Crise no Golfo Pérsico: a confrontação bélica é inevitável ou o círculo vicioso pode ser rompido?

Tradução comentada do artigo “Pompeo’s falsified history of US-Iran provocations”,  do ex-diplomata italiano, Marco Carnelos, publicado no Middle East Eye, em 21 de Junho, por Ruben Rosenthal

Se os Estados Unidos e o Irã quiserem genuinamente poupar a região de um conflito catastrófico, então é essencial o reconhecimento sincero que erros foram cometidos de ambos os lados.

drone derrubado AFP jpeg

 General brigadeiro Hajizadeh examina restos do drone derrubado pelo Irã     Foto AFT 

 

A recente derrubada de um drone norte-americano pelo Irã no Estreito de Hormuz, e a ameaça de Trump de um ataque retaliatório, (mesmo que) seguida da desistência ,  no último minuto, fez aumentar dramaticamente a ameaça de confrontação, na já tensa região do Golfo Pérsico. 

A história das relações Estados Unidos-Irã nas últimas quatro décadas tem sido marcada por uma série de agressões, sem que tenha ocorrido provocação prévia. A recente declaração do secretário de estado  Mike Pompeo, culpando o Irã pelos ataques a petroleiros no Golfo de Omã, se incorporou a este longo histórico, pela versão simplista e tendenciosa dos eventos.

Segundo a declaração, “este é apenas o último de uma série de ataques instigados pela República Islâmica do Irã e seus apoiadores, contra os interesses (norte)americanos e de seus aliados, e devem ser entendidos no contexto de 40 anos de agressões sem provocação (prévia) contra nações amantes da paz”.

No entanto, Pompeo ignorou a mãe de todas as provocações: o abandono do  acordo nuclear pelos Estados Unidos em maio de 2018, seguido do aumento das sanções contra o Irã, e de fortes pressões sobre os aliados e outros países, para se alinharem com esta política.

O resultado, até o momento, é o de uma guerra econômica em grande escala contra o Irã, sem justificativa. Apenas para constar, a Agência Internacional de Energia Atômica não denunciou qualquer violação por Teerã, do acordo nuclear de 2015.

Independente da responsabilidade, ainda incerta, do ataque aos petroleiros (não foram apresentadas até agora quaisquer conclusões independentes), existem aspectos da declaração do secretário Pompeo que parecem intrigantes. A primeira, foi a sua escolha de mencionar o período histórico de quatro décadas; outras duas, são as referências aos interesses dos Estados Unidos e seus aliados, e o alegado amor destes países pela liberdade; e, finalmente, quanto ao uso do termo “sem provocação”.

Por que Pompeo se referiu apenas aos últimos quarenta anos e não voltou um pouco antes? Se fizesse isto, ele se veria compelido a mencionar que o Irã, em 30 de novembro de 1971, invadiu três pequenas ilhas estrategicamente situadas na entrada do Estreito de Hormuz, que deveriam ficar sob a soberania dos Emiratos Árabes Unidos, então recentemente estabelecidos. O ponto em questão, é que este ataque foi ordenado pelo principal aliado de Washington na região, o Xá  Reza Pahlavi, monarca iraniano que assumiu o poder autocrático com a deposição golpista de Mohammad Mosaddegh, primeiro-ministro reformista, democraticamente eleito.

A lista de interesses dos EUA e aliados na região é bem longa: o inabalável apoio a Israel, a luta contra o terrorismo, a paz e estabilidade local, a liberdade de navegação, a proteção aos fornecimentos de energia vindos do Golfo Pérsico, e o apoio aos chamados países árabes moderados.

Surpreendentemente, o Irã até compartilha de alguns destes interesses. Apóia a liberdade de navegação, bem como a livre exportação de recursos energéticos do Golfo Pérsico, naturalmente com a condição de que esta liberdade se aplique a todos. O Irã também proclama que está engajado em combater o terrorismo, como no caso de sua recente campanha militar contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria.

Entretanto, o Irã também representa uma ameaça a alguns outros interesses nos norte-americanos e seus aliados, por sua ideologia revolucionária, que compele o país a apoiar (de acordo com seu entendimento) os povos oprimidos, e lutar contra injustiças.

De acordo com esta ideologia, os palestinos sob ocupação de Israel na Cisjordânia e sitiados em Gaza, e as minorias xiitas em algumas monarquias no Golfo e no Iemen, são vítimas de opressão e injustiça, e merecem ser apoiadas.

Na percepção dos Estados Unidos e aliados, este apoio é visto como uma interferência regional e tentativa de dominar a região, e apoio ao terrorismo.

Já na percepção do Irã, a Guerra com o Iraque em 1980, e as sanções as quais  (há décadas) é submetido, foram sempre consideradas como tentativas do Ocidente e dos países árabes, sem serem provocados, de esmagar a legítima revolução islâmica e mudar seu regime. 

