Unidos e a União Europeia (UE) se posicionem – como esperado – contra a Turquia, Ancara poderá retaliar, revendo a atual política de equidistância no conflito bélico.

Turquia: neutralidade ou oportunismo?

A Turquia faz parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), mas ao mesmo tempo, desempenha um papel independente. A decisão de Ancara de fechar os estreitos de Bósforo e Dardanelos a navios de guerra limitou a capacidade da marinha russa no Mar Negro, mas também impede que potências da OTAN possam interferir no conflito através de suas marinhas de guerra.

Segundo o analista russo Ivan Timofeev, do think tank russo Valdai Club, a Turquia parece ser um dos principais beneficiários do conflito. Ancara manobra habilmente, beneficiando-se de todos os lados.

A diplomacia turca se opõe à operação militar da Rússia e mostra solidariedade com os aliados da OTAN. Ancara está fornecendo armas à Ucrânia, incluindo drones Bayraktar. Acrescente-se que a Turquia não reconheceu a anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014.

Ao mesmo tempo, Ancara mantém relações construtivas com Moscou, e está desempenhando um importante papel como mediador econômico nas relações entre a Rússia e o Ocidente. O presidente Recep Erdogan recusou-se a implementar as sanções impostas pelo Ocidente contra a Rússia. As empresas turcas estão se preparando para ocupar uma série de nichos que ficaram disponíveis com a retirada de empresas ocidentais do mercado russo. A Turquia demonstrou flexibilidade nas relações financeiras com Moscou, aceitando cartões Mir (versão russa do Visa ou MasterCard). O país está se tornando um centro (hub) único de tráfego.

Esta equidistância pragmática possibilitou que Ancara tentasse desempenhar um papel mediador na resolução do conflito. Embora tais esforços não tenham sido ainda bem sucedidos, a intermediação contribuiu para resolver a questão da exportação dos grãos ucranianos e fortaleceu o status internacional de Ancara. Para o complexo militar-industrial turco, o conflito ampliou o mercado e as oportunidades de mostrar seus equipamentos bélicos em ação.

Exploração das reservas de gás do Mediterrâneo

Mesmo antes da crise energética decorrente do conflito na Ucrânia, as jazidas de gás natural do Mediterrâneo Oriental localizadas nas proximidades da costa de Chipre já atraíam o interesse de empresas petrolíferas, como a norte-americana Exxon Mobile, a francesa Total, e a italiana ENI.

No final da década de 2000, após Israel anunciar a descoberta de jazidas de gás natural na região, o governo de Chipre contratou diversas empresas de energia para iniciarem a prospecção de hidrocarbonetos ao redor da ilha. Em Dezembro de 2011, a empresa norte-americana Noble Energy anunciou a descoberta de “significativos recursos de gás natural”.

Segundo relato da Al Jazeera, em janeiro de 2019 foi constituído o Fórum de Gás do Mediterrâneo Oriental – órgão multinacional sediado no Cairo – reunindo diversos governos, inclusive de Israel e a Autoridade Palestina, mas excluindo a Turquia. Um ano depois, Chipre, Grécia e Israel assinaram um acordo para construir o gasoduto EastMed, de 1.872 quilômetros de comprimento, para transportar gás cipriota offshore para a Grécia e Itália.

Traçado planejado para o gasoduto EastMed
Traçado planejado para o gasoduto EastMed atravessa águas territoriais pretendidas pelos cipriotas turcos (linhas hachuradas)

Para Ancara, qualquer benefício desta exploração também deveria contemplar também os cipriotas turcos, e permanecer dependente das negociações sobre a reunificação da ilha mediadas pela ONU, mas que se encontram em impasse. O Chipre foi dividido na sequência da intervenção militar turca em 1974, entre o Sul cipriota grego e o Norte cipriota turco, que ocupa cerca de um terço do território, mas não é reconhecido pelas Nações Unidas.

No final de 2019, o Congresso dos EUA levantou o embargo de armas ao Chipre e aumentou a ajuda externa à ilha, para demonstrar o apoio à exploração de gás, onde estava envolvida a empresa Exxon Mobil.

Grécia e Turquia estiveram à beira de um confronto militar em agosto e setembro de 2020, depois que a Turquia lançou seu navio de pesquisa sísmica Oruc Reis – acompanhado de uma pequena frota naval – para explorar petróleo e gás em áreas do Mediterrâneo Oriental, que a Grécia reivindica como parte de sua plataforma continental e Zona Econômica Exclusiva. A França anunciou que iria reforçar temporariamente sua presença militar na região em apoio à Grécia.

As tensões aumentaram, até que, sob ameaça de sanções econômicas pela UE, a Turquia interrompeu a exploração do gás em dezembro de 2020. No entanto, o projeto do gasoduto não foi adiante na ocasião por questões de viabilidade econômica. As companhias petrolíferas internacionais estavam sob o impacto dos baixos preços do petróleo e gás e das enormes perdas com a pandemia. O momento era de corte de gastos e não de novos e dispendiosos investimentos.

A crise energética na Europa

Com a guerra na Ucrânia resultando em uma crise energética global, no aumento dos preços do gás natural, e em uma nova política energética pela UE visando acabar o mais rápido possível com a dependência do continente do gás russo, foi reacendido o interesse pelo gasoduto EastMed. Entretanto, os EUA retiraram seu apoio ao projeto em janeiro, citando preocupações com a sustentabilidade técnica e comercial.

Muitos analistas preveem que os níveis de preços internacionais do gás natural permanecerão elevados por um período prolongado, o que poderia fazer do EastMed um investimento lucrativo para as empresas que construírem e operarem o gasoduto, que tem um custo previsto em 6,1 bilhões de euros.

Conforme declaração à Al Jazeera de Ana Maria Jaller-Makarewicz, do Instituto para Economia em Energia e Análise Financeira (IEEFA, na sigla em inglês), “o EastMed pode ser economicamente viável agora, porque os preços da energia são muito altos, mas provavelmente não será a longo prazo”.  Para a especialista em energia, existem opções mais limpas e baratas que estão sendo ignoradas, como reduzir a demanda através das bombas de calor, que podem aquecer ambientes mesmo quando as temperaturas externas estão abaixo de zero graus centígrados.

Havendo ou não interesse da União Europeia em apoiar a construção do gasoduto, a decisão da Turquia de enviar um navio-sonda para explorar reservas de gás nas proximidades de Chipre pode inflamar a região, e tornar ainda mais conturbado o relacionamento da Turquia com os demais países da OTAN. A tentativa de golpe contra Erdogan em 2016 originou uma crise de confiança dos turcos em relação aos Estados Unidos e aos aliados do Ocidente. Por outro lado, o incidente da derrubada de um jato russo pela Turquia em 2015 foi plenamente superado, tanto que Moscou forneceu à Turquia o sistema russo de mísseis de defesa S400, para insatisfação da OTAN.

Erdogan declarou quando da cerimônia de lançamento ao mar do Abdulhamid Han: “O trabalho de pesquisa e perfuração que estamos realizando no Mediterrâneo está sendo conduzido dentro do nosso território soberano. Não precisamos receber permissão ou consentimento de ninguém para isso”.  A Rússia permanece como expectadora do desenrolar desta crise, que poderá auxiliá-la na condução da guerra na Ucrânia.

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

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