Privatizando a guerra no Afeganistão: saem as tropas regulares, ficam os mercenários

Por Ruben Rosenthal

O temor do governo norte-americano é que a retirada de todas as tropas do solo afegão possa abrir caminho para o aumento da influência de russos e chineses.

Soldados norte-americanos da infantaria atendem colega ferido
Soldados norte americanos prestam assistência a colega ferido, setembro 2010, Kondoz, norte do Afeganistão \ Foto: Damon Winter/ NYT

Conforme determinação do presidente Joe Biden, em 1 de maio foi iniciada a retirada das tropas de combate norte-americanas da nação afegã. Até 11 de setembro está prevista a total remoção dos atuais efetivos – de 2.500 a 3.500 combatentes, e também do contingente da Otan, de 7.000 militares. Biden teria rejeitado as advertências em contrário de seus conselheiros militares e do Pentágono, que alertaram que a saída poderia resultar no “ressurgimento das ameaças terroristas e em guerra civil”, com o fortalecimento do Talibã. 

Na verdade, o acordo original que havia sido acertado com o Talibã na administração Trump, em 29 de fevereiro de 2020, previa a retirada completa das tropas estrangeiras no prazo de 14 meses após a assinatura do acordo, ou seja, até 1 de maio de 2021. Portanto, Biden não está cumprindo o acordo. Em resposta a esse descumprimento, o Talibã emitiu o seguinte comunicado: “A violação, em princípio, abriu caminho para o Emirado Islâmico do Afeganistão tomar todas as ações que considerar apropriadas contra as forças de ocupação”. 

No entanto, a violação do acordo é ainda mais grave que “apenas” um atraso no cronograma da retirada. Conforme publicado no New York Times, permanecerão no Afeganistão as Forças Especiais de Operação, que atuam de forma clandestina, agentes secretos de inteligência, e mercenários sob contrato do Pentágono.  

Em janeiro deste ano haviam mais de 18.000 mercenários em atuação no Afeganistão, segundo um relatório do Departamento de Defesa dos EUA. A informação que foi divulgada no CovertAction Magazine, um site voltado para expor ações clandestinas de governos norte-americanos, foi originalmente obtida no site Stars and Stripes (Estrelas e Listras, evocando a bandeira dos EUA), voltado para os interesses das forças armadas norte-americanas.  

A estratégia do governo norte-americano é de contratar mercenários através de corporações privadas, como forma de distanciar da população os impactos da guerra nas tropas. Uma das maiores empresas que intermediam na contratação de mercenários é a DynCorp International, de Falls Church, na Virgínia.  

A empresa recebeu mais de 7 bilhões de dólares em contratos com o governo norte-americano, conforme revelado no CovertAction Magazine. Esta vantagem da DynCorp na obtenção dos contratos para as guerras do Afeganistão e Iraque já havia sido relatada em artigo de 2009 da Forbes.   

Evolução da presença militar dos EUA no Afeganistão 

O engajamento militar norte-americano contra o Talibã começou em novembro de 2001, com a chegada de 1.300 combatentes, principalmente marines. No mês anterior, o então presidente George W. Bush bombardeara o Afeganistão em represália pela presença de terroristas da al-Qaida, responsável pelos  atentados de 11 de setembro às torres gêmeas em Nova York, e ao Pentágono. A evolução do engajamento militar norte-americano até o final do segundo governo Obama pode ser acompanhada no Military Times

Soldados norte-americanos em avião de transporte chegam a Mazar-i-Sharif, Afeganistão, abril 2010
Cena que talvez não mais se repita: Soldados norte-americanos chegam ao Afeganistão, abril 2010 \ Foto: Damon Winter/NYT

Em agosto de 2010, o contingente dos EUA em solo afegão alcançou a marca de 100.000. Com a morte de Bin Laden em 2011 no Paquistão, Obama anunciou a diminuição gradativa do efetivo. Em julho de 2016 ele quebra a promessa que fizera de retirar todas as tropas até o final de seu segundo mandato, declarando que manterá 8.400 combatentes, segundo relatou o Washington Post na ocasião.  

Trump também quebrou sua promessa inicial de remover todas as tropas. Em setembro de 2017 ele chegou, inclusive, a anunciar um aumento do efetivo. Ao final de seu governo, permaneceu um contingente de 2.500 a 3.500 norte-americanos nas tropas regulares, segundo relato no DW-Brasil. No entanto, ao assinar o  acordo com o Talibã, em que os EUA concordaram em retirar todas as tropas do país até 1 de maio de 2021, Donald Trump deixou este compromisso para seu sucessor, Joe Biden. Pertence apenas ao campo especulativo, se Trump teria ou não cumprido o que fora acordado, caso tivesse conseguido se reeleger.  

Mas o governo Biden parece não estar disposto a perder o controle sobre o território afegão. Biden procura ganhar tempo com a decisão de transferir o prazo para 11 de setembro, aniversário dos atentados da al-Qaida, mas está em violação do que ficara acordado.  

Embora os Estados Unidos disponham de inúmeras bases aéreas na região do Golfo Pérsico, recorrer ao lançamento de bombardeiros de longo alcance ou a drones armados pode não ser tão efetivo como a presença de tropas em território afegão, menciona o artigo do NYT, citando como fontes, “atuais e ex-funcionários norte-americanos”. A presença clandestina das Forças de Operação Especiais e de mercenários poderia suprir a necessidade de forças regulares presenciais.  