Em sua declaração, Pompeo não especificou a quais nações amantes da liberdade ele se referia, mas é fácil de se imaginar quais sejam. A primeira é, sem dúvida, os Estados Unidos, seguido de Israel, a única democracia no Oriente Médio, de acordo com a orgulhosa retórica de Tel Aviv. “Não está ainda claro se este forte e inquestionável amor pela liberdade que caracteriza os EUA e Israel se estende aos cidadãos palestinos sob ocupação”, ironiza Carnelos. Acrescenta ainda o ex-embaixador: “aparentemente não, com tudo o que se sabe do ‘acordo do século’, que Trump quer impor aos palestinos”.

Por último, mas não menos importante, a circunstância correta para se usar o termo “não provocado” é problemática. Na perspectiva da nação norte-americana, a primeira agressão pelo Irã, sem que este fosse provocado, foi a captura do pessoal da embaixada dos EUA em Teerã, em 1979.

Do ponto de vista da lei internacional, foi sem dúvida um ato ilegal, mas foi realmente um ato sem provocação prévia? Pela perspectiva iraniana, que é temporalmente mais longa, o golpe de 1953 orquestrado pelos EUA contra o primeiro-ministro Mosaddegh foi também ilegal, e contra as leis internacionais. Acrescente-se, ainda, que o golpe levou a uma ditadura brutal do Xá Reza Pahlavi, que durou 25 anos.

Outra agressão não provocada, foi o ataque ao Irã em 1980, pelo falecido presidente iraquiano Saddam Hussein, e o longo e sangrento conflito que se seguiu. O Iraque, que na ocasião não poderia ser chamado de nação amante da paz, foi apoiado durante o conflito pelos Estados Unidos e países árabes, sendo a Síria a única exceção.

Também, a derrubada de um avião civil iraniano em 1988 pela marinha dos EUA, poderia ser considerada, pelo Irã, uma agressão injustificada. Se, como os EUA declarou então, o ocorrido foi um trágico acidente, deveria então ter sido paga compensação, como geralmente ocorre nestes casos, quando estão envolvidas nações democráticas, civilizadas e amantes da paz, como os EUA.

No ano seguinte, o pronunciamento islâmico (fatwa) pelo aiotalá Khomeini, então o líder supremo do Irã, de declarar uma perseguição mortal a Salman Rushdie, escritor britânico de origem indiana pela publicação dos Versos Satânicos, foi considerado um ataque à liberdade de expressão, um dos pilares dos valores do Ocidente.

Infelizmente, nas últimas quatro décadas não cessou este círculo vicioso de ações sem provocação anterior. Uma narrativa histórica da região que seja mais reflexiva (menos reativa) e compartilhada, e o reconhecimento dos erros cometidos por ambos os lados, são requisitos essenciais para qualquer tentativa de melhorar o entendimento entre as partes. Este é único caminho a tomar, se ambos os lados desejam genuinamente poupar a região de um conflito catastrófico.

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Porta-aviões USS Abraham Lincoln no Mar Arábico, em 24 de maio                 Foto Reuters

Marco Carnelos é um ex-diplomata italiano. Recentemente atuou como enviado especial do governo italiano para a Síria, Coordenador do Processo de Paz no Oriente Médio, e embaixador da Itália no Iraque.

Notas do tradutor:

Neste artigo, Carnelos nos brinda em vários momentos com sua fina ironia. Como diplomata, ele permanece acreditando no poder do diálogo para se chegar ao entendimento e à convivência pacífica entre nações, por mais  intolerantes que sejam seus líderes, e  díspares, seus sistemas de governo.

No momento, as principais nações envolvidas na crise do golfo têm governos teocráticos ou sob forte influência de fundamentalistas religiosos ou extremistas. A teocracia em Teerã, o wahabismo extremista da Arábia Saudita, o extremismo (expan)sionista de Netanyahu em Israel, o fundamentalismo evangélico, que elegeu e sustenta Trump, associado à forte influência de John Bolton e Mike Pompeo no governo dos EUA. Apenas para lembrar, Bolton, atual conselheiro de segurança nacional de Trump, chegou a ameaçar de morte o  brasileiro Maurício Bustani (e seus filhos), quando este era diretor geral da APAQ, como forma de forçá-lo a renunciar ao cargo, de forma a facilitar os planos norte-americanos contra o Iraque de Sadam Hussein.

As declarações na manhã do dia 22 de junho, pelo Irã, que “a região será colocada em fogo, se os EUA ou aliados atacarem o Irã “, e a decisão anunciada por Trump, de aplicar sanções econômicas  ao líder supremo,  Ayatollah Ali Khamenei,  indicam que, no momento, é impossível se ter uma resposta para a questão colocada no título do artigo. 

 

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