Os curdos são o bode expiatório ideal para Turquia e Irã

Por Ruben Rosenthal

Tanto a Turquia como o Irã estão passando por períodos difíceis atualmente. Então, dá para entender por que seria do interesse de ambos os países desviar as atenções para um inimigo externo.

Mapa do Curdistão
O Grande Curdistão: regiões em cinco países historicamente habitadas pelo povo curdo \ Arte: BBC/CIA

O texto que se segue foi baseado em artigo de Marc Daou, publicado em 23 de novembro no site France24. Foi mantido o título original, ‘The Kurds are the ‘ideal scapegoat for both Turkey and Iran‘.

Em 20 de novembro a Turquia iniciou uma nova ofensiva contra grupos curdos na Síria, coincidindo com uma campanha aérea promovida pelo Irã contra o Curdistão iraquiano, engajando os curdos em combates nos dois lados da fronteira, em terras que constituem o chamado Grande Curdistão.

As ações da Turquia vêm na sequência do atentado em Istambul de 13 de novembro, que deixou cinco mortos e dezenas de feridos, cuja responsabilidade o governo turco atribuiu ao grupo combatente turco PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e à brigada YPG (Unidades de Proteção do Povo), esta com base na Síria. O PKK negou ter participado do atentado.

Já o governo iraniano responsabiliza os curdos pela incessante onda de protestos que se seguiu à morte da jovem curda Mahsa Amini, em 13 de setembro, enquanto estava sob custódia da “polícia da moralidade” da República Islâmica.

Os curdos sob ataque

A Turquia lançou o que chamou de “Operação Garra-Espada”, bombardeando várias regiões da Síria controladas pelos curdos. Um dos principais alvos atingidos foi a cidade de Kobane, no norte da Síria, que as forças curdas tomaram dos jihadistas do grupo Estado Islâmico em 2015. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, também ameaçou lançar em breve uma ofensiva terrestre no país.

Enquanto isso, o Irã está bombardeou o Curdistão iraquiano – acusando os movimentos curdos de fomentar a onda de protestos em todo o país que abalaram o regime desde que a jovem curda, Mahsa Amini, morreu sob custódia da “polícia da moralidade” da República Islâmica, em 13 de setembro.

A seguir é transcrita a entrevista concedida pelo sociólogo franco-iraquiano, Adel Bakawan, ao veículo de mídia estatal, France24. Bakawan é diretor do CFRI, o Centro Francês de Pesquisa sobre o Iraque, e pesquisador do IFRI, o Instituto Francês de Relações Internacionais.

France24: Os curdos estão sendo atacados tanto pela Turquia, na Síria, como pelo Irã, no norte do Iraque. Os dois países coordenaram suas ofensivas?

Bakawan: “Tanto a Turquia como o Irã estão passando por períodos difíceis atualmente. Então, dá para entender por que seria do interesse de ambos os países desviar as atenções para o inimigo externo. No entanto, não há evidências concretas de que Ancara e Teerã estejam trabalhando de comum acordo, embora isso não possa ser descartado.

A Turquia está atormentada por uma grave crise econômica, e Erdogan não está em uma posição muito confortável, à medida que as eleições presidenciais de junho de 2023 se aproximam. Então ele está em uma posição muito difícil em casa, e no exterior há constantes tensões diplomáticas com o Ocidente.  No que diz respeito ao Irã, o movimento de protesto está abalando a República Islâmica, e não mostra sinais de desaparecer.

Tendo em mente que ambas as nações vêem suas populações curdas como ameaças à integridade territorial, os curdos se tornam o bode expiatório ideal para a Turquia e o Irã, em meio a suas respectivas crises.”

France24: Por que Erdogan está mirando nos curdos na Síria?

Bakawan: “Quanto mais nos aproximarmos das eleições presidenciais do próximo ano, mais Erdogan precisará unir seus apoiadores, apontando um inimigo que ameace a segurança, a estabilidade e a coesão nacional da Turquia. Isso permitirá que ele se apresente ao eleitorado como o salvador da Turquia, desviando a atenção do fraco desempenho da economia em seu governo. Por isso, ele designou um inimigo nos curdos sírios, cujo território é controlado pela afiliada local do PKK, classificado como organização terrorista pela União Européia pelos Estados Unidos, bem como pela Turquia.

Erdogan também está ansioso para fazer uso da crescente insatisfação (da população turca) pela presença de 3 milhões de refugiados sírios na Turquia, e que vem expressando este descontentamento de forma cada vez mais veemente. O presidente turco está tentando tirar proveito eleitoral desta questão. Em particular, Erdogan quer cumprir sua promessa – feita bem antes do ataque de Istambul, que ele está usando para justificar sua atual ofensiva na Síria – de criar uma zona tampão entre a Turquia e os vários territórios no norte da Síria controlados por grupos curdos.

Ao lançar uma ofensiva terrestre na cidade simbólica de Kobane, Erdogan será capaz de criar uma faixa ininterrupta de terra fora das zonas já ocupadas pelo exército turco e aliados. Ele quer enviar refugiados sírios para a parte do norte da Síria atualmente ocupada por curdos.”

France24: O que o Irã está tentando alcançar, atacando alvos curdos no Iraque?

Bakawan: “Apesar da feroz repressão, o governo iraniano não foi capaz de subjugar o movimento de protesto que surgiu em 16 de setembro. A República Islâmica tentou apresentá-lo como tendo origem étnica – uma agitação pela independência em partes do país habitadas pela minoria curda. O regime até tentou alegar que os protestos fazem parte de uma revolta sunita defendida pela Arábia Saudita, países ocidentais e pelo Governo Regional do Curdistão no Iraque (KRG), para desestabilizar o Irã xiita.

As tentativas de apresentar o movimento (curdo) como uma força étnica divisiva falharam porque os protestos ocorrem em todo o país. Não é como se eles estivessem acontecendo apenas em cidades curdas ou baluchi. E os manifestantes tomaram a jovem vítima curda, Mahsa Amini, como um símbolo nacional de sua luta, um ponto de referência unificador para a juventude do país.

Assim, porque a tentativa de semear uma divisão interna falhou, a República Islâmica está olhando para seus inimigos externos – Arábia Saudita, Israel e o Governo Regional do Curdistão. É claro que é mais fácil atacar o Curdistão iraquiano, onde o Partido Democrático Curdo do Irã (KDPI) e o revolucionário Partido Komala do Curdistão Iraniano mantiveram campos nas últimas três décadas. O Irã acusa esses dois grupos de incitar protestos em seu território.

Nos últimos dias, Teerã vem insistindo que o novo governo em Bagdá, dominado por facções pró-iranianas, pressione o KRG a expulsar o KDPI e o Partido Komala do Iraque.

E finalmente – olhando para isso de uma perspectiva cínica – os iranianos sabem perfeitamente que podem atacar o Curdistão iraquiano sem gerar muito protesto, seja de Bagdá ou do Ocidente.”

Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.

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