Provincia de Laghman controlada pelo Talibã: duas crianças passam por grupo de elite armado, março 2020
Civis passam por grupo de elite armado, Província de Laghman controlada pelo Talibã, março 2020 \ Foto: Jim Huylebroek / NYT

A importância geopolítica do Afeganistão 

Craig Murray, ex-embaixador do Reino Unido no Uzbequistão – país vizinho ao Afeganistão, compara as motivações dos EUA para dominar o Afeganistão, com os casos das ocupações pela Grã-Bretanha e, posteriormente, pela então União Soviética.  

A primeira ocupação britânica se deu em 1839, sob o pretexto de prevenir uma aliança com a Rússia e a Pérsia (atual Irã), visando a invasão da Índia, então uma possessão britânica. Duas outras intervenções pelos britânicos tiveram a mesma justificativa. 

A invasão soviética em 1979 foi com o intuito de proteger regiões da Ásia Central pertencentes à União Soviética, da difusão do radicalismo islâmico. A ocupação durou 10 anos, e trouxe imenso desgaste à então superpotência, contribuindo para o seu declínio. 

O pretexto dos norte-americanos em invadir e ocupar o Afeganistão foi o de deter ataques de extremistas islâmicos que se encontrariam abrigados no Afeganistão, embora os ataques terroristas de “11 de setembro” estivessem mais relacionados com a Arábia Saudita.   

Murray relata que com a ocupação pelos EUA, disparou a produção de ópio e heroína em solo afegão, com o apoio da CIA. Para manter a ocupação, os EUA precisavam do apoio dos “senhores da guerra” locais, que eram os produtores de heroína.  

Entretanto, segundo Murray, o motivo principal da ocupação original do Afeganistão foi o Gasoduto Trans Afegão, que levaria gás natural das reservas do Turcomenistão para o Paquistão, Índia, e então chegando ao Oceano Índico. Em 1997, foi formado um consórcio de seis empresas, juntamente com o governo do Turcomenistão, para construir o gasoduto de 1.271 quilômetros até o Paquistão. 

A maior participação no consórcio (54%) cabia à Corporação Unocal, sediada na Califórnia. Uma delegação do Talibã iria viajar ao Texas para tratar das negociações, que contariam com a benção do então governador do Texas, George W. Bush.  Com os ataques da al-Qaeda em 1998 contra alvos dos EUA na Tanzânia e no Quênia, o projeto foi engavetado, relata Murray. Na ocasião, Osama Bin Laden estava abrigado no Afeganistão.  Posteriormente, já na presidência do país, Bush invadiu o Afeganistão.  

Recentemente, uma delegação do Talibã fez uma visita ao Turcomenistão para conseguir apoio para a tão planejada e adiada linha de gás natural através do Afeganistão. O Turcomenistão possui a quarta maior reserva de gás natural no mundo, estimada em 19,5 trilhões de metros cúbicos.   

Conforme o relato no CovertAction Magazine, o objetivo almejado pelos EUA atualmente não é mais apenas o controle das linhas de suprimento de combustíveis naquela região da Ásia Central. Em 2007, o Serviço Geológico dos Estados Unidos teria identificado a presença no Afeganistão de minerais no valor estimado de 1 trilhão de dólares, incluindo ferro, cobre, cobalto, ouro e o estratégico lítio, usado em baterias de computadores.   

O temor do governo norte-americano é que a retirada de todas as tropas do solo afegão possa abrir caminho para o aumento da influência de russos e chineses. A China aumentou seus investimentos no Afeganistão, país com o qual faz fronteira, mantendo ao mesmo tempo relações com os rebeldes talibãs. Por seu lado, a Rússia investiu em projetos de moradia e no fornecimento de rifles Kalashnikov ao governo afegão, sem, no entanto, deixar de cortejar o Talibã.  

Mapa do Afeganistão mostrando distritos sob controle do Talibã
Mapa mostra o controle por distrito, março 2021: vermelho escuro- Talibã; cinza- governo central ou indeterminado- cinza; vermelho claro- em contestação \ Fonte: Long War Journal

O Talibã já controla diversas regiões do país. Os Estados Unidos tentam manter no poder o atual presidente Ghani ou substituí-lo por alguém que possam controlar. Por outro lado, nas negociações com o Talibã, as únicas cartas que os norte-americanos podem oferecer em troca da mudança do prazo final da retirada total das tropas são o levantamento das sanções e a libertação de prisioneiros. Mas Cabul não deverá concordar com a libertação de prisioneiros talibãs.   

Finalizando 

Em meio às tragédias de uma guerra, os fotógrafos conseguem captar imagens que impressionam. São registros de importância histórica, retratando tragédias humanas e personagens, anônimos ou famosos, que participaram de formas diversas das ações de guerra e da busca da paz. Mas, por outro lado, conseguindo expressar a arte de onde menos se espera. A guerra do Afeganistão pode ser, em parte, acompanhada através das lentes dos fotógrafos do Washington Post e do The New York Times.

O autor é professor aposentado pela UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.  

